Moderados, pragmáticos e personalizados: A evolução dos partidos de esquerda na
Europa do Sul
Introdução
Na década de 1990 a maioria dos partidos socialistas da Europa Ocidental
confrontou-se com o problema da redefinição da própria estratégia. Este facto
prende-se essencialmente com dois processos. O primeiro é relativo às mudanças
estruturais que se verificaram nas sociedades contemporâneas a nível
educacional, laboral e demográfico (Kitschelt, 1994). Estas transformações
afectaram de forma significativa a ligação entre partidos de esquerda e os seus
eleitores, tornando mais instáveis e flexíveis as respectivas bases eleitorais
do ponto de vista social e ideológico. Este processo é particularmente
importante para os partidos socialistas, tendo em conta que as mudanças
socioeconómicas obrigam a repensar e renovar o seu conteúdo ideológico,
sobretudo para se diferenciarem quer dos partidos de centro-direita quer dos
partidos mais radicais. Por outro lado, o segundo factor destabilizador baseia-
se na maior abertura da estrutura de competição com o acesso de novos partidos
à arena governamental (Mair, 1997). A transformação dos partidos comunistas e o
surgimento de novos actores — nomeadamente os partidos e movimentos inspirados
na “nova política” e nos valores pós-materialistas — representam uma nova
ameaça para a manutenção do tradicional eleitorado socialista e, ao mesmo
tempo, aumentam a incerteza do ambiente externo. Neste sentido, os partidos
sociais-democratas tiveram que enfrentar novos desafios no plano eleitoral e
institucional para evitar serem relegados inevitavelmente para um papel
marginal.
Apesar dos desafios que emergiram do ponto de vista institucional e
socioeconómico, na segunda metade dos anos 90 a maioria dos partidos social-
democratas europeus apresentava-se como alternativa credível de governo,
através de processos de adaptação que tiveram resultados positivos em termos
eleitorais e governamentais (Paterson e Sloam, 2007).[1] No entanto, o começo
do novo século deu novo fôlego aos partidos da direita, que conseguiram
recuperar o controlo das instituições em vários países europeus, incluindo
França, Grécia, Itália, Portugal e outras democracias continentais. Este
processo de alternância incentivou mecanismos de transformação relacionados com
a esfera partidária interna e com a dimensão externa baseada na competição
eleitoral. Não se trata apenas de redefinir as bases eleitorais, mas também de
impor determinadas características a nível organizacional, mantendo a coesão e
limitando as tendências centrífugas.
Este estudo procura caracterizar a evolução dos partidos de centro-esquerda de
Espanha (PSOE), Grécia (PASOK), Itália (PDS-DS) e Portugal (PS), examinando os
traços de continuidade e descontinuidade, assim como os factores que
influenciaram o sucesso ou insucesso nos respectivos sistemas políticos.
Enquanto nas democracias recentes o desempenho dos partidos de esquerda tem
tido um sucesso mais estável e duradouro, a saliência institucional e eleitoral
do PDS-DS revelou-se relativamente fraca. Do ponto de vista metodológico, uma
estratégia de comparação baseada no estudo de poucos casos permite alargar o
período temporal considerado, evidenciando os percursos de transformação destes
partidos e os principais factores responsáveis pelo diferente desempenho
eleitoral e governamental.
Para explorar as semelhanças e diferenças dos quatro partidos seleccionaram-se
três dimensões principais. A primeira diz respeito à orientação ideológica.
Esta dimensão permite esclarecer não apenas as políticas adoptadas e a sua
congruência com as oscilações dos eleitores, mas também as dinâmicas da arena
competitiva através do nível de polarização dos sistemas partidários. Porém, a
ideologia é também uma componente fundamental na estruturação do voto (Freire,
2006) e um reflexo importante da estratégia adoptada pelos líderes partidários.
A segunda dimensão analisa a forma como estes partidos representam a estrutura
de clivagens das respectivas sociedades, e a sua evolução ao longo das últimas
três décadas. Através da análise das bases eleitorais é possível evidenciar a
ancoragem dos partidos ao nível da sociedade civil. A análise das mudanças da
relação entre partidos e indivíduos é um indicador útil para verificarmos a
hipótese do declínio dos partidos (Daalder, 1992) e se houve um processo de
desalinhamento ou de realinhamento dos eleitorados dos principais partidos de
centro-esquerda. Finalmente, o terceiro aspecto refere-se ao problema da
coordenação interna, que se reflecte na diferenciação vertical — o nível de
centralização decisional — e na dimensão participativa.
O confronto entre os casos da Europa do Sul permite levantar questões
interessantes em termos comparativos para perceber as diferenças destas
trajectórias. Qual é o percurso ideológico experimentado pelos partidos de
centro-esquerda durante as últimas décadas? Qual é a diferença entre as bases
eleitorais dos quatro partidos? Quais as características organizativas dos
partidos social-democratas? Estas são as principais perguntas às quais se
procura responder neste trabalho, evidenciando as características desta família
no contexto da Europa do Sul e os factores que influenciaram o diferente
desempenho em termos político-institucionais.
A secção seguinte analisa a evolução ideológica dos quatro partidos de centro-
esquerda e as respectivas posições programáticas. A terceira secção é dedicada
à análise das respectivas bases sociais de apoio, enquanto a quarta secção
explora as inovações organizativas dos partidos a partir da década de 1990. As
conclusões evidenciam a trajectória dos partidos de centro-esquerda,
sublinhando as particularidades que emergiram nos diferentes casos considerados
e os traços de continuidade nas diversas dimensões analisadas.
A conquista do centro: a evolução da orientação programática e ideológica
Nesta secção analisa-se a evolução da orientação ideológica dos partidos de
centro-esquerda da Europa do Sul. Para examinar como estes partidos manipularam
o recurso ideológico considera-se, em primeiro lugar, as características
programáticas e, em segundo lugar, a forma como o eleitorado interpretou o
posicionamento destes partidos, evidenciando assim as dinâmicas competitivas.
