O crescimento do emprego qualificado em Portugal
O CRESCIMENTO DO EMPREGO QUALIFICADO EM PORTUGAL
Maria de Lurdes Rodrigues*
Nas últimas semanas a imprensa nacional tem feito eco de notícias que apontam
para o decréscimo do emprego qualificado em Portugal, tendo por base dados do
Inquérito ao Emprego do Instituto Nacional de Estatística.1 Tais notícias
suscitam-me os seguintes comentários:
O emprego qualificado em Portugal cresce regularmente há várias décadas: basta
estar atento à actualidade, ler os jornais e dar conta das notícias sobre o
aumento e expansão do ensino superior que, nos últimos anos, tem vindo a
oferecer anualmente mais de 80.000 mil acessos; basta pensar nos cerca de
50.000 jovens diplomados que anualmente entram no mercado de trabalho público e
privado.2 Pensar um pouco nestes e em outros números, sobre a realidade
portuguesa, permite concluir que o emprego qualificado só pode ter crescido! É
uma evidência com manifestações em muitas dimensões da nossa vida.
Os dados estatísticos deviam confirmar e revelar a medida deste crescimento:
quanto cresceu o emprego de diplomados? Como cresceu? A que ritmo? Em que
sectores? E de facto existem dados estatísticos de várias fontes que confirmam
a evolução positiva nesta matéria e que indicam algumas condições do
crescimento do emprego qualificado: os dados da educação, os dados dos censos,
os dados dos quadros de pessoal anualmente publicados.
Como se pode verificar nos dados apresentados, o emprego de diplomados, só no
sector privado, cresce 10% ao ano, uma taxa muito superior à do crescimento do
emprego no geral (3,5%). No sector das TIC, o emprego de diplomados cresce 12%
ao ano. Se se juntar a estes dados o emprego na administração pública,
sobretudo nos sectores do ensino e da saúde, estas taxas são seguramente mais
elevadas.
O crescimento do emprego qualificado é, aliás, coerente com o esforço de
formação feito no nosso país, traduzido no número de diplomados do ensino
superior que entram no mercado de trabalho. Se assim não fosse, o país estaria
a viver uma grave crise social e económica sem precedentes.
Todavia, o INE dispõe de um instrumento de produção de estatísticas designado
Inquérito ao Emprego que, entre os anos de 1992 e 2000, apresenta resultados
divergentes desta tendência. Segundo os resultados do Inquérito ao Emprego, o
número de activos nas chamadas profissões científicas e técnicas, nas
profissões qualificadas, como engenheiros, advogados, médicos, professores,
enfermeiros, contabilistas, etc., teria decrescido entre 1992 e 2000. Estes
dados estão publicados em papel, estão disponíveis no sítio do INE na Internet
e estão também disponíveis nas bases de dados do Eurostat.
Ora, o Inquérito ao Emprego tem problemas de fiabilidade de dados, decorrentes
das características da amostra da população utilizada até 1997, tendo sido, por
essa razão, iniciada uma nova série de dados a partir de 1998. Este inquérito
tem ainda problemas de classificação/codificação das profissões declaradas
pelos indivíduos inquiridos, devendo a sua utilização ser acompanhada de
grandes reservas para identificar o número de activos ou de empregados em
profissões específicas, como por exemplo as relacionadas com as tecnologias de
informação.
Para ser mais precisa:
1) os dados do Inquérito ao Emprego da série 1992 a 1997 não podem ser
comparados com os da série posterior (1998 a 2002);
2) os dados do Inquérito ao Emprego anteriores a 1998 contêm erros que impedem
a sua utilização para medir a evolução do emprego qualificado, qualquer que
seja a sua definição, e em particular no sector das tecnologias da informação;
devem por isso ser anulados ou corrigidos (por exercício de estimativa);
3) os dados do Inquérito ao Emprego têm sido divulgados e disponibilizados sem
nenhuma referência às duas limitações anteriores.
O facto de se manter, em bases de dados nacionais e internacionais, informação
errada sobre Portugal, sem nenhuma espécie de restrição ao seu uso, e sem meta-
informação que alerte para a descontinuidade das séries e para os erros de
produção estatística, tem permitido a elaboração de estudos comparativos que
contêm erros grosseiros sobre a realidade nacional e que em muito prejudicam o
país.
Nesta matéria em particular, ou seja, no que respeita à disponibilidade de
recursos altamente qualificados, qualquer decisão de investimento estrangeiro
no país poderá ficar comprometida pela difusão deste tipo de informação
estatística. Isto é tanto mais grave quanto o país tem feito um esforço real de
formação avançada de recursos humanos e apresenta as maiores taxas de
crescimento no panorama da UE.
Não é razoável que, aos problemas de défice estrutural que o país apresenta, se
somem problemas fictícios decorrentes de erros estatísticos.
Lisboa, 12 de Setembro de 2002
Notas
1 Ver artigos do jornal Expresso: Portugal perde emprego qualificado, de 24
de Agosto de 2002, e Portugal longe da UE na qualificação do emprego, de 7 de
Setembro de 2002.
2 O conceito de emprego qualificado recobre na generalidade: o emprego dos
diplomados do ensino superior e/ou dos quadros da administração pública,
dirigentes e quadros superiores das empresas (CNP-1); dos especialistas das
profissões intelectuais e científicas (CNP-2); e dos técnicos e profissionais
de nível intermédio (CNP-3). Pode obter-se pelo cruzamento de categorias das
nomenclaturas relativas ao nível de formação e à profissão.
* Maria de Lurdes Rodrigues. Presidente do Observatório das Ciências e das
Tecnologias.