Para uma análise sociológica da reflexividade individual
Introdução
A mobilização do conceito de reflexividade tem vindo a tornar-se cada vez mais
frequente na produção sociológica das últimas décadas. Esta noção é
frequentemente utilizada para dar conta dos processos de mudança que
caracterizam a modernidade, particularmente nas suas manifestações mais
tardias. Mas à frequência do seu uso não tem correspondido um esforço
equivalente de operacionalização do conceito. Pouco tem sido feito no sentido
de compreender explicitamente a forma como operam os processos mediante os
quais as pessoas reflectem sobre aquilo que as rodeia e o modo como agem com
base em deliberações reflexivas nos diversos contextos sociais por onde se
movem.
O conceito de reflexividade está subjacente a problematizações teóricas que
remontam aos autores fundadores e clássicos da sociologia, particularmente no
que diz respeito à discussão mais alargada sobre a relação entre indivíduo e
sociedade, entre estrutura e agência. Mas, para levar a cabo uma análise que
tome como objecto de estudo a reflexividade, é necessário articular e pensar os
diferentes contributos da história da disciplina à luz daqueles que são os
desafios específicos colocados pelo estudo do conceito.
O objectivo deste artigo passa precisamente por identificar e discutir os
parâmetros teóricos com base nos quais é possível operacionalizar o conceito de
reflexividade, tendo em vista a elaboração de um modelo de análise sociológica
de processos reflexivos ao nível individual. A proposta aqui apresentada, não
sendo a única via de análise desta problemática, reúne os instrumentos
cognitivos e operatórios que se considera serem mais relevantes para a
construção de uma abordagem empírica sobre este problema teórico.
Dualidade e dualismo
Um dos elementos centrais das abordagens teóricas direccionadas para a análise
da reflexividade diz respeito ao modo como a relação entre estrutura e agência
é conceptualizada do ponto de vista ontológico. Ou seja, se ambas são
entendidas como mutuamente exclusivas ou se são antes perspectivadas como
entidades distintas com propriedades específicas. A importância desta questão
prende-se com o facto de a possibilidade de análise da reflexividade ancorar,
em grande medida, no posicionamento que se toma a este respeito.
Os fundamentos da abordagem de Archer (2003a; 2003b; 2007; 2010) são, num
determinado nível, irrefutáveis: é, de facto, necessário conceber
analiticamente uma separação entre estrutura e agência para que se possa
analisar a sua interacção. Estrutura e agência operam em diferentes escalas de
tempo; o primado ontológico das estruturas concretiza-se no facto de os
indivíduos nascerem em enquadramentos estruturais preexistentes. Se determinado
tipo de relações e papéis sociais (como os familiares, por exemplo) preexistem
e sucedem aos indivíduos, então o estatuto ontológico das estruturas não pode
ser redutível ao das pessoas (Brante, 2001: 181).
As estruturas sociais são anteriores, exteriores, autónomas e exercem
influência causal sobre os indivíduos. Mas, para que essa influência seja
exercida, é necessário que os poderes causais das estruturas sejam activados
pelos agentes. Como afirma Archer (2003b: 4-9), para que a acção de
constrangimento ou capacitação estrutural se concretize é necessário que exista
algo sobre o qual actue. O modo como estes poderes causais são activados
depende da forma como as propriedades emergentes das pessoas são mobilizadas.
Neste sentido, a existência de propriedades estruturais é distinta do exercício
dos seus poderes causais.
É precisamente a este nível que o papel da reflexividade deve ser concebido,
como mecanismo que medeia e torna eficaz a influência estrutural (Archer,
2003b; 2007). Mediante o exercício da reflexividade, os sujeitos elaboram
projectos e definem estratégias com base nas circunstâncias sociais em que
estão inseridos e nos recursos a que têm acesso. A resposta aos factores
estruturais é filtrada pelas preocupações, prioridades e objectivos de cada
indivíduo. Nalguns casos, esses factores actuam como constrangimento à
concretização de projectos, noutros como capacitação para realizarem os seus
objectivos.
Os poderes emergentes das pessoas, por sua vez, têm também eficácia causal
sobre as estruturas. A activação dos poderes agenciais dos sujeitos pode
resultar naquilo que Archer (2003a: 79) apelida elaboração estrutural, ou seja,
na transformação das estruturas iniciais.
A conflação entre estrutura e agência torna impossível compreender quais as
propriedades que as caracterizam e quais os efeitos causais que ambas exercem.
Neste sentido, a análise da reflexividade individual tem por pressuposto o
dualismo analítico preconizado pelo realismo crítico.
Isto não implica, contudo, negar a importância dos fundamentos das teorias da
estruturação, como o fez Archer. O dualismo analítico não tem necessariamente
de ser entendido como incompatível com a noção de dualidade da estrutura
proposta por Giddens (2000; 2004). Não tem de o ser por dois motivos.