Vários autores procuraram verificar a hipótese da convergência ideológica entre
os partidos de governo ou a hipótese do “fim da ideologia”, sem todavia obter
confirmações empíricas (Klingemann, 2005; Freire, 2006). Até que ponto este
cenário se aplica aos países da Europa do Sul?
A evolução programática e ideológica do PS caracteriza-se por uma lenta e
gradual deslocação para o centro. Este processo é o resultado da adaptação dos
líderes socialistas aos desafios do ambiente externo. O PS tem progressivamente
deixado de lado a herança de inspiração marxista, originária do período da
transição democrática, para adoptar posições moderadas e pragmáticas. Dois
factores influenciaram de forma determinante a evolução ideológica dos
socialistas. Em primeiro lugar, a necessidade de se diferenciar quer do PCP
quer do PSD, na tentativa de se apresentar como um compromisso entre o modelo
liberal-conservador do partido de centro-direita e o modelo socialista proposto
pelos comunistas. Em segundo lugar, as responsabilidades de governo assumidas
na primeira década do regime democrático levaram os dirigentes socialistas a
adoptar uma orientação realista e pragmática, condicionada pela crise económica
e financeira que o país atravessava e pelas constrições impostas pela
Comunidade Europeia (Sablosky, 1997; Canas, 2005: 6-7).
Esta orientação caracterizou-se numa primeira fase, até ao fim dos anos 80,
pela necessidade da desregulamentação de importantes sectores e pelo objectivo
de integrar a Comunidade Europeia, enquanto no período sucessivo se deu
prioridade às políticas de modernização relativas à administração pública e às
políticas sociais (cf. Puhle, 2001: 310-311). A partir dos anos 90 o PS adoptou
um liberalismo pragmático, combinado com a ênfase sobre algumas políticas
sociais (educação, sistema de saúde e segurança social). Esta orientação tem
manifestado uma significativa continuidade, como demonstram o conjunto de
medidas que integram o chamado “choque tecnológico”, um programa de
modernização do funcionamento do Estado e do desenvolvimento da sociedade que
constituiu a base do programa eleitoral apresentado em 2005 por Sócrates.
Os dados que emergem dos inquéritos de opinião mostram a moderação do partido,
apesar da orientação mais radical expressa pelos documentos ideológicos e
programáticos.[2] De facto, se observarmos a evolução ideológica no período
democrático, a posição média atribuída ao PS por parte do eleitorado é de 4,2
em 1978 e de 4,7 em 2005, com algumas oscilações mas sem variações
significativas (quadro 1). De acordo com a percepção dos eleitores, os
socialistas sempre se caracterizaram por uma orientação pragmática, reflexo das
políticas económicas implementadas durante os governos liderados por Soares nos
anos 70 e 80. A viragem mais relevante verifica-se no período que corresponde
aos executivos dirigidos por Guterres (1995-2001), em que o PS parece deslocar-
se progressivamente para a direita.
Quadro 1Posicionamento médio do PSOE, PS, PDS-DS e PASOK por parte do
eleitorado (1978-2006)
Analogamente ao caso português, a posição do PSOE beneficia da exclusão dos
comunistas a nível governamental e da distância que separa as duas forças
políticas, atribuindo assim aos socialistas a possibilidade de atrair eleitores
moderados sem grandes perdas na esquerda do sistema partidário.[3] A distância
entre os dois partidos de esquerda aumenta em 1982, ano em que o PCE manifesta
a posição mais radical correspondente a 1,8 (Linz e Montero, 1999). Apesar da
progressiva moderação ideológica dos comunistas ao longo dos anos 80 e 90, a
diferença que separa os dois partidos manteve-se praticamente inalterada. Esta
evolução é o reflexo da adopção de políticas moderadas, sobretudo no plano
económico, através da implementação de políticas liberais. No entanto, para
além dos tradicionais valores da social-democracia (igualdade, pluralismo,
justiça social), o governo socialista de Zapatero tem enfatizado a importância
das políticas sociais (educação e habitação), assim como alguns direitos civis
como, por exemplo, a paridade entre homens e mulheres e os direitos dos
homossexuais.
A evolução das percepções das orientações ideológicas por parte do eleitorado
espanhol caracteriza-se por uma relativa estabilidade, sobretudo no que diz
respeito aos partidos da esquerda, enquanto no espectro ideológico da direita o
panorama revela uma maior flexibilidade. De facto, o rápido desaparecimento da
UCD e a lenta e gradual moderação do PP marcaram a evolução do sistema
partidário e as características da competição. Em relação ao PSOE, a moderação
das suas orientações programáticas manifesta-se pela média do posicionamento
atribuído pelos eleitores durante o período considerado (4 na escala 1-10 entre
1978 e 2004). Em particular, parece evidente a moderação dos socialistas a
partir do fim dos anos 80, com a mudança no espectro ideológico de 3,7 em 1986
para 4,5 em 1996, para depois se estabilizar em 4,3 nas eleições sucessivas. De
facto, desde a passagem da oposição para o governo, o PSOE foi radical na
recusa do marxismo e adoptou sem hesitações políticas mais liberais combinadas
com a defesa do Estado social (Méndez Lago, 2006).
O caso grego é o exemplo mais evidente da trajectória gradual e constante na
direcção de uma crescente moderação, que se reflecte na ocupação do centro do
espectro ideológico. Depois do radicalismo programático e ideológico que
caracterizava o partido na década de 1970, o PASOK baseou-se sobretudo na
implementação de políticas sociais através da acção do Estado, com a
consequente penetração e colonização de muitos sectores da administração
pública (Sotiropoulos, 2004). Na economia, Papandreou definiu como objectivo
principal o aumento da produtividade baseado no sector privado, associando-a a
políticas de redistribuição a favor dos trabalhadores assalariados. Esta
fórmula foi a base do consenso nacional criado em volta do PASOK na década de
1980, limitando a possibilidade de alternativas programáticas avançadas pelas
oposições bilaterais (ND e KKE) constituírem uma barreira ao sucesso dos
socialistas.
