Gender and the military: women in the armed forces of western democracies
Gender and the military: women in the armed forces of western democracies
[Helena Carreiras, 2006, Londres, Routledge]
Isabel Farinha*
In the field of observation, chance favours only the prepared mind
Louis Pasteur (1822-1895).
Se o movimento social que abarca a ciência e os seus resultados é elíptico, a
veia que corre no mundo científico é s
erendípica.
1A ciência está repleta de serendipidades, de acasos felizes, de acidentes que
levam a descobertas inesperadas. Mas, existirão achados absolutamente casuais,
no sentido positivista do termo? Ou estaremos antes na presença de descobertas
inesperadas já fundeadas no espírito do cientista? Na verdade, se a força do
acaso joga aqui um papel central, a descoberta do inteiramente novo apenas é
inteligível, no hemisfério analítico de uma mente receptiva. Mente sagaz e
criativa que, ao aliar perseverança e sentido de observação, é capaz de erguer
um projecto a partir dessa descoberta. Fenómeno que pode remeter para o início
do ciclo, e que precede todo o edifício científico:2 o ponto de partida
elaborado crítica e assertivamente. Já a chegada à meta, procedimento clokwise
que percorre distintas lógicas complementares entre si (discovery/evaluation/
explication/specification/description/inference/proof cit inSchmitter, 2008),
deve radicar numa resposta segura e replicável. Resposta que, perante uma
adequada formulação teórica, filtrada por um set de triangulação técnico-
metodológica, possa contribuir, pelo conhecimento que permite de uma dada
realidade social, para o avanço cumulativo de um dado ramo científico.
Dotada desta lente de leitura do real, penso poder afirmar que, foi assente num
processo de serendipidade que a autora Helena Carreiras elaborou a sua tese de
doutoramento, de que viria a resultar a obra Gender and the Military. Women
in the Armed Forces of Western Democracies, motivo desta recensão. Obra assente
numa pesquisa comparativa realizada no ano 2000, sobre políticas desenvolvidas
em todos os países da NATO relativamente à participação militar feminina (WMP,
Women Military Participation).Conclui surpreendentemente a autora que não é a
dimensão temporal a que mais pesa na amplitude da representação das mulheres
nas Forças Armadas. Na verdade, uma presença feminina mais longa nas suas
fileiras, não é sinónimo de um aumento consistente dos seus números relativos.
Logo, e contrariando o senso comum, a temporalidade, só por si, não favorece a
integração de género, nem contribui para eliminar discriminações existentes a
nível ocupacional e/ou hierárquico. Na mesma linha de descobertas, quanto mais
afastado está o exército de um formato massificado, e portanto mais assente no
voluntariado, mais elevada é a taxa de participação feminina. Inovadoramente,
ficamos ainda a saber que aparentemente têm pouca influência na sua
representatividade numérica variáveis externas, como as socioeconómicas ou
relacionadas com as estruturas políticas, embora possam contribuir
significativamente para o impacto da sua integração global. Neste sentido,
ainda, os factores que contribuem para a simples presença numérica, tendem a
não ser os responsáveis pela alteração qualitativa do status das mulheres
militares; pelo contrário, a qualificação da participação social das mulheres,
relaciona-se fortemente com o grau de integração que estas alcançam nas forças
militares.
Partindo agora do início desta edificação científica, pode constatar-se que o
objecto teórico (capitalizado nos primeiros quatro capítulos) incide na
observação e comparação de instituições militares, organizações propícias à
ampliação de pressões e tensões, no que toca ao relacionamento entre homens e
mulheres. Cenário ideal, segundo a autora, para a realização de uma análise de
construção social das diferenças e identidades de género. Contexto
organizacional, o dos exércitos da NATO, que a partir do início dos anos 70 do
século passado, passou a incorporar mulheres. Época de ruptura com o esquema
tradicional de participação feminina, nas instituições de defesa ocidentais, e,
contrariamente ao que os precedentes históricos podiam querer indicar, não
ocorreu em tempo de batalhas o apelo lançado para as Forças Armadas. Foi aliás
em tempos de Guerra Fria que as mulheres deixaram cair o papel de auxiliares,
e conquistaram o estatuto de militares, com plenos direitos de formação.
