Estudar as transformações sociais
Introdução
O último quartel do século XX foi um período de rápido crescimento das ligações
e dos fluxos transnacionais que afectam todas as esferas da vida humana:
economia, política, ambiente, cultura, sociedade e mesmo as relações
interpessoais. Estes processos globais deram origem a importantes
transformações sociais em todo o mundo, fazendo com que velhas dicotomias
económicas e culturais, como moderno e tradicional, altamente desenvolvido e
menos desenvolvido, Oriente e Ocidente, o Sul e o Norte, perdessem
saliência. Tornou-se cada vez mais difícil agir localmente sem pensar
globalmente (como diz o slogan), enquanto o nível de análise nacional foi
perdendo parte da sua proeminência como enquadramento para a compreensão da
sociedade.1
Os cientistas sociais que se lançaram no estudo destas mudanças importantes
depressa se viram confrontados com os limites das teorias e das metodologias
existentes. Disciplinas centrais, como a economia ou a sociologia, assentavam
(muitas vezes tacitamente) em assunções culturais e modelos de desenvolvimento
derivados da experiência ocidental do capitalismo e da industrialização. A
evolução do conhecimento das ciências sociais assentara, em grande medida, nos
princípios requeridos para a construção e integração do estado-nação ocidental,
como forma organizacional por excelência para a expansão e a hegemonia globais.
Assim se compreende a ênfase colocada, não só, na compreensão da sociedade
industrial emergente, mas também no estudo das sociedades colonizadas, de modo
a controlar classes e povos perigosos (ver Connel e Connel, 1997).
Para além disto, apesar do intercâmbio internacional entre cientistas sociais,
existiu (e existe ainda) uma considerável especificidade nacional nos modos de
organização, nas abordagens teóricas e metodológicas, nos problemas estudados e
nos resultados das ciências sociais. No seio de cada país existem escolas ou
paradigmas concorrentes; no entanto, radicam em enquadramentos intelectuais
distintos, com fortes raízes históricas e de uma durabilidade surpreendente.
Estes quadros de referência foram muitas vezes exportados para áreas de
influência política e cultural, através de uma espécie de neocolonização
intelectual. Entre as determinantes da especificidade nacional encontram-se: as
tradições religiosas, filosóficas e ideológicas; o papel desempenhado pelos
intelectuais na construção da cultura e da identidade nacionais, que foi
variando ao longo da história; as relações entre estados e classes políticas;
o papel das ciências sociais no desenho de políticas sociais; e os modos de
interacção do aparelho do estado com as universidades e outras instituições de
investigação.
Não é este o local apropriado para desenvolver matérias do âmbito da sociologia
do conhecimento. Mas as transformações globais e a crescente importância dos
processos transnacionais requerem das ciências sociais novas abordagens, que
não decorrem automaticamente dos paradigmas existentes, visto que estes
assentam frequentemente em enquadramentos institucionais e conceptuais que
podem revelar-se resistentes à mudança, e cujos protagonistas podem ter fortes
interesses na preservação do status quointelectual. Se a teoria social clássica
teve os seus fundamentos na sociedade nacional-industrial emergente do século
XIX e do início do século XX, a renovação da teoria social deveria tomar como
ponto de partida as transformações globais que ocorrem no dealbar do século
XXI. À medida que as ligações transnacionais penetram em todas as esferas da
vida em sociedade, as fronteiras nacionais tornam-se cada vez mais porosas e as
autonomias locais perdem importância. As comunidades e as regiões tornam-se
mais interligadas e mutuamente dependentes. Assim como abater uma floresta num
lugar produz consequências que afectam o ambiente global, é provável que
transformações sociais, económicas, culturais e políticas num país específico
afectem as pessoas vivendo noutros pontos do globo. O estudo das transformações
sociais pode assim ser entendido como a análise das articulações transnacionais
e da forma como estas afectam as sociedades nacionais, as comunidades locais e
os indivíduos.
É este, em termos genéricos, o pensamento em que assenta o programa Management
of Social Transformation (MOST) da UNESCO. O programa MOST tem vindo a
patrocinar redes internacionais que visam desenvolver novos temas, métodos e
teorias, através de práticas de investigação assentes na formação de equipas. O
desenvolvimento de um enquadramento teórico global está ainda a dar os
primeiros passos. Este artigo pretende ser uma contribuição para este debate,
através da discussão de algumas ideias básicas dos estudos da transformação
social.2 Como é evidente, esta tarefa não é específica da UNESCO, tendo
começado a surgir nos últimos anos uma bibliografia rica e inovadora sobre a
globalização e as transformações sociais. Refira-se também que os agentes
envolvidos no trabalho de terreno, provenientes de organizações bastante
diversas, tanto governamentais como não governamentais, têm vindo a desenvolver
e a utilizar os princípios do estudo da transformação social. Temos entre mãos
um campo complexo e em rápida mudança.
Transformação social e desenvolvimento
O termo transformação social não envolve qualquer novidade intrínseca.
Normalmente, implica uma noção subjacente sobre o modo como a sociedade e a
cultura se transformam em resposta a factores como o crescimento económico, a
guerra, ou convulsões políticas. Podemos ter em mente a grande transformação
das sociedades ocidentais (Polanyi, 1944), provocada pela industrialização e
pela modernização, ou alterações mais recentes associadas à descolonização, à
formação do estado-nação e a mudanças económicas. Considero que é útil definir
o estudo da transformação social de um novo modo, mais específico, enquanto
enquadramento analítico interdisciplinar para a compreensão das articulações
globais e dos seus efeitos regionais, nacionais e locais. O estudo da
transformação social tem assim de ser conceptualizado em contraste com a noção
de desenvolvimento (ou de estudo do desenvolvimento).
Modernidade, progresso e desenvolvimento
A noção de desenvolvimento implica frequentemente uma crença teleológica na
progressão para um objectivo pré-definido: normalmente o tipo de economia e de
sociedade que encontramos nos países ocidentais altamente desenvolvidos. A
noção de transformação social, pelo contrário, não supõe qualquer resultado
pré-determinado, nem tão-pouco que se trate de um processo essencialmente
positivo. A transformação social pode ser vista como a antítese da
globalização, num sentido dialéctico em que é parte integrante da globalização
e, simultaneamente, como um processo que mina as suas ideologias nucleares.
Hoje em dia, as teorias neoliberais dominantes sobre a globalização irradiam um
carácter autocelebratório. Em contrapartida, focalizar as convulsões sociais,
que inevitavelmente acompanham a globalização económica, pode conduzir a
leituras mais críticas. A dualidade de leituras tornou-se evidente, em termos
práticos, durante a crise económica e financeira asiática de 1997-99, quando os
governos e as organizações internacionais tomaram consciência, subitamente, das
contradições sociais dos mercados mundiais não regulados. O prolongamento da
lógica dialéctica teria, evidentemente, requerido um esforço no sentido de
procurar a síntese, ou uma solução para as actuais contradições que as novas
noções de desenvolvimento sustentado e de desenvolvimento humano (ver abaixo)
talvez permitam surpreender.
Considera-se normalmente que a era moderna teve origem com a descoberta
europeia do novo mundo no século XV. As filosofias do iluminismo do século
XVIII forneceram explicações e legitimações intelectuais da modernidade. A
ideia de desenvolvimento é o estádio mais recente da noção iluminista de
progresso humano enquanto processo contínuo de expansão interna e externa
assente em valores de racionalidade, secularização e eficiência. A expansão
interna refere-se ao crescimento económico, à industrialização, a melhorias na
administração, a governos fundados na competência e no consentimento popular e
não no direito divino resumindo, ao desenvolvimento do estado-nação
capitalista moderno. A expansão externa refere-se, por sua vez, à colonização
europeia do resto do mundo, com a consequente difusão dos valores, das
instituições e das tecnologias ocidentais. A modernidade estribou-se no poderio
militar e económico, que lhe permitiu eliminar todas as alternativas, e no
poder ideológico, para reclamar o direito a uma missão civilizadora universal.