Desde logo porque as estruturas sociais não devem ser pensadas sempre na sua
componente externa às consciências individuais, no sentido de Durkheim. Uma das
principais fragilidades da proposta de Archer passa, aliás, pela ausência da
vertente de interiorização da exterioridade de que falava Bourdieu (2002;
2003). A influência causal das estruturas, constrangendo ou capacitando os
projectos individuais, faz-se também sentir por via interna. A noção de
disposições permite precisamente dar conta desses processos: o social encontra-
se enraizado nas mentes dos sujeitos sob a forma de esquemas de percepção e
interpretação que orientam a acção.
É aqui que se situa o segundo motivo. Precisamente porque as estruturas assumem
também esta componente interiorizada, a reflexividade não deve ser entendida
como o único mecanismo de mediação entre estrutura e agência. O sentido prático
desempenha um importante papel na definição das condutas humanas (Bourdieu,
2001; 2008). Os indivíduos têm um conhecimento tácito do mundo que lhes permite
agir sem que tenham de reflectir sobre as suas opções ou activar estratégias
assentes na racionalidade.
A combinação das duas ontologias (do dualismo analítico e da dualidade da
estrutura) é mais profícua para a análise das práticas, e da sua componente
reflexiva em particular, do que a escolha unilateral entre as possibilidades de
uma ou de outra. Como argumenta Stones (2001), não se tratando de propostas
teóricas mutuamente exclusivas, a sua articulação permite abarcar um conjunto
de questões e problemáticas mais alargado do que permitiria a eleição de apenas
uma delas.
Embora não se verifique uma incompatibilidade irreconciliável entre a ontologia
proposta pelas duas abordagens, a combinação entre ambas pode também ser
pensada apenas do ponto de vista metodológico, como sugere Mouzelis (2008: 203-
205, 226-227). Para o autor, que propõe a noção alternativa de dualismo
metodológico, é mais importante distinguir metodologicamente estruturas e
actores, evitando a sua conflação, do que estabelecer essa separação ao nível
ontológico. A realidade social deve ser analisada, quer do ponto de vista
interno dos actores, quer sob uma perspectiva externa respeitante às
estruturas.
A análise da reflexão dos sujeitos acerca das suas opções e do seu lugar no
mundo social implica que as estruturas sejam perspectivadas como entidades
externas porque são tomadas como objecto que capacita ou constrange. Mas, por
outro lado, as deliberações reflexivas não assumem em exclusivo o papel de
orientação da acção. Os processos de interiorização das estruturas sociais
permitem desenvolver nos sujeitos um conhecimento prático do real que engendra
acções ajustadas às suas probabilidades objectivas. O que importa reter desta
discussão é que o dualismo e a dualidade se reportam a diferentes componentes
da relação entre estrutura e agência. Como tal, devem ser entendidos como
variáveis (Costa, 1999: 488) e devem ser combinados para que se consiga
elaborar um entendimento mais completo e complexo das práticas sociais.
Acção e agência
Nas diferentes propostas teóricas que se debruçam sobre esta problemática, a
referência à reflexividade surge geralmente associada à conceptualização da
agência humana e integrada, em muitos casos, na discussão sobre a relação entre
estrutura e agência. Contudo, nem sempre é esclarecida a ligação entre estes
conceitos. Acção, agência e reflexividade surgem, muitas vezes, como noções
intermutáveis para designar os mesmos processos sociais, o que potencia alguma
confusão e pouco rigor na utilização destes conceitos. É, por isso, fundamental
compreender como se definem, como se articulam e que lugar ocupam na elaboração
de um modelo de análise da reflexividade individual.
A clarificação destas noções implica transpor duas ambiguidades relativamente
comuns: (1) a conflação entre acção e agência, por um lado, e (2) a oposição
entre estrutura e agência, por outro.
O conceito de agência é geralmente utilizado para dar conta do grau de
liberdade exercido pelos indivíduos face aos seus constrangimentos sociais
(Walsh, 1998: 33; Waters, 2000: 15-16). Reporta-se à capacidade de os actores,
face a uma mesma situação, poderem conscientemente agir de forma diferente,
tendo por referência os seus objectivos e projectos pessoais.
Mas este conceito tem vindo a ser mobilizado no pensamento sociológico de
formas bastante diferentes e muitas vezes pouco precisas (Emirbayer e Mische,
1998: 962). A utilização da agência como sinónimo do conceito de acção é uma
das principais confusões que daí decorrem. A associação entre os dois conceitos
é legítima, já que ambos remetem potencialmente para o nível individual de
análise. Mas esta ligação tem também, muitas vezes, implícita a referência à
criatividade dos sujeitos em contraponto à influência causal das estruturas.
Neste sentido, assumir que os dois conceitos designam as mesmas dinâmicas
sociais significaria admitir que os actores são permanentemente criativos
porque as suas acções derivam sempre da sua capacidade de inovar. Ora, esta
ideia é dificilmente sustentável se se tiver em conta os processos de
reprodução social protagonizados pelos indivíduos. O principal contributo da
teoria disposicionalista é precisamente o de contrabalançar esta noção,
realçando o cariz pré-reflexivo e, num certo sentido, mesmo passivo, de uma
parte substancial das acções individuais (Bourdieu, 2001; 2002; 2003; 2008).
