“Tu és rapper, representa arrentela, és red eyes gang”: Sociabilidades e
estilos de vida de jovens do subúrbio de Lisboa
Introdução
Este artigo aborda os estilos de sociabilidade juvenil do grupo informal Red
Eyes Gang.[1] Os seus integrantes são jovens, pobres, maioritariamente negros
(descendem de imigrantes africanos), e vivem na Arrentela — concelho do Seixal,
dentro da área metropolitana de Lisboa (AML). A música rap ocupa um lugar
central na vida desses jovens, que se apropriam do estilo com uma postura que
visa pôr em causa as noções dominantes sobre o seu lugar social. Neste
processo, reelaboram o significado de ser jovem (pobre e negro) em Portugal,
formulando identidades positivas, ao mesmo tempo que recusam e subvertem os
discursos estigmatizadores. No entanto, o estilo rap serve não apenas de
resistência e demarcação frente aos valores hegemónicos da sociedade, mas
proporciona, também, alternativas de integração social num contexto marcado
pela fragilidade das instituições do Estado. Embora os jovens Red Eyes Gang
partilhem identificações e estilos de vida, estes adquirem contornos múltiplos.
Se há questões importantes que os unem — caso contrário não faria sentido a
existência deste colectivo —, há outras que os diferenciam e que estão em
disputa entre eles. Por isso, há diferentes formas de ser jovem e de se
apropriar do estilo rap no interior do grupo, o que contraria os discursos que
apresentam os jovens das classes desfavorecidas sob uma óptica homogénea e
pouco dinâmica.
A etnografia foi a principal estratégia metodológica adoptada neste estudo de
caso, pois pretendíamos uma aproximação ao quotidiano e à vida pessoal desses
jovens, de forma a realizar uma análise em que a dimensão subjectiva não fosse
descurada. Para cumprir esses objectivos foi indispensável manter uma presença
prolongada no terreno, acompanhar o quotidiano dos jovens nos locais de intensa
sociabilidade (esquina, associações, concertos, cafés e outros locais de ócio)
e ganhar a sua confiança para fazer entrevistas semidirigidas que pudessem
traduzir as suas representações e modos de vida. O trabalho de campo teve a
duração de um ano (iniciado em Agosto de 2005), embora frequentássemos o bairro
regularmente desde início de 2003. Apesar de os jovens Red Eyes Gang integrarem
um circuito amplo de relações e um itinerário que ultrapassa as fronteiras da
Arrentela, optámos por nortear a nossa atenção sobre o grupo através de uma
“face sensível”: o bairro (Antunes, 2002: 384). Realizámos entrevistas
aprofundadas com sete jovens do grupo, tendo integrado alguns trechos destas no
presente artigo.
A juventude nas ciências sociais
No prosseguimento das pesquisas sobre a juventude das últimas décadas, e como
consequência dos avanços alcançados, desenvolveram-se várias terminologias para
designar o estudo dos jovens: subcultura, tribos urbanas e culturas juvenis são
algumas delas. De acordo com Gilberto Velho (1987), o primeiro termo tem o
perigo de levar à reificação de traços particulares de algumas populações que
não expressam um conjunto de crenças e valores partilhados. Considerado como
muito traiçoeiro, este conceito dá a ideia de que os seus integrantes pertencem
a um mundo à parte, onde a comunicabilidade entre diferentes culturas é quase
nula. A referência a “tribos urbanas”, formulada por Maffesoli (1987), quer
chamar a atenção para a “tribalização das sociedades contemporâneas”,
impulsionada por microgrupos de jovens caracterizados pela sua busca constante
da sensação de pertença a um grupo de pares, auto-afirmação e afecto
comunitário. Segundo Magnani (2005), o termo “tribo” possui a limitação de
transmitir a ideia de estigmatização e homogeneização de universos distintos,
além de ter uma carga ideológica que suscita associações à ideia de “selvagem”
e aos comportamentos agressivos daí advindos. A preferência de muitos autores
pelo conceito de “culturas juvenis” (Feixa, 1999; Antunes, 2002; Fradique,
2003; Pais, 2003) é motivada pela sua perspectiva pluralista de observar a
juventude (o próprio conceito está no plural) tendo em conta o conjunto de
valores e representações atribuídos aos jovens enquanto conjunto social etário.
Por outro lado, implicitamente associados às culturas juvenis estão modos de
vida específicos que expressam certas práticas quotidianas. Como refere José
Machado Pais, as culturas juvenis
são sistemas de valores socialmente atribuídos à juventude [tomada como
conjunto referido a uma fase de vida], isto é, valores aos quais aderirão
jovens de diferentes meios e condições sociais. […] O seu sentido antropológico
faz apelo para os modos de vida específicos e práticas quotidianas que
expressam significados não apenas ao nível das instituições mas também ao nível
da própria vida quotidiana (2003: 69).
Ao utilizarmos a expressão “culturas juvenis” queremos enfatizar a diversidade
interna das mesmas, num contexto em que muitos teóricos analisavam os jovens
como uma “quase classe social” tornada homogénea a partir do acesso aos tempos
livres, o que lhes garantiria interesses e valores próprios. Esta perspectiva é
exemplificativa de uma das vertentes teóricas (geracional) que marcaram os
debates sobre a juventude, em contraposição a uma outra, a classista. Como
explica José Machado Pais, ambas acabam por sintetizar as diferentes teorias
formuladas sobre a juventude e diferenciam-se principalmente pela tendência
homogeneizante ou heterogeneizante que cada uma reforça.
A corrente geracional analisa a juventude como uma fase da vida, realçando os
aspectos unitários e homogéneos das culturas juvenis. Seria a “descontinuidade
intergeracional”, isto é, a diferença entre gerações, que garantiria o suporte
teórico para definir as culturas juvenis em termos etários, constituindo-se
como argumento de que os jovens interagem com o mundo como membros de uma
geração social (Pais, 2003: 48). Os momentos de tensão e oposição às outras
gerações reflectiriam uma percepção da sociedade distinta da visão dos adultos,
fruto de um “viver o mundo” comum aos seus pares. As teorias da socialização e
das gerações forneceram grande parte da base teórica desta corrente, que, por
mais insuficiências que tenha, deu importantes contributos à pesquisa sobre a
juventude.
A problemática da reprodução social também está presente na corrente classista,
mas é analisada de forma diferenciada. Se na corrente geracional as diferenças/
semelhanças e continuidades/mudanças culturais, comportamentais e ideológicas
dos jovens são analisadas sob o foco exclusivo das relações sociais entre
gerações, a corrente classista pensa a reprodução social sob o signo das
classes sociais. Em função disso, a juventude é tratada pela corrente classista
como um conjunto social diversificado, dado que as diferentes origens de classe
favoreceriam uma multiplicidade de maneiras de viver a condição juvenil. As
culturas juvenis seriam “produtos de relações antagónicas de classe”, e as suas
manifestações simbólicas seriam soluções ideológicas para os desafios
enfrentados pelos jovens de uma mesma classe social (Pais, 2003: 61).