No entanto, o facto de o seu princípio central a expansão contínua se ter
tornado inviável torna evidente que estamos a chegar ao fim da modernidade:
* não existem novos territórios para colonizar ou para integrar na economia
mundial;
* a actividade humana tem actualmente consequências ambientais globais;
* as armas de destruição maciça ameaçam provocar a destruição global;
* a economia e os sistemas de comunicações estão organizados a um nível global;
* a reflexividade global está a desenvolver-se: um crescente número de pessoas
(particularmente aqueles que habitam em cidades globais e com profissões
post-industriais) tem como referencial das suas crenças e acções o globo
não a comunidade local ou o estado-nação (Albrow, 1996);
* as novas formas de resistência de grupos que recusam a universalidade dos
valores ocidentais têm vindo a tornar-se cada vez mais significativas
(Castells, 1997).
O resultado é uma crise social e política que afecta todas as regiões e a
maioria dos países do mundo, ainda que de diferentes modos. O princípio do
crescimento quantitativo (baseado, por exemplo, num indicador como o PIB per
capita) tem de ser substituído pelo princípio do crescimento qualitativo (ou
seja, ambiente sustentável e vivências mais ricas). Esta situação também
contribuiu para a crise da teoria do desenvolvimento.
O estudo do desenvolvimento e a guerra fria
A noção de desenvolvimento surgiu depois de 1945 no contexto da descolonização,
da competição entre sistemas capitalista e comunista, e da emergência do bloco
de nações não alinhadas o terceiro mundo. O primeiro mundo proporcionava um
modelo de desenvolvimento assente numa interpretação da sua própria
experiência. A economia do desenvolvimento do período do imediato após-guerra,
apoiada nos trabalhos de Rosenstein-Rodan, Nurske, Kuznets Clark, Lewis e
outros, recomendava crescimento económico assente no investimento estatal, na
urbanização, na abundância de mão-de-obra barata e na iniciativa privada
(Baeck, 1993). A arquitectura das instituições económicas e políticas das
nações emergentes deveria visar a integração numa economia mundial dominada
pelas grandes empresas ocidentais. A estrutura institucional internacional foi
estabelecida através dos acordos de Bretton Woods e da criação de organismos
como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. O segundo mundo
oferecia um modelo alternativo, assente na experiência soviética dos planos
quinquenais: uma economia dirigida pelo estado, que extraía as mais-valias
agrícolas para financiar a rápida acumulação de capital e a industrialização.
Agindo em nome do povo, o estado seria a força dominante do crescimento
económico, que levaria por sua vez à emergência de uma nova classe trabalhadora
livre de lealdades locais e tribais um modelo atractivo para as novas elites
das nações emergentes.
Para o modelo ocidental, o importante era identificar os agentes do crescimento
económico. Neste ponto, a sociologia do desenvolvimento e particularmente a
teoria da modernização forneceram uma resposta crucial. Por exemplo, os cinco
estádios de crescimento de Rostow, que culminavam no arranque económico,
assentavam numa ética de trabalho e de poupança, associada a uma economia de
laissez-fairee a mercados livres. O subtítulo da obra de Rostow era um
manifesto anticomunista (Baeck, 1993; Rostow, 1960). Para a teoria da
modernização, o desenvolvimento era uma questão de instilar as orientações
valores e normas certas' junto das culturas do mundo não ocidental, de modo
a permitir que essas populações viessem a participar nas modernas instituições
económicas e políticas, criadoras de riqueza, do Ocidente desenvolvido (Portes,
1997: 230). A teoria da modernização previa que essas orientações levariam a
alterações no comportamento demográfico (o declínio da fertilidade), na cultura
política (a emergência da democracia) e nos padrões sociais (desigualdade
reduzida através da disseminação da nova riqueza criada). Já na década de 60,
contudo, estas expectativas tinham-se revelado largamente ilusórias. O
crescimento económico em África, na Ásia e na América Latina era lento, a
desigualdade entre países aumentou e o fosso entre países pobres e ricos
aprofundou-se.
Em resposta às críticas à teoria da modernização, surgiu a escola da
dependência, inicialmente na América Latina, através dos trabalhos de Cardoso,
Frank, Baran e outros. A teoria da dependência baseava-se na economia política
marxista e considerava que o subdesenvolvimento era um processo deliberadamente
urdido pelo capitalismo ocidental para perpetuar a exploração das economias do
terceiro mundo. As estruturas neocoloniais dos mercados mundiais bloqueavam o
desenvolvimento e só podiam ser contrariadas através de estratégias de
substituição de importações, com vista a aumentar a autonomia económica e
política nacional (Baeck, 1993: capítulo 3; Portes, 1997). No entanto, a teoria
da dependência também se deparou com algumas dificuldades em meados da década
de 70. Os países da América Latina que tinham enveredado pela via da
substituição de importações não tinham tido muito sucesso, ao passo que a
rápida industrialização inicial de algumas áreas do terceiro mundo, orientadas
para a exportação, particularmente o Brasil e o Extremo Oriente, puseram em
causa a previsão da dependência contínua.
Nas décadas de 80 e de 90 a teoria económica neoclássica tornou-se dominante.
Nesta abordagem do desenvolvimento são sublinhados aspectos como a confiança
nos mecanismos de mercado e a redução do papel do estado nas economias em
desenvolvimento. Na abordagem mais radical, o papel do estado deveria estar
limitado às funções de garantir infra-estruturas (como estradas e equipamentos
educativos) e de assegurar a ordem (no sentido de prevenir a agitação popular e
de garantir a regulação financeira); a regulação da actividade económica
deveria ser deixada inteiramente aos mercados. A receita neoclássica para o
desenvolvimento parecia, com demasiada frequência, ser pensada para tornar o
mundo seguro para investidores e empresas globais, proibindo ao mesmo tempo as
políticas que protegiam os trabalhadores, os agricultores ou os consumidores do
vento frio da racionalidade económica. Para além disso, o valor da teoria
neoclássica do desenvolvimento foi muitas vezes questionado pelo seu
individualismo metodológico, que tendia a negligenciar o papel dos factores
sociais e culturais na mudança económica.
A teoria dos sistemas-mundo forneceu um modelo alternativo: autores como Amin
(1974) e Wallerstein (1984) argumentaram que o conceito de desenvolvimento
nacional era irrelevante. A questão central seria o desenvolvimento da própria
economia mundial através de crescentes fluxos de trocas, de investimento, de
trabalho, etc. No seio desta economia global, alguns países ou grupos podiam
ganhar ascendência através do poderio económico, político ou militar. Os países
menos desenvolvidos não conseguiriam alcançar a autonomia (tal como era
sugerido pela teoria da dependência); pelo contrário, pois viam-se obrigados a
inserirem-se nas cadeias da economia global para evitar a marginalização. Esta
abordagem antecipava claramente as actuais teorias da globalização (ver
abaixo). Mas, ao privilegiar o enfoque nas tendências gerais ao nível global, a
sua utilidade enquanto quadro para a compreensão da resistência local ou das
políticas nacionais desenhadas para contrariar os efeitos negativos da
globalização ficou limitada (Portes, 1997).
A crise da teoria do desenvolvimento
A noção de desenvolvimento tornou-se problemática a partir do fim da década de
80, devido a importantes transformações económicas, geopolíticas, tecnológicas
e culturais:
* as tendências para a globalização económica e cultural aceleraram largamente,
devido à revolução das tecnologias da informação. A estrutura e os mecanismos
de controlo dos mercados mundiais alteraram-se rapidamente. Os novos meios de
comunicação permitiram uma difusão cada vez mais rápida de valores culturais
assentes numa sociedade de consumo americana idealizada. Um salto na
tecnologia militar veio desequilibrar as relações de poder a nível mundial em
favor dos Estados Unidos e dos seus aliados;
* a globalização e a reestruturação industrial levaram um largo número de
pessoas à marginalização, à pobreza e à exclusão social, tanto nos antigos
países industriais como no resto do mundo, minando a suposta dicotomia entre
economias desenvolvidas e subdesenvolvidas;
* o fim da guerra fria, o colapso da União Soviética e a mudança parcial para
uma economia de mercado na China foram o prenúncio do fim do segundo mundo e
do sistema global bipolar. O capitalismo vitorioso surgia como modelo
económico incontestado;
* a emergência dos tigres asiáticos e as tendências para a industrialização
em algumas partes da América Latina e do Próximo Oriente contribuíram para
desacreditar a ideia de um mundo dualista. Paralelamente, o milagre
asiático e os discursos sobre os méritos da cultura asiática permitiram
questionar a supremacia do paradigma de desenvolvimento ocidental.