Na década de 1990 a nova liderança de Simitis, expressão da ala mais moderada
do partido, adaptou as linhas programáticas no sentido da modernização da
sociedade do ponto de vista económico e social, criticando as políticas
implementadas na década anterior (Spourdalakis e Tassis, 2006: 253). O centro
desta modernização baseava-se em dois eixos: um vasto programa de privatizações
e uma política económica e monetária “robusta” que reduzisse a inflação e o
défice para garantir uma maior competitividade da economia helénica no contexto
europeu. A política de modernização avançada pelo sector mais pragmático do
partido reflecte-se na evolução da percepção da colocação ideológica do partido
por parte do eleitorado. O caso grego, de facto, é o exemplo mais evidente da
progressiva lógica de moderação, passando de 4,4 em 1984 para a posição de 5,5
em 2004. Em média, o PASOK é o partido de centro-esquerda da Europa do Sul que
apresenta orientações mais moderadas, direccionadas essencialmente para atrair
os eleitores do centro do espectro ideológico.
Um dos traços característicos da evolução do sistema partidário italiano é o
processo de moderação iniciado pelo PDS no começo dos anos 90. Como herdeiro do
PCI (Partido Comunista Italiano), o posicionamento deste partido é bem mais à
esquerda do que o dos outros partidos das democracias mais recentes. Apesar de
constituir uma ruptura do ponto de vista ideológico em comparação com o antigo
partido comunista, que se manifesta da passagem da posição de 2,4 em 1990 para
3,4 em 1999, a moderação do novo partido de centro-esquerda parece ter sofrido
um retrocesso nas últimas eleições. De facto, em 2001 os dados mostram uma
maior radicalização, que é confirmada nas eleições de 2006, em que os eleitores
atribuem ao partido a posição de 2,8. Por isso, os dados disponíveis evidenciam
a ambiguidade do processo de moderação que, pelo menos segundo a percepção do
eleitorado, parece mais radical do que o que emerge ao analisar as dinâmicas de
competição. Este caso parece portanto contrariar as tendências da evolução
ideológica dos partidos socialistas das democracias recentes. Há uma evidente
dificuldade da elite pós-comunista em se afirmar aos olhos dos eleitores como
uma força moderada, como se nota pelo debate político e pelo nível de
polarização do sistema partidário.
A particularidade do caso italiano reside não apenas no facto de ser o único
partido a levar a cabo uma profunda transformação ideológica, mas também na
dificuldade de impor esta mudança aos olhos do eleitorado. Enquanto o PS em
Portugal e o PSOE em Espanha apresentam uma marcada estabilidade das
orientações ideológicas nas posições de centro-esquerda, os dirigentes
italianos (ex)comunistas iniciaram um processo de mudança ideológica e
programática, no começo da década de 1990, no sentido de adoptarem uma
plataforma social-democrata. As duas áreas em que esta mudança se tornou mais
evidente são a política económica e a política externa (Giannetti e Mulé, 2006:
461). Contudo, houve também a introdução de novas temáticas como, por exemplo,
na área dos novos direitos (participação das mulheres, imigrantes, ambiente) e
das novas tecnologias. No plano económico os pontos principais dos programas de
2001 e de 2006 consistem no objectivo da modernização em termos das infra-
estruturas, comunicações e modelos produtivos (incentivos para as pequenas e
médias empresas). Este processo e a diminuição dos regimes de impostos deviam
constituir os instrumentos para aumentar o desenvolvimento do país e a
competitividade ao nível internacional.
Em geral, a tendência que se manifesta nos partidos da Europa do Sul não
diverge fundamentalmente do padrão que caracteriza os outros partidos europeus
(Paterson e Sloam, 2007: 51-56), enfatizando as reformas do Estado-providência,
uma certa intervenção do Estado combinada com uma crescente atenção à
competitividade a nível internacional e, sobretudo, a preocupação de defender
determinadas políticas sociais (desemprego, educação, saúde). Os partidos de
centro-esquerda da Europa do Sul caracterizam-se por uma orientação
tendencialmente centrista e moderada que acompanha substancialmente a evolução
dos partidos da mesma família política no resto da Europa, procurando combinar
uma economia de mercado com os valores da solidariedade e da justiça social.
Se observarmos as dinâmicas de competição, é interessante notar que, em geral,
o caso português apresenta a média mais baixa de polarização para o período
considerado (0,28), enquanto em Espanha, Grécia e Itália o índice de
polarização apresenta uma média que oscila entre 0,37 e 0,42. Isto significa
que a distância que separa os dois maiores partidos de cada bloco ideológico é
mais reduzida no caso português do que nos outros casos.[4] Porém, o caso grego
é o que apresenta a tendência mais evidente para a convergência entre os dois
maiores partidos do centro: o índice de polarização reduz-se de metade em duas
décadas, de 0,48 em 1985 para 0,25 em 2004. Esta evolução é o reflexo das
dinâmicas centrípetas que caracterizam a competição do sistema partidário grego
a partir do fim da década de 1980, ao contrário da maior polarização que se
verifica no caso italiano.
O perfil da base eleitoral dos partidos de esquerda
Depois de se ter analisado a evolução ideológica, nesta secção procura-se
explorar a base social de apoio dos partidos de centro-esquerda, evidenciando
de que forma são representadas as clivagens tradicionais da sociedade. Na senda
dos estudos de Przeworski e Sprague (1986), nesta secção analisar-se-á a
evolução das bases eleitorais dos partidos. As duas dimensões principais aqui
consideradas referem-se, por um lado, às características das respectivas bases
eleitorais e, por outro, à importância das variáveis sociológicas para explicar
o que distingue os principais partidos de esquerda dos partidos moderados do
outro bloco ideológico.
