La quête de reconnaissance: nouveau phénomène social total
La quête de reconnaissance: nouveau phénomène social total
[Alain Caillé (org.), 2007, Paris, Éditions la Découverte]
Luísa Veloso*
Alain Caillé reúne neste livro um conjunto de textos que focam a problemática
da ausência de reconhecimento tendo uma parte considerável dos textos como
referência os trabalhos de Axel Honneth.1 Para além da ênfase colocada nos
trabalhos científicos sobre a temática, Alain Caillé assume uma preocupação de
cariz ético face à ausência de reconhecimento dos indivíduos pela sociedade.
Propõe um conjunto de textos de autores com formações disciplinares diversas, o
que torna a obra extremamente heterogénea e rica na diversidade de abordagens
que contempla.
Mais do que uma problemática, este livro foca um problema social de uma
actualidade e pertinência extremas, que os cientistas sociais, em geral, e os
sociólogos, em particular, não podem ignorar: o sofrimento que causa a ausência
de reconhecimento, como refere o organizador dos textos (p. 12), é a
preocupação central das várias abordagens dos autores. Um problema social que,
pelo seu carácter algo invisível, porque relativo às vivências subjectivas e às
experiências de atribuição de sentido dos indivíduos às suas práticas, exige
procedimentos analíticos eficazes e inovadores para a sua explicação. Para além
da sua importância como fenómeno que está presente e caracteriza as sociedades
contemporâneas, pressupõe também uma atenção sobre o feixe de fenómenos que a
ele estão associados. A ausência de reconhecimento constitui uma problemática
multidimensional e pode ser perspectivada sob vários pontos de vista e eixos
analíticos. Abarca desde a luta pela distribuição equitativa dos rendimentos,
até ao acesso à educação, passando pelo reconhecimento e igualdade de
tratamento das minorias étnicas.
O livro encontra-se organizado em três partes.
A primeira Souffrance, sentiment d'injustice et quête de reconnaissance
reúne um conjunto de textos sobre as vivências da ausência de reconhecimento. A
título exempli ficativo, veja-se o texto de Michel Lallement, que foca a
ausência de reconhecimento das qualidades de trabalho ou das competências como
um eixo central de análise das identidades profissionais. Numa referência à
passagem do modelo da qualificação para o da competência, o autor discute a
ausência do reconhecimento nestes novos modelos que são, também, mecanismos
ideológicos de justificação de determinadas práticas de gestão.2 Três questões
centrais enformam a parte final do texto: quem reconhecer? O que reconhecer?
Como reconhecer?
A segunda parte Tous reconnus? De quelques difficultés du droit à la
reconnaissance condensa textos sobre mecanismos de reconhecimento. O texto
de Nathalie Heinich, por exemplo, versa as estratégias de reconhecimento no
domínio da arte e da ciência, articulando esta problemática com a da vocação,
esta última particularmente proble matizada no âmbito das actividades
artísticas e de investigação.
A terceira e última parte Sociologie générale et théorie de la recon
naissance é constituída por um conjunto de reflexões sobre autores centrais
na problematização do reconhecimento e sobre o lugar que uma teoria do
reconhecimento pode e/ou deve ocupar no campo das teorias sociológicas. Um
desses textos é o de Jean-Louis Laville, que propõe problematizar a teoria do
reconhecimento no âmbito da sociologia econó mica. O autor chama a atenção, por
exemplo, para a importância da articulação do reconhecimento de práticas
socioeconómicas solidárias com a invenção de novas formas de regulação demo
crática da economia (p. 296).
Os textos, sumariamente apresentados, permitem apreender a heterogeneidade das
propostas reunidas neste livro. A relativamente curta dimensão de cada texto,
ainda que, em alguns casos, não permita ao leitor uma compreensão mais
abrangente das propostas de cada autor, possibilita um leque mais diversificado
de contributos.
Uma referência final ainda para dois aspectos: as referências bibliográficas no
final de cada texto, que constituem uma boa súmula dos trabalhos que se
debruçam sobre esta temática; a diversidade de reflexões críticas à teoria do
reconhecimento, em particular à proposta de Axel Honneth.
Notas
1
Ver, por exemplo, Honneth, Axel (1996), The Struggle for Recognition: The
Moral Grammar of Social Conflicts, Londres, Polity Press.
2
Ver, a este propósito, Boltanski, Luc, e Éve Chiapello (1999), Le Nouvel
Esprit du Capitalism, Paris, Gallimard.
*Luísa Veloso. Investigadora CIES-ISCTE luisa.veloso@iscte.pt