Quando a multidão e o amor se encontram na literatura
O percurso sociológico deste ensaio em busca da relação entre Eros e a multidão
em obras literárias marcadas pela cidade e pelo amor burguês ou proletário
(este em contraponto ao anterior) inicia-se nas duas cenas de multidão de
Madame Bovary, de Gustave Flaubert, publicado em 1857. De seguida, fazemos
passagens breves por um soneto de 1861 e pelos Paraísos Artificiaisde Charles
Baudelaire de 1860 e pelas Confissões de um Opiómano Inglêsde Thomas de
Quincey, de 1821. O destino do nosso percurso tem como principal objecto dois
contos portugueses, o primeiro com uma narrativa proletária, A Ruiva, escrito
por Fialho de Almeida em 1878, e o segundo um amor burguês, um Amor de
outrora, de Florbela Espanca, escrito em 1927, protagonizado por uma burguesa
nervosa 70 anos depois da Bovary. Os amores narrados em todos os textos têm em
comum serem socialmente reprováveis: a Bovary casada e seus dois amantes, os
dois desconhecidos que cruzam olhares na rua parisiense no soneto de
Baudelaire, o proletário e a lumpen-proletária ruiva que juntam os trapos no
conto de Fialho, e a divorciada com o médico casado no de Florbela Espanca. Em
todos os textos não é importante ou é mesmo ignorada a caracterização classista
ou outra da multidão, tratando-se apenas, como escrevia Walter Benjamin
referindo-se à obra de Baudelaire, da multidão amorfa dos passantes, as
pessoas na rua (1969: 165). Nos textos, todos os protagonistas beneficiam do
anonimato ou da desatenção que a multidão urbana proporciona na sua interacção
desfocada (Giddens, 1989: 621). Não ocorre em nenhum deles um exacerbamento
visível do erotismo dos que participam na multidão, como nos excessos das
multidões criminosas de O Terramoto no Chile de von Kleist (1986), Germinalde
Zola (1978) ou Amanhãde Abel Botelho (1901), verificando-se antes a
transferência, para os pares ou indivíduos isolados, da carga erótica existente
nos colectivos humanos. Mas também poderá subentender-se que a excitação dos
apaixonados resulta da líbido que Sigmund Freud identificou em 1921 como razão
de ser da multidão (Freud, 1993). Em todos os textos a multidão provoca a
excitação dos sentidos e uma sensação de moleza ou cansaço e em todas as cenas
há uma forte relação com a chegada do crepúsculo e da noite. Mas é a multidão,
mais do que a noite, que literariamente permite aos amantes iniciarem uma
relação amorosa como se ela fosse aceite pela sociedade. Em todos os textos,
porém, está directa ou indirectamente presente a impossibilidade de os amores
proibidos serem aceites pela multidão enquanto símbolo da sociedade. Todos os
textos terminam com separações ou morte. Desta forma, a multidão erotizada é
ambivalente: ela proporciona a relação erótica, mas não a sua aceitação social.
Ela dá ou representa quer o que há de bom na vida em sociedade a
sociabilidade, o amor quer a coacção dos valores colectivos sobre os
indivíduos.
Ao contrário das ciências sociais de final do século XIX, que teorizaram sobre
a dissolução da individualidade no seio da multidão, a literatura prosa e
poesia desde um século antes acentuavam-na. Goethe na sua Viagem a Itália, de
1786/7 mas publicada em 1816/7, escrevia: Não me sinto mais só do que numa
grande multidão através da qual cada um faz o seu próprio caminho (segundo
Plotz, 2000: 18). A observação de Goethe aplicava-se a ele mesmo. A posição dos
autores que começam nesta época a escrever sobre a nova experiência urbana é
diferente quando se aplica ao outro: nessa altura já vêem muitas vezes a
multidão como uma massa indiferenciada à qual o artista deve opor-se. O próprio
Goethe, na mesma obra, escreveu por exemplo: O que acima de tudo me importuna
é novamente o povo uma grande multidão, um necessário, involuntário existir.
1
E em Inglaterra, outro poeta, Wordsworth em Residence in London, de The
Prelude, de 1805, usa a multidão para testar os poderes da literatura contra
os efeitos da despersonalização das multidões urbanas e para reafirmar a
capacidade da poesia para oferecer o caos controlado em vez delas (Plotz,
2000: 3). Essa concepção repete-se noutros autores, sendo o texto mais
conhecido, na primeira metade do século XIX, o conto O homem das multidões,
de Edgar Poe, de 1849 (Poe, 1903). Se em De Quincey já encontramos a
possibilidade de a multidão proporcionar o encontro amoroso e até a salvação,
como veremos adiante, será necessário chegar a segunda metade do século para a
multidão se revelar como medium erótico: o amor burguês salta do salão para a
rua e procura o anonimato da multidão para ultrapassar o espartilho das
convenções sociais.
Começando na Bovary: os efeitos naturais da multidão na literatura
Os dois amores extraconjugais de Emma Bovary, os dois únicos, explodem em
desejo no meio da multidão. Ambas as cenas, são, como todo o romance, a
perfeição em si (Henry James, segundo Flaubert, 1999: 45). Na primeira, Emma
anseia e cede à sedução de Rodolphe no meio dos Comices Agricoles, que reúnem
toda a gente da vila (p. 233). Na segunda, a Bovary transforma o
reaparecimento inesperado do seu platónico amor de antes, Léon, no início de
uma nova paixão enquanto no palco da ópera de Rouen se desenrola o romantismo
exacerbado da Lucie de Lammermoor.
Primeira cena multitudinária. Charles Bovary não está, Rodolphe acompanha Emma
na feira agrícola onde se expõem proezas locais da agricultura e criação de
gado e se entregam muitos prémios após longos discursos. No seu romance de
1857, Flaubert introduziu deliberadamente nesta cena a sua pequena multidão
formada de todos os protagonistas e personagens secundárias além da multidão
propriamente dita. No capítulo de 30 páginas a multidão aparece dez vezes, a
multitude três, a gente (monde) duas. É uma multidão aberta, alegre e ordeira
em dia de festa, um dia, diz a Bovary, soberbo com toda a gente na rua e
vento de leste (p. 233). Fazia calor (p. 236). Flaubert junta com uma mestria
sem igual a descrição da feira e a narração dos seus eventos, que se cruzam com
o encontro de Emma e Rodolphe num efeito de complexa montagem paralela que o
cinema retomará mais de meio século depois. Enquanto a sociedade local se
compraz com os seus alcançamentos económicos ao abrigo da ordem burguesa,
Rodolphe caça a nova presa com palavras e gestos de romantismo quanto baste e
ela deixa-se levar consciente, mas só depois de dizer: Mas é bem preciso, diz
Emma, seguir um pouco a opinião da gente e obedecer à sua moral. (p. 243). O
leitor, acompanha nos mais pequenos detalhes os movimentos das pessoas, os
discursos a par e passo, os sons de gente e de música, mas o leitor sabe o que
a multidão não sabe, que Rodolphe e Emma iniciam um affaire à vista de todossem
ninguém o ver.