Foi no Center for Contemporary Cultural Studies (CCCS) da Universidade de
Birmingham (Inglaterra) que muitas ideias da corrente classista foram
desenvolvidas, influenciando os estudos sobre os estilos de sociabilidade
juvenil. Criada num contexto de crescimento económico e de consolidação do
Estado de bem-estar social (década de 1960), esta escola foi muito influenciada
pela emergência de culturas juvenis “espectaculares” (teddy boys, rockers,
mods, skinheads e punks), que revolucionaram comportamentos e valores dos
jovens na época. O surgimento destas “contraculturas” reflectia uma mudança
estrutural na sociedade, anunciando uma crise dos valores puritanos que
caracterizavam as elites burguesas desde as suas origens. A criação de estilos
juvenis contestatários evidenciava apenas um aspecto das profundas
transformações culturais que se estavam a viver. Mas a responsabilidade pela
“crise cultural” a que se assistia recaía, principalmente, sobre os jovens,
mediatizados e representados como “bodes expiatórios”. Na tentativa de
compreender esta multiplicidade de formas de expressão juvenis, esta linha de
pesquisa associou a sua emergência a uma espécie de “resposta subcultural” aos
problemas decorrentes das relações antagónicas de classe e da crise da cultura
parental. Phil Cohen (1972) foi um dos percursores desta linha de pensamento,
ao defender que a cultura juvenil divergente expressaria uma forma de
contestação aos valores sistémicos, além de evidenciar certa desestruturação
familiar e comunitária. O livro Resistance through Rituals (1976) de Stuart
Hall e Tony Jefferson desenvolve a linha argumentativa de Phil Cohen,
constituindo-se como uma das principais referências teóricas dos trabalhos do
Centre for Conteporary Cultural Studies (CCCS). A insistência desta abordagem
na capacidade das culturas juvenis de resistir às instituições e ao “sistema
opressor” foi censurada por muitos autores, que apontavam alguns aspectos
conservadores e tradicionais (Clarke, 1990; Vianna, 1997; Cruz, 2002). Todavia,
a rejeição da escola de Birmingham às teorias que viam a juventude de maneira
homogénea e interclassista inaugurou um conjunto de estudos etnográficos que
demonstraram que a suposta uniformidade de hábitos e valores da juventude é
falsa. Como afirma Pierre Bourdieu:
a idade é um dado biológico socialmente manipulado e manipulável; o facto de se
falar dos jovens como uma unidade social, como um grupo constituído dotado de
interesses comuns, reportando esses interesses a uma idade definida
biologicamente, constitui, desde logo, uma evidente manipulação. […] é por um
formidável abuso de linguagem que podemos reunir sob um mesmo conceito
universos sociais que não têm praticamente nada em comum (Bourdieu, 1984: 145).
Mais do que ser partidário de uma ou de outra corrente (geracional ou
classista), queremos utilizar os contributos das duas no estudo das culturas
juvenis. Desta forma, evitaremos polarizações que não contribuem para a
compreensão do universo complexo da juventude. Se há aspectos comuns a reunir
os jovens, independentemente da sua classe social, numa mesma categoria etária,
como a tendência a apreciar determinado tipo de música, lazer e desporto ou a
obrigatoriedade de frequentar as mesmas instituições, como as de ensino ou a
prestação do serviço militar, a forma como os jovens se relacionam com cada uma
dessas realidades ou praticam a sociabilidade está intimamente associada à sua
origem de classe. Embora não queiramos cair num “fatalismo sociológico”, que
predeterminaria a trajectória individual a partir da localização de classe —
muitas investigações (Silva, 1999; Dayrell, 2005; Magnani, 2005) já enfatizaram
a existência, dentro de uma mesma classe social, de uma diversidade de formas
de ser jovem, contrariando teses deterministas que vêem os jovens das classes
menos desfavorecidas de uma maneira uniforme —, esta influencia a construção de
distintos projectos de vida e maneiras de viver a juventude (Velho, 1987: 20).
A criação de um símbolo de pertença
O Red Eyes Gang[2] é o nome do grupo informal dos jovens que habitam e convivem
nas ruas da Arrentela. Criado por um número restrito de amigos em 1995, num
contexto de surgimento de várias bandas de rap no bairro (187Squad e
Kombanation foram as precursoras), o Red Eyes Gang pode ser considerado uma
crew, segundo a terminologia utilizada no hip-hop.[3] Inspiradas nas
referências culturais dos EUA, as crews são agrupamentos informais fortemente
territorializados, cujos integrantes se revêem em práticas comuns (neste caso a
música rap), partilham um mesmo estilo de vida e, na maior parte dos casos,
habitam a mesma localidade. Embora a palavra gang faça parte do nome desta
crew, esta não fomenta estratégias de acção relacionadas com a criminalidade,
nem possui uma hierarquia interna definida. Tampouco apresenta sinais evidentes
de adesão, pelo contrário, o sentimento de pertença ao grupo é muito fluido e
varia conforme a intensidade das relações entre os seus membros, o que
contrasta com o significado de “gangue” atribuído por pesquisadores da Escola
de Chicago.[4]
O Red Eyes Gang foi formado através da união de dois grupos de rap (187Squad e
Kombanation) com outros jovens da Arrentela que não cantavam, mas que se
agrupavam à sua volta, não ultrapassando trinta pessoas. Na altura da pesquisa
de terreno, o número dos seus integrantes ultrapassava uma centena de
indivíduos, segundo alguns informantes privilegiados. Este crescimento pode ser
creditado à cada vez maior influência da música rap na Arrentela, que fomentou
o surgimento de inúmeras bandas no bairro. Os “Defensores da Rua, Bronxiano” e
“Revelasom” são outros grupos de rap que integravam este agrupamento. A
relativa notoriedade que alguns rappers do bairro alcançaram nos meios de
comunicação e no circuito hip-hop também estimulou a adesão dos jovens ao Red
Eyes Gang, uma crew cada vez mais respeitada e conhecida entre os adeptos do
rap em Portugal. Apesar de a prática do rap ser a actividade central do grupo,
não é obrigatório ser rapper para integrar o Red Eyes Gang; contabilizámos
entre os jovens da crew quarenta praticantes de rap. Como explica Chullage, um
rapper que participa do grupo desde o seu surgimento:
Red Eyes Gang não é uma gangue, não é uma cena que tenha rituais de iniciação e
de inclusão. Tu és rapper, representa Arrentela, és Red Eyes Gang, tás a ver.