Um aspecto fundamental para delinear a evolução dos partidos social-democratas
consiste em analisar as características sociodemográficas da base eleitoral.
Comparando o perfil do eleitorado dos quatro partidos, o ponto importante a
evidenciar é que há semelhanças nas respectivas bases eleitorais. Em primeiro
lugar, é evidente, no longo prazo, a crescente importância assumida pelas
classes médias dentro dos dois eleitorados, sobretudo considerando o peso das
profissões liberais e do sector terciário. Em segundo lugar, há traços comuns
que se referem ao processo de modernização, como emerge observando a maior
laicidade dos eleitores e o maior nível de educação.
No caso português, o carácter moderado da orientação ideológica do PS reflecte-
se também na heterogeneidade da composição sociodemográfica dos seus eleitores
(quadro 2). O PS, assim como o PSD, não emerge como uma estrutura de
representação de um grupo social específico, mas é, pelo contrário, uma
organização interclassista em que a construção de uma identidade específica é
um aspecto de segundo plano para a maioria dos seus eleitores. A evolução do
eleitorado do PS mostra uma tendência para uma progressiva alienação dos jovens
e, por conseguinte, um processo de envelhecimento: em 2002 a percentagem de
eleitores com menos de 34 anos constituía pouco mais de 20% dos seus eleitores,
enquanto em meados dos anos 80 era cerca de um terço. No que diz respeito ao
nível de instrução, não se verifica uma mudança significativa, sobretudo em
termos da proporção de eleitores com uma educação mais elevada.
Quadro_2 Composição sociodemográfica dos eleitores do PS, PSOE, PDS-DS e PASOK
A base eleitoral do PSOE definiu-se com o realinhamento que marcou as eleições
de 1982, que contribuiu para acentuar o carácter catch-all do partido, como
emerge da grande proximidade ideológica e sociodemográfica que existe entre o
eleitorado socialista e o eleitorado em geral (Linz e Montero, 1999).
Analisando mais em pormenor a estrutura de clivagens do partido socialista
espanhol, podemos afirmar que conseguiu manter um suporte significativo por
parte da classe trabalhadora, assim como do sector não activo. De facto, os
reformados, donas de casa e estudantes constituem cerca de 50% do eleitorado do
PSOE, sem mudanças significativas ao longo dos anos 80 e 90. Por outro lado, a
percentagem de jovens parece ter aumentado, sendo que em 2004 cerca de metade
dos eleitores socialistas tinham menos de 35 anos. Finalmente, em termos de
habilitações, não parece ter havido grandes mudanças, apresentando uma elevada
proporção de licenciados já em 1982, percentagem que aumentou progressivamente
nas décadas sucessivas.
O PASOK emerge desde a instauração do regime democrático como um partido com
uma base social diversificada e bastante heterogénea, cujo “núcleo duro” reside
nos agricultores e nas faixas médias-baixas da burguesia (cf. Bilios, 2003). Na
década de 1980 o carácter catch-all do partido ainda se torna mais evidente. Em
termos das características sociodemográficas, o eleitorado do PASOK manifesta
uma tendência bastante clara, ao longo das últimas duas décadas, para um
progressivo envelhecimento da respectiva base social através da alienação dos
jovens do partido. Este processo é acompanhado, paralelamente, por uma
progressiva modernização, que se reflecte no aumento do grau de escolaridade e,
ao mesmo tempo, na redução do carácter religioso. No que se refere à situação
profissional, assiste-se a uma substancial continuidade, caracterizada pelo
peso consistente do sector inactivo e pelo peso das classes médias (terciário).
Nos anos 80 o PCI-PDS distinguia-se dos outros partidos de centro-esquerda das
novas democracias por ter uma estrutura de clivagens mais definida, baseada
numa forte subcultura que garantiu uma elevada estabilidade da sua base
eleitoral. O eleitorado comunista baseava-se assim nos grupos activos,
centrados essencialmente na classe trabalhadora e nos serviços, com uma forte
ancoragem a nível territorial (regiões do Centro).
No caso do PDS-DS a base eleitoral alterou-se de forma significativa a partir
dos anos 90. Em primeiro lugar, o eleitorado com uma faixa etária central
diminuiu, com um progressivo envelhecimento dos eleitores do partido e uma
expansão para os sectores não activos. Contudo, o partido de centro-esquerda
conseguiu não alienar o suporte dos sectores mais jovens, apresentando uma
proporção parecida com os outros dois partidos. Onde emerge uma maior
diferença, sobretudo em relação ao PSOE, é no “capital cultural”, pois os DS
têm conseguido atrair o apoio dos sectores com um nível habilitacional mais
elevado (quase 20% com o grau de licenciatura). Outro indicador importante para
a análise da estrutura das clivagens baseia-se no sector profissional. Aqui
parece evidente a diminuição do peso da classe trabalhadora e, ao mesmo tempo,
o aumento da importância do sector terciário, nomeadamente no que diz respeito
aos funcionários da administração pública que têm vindo a assumir um peso
crescente na fisionomia do eleitorado do centro-esquerda.
Resumindo, desde a década de 1980 o perfil dos eleitores dos partidos de
esquerda apresenta características heterogéneas, pelo menos no que diz respeito
à idade, ocupação e nível de instrução, aproximando-se de forma significativa
ao eleitor mediano. A situação é parcialmente diferente em relação ao PDS-DS,
que herda do antigo partido comunista uma estrutura de clivagens mais forte.