As práticas podem, de facto, assumir diferentes formas. Independentemente das
designações utilizadas para dar conta das suas diversas modalidades, o que
importa salientar é que a acção é composta por elementos racionais,
utilitaristas, interpretativos e estratégicos, mas também práticos, rituais e
pragmáticos. O que significa que a componente agencial é apenas uma dimensão
possível na explicação da acção (Alexander, 1988; 1992; Mouzelis, 2008; Pires,
2007). Os actores não são sempre agentes, no sentido de exercerem a sua
capacidade agencial, assente num conhecimento aprofundado da realidade social.
Falar em criatividade ou passividade nas condutas humanas implica fazê-lo
sempre por referência às estruturas sociais. Diz-se que os indivíduos são
passivos devido a e que têm liberdade face a (ou apesar de). Se a acção
for entendida como contemplando ambas as dimensões, então não faz sentido
pensar as estruturas sociais como entidades que se opõem à capacidade agencial
dos actores. As estruturas constrangem, mas também capacitam e criam condições
de possibilidade para o exercício dos poderes causais das pessoas, nomeadamente
da reflexividade (Archer, 2003a; Giddens, 2004). Não é, por isso, necessário
escolher entre estrutura e agência na compreensão das condutas sociais. Essa
escolha apenas faria sentido se se pretendesse adoptar perspectivas
(excessivamente deterministas ou voluntaristas) que não integram a combinação
dos poderes causais de ambas na explicação do mundo social.
Como afirma Elder-Vass (2010: 87), porque a acção não é determinada pela
estrutura, ainda que seja por ela afectada, não existe qualquer tipo de
inconsistência na análise da agência em articulação com os contextos sociais em
que ela é exercida. A capacidade agencial dos sujeitos não emerge num vazio
social. O exercício da agência é feito através e não em contraponto com o
sistema cultural, no sentido de Alexander (1988; 1998). Até porque a
criatividade e inovação da acção dos sujeitos é atravessada pela dimensão
hierárquica da vida social. Os poderes agenciais dos indivíduos são variáveis
consoante os seus posicionamentos no espaço social, os contextos por onde se
movem e as redes em que se encontram inseridos. O que significa que nem todos
os actores têm necessariamente a mesma possibilidade de serem criativos na
definição das suas condutas sociais (Alexander, 1998: 218; Mouzelis, 2008: 232;
Walsh, 1998: 33).
Contrariar a conflação da acção e da agência, por um lado, e a oposição entre
estrutura e agência, por outro, permite melhor compreender que conexões se
estabelecem entre estes conceitos diferentes, embora interconectados. A
reflexividade surge habitualmente mais conotada com a agência. De facto, pode
ser pensada, num determinado nível, como forma de exercício da capacidade
agencial dos sujeitos, no sentido em que os indivíduos se pensam a si mesmos
por referência às suas circunstâncias sociais e tomam as estruturas como
objecto, podendo ponderar diferentes opções e conceber trajectos alternativos.
Mas é importante destacar que reflexividade e agência não são sinónimos. Embora
seja uma possibilidade, dos processos reflexivos não resulta sempre o exercício
da capacidade agencial dos sujeitos. A reflexividade não origina
necessariamente criatividade e inovação na acção: pode não só resultar em
reprodução, como nem sequer dar origem a qualquer tipo de conduta. O que
resulta do exercício da reflexividade depende sempre da articulação entre
factores estruturais, contextuais e pessoais. Para compreender a relação entre
reflexividade e agência é, por isso, necessário ter em conta quais as condições
sociais de possibilidade que permitem que as deliberações reflexivas se
transformem em acção criativa.
Subjectividade, consciência, reflexividade
Ao conceito de reflexividade surge geralmente associado um conjunto de
conceitos-satélite, como as noções de subjectividade, cognição, pensamento,
consciência, mente e vida interior. Não se tratando de sinónimos dos processos
reflexivos dos sujeitos, são sobretudo concepções de enquadramento, que
constituem o espaço onde decorrem as deliberações reflexivas de cada indivíduo.
A este respeito é importante esclarecer um conjunto de noções:
§ A vida interior de cada sujeito encontra-se localizada na sua mente. É nesse
espaço de interioridade que decorrem as conversas internas e os processos
reflexivos. Apenas nesse sentido surge a referência à mente individual. Não
importa, num contexto de análise sociológica, compreender os mecanismos
biológicos do cérebro que contribuem para a sua constituição. Interessa
fundamentalmente conceber a vida interior dos sujeitos na sua relação com a
realidade social exterior na definição de um espaço de privacidade mental onde
decorrem processos reflexivos.
§ É através das conversas internas (Archer, 2003b; 2007) que a reflexividade é
exercida. Os sujeitos mantêm diálogos consigo mesmos, nas suas mentes, mediante
os quais estabelecem objectivos, definem prioridades, ponderam opções e
dificuldades e elaboram projectos. Tal como Archer (2003b: 21-34) defende, a
noção de diálogo é mais pertinente do ponto de vista analítico para dar conta
destas dinâmicas do que a de introspecção, na medida em que permite conceber os
indivíduos como agentes activos no seu espaço interior. Os sujeitos não são
meros observantes da sua vida interna; são participantes centrais na sua
constituição.