No início, quando Red Eyes nasceu, nasceu só com o pessoal daquele grupo que
“parava” ali, tás a ver. Éramos só nós. Os putos, os que não “paravam” ali,
ninguém era Red Eyes. Éramos só nós. Mas conforme vão crescendo, o people vai
crescendo aí na street já vai ficando Red Eyes, já vai crescendo com esse
legado. [Chullage, 28 anos, 30 de Agosto de 2005]
A partilha de experiências nas ruas do bairro, de rituais de sociabilidade e
estilo de vida são os elementos que estruturam a pertença ao grupo. Sem uma
organização formal, a sua adesão é de âmbito local e expressa uma relação
afectiva dos jovens com o seu habitat e os seus “iguais”, constituindo-se como
uma estrutura de consagração da união e da amizade dos jovens da Arrentela.
Muitos vão e voltam da escola juntos; à tarde, reúnem-se para jogar à bola ou
navegar na Internet; e à noite encontram-se numa das esquinas do bairro para
conversar sobre música e raparigas (é comum estarem mais de duas dezenas de
jovens a conviver nas ruas do bairro). As risadas e os gritos constantes são
componentes de um modo de estar que valoriza a diversão e o humor. Enquanto se
divertem, gozam uns dos outros e afirmam um jeito de estar na vida que
desvaloriza determinados tipos de normas e instituições (escola, trabalho,
polícia, etc.) que não vão ao encontro das suas formas de viver o mundo. São
esses os principais momentos de confraternização do colectivo, rituais que
celebram a amizade e a união entre eles. Viver conjuntamente essas ocasiões e
acontecimentos, que expressam um modo de vida comum ligado às experiências
partilhadas nas ruas do bairro e à marginalidade social,[5] é o que determina a
adesão ao grupo. É o que afirma Chullage:
Red Eyes Gang é a crew dos hip-hoppers da Arrentela… Não, já não é só isso… Red
Eyes Gang é Arrentela, tás a ver. Red Eyes G. é o grupo de brothers que “param”
aí na street, posso dizer assim. Red Eyes são os niggaz que “param” aí na
street da Arrentela, os niggaz que fazem história na Arrentela, tás a ver.
Sejam os DJ’s, sejam os MC´s, sejam os niggaz que jogam à bola. [Chullage, 28
anos, 18 de Agosto de 2005]
A maior parte dos jovens Red Eyes Gang é negra e de origem africana, mas é
significativo o número de jovens portugueses brancos no interior do grupo. Este
facto demonstra que a pertença étnica, embora tenha importância nas referências
culturais do grupo, não define a priori os participantes do colectivo. Viver no
mesmo bairro, partilhar o mesmo estilo de vida e desenvolver a sociabilidade em
conjunto nas ruas da Arrentela ultrapassa em importância a mera pertença
étnica. Por isso, convivem na mesma esquina jovens de origem africana de
diversos países (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e outros) e jovens
portugueses brancos, todos juntos, vestidos de forma parecida, usando os mesmos
adereços (brincos, anéis e bonés) e manejando os mesmos códigos de conduta
(linguagem, gestos e preferências). Todos os jovens do grupo percebem o
crioulo, inclusive os portugueses brancos, dado que esta língua é um espaço
simbólico de afirmação e pertença ao Red Eyes Gang. O crioulo que os jovens
utilizam na Arrentela não é o mesmo que é falado em Cabo Verde ou na Guiné-
Bissau. Muito mais aportuguesado, está carregado de calão e outras palavras
criadas nas ruas do bairro, tal como de expressões trazidas de outras partes do
mundo (EUA, Angola e Brasil), sendo influenciado pelos diferentes tipos de
crioulo existentes, principalmente o falado nas ilhas cabo-verdianas do
Sotavento (Maio, Santiago, Fogo e Brava), de onde veio a maioria dos pais dos
jovens do bairro. Por isso, o crioulo falado por esses jovens não é apenas uma
demonstração da força da herança cultural trazida pelos seus pais, mas é também
um instrumento de demarcação e de subversão das normas e dos valores dos
adultos. O facto de muitos jovens portugueses brancos saberem falar crioulo
evidencia a sua forte identificação com os filhos de africanos. Este é o caso
da rapper Guida, uma portuguesa branca de 23 anos, que costuma falar em crioulo
com as amigas:
Gosto da cultura dos portugueses, gosto de ser portuguesa e admiro os meus pais
e algumas famílias portuguesas que eu conheço. Mas atraem-me muito mais os
africanos, atraem-me mais. Atrai-me mais a maneira como eles vêem tudo, tás a
ver, como eles vivem, o à-vontade deles. Os portugueses são muito… Eu costumo
dizer que os portugueses são a fina-flor do entulho, tás a ver, têm a mania que
são finos e são uma boa merda, são rascas, tás a ver. Só que têm a mania que
são finos, então ficam a desprezar os outros, têm a mania de desprezar. [Guida,
23 anos, 27 de Setembro de 2005]
Embora haja muitas raparigas a conviver nas ruas da Arrentela, especialmente
durante o dia, a maioria reúne-se nas suas casas ou no grupo de dança da
Associação Khapaz. Guida é umas das poucas raparigas da Arrentela que canta rap
e participa dos habituais rituais de sociabilidade de esquina, praticada na
rua, com “actuações” sobretudo nocturnas. Este exemplo evidencia uma prática
cada vez mais recorrente entre as raparigas, que passam a reivindicar o seu
espaço nos tradicionais pontos de convívio masculino, relacionados com o espaço
exterior à vida doméstica (esquina, muro, bar ou café). No entanto, o Red Eyes
Gang pode ser caracterizado como um grupo tendencialmente composto por rapazes,
em que a presença de raparigas não chega a 1/4 do total dos seus integrantes.
O quotidiano dos jovens Red Eyes Gang está associado a práticas de
sociabilidade e de lazer desenvolvidas no âmbito das redes grupais de amigos.