Sente-se o prazer dos dois em absorverem o calor da multidão, ignorando-a,
aproveitando-a melhor que ninguém, de algum modo enganando-a. O conquistador,
aproximando-se de Emma e falando-lhe em voz baixa, sabe usar as palavras para
colocar o amor nos antípodas do resto do mundo: Esta conjura do mundo não a
revolta? Não haverá um só sentimento que ele não condene? Os instintos mais
nobres, as simpatias mais puras são perseguidas, caluniadas, e quando duas
pobres almas finalmente se encontram, tudo está organizado para que elas não se
possam juntar. (p. 245).
Emma deixa-se ir. Tem-no ali perto dos olhos, até o cheiro da pomada capilar
dele lhe chega às narinas. Então foi tomada duma moleza que a fez lembrar
momentos passados de quase romance (pp. 245-246). A doçura desta sensação
penetrava assim os seus desejos de antigamente. O erotismo cresce ao mesmo
ritmo dos sons da multidão: Ela tirou as luvas, limpou as mãos; depois, com o
seu lenço, abanava-se, enquanto através do batimento das têmporas ouvia o rumor
da multidão e a voz do Conselheiro salmodiando as frases. (p. 246) Enquanto
prossegue o discurso e, já antes o sabíamos, todas as bocas da multitude se
mantinham abertas, como para beber as palavras do orador (p. 244), a multidão
distraída não pode ver quando finalmente chega o contacto físico: ele tomou a
sua mão; ela não a retirou. (p. 248). A união dos corpos consuma-se ao de
leve, na ponta dos dedos: Rodolphe já não falava. Olharam-se. Um desejo
supremo fazia tremer os seus lábios secos; e molemente, sem esforço, os seus
dedos confundiram-se. (p. 249). Este encontro de valor sexual acontece
enquanto se distribuem prémios à honrada população, em especial a uma mulher
simples e ingénua; mas mais nada pode acontecer ali entre Emma e Rodolphe: A
sessão tinha acabado; a multidão dispersou-se; e agora, lidos os discursos,
cada um retomava o seu estado e tudo voltava ao costume (p. 251).
O adultério está como que consumado, mas a festa agrícola não terminou ainda,
pois falta o festim, ao qual Emma, que Rodolphe acompanhou a casa, regressa
desta vez com o marido, já que, como vimos, na narrativa tudo voltava ao
costume. Flaubert termina o capítulo com amplas citações de um artigo que uma
personagem secundária escreveu para um jornal de Rouen sobre os Comices
Agricoles.
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A primeira citação do jornal compara a multidão com as ondas dum mar em
fúria, sob as torrentes dum Sol tropical que espalhava o calor sobre as nossas
searas (p. 254). A penúltima citação do jornal afirma: constatemos que nenhum
acontecimento deplorável veio perturbar esta reunião de família. (p. 255).
Através da imbecilidade da personagem, Flaubert abandona pelas citações o seu
lugar de narrador omnisciente para regressar ao núcleo simbólico do capítulo: a
multidão como lugar e acção de excitação e a ignorância do momento erótico
entre Rodolphe e Emma, que o jornalista e a multidão não viram mas o leitor-
voyeur conhece.
Na sua segunda cena, a multidão surge nas primeiras palavras: A multidão
detinha-se contra a parede, parqueada simetricamente entre balaustradas. No
ângulo das ruas vizinhas, gigantescos cartazes repetiam em caracteres barrocos:
Lucie de Lammermoor ' (p. 339). Como nos Comices Agricoles, O tempo estava
bom; tinha-se calor; o suor corria nos frisados, todos os lenços de fora
esponjavam as faces vermelhas; e por vezes um vento morno, que soprava do rio,
agitava molemente a borda das tendas em cotim suspensas dos estaminés. As
palavras de antes repetem-se, o ambiente é o mesmo e propicia que Emma viva
outro amor.
A multidão agora acotovela-se na ópera de Rouen, e antes que de lá saiam Emma e
Charles acompanhados pelo reaparecido Léon, a palavra multidão aparece quatro
vezes. A própria multidão é excitante: Um batimento de coração tomou-a logo no
vestíbulo. [...Emma] sorriu involuntariamente de vaidade, vendo a multidão que
se precipitava à direita pelo outro corredor, enquanto ela subia a escada das
premières. (p. 349). Do seu camarote, ela comandará a visão da multidão, tal
como sucedera na festa agrícola e o leitor com ela.
A ópera conquista Emma por completo, a música e a estória do libreto que ela
conhece do romance de Walter Scott: Ela deixava-se ir no embalo das melodias e
sentia-se vibrar ela mesma em todo o seu ser como se os arcos dos violinos se
passeassem pelos seus nervos. (p. 342). A seu lado, o marido não percebe a
história de Lucie e do seu amante, mas a consciência de Emma fundia-se com a
música sobre aquele amor como nenhum outro que a terra conheceu (p. 343).
Charles insiste em que ela lhe explique, porque gosta de se dar conta, mas
ela manda-o calar (p. 344). Será ele quem encontra Léon e o convida para o
camarote. Emma e Léon começam a falar durante o espectáculo e mandam-nos calar:
a multidão, agora, perturba o encontro. A mera presença do seu primeiro amor
extraconjugal (platónico) perturba Emma e a partir desse momento já não ouve
mais a música (p. 347): Ele estava por trás dela, apoiando-se pelo ombro no
tabique; e, de vez em quando, ela sentia-se tremer sob o efeito do sopro morno
das narinas dele que desciam sobre a sua cabeleira. (p. 348). O calor é
insuportável. Emma sufoca. Agora é Charles que se interessa pelo enredo mas
eles estão ali a mais. Saem e vão conversar à beira-rio num café. Com a
cumplicidade ingénua do marido, que nunca se dá conta, Emma e Léon marcam
encontro para o dia seguinte (p. 348-351).