Assumiram funções em domínios até então excluídos à população feminina. Trata-
se de mutações que, nos países comparativamente analisados, assumem, porém,
ritmos próprios e distintos processos organizacionais. Processo truculento,
visto o acesso feminino a dadas especialidades militares, entre elas as de
combate, a par de determinadas graduações hierárquicas, continuar a ocorrer
diferenciadamente.
Esta obra, olhada em detalhe, assenta numa problemática tripartida. Pretende-
se, primeiramente, o conhecimento dos factores que subjazem à diferença de
papéis das mulheres nas Forças Armadas; em segundo lugar, conhecer as razões
pelas quais alguns países elaboraram e aplicaram medidas específicas de
integração femininas nesta estrutura organizacional, ao passo que outros lhes
destinam um lugar residual e simbólico; e, por último, o conhecimento dos
factores que pela interacção das esferas socioeconómica, cultural, politica e
militar, tendem a explicar esses diferentes padrões de incorporação.
Questionamentos centrais repartidos, por seu turno, ao longo de três vectores.
Um primeiro, centrado na articulação de diferentes teorias científicas,
compreendidas entre as relações de género (teoria de género, relações de género
nas organizações, forças armadas como estrutura organizacional de género); as
teorias centradas nas dicotomias sociopolíticas relativas ao serviço militar
feminino (articulação trabalho/família, expectativas femininas, mulheres e o
uso da força); e as teorias relacionadas com as concepções de mudança social e
de defesa (alterações estratégicas organizacionais e profissionais, e
integração de género). Um segundo, assente em hipóteses exploratórias obtidas a
partir da exclusividade dos dados empíricos apurados. E, um terceiro e último,
orientado para a criação de um enfoque metodológico, construção pilar desta
investigação, projectado ao longo dos níveis analíticos: macro, meso e micro.
Lógica de actuação, que, em sinopse, impele Helena Carreiras a pesquisar
distintos tipos de informação, susceptíveis de articular três dimensões de
análise. Desta sistematização destacam-se, consequentemente, os dados de tipo
político-institucional centrados comparativamente nas políticas estatais em
termos de participação social e política das mulheres no contexto das teorias
da democratização. Em segundo lugar, os dados de tipo sócio-organizacional
focalizados no conhecimento da existência de distintos modelos no campo da
sociologia militar, da estrutura organizativa e profissional das instituições
militares dos países ocidentais. E, em terceiro, os dados de tipo ideológico-
cultural, focados na componente normativa do processo, ou seja, na produção e
reprodução de valores e identidades de género.
Note-se, ainda, que cabe à hipótese central do estudo a estruturação do
trabalho empírico comparativo (pesquisa empírica que tem início no quinto
capítulo desta obra). Hipótese que considera que, quanto mais significativos os
níveis de participação e representação social das mulheres, menos conflitual a
decisão de recrutamento, e mais fácil a eliminação de barreiras formais e
informais no acesso a determinadas posições e funções militares. Na base da sua
construção, encontra-se a pioneira reelaboração do Segal model -Factors
Affecting Women's Military Participation, verdadeiraperformance analítica,
ilustrativa de um conjunto de factores (organizacionais, socioestruturais,
culturais e políticos), que afectam a participação militar feminina. Modelo que
aliás serviu de ponto de partida, para a formulação de variáveis independentes,
dependentes e as respectivas hipóteses a testar.
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Posicionamento analítico, estruturado como mix metodológico, concebido para
dar conta, quer do grau de diversidade motivado pelo elevado número de países
envolvidos, quer da especificidade dos casos estudados.