Estas preenchem os “vazios” de sociabilidade deixados por outras instituições
(escola, trabalho, família, etc.) e são de grande ajuda na orientação dos
valores, gostos, projectos e estilos desenvolvidos. O domínio dos tempos livres
é de crucial importância, já que é neste espaço que os jovens se demarcam dos
adultos e de outros grupos juvenis, numa permanente clivagem e oposição entre
“nós” e “eles”. O grupo de pares constitui um espaço privilegiado de partilha
dos problemas e das alegrias, no qual valores e comportamentos podem ser
explicitados e recriados num formato diferente do convencional. A amizade
cumpre um papel preponderante, ao proporcionar companhia e suporte emocional,
ao mesmo tempo que influencia decisivamente a formulação dos ideais, projectos,
estilos e identificações culturais. Para muitos deles, o sentimento de pertença
ao grupo — tal como a amizade e a união daí advindas — é um dos principais
apoios para ultrapassarem as dificuldades e frustrações da vida. Grande parte
dos melhores amigos daqueles que integram o Red Eyes Gang também fazem parte do
grupo, são eles em parte os responsáveis pela sensação de conforto e segurança,
amparando-os para os desafios quotidianos. Esta questão é de especial
relevância, pois evidencia que, mesmo nos contextos de margem ou nos “processos
de dessocialização”, configuram-se “processos de ressocialização” que criam um
sentido para a vida dos jovens (Pais, 1999: 11), inclusive na formulação de
projectos de vida que visam ultrapassar condutas de risco. O sentimento de
pertença em relação ao grupo e os seus mecanismos de autodefesa denunciam o
carácter especial das sociabilidades que acontecem em certos espaços do bairro
— nomeadamente no muro, no Chacas (uma zona de habitação social) ou na
associação Khapaz. Estes são os principais locais onde os rituais de celebração
da amizade do grupo ocorrem, em que se busca força, união e conselhos para
quebrar barreiras, ao mesmo tempo que se constrói um estilo próprio de ser
jovem. Sabotage, um jovem rapper cabo-verdiano de 21 anos (vive em Portugal
desde os seis anos) e desempregado, explica-nos melhor esta questão:
Aqui é totalmente diferente, não sais do teu trabalho e vais logo para casa.
Aqui existe convivência, em qualquer bairro existe convivência, por mais que
sejam só duas pessoas, mas tens ali um grupo que pára e tem a sua convivência.
[…] Eu posso sair daqui e ter um “estrilho” agora, posso ter qualquer problema…
Eu sei que se vou lá fora posso dar “três dedos de conversa” com um sócio meu,
ter uma conversa com ele e dizer aquilo que um gajo passou, contar os problemas
ou ele estar a contar, isso relaxa um gajo, tás a ver, deixa um gajo fixe. […]
Toda a gente quer confessar, a gente não vai confessar à igreja, a gente vai e
desce ali em baixo. [Sabotage, 21 anos, 6 de Outubro de 2005]
Foi com este sentido que o Red Eyes Gang foi criado, para dar consistência às
amizades e ajudar os seus integrantes a ultrapassarem os problemas enfrentados.
Simultaneamente, proporciona um símbolo identitário de reconhecimento e
demarcação com os jovens de outros bairros. Ajuda a impulsionar as músicas dos
rappers da Arrentela, e possibilita a criação de práticas ritualizadas e
performances que servem de suporte tanto para aqueles que cantam como para os
seus apoiantes. As letras e mensagens dos rappers Red Eyes Gang dialogam com
todos eles, num processo musical dialéctico e colectivo. Quando cantam fazem
crónicas das suas vidas e relatam cenas do dia-a-dia vivenciadas pelos membros
da crew, “musicando” experiências, espaços e situações do imaginário colectivo
do grupo. Portanto, as suas músicas não são apenas a voz daqueles que estão a
cantar, mas a voz de todos os jovens Red Eyes Gang.
Mirabola, Chacas, Bairro Amarelo e Bronx: a Arrentela segundo os jovens
Embora formalmente a Arrentela seja uma freguesia, a ocupar uma área de 9,1
quilómetros quadrados, os jovens Red Eyes Gang percepcionam-na como um bairro
de dimensões muito mais reduzidas: um espaço delimitado com cerca de 1/15 do
seu tamanho original. É neste pequeno local, com as suas ruas, esquinas e
escadinhas, os seus muros, largos e becos, que se concentram os locais de
referência para os jovens Red Eyes Gang. Não são locais neutros ou sem
significado, mas espaços urbanos dotados de sentido e carregados de recordações
colectivas associadas às vivências que tiveram ao longo das suas vidas. A rua é
o local onde se sentem mais livres para viver a juventude à sua maneira,
afastados dos olhares incómodos das suas famílias e das gerações mais velhas. A
sociabilidade desenvolvida pelos jovens no espaço público dificilmente poderia
acontecer nas suas casas, por não possuírem espaço suficiente para receber
tantos amigos e estarem sob o controlo dos pais. Já os cafés e outros ambientes
privados não permitiriam certas práticas do grupo tidas como inadequadas pelos
adultos (falar alto, ouvir música em alto volume, trocar carícias com a(o)
namorada(o), brincar de andar à porrada, etc.) ou mesmo proibidas, tal como
fumar haxixe (Pais, 2003). Por isso, a rua é o território onde têm um mínimo de
poder — nem que seja fictício, na reivindicação do direito à juventude — para
“orquestrarem uma coreografia da amizade” (Alvito, 1998: 195). A centralidade
da rua no convívio e nas representações desenvolvidas pelos jovens da Arrentela
é bastante esclarecedora nas palavras de Chullage:
A rua é o teu apoio, é o teu chão, a tua fonte de inspiração, é tudo; onde está
os teus tropas, tás a ver. Se tu for ver a falta de mobilidade que há do people
que cresce aqui, se for, vê que 70% das tuas referências vieram da televisão ou
vieram desta rua. Então quando tu vais falar da maioria das tuas experiências
como homem, como ser humano, foi nesta rua, porque tu cresceste nesta rua. A
tua escola é já a seguir esta rua, do you know what i’m saying? Tu levaste
porrada da polícia nesta rua, chamaram-te preto nesta rua, andaste a porrada
com niggaz de outros bairros nesta rua. Então tu vais só recolher o portfólio
de vivências e imagens desta rua. [Chullage, 28 anos, 19 de Junho de 2006]
A forma como os jovens percepcionam e delimitam o bairro é elucidativa para
compreendermos as diferenças existentes no seu interior, designadamente em
relação aos seus moradores. De acordo com esses jovens, o bairro está dividido
em quatro “microáreas” (Alvito, 1998) principais: Mirabola, Chaca, Bairro
Amarelo (conjunto de prédios de realojamento de cor amarela) e Bronx. O nome da
primeira foi criado em associação ao antigo café que existia naquela parte do
bairro, enquanto que o da segunda foi inspirado numa série de televisão da
década de 1980 denominada Chaca Zulu, um dos poucos programas com actores
negros e referências culturais africanas, que narra as aventuras de uma tribo
africana. Os prédios altos e de elevada densidade demográfica da quarta
microárea serviram de inspiração para os jovens pela associação ao emblemático
bairro de Nova Iorque, “berço” da música rap. Estas quatro microáreas funcionam
como suportes de redes de vizinhança firmemente entrelaçadas e expressam não
apenas características arquitectónicas e geográficas, mas também algumas das
diferenças sociodemográficas entre os seus residentes. No Bairro Amarelo e no
Chacas (ambos formados por habitações sociais) vivem os residentes mais pobres
e, em maior número, famílias africanas e ciganas. No Mirabola e no Bronx (zonas
compostas por prédios de habitação convencionais) vivem famílias portuguesas e
africanas, e é onde reside a maioria dos portugueses brancos do bairro, que
constituem cerca de metade dos seus moradores.[6]
A convivência dos jovens Red Eyes Gang não é tão forte no Bronx ou no Bairro
Amarelo, constituindo-se esses dois locais como pontos de passagem e de
encontro para irem todos juntos ao “muro” (localizado no Mirabola), ao Chacas e
a outras partes da cidade. Estes dois últimos, juntamente com a associação
Khapaz, são os pontos privilegiados de confraternização dos jovens da
Arrentela. As densas relações de sociabilidade e de identificação local
desenvolvidas pelos jovens da crew nestes lugares aproxima-os muito da
definição de “pedaço” (Magnani, 2003). Estes são espaços bem delimitados onde a
dimensão relacional é muito forte, dado que é no pedaço que os jovens partilham
novidades e experiências numa espessa teia de:
relações que combinam laços de parentesco, vizinhança, procedência, vínculos
definidos por participação em actividades comunitárias e desportivas, etc.