São estas, em resumo, as duas cenas de multidão deMadame Bovary, as duas cenas
em que Emma, no calor do evento e na ignorância dos outros sobre os seus
sentimentos e desejos, se entrega aos seus dois únicos amantes. Muitas vezes a
literatura voltará a esta cena-padrão, seja no ambiente urbano ou burguês, seja
no ambiente rural das festas religiosas que o erotismo e a violência paganizam.
Esta multidão, como Flaubert deixa entender, é erotizante, é quente; no seu
seio, todos são iguais, tanto no comício agrícola como no teatro enquanto
espectadores; ela permite uma proximidade física despercebida; excita o olhar,
o odor, o ouvido, a pele; os amantes excitam-se no anonimato que a multitude
favorece. Mas, em simultâneo com o seu erotismo, a multidão é castradora, pois
se proporciona a aproximação também impede a consumação do amor: primeiro, Emma
e Rodolphe não passam da simbólica penetração do entrelaçar dos dedos e à noite
o marido interpõe-se; não admira que Flaubert faça do fogo-de-artifício um
falhanço, que não o deixe arder e que faça até cair uns pingos de chuva (p.
253); depois, a ópera que era o enlevo de Emma torna-se-lhe insuportável ao
reencontro de Léon. Só longe da multidão estarão como amantes numa cena
memorável, Emma e Léon consumam a relação dentro de um fiacre de estores
descidos que o cocheiro conduz durante toda a tarde por todas as ruas, praças,
bulevares, cais e pontes de Rouen, coisa tão extraordinária que os burgueses
da cidade nunca tinham visto (pp. 371-373). Só assim, longe dos olhares da
multidão, mas atrevidamente no meio dela, os dois podem amar-se plenamente.
A mesma ambivalência da multidão face ao amor está presente no extraordinário
soneto de Charles Baudelaire, À une Passante, de 1861, A uma Traseunte
nesta tradução de Maria Gabriela Llansol (2003: 213-215):
A rua ensurdecedora em meu redor berrava. Alta, esguia, de luto carregado, dor
majestosa, Uma mulher passou, com sua mão faustosa Erguendo, baloiçando o ramo
e a bainha,
Ágil e nobre, com sua perna de estátua. Eu bebia, crispado como extravagante,
No seu olhar, céu lívido onde nasce o furacão, A doçura que fascina e o prazer
que mata.
Um raio em seguida, a noite! Beleza fugitiva Cujo olhar me fez repentinamente
renascer, Só voltarei a ver-te na eternidade?
Algures, bem longe daqui! Demasiado tarde! Nunca talvez! Eu não sei para onde
fugiste, tu não sabes para onde vou, Tu que eu teria amado, tu que sabias que
sim!
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Como notou Benjamin sobre este soneto, a multidão não é em parte alguma
nomeada por palavra ou frase e, no entanto, todo o evento depende dela (1969:
168), com a rua ensurdecedora berrando e o narrador no café, voyeur, vendo a
mulher que passa, como o narrador de Poe em O homem das multidões (1903;
Baudelaire traduziu-o para francês). Este encontro de olhares, tempo de um
clarão, um flash, é suficiente para fazer nascer o furacão e o prazer erótico
que mata o prazer de estar na multidão.
O crepúsculo é aqui metáfora do fim do encontro, uma visão mais negativa do que
o habitual anseio do momento em que chega a noite urbana. Em O Pintor da Vida
Moderna, de 1863, no texto em que enaltece o pintor que idolatra a multidão,
Baudelaire acentuava a interpretação subjectiva da mudança física na paisagem
urbana ao crepúsculo: É a hora estranha e duvidosa em que as cortinas do céu
se fecham, em que as cidades se iluminam. O gás de iluminação imprime uma
mancha sobre a púrpura do pôr-do-sol. Honesto ou desonesto, sensatos ou loucos,
os homens dizem a si mesmos: O dia terminou, enfim!' (Baudelaire, 2004: 19)
Entre o dia e a noite, a multidão aproxima, a multidão separa; a multidão dá, a
multidão leva. Parece haver ao mesmo tempo um encantamento, um deleite do
poeta urbano apaixonado não à primeira vista, mas à última vista (Benjamin,
1969: 169). O erotismo que se liberta dum olhar anónimo e fugidio não pode
concretizar-se no amor físico. Desta forma, o erotismo do encontro transfere-se
para a própria situação, para a própria multidão, ela que, porém, deixa de
existir quando a troca dos olhares interessa aos que os trocam. O fim da
relação é o preço a pagar pela maravilha do encontro fortuito, inesperado,
efémero como a multidão. Fica no ar a promessa de novas trocas de olhares,
novas passantes Nas Confissões de um Opiómano Inglês, de 1821, que Baudelaire
admirava e sobre a qual escreveu em 1860 Um Consumidor de Ópio (Baudelaire,
2001: 81-204), Thomas De Quincey vai mais longe: ele deve a vida à Ann, Ann de
Oxford Street, uma prostituta da rua que numa noite fria lhe estendeu um cálice
de Porto: é como se a própria multidão tivesse salvo o autor-narrador e,
depois, lhe tivesse roubado a corporização dessa salvação sem saber o apelido
de Ann, ele nunca mais consegue reencontrá-la. A multidão não tem apelido: Ann
nunca me tinha dito ou então eu (por ser coisa de somenos interesse) tinha-me
esquecido do sobrenome dela. E, assim, no labirinto de Londres, teremos
estado a poucos passos um do outro, mas numa rua de Londres, essa pequena
distância pode transformar-se em separação eterna (De Quincey, 2001 [1821]:
61, 73-74).
De Quincey tinha combinado com Ann que se procurariam em determinados locais às
seis da tarde, quando o dia acaba e a noite começa, numa certa rua até então
paraíso dos nossos encontros (ibidem). No soneto de Baudelaire o fugaz
encontro que não chega a ser termina com a noite, isto é, com a sua própria
morte: o poeta leva-nos de imediato para pensamentos de eternidade. Mas, no seu
primeiro romance, Flaubert não poupou a protagonista: quando se torna
impossível esconder o seu passado adúltero, quando o prestamista ameaça
publicitar as dívidas dele resultantes, quando a realidade mesquinha se
interpõe ante os sonhos das suas leituras românticas, quando a sociedade/
multidão está na iminência de finalmente saber o que Emma lhe escondeu, Emma
prefere a morte atroz pelo veneno. A última aparição da multidão é no seu
enterro, mas os acenos dos que assistem, não são para ela, mas para o viúvo:
As pessoas punham-se às janelas para ver passar o cortejo. Carlos, à frente,
mostrava-se curvado. Punha um ar grave e saudava com um sinal os que,
desaguando das portas ou das ruelas, se juntavam à multidão. (p. 486) Pode
Flaubert eximir-se de exprimir o seu ponto de vista moral, mas exprime o da
sociedade.