Todas estas transformações fragilizaram a autonomia dos estados-nações e a sua
capacidade para controlar as suas economias, as suas políticas sociais e as
suas culturas. As noções-chave das teorias do desenvolvimento, como
desenvolvido, sub-desenvolvido, modernização, dependência, tornaram-se
problemáticas. O conceito de terceiro mundo tornou-se inviável, em virtude da
diferenciação económica e política no seio de áreas anteriormente menos
desenvolvidas. Para além disto, na ausência de um segundo mundo, o terceiro
mundo perdeu o seu significado político nomeadamente a ideia de que as nações
não alinhadas em vias de desenvolvimento podiam colocar os mundos capitalista e
comunista a competir um contra o outro, ficando elas próprias de fora. O novo
conceito de fosso norte-sul surgiu como resposta. No entanto, esta noção sofre
também de alguma falta de precisão, visto que alguns países do sul alcançaram
um crescimento económico substancial, e as ligações Sul-Sul na economia, na
política e na cultura, são cada vez mais significativas. Para além do facto de
as vastas e crescentes disparidades no seio do próprio Sul (as divisões de
classe, a separação rural-urbano, a desigualdade sexual, as diferenças étnicas
e religiosas) tornarem qualquer noção totalizante contraproducente.
O estudo das transformações sociais
A crítica das teorias do desenvolvimento revelou-se o contexto apropriado para
a emergência dos estudos da transformação social enquanto novo enquadramento
analítico, assente nos seguintes pressupostos:
1) As transformações sociais afectam todos os tipos de sociedade, tanto em
regiões desenvolvidas como em regiões menos desenvolvidas, no contexto da
globalização, da regionalização e da emergência de diversas formas de
governação supranacional.
2) A globalização tem dado origem a novas formas de diferenciação social, ao
nível internacional como à escala nacional. A polarização entre ricos e pobres,
e a exclusão social são problemas que afectam a maioria dos países, bem como as
relações entre eles.
3) Os principais objectivos do desenvolvimento não podem mais ser definidos em
termos de crescimento económico e de modernização à luz do modelo ocidental. O
crescimento desigual e a polarização social podem na realidade aumentar as
desvantagens e a marginalização de grupos significativos. Considerando a
existência de diferentes culturas e de diferentes valores de grupo, torna-se
impossível definir um objectivo universalmente aceite para o processo de
mudança.
4) Estudar as transformações sociais significa examinar os diferentes modos
como a globalização interfere ao nível de comunidades locais e de sociedades
nacionais com experiências históricas, padrões económicos e sociais,
instituições políticas e culturas altamente diversificados.
5) As transformações sociais podem produzir consequências positivas e negativas
para as comunidades locais e para os estados-nações. Mais: alguns países e
grupos podem ficar para trás ou ser excluídos. A resposta dos grupos afectados
pode não resultar na adaptação à globalização mas antes na resistência, que
pode envolver a mobilização de recursos culturais e sociais tradicionais. Mas
pode assumir, também, novas formas de globalização de baixo para cima3
através de organizações transnacionais da sociedade civil.
Utilizar o conceito de transformação social como ferramenta analítica não
significa abandonar o objectivo do desenvolvimento; significa antes o
afastamento em relação às ideias simplistas de outrora, que apresentavam o
crescimento económico como a chave para tudo, uma vez que a sua dispersão daria
automaticamente origem à melhoria dos padrões de vida para todos. É importante
conceptualizar os estudos das transformações sociais como um campo de
investigação que poderá e deverá levar à formulação de receitas positivas para
a acção social e política, de modo a auxiliar as comunidades a melhorar os seus
meios de subsistência e a lidar com as consequências das transformações
globais. Os investigadores deste campo devem procurar influenciar as
estratégias de instituições poderosas como os governos, as empresas
transnacionais e as organizações internacionais.
As críticas radicais aos modelos de desenvolvimento economicistas têm tido uma
forte influência no pensamento contemporâneo dominante. Este facto está bem
patente na adopção generalizada do princípio de desenvolvimento sustentável,
segundo o qual o aumento do rendimento per capita é apenas um entre muitos
objectivos. Entre os restantes incluem-se a melhoria das condições de saúde e
das oportunidades educativas, a possibilidade, aberta a todos, de participação
na vida pública, a garantia de uma administração eficiente e honesta, a
salvaguarda do ambiente e a equidade intergeracional (o que significa que as
actuais gerações não devem esgotar os recursos em detrimento de futuras
gerações) (Banco Mundial, 1999: 13). O conceito de desenvolvimento humano
introduzido em 1990 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
(PNUD) é ainda mais lato: O desenvolvimento humano é o processo que permite
alargar as oportunidades de escolha dos indivíduos não apenas as escolhas
entre diferentes detergentes, canais de televisão ou modelos de automóveis, mas
as escolhas que são criadas pela expansão das capacidades e possibilidades
humanas o que as pessoas fazem e podem fazer das suas vidas (Paul Streeten
em PNUD, 1999: 16). Nesta definição cabe uma grande variedade de aspirações,
desde a água potável até às condições de trabalho seguras, aos direitos humanos
e à liberdade de expressão cultural e religiosa.
Em nenhum outro local esta mudança de pensamento é tão evidente como no Banco
Mundial, que no passado colocava uma ênfase unilateral no crescimento económico
e nos projectos de grande envergadura: Nas décadas de 50 e de 60 as grandes
barragens eram praticamente sinónimos de desenvolvimento (Banco Mundial, 1999:
18). Na década de 80, muitos foram os que passaram a ver o Banco Mundial,
juntamente com o FMI, como os polícias globais do capital, intervindo em nome
da liberdade do mercado e da desregulação onde quer que os estados procurassem
manter a autonomia económica ou a equidade social. Esta ortodoxia foi
sintetizada no consenso de Washington, com os seus princípios económicos
neoclássicos de liberalização, estabilização e privatização (Stiglitz, 1998).4
Segundo Stiglitz, o problema destas abordagens era que consideravam o
desenvolvimento como um problema técnico que requeria soluções técnicas Não
procuravam conhecer em profundidade a sociedade, nem acreditavam que esse tipo
de abordagem participativa fosse necessária. Procuraram impor leis económicas
supostamente universais, ignorando as lições da história. Mais importante é o
facto de esta abordagem desenvolvimentista, muitas vezes, não ter funcionado no
sentido esperado muitos dos países que seguiram os ditames do consenso de
Washington (com grandes custos humanos) não alcançaram o crescimento económico.
A solução proposta por Stiglitz radica na adopção de um conceito de
desenvolvimento muito mais abrangente, enquanto transformação da totalidade da
sociedade.
Trata-se da descolagem de uma abordagem centrada no crescimento económico,
prestando maior atenção ao desenvolvimento social. O que significa igualmente
complementar as abordagens estruturadas de cima para baixo, o trabalho feito em
colaboração com governos e poderosas instituições, com métodos mais
participativos (da base para o topo),
5 desenhados para descobrir e incluir as necessidades e os interesses de uma
larga variedade de grupos sociais. Stiglitz sublinha a importância de conceitos
como participação, capital social, inclusão e propriedade, e de facto
esta nova retórica ocupa agora um lugar de destaque nos documentos do Banco
Mundial.6 Mas terá mesmo havido uma revolução de mentalidades? O Quadro para o
Desenvolvimento Integrado,7 elaborado pelo Banco Mundial, é um plano para uma
abordagem holista do desenvolvimento, tendo por principal objectivo a
diminuição da pobreza (Banco Mundial, 1999: 21). A introdução de métodos de
avaliação social desde meados da década de 90, com vista a determinar os
efeitos dos projectos sobre as comunidades afectadas, marca também uma
alteração significativa. O Banco Mundial acabou por se retirar do projecto da
barragem do Sardar Sarovar, no rio indiano Narmada, em 1993, em virtude das
reservas que os danos ambientais e os deslocamentos maciços de populações
suscitavam. Continua porém a apoiar o projecto da barragem das Três Gargantas
na China, que supõe a deslocação de um número ainda maior de pessoas (Roy,
1999). A ênfase na redução da pobreza e no desenvolvimento social desempenhou
um papel importante na resposta à crise asiática. Isto não impediu, no entanto,
que o Banco Mundial e o FMI tenham imposto à Indonésia a adopção de políticas
que na realidade podem ter potenciado a desestruturação económica e a pobreza.