(Magnani, 2003: 11).
Tanto o Chacas como o “muro” são espaços privados conquistados ao público, em
que assuntos íntimos (para os jovens do grupo) e proibidos (para os adultos)
são tratados. As tradicionais bipolarizações (casa/rua e público/privado) são
subvertidas, e uma densa trama de códigos e cumplicidades é criada entre os
seus frequentadores, definindo quem são ou não os seus integrantes. Neste
processo, preferências (musicais, estéticas ou ideológicas) são debatidas,
práticas culturais afirmadas, tradições reinventadas — influenciadas por
múltiplas referências culturais de cariz tanto local como global —, fazendo
deles os protagonistas da construção de um estilo de vida específico. Deste
modo, podemos considerar o Red Eyes Gang como a expressão mais elaborada de uma
identificação local, cujo ponto de partida é a partilha de experiências comuns
vividas nos “pedaços” que compõem o bairro.
Representa Red Eyes Gang: o estilo rap e a pertença ao grupo
O estilo rap é um dos principais componentes identitários dos jovens Red Eyes
Gang, dada a influência que exerce na formulação das suas referências e
símbolos culturais. A linguagem, os gestos, as preferências musicais e
estéticas, as actividades focais e rituais (Feixa, 1999), o tipo de lazer e
sociabilidade praticado ou mesmo a ideologia escolhida são exemplificativas de
um modo de vida comum, em que o estilo rap é uma parte significativa da
“matéria-prima” que utilizam na construção de uma “narrativa de auto-
identidade” (Giddens, 1995: 75). Não é um mero recurso estético, mas também um
pólo organizador de valores, normas e actividades que dá sentido ao quotidiano
do grupo. Tal concepção coaduna-se com a ideia de estilo de vida formulada pelo
pesquisador Gilberto Velho (1987): uma maneira de ser e de se comportar
associada a um tipo de apropriação simbólica do quotidiano por um determinado
segmento social.
Enquadrar a origem social, económica e étnica daqueles que integram o Red Eyes
Gang é fundamental para conseguirmos compreender o seu estilo de vida. A grande
maioria deles pertence às classes sociais mais baixas — é habitual o pai
trabalhar nas obras e a mãe nas limpezas —, e os seus projectos para o futuro
não são nada animadores: são excepções aqueles que não abandonaram a escola
prematuramente ou conseguiram um emprego formal. A falta de oportunidades e a
progressiva fragmentação das clássicas agências de socialização — seja a
escola, o trabalho ou as instituições políticas — fazem com que os jovens se
sintam desamparados no processo de sua construção como jovens e sujeitos. Mesmo
a participação nas actividades lúdicas e culturais torna-se problemática, dado
as exigências financeiras serem cada vez maiores, reduzindo substancialmente as
opções de lazer. Muitos dos jovens de origem africana não têm nacionalidade
portuguesa, mesmo tendo nascido em Portugal,[7] e até aqueles que possuem
passaporte português não são considerados cidadãos nacionais pela sociedade
portuguesa pelo facto de serem negros. Esta representa-os como outsiders (Elias
e Scotson, 2000), dada a cor de pele branca ser parte integrante do imaginário
das representações sobre a “portugalidade”. Todos os jovens negros com quem
conversámos na Arrentela disseram já terem sido alvo de racismo. Ser perseguido
por seguranças no supermercado ou shopping, ver as pessoas protegerem as bolsas
com medo da sua presença, e ouvir sátiras e “bocas” como o habitual “vai para a
tua terra!” foram algumas das situações relatadas por eles. Acrescenta-se a
isso a poderosa influência dos mass media no processo de codificação da
violência urbana, assente em dois eixos centrais: o da racialização do crime e
o da sua delimitação geográfica aos bairros dos subúrbios (onde se inclui a
Arrentela). Estas representações circulam no conjunto da vida social e urbana
sob a forma de artigos jornalísticos que descrevem a criminalidade como estando
associada à imagem de alguns “indivíduos perigosos” (jovens, imigrantes e
negros) e “topografias perigosas”: bairros sociais e subúrbios (Fernandes,
2003). O estilo de vida rap formulado pelos jovens Red Eyes Gang expressa este
ambiente de dificuldades, ao mesmo tempo que harmoniza e cria um “espírito de
grupo”, dado que todos enfrentam problemas e desafios semelhantes, vivendo em
conjunto uma série de limitações no usufruto da sua condição juvenil. Estas são
algumas das interpretações que podemos fazer sobre o depoimento que se segue:
Uma das cenas que mais nos une é termos crescido num ambiente socioeconómico
repressivo e desfavorecido. O facto de estarmos desenraizados, de sentirmos que
não pertencemos a este país e que somos marginalizados. [Chullage, 28 anos, 8
de Setembro de 2005]
O racismo e a estigmatização quotidiana enfrentados pelos jovens da Arrentela
são elementos importantíssimos para visualizarmos os complexos processos de
construção identitária e percebermos o papel do estilo de vida rap nas suas
vidas. O rap fomenta uma nova interpretação da realidade, questionando os
discursos de uma sociedade que os desvaloriza. Ao existir uma forte associação
entre o estilo de vida rap e a origem social dos jovens das camadas populares,
novos códigos morais são criados na perspectiva de quem sofre a discriminação
racial e económica. Desta forma, o rap promove o resgate da identidade negra
dos jovens pobres e valoriza os bairros em que moram, maioritariamente nos
subúrbios das grandes cidades. Estas são categorias que Juarez Dayrell enfatiza
na sua investigação. Como este autor refere:
O estilo de vida rap, espaço de ressignificação da experiência de jovens pobres
e negros, fornece códigos morais que se tornam uma referência para
comportamentos quotidianos. O rap cria uma unidade entre a produção musical e
seu sentido, viabilizando uma identidade de jovens pobres negros com uma
determinada atitude diante da vida e de si mesmos. (Dayrell, 2005: 122)
Nesta perspectiva, o estilo de vida rap é utilizado pelos jovens da Arrentela
como forma de alterar um estatuto de inferioridade e de intervir na cena
pública como criadores activos — e não serem vistos como jovens violentos,
passivos e marginais. Simultaneamente, querem inverter a correlação de forças
social, ao fazer com que características desvalorizadas (ser pobre, negro e
residir num bairro estigmatizado) possam ser interpretadas como
particularidades dignas e engrandecedoras. O estilo rap e a pertença ao
colectivo Red Eyes Gang são os raros instrumentos de protesto e de afirmação
que possuem, constituindo espaços de intervenção e de ruptura com um mundo que
lhes impõe um estatuto de subalternidade. Se o estilo rap é a “alma do grupo”,
fornecendo elementos simbólicos (materiais e imateriais) para interpretarem e
actuarem no quotidiano, a pertença à crew é um “abrigo virtual” que protege
contra os obstáculos do seu dia-a-dia (Agier, 2001). Ambos fornecem à
consciência dos jovens valiosas referências culturais e ideológicas e servem de
defesa num contexto pobre e repressivo.