A Ruiva: quando uma lumpen-proletária desliza pela multidão burguesa
Datado de 1878 e publicado em 1881, A Ruiva é um conto da cidade de Lisboa
(1881: 118). Conto naturalista: o meio infraproletário e a hereditariedade
traçam o destino da jovem Carolina. A filha do coveiro bêbado e totalmente
desenraizado gosta de apalpar cadáveres e tem palpitações e excitações a cada
página. Nem mesmo se pode falar de anomia, pois Carolina não tinha sociedade:
Não tinha a menor ideia do que fosse ter mãe ou ter amigas. No seu contacto
com a gente, entrevira apenas o tenebroso fundo de bestialidade que referve em
cada homem, comum fragor de luxúria cruel. Vivera sempre em si própria (p.
108). Ela crescera naquela incultura de espírito sem guia (idem). A sua
pobreza extrema e a miséria moral ocorrem na cidade mas, de algum modo à sua
margem e até no seu limite urbano, no mundo dos cemitérios. A ruiva e o pai
mais parecem mortos-vivos da sociedade. Ao contrário, João, o companheiro de
Carolina, depois de perdido na cidade ganha um rumo mínimo de moralidade e
trabalho: é marceneiro e vive segundo as regras morais do proletário não nos
são apresentadas como as melhores, mas possibilitam a integração e a ascensão
social.
A Ruiva vive sozinha numa casa que não cuida nem nunca soube cuidar, o pai
passa as noites nalgum jazigo. Não tarda que ela sonhe com o corpo de lutador,
de atleta de peito cheio e poderoso do João marceneiro (p. 36) Também ela
era atraente (p. 38). Trivial e pequena como era, excitava assim mesmo. E ela
mesma se devorava com o olhar (p. 39). João e Carolina juntam-se e vivem um
intenso amor erótico. Mas ela não sabe cuidar da casa. Ele desinteressa-se dela
e namora outra, ela vai trabalhar para a fábrica de tabaco em Alcântara,
fábrica também de prostitutas. Para a Ruiva desde sempre a prostituição
desenhava-se-lhe como a solução natural no problema da vida de uma rapariga
pobre (p. 41), pois para pessoa pobre não havia outra vida, Que ser séria
era bem bom falado, mas o resto, tudo patacoada. (p. 40) Sempre levada por uma
alcoviteira, a Ruiva prostitui-se com gosto, morre, é enterrada sem qualquer
emoção pelo próprio pai. Três dias depois, tem o narrador a sua caveira limpa
de cartilagens em cima da banca e termina o conto: Este despojo inerte,
rendilhado e esponjoso pelos estragos do hidrargírio, embalde interroga a
meditação que me abisma, sobre as causas prováveis da grande desmoralização
actual. (p. 118)
Conto sobre a desmoralização das classes baixas, só nas últimas palavras o
autor refere o tema social. Como os outros naturalistas, descreve o problema a
partir do ponto de vista burguês, moraliza-o através da ficção, mas, por ser
ficção, não pode apresentar soluções, pois destruiria precisamente o universo
ficcional do texto. Zola defenderá isso na mesma altura: Um experimentador não
tem que concluir, pois, justamente, a experiência conclui por ele. A intenção
teórica resulta da experiência: como [nós os autores naturalistas] somos
experimentadores sem sermos práticos, devemos contentar-nos de procurar o
determinismo dos fenómenos sociais, deixando aos legisladores, aos homens da
aplicação, o cuidado de tarde ou cedo dirigirem esses fenómenos, de maneira a
desenvolver os bons e a reduzir os maus, do ponto de vista da utilidade humana
(Zola, 1880: 29). É por isso que a referência político-social termina o texto
de A Ruiva abruptamente; o autor-narrador abstém-se de enunciar as causas da
desmoralização neste local estratégico do texto (Santana, 2007: 216). É
importante notar que a ficção era a forma mais eficaz de a burguesia ilustrada
debater no espaço público questões político-sociais numa época em que as
ciências sociais apenas arrancavam. Benjamin Disraeli, mais tarde primeiro-
ministro, explicou porque escreveu as suas ideias políticas em ficção, na
trilogia política Coningsby (1844), Sybil(1845) e Tancred (1847): a ficção, na
índole dos tempos, oferecia a melhor hipótese de influenciar a opinião
(Briggs, 1975: 98).
Vamos ao que mais nos interessa, as cenas de multidão neste conto brilhante.
Encontramos alguns pontos comuns com a envolvência erotizante de Madame Bovary,
apesar de estarmos nos antípodas da sociedade burguesa de província.