Não é pois absolutamente claro até que ponto o novo pensamento se infiltrou,
penetrando até aos níveis chave da tomada de decisões das agências de
financiamento multilaterais e dos governos dadores.
As transformações sociais e a globalização
As transformações sociais e a globalização estão, de um modo muito claro,
intimamente associadas. No nível mais geral, a globalização refere-se ao
processo de mudança que afecta todas as regiões do mundo, numa variedade de
dimensões que vão desde a economia, à tecnologia, à política, aos meios de
comunicação, à cultura e ao ambiente. Atente-se na seguinte definição mais
precisa de globalização:
Um processo (ou conjunto de processos) que incorpora transformações na
organização espacial das relações e das transacções sociais consideradas em
termos da sua extensão, da sua intensidade, da sua velocidade e do seu impacto
, gerando fluxos transcontinentais ou inter-regionais e redes de actividade,
interacção e o exercício do poder (Held e outros, 1999: 16).
Esta definição permite a operacionalização e a pesquisa empírica, na medida em
que os fluxos e as redes podem ser cartografados, medidos e analisados. No
entanto, o entendimento e a avaliação do que é a globalização variam muito.
Held e os seus colaboradores sugerem que as diferentes abordagens podem ser
divididas grosseiramente em três categorias genéricas, a que se refere como os
hiperglobalizadores, os cépticos e os transformacionistas.8
Os hiperglobalizadores acreditam que a globalização representa uma nova época
na história humana, em que todos os tipos de relações estão a ser integrados
num nível global, transcendendo o estado-nação e tornando-o progressivamente
irrelevante. Entre os hiperglobalizadores incluem-se tanto aqueles que celebram
estas tendências, como os que delas fazem avaliações críticas. Os
hiperglobalizadores que fazem a apologia da globalização são sobretudo
partidários neoliberais dos mercados livres e globais, que vêem no
funcionamento dos mesmos a garantia de um crescimento económico ideal e a via
para, a longo prazo, se alcançarem melhores níveis de vida para todos (por
exemplo, Ohmae, 1991 e 1995). Os hiperglobalizadores críticossublinham o
carácter revolucionário de tendências como o rápido crescimento dos meios de
comunicação social globais e da mobilidade global, argumentando, contudo, que
estas beneficiam apenas uma pequena elite. A globalização é o mecanismo de
domínio dos investidores internacionais e das grandes empresas transnacionais,
que deixaram de poder ser controlados por estados-nações cada vez mais
enfraquecidos. Os sindicatos e os sistemas de previdência estão a entrar em
colapso, o desemprego e a exclusão social avançam, enquanto o crescimento
descontrolado conduz a um estado de degradação ambiental que ameaça a vida no
planeta. A globalização pode levar assim à fragmentação social, à incerteza
cultural, ao conflito e à violência. Como possível solução sugere-se reinvestir
de poder os estados-nações democráticos e, simultaneamente, fortalecer a
cooperação europeia, de modo a criar um contrapeso ao modelo americano do
mercado livre (ver também Beck, 1997; Martin e Schumann, 1997; Schnapper,
1994). Robert Reich, responsável pela pasta do trabalho na primeira
administração Clinton, lançou um apelo semelhante no sentido da ressurreição da
economia nacional (Reich, 1991).
Os cépticos centram-se sobretudo nos aspectos económicos da globalização.
Reconhecem os intensos fluxos transfronteiriços de comércio, investimento e
mão-de-obra, mas sustentam que não se trata de nada de novo: a integração
económica internacional no período que precedeu a I grande guerra era
equiparável aos níveis actuais. Para além disto, fazem notar que a maior parte
do comércio mundial (80% ou mais) se efectua entre as economias altamente
desenvolvidas, de modo que os países menos desenvolvidos não participaram de
modo significativo nos processos de integração económica. Preferem assim o
termo de internacionalização ao termo de globalização (Hirst e Thompson,
1996). Os cépticos defendem que o papel do estado-nação se mantém tão forte
como dantes. Esta asserção aplica-se sobretudo aos Estados Unidos, ao Japão e à
Europa ocidental, que se encontram hoje no centro dos três blocos económicos
dominantes (Weiss, 1997). A regionalização é vista como uma alternativa à
globalização, permitindo aos estados-nações manter a sua posição de predomínio
no sistema mundial. Os cépticos desconsideram a ideia de que as viagens e a
difusão através dos meios de comunicação globais estão a dar origem a uma
cultura global ou mesmo a uma civilização global, antes continuando a ver
hierarquia e fragmentação.
Os transformacionistas consideram a globalização como o resultado de processos,
estreitamente interligados, de mudanças na tecnologia, na actividade económica,
na governança,9 na comunicação e na cultura. Os fluxos transfronteiriços (de
comércio, de investimento, de imigrantes, de artefactos culturais, de factores
ambientais, etc.) alcançaram níveis sem precedentes e integram actualmente
quase todos os países num sistema global, dando origem a importantes
transformações sociais a todos os níveis. No entanto, estas tendências não
levam, necessariamente, a uma convergência global ou à emergência de uma
sociedade mundial. Pelo contrário, a globalização cria novas formas de
estratificação global em que certos indivíduos, comunidades, países ou regiões
se vêem integrados em redes globais de poder e de prosperidade, enquanto outros
são excluídos e marginalizados. Os transformacionistas defendem que estas novas
divisões são transversais às antigas clivagens entre Leste e Oeste e Norte e
Sul. A globalização não pode, contudo, ser equiparada a uma redução geral do
poder dos estados. Pelo contrário, na medida em que a relação entre território
e soberania é abalada pela globalização, novas formas de governança emergem aos
níveis nacional, regional e global, onde o poder militar e económico dos
estados dominantes tem ainda um papel decisivo. É evidente que as teorias
transformacionistas da globalização estão muito próximas da abordagem das
transformações sociais discutida no presente artigo. Excluindo o trabalho de
Held e dos seus colegas (1999), a explanação mais completa das teses
transformacionistas encontra-se na obra em três volumes de Castells (1996, 1997
e 1998).
As análises da globalização e das transformações sociais têm vindo a sublinhar
os efeitos diferenciais que se registam nas diversas regiões do mundo
(Castells, 1996: 106-48).
* Os países altamente desenvolvidos da América do norte, da Europa ocidental e
o Japão, que estão a passar por uma crise das indústrias metalúrgicas e a
assistir ao declínio dos sistemas estatais de previdência10 e ao aumento da
polarização social.
* Os tigres asiáticos e a próxima vaga de tigres que estavam a alcançar
rapidamente o estatuto de países altamente industrializados, quando o
crescimento foi interrompido pela crise asiática, em 1997. As economias
petrolíferas do Médio Oriente são, por vezes, incluídas nesta categoria.
* A restante Ásia, incluindo os gigantes Índia e China que, apesar das suas
áreas de rápida industrialização e da emergência de classes médias, possui
ainda economias que são, de um modo geral, atrasadas e com baixos níveis de
rendimento, o que faz dela uma verdadeira reserva de mão-de-obra para as
economias em rápido crescimento.
* A América Latina, caracterizada pela sua experiência desequilibrada de
crescimento intermitente, pela dependência económica e pelos conflitos
políticos.
* A África, que se encontra, em larga medida, excluída da economia global.
Neste caso, o falhanço do desenvolvimento económico e da formação de estados-
nações levou ao declínio de rendimentos, a condições sociais terríveis, a
conflitos endémicos, e produziu vastos fluxos de refugiados.
* Os chamados países em transição (o antigo bloco soviético), confrontados
com problemas de reestruturação das suas economias e instituições, de modo a
adaptarem-se ao mundo capitalista.
Estas diferenças tornam claro que o estudo das transformações sociais precisa
de ter em conta, não só, os aspectos gerais da globalização, mas também os
factores específicos que produzem efeitos e reacções variados aos níveis
regional, nacional e local. De facto, os processos de mediação entre os
factores globais e os factores regionais, nacionais e locais são, pode-se
dizer, o tema central no estudo das transformações sociais. Para além disto,
estes processos são multidireccionais: os factores regionais, nacionais e
locais participam na reconfiguração dos factores globais. Entre estes factores
incluem-se, não só, as diversas estruturas económicas e políticas, mas também
as experiências históricas específicas, os valores filosóficos e religiosos, os
padrões culturais e as relações sociais.