Representar Red Eyes Gang é a forma ritual de os jovens afirmarem o sentimento
de pertença a esta identificação colectiva e reinventarem um “nós” com
materiais simbólicos que resgatam a sua auto-estima. É uma prática performativa
que dá suporte à crew ao dar a conhecer o colectivo a que pertencem e expressar
o sentimento de união do grupo. O acto de representar pode ter um tom festivo
ou de guerra, porém, em todas as suas configurações há uma componente
performativa a apelar ao reconhecimento dos sujeitos pelas diferenças que,
supostamente, têm com os outros. Nesta ritualização, os jovens afirmam a sua
individualidade com base no colectivo a que pertencem, e expressam a
determinação de viver a juventude segundo um mesmo “projecto de evasão”
(Fradique, 2003: 69). Este contém, claramente, elementos de demarcação e
resistência à cultura hegemónica e dota os jovens da sensação de construírem
uma ordem social e simbólica em que são eles a ditar as “regras do jogo”.
Não é possível participar no Red Eyes Gang sem representar este grupo, dada a
centralidade que este acto simbólico possui nas práticas culturais dos jovens
da Arrentela. Há diversas formas de representar Red Eyes Gang, mas cantar rap e
mandar props[8] à crew são algumas das mais importantes. Ir ao concerto para
incentivar as bandas, gritar o nome do colectivo nas apresentações dos rappers
do bairro, defender os amigos da violência policial ou da intimidação de jovens
de outros bairros, fazer graffiti com o tag (sigla) do grupo, gritar Red Eyes
quando marcam um golo numa partida de futebol ou partilhar uma cerveja no
“muro” são outras maneiras de representar o grupo. Tais ritualizações carregam
implicitamente uma forma de demarcação identitária e geográfica com jovens de
outros bairros ou que aderem a culturas juvenis diferenciadas. A importância do
acto de representar está presente em alguns dos discursos de seus integrantes:
A questão da cena do Red Eyes Gang, tás a ver, é uma pertença à crew Red Eyes
Gang e ela pertence ao bairro, e isso é comum em todos os bairros. Há uma forte
pertença, tás a ver, represent, a palavra represent! Representar a Arrentela,
não só a nível do hip-hop, mas mesmo os gajos que jogam bola, tás a ver, mesmo
as miúdas da dança… Os jovens têm muito o levar para fora e ter o Arrentela
aqui dentro. Há um forte sentimento de pertença e defesa do colectivo da
Arrentela. [Chullage, 28 anos, 30 de Agosto de 2005]
Representar a crew não simboliza apenas a afirmação de pertença a um lugar e a
um grupo específico, mas é uma forma de sair colectivamente do anonimato. Os
jovens da Arrentela aspiram a ser reconhecidos, e por isso representar Red Eyes
Gang é tão importante. Pertencer ao grupo significa, para um jovem pobre da
Arrentela, que ele não é um jovem qualquer do subúrbio de Lisboa, mas um
integrante de uma crew valorizada no meio hip-hop. A criação de uma t-shirt
para os membros do grupo com a insígnia Red Eyes, o desenho de um polícia (sob
a mira de uma arma) e a frase Bazas D’Lum é exemplar deste desejo de serem
identificados, em que a praxis divergente está estampada nos símbolos
escolhidos como representativos deste colectivo. Bazas D’Lum em crioulo
significa “atira-lhes fogo” e traduz o desejo de insurgência contra um estatuto
de subalternidade, que encontra a sua face mais perversa na violência policial
que dizem sofrer quotidianamente.
Esses jovens querem tomar as “rédeas das suas vidas”, não aguentam mais serem
vigiados e controlados por instituições que, segundo eles, não lhes dão
hipótese de expressão. Ao menos simbolicamente, exercem o “poder da palavra”,
rejeitando determinados modelos (escolares, laborais, associativos etc.) que
insistem em torná-los apáticos e subservientes. Na falta de enquadramentos
institucionais adequados a apoiá-los na gestão dos seus processos identitários
e projectos de vida, as redes informais criadas através das sociabilidades
mantidas entre eles ocupam este espaço. Ser um rapper e/ou membro de uma crew
valorizada é um dos poucos recursos disponíveis para os jovens da Arrentela
alimentarem o seu ego, já ferido por projectos cada vez mais inalcançáveis
conforme o avançar da idade.
Com 23 anos de idade, Nando dividia o seu tempo entre o trabalho num call
center e os estudos (cursava o 12.º ano), considerando a sua situação
financeira mais favorável que a da maioria dos seus amigos do bairro. Ao ser
questionado sobre as suas expectativas de vida, desabafa:
O pessoal não tem expectativas de vida pá, não tem. Muitas vezes eu também não
tenho, quando eu estou mais em baixo eu também não tenho. O pessoal não tem
expectativa de vida, vai vivendo… E isso é em todos os bairros sociais. […] É
um ciclo vicioso que, obviamente, destrói qualquer expectativa que tu tenhas de
ser alguém na vida, principalmente quando tu sabes que sem a escola não és
nada. Eu não tenho cabeça para aquela escola, porque a escola para mim enoja-
me. Se sem a escola eu não sou nada sei que estou num beco sem saída, sei que a
obra não dá para viver a vida toda porque meu corpo um dia vai quebrar.