O primeiro encontro de Carolina com João decorrerá no arraial, depois da
procissão. Esta forma organizada de multidão passa ao lado da narrativa, pois a
religião não entra no mundo subproletário da Ruiva. Como na Bovary,passamos da
tarde para a noite. Havia arraial nessa tarde e a procissão terminava à porta
do Cemitério dos Prazeres, à noitinha, em meio de foguetes e aromas de peixe
frito, cuidadosamente consumido pela fome do povoléu curioso. Os rostos são
vulgares e bestiais, há confusão de grupos, ruídos multíplices no ar e
das contínuas pulsações resultantes elevava-se um ruído uniforme e indistinto,
como de ebulição longínqua. (p. 25) O ruído crescia. É a hora fatal do
crepúsculo, a tarde e a noitinha chegam a entrar na mesma frase: Na tarde do
dia seguinte deviam encontrar-se à noitinha, quando os pássaros se amam, no
mistério das ramarias, pensava a Ruiva na véspera (p. 39). E no dia do arraial
o sol mergulhava com uma pompa escarlate, no silêncio do rio, e o poente
inflamado era de uma amplidão sem balizas. Dentro do cemitério o mesmo
movimento de quem ia e vinha. Bebia-se. E todo o mundo ria a sua pândega, a
fazer arraial com grossas bobages cruas de taberna e de oficina. (pp. 27-28)
Quando João e a Ruiva se encontram nos Prazeres, sob os auspícios da Marcelina,
velha rameira e alcoviteira, desperta o desejo: Carolina sentia um quebramento
fundi-la toda, era do calor, da fadiga da tarde, talvez da contemplação do
sítio (p. 46) o cemitério. Carolina devorava-o e por seu lado, o João
fitava-a com fúrias de novilho que desperta (p. 47). A mesma moleza e o mesmo
desejo da Bovary. A mesma virilidade de Rodolphe. Estas mulheres são como
bacantes urbanas, bacantes dos tempos modernos que se deixam enlevar pelo
movimento da multidão e o ritmo da cidade, elas e eles absorvem a multidão e a
cidade como estados de desprendimento ou de transcendência psíquica e de
incitamento eufórico desinibidor e trangressor dos constrangimentos impostos
pela sociedade como na sociedade antiga (Santos, 2005: 224-225). Não só em
festas e arraiais a cidade proporciona momentos para esta efervescência. Nas
suas Confissões,Thomas De Quincey (2001 [1821]: 99-103) fala do prazer em
circular pelas ruas de Londres quando os pobres fazem compras ao sábado à
noite, prazer que, segundo Plotz, deriva de permitir guardar tudo o que é bom
no social e evitar o seu requisito coercivo de obrigações posteriores,
interacções de longo prazo (Plotz, 2000: 80).
Quando a noite cai, todos saem do cemitério menos João e Carolina. Ele segura-
a feroz, ela resiste mas não muito. A multidão dos vivos nada vê, a dos mortos
não fala. Ele toma posse dela, combinam consumar o amor mais tarde, regressam
ao convívio da Marcelina, vão comer para a taberna do bairro periférico. Este é
o espaço público dos pobres, onde o novo casal se pode mostrar depois de
acordar no namoro. O espaço público dos burgueses é no centro da cidade e é só
para eles verem. Carolina e João passaram a encontrar-se diariamente quando ele
saía do trabalho:
De ordinário vinham por S. Pedro de Alcântara, S. Roque, até ao Chiado. Àquela
hora as ruas atulhavam-se de gente abafada em capotes felpudos, carruagens
cheias de mulheres melancólicas; um largo ruído emergia da luz, da vida e da
enorme respiração da cidade, escapando-se nos ares num tom indistinto e
abafado. (p. 88)
Fialho detém-se na descrição à porta desta ou daquela loja. O público
habermasiano diverte-se:
À porta da Havanesa um forte grupo enchia o asfalto; caras em sombra saíam das
golas altas; de todos os lados partiam rumores de palestras que apanhadas de
relance davam a diversidade mais curiosa e frisante; marialvas pálidos e
bonitos, altas pernas apertadas em calças prenhes de joelheiras, chupavam
cigarros em grupo, provocando as costureiras que recolhiam dos armazéns;
militares secos, sonoros de esporas, uma curva de espinha, discutiam às
esquinas. (idem)
Carolina e João observam, como de fora, o mundo dos outros. Ela com inveja
negativa, ele com inveja positiva, desejando subir:
Dum lado e doutro a fileira de transeuntes seguia, gente de todas as castas,
mulheres embuçadas em mantas, rapazes débeis e palreiros, velhos dilettanti da
ópera que faziam a digestão com charutos fortes; ao trote de grandes parelhas,
as famílias iam para S. Carlos, recostadas nos cochins dos coupés; e Carolina
invejosa da vida que não vivia e da opulência que a deslumbrava, ia picando as
cenas de comentários amargos, um vago rancor de proletária. O João murmurava de
quando em quando: Isto é o tom, isto é o tom! (pp. 88-89)
As lojas são vistas e descritas de fora, a partir das montras. Como no arraial,
sente-se o ruído da cidade, mas os sons, no Chiado e no Rossio, têm outra
categoria, são uma confusão afrancesada, um tohu-bohu. Não falta o sinal sonoro
do símbolo do espaço público burguês: Sentia-se apregoar o Jornal da Noite.
(p. 89) Esta é a multidão do outro mundo, das lojas ricas (versus miséria), das
fatiotas (versus trapos andrajosos e pelintras), dos cafés (versus tabernas),
do espectáculo (versus arraial), multidão no meio da qual os proletários
deslizam sorrateiramente como estrangeiros:
Eles atravessavam a multidão, isolados no ruído como estrangeiros. A rua nova
do Carmo tinha menos gente, menos luz. ( ) Sobre o Rossio caía a cúpula
tenebrosa da noite, como um assombro legendário; em D. Maria, acima da arcada,
pontinhos de gás escreviam espectáculo; em torno da praça rolavam os trens;
soldados risonhos saracoteavam-se na penumbra entre os grupos de velhos
celibatários; o Martinho estava cheio de estudantes e de literatos; e
contratadores de senhas, cauteleiros e americanos em marcha faziam um ruído
infernal e contínuo, o tohu-bohu das capitais exaltadas pela nevrose da noite.
Eles iam seguindo vagarosamente. Fechavam as lojas. Chegavam de ordinário a
casa muito tarde. A vizinhança dormia. No relógio da Estrela badalavam quartos,
som lúgubre. Passavam a noite amando-se, jurando a si mesmos fidelidades
eternas e amores fenomenais. (pp. 89-90)
Este amor intenso aparece aqui como consequência da passagem na multidão, ela
consagra de novo a relação entre a lumpen-proletária e o proletário. Carolina e
João juntam os trapos na casa dela e começam um amor canino e desonesto (p.
90). A casa era um nojo. Ela não limpava, não sabia lavar nem engomar camisas,
nem mesmo sabia o que era um refogado. Diz-lhe ele: Em cousas de cozinha, a
modos que sei mais que tu. ( ) que te ensinaram então? (p. 93) Ela chora,
reconhece que não sabe lidar da casa, fazem as pazes. Mas as coisas não ficam
na mesma. João fica em casa no domingo, o único dia de passeio e descanso, a
fumar à janela:
Via passar na rua grupos todos asseados, mulheres vermelhas e fortes, cheias de
saúde e de alegria. E sem querer punha-se a compará-las com Carolina, tão
linfática, tão desleixada e tão pouco limpa. Homens iam de charuto, fumegando
com pompa, bengala, suas botas engraxadas, camisa muito branca. E ele não
tivera camisa lavada, nem gosto para dar o seu giro às hortas ou ao passeio.