O estudo dos processos transaccionais
Historicamente, as sociedades delimitadas por um estado-nação específico têm
sido as principais unidades de observação das ciências sociais. As sociedades
nacionais são, normalmente, a matriz de referência das fontes de dados, do
material contextual e das populações sobre as quais incide a investigação
empírica. Paralelamente, as recomendações em matéria de políticas públicas que
emanam da investigação têm sido destinadas aos governos nacionais. Existe,
evidentemente, uma longa tradição de estudos comparativos que remonta aos
primeiros sociólogos, como Durkheim. No entanto, a sua principal preocupação
consistia, sobretudo, em construir tipologias e em identificar especificidades
nacionais (ver Ghorra-Gobin, 2000). Se o estudo das transformações sociais
incide sobre os processos de articulação global e sobre a forma como estes
interligam determinadas comunidades e sociedades nacionais numa sociedade
global incipiente, então, novas abordagens, novos temas e novas hipóteses de
investigação serão necessários. A identificação e a compreensão dos processos
transnacionais deverão constituir preocupações centrais. Mas é igualmente
importante analisar os seus efeitos aos níveis regional, nacional e
subnacional, bem como as formas como as diversas comunidades e grupos os vivem
e reagem a eles. O estudo das transformações sociais não deve, para além disso,
ser um exercício de análise do topo para a base, em que os investigadores do
primeiro mundo estudam os problemas das sociedades supostamente menos
desenvolvidas, devendo antes assentar em redes internacionais que associem
investigadores, ONG e políticos na tarefa comum de compreender e de lidar com
os processos de mudança.
As redes e os fluxos transfronteiriços, que constituem a face visível da
globalização, dificilmente podem ser compreendidos a não ser enquanto fenómenos
transnacionais. Os fluxos referem-se aos movimentos de realidades tangíveis,
como o capital, as mercadorias, os artefactos culturais, os migrantes e os
refugiados. Esses fluxos incluem ainda realidades intangíveis, como os valores,
as imagens veiculadas pelos meios de comunicação, as ideias científicas e a
governança. As redes dizem respeito aos enquadramentos em que assentam a
comunicação, a regulação e a gestão das interligações: empresas transnacionais,
organizações intergovernamentais, enquadramentos legais, organizações não
governamentais internacionais, associações criminosas transnacionais, entre
outros.11 Castells (1996) defende que a rede é a forma organizativa específica
da sociedade global em emergência, substituindo formas anteriores de
organização hierárquica das instituições económicas e políticas. Numa veia
semelhante, Ohmae (1991) sustenta que as empresas transnacionais bem sucedidas
são aquelas que abandonaram uma mentalidade nacional, ou uma mentalidade de
quartel-general, e que criaram uma organização descentralizada, integrada a
partir de um conjunto de valores culturais. A cultura desempenha um papel
central na compreensão das redes transnacionais. Por exemplo, o sucesso de
organizações criminosas transnacionais como a máfia ou as tríades radica
frequentemente na utilização de uma cultura étnica de modo a assegurar a
lealdade e o sigilo (Castells 1998: capítulo 3).
No entanto, e não obstante o mérito evidente de estudar estas redes e estes
fluxos como processos transnacionais, esta não é a abordagem dominante, nem é
fácil pô-la em prática. Por exemplo, a investigação sobre os processos
migratórios internacionais assenta ainda, em grande medida, em enquadramentos e
dados nacionais. Em países emissores, como a Itália ou as Filipinas, os estudos
têm incidido na emigração e nos seus efeitos sobre a economia e a sociedade. Em
países receptores como os Estados Unidos ou a Malásia, a investigação tem-se
preocupado com temas como a oferta de mão-de-obra, os processos de adaptação,12
a assimilação, as relações comunitárias e a ordem pública. O surgimento de
enquadramentos de pesquisa transnacionais, tais como a teoria dos sistemas
migratórios ou os estudos sobre comunidades transnacionais, deu-se apenas na
década de 70 e, apesar de essas abordagens se terem disseminado no fim da
década de 90, estão ainda longe de ocupar uma posição dominante.
Uma das razões para a persistência de enquadramentos de investigação nacionais
é o facto de os dados serem ainda geralmente recolhidos por autoridades
nacionais para efeitos administrativos e de desenho de políticas públicas. As
definições e os métodos de recolha nacionais variam frequentemente,
inviabilizando o uso dos dados em comparações internacionais, podendo levar a
compartimentar processos transnacionais. Este facto é particularmente
problemático em antigos países coloniais, onde as fronteiras nacionais herdadas
do período colonial se sobrepõem, muitas vezes, a regiões geográficas,
económicas e étnicas. As agências internacionais têm feito esforços
consideráveis para alcançar maiores níveis de comparabilidade. Por exemplo, o
Sistema de Observação Permanente das Migrações
13 da OCDE (1998) demorou 20 anos a alcançar um nível aceitável de
compatibilidade entre as estatísticas nacionais dos países industrializados. A
disponibilidade de dados apropriados para a investigação de outros processos
transnacionais e, em particular, no que se refere a países menos desenvolvidos,
encontra-se muito mais atrasada. De um modo revelador, o Relatório do
Desenvolvimento Humano (PNUD, 1999) incide sobre a globalização, mas apresenta
os dados e os rankingspor país.14
No entanto, a investigação transnacional não deve estar restringida a fenómenos
que transcendem claramente as fronteiras. No contexto da globalização, diversos
assuntos que parecem dizer respeito a uma sociedade nacional específica não
podem ser devidamente compreendidos sem uma análise das suas dimensões
transnacionais. Desde a Cimeira Mundial para o Desenvolvimento Humano, das
Nações Unidas, em 1995, que a erradicação da pobreza se tornou num objectivo
central das agências internacionais. A pobreza, contudo, é geralmente medida e
analisada enquanto fenómeno de nível nacional e as estratégias para a sua
redução são desenvolvidas para países específicos (McDowell, 1999). Ora, uma
perspectiva de investigação transnacional revela que muita da pobreza no mundo
actual é atribuível (pelo menos em parte) a processos transfronteiriços. Por
exemplo, alterações nos métodos de produção agrícola no âmbito da revolução
verde podem levar ao desemprego, à escassez de terras,15 ao aumento das
desigualdades e à migração dos campos para as cidades. No entanto, a revolução
verde não pode ser dissociada da ciência e da tecnologia internacionais, dos
interesses de empresas farmacêuticas e de produção agrícola transnacionais, e
de intervenções bem intencionadas das agências internacionais de auxílio. É
evidente que aqui entram também em jogo factores nacionais e locais, mas não
podem ser compreendidos separadamente dos factores transnacionais.
Muitos outros exemplos poderiam ser referidos. Conflitos violentos e estados
que falharam, que geram fluxos de refugiados, são muitas vezes atribuíveis aos
interesses económicos e políticos de países ricos e de grandes empresas
transnacionais. Os conflitos étnicos e religiosos mergulham, frequentemente, as
suas raízes em iniciativas visando o reforço (ou a construção) de identidades
tradicionais, face a alterações culturais ameaçadoras ligadas aos meios de
comunicação globais ou à disseminação dos valores ocidentais. O trabalho
sujeito a condições de exploração abusiva e o trabalho infantil podem ser o
resultado da deslocação da produção e da subcontratação por parte de empresas
de grande dimensão. As catástrofes ambientais podem resultar da desflorestação
levada a cabo com vista a libertar novas áreas de plantio ou a fornecer madeira
para exportação.
Do mesmo modo, as crises económicas nacionais ou regionais podem estar
associadas a factores geopolíticos e económicos globais, como é possível
verificar através de uma análise das causas da crise asiática de 1997/1999.