Basicamente para as expectativas é fodido, a vida faz-se no dia-a-dia. É viver
o presente, sem dúvida que sim. [Nando, 23 anos, 8 de Dezembro de 2005]
Para a maioria dos jovens da Arrentela, a aquisição das responsabilidades da
vida adulta não é fácil. Conforme se vêem confrontados com a necessidade de pôr
paka (dinheiro) em casa para garantir o sustento das suas famílias —
principalmente quando passam a ter filhos —, muitas das suas aspirações “caem
por terra”. Mesmo o tempo disponível para o convívio com os amigos e para a
prática do rap torna-se cada vez mais reduzido frente aos afazeres laborais e
domésticos, por mais que se utilize o estilo de vida rap como meio de prolongar
a juventude. Deste modo, os problemas e as aflições vividas pelos jovens Red
Eyes Gang estão muito mais associadas às dificuldades de conseguir assumir um
estatuto adulto do que propriamente ao período de entrada na juventude, quando
as pressões para conseguir emprego e “fazer-se à vida” ainda não estão tão
presentes.
A convergência em termos territoriais, visuais, musicais e ideológicos entre os
jovens do grupo “corresponde a formas de integração social compensatórias numa
urbanidade deficitária de coesão social” (Pais e Blass, 2004: 24). Portanto,
podemos conceber a pertença à crew como uma “identidade solidária” que fomenta
a união, o companheirismo e a reciprocidade entre os seus membros, o que lhes
dá a sensação se fazerem parte de uma “comunidade imaginada” (Anderson, 1983).
Diferentes formas de ser um Red Eyes Gang: um olhar sobre a heterogeneidade do
grupo
Para um olhar distante e fortemente condicionado pelas sensacionalistas
reportagens jornalísticas, os agrupamentos juvenis integrados por jovens pobres
seriam todos iguais, não havendo diferenças significativas no seu interior.
Este ponto de vista reforça uma imagem distorcida dos jovens que habitam os
bairros pobres dos subúrbios de Lisboa. Em algumas das representações mais
disseminadas são mostrados como exclusivamente negros, a morar num gueto e a
viver uma “cultura de pobreza” que os impede de melhorar de vida. Um dos
inconvenientes dessas análises é igualar contextos sociais bastante díspares,
como é o caso da relação entre o gueto norte-americano e alguns bairros do
subúrbio de Lisboa. Na definição de Loïc Wacquant, o gueto é um espaço de
privação no qual a concentração do subproletariado negro e imigrante é muito
maior do que a encontrada em qualquer bairro suburbano português ou europeu
(2005: 16). Embora haja uma grande concentração de população negra na
Arrentela, a sua característica principal é a diversidade étnica e cultural. O
conceito de “cultura de pobreza”, introduzido por Oscar Lewis (1966), propaga a
ideia de que certos grupos populacionais estão destinados a um ciclo reprodutor
de pobreza sem fim que seria transmitido de geração em geração, culpabilizando-
os pelas suas más condições de vida. Estas perspectivas não dão conta da
complexidade e heterogeneidade da vida urbana e sobrevalorizam os
comportamentos desviantes, tidos como patológicos,[9] esquecendo-se da riqueza
de estilos, de sociabilidades e das manifestações culturais que os jovens criam
entre si.
Ao frequentarmos regularmente a Arrentela e conseguirmos uma aproximação ao
quotidiano dos jovens Red Eyes Gang, foi possível ter uma visão “de perto e de
dentro” (Magnani, 2003) daqueles que integravam a crew. Passamos a identificar
algumas das divisões do grupo e diferenças em termos de práticas culturais,
locais de sociabilidade, apropriação do estilo rap, características
sociodemográficas, etc. Desta forma, constatámos a existência de três subgrupos
entre os jovens da Arrentela:
- os dinamizadores e principais participantes das actividades da associação
Khapaz;
- os jovens que viviam e frequentavam uma parte da Arrentela chamada Chacas;
- os jovens que conviviam no muro de uma das esquinas do bairro.
Estas divisões não são estanques, pois a maior parte dos jovens participa dos
vários subgrupos e locais de convívio, mas revelam a existência de três espaços
principais de sociabilidade: associação Khapaz, Chacas e o muro, localizado no
Mirabola.
O primeiro subgrupo era formado por cerca de dez jovens, e estavam mais
preocupados com temas relacionados com o associativismo e os problemas que
afectam o seu quotidiano. Foram os responsáveis pela criação da Khapaz, uma
associação de afrodescendentes que tem por objectivo a valorização das
referências culturais africanas, a luta contra o racismo e a consciencialização
dos jovens do bairro sobre os seus direitos. Neste subgrupo estavam os jovens
mais escolarizados e com melhor inserção laboral.
O segundo subgrupo era constituído por cerca de onze jovens, todos rapazes e
habitantes do Chacas, que foram criados juntos, partilhando desde muito cedo a
amizade. O futebol era uma das suas actividades centrais, quase todos chegaram
a integrar clubes semiprofissionais.
O terceiro subgrupo era o mais fluido e inconsistente, formado por mais de
trinta jovens que escolhiam o muro como local de confraternização. Podem ser
considerados como os jovens mais street, por serem aqueles que mais tempo
ficavam nas ruas da Arrentela, ou “pragados”[10] na esquina do bairro.
Encontravam-se principalmente à noite para conversar, beber cerveja e contar as
aventuras que tiveram ou pretendiam ter. O desemprego, a precariedade e a baixa
escolaridade eram maiores neste subgrupo.
Deste modo, eram as actividades centrais de cada subgrupo, com a respectiva
“arquitectura da amizade” (Dayrell, 2005), que originavam essas pequenas
repartições no seio do Red Eyes Gang.
Na perspectiva de Josepa Cuco Giner, agrupamentos como o Red Eyes Gang podem
ser considerados como grupos de idade, estando marcados pelo ciclo de vida dos
seus membros. Constituem cristalizações das relações de amizade localizadas
numa estrutura espácio-temporal concreta (Giner, 1995: 115). A ampliação
substancial do número de adeptos Red Eyes Gang, conjugada com a mudança
geracional, tornou este grupo muito mais difuso e heterogéneo que nos seus
primeiros anos de vida. A unidade ideológica e no uso do tempo livre que o
caracterizava em tempos anteriores tornou-se difícil de manter com tais
transformações, provocando um afrouxamento das redes de amizade do grupo como
um todo. A diminuição da coesão do grupo podia ser facilmente visualizada nos
múltiplos locais de paragem dos jovens — mais dispersos que na época do seu
surgimento — e nos vários subgrupos existentes no interior da crew. A
diversificação de locais e subgrupos exprimia a variedade de práticas de
sociabilidade no seio do grupo, assim como reflectia as diferenças e
semelhanças de interesse entre os seus membros. Este cenário torna-se mais
nítido através das palavras de Chullage:
Eu acho que no meu tempo éramos mais unidos do que eles são agora. Naquele
tempo éramos um grupo só, agora há vários grupos. Como são muitos mais também é
natural, são vários grupos. Dantes íamos todos ao mesmo sítio, jogávamos todos
à bola juntos, parávamos todos no mesmo sítio. Agora uns param aqui, outros
param ali, outros param acolá. Mas agora são muitos mais, fica difícil manter
esta coesão. Eu acho que a principal mudança que eu vejo é a fragmentação.