(p. 96)
Nada resulta. Ele protesta, ele tenta, mas ela não consegue abandonar a antiga
preguiça: não lhe passava pela cabeça que cativaria o seu homem, tornando-lhe
o lar alegre, limpo, fresco, fazendo luzir a boa ordem, a boa administração e o
decoro nos mais simples pormenores da residência. Fora do pecado mortal, não
tinha préstimo, nem imaginação, nem propósito. (p. 98) A multidão, onde todos
são iguais, proporcionou o encontro entre os dois, mas agora vêem que não são
iguais. Cada um para o seu lado, compreendem que não podem viver uma vida como
a que a sociedade sugere.
Um dia o João achou-a fétida (idem) e a relação não voltou a ser a mesma. Ele
arranjou outra. A Marcelina recomendou a Carolina que fosse trabalhar para uma
fábrica: Olha, podes-te empregar na fábrica, dois tostões por dia; leva-se
lunch. E muito baixo: Para quem quer reinar, nada melhor. (p. 106) Carolina
define as operárias como gente sem vergonha, mas para a Marcelina, se não
houver condenação social, tolera-se: Em se evitando falas do povo, deixa
andar. (p. 106) Carolina decide entrar na fábrica, em Alcântara (p. 111),
mas este meio social não a ajudará a evitar o abismo moral: À entrada da
fábrica, os operários davam-lhes abraços, com grande intimidade; tratavam-se
todos por tu, com uma algazarra incorrigível e, enquanto se trabalha, contam-
se histórias pagãs de gente sem vergonha, de uma sordidez de viela. Sem grande
esforço Carolina aceitou estes hábitos que se afiguravam de uma naturalidade
legítima, tão sincera e tão cómoda (p. 112). Ao mesmo tempo, a Marcelina vai-
lhe ensinando a arte de ser prostituta. Teve, a partir daqui, pelo menos, uma
dúzia de amantes, amantes de uma semana, de um dia, preferidos à noite,
esquecidos no dia seguinte (p. 113). João sai da sua vida. Desde esse dia as
aventuras vieram-lhe por centenas (p. 114). Volta ao centro da cidade, agora
sem João mas com a colega operária: À hora dos teatros, quando nas ruas da
cidade baixa fervilha inquieta a multidão dos que digerem, e giram buscando par
os velhos viciosos e os rapazes definhados, ela descia do seu bairro obreiro
mais a Jerónima, paramentadas ambas de arrebiques pelintras (p. 115). A
multidão do centro da cidade vinga-se da Carolina que a atravessava como um
voyeur e invejando-a: a multidão dos que digerem penetra-a, come-a, mata-a.
Anonimatoversusidentidade na multidão num conto de Florbela Espanca
Escrito em 1927, o conto Amor de outrora, de Florbela Espanca, utiliza com
mestria a elevação da multidão anónima da cidade à condição de elemento
erotizante. O conto, que resulta de uma visão e de uma escrita femininas,
descreve o inesperado reencontro, 15 anos depois, de Cristina e de Manuel de
Almeida, agora médico.
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O amor adolescente estava arquivado, mas não esquecido. Agora, aos 30 anos,
ela tem um lindo corpo (pp. 118-120) e ele é um rapaz alto e louro, muito
distinto (p. 107). Uma analepse dir-nos-á mais à frente que aos 15 anos
viveram um amor intenso e profundo de juventude, povoado ao mesmo tempo de
loucas horas e sentimentos castos (p. 111), mas não consumado (p. 120). As
vidas seguiram diferentes caminhos. Ele estava casado e com um filho. Ela
casara-se, divorciara-se, tudo anos de abandono moral (p. 114). A doença que
a leva à consulta adequa-se à narrativa: são nervos; nenhum médico a curara
até então destes bruscos sobressaltos ( ) sustos repentinos ( ) grande mal-
estar ( ), tristeza profunda que, em certos momentos, chegava a ter um carácter
de angústia (p. 108) tudo males de burguesa urbana que um amor verdadeiro
poderá curar. É por isso que Florbela os faz reencontrarem-se no consultório
dele no centro da baixa de Lisboa.
O primeiro recurso da autora à multidão urbana dá-se logo no primeiro diálogo,
quando Cristina diz a Manuel, na presença da amiga que a levara ao consultório:
Julgava-o na província, casado e com bebés Sem responder, ele olhou
vagamente por entre os vidros, que amplos cortinados de guipure
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defendiam de vistas indiscretas, e pareceu absorver-se no espectáculo dos
transeuntes, numerosos àquela hora, por aquele cair de tarde de sábado. (p.
108) Neste período curto há diversos elementos assinaláveis: o médico,
escondendo-se na multidão pelo contacto visual à distância, assimila-se ao
anonimato dos transeuntes, que não tem antes nem depois e que dá refúgio aos
indivíduos com segredos; as cortinas permitem ver a multidão sem se ser visto,
o que, mais adiante, permitirá aos dois retomarem o amor de outrora; a cena
decorre quando o dia se faz noite, hora que envolve multidão e cidade em
mistério e proporciona a sugestão erótica, como já vimos e revimos. Em frente
do médico, Cristina e a amiga nem dão pelo tempo a passar. Quando, passada uma
meia hora, chegaram à rua, ( ) ficaram admiradas de já ser noite. (p. 109)
Agora, sim, estão no meio da cidade, no meio da multidão urbana, vibrante,
anónima, excitante, misteriosa. Aqui, como em Henry James, eleva-se a angústia
do anonimato em lugar de refúgio.
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Florbela detém-se nesta cena.
As duas amigas olharam para o relógio quando passaram pela estação do Rossio:
seis horas. Aconchegaram bem as fartas golas altas dos casacos de peles, que a
noite de Novembro arrefecia já, e dirigiram-se a passos rápidos para a paragem
dos Restauradores. (p. 109)
Os três parágrafos seguintes criam a sua própria lógica: no primeiro a autora
descreve o movimento urbano, no segundo subjectiva a experiência para a
erotizar, no terceiro transfere essa experiência subjectivada para a
protagonista. Note-se que a amiga desaparece da narrativa, como por encanto. Só
a multidão e Cristina existem. Esta encontra-se, como sabemos, num estado
doentio, nervoso, estando assim mais próxima de um envolvimento subjectivado
com o meio ambiente. O mesmo acontecia com o narrador e protagonista de Edgar
Poe em O homem das multidões, cuja aventura começa, também ao fim da tarde,
num café junto duma das mais movimentadas ruas de Londres depois de meses de
doença: Ainda não há muito tempo, ao cair de uma tarde de Outono, estava eu
sentado à janela do hotel D em Londres. Convalescia então de uma doença de
alguns meses (Poe, 1903: 61).