Contudo, aqui também se manifesta uma tendência para uma progressiva e gradual
heterogeneidade e diversificação da base eleitoral. Se a mudança que se
verifica nos casos considerados a nível profissional pode ser atribuída, pelo
menos em parte, às transformações de longo prazo das sociedades, torna-se
necessário evidenciar as diferenças, em termos de idade e de habilitações
literárias, entre o PS e o PASOK, por um lado, e o PSOE e o PDS-DS, por outro.
É nestes dois partidos que emerge uma maior capacidade de atrair apoios de
sectores mais jovens e mais qualificados da sociedade. Este dado é compatível
com as conclusões evidenciadas pelos estudos sobre o comportamento eleitoral,
segundo os quais as clivagens tradicionais — sobretudo a de classe — teriam um
fraco impacto, quer sobre o comportamento dos eleitores quer sobre as
orientações ideológicas dos partidos.[5]
Para analisar a evolução das relações entre os partidos de centro-esquerda da
Europa do Sul e os respectivos eleitorados efectuou-se uma série de regressões
entre a década de 1980 e o começo do novo século (figura 1). Considerando como
variável dependente o voto nos principais partidos de esquerda em contraposição
com o voto nos partidos de governo da direita, é possível evidenciar para todos
um declínio do poder explicativo das determinantes sociais em detrimento das
variáveis ideológicas ou da avaliação do líder. Os dados confirmam que o PS e o
PASOK são os partidos de esquerda com uma menor ancoragem do voto à classe
social em relação aos outros partidos da mesma família na Europa do Sul (cf.
Gunther e Montero, 2001). Os DS e o PSOE apresentam, pelo contrário, uma maior
penetração no eleitorado do ponto de vista social, apesar de o peso destas
variáveis diminuir substancialmente ao longo do período analisado. O fenómeno é
particularmente relevante para o PDS-DS que, se nos anos 80 era evidentemente
um partido com uma forte expressão social do voto, nas décadas seguintes é
caracterizado por uma profunda transformação. Deste ponto de vista, as
dinâmicas eleitorais que opõem os principais partidos de governo (centro-
direita vs. centro-esquerda) convergem no sentido de uma crescente
indiferenciação do ponto de vista social. Estes resultados mostram que para
explicar a origem do voto é necessário recorrer a outras variáveis, como a
orientação ideológica e os factores de curto prazo (impacto dos líderes,
economia, temas da campanha).
Figura 1Variância explicada pela classe social e religião na Europa do Sul (R²
incremental)
Estas considerações evidenciam também o sucesso da estratégia catch-all
adoptada pelos partidos da esquerda das novas democracias logo depois da
instauração do regime democrático. Em geral, estes partidos preferiram
apresentar uma ideologia indefinida, com o objectivo de conquistar o eleitorado
de centro, e não representar eleitorados com características socioculturais
específicas. Esta tendência seria depois reforçada pelo processo de
modernização e secularização, desincentivando ulteriormente uma estratégia
baseada no encapsulamento de determinados grupos sociais. Contudo, na década de
1990 assiste-se a um processo de convergência entre os partidos considerados,
que não parece justificar os diferentes resultados em termos eleitorais e
institucionais. Na tentativa de interpretar este fenómeno é necessário ter em
consideração não apenas as estruturas de clivagens, mas também as estratégias
dos líderes partidários a nível organizacional.
Mais personalizados e mais flexíveis: as transformações organizacionais
A análise organizacional das transformações dos partidos políticos é uma
dimensão crucial para evidenciar de que forma as forças de esquerda reflectiram
as dinâmicas emergentes nos partidos europeus. Apesar dos diferentes legados
organizacionais, realizaram-se mudanças significativas em duas dimensões:[6] a
primeira diz respeito às modalidades de selecção do líder, enquanto a segunda
refere-se ao enquadramento e participação dos filiados.
A primeira dimensão relevante para caracterizar a evolução da organização
relaciona-se com a selecção dos líderes partidários. Segundo a interpretação de
Mair (1997), nos partidos contemporâneos verifica-se um aumento dos poderes dos
líderes partidários que, procurando alcançar uma maior autonomia, introduzem
medidas de democratização, de forma a atomizar a base militante e diminuir o
peso dos activistas dentro das organizações.
O PS adoptou vários modelos organizacionais a partir de 1992. Depois de uma
breve fase de experimentação — caracterizada pela experiência das “convenções”
(Van Biezen, 2003) — os socialistas decidiram voltar ao tradicional modelo de
democracia delegada baseada no congresso. Apesar de os poderes do líder
permanecerem substancialmente inalterados, o estatuto de 1998 veio atribuir aos
militantes a competência para eleger directamente o líder do partido.[7] Na
óptica dos principais dirigentes socialistas, esta medida era necessária para
aumentar a mobilização dos filiados e reforçar o capital de legitimação do
líder na competição eleitoral.[8] Apesar de levantar algumas críticas por parte
das federações e das estruturas intermédias do partido, a liderança do partido
manifestou-se a favor da introdução do mecanismo de eleição directa do
secretário-geral e Guterres não teve nenhuma dificuldade em ganhar as primeiras
eleições directas internas, alcançando sempre uma percentagem superior a 96%
dos votos (quadro 3).
Quadro 3 Eleição directa dos líderes dos partidos de esquerda na Europa do Sul
A liderança de Ferro Rodrigues (2002-2004) também foi caracterizada por
eleições internas não competitivas. Foi apenas em 2004, quando José Sócrates
conseguiu derrotar os outros dois candidatos, João Soares e Manuel Alegre, que
houve uma competição mais intensa para a liderança, apesar de a diferença entre
o primeiro e o segundo candidatos permanecer significativa (80% e 15% dos votos
válidos, respectivamente). A projecção nacional dos três candidatos produziu um
impacte relevante nos meios de comunicação, sobretudo pelas diferentes posições
assumidas em termos de política de alianças e do papel de intervenção do
Estado.