[Chullage, 28 anos, 18 de Agosto de 2005]
Contribuiu, também, para esta fragmentação a desarticulação das redes de
amizade no interior do Red Eyes Gang, motivada pela saída da Arrentela de
elementos importantes da crew. Muitos emigraram para outros países europeus em
busca de trabalho, dado o desemprego e a precariedade impedirem uma efectiva
inserção laboral. Outros deixaram de viver na Arrentela por razões pessoais e
laborais, indo morar em outras partes da área metropolitana de Lisboa. Alguns
foram presos ou faleceram, e muitos mais deixaram de frequentar as ruas do
bairro por não terem tempo para estar com os amigos. Tais mudanças deterioraram
a harmonia do grupo, pois muitos dos que deixaram de frequentar as ruas do
bairro detinham posições de liderança e conseguiam melhor mediar as várias
sensibilidades “em jogo”.
A diminuição na coesão acabou por se reflectir no modo como os jovens Red Eyes
Gang se apropriam do rap, não havendo uma completa uniformidade na postura e
forma de viver o estilo, embora haja fortes pontos em comum. Ao analisarmos as
músicas das várias bandas de rap da Arrentela, notámos diferenças de temáticas
e do conteúdo abordado. Se para alguns o rap deve ter um alto grau de
insubordinação aos valores da cultura hegemónica e de luta contra o racismo, a
violência policial e a pobreza, para outros tais temas são tão importantes como
falar de diversão, prazer ou festa. Daí visualizarmos a existência de dois
pólos de rap na Arrentela. Um deles é constituído principalmente por pessoas do
primeiro subgrupo, embora também haja rappers do terceiro subgrupo. De acordo
com as suas opiniões, o rap deve denunciar as situações de dominação social e
étnica que partilham e falar daquilo que acontece nas ruas, sejam coisas boas
ou más. Encaram como traição aos valores que regem a crew as canções que
apresentam um discurso pouco voltado para a consciencialização e a intervenção
social, considerando os seus autores como oportunistas que desejam
comercializar as suas músicas a qualquer preço.
Tens um núcleo de pessoas, e há pessoas que não têm a ver com a associação
Khapaz, que fazem um rap crítico e social, um rap com mensagens políticas. E
depois há pessoas que na minha opinião fazem rap porque estão à espera da sua
oportunidade para venderem a sério. Essas pessoas fazem um rap que não lembra a
ninguém, não tem nada a ver com o rap que é feito na Arrentela, é rap
claramente para vender. [Nando, 23 anos, 8 de Dezembro de 2005]
O outro pólo de rap é formado, principalmente, por rappers do segundo subgrupo,
havendo também integrantes do terceiro. Algumas das suas músicas contêm uma
forte componente de intervenção social e denúncia das desigualdades sociais, no
entanto não tão radicalizadas como as dos rappers do outro pólo. Como também
abordam outros temas, cujos conteúdos se aproximam mais de valores e normas das
classes dominantes, são acusados de desrespeitarem a ética que rege a crew, não
representando da melhor forma Red Eyes Gang. Estas diferenças e polémicas são
demonstrativas de que os jovens do grupo se relacionam com o estilo de diversas
formas, não existindo uma dinâmica unificada na prática do rap. E espelha, numa
microescala, divergências nacionais e internacionais no seio do movimento hip-
hop criadas, principalmente, após a explosão mediática do rap em todo o mundo.
[11]
A intensidade com que os jovens se envolvem com o estilo rap é diferenciada.
Para os integrantes do primeiro subgrupo, e para alguns do terceiro, o estilo
rap possui uma centralidade tão forte nas suas vidas que faz com que parte
importante do seu quotidiano seja pautada pelas orientações do estilo. Neste
sentido, avançámos com a hipótese de que esses jovens vivem um estilo de vida
rap, pois este fornece as bases para construírem um modelo próprio de ser
jovem. Para aqueles do segundo subgrupo, e maioria do terceiro, a identidade
enquanto rapper é bem mais fluida. O estilo rap não costuma estar tão
frequentemente no centro das suas conversas, e a história do rap e do hip-hop é
desconhecida para muitos deles. Daí colocarmos a hipótese de o estilo rap ser
para eles parte integrante de um estilo de vida mais poroso e abrangente — e
não propriamente um estilo de vida rap —, incorporando influências e valores
presentes em outras culturas juvenis. Por isso, o estilo rap é para esses
jovens muito mais uma forma de desfrutar a condição juvenil.
Apesar de existirem diferentes níveis de interpretação da realidade e de
apropriação do estilo rap, o que às vezes dificulta uma dinâmica conjunta na
sociabilidade e na prática musical, não podemos esquecer as semelhanças e todo
um conjunto de referências e de imaginários comuns entre os jovens Red Eyes
Gang. São essas convergências que dão sentido à existência da crew e fazem com
que nos momentos tensos, de violência policial ou de confrontos com outros
grupos de jovens, as diferenças passem a segundo plano e as disputas internas
sejam postas de lado. Para defender a Arrentela ou apoiar as bandas de rap do
bairro, o discurso torna-se um só, e os jovens afirmam de forma entusiástica e
unitária a pertença ao Red Eyes Gang.
Conclusão
A forma como os jovens Red Eyes Gang vivem a sociabilidade e se apropriam do
estilo rap permite-nos avançar algumas conclusões. O Red Eyes Gang é o
resultado organizativo de uma identidade de bairro, mais especificamente de
jovens que convivem num mesmo “pedaço” (Magnani, 2003), expressando uma relação
afectiva com a Arrentela e com o grupo de amigos que ali residem. É um emblema
criado para melhor enfrentarem as adversidades, permitindo de forma mais
consistente idealizarem o que poderiam ser em contraposição ao que são e à
forma como são encarados pela sociedade. Sob este ponto de vista, a adesão à
crew Red Eyes Gang opera como um valioso recurso de integração social para os
seus adeptos.
No entanto, a vivência de condições de vida semelhantes e a partilha de um
mesmo estilo não são suficientes para se afirmar a existência de práticas,
discursos e valores homogéneos. Embora haja um conjunto de características
comuns aos jovens Red Eyes Gang — desde a sua posição de classe até à troca de
experiências nas ruas do bairro —, existem disputas internas sobre as normas e
o modo de representar o colectivo. Mesmo quando os seus projectos individuais
são construídos dentro de um “campo de possibilidades” com muitas semelhanças
(Velho, 1987), há múltiplas maneiras de eles interpretarem as suas experiências
sociais e formularem as suas visões do mundo. As diferentes formas como os
jovens Red Eyes Gang se apropriam do estilo rap expressa a sua heterogeneidade
interna, sem os impedir de integrarem o mesmo grupo informal. Pelo contrário,
esta diversidade serve como estratégia identitária para desenvolverem a sua
individualidade e originalidade.