A descrição de Florbela Espanca no início dos três parágrafos que nos
interessam é rápida e económica, mas nada deixa de fora: gente, movimento
viril, luzes, primeiras sugestões metafóricas através das luzes dos veículos e
anúncios:
Naquele sítio, um dos mais concorridos da cidade, ia um vaivém constante de
gente azafamada, correndo dum lado para o outro no assalto aos carros
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e aos táxis que passavam. As luzinhas vermelhas e os fulgurantes faróis dos
autos constelavam a noite de rubis e diamantes. Os cartazes luminosos abriam e
fechavam, como por artes mágicas, a sua irradiação de grandes flores
misteriosas. (p. 109)
Depois do vaivém da gente e do abrir e fechar das luzes, juntando-se num
corropio de movimentos, de pedras preciosas que fazem da noite luz e de flores
desabrochando, a autora transfere esse erotismo natural da cidade (pois se
desprende das coisas e da multidão independentemente da sua vontade) para as
pessoas individuais, para os corpos:
A cidade, a esta hora, exala não sei que perturbadores eflúvios, que embriagam
as almas e amolecem os corpos. A tarde morta levou no seu carro fúnebre, para
as bandas do ocidente, a suave angústia, a saudosa melancolia das horas lilases
do crepúsculo; passou a hora branca das virgens Noite fechada, agora, o céu
acende uma a uma as luzes miudinhas das estrelas, e a cidade veste o seu
vestido de veludo negro, deslumbra-se e enfeita-se de vícios, diadema-se e
aromatiza-se de pecadora beleza, para os que vão chegar As imaginações
esgotadas inventam ainda sabores desconhecidos de novas carícias, os nervos
estorcem-se em novas sensações de bizarrias febris. Os braços das mulheres que
passam traem espreguiçamentos de estranhas luxúrias; as mãos estendem-se mais
cúpidas, mais exigentes, mais ágeis, na caça ao prazer momentâneo que o cansaço
arrasta já; os peitos arfam de suspiros e soluços, os olhos molham-se de
neblinas de sonhos, e os frutos da vida que os dedos crispados colhem são mais
acres e mais saborosos às bocas famintas de beijos. (pp. 109-110)
A interpretação erótica está à flor da pele discursiva. As palavras de Le Berre
a propósito do conto de von Kleist de 1810, O Terramoto no Chile (1986),
aplicam-se a esta cena de Amor de outrora: a multidão constitui um abrigo
protector no qual os indivíduos fundidos num todo não têm necessidade de
assumir os seus actos, esta força que ela comunica, esta fusão das pessoas,
esta sensação de protecção, tudo isso se assemelha a Eros (Le Berre, 2004:
118). Raramente se encontra na literatura da época como no conto de Florbela
Espanca uma tão completa assimilação da cidade multitudinária à beira da noite
com o desejo do encontro sexual. Ainda no plano colectivo, esta subjectivação
inclui já elementos destinados a que o leitor a transfira para a protagonista:
não só ele sabe que ela seguiu do Rossio para os Restauradores num contacto de
pele com pele (o casaco de peles no seu pescoço), como sabe que ela vive uma
excitação habitual dos seus nervos e da sua imaginação que se satisfaz
anonimamente no meio da multidão e das luzes da cidade. Satisfaz, mas não
totalmente. O contacto com os cheiros, com as multitudes de pessoas, de luzes
urbanas e das estrelas distantes apenas acentua como foi incompleto o desejo,
que termina em suspiros e soluços, sonhos húmidos, dedos crispados, bocas
famintas. Este prazer momentâneo e difuso termina num cansaço, não inútil, mas
por cumprir. Regressámos à Bovary.
A cena fecha-se no parágrafo seguinte com a subjectividade centrada na
protagonista: Cristina pareceu aspirar com embriaguez aquele pesado vapor de
volúpia esparsa e semicerrou os olhos garços, com um lento suspiro de fadiga.
(p. 110) Logo depois entra em casa. Sossega a mãe. E só na solidão do seu
grande quarto carmesim e ouro, longe de olhares ansiosos e perguntas
indiscretas ela pode finalmente confirmar o que o leitor já sabia da cena
anterior: que entrando no consultório sentira uma intensa emoção ao
reencontrar o seu amor, o seu primeiro, o seu único amor de verdade e que
tivera de o esconder dele e da amiga. Agora, sozinha, na noite calada e
quieta, ousava lembrar-se (p. 110). Só adormece de manhã, a sorrir, depois
de concluir que regressava ao amor dos quinze anos. A longa analepse termina
dando razão às luzes da multidão urbana e da multidão de estrelas no céu: E
agora, quando julgara todas as luzes apagadas à sua volta, ei-las todas a
arder, em brilhos de festa a deslumbrá-la! (p. 114) Há, assim, um
balanceamento surdo entre o prazer e o usufruto do anonimato na multidão e no
espaço privado, como a casa ou o consultório.
Quando acaba a primeira caixa de injecções, já eles estão de novo apaixonados.
E um dia os braços enlaçaram-se, as bocas uniram-se, e foi o êxtase, o
inebriamento! (p. 116) Protegido do mundo pelos cortinados de guipure, o
casal secreto vive só para si, tudo se esvaeceu em torno. Ao concretizar-se
sexualmente o amor, os outros deixam de interessar. Como refere Freud: No amor
mais forte, não subsiste nenhum interesse pelo mundo ambiente; os amantes
bastam-se um ao outro.
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Numa metáfora, Espanca diz-nos mesmo que eles faziam amor em cima do mundo, da
multidão anónima sem rosto, sempre ela, ao romper da noite, sempre ele: o
mundo começou a ser para eles uma velha tapeçaria desbotada onde a custo se
enxergavam, em esmaecidos tons de crepúsculo, as linhas de vagos rostos sem
vida nem expressão. (p. 116)
O prazer consumado substituía o prazer irreal proporcionado pela multidão
urbana anónima ao cair da noite. Em consequência, a rua torna-se desnecessária
e até hostil. Ainda antes de se envolver com o médico, Cristina sabe há muito o
que a multidão faz quando se deixa de ser incógnito: a vida, o destino que
fala a todos e a cada um, lembra-se e vai procurar com afinco, vai buscar pela
mão, aos seios ululantes das multidões, as almas mais perfeitas para as
quebrar, as mais puras para as perverter, os diamantes de mais bela água para
os sujar, para os salpicar de lama, de toda a lama que os sapatorros da canalha
deixa em traços negros pelas encruzilhadas tenebrosas. (p. 112) Bem diferente
é esta multidão que reconhece os faltosos daquela em que a protagonista se
deixara envolver anonimamente e embriagar com o seu vapor de volúpia.