No caso do PSOE, a decisão de introduzir a eleição directa do candidato a
primeiro-ministro tem origem na forma como foi gerida a sucessão de González,
depois da decisão anunciada no congresso de 1997 de não se candidatar à
liderança do partido. Naquela ocasião os delegados escolheram Joaquín Almunia,
um colaborador de González e várias vezes ministro nos governos socialistas. As
divisões internas acentuaram-se e tornaram ainda mais fraca a legitimidade
interna do novo líder. Almunia decidiu em 1998 convocar eleições para a
selecção do candidato socialista a primeiro-ministro, depois de as eleições
primárias terem sido adoptadas em 1997 para a escolha dos candidatos
autárquicos, com o objectivo de incentivar a participação dos inscritos e
contrariar a imagem de uma organização centralizada (Méndez Lago, 2006: 424).
Nas primárias realizadas em 1998 Almunia foi derrotado por Josep Borrell, um
membro da esquerda socialista, que obteve 55% dos votos dos inscritos. Esta
situação criou uma liderança bicéfala entre o secretário eleito pelo congresso,
Almunia, e o candidato a primeiro-ministro. Esta coabitação tornou a liderança
mais fraca e teve como consequência o reforço do poder dos líderes regionais.
Borrell foi obrigado a desistir da candidatura pela falta de suporte da elite
dirigente. Depois da derrota eleitoral de 2000 e da demissão do secretário, os
dirigentes convocaram um novo congresso para escolher o novo líder do partido.
Nesta ocasião surgiram quatro candidatos: José Bono, Rodríguez Zapatero, Rosa
Díez e Matilde Fernández. Zapatero conseguiu obter uma vitória sobre o
candidato favorito através de uma pequena margem (41,7% contra 40,8% de Bono).
O método de selecção do líder do partido manteve a eleição indirecta através
dos delegados ao congresso, enquanto as primárias foram utilizadas para a
escolha do candidato a primeiro-ministro.
O processo de clarificação interna e a inexistência de uma sólida oposição
permitiu ao novo líder gerir sem problemas o processo de recuperação eleitoral
e de reorganização do partido (Bosco, 2005). O método das primárias para a
eleição do candidato manteve-se, mas em 2004 a candidatura apresentada por
Zapatero foi a única, por isso não houve eleições competitivas, apesar de ser
ratificada pela grande maioria dos militantes.
A mudança da eleição do líder do partido caracteriza também o caso grego.
Enquanto na primeira década do período democrático Papandreu nunca chegou a ser
eleito, na década de 1990 o seu sucessor Simitis foi eleito primeiro pelo grupo
parlamentar e depois pelo congresso. A alteração mais importante verificou-se
em 2004 quando o novo líder (Giorgios Papandreu) veio a ser eleito pelos
eleitores e não apenas pelos militantes.
Nestas primeiras eleições, apesar da falta de competição interna, a mobilização
do partido foi significativa e envolveu um milhão de eleitores, ou seja, mais
do que o dobro da estimativa dos militantes do partido (cf. Spourdalakis e
Tassis, 2006). Em 2007, depois da derrota do PASOK nas legislativas, Papandreu
decidiu convocar novas eleições directas, que foram disputadas por três
candidatos. Também neste caso se registou uma elevada mobilização, que levou às
urnas pouco menos de 80% entre inscritos e simpatizantes do partido. O líder
demissionário conseguiu ser eleito com uma margem relativamente reduzida de
votos (55%), enquanto o ex-ministro socialista Venizelos obteve mais de 38%.
Em geral, a elevada participação interna não tem tido efeitos em termos de um
maior controlo das estruturas do partido sobre o líder. No caso grego esta
transformação organizacional tem reforçado o poder do líder em relação à
organização do partido e aos militantes, dado que a distribuição interna do
poder atribuiu à organização extraparlamentar escassos poderes, ficando sempre
subordinada ao grupo parlamentar. Porém, a tentativa de aumentar a democracia
intrapartidária e incentivar uma maior participação interna acabou por
favorecer um maior populismo dentro do partido, através de laços directos
estabelecidos entre a liderança e a base eleitoral. Neste sentido, enquanto nas
democracias ibéricas é mais difícil confirmar a hipótese de Mair em relação aos
efeitos da democratização da eleição do líder ou do primeiro-ministro, no caso
grego esta alteração deixa menos dúvidas sobre o reforço do poder do líder em
relação à organização do partido e aos militantes.
No caso italiano, a dissolução do Partido Comunista levantou um intenso debate
interno sobre a forma organizacional mais apropriada para o novo partido. A
alteração dos poderes internos procedeu devagar, subordinada muitas vezes aos
desenvolvimentos políticos e à evolução das lógicas de competição
interpartidária. Todavia, e apesar das resistências internas manifestadas por
uma parte da elite dirigente (Bellucci e outros, 2000), no fim da década de
1990 introduziram-se elementos de inovação no âmbito do modelo de congresso,
através de mecanismos de democracia directa. Analogamente ao que se tem
verificado nos outros partidos da Europa do Sul, os novos estatutos dos DS
(2000) estabeleceram a eleição do secretário-geral directamente pelos
militantes e não pelos delegados ao congresso.
Na primeira eleição directa, em 2000, o então líder do partido, Walter
Veltroni, conseguiu ganhar facilmente a competição, pois não havia nenhum
candidato alternativo. Ao mesmo tempo, Massimo D’Alema, o anterior secretário-
geral do partido e na altura primeiro-ministro, assumiu o papel de presidente
do partido. Esta dualidade criou, de facto, uma liderança bicéfala que afectou
a coesão da elite dirigente e contribuiu para diminuir o grau de centralização
do poder.
