Sociologia da inovação: A Construção Social das Técnicas e dos Mercados
Sociologia da inovação
A Construção Social das Técnicas e dos Mercados
[Luísa Oliveira, 2008, Lisboa, Celta Editora]
Luísa Veloso
*
O livro Sociologia da Inovação. A Construção Social das Técnicas e dos
Mercados, da autoria de Luísa Oliveira, encerra uma excelente reflexão
sociológica acerca da problemática da inovação. A autora propõe um olhar
alternativo e complementar ao desenvolvido pelos economistas, com destaque para
a assunção segundo a qual os processos de inovação são indissociáveis das
lógicas dos mercados. As expressões plurais não são acidentais, mas antes
procuram salientar a heterogeneidade de realidades que se podem encontrar
quando se foca a problemática da inovação.
Assumindo o livro como uma descrição da trajectória de investigação (p. 1), a
autora propõe uma estrutura que reflecte o processo de construção da pesquisa
realizada. Ao longo dos seus seis capítulos, é clara a forma como se vai
configurando uma problematização sociológica da inovação, tendo o seu início
numa reflexão crítica sobre o conceito de inovação e o seu culminar na
apresentação de dois estudos de caso. A obra propõe uma resenha bastante
completa e dotada de reflexão crítica sobre a produção teórica acerca da
problemática da inovação. Com referências da economia e da sociologia, procura
destacar, pelas razões acima apresentadas, o carácter heurístico de análises
como as de Michel Callon ou de Joseph Schumpeter.
Do ponto de vista da reflexão teórica sobre a inovação, destacam-se,
essencialmente, quatro pontos neste livro. Um primeiro diz respeito à discussão
centrada no conceito de inovação e em todos aqueles que a ele se encontram
associados. Na medida em que, mais do que um conceito, se trata de uma
problemática, é fundamental o trabalho da autora na explicitação da rede
conceptual que gravita em torno do conceito de inovação. Um segundo elemento a
destacar é a ênfase conferida à mediação desempenhada pelos mercados. Com esta
abordagem, é dado um contributo essencial para a análise da inovação como um
processo social e cuja construção é intermediada por uma multiplicidade de
factores, de entre os quais assumem um papel central as possibilidades e
estratégias de comercialização de produtos tidos como inovadores. Uma terceira
reflexão é relativa ao destaque conferido aos actores da inovação. É uma
questão que se articula de perto com o que foi acima referido acerca do
entendimento da inovação como um processo socialmente construído (também pelos
seus actores), assim como com as relações entre eles. Aqui adquire relevo a
teoria do actor-rede, desenvolvida, em particular, por Michel Callon. A rede
como actor de inovação permite problematizar a inovação como um processo (e
seus resultados) complexo que contempla entidades humanas e não humanas. Um
quarto e último ponto prende-se com a preocupação da autora em propor um quadro
analítico explicitamente ancorado no que designa por sociologia da inovação
(p. 79), centrada na produção social da inovação (ibidem). Esta proposta
conceptual e analítica constitui um ponto de partida importante para entender
os processos de inovação, em complementaridade com os trabalhos que têm sido
desenvolvidos pelos economistas.
De entre os vários actores que contribuem para a constituição de redes de
inovação, integrando-as, a autora centra-se nas empresas. Estas são o ponto de
partida para uma análise das redes. A autora não assume uma análise das
empresas como actores centrais da inovação, mas como constitutivos de redes que
podem ser perspectivadas e analisadas de múltiplos pontos de vista. Abre assim
um campo fértil de análise para a compreensão das redes de inovação, as quais
constituem um domínio de investigação frutífero do lado, nomeadamente, das
universidades e dos centros de investigação ou dos poderes públicos. É de
salientar que a escolha da autora de seleccionar as empresas para a análise
empírica (sempre como ponto de partida, pois o objectivo é o estudo das redes)
se relaciona com a importância destas na produção da inovação, nomeadamente
pela sua acção directa na construção dos mercados. Neste sentido, inovação e
mercado constituem um par conceptual indissociável.
Os capítulos 5 e 6 são dedicados à apresentação de dois estudos de caso,
salientando, desde logo, o facto de as empresas portuguesas participarem de uma
forma muito escassa nas actividades de ciência e tecnologia. Contrasta duas
empresas cujas actividades se integram num sector baseado na ciência: o das
tecnologias da informação e comunicação. A empresa E1 (ver capítulo 5)
constitui um caso de uma empresa cujas actividades contemplam uma forte ligação
à universidade. A empresa E2 (ver capítulo 6) é uma subsidiária de uma empresa
multinacional, com relações muito ténues com a universidade portuguesa. São
dois casos distintos que constituem exemplos paradigmáticos da realidade
portuguesa e, logo, possibilitam perspectivar as relações entre ciência e
indústria a partir de realidades suficientemente diferenciadas.
Várias conclusões são apontadas pela autora, frisando a necessidade de uma
reflexão sobre as relações entre ciência e indústria. São múltiplos os enfoques
possíveis, inúmeras as pistas de análise e extensos os actores e as redes a
analisar. Com a percepção que fica de que estas redes ultrapassam, amplamente,
o território nacional.
O livro de Luísa Oliveira, para além de facultar um olhar rigoroso e amplamente
distanciado de uma perspectiva imbuída de conotações de pendor ideológico sobre
a inovação (um risco que sempre se corre quando se abordam temas de elevado
interesse político), constitui uma reflexão crítica acerca da problemática da
inovação e lança inúmeras propostas de reflexão teórica e de pesquisa empírica
constitutivas de um terreno fértil de investigação nos estudos sociais da
ciência.
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Investigadora do CIES, ISCTE-IUL. E-mail: luisa.veloso@iscte.pt