Depois de 1945, a descolonização, a guerra fria e a luta entre as
superpotências pelo controlo político na região encorajaram o início do
desenvolvimento económico do Japão e dos tigres asiáticos [Berger e Borer
(orgs.), 1997]. No início da década de 90, as elevadas taxas de crescimento e
os lucros fáceis que a região possibilitava revelaram-se um forte atractivo
para o investimento de países ocidentais. À medida que as novas tecnologias da
informação aceleravam os fluxos de capitais em mercados financeiros que nunca
fechavam, grande parte deste investimento assumiu a forma de empréstimos
especulativos a curto prazo. Numa situação de euforia económica ninguém se
preocupou com a ausência de organismos reguladores adequados. Com a trituração
do crédito em 1997, a crise asiática surgiu como ameaça à economia global e
como a vingança do modelo económico ocidental. As virtudes asiáticas, até
então muito apreciadas, foram subitamente reinterpretadas como nepotismo,
corrupção, clientelismo e falta de uma sã regulação financeira. Os economistas
ocidentais apelaram à liberalização dos mercados e a uma estrita disciplina
financeira (Godement, 1999). No entanto, outros observadores afirmaram que a
crise tinha sido causada, principalmente, por factores globais, particularmente
pelos enormes fluxos de crédito a curto prazo bombeados na região por bancos e
fundos de investimento ocidentais. Quando subitamente esse crédito foi
retirado, mal começaram a surgir dificuldades de liquidez na Tailândia, a
confiança dos investidores foi abalada, o que levou a uma espiral descendente,
que foi agravada, por sua vez, pela política deflacionária de empréstimos do
FMI (Bezanson e Griffith-Jones, 1999). A crise aspirou consigo muitos dos
ganhos conseguidos nos 30 anos anteriores, no que respeita ao crescimento
económico e à diminuição da pobreza.
A ideia central é que a maioria das formas de transformação social se encontra,
hoje em dia, ligada de modo complexo a forças globalizadoras e a processos
transnacionais. A investigação que se confina a enquadramentos nacionais e que
ignora as interligações transfronteiriças só dificilmente revelará o cenário
completo. Mais importante ainda é o facto de essa investigação provavelmente
não fornecer estratégias adequadas para lidar com as transformações sociais.
Isto não implica que a dimensão nacional deva ser negligenciada. Os estados-
nações continuam a ser importantes e continuarão a ser até onde arriscamos a
prever o futuro. São eles o contexto das políticas relacionadas com a ordem
pública, as infra-estruturas económicas, os sistemas de segurança social, os
serviços de saúde, etc. Os estados-nações conservam ainda uma relevância
política considerável e desempenham funções simbólicas e culturais importantes.
Mas a autonomia dos governos nacionais em todas estas frentes tem vindo a ser
erodida e já não é possível abstrairmo-nos dos factores transnacionais na
tomada de decisões e no planeamento.
Compreender o local: a investigação participante
Os fluxos e as redes que constituem a globalização assumem formas específicas
em diferentes níveis espaciais: o regional, o nacional e o local. Não devem,
pois, ser compreendidos como opostos entre si (por exemplo, a regionalização
como possível contrapeso da globalização), mas antes como elementos de relações
complexas e dinâmicas, em que as forças globais exercem impactos diversos em
função de diferentes factores estruturais e culturais e das respostas nos
restantes níveis (ver Held e outros, 1999: 14-16). No entanto, para a maioria
das pessoas, é privilegiadamente ao nível localque as transformações sociais se
fazem sentir: as alterações nos sistemas de produção e de distribuição, as
relações sociais e as práticas culturais que transformam as condições na
comunidade local, que constitui o centro da vida quotidiana. Isto também é
válido para as situações onde as transformações sociais forçam as pessoas a
abandonar as suas comunidades e a deslocarem-se para outros locais: por
exemplo, quando se verificam mudanças nas práticas agrícolas ou nos regimes de
propriedade, ou na sequência do desenvolvimento de um projecto (como uma
barragem, um aeroporto ou uma fábrica), que implicam a deslocação física das
pessoas. A necessidade de migrar é vivida como uma crise nas condições
económicas e sociais da comunidade de origem, ao passo que a instalação no novo
contexto16 é sentida como um esforço para construir uma nova vida numa outra
comunidade.
O estudo das transformações sociais deve assim dar um peso equivalente ao local
e ao global, não esquecendo de entremeio os níveis nacional e regional. No
entanto, compreender a experiência local das transformações sociais requer, por
vezes, abordagens específicas. É vital compreender que os métodos não são
neutros: a escolha dos métodos de pesquisa assenta em enquadramentos
conceptuais e objectivos específicos, e pode levar a resultados diversos. Pode-
se diferenciar entre abordagens com uma orientação voluntarista (do topo para a
base) e outras com uma orientação participativa (da base para cima).17 Estas
podem ser, por sua vez, ligadas a diferentes ideias acerca do processo de
desenvolvimento.
Se o desenvolvimento for compreendido, sobretudo, como um processo de
modernização, de industrialização e de crescimento económico (ver secção 2
acima), então, os seus agentes podem ser especialistas de países desenvolvidos,
frequentemente envolvidos em trabalho de equipa com especialistas locais que
receberam a sua formação em países desenvolvidos e que partilham implicitamente
os mesmos valores culturais. A investigação centrar-se-á em factores técnicos e
económicos, e os seus instrumentos preferidos serão a informação científica, os
indicadores económicos e os dados estatísticos. As metodologias com uma
orientação voluntarista (de cima para baixo) ignoram muitas vezes a situação
social e as necessidades dos grupos locais, particularmente dos pobres e das
mulheres, que têm pouco acesso ao poder político. Estes grupos podem sair
prejudicados e marginalizados dos projectos de desenvolvimento e assim
desenvolver resistências contra eles. As populações locais e as suas
organizações passam então a ser vistas como obstáculos ao progresso, com quem
se deverá lidar quer através de medidas de ordem pública, quer por via de
estratégias educativas desenhadas para promover a disponibilidade para aceitar
a mudança.
Os métodos de investigação social que dão corpo à abordagem voluntarista
incluem a utilização de estatísticas sociais oficiais, pequenos estudos
efectuados por cientistas sociais que aí se deslocam para o efeito e
metodologias de sondagem apoiadas no lançamento de questionários com questões
de escolha múltipla. No entanto, os dados estatísticos são por vezes pouco
fiáveis, podendo reflectir enviesamentos dos sistemas de recolha de dados. Os
investigadores sociais, durante as suas curtas visitas aos locais, tendem a
apoiar-se em informação fornecida por indivíduos que estão em posições de poder
(particularmente homens), e podem não aperceber-se dos problemas, das
necessidades e dos desejos de outros grupos. Os questionários formais
estruturam as respostas e restringem oportunidades para captar novas
informações ou visões divergentes. Estes métodos contribuem pouco para a
análise dos processos de mudança, ou para inseri-los no contexto de
experiências históricas ou de práticas culturais. Este tipo de investigação
sobre o desenvolvimento levou a uma longa série de erros de compreensão e a
estratégias de desenvolvimento mal sucedidas. Mais preocupante: alguns
interesses disfarçados e certas predisposições profissionais podem contribuir
para sustentar crenças empedernidas muito depois de repetidamente se terem
revelado erradas (Chambers, 1997, 21).
Estas abordagens voluntaristas das transformações sociais tendem a centrar-se
sobre a realidade de instituições poderosas e de grupos privilegiados, tanto a
um nível global como à escala local, e podem revelar-se cegas perante as
diferentes realidades de grupos desmunidos de poder. A nova perspectiva de
desenvolvimento, focalizando a sustentabilidade e a redução da pobreza, requer
abordagens de investigação que sejam sensíveis às necessidades, aos interesses
e aos valores de todos os grupos envolvidos em processos de mudança. Estes
métodos, conhecidos genericamente como abordagens participantes, surgiram como
críticas radicais das teorias do desenvolvimento herdadas da década de 70, e
começaram a ganhar uma aceitação generalizada no fim da década de 80.