§ A noção de subjectividade tem vindo a ser associada, sobretudo pela tradição
weberiana, ao sentido atribuído pelos sujeitos às suas acções e à realidade
social em geral. É habitualmente utilizada para designar o espaço pessoal dos
indivíduos, a que só os próprios sujeitos têm acesso. É neste lugar de
individualidade e singularidade que decorrem as conversas internas. As duas
noções podem, aliás, ser pensadas conjuntamente. Os diálogos interiores são
subjectivos porque vividos na primeira pessoa e, nesse sentido, dizem apenas
respeito ao sujeito. A subjectividade, por sua vez, assume a forma de conversas
internas porque é através desses diálogos consigo mesmas que as pessoas definem
os parâmetros do seu espaço de privacidade mental.
§ Os diálogos internos em que o sujeito se toma como objecto são processos
mentais, privados, conscientes, sem que tenham necessariamente qualquer tipo de
manifestação externa. São expressos por elementos linguísticos, mas também por
imagens e símbolos. A reflexividade é ainda alimentada, como afirma Pinto
(2008: 200), por um conjunto articulado de saberes, competências, referência a
valores, disposições éticas e juízos morais, gostos, investimentos afectivos,
expectativas, aspirações e projectos, representações e pulsões identitárias. A
este nível as emoções, enquanto componente fulcral da vida interior dos
sujeitos, podem desempenhar um papel importante. Se as mesmas forem entendidas
como comentários às preocupações individuais, que expressam a importância dos
diferentes tipos de situação para os indivíduos, desencadeiam reflexões acerca
do que os sujeitos sentem e das respostas emocionais das outras pessoas
(Archer, 2007; Holmes, 2010; Rosenberg, 1990; Sayer, 2010). As emoções podem
também, por outro lado, conduzir directamente à acção, sem suscitarem qualquer
tipo de deliberação reflexiva: os indivíduos agem sem cálculo consciente em
resposta ao que sentem no momento imediato.
§ A cognição é o que permite aos indivíduos conhecerem e compreenderem o mundo.
É, de facto, através de processos cognitivos que a reflexividade é exercida.
Mas não são sinónimos, no sentido em que, contrariamente à cognição, a
reflexividade, na acepção que lhe é aqui atribuída, tem sempre um referente
social: os indivíduos compreendem não só o mundo, como também o lugar que nele
ocupam. A cognição, bem como o pensamento que dela decorre podem ser exercidos
para dar resposta a questões de outra natureza, como por exemplo a resolução de
problemas matemáticos. O que significa afirmar que a vida interior dos sujeitos
não se esgota nos seus processos reflexivos. A fronteira entre o que é ou não
reflexivo, o que tem ou não um referente social, é incerta e pouco clara. Pode
sempre argumentar-se, de modo coerente, com o cariz social da actividade
matemática ou de outras acções cognitivas similares, o que dificulta a
distinção que se procura aqui estabelecer. Dificilmente se pode identificar um
objecto a ser considerado pelo sujeito que não tenha esse referente social,
mesmo quando se trata de questões biológicas, por exemplo. Na prática, esta
distinção é de difícil demarcação. Analiticamente, por outro lado, é possível
considerar que existe uma diferença, nem que seja de grau, entre uma pessoa que
se questiona acerca da cor do móvel que tem à sua frente, e outra que pondera a
procura de um novo emprego. Ambas podem ter um referente social, mas neste
último caso essa ligação é mais evidente, na medida em que implica que o
próprio sujeito seja tomado como objecto. Quotidianamente colocamo-nos questões
como será que hoje há muito trânsito?, ou estará a chover amanhã? Este tipo
de questionamento faz parte das dinâmicas do dia-a-dia. O que diferencia estes
diálogos internos dos processos reflexivos que se pretende aqui analisar é o
elemento auto-referencial de colocar o self em perspectiva. No fundo, esta
distinção remete para a diferença entre acção e acção social, tal como definida
por Weber (1995).
§ A vida interior dos sujeitos não é composta apenas por dinâmicas conscientes.
Os indivíduos não se encontram em estado permanente de alerta. A análise da
reflexividade individual requer que seja dada especial atenção aos mecanismos
conscientes, mas na verdade a interioridade de cada pessoa é também constituída
por processos que decorrem sem que os indivíduos deles se apercebam. O conceito
de disposições permite precisamente dar contra dessa vertente pré-reflexiva,
materializada em esquemas de percepção e interpretação que têm o potencial de
orientar as condutas humanas (Bourdieu, 2002; 2003). Como afirma Lahire (2001;
2002), essas matrizes podem ser tomadas como objecto pelos sujeitos, mas tendem
a operar sem serem questionadas.