Assim sendo, a hipótese central é testada de acordo com uma estratégia
metodológica que operacionaliza três dimensões de análise divergentes. Por
conseguinte, a dimensão macro4 presente no quinto capítulo, possibilitou a
utilização de dados agregados relativos à situação feminina em cada um dos
países da NATO, tanto no interior das fileiras como na estrutura social,
permitindo equacionar comparativamente a questão de uma forma abrangente. Note-
se que, do tratamento estatístico aqui operado, resultou a criação pioneira do
IWMI, Index of women's military integration in NATO(2000),assente nas
variáveis: representação global, integração ocupacional, integração
hierárquica, segregação de treinos, e políticas sociais. Ferramenta que pode
vir a ser manuseada em qualquer estudo de carácter multicultural, dedicado às
questões da integração de género nas instituições militares ocidentais.Já a
dimensão meso,
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reflecte o processo de integração organizacional, pelo confronto de processos
internos no seio das Forças Armadas com processos sócio-políticos externos,
assentes numa comparação internacional. E, por fim, a dimensão micro,
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ilustra os casos de Portugal e da Holanda, ambos ricamente exemplificativos de
uma dada realidade, a sul e a norte da Europa. Dimensão última,
qualitativamente analisada no capítulo sete, e que procurou aliás apurar se,
por um lado, a estrutura condiciona valores e atitudes individuais, i.e., se as
relações interpessoais reproduzem, reinterpretam ou, antes, subvertem os
modelos de género culturalmente dominantes. E, por outro, se os valores e
escolhas individuais limitam, subvertem ou reproduzem politicas
organizacionais. Visou-se consequentemente, com a estratégia multicasos
adoptada, e ao abrigo de uma perspectiva de triangulação, não meros objectivos
de generalização das inferências teóricas geradas, mas, antes, aprofundar a
análise de processos de integração, ampliando as possibilidades de confronto e
de comparação entre eles, potenciando a validade dos padrões de relações,
entretanto gerados e analisados (Yin, 1989). Em suma, para além das
regularidades existentes entre os casos, puderam ser evidenciados as
diferenciações e as singularidades entre ambos, através de uma análise
aprofundada do como e do porquê. Pressupostos que por conseguinte,
permitiram elaborar e validar uma tipologia profícua A Typology of Women's
Integration Strategies.
Em jeito de conclusão, estamos em nossa opinião, perante uma obra que inova o
conhecimento sociológico pelo recurso à triangulação técnico-metodológica, e
pela consequente oscilação entre o paradigma de análise quantitativo e
interpretativo. Na verdade, a combinação de uma large N analysis,com uma small
nanalysis,permite uma articulação macro-meso-micro que viabiliza o conhecimento
do objecto em toda a sua plenitude. Posicionamento científico, que permite
epistemologicamente ultrapassar, oposições metodológico-conceptuais que
classicamente caracterizam as ciências sociais, tais como, macro/micro,
individual/colectivo, individualismo/holismo. Dicotomias redutoras da realidade
e falsificadoras da sua complexidade, evitadas neste estudo ao ter-se presente
o campo político-institucional e sócio-organizacional, entendido como o
contexto macro e meso estrutural. Logo seguido de um conjunto de problemáticas,
referentes ao nível dos sujeitos e das suas trajectórias, que, todavia, não
deixam de estar condicionadas pela lógica organizacional, tal como postulam as
teorias da estruturação. Com efeito, actores institucionais, sujeitos e
estruturas sociais, influenciam e determinam-se mutuamente, numa relação
permanente. Perspectiva que antevê as propriedades estruturais simultaneamente,
como parte integrante da sociedade e dos sujeitos, e, como elementos
estruturadores e resultado das práticas dos sujeitos (Giddens, 1984). Processo
ancorado ainda, em preceitos éticos na prossecução dos passos essenciais, capaz
de permitir a compreensão, recognição e reflexividade dos dados, e que ao
manter olhos, ouvidos e mente alerta, não se esquece de cumprir com o principio
da serendipidade: learning from the research process itself in ways that can
feedback to your previous choices and lead you to introduce improvements in
them before path dependence, has completely taken over (Schmitter, 2008: 25).
Principio que seguramente norteia a obra que inspirou esta recensão.