Uma vez mais, insistimos que os métodos de investigação estão ligados a
pressupostos sociais e políticos. Por exemplo, os squatters (pessoas que
constroem barracas ilegalmente em terrenos urbanos desaproveitados) são muitas
vezes vistos como obstáculos a uma urbanização organizada. No entanto, a
realidade é que um grande número de pessoas (muitas vezes a maioria da
população da cidade) não tem acesso aos mercados da habitação legais, nem a
infra-estruturas como a água, o saneamento e a electricidade. A favela, o
geçecondo ou o bairro de lata (muitas vezes construídos durante a noite de modo
a evitar a intervenção policial), constituem uma forma activa de planeamento,
de organização e de construção, levada a cabo por milhões de pessoas em cidades
de países menos desenvolvidos. No entanto, ela não é vista com bons olhos pelos
governos, que não consideram os squatters como cidadãos com necessidades e
direito legítimo de aceder a determinados serviços. A solução oficial recorre,
muitas vezes, à demolição dos bairros de lata e ao despejo das populações
clandestinas. Uma abordagem alternativa é o reconhecimento dos squatters como
cidadãos que tomam medidas activas para melhorar as suas próprias vidas (Hardoy
e Satterthwaite, 1989). Trabalhar com eles, de modo a desenvolver comunidades e
infra-estruturas, pode ser uma forma de política urbana eficaz.18
Nos últimos anos desenvolveu-se toda uma gama de métodos de investigação
participativa, começando pela abordagem da avaliação rural rápida (ARR),
19 na década de 70, passando pelas técnicas conhecidas como avaliação rural
participada (ARP),20 no fim da década de 80 e na década de 90. As origens
intelectuais destas abordagens assentam no trabalho de Paulo Freire no Brasil,
na década de 60, e no seu princípio de conscientização, que combinava a
aprendizagem social com a investigação-acção. A sua ideia-chave era que os
pobres tinham capacidade para analisar a sua própria situação e para encontrar
estratégias para a mudança (Freire, 1970). As técnicas ARR assentam no
princípio de que a análise do desenvolvimento é um processo de aprendizagem
colectiva onde se incluem os investigadores e todos os diferentes grupos
sociais envolvidos em cada situação particular. As partes interessadas incluem
os grupos locais afectados por um projecto (particularmente aqueles que muitas
vezes não têm voz activa, como os pobres, as minorias étnicas e as mulheres),
bem como funcionários do governo, empresas e ONG. É impossível descrever as
abordagens participativas neste artigo. O World Bank Participation Sourcebook
(Banco Mundial, 1996) fornece descrições detalhadas dos vários métodos e
exemplos de usos práticos. Chambers sintetiza esta abordagem da seguinte
maneira:
A abordagem ARR tendeu a enfatizar a utilização de fontes secundárias, a
observação e a interacção verbal. As entrevistas semiestruturadas e os focus
groupseram privilegiados A abordagem ARP, por sua vez, distinguiu-se
especialmente pelo recurso a representações visuais partilhadas e pela análise
feita pelas populações locais, de cartografias ou construção de modelos feitos
no terreno ou no papel; arrolamento, sequenciamento e sorteio de cartões;
estimativas, comparações, pontuações e classificações com sementes, pedras,
paus ou formas; diagramas de Venn, diagramas de associações; e apresentações de
grupo ou da comunidade para exame e validação A lista apresentada não é
exaustiva (Chambers, 1997: 116).
A ideia subjacente é que as estratégias de mudança baseadas numa análise
participativa dos problemas levarão a estratégias de desenvolvimento
sustentável assentes em sentimentos de posse da parte dos diversos grupos com
interesses em jogo. Esta abordagem pode servir de base a uma mudança de
atitudes e ao desenvolvimento de novas estruturas institucionais. As técnicas
ARP surgiram no contexto do trabalho de desenvolvimento local levado a cabo por
agências de auxílio e ONG, mas proporcionam também importantes contribuições
para os investigadores das transformações sociais em contextos urbanos e
rurais, tanto em países menos desenvolvidos como em países desenvolvidos. O
princípio da análise social como um processo de aprendizagem mútua que envolve
investigadores e as partes interessadas é genericamente aplicável, e dá acesso
a instrumentos valiosos para a compreensão das dimensões locais dos processos
globais e para a análise do modo como os factores sociais e culturais locais
medeiam os efeitos das forças globalizadoras. A aceitação dos princípios da
investigação participante implica a necessidade de repensar as técnicas em
diversas formas de investigação social. Por exemplo, a investigação sobre
problemas urbanos em países desenvolvidos, muitas vezes, não conseguiu produzir
resultados úteis por causa das abordagens voluntaristas das administrações. Os
métodos participativos que dão voz aos grupos destituídos de poder encontrarão
com maior probabilidade as causas reais dos problemas sociais e as soluções
viáveis para os mesmos.21
É necessária cautela, contudo, visto que os métodos participativos não podem,
por eles próprios, resolver conflitos de interesse profundos, em matérias como
a propriedade da terra, o uso e a protecção de recursos, ou as questões
salariais e as condições de trabalho. Nem podem fornecer uma compreensão
completa das instituições e das estruturas das sociedades nacionais e de como
estas são afectadas por processos transnacionais. Para contribuir efectivamente
para a compreensão e para os modos de lidar com a mudança, o estudo das
transformações sociais precisa de combinar métodos mais estruturados (do topo
para a base), como as grandes operações de inquérito, a análise estatística, a
econometria e os estudos de políticas públicas, com as análises mais abertas
(da base para o topo) da investigação participante.
A investigação em rede
Se a rede é um princípio organizador chave da sociedade global em emergência
(Castells, 1996), deve também ser então o princípio básico da organização da
investigação sobre a globalização e as transformações sociais. As redes
internacionais de investigadores podem auxiliar a ultrapassar as heranças
nacionalista e colonialista das ciências sociais. A investigação antropológica
dos povos primitivos que se fazia no início assentava em ideias explícitas de
superioridade da raça branca e da cultura europeia. Esta investigação estava,
por vezes, associada a estratégias oficiais de controlo dos povos colonizados.
Também os estudos mais recentes sobre o desenvolvimento enraizavam-se
frequentemente na ideia de superioridade do Ocidente e na necessidade de
exportar os valores ocidentais para o mundo menos desenvolvido.22 A
investigação em rede implica uma nova abordagem, em que os investigadores em
diversos países, tanto ocidentais como não ocidentais, se associam enquanto
parceiros em igualdade de circunstâncias no processo de pesquisa. Em vez de
continuarem a ser os cientistas sociais do primeiro mundo a conduzir estudos
sobre os outros povos, a investigação tornar-se-ia assim num processo de
colaboração entre iguais. Os investigadores de cada país poderiam aplicar o seu
conhecimento das estruturas sociais e das práticas culturais locais, ao passo
que os valores e os métodos ocidentais deixariam de ser o termo de referência,
tornando-se eles próprios objecto de estudo e de crítica.
A investigação em rede é um princípio básico do programa MOST, que constituiu
cerca de 20 redes de investigação internacionais por todo o mundo. Cada rede
possui um foco regional, associando uma série de países no estudo de um tema
particular, como as questões urbanas, os problemas associados às drogas, as
migrações internacionais ou o multiculturalismo. No entanto, todos eles dizem
respeito a processos globais de transformação social e ao modo como estes
afectam uma região específica. Estas redes não serão descritas aqui.23 Vale a
pena, no entanto, mencionar alguns aspectos das redes MOST (ver também Ghorra-
Gobin, 2000).
As redes de investigação MOST acentuam a interdisciplinaridade, visto que as
transformações sociais não podem ser cabalmente compreendidas partindo da
perspectiva isolada de apenas uma das ciências sociais. As redes incluem
sociólogos, cientistas políticos, economistas, antropólogos, geógrafos,
demógrafos, etc. As abordagens comparativas internacionais desempenham aqui um
importante papel, ao colocarem a tónica na compreensão das articulações e das
similaridades transnacionais, mas também na compreensão das especificidades
nacionais. O estudo das transformações sociais parece aumentar a percepção das
diferentes localizações sociais, da diversidade dos interesses e do acesso
diferenciado ao poder dos diversos grupos. A cultura, a etnicidade, a classe e
o género são aspectos importantes em todas as redes, influenciando a escolha
dos projectos de investigação, dos métodos utilizados e dos enquadramentos
teóricos o que aconselha o derrube das barreiras existentes entre
investigadores e a comunidade alargada (Auriat, 1998). A investigação não é uma
actividade neutral e os investigadores podem fazer escolhas conscienciosas
sobre os seus objectivos, tais como apoiar medidas que reduzam a pobreza e
aumentar a participação social e política de grupos desfavorecidos. Muitos dos
investigadores envolvidos no programa MOST procuram envolver ONG no seu
trabalho, como modo de facilitar o estabelecimento de elos de comunicação e a
base de conhecimento necessária à globalização de baixo para cima.24 As redes
MOST sublinham a importância da ligação entre a investigação e o desenho de
políticas públicas, o que influencia a escolha dos temas a investigar e o modo
de disseminação pública dos resultados das investigações, junto dos decisores
políticos e do público em geral. As redes procuram, ainda, incluir decisores
políticos como participantes em todos os estádios da investigação, desde o
planeamento, à operacionalização e à análise.
