A matemática das coisas
A matemática das coisas
[Nuno Crato, 2008, Lisboa, Gradiva]
Teresa Patrício*
A Matemática das Coisasé um livro de divulgação científica que faz uma difusão
do conhecimento científico, neste caso com pequenas histórias da matemática,
para públicos não especializados. A divulgação científica ou a popularização
da ciência tem servido como um instrumento para tornar disponíveis
conhecimentos e tecnologias que promovem o conhecimento, que ajudam as pessoas
a familiarizar-se com a ciência, e ajudam avaliar e medir os riscos da ciência.
Em forma de pequenas histórias divertidas, Nuno Crato mostra que a matemática é
essencial no mundo moderno e que pode ser compreendida por todos. O Prefácio
dá-nos logo indicação de que o livro A Matemática das Coisaspretende
descortinar a importância da matemática no quotidiano. Os computadores não
teriam sido possíveis sem a lógica binária, a teoria dos grupos e o conceito
matemático de informação. Os nossos telefones não funcionariam se não tivessem
existido o estudo estatístico de sinais e os algoritmos de digitalização e
compressão de dados. Os semáforos automáticos não seriam eficazes sem os
desenvolvimentos de uma área da matemática aplicada designada por investigação
operacional. O objectivo é claro: suscitar a curiosidade do leitor para a
matemática.
O livro está dividido em cinco subtítulos: coisas do dia-a-dia, a terra é
redonda, coisas secretas, arte e geometria, e coisas matemáticas. Os temas são
muito variados. Encontramos pequenas histórias, entre três a sete páginas cada,
que explicam os paradoxos do pára-arranca, da melancia e do bolinho, as
diferentes maneiras de atar os atacadores, as origens do Sudoku, como nos
orientamos pelo GPS, os processos de codificação e linguagem secreta, o formato
de papel A4, o acaso, as probabilidades e muito, muito mais. Ao todo, são 45
histórias da matemática que aumentam a nossa compreensão e o nosso prazer com
esta ciência.
Acções de divulgação científica têm vindo a ganhar espaço e importância no
mundo moderno, sendo cada vez mais objecto de estudo e de análise. As atitudes
e o conhecimento dos cidadãos sobre a ciência passaram a ser objecto de estudo,
tanto nos Estados Unidos como na Europa. A União Europeia, através dos
Programas Quadro de Investigação e Desenvolvimento, financia e promove
actividades de divulgação científica. O programa específico Ciência na
Sociedade promove o conhecimento, designadamente a ciência, a tecnologia e a
inovação, como necessários para enfrentar a modernidade na Europa. O estudo da
cultura científica é um elemento importante na análise da sociedade do
conhecimento e a sociologia tem analisado a relação entre ciência e sociedade
em Portugal (Costa, Conceição e Ávila, 2007). As actividades de divulgação
científica têm também adquirido uma importância indispensável no apoio às
actividades escolares e orientadas para um público mais jovem. Iniciativas como
a do Programa Ciência Viva na área da divulgação da matemática, como a
Matemática das Coisas, decorreram durante 2008.
O Nuno Crato já publicou outros livros de divulgação científica, como Passeio
Aleatório. Pela Ciência do Dia-a-Dia (2007), A Espiral Dourada(2006), Trânsitos
de Vénus(2004), Zodíaco. Constelações e Mitos (2001), Eclipses (1999). O autor
recorre a situações quotidianas que integram a vida de todos nós para mostrar
como estamos cercados pela ciência, não podendo viver sem ela. Muitos dos
textos de A Matemática das Coisasforam já publicados no semanário Expresso. São
histórias com relevância na nossa vida actual como, por exemplo, histórias de
confusões nas auto-estradas por não se seguirem regras da geometria cartesiana
ou como utilizar algoritmos para dividir o bolo-rei em partes equitativas entre
amigos. Não se trata de linguagem numérica ou de fórmulas de matemática, porque
até há poucas no livro, mas de uma linguagem clara e compreensível.
O subtítulo da obra Do papel A4 aos atacadores de sapatos, do GPS aos
engarrafamentos de trânsito indica que a abordagem pretende ser ligeira mas
repleta de exemplos concretos. Mas em todas as histórias o autor não foge a
utilizar a matemática para explicar padrões, paradoxos, coerências, inter-
relações e previsões.
Explica a utilização de algoritmos para resolver problemas de partilhas, ou
melhoria da capacidade dos computadores, descreve a evolução do interruptor, a
origem do número pi e sua importância, quer na estatística, quer na descoberta
de objectos celestes. Aborda a influência da matemática nas obras de Picasso,
Pollack e Escher. Faz ligações às influências históricas e filosóficas; resume
os contributos dos grandes matemáticos do passado; referencia filmes, livros e
pinturas; utiliza ditados populares, anedotas e imagens. Nuno Crato escreve com
grande clareza, num estilo acessível, sobre a matemática na nossa vida.
O impacto de livros de divulgação científica, como A Matemática das Coisasmede-
se pela sua capacidade de atrair e de suscitar curiosidade pela matemática.
Galardoado pela Comissão Europeia com um European Science Award, na categoria
de divulgador científico, Nuno Crato é simultaneamente professor de matemática
e divulgador científico.
Referência bibliográfica
Costa, António Firmino da, Cristina Conceição, e Patrícia Ávila (2007),
Cultura científica e modos de relação com a ciência, em António Firmino da
Costa, Fernando Luís Machado e Patrícia Ávila (orgs.), Sociedade e
Conhecimento, vol. II, Lisboa, CIES-ISCTE/Celta Editora.
* Teresa Patrício. Centre de Recherche sur la Science et la Technologie,
Université de Québec à Montréal e CIES, ISCTE-IUL.
E-mail: mtpatricio@gmail.com e teresa.patricio@iscte.pt.