Estas considerações permitem pensar a vida interior dos sujeitos num modelo
estratificado, como o que se encontra representado no quadro 1. A interioridade
é composta por uma vertente não consciente, que remete, em termos gerais, para
a acção dos sistemas de disposições individuais. Convém, no entanto, ressalvar
que o posicionamento das disposições no lado não consciente da vida interior
não exclui a possibilidade de, em certas situações, estes esquemas tácitos
interpretativos serem alvo de reflexão individual. A componente consciente
consiste na subjectividade expressa através das conversas internas dos sujeitos
que, tomando por referência as suas circunstâncias sociais, resultam em
processos de reflexividade. A inexistência desse referente social redunda em
pensamento reflexivo direccionado para questões de outra natureza. Estas
distinções, nomeadamente entre o que opera ou não a um nível consciente, são na
realidade mais fluidas do que uma representação gráfica permite expressar.
Ainda assim, a delimitação esquemática é útil por permitir circunscrever
analiticamente, de forma clara, o lugar da reflexividade nas dinâmicas internas
dos sujeitos.
Quadro 1 Estrutura da vida interior dos sujeitos
Em suma, o conceito de reflexividade é aqui entendido como uma propriedade
emergente das pessoas que permite aos indivíduos pensarem conscientemente sobre
si mesmos, tendo por referência as suas circunstâncias sociais. É um processo
mental, privado, subjectivo, sob a forma de diálogo, que pressupõe sempre a
relação com o lugar que os indivíduos ocupam no espaço social e nos contextos
por onde se movem. O seu exercício conduz a autoconhecimento, mas fomenta
também, indissociavelmente, a compreensão da realidade exterior. Os processos
reflexivos não esgotam as dinâmicas da vida interior e não se esgotam na
interioridade das mentes individuais, como se verá no ponto seguinte.
Posições, papéis, identidades
Pelas tensões que o conceito de reflexividade potencialmente sugere, o recurso
a esta noção na investigação sociológica requer que os parâmetros da sua
utilização sejam devidamente explicitados (Holland, 1999: 463). Em contexto
académico os problemas colocados à sua utilização prendem-se sobretudo com o
facto de evocar tradições sociológicas assentes em compromissos unilaterais
(Alexander, 1988: 312). Na esfera pública e mediática os obstáculos que o uso
do conceito coloca têm a ver com a valorização do afastamento do indivíduo face
ao mundo social, particularmente em contextos de fomento da auto-ajuda e
autoconhecimento. O principal problema da mobilização do conceito reside,
portanto, na posição de confronto em que é muitas vezes colocado relativamente
às condições materiais de existência.
A reflexividade remete, de facto, a muitos níveis, para a autonomia individual.
Contudo, não deve deixar de ser reforçado que o exercício da reflexividade é
indissociável dos posicionamentos dos agentes face à distribuição de diferentes
tipos de recursos. Os actores sociais têm um conhecimento aprofundado acerca
das suas realidades sociais, são criativos, efectuam escolhas, têm alguma
autonomia na definição dos seus percursos, atribuem sentido às suas acções, têm
intenções, razões e motivações para agir, projectam e reflectem e têm poderes
causais. Mas tudo isto não significa controlo absoluto sobre as suas condutas.
O grau de autonomia que exercem não decorre em condições sociais da sua
escolha. Os indivíduos encontram-se inseridos em enquadramentos estruturais que
delimitam as possibilidades objectivas das suas condutas. E mesmo da acção
racional planeada podem sempre emergir consequências não intencionais,
precisamente porque os sujeitos não podem controlar todos os efeitos
estruturais e contextuais que decorrem das suas opções, nem as respostas dos
outros às suas condutas.
O que não significa, por outro lado, que a reflexividade individual seja
falsa, no sentido de Atkinson (2010a; 2010b; 2010c), ou que as suas opções
não sejam reais. Face às mesmas circunstâncias sociais, que não são
determinantes, os agentes podem sempre efectuar escolhas diferentes e delinear
percursos alternativos, precisamente porque a eficácia causal das estruturas
depende sempre da sua activação como constrangimento ou capacitação.
Esse processo de activação é exercido, em parte, pela reflexividade individual,
tal como é representado no modelo trifásico de Archer (2003b: 135-148; 2007:
16-22), na medida em que os sujeitos ponderam os seus objectivos e projectos
face às possibilidades objectivas de concretizá-los, antes de definirem as suas
condutas. Mas a reflexividade não deve ser entendida como o único mecanismo de
mediação. Como tem vindo a ser explicitado até aqui, as estruturas podem ser
pensadas como entidades externas com propriedades específicas, mas têm também
uma existência interna sob a forma de disposições. A ideia de interiorização da
exterioridade permite complementar a noção de dualismo analítico na explicação
da acção. O sentido prático que resulta das disposições individuais tem um
papel tão importante quanto as deliberações reflexivas na análise da relação
entre estrutura e agência.
É ainda fulcral ter em conta que a reflexividade, apesar de consistir num
processo mental e de não ter necessariamente qualquer manifestação externa,
pode ainda assim ser expressa discursivamente em contextos de interacção. É
necessário complementar os diálogos internos de Archer com as conversas
externas que decorrem em situações de co-presença (mesmo que mediada) na
identificação dos mecanismos de mediação entre estrutura e agência (Mouzelis,
2008: 208-209). No decurso das dinâmicas de interacção os indivíduos definem,
negoceiam e reelaboram os seus objectivos e projectos. Estes enquadramentos
sociais despoletam e fomentam processos mentais, mas também, e em simultâneo, o
exercício daquilo que Giddens (2004) denominou como consciência discursiva.