Depois da eleição de Veltroni como presidente da Câmara de Roma, os DS tiveram
que escolher outro candidato para o cargo de secretário. No congresso de 2001
apresentam-se três candidatos, dos quais foi eleito o representante da maioria,
Piero Fassino, com uma margem bastante ampla de apoios (61,7%). Apesar de haver
candidatos e moções alternativas, nenhuma facção interna chegou a agregar um
consenso interno de forma a aumentar a competitividade da escolha do líder. A
liderança de Fassino foi confirmada no congresso de 2005 no âmbito do qual não
se apresentaram candidatos alternativos, apesar de haver quatro moções
diferentes que capitalizaram cerca de um quinto dos votos dos militantes (a
moção de Fassino obteve 79,1%). Em geral, o mecanismo da eleição directa
permitiu, até agora, a expressão das facções internas, apesar de não se ter
traduzido num verdadeiro desafio para a liderança ou para a alteração dos
equilíbrios internos.[9] De facto, a liderança do secretário consolidou-se
progressivamente, facto extremamente importante num partido caracterizado por
uma elevada conflitualidade interna e pela presença de fortes tendências
centrífugas (Pasquino, 2007).
Em geral, apesar das diferentes modalidades, todos os partidos já
experimentaram formas de selecção directa dos respectivos líderes. Contudo, as
reformas limitaram-se apenas ao líder do partido e não houve a expansão dos
poderes dos militantes em outras áreas como, por exemplo, para a selecção de
candidatos ou a elaboração dos programas eleitorais. Neste sentido,
considerando também a reduzida competitividade que tem caracterizado a
experiencia das “directas” nestes partidos, a lógica do funcionamento interno
não se alterou de forma significativa, tendo reforçado o carácter centralizado
e a personalização das organizações partidárias.
A segunda dimensão a analisar diz respeito à estrutura de base dos partidos. A
literatura sobre partidos tem sublinhado as transformações recentes no sentido
da mudança do papel dos inscritos no âmbito das estruturas partidárias
(Kittilson e Scarrow, 2003). Os militantes ainda desempenham importantes
funções para os partidos como, por exemplo, a legitimação dos líderes e a
mobilização nas campanhas eleitorais. Uma análise das características
organizacionais deve portanto considerar também as mudanças que afectaram o
papel dos inscritos.
Examinando o caso português, o PS sofreu alterações importantes, em termos das
formas de participação, através da introdução do estatuto de “simpatizante”. O
art.º 7.º do novo estatuto aprovado em 2002 estabelece que qualquer pessoa que
se identifique com o programa e a declaração de princípios pode registar-se no
ficheiro de simpatizantes, organizado a nível central pelo secretariado
nacional. No que diz respeito aos direitos, o simpatizante pode exprimir
livremente as próprias opiniões, receber apoio político e de formação e
participar nas actividades de base. A diferença maior em relação aos filiados
baseia-se nos deveres, pois apenas se estabelece que o simpatizante respeite o
nome e a dignidade do partido. Neste sentido, o PS procurou alargar as
fronteiras da sua base militante através da possibilidade de qualquer pessoa
participar nas actividades do partido e beneficiar ainda de alguns direitos,
mas sem introduzir vínculos específicos (nomeadamente de natureza financeira)
para os simpatizantes. Estas alterações parecem sugerir que o PS favorece a
integração de indivíduos que têm uma relativa proximidade ao partido mas sem
introduzir incentivos para assegurar a continuidade da sua participação nas
actividades partidárias.[10]
O caso do PSOE evidencia a importância da dinâmica governamental em
(des)incentivar o papel das estruturas de base e dos militantes. Uma vez que os
socialistas alcançaram o poder em 1982, a base militante como recurso tornou-se
progressivamente insignificante para a liderança partidária, que podia assim
dispor de uma ampla liberdade de manobra (Méndez Lago, 2000). Este processo
conduziu a uma paralisação do partido no território e a um crescente
afastamento entre a elite dirigente e os inscritos. Foi apenas com a eleição do
novo líder em 2000 que se tornou a dedicar atenção às organizações de base,
através de um processo de refiliação, com o objectivo de actualizar os
ficheiros dos militantes. Ao mesmo tempo, introduziu-se também a nova figura do
simpatizante, que se diferencia do aderente pelo facto de poder participar
apenas nas organizações sectoriais e ser consultado no âmbito da selecção do
candidato a primeiro-ministro.[11] Esta mudança parece ter encontrado o apoio
dos eleitores socialistas, que aderiram de forma significativa, sobretudo
depois da vitória eleitoral de 2004, aumentado o número de inscritos de 400 mil
em 2000 até mais de 460 mil nos quatro anos seguintes. Por outro lado, trata-se
também de uma mais-valia para o partido, que adquiriu um maior contacto com a
sociedade civil e uma maior capacidade de difusão da mensagem e de propaganda
(Bosco, 2005).
O PASOK parece ter tido um percurso bastante diferente dos partidos de esquerda
das outras democracias recentes, sobretudo pelo facto de ter experimentado
todas as fases que caracterizam o desenvolvimento organizativo tradicional
evidenciado pela literatura sobre partidos (Spourdalakis e Tassis, 2006; Van
Biezen, 2005). Isto significa que tem evoluído do partido de quadros para uma
configuração organizacional próxima do partido de cartel. Na década de 1990 o
partido socialista grego incentivou uma maior abertura dos militantes com a
introdução da categoria de simpatizantes, que não têm apenas o direito de
participar nas reuniões do partido mas também dispõem do direito de voto. Ao
mesmo tempo, houve a tentativa de dinamizar as estruturas locais,
reestruturando a distribuição territorial e incentivando a abertura a novos
sectores temáticos, que deveriam alterar os laços entre o partido e as
tradicionais organizações de apoio (sindicatos e cooperativas).