Cristina e Manuel podem viver um amor censurável aos olhos da sociedade
protegidos pela privacidade do consultório. Mas, meses depois dos encontros no
consultório e numa quinta do Lumiar, começaram a ver-se também nas
confeitarias, afoitando-se às vezes a tomarem o chá juntos, à mesma mesinha;
outras vezes nas ruas, à noite, de braço dado, como dois recém-casados (p.
117). Como o casal proletário de Fialho, trespassam um limiar que não podem.
Não podem viver a relação em público. Ao menos a Bovary e o amante fecharam-se
num fiacre. Este estado de coisas, porém, não podia prolongar-se. Como o mundo
não era um deserto, como a eles lhes parecia, começaram a dar nas vistas;
começou-se a falar, primeiro em voz baixa, depois mais alto, até eles ouvirem
os brados de indignação dos virtuosos sustentáculos da moral. (p. 117)
Como acontece em tantas estórias de amor proibido, os protagonistas sentem-no
legitimado em si mesmo e lutam contra a sociedade e esta opõe-se-lhes, como no
referido conto de Von Kleist (1986). Manuel e Cristina tiveram de se retrair,
foram obrigados a ver-se menos, o que foi para eles uma verdadeira tortura
(p. 117). Afinal, o tal amor que vive por si não vive. Precisa de poder
partilhar-se sob as telhas do mesmo tecto, ao calor do mesmo ninho (p. 118)
precisa, pois, de uma casa, que é como quem diz, da confluência do privado (o
amor) com o público (o casamento). O amor não pode consumar-se em si sem se
prolongar por componentes puramente afectivos (Freud, 1993: 146) e sem a
concretização na sociedade. Manuel e Cristina não podem simular que são recém-
casados. São dois indivíduos agrilhoados aos preconceitos e às cadeias mais
austeras do dever (p. 118). Não admira que Cristina fique nervosa como a
Bovary e regresse ao estado doentio anterior, quando estava desajustada da
sociedade: longe do amante, principiou a emagrecer, a definhar-se, e ele
passa de um amor carinhoso para outro desesperado, com beijos mais rudes e
sensualidades de animal bravio (p. 118).
A relação está bloqueada. A Bovary, quando o seu affaire com Rodolphe já nada
mais dava que 'chateza' e a trivialidade duma chama doméstica' (Koehler,
1967: 61) quer dizer, quando se assemelha ao próprio casamento procura uma
fuga para a frente melhorando o estatuto do seu casamento medíocre, mas falha.
Florbela Espanca insiste ainda na vitória do amor romântico sobre o mundo:
Manuel propõe-se deixar a mulher e o filho e a sua situação profissional e
recomeçar noutro lugar qualquer com ela. A oposição indivíduos/sociedade é
novamente muito clara, e repetida em palavras como matracas, na carta que
Manuel escreve a Cristina: Pensa, pensa bem, mas só em nós, só em nós dois,
que os outros são menos que sombras, são nada, nada existem. (p. 119) Cristina
corresponde ao seu pedido e escreve numa carta de resposta apenas a palavra
sim (p. 121). É como um casamento por procuração, por carta, incógnito mas
não no seio, antes longe da multidão. Florbela Espanca dá ao casal a
oportunidade de vencerem sobre a sociedade: que importava o mundo, os seus
preconceitos idiotas, as suas leis inumanas e ilógicas? O amor era mais forte
que tudo, vencera tudo! (p. 120). Assim é, de facto, mas por poucas horas.
Cristina e Manuel venceram os preconceitos da sociedade, mas não o poder dos
laços de sangue, que estão, afinal, socialmente legitimados no casamento. Antes
de se encontrar com Manuel para saírem juntos para novo destino, ela decide
passar pela quinta a ver o filho legítimo dele, por quem se afeiçoara. E
descobre pela criança que o pai chorara na noite anterior junto da cama do
filho (p. 123). Ela pode lutar contra a sociedade, pois esta está errada; mas
não pode lutar contra os laços de família entre um pai e um filho, pois isso
seria a única má acção da sua vida (p. 123). Desiste. Faz um barco de papel
com a carta para Manuel onde escrevera sim e o miúdo põe-no na água até o
barco se afundar: o sim matrimonial naufraga às mãos do fruto do laço
matrimonial anterior (p. 124). Só um amor vence outro amor poderia ser a lição
moral deste conto, mas Florbela Espanca conhecia as vicissitudes de enfrentar a
sociedade, fosse pela sua experiência pessoal fosse por casos da sociedade,
como o de Maria Adelaide Coelho da Cunha, filha e herdeira do fundador do
Diário de Notícias, dada como louca em 1919 pela justiça e pelos médicos mais
ilustres do país depois do escândalo do adultério e da fuga com outro Manuel,
esse real, o motorista da família, num caso que alimentou a imprensa e polémica
pública durante anos (Torres, 2002: 124-125).
No conto de Florbela, a sociedade é adversa, excepto quando, no anonimato,
permite que os indivíduos se movimentem à vontade no meio da multidão e
usufruam da volúpia da liberdade e da igualdade entre todos, sem os
constrangimentos ou coacções que a mesma sociedade lhes impõe. Os indivíduos
podem querer amor, mas a sociedade não quer amor, quer casamento. Voltemos a
Freud, quando duas pessoas se apaixonam, fazem uma afirmação contra o instinto
da horda, do sentimento do grupo, ou da multidão, de que é sinónimo. Quanto
mais apaixonados, mais completamente se bastam um ao outro. A sua rejeição da
influência do grupo exprime-se na forma de um sentimento de vergonha (Freud,
1993: 174). Para Freud, o amor é uma força subversiva que contraria o
movimento civilizador, escreve Le Berre (2004: 116). O amor, como a multidão,
é intenso, efémero e à margem da institucionalidade social.