Até porque, mesmo que de deliberações reflexivas resulte a tomada de decisão
que orienta a acção num determinado sentido (o que nem sempre acontece), na
realidade os sujeitos não podem prever inteiramente quais os parâmetros dos
contextos de concretização dessa decisão. Há sempre um grau de
imprevisibilidade dependente dos enquadramentos conjunturais e das respostas
dos outros agentes. Como afirma Elder-Vass (2010: 95), as decisões são sempre
causas indirectas e parciais das condutas humanas. Para além disso, a tomada de
decisão nem sempre resulta em acção, como sugere o modelo deste autor. De
acordo com Elder-Vass, as decisões tomadas são armazenadas e implementadas, num
momento posterior, de forma não consciente, em condutas sociais concretas. Mas
as decisões não têm de ser necessariamente executadas, precisamente porque o
contexto filtra as deliberações reflexivas dos agentes e pode levá-los a
reconsiderar as suas opções. Parece também pouco viável concordar que a sua
implementação possa sempre ocorrer sem que os sujeitos dela se apercebam,
principalmente porque as decisões resultam de processos conscientes e para
serem concretizadas exigem, muitas vezes, a mobilização de meios e recursos,
bem como a sua adaptação e reelaboração contextual.
Todas estas considerações implicam desenvolver uma noção de indivíduo que
incorpore de forma integradora e articulada a eficácia causal, quer das
estruturas sociais, quer dos sujeitos. Até aqui tem-se falado de forma
indiferenciada de actores, agentes e sujeitos para designar o indivíduo. Mas,
para melhor se compreender a relação entre indivíduo e sociedade, é útil
distinguir analiticamente essas três noções num modelo tripartido da composição
social dos indivíduos, tal como representado no quadro 2.
Quadro 2 Constituição social dos indivíduos
As noções de agente, actor e sujeito remetem, de facto, para diferentes
aspectos da relação que as pessoas estabelecem com a realidade social (Archer,
2003b: 118-119). Antes de mais, todos os indivíduos são agentes, no sentido em
que se encontram posicionados involuntariamente, por via das suas origens
sociais, no espaço de distribuição de recursos económicos, culturais e sociais
(Bourdieu, 2001; 2003). Partilham, nesse sentido, hipóteses de vida similares
com as pessoas que têm a mesma localização no espaço social. A noção de agente
remete, por isso, para atributos colectivos e para uma condição universal.
São, por outro lado, actores, pelo desempenho de papéis sociais nos diferentes
contextos por onde se movem. O leque de papéis interpretados depende, em larga
medida, do lugar que os indivíduos ocupam enquanto agentes. Mas esses papéis
são personificados e desempenhados de forma singular por cada actor, o que
contribui para definir a sua identidade pessoal e social (Goffman, 1990).
São também sujeitos, enquanto criadores e executores de projectos pessoais
(Archer, 2003b; 2007). A elaboração e implementação dos seus objectivos
expressa os modos de relação que estabelecem quer com os seus enquadramentos
estruturais enquanto agentes, quer com os seus papéis sociais enquanto actores.
É por ser sujeito que o indivíduo, através de mecanismos singulares de
reflexividade, atribui sentido às suas acções, toma por objecto os limites e
possibilidades das suas condições e contextos e opta por orientar as suas
condutas num determinado sentido, que pode ou não contrariar os seus
posicionamentos como agente e como actor.
Este modelo tripartido é particularmente útil do ponto de vista analítico,
porque permite compreender como se combinam numa mesma pessoa não só os poderes
causais das estruturas e dos indivíduos, como também os níveis estrutural,
contextual e individual.
A análise de processos reflexivos ao nível individual
Os contributos teóricos e os parâmetros operatórios que têm vindo até aqui a
ser discutidos podem ser articulados num modelo teórico de análise empírica.
Tendo por objectivo central compreender os mecanismos sociais da reflexividade
individual, é fundamental procurar perceber em concreto:
§ como se constitui e se desenvolve numa pessoa a capacidade de pensar sobre
si mesma e sobre as suas condições sociais;
§ como se caracterizam esses processos reflexivos, ou seja, como ocorrem, em
que parâmetros e circunstâncias, em que contextos;
§ e que efeitos têm na definição de cursos de acção específicos.
São, portanto, objectivos que remetem para três processos distintos com
diferentes localizações temporais: formação (passado), definição (presente) e
eficácia causal (futuro) da reflexividade. Compreender os modos como as pessoas
pensam acerca de si mesmas tendo por referência as suas circunstâncias sociais
pressupõe a construção de um modelo analítico que incorpore dinâmicas, recursos
e contextos que permitam precisamente dar conta desses diferentes momentos.
A figura 1 representa graficamente os níveis, dimensões, conceitos e relações
entre conceitos que se considera serem centrais para a análise da reflexividade
individual.