O processo de maior abertura das organizações de base também caracteriza a
evolução do PDS-DS. Em 1998, com a decisão de avançar com uma nova
transformação do partido, que levaria à criação dos DS, decide-se também a
elaboração de um registo dos filiados, através de um processo de refiliação (e
de uma campanha de adesão) que permitisse recolher dados pormenorizados sobre o
perfil e as atitudes dos militantes. As alterações do estatuto dos DS,
aprovadas no congresso realizado em 2005, confirmam — e reforçam — as
tendências que já emergiram anteriormente: tornar mais fácil a entrada no
partido e abrir a organização à sociedade civil. Esta reestruturação prevê
também a criação a todos os níveis do partido de um departamento para controlar
as adesões, com as funções de gerir os inscritos e organizar campanhas de
recrutamento.[12] Em geral, estas transformações evidenciam a maior importância
atribuída aos filiados, não apenas em termos quantitativos mas também na
tentativa de tornar mais eficaz a participação dos inscritos (cf. Mulé, 2007).
Em geral, as formas de coordenação interna e de participação evoluíram no mesmo
sentido para os quatro partidos considerados. Este isomorfismo organizacional
relaciona-se não apenas com as modalidades de legitimação do líder e a
integração dos filiados, mas também com as estruturas de base. Em todos os
casos, as tradicionais organizações baseadas nas secções (com base territorial
ou temática) foram complementadas por novas estruturas que incluem “clubes de
política” (caso do PS), associações culturais (DS) ou secções virtuais através
da Internet. No entanto, os efeitos destas transformações nem sempre foram
homogéneos, quer em termos da evolução da adesão e da participação dos
filiados, quer em termos da coesão das facções ou tendências internas. No
primeiro caso apenas o PSOE monstra uma tendência consolidada de crescimento e
de reforço da base militante, enquanto os outros partidos apresentam um
andamento incerto entre a estabilidade e o declínio (Bosco e Morlino, 2006). Em
relação ao segundo aspecto, apesar das recentes alterações organizacionais, o
caso dos DS apresenta-se bastante atípico, pela presença de uma elite dirigente
menos coesa e unitária, cujo problema principal é limitar o facciosismo
interno.
Conclusões
A questão principal que este estudo colocou era examinar a evolução dos
partidos socialistas ou social-democratas na Europa do Sul em três áreas chave,
nomeadamente a orientação ideológica e programática, as bases sociais de apoio
e o modelo organizacional, procurando evidenciar as respostas adoptadas por
estes partidos para ultrapassar os desafios estratégicos e programáticos que
emergiram a partir da década de 1990. Segundo vários autores (Paterson e Sloam,
2007), o sucesso dos partidos social-democratas europeus nos anos 90 explica-se
essencialmente pelo processo de adaptação que se verifica em duas áreas-chave,
nomeadamente nas políticas implementadas e na estratégia de comunicação baseada
na ênfase no papel do líder partidário. A personalização das campanhas e a
moderação ideológica, combinada com a defesa das políticas sociais,
constituíram dois factores que têm contribuído não apenas para o sucesso dos
partidos de esquerda nas democracias mais recentes, mas também para um processo
de convergência entre os partidos de esquerda e de direita. Este imprinting
originário contribui também para explicar as razões do insucesso do PDS-DS em
comparação com os outros partidos de esquerda da Europa do Sul, apesar de haver
dinâmicas essencialmente convergentes no que diz respeito às transformações
organizacionais e programáticas.
A partir da década de 1980, os partidos de esquerda das novas democracias da
Europa do Sul adoptaram uma orientação ideológica e programática moderada, que
se manteve essencialmente estável ao longo do período considerado. A evolução
para uma política mais “centrista” foi mais evidente no caso grego, sobretudo
com a vitória da ala modernizadora do partido. A orientação dos líderes
socialistas nas democracias recentes caracterizou-se por uma política
pragmática com o objectivo de se diferenciar dos partidos comunistas, por um
lado, e dos partidos de centro-direita, por outro. A comparação entre os casos
aqui analisados permite também evidenciar que uma das consequências da
moderação programática é a maior personalização dos conflitos internos. Este
aspecto relaciona-se também com as características das bases sociais e com a
evolução dos respectivos eleitorados. Nos quatro casos analisados, para além da
componente ideológica, as clivagens sociais representam um factor secundário
nas decisões de voto e na selecção das alternativas de governo (cf. Lobo,
2008).
Obviamente as diferentes características organizacionais constituem uma
variável importante na tradução das divergências ideológicas em divisões
internas. Para além da organização vertical e centralizada adoptada pelos
dirigentes social-democratas, as recentes reformas das estruturas de base —
veja-se a criação de secções temáticas e clubes políticos — diluíram ainda mais
as fronteiras entre militantes, simpatizantes e eleitores, contribuindo assim
para a neutralização de potenciais conflitos internos e para uma maior
heterogeneidade e moderação da base social de apoio. De facto, se considerarmos
os partidos da “terceira vaga”, parece que a centralização decisional pode
combinar-se com uma estrutura menos rígida, em que os laços entre a elite
dirigente e a base são instáveis e intermitentes. Pelo contrário, os DS nem
sempre foram capazes de manter a unidade e coesão interna, limitando as
potenciais divergências e, ao mesmo tempo, implementando medidas de
democratização a nível interno. Deste ponto de vista, os partidos de esquerda
das democracias recentes gozam de uma vantagem importante em relação ao partido
italiano, que tem uma maior dificuldade em conciliar eficácia decisional e
representatividade. Resumindo, apesar da convergência registada entre os
diferentes partidos nas várias dimensões consideradas neste estudo, há
diferenças entre o sucesso obtido pelos partidos das novas democracias e o
fraco desempenho institucional do PDS-DS. Esta diferença não é apenas o
resultado do diferente contexto político-partidário — e da relativa
incapacidade ou dificuldade de rentabilizar a estratégia competitiva — mas é
também a consequência dos mecanismos de path dependency, que condicionam e
limitam as tentativas de introduzir transformações na arena organizacional e
programática, limitando o sucesso eleitoral.