Figura 1 Modelo de processos reflexivos ao nível individual
Este modelo de análise dos processos reflexivos ao nível individual ancora
fundamentalmente em quatro noções.
§ Antes de mais, assenta na distinção entre as dimensões externa e interna da
acção (Alexander, 1988; 1998; Mouzelis, 2008). Assumindo que a realidade social
tem uma existência material e mental (Brante, 2001: 172), é importante
estabelecer esta diferenciação para dar conta quer da dualidade, quer do
dualismo que caracterizam a relação entre a eficácia causal das estruturas e a
capacidade agencial dos sujeitos. A dimensão externa remete desde logo para a
posse de recursos económicos e culturais, quer no que concerne às origens
sociais, quer no que diz respeito à localização presente dos indivíduos no
espaço social. Pretende-se, neste âmbito, compreender quais as suas condições
materiais de existência. Os contextos de interacção integram também esta
componente exterior das condutas por corresponderem aos enquadramentos,
possibilitados em larga medida pelo posicionamento social dos agentes, que são
palco dos contactos face a face (mesmo que mediados) entre actores sociais. Os
indivíduos podem ter diferentes níveis de reflexividade em contextos sociais
diferentes, até porque alguns domínios podem estimular, mais do que outros, o
desenvolvimento e activação de competências reflexivas. É nestes contextos, nos
quais os actores interpretam diferentes papéis, que se manifesta a componente
externa da reflexividade individual. No decorrer da interacção, os indivíduos
podem discursivamente, na presença de outros e com a sua colaboração, reflectir
oralmente sobre problemas, questões, objectivos, planos e intenções, ponderando
as suas possibilidades e limitações. Mas a componente discursiva da
reflexividade pode ainda manifestar-se por via da escrita, na medida em que se
trata de um processo que implica racionalização, domínio simbólico da linguagem
e distanciamento, tal como o trabalho de Lahire (1995; 2001; 2008) permite
perceber. Quanto à dimensão interna, é tida em conta a componente mental dos
mecanismos de reflexividade, bem como a sua articulação, no espaço privado das
mentes individuais, com os sistemas de disposições. Importa, portanto, atentar
aos processos de interiorização da exterioridade, bem como à relação que os
sujeitos estabelecem consigo mesmos e com as suas disposições, tomando-se como
objecto no decurso dos diálogos internos que mantêm numa base regular.
§ A relação entre as dimensões interna e externa da acção é mediada a três
níveis. No nível estrutural o sentido prático representa o ajustamento pré-
reflexivo entre disposições e condições materiais de existência e actua como
mecanismo orientador das condutas (Bourdieu, 2003; 2008). O que significa que
os agentes conhecem, de forma implícita, porque interiorizaram ao longo dos
seus trajectos de vida esquemas de interpretação, as possibilidades objectivas
dos seus recursos e contextos, e agem em conformidade, sem que as suas acções
resultem de processos de racionalização. Os enquadramentos contextuais assumem
também um cariz mediador, na medida em que as deliberações reflexivas que
resultam da interacção que os actores mantêm consigo mesmos são sempre
filtradas, e por isso potencialmente implementadas, negociadas, reformuladas ou
anuladas em contextos concretos de interacção com outros actores sociais
(Goffman, 1986a; 1986b; 1993). Ao nível individual situa-se a reflexividade
como mecanismo mediador, já que os constrangimentos e possibilidades
delimitados pelas estruturas e contextos são, em diversos momentos, activados
pelas competências reflexivas dos sujeitos, que se manifestam através das
conversas que estabelecem consigo mesmos nas suas mentes (Archer, 2003b; 2007).
Tal como proposto pelo modelo trifásico de Archer, os poderes causais das
estruturas são activados como constrangimentos ou possibilidades por parte dos
sujeitos, que definem os seus projectos com base na articulação entre as suas
preocupações e as condições objectivas dos contextos sociais em que actuam.
§ Tendo por objectivo central a análise da formação, composição e eficácia
causal da reflexividade individual, é fundamental compreender como se combinam
as diferentes dimensões e factorese que efeitos têm nas competências reflexivas
dos sujeitos. Um dos implícitos mais frequentes nas abordagens que se têm vindo
até aqui a discutir é o de que qualificações escolares mais elevadas, mais
recursos económicos, mais capital cultural e social, maior diversidade de
papéis, contextos e redes, maior frequência de situações de crise e maior
dissonância intrapessoal são factores que conduzem potencialmente a um
incremento da reflexividade individual. São hipóteses que, para além de
carecerem de verificação empírica, não devem ser pensadas de forma simplista e
unidireccional, sendo antes necessário examinar as combinatórias que potenciam
as capacidades reflexivas dos sujeitos. Nem interessa propriamente medir
competências no sentido de identificar quem é mais ou menos reflexivo. A
questão fulcral é perceber o que leva a que a reflexividade seja exercida, em
moldes específicos, em determinados contextos, e que efeitos tem na definição
das condutas. Por exemplo, um mesmo indivíduo pode passar muito tempo a
reflectir sobre as suas opções de carreira e ser particularmente estratégico na
esfera profissional, em muito devido às suas origens sociais e às suas
aprendizagens formais, mas, por outro lado, ter uma orientação mais ancorada
nas disposições que incorporou ao longo da vida na esfera familiar. Ou seja,
pode reflectir bastante sobre o seu papel enquanto especialista de uma dada
área, contribuindo activamente para melhorar a sua situação profissional, mas
não sobre o seu papel enquanto marido ou pai, acabando por reproduzir uma
divisão genderizada de tarefas domésticas. É necessário entender o indivíduo
simultaneamente na sua singularidade e pluralidade, como sendo detentor de
disposições múltiplas relativamente flexíveis, com orientações plurais da acção
e com diferentes níveis de envolvimento e distanciamento em diferentes
contextos (Costa, 2007; Lahire, 2001; 2002). Deve também conceber-se a relação
entre os factores sociais e a reflexividade como sendo de duplo sentido. O que
significa que, para além de se compreender que efeitos podem os recursos e os
contextos ter na forma como os sujeitos se pensam a si mesmos, deve igualmente
ser considerada a eficácia causal da reflexividade nos enquadramentos sociais e
condições materiais de existência. É ainda importante perceber se esta
capacidade agencial dos indivíduos é diferenciada de acordo com os seus
posicionamentos sociais. Como afirma Mouzelis (2008: 227), para sujeitos com
escassos recursos as estruturas podem assumir um cariz menos maleável do que
para indivíduos com maior volume de capital. O que deve ser analisado em
articulação com o grau de permeabilidade de diferentes contextos à acção
transformadora dos indivíduos.
§ Todos estes factores e eixos de análise são ainda atravessados por uma
dimensão temporal. A capacidade de uma pessoa se pensar a si mesma por
referência às suas circunstâncias sociais é formada e evolui, possivelmente de
forma variável para diferentes contextos, ao longo do percurso biográfico.
Mudanças que afectam a distribuição de recursos e a configuração dos contextos
podem ter impacto nas dinâmicas de reflexividade. Importa, neste âmbito,
atentar à importância das situações de crise. Ao longo dos seus trajectos de
vida, e nas suas vivências quotidianas, os indivíduos experimentam múltiplos
desajustes contextuais e biográficos, uns com mais impacto do que outros nas
suas formas de agir e de pensar. Estes momentos, potencialmente geradores de
incerteza e de tensão, estimulam a activação de competências reflexivas, como
aliás Bourdieu destacou (Bourdieu e Wacquant, 2007: 131). Contudo, essas
situações de crise são mais frequentes do que o autor preconizou e, tal como o
trabalho de Lahire (2001: 81-86) permite perceber, não têm necessariamente
implicações decisivas nas existências individuais. Ainda na vertente diacrónica
da análise, importa perceber que papel desempenha a reflexividade em momentos
decisivos do percurso de vida dos indivíduos, em diferentes esferas sociais, e
como se articula nesse âmbito com outras formas de orientação da acção. Essa
articulação deve ser pensada em conjunção com o grau de inculcação das
disposições e com a sua maior rigidez ou flexibilidade face à mudança. É ainda
fundamental ter em conta as circunstâncias e moldes em que a reflexividade é
exercida em situações comuns do quotidiano e não apenas em momentos
determinantes ou em ocasiões de crise. Como afirma Lahire (2001: 209-214), a
ruptura com o sentido prático é frequente no dia-a-dia. A própria organização
diária das vivências individuais assenta, em maior ou menor grau, em pequenas
acções ou momentos em que é necessário que as pessoas estabeleçam algum
distanciamento face a si mesmas e às suas práticas como forma de orientar a
acção. A questão central aqui é perceber que papel desempenha a reflexividade
no domínio da acção rotineira. Outro aspecto importante, que remete também para
a dimensão temporal, é o que diz respeito aos tempos da acção. Assumindo que o
modelo de acção urgente da teoria da prática de Bourdieu não é a única
modalidade de organização das condutas, é necessário ter em conta se a acção é
mais ou menos curta, se se prolonga no tempo, se é habitual ou esporádica.
Quanto mais prolongada no tempo for uma determinada prática, maior
possibilidade existe de distanciamento e reflexão sobre a mesma. Contudo, isso
não invalida que a reflexividade seja exercida no próprio tempo da acção. É
preciso compreender as lógicas plurais da acção em articulação com os diálogos
reflexivos.
Estes quatro pontos têm de ser pensados nas suas múltiplas articulações e
intersecções. Perceber como se forma, define e que impacto tem a reflexividade
implica combinar condições materiais objectivas com avaliações subjectivas
sobre as mesmas, dimensões internas com dimensões externas da acção, posições
com disposições, circunstâncias passadas com contextos presentes e projectos de
futuro, posse diferencial de recursos com modos de relação com a acção,
relações de interacção em co-presença com dinâmicas de relacionamento
intrapessoal, deliberações reflexivas com a orientação do sentido prático,
decisões e opções com configurações contextuais, componentes internas com
manifestações externas de reflexividade. Estas dimensões e elementos de análise
pressupõem um olhar sobre o real que atravessa diferentes esferas de vida,
tempos biográficos e ambientes da acção.