As redes de investigação MOST não são as únicas com estas características. Nos
últimos anos tem-se verificado uma tendência no sentido de uma maior cooperação
internacional e para a constituição de redes na área das ciências sociais
(deve, contudo, ser referido que os enquadramentos nacionais continuam a
dominar o financiamento e a organização da investigação). A cooperação
internacional tem sido encorajada por alguns organismos de financiamento
independentes, como a Fundação Ford ou a Fundação Volkswagen. Algumas
organizações centrais de investigação têm tratado favoravelmente, nos
diferentes países, os projectos que acentuam a cooperação internacional. O
surgimento de teorias sobre a globalização, as transformações sociais e as
articulações transnacionais encorajaram ainda mais esta colaboração. Muitos
investigadores que participam em redes internacionais aperceberam-se que o
processo nem sempre é fácil. A língua continua a ser uma barreira importante
muitas vezes de modos subtis: a tradução de conceitos de uma língua para outra
pode mascarar significados culturais e conotações históricas bastante
diferentes. Investigadores que se formaram em culturas académicas nacionais
diferentes levantam muitas vezes questões de modos bem distintos, utilizando
métodos distintos, e interpretando os resultados também de modo específico.
Existem exemplos de projectos de colaboração internacional que foram mal
sucedidos por causa da incapacidade para compreender estas diferenças. De
facto, um aspecto importante da investigação em rede é, precisamente, trazer
esses assuntos para campo aberto e fazer da sua análise parte integrante do
processo de investigação.25
Princípios para a o estudo das transformações sociais
Concluirei este artigo sugerindo alguns princípios que emanam do estudo das
transformações sociais como enquadramento analítico da investigação em ciências
sociais. Por razões de economia de espaço, nem todos eles foram objecto de
tratamento neste artigo, mas deixo-os aqui enumerados com vista a futuras
discussões.
1) Os investigadores têm de adoptar uma visão holista.Apesar de a investigação
se centrar normalmente em áreas e em tópicos específicos, deve ter sempre
presente que os processos de transformação social dizem respeito a todos os
aspectos da existência social e envolvem todos os níveis espaciais. Para o
cabal conhecimento de qualquer assunto específico, é necessário compreender a
sua integração em processos muito mais amplos. Os estudos sobre comunidades ou
países devem incluir uma análise dos factores e das articulações globais e
regionais que interferem na área em estudo. Os enquadramentos contextuais devem
incluir componentes como as relações internacionais, a economia política, as
tendências demográficas, as condições ambientais e os factores culturais.
2) O estudo das transformações sociais é interdisciplinar. Dificilmente
conseguiremos imaginar um qualquer tema de investigação que, no contexto da
globalização e da transformação social, possa ser correctamente compreendido no
interior dos limites de uma única disciplina académica. Isto significa que cada
investigador deve expandir os seus horizontes disciplinares, e que a
investigação deve ser levada a cabo por equipas interdisciplinares.
3) No entanto, a interdisciplinaridade não significa que podemos dispensar o
conhecimento disciplinar sistemático. Pelo contrário, a interdisciplinaridade
tem de assentar numa sólida formação na teoria, nos métodos e nos conhecimentos
de ciências sociais específicas e no seu conhecimento aprofundado.
4) As alterações na ciência, na tecnologia e na bioesfera desempenham um papel
crucial nas transformações sociais, sendo por isso importante incluir a análise
dos sistemas de conhecimento no enquadramento das investigações. Trata-se não
só de incluir o estudo da ciência e da tecnologia modernas, mas de estudar
também os sistemas de conhecimento tradicionais e indígenas, que contêm muitas
vezes perspectivas importantes acerca do modo de lidar com condições ambientais
e sociais específicas.
5) É vital uma compreensão de experiências passadas que ajudaram a dar forma às
culturas, às instituições e às sociedades contemporâneas, para a compreensão
tanto do presente como das possibilidades de evolução futura. A análise
histórica deve, portanto, ser parte constitutiva de todos os estudos.
6) A análise comparativa é muitas vezes a abordagem apropriada para a
compreensão da relação entre o global e o local. Ao examinar o modo como
factores globais similares podem levar a diferentes resultados em locais
diversos, conseguimos penetrar no significado dos factores culturais e
históricos
7) No entanto, a comparação só pode ser efectuada tendo como base um
conhecimento detalhado de culturas, comunidades e sociedades específicas. A
análise da dimensão local é vital para compreender adequadamente os diferentes
impactos dos factores de globalização e as respostas aos mesmos.
8) Compreender o local requer métodos que encorajem a participação de todos os
grupos sociais e todas as partes interessadas relevantes em processos de
avaliação e de planeamento social. Os métodos participativos devem ser pensados
com particular cuidado para assegurar que os grupos sem poder, como os pobres,
as minorias étnicas e as mulheres, sejam capazes de exprimir as suas
necessidades e os seus interesses.
9) A cultura e a identidade desempenham um papel vital nos processos de
transformação social. As políticas de identidade são muitas vezes uma forma de
mobilização contra as forças da globalização que surgem como ameaças às formas
de vida e aos valores de grupos marginalizados. Este facto torna necessária a
rejeição de certos dualismos que prevalecem, tais como as oposições entre
objectivo e subjectivo, moderno e tradicional, racional e emocional. Todo o
tipo de investigação social precisa de tomar em linha de conta tanto os
factores estruturais, como os significados produzidos pelos grupos estudados.
10) A forma organizativa mais apropriada para o estudo das transformações
sociais é a rede de investigação internacional e interdisciplinar, em que
colegas de origens diversas colaboram na realização do trabalho enquanto
parceiros em condições de igualdade. A relevância do trabalho levado a cabo por
essas redes é potenciada através da inclusão de decisores políticos e
organizações da sociedade civil em todas as etapas do processo de investigação.
No entanto, nenhuma dessas colaborações poderá comprometer a independência do
projecto.
11) A produção de conhecimento não é um empreendimento isento de valores. É
importante definir os valores subjacentes às escolhas dos temas e dos métodos
de investigação. O objectivo central das redes de estudo das transformações
sociais deverá ser a produção de conhecimento tendo em vista a melhoria das
condições sociais e formas de vida sustentáveis das populações em causa.
12) Isto significa que os investigadores devem tornar o seu trabalho acessível
à sociedade, através da sua disseminação, de forma adequada, junto de
organizações da sociedade civil, dosgovernos, das empresas e do público em
geral.
[tradução de Frederico Ágoas, revisão científica de Margarida Marques]
Notas
1 Uma primeira versão deste artigo foi publicada em língua inglesa na
Manuscript for International Political Review (número especial), em 2000, sob o
título Studying social transformations.
2 O autor deste artigo tem estado envolvido, desde 1994, no estabelecimento do
MOST-Asia Pacific Migration Research Network (APMRN), que mantém ligados entre
si investigadores, decisores políticos e ONG em 13 países e territórios da
região da Ásia-Pacífico. Como resultado desta experiência, as universidades de
Wollongong e de Newcastle criaram recentemente o Centre for Asia Pacific Social
Transformation Studies, com fundos provenientes do Australian Research Council.
Para mais informações ver: www. uow. edu/research/centres/capstrans. Uma versão
anterior de partes deste artigo foi apresentada no CAPSTRANS Workshop, em 1999.
Agradeço aos meus colegas pelas suas sugestões. Uma versão preliminar deste
artigo foi lida por Chris McDowell e por Ellie Vasta, da CAPSTRANS, a quem
também agradeço os comentários.
3 Globalization from below, no original (nota do tradutor).
4 Joseph E. Stiglitz é actualmente vice-presidente sénior e economista
principal do Banco Mundial.
5 Bottom up, no original (nota do tradutor).
6 Ver na página da Internet do Banco Mundial (http://www.worldbank.org), o
texto Social development family.
7 Comprehensive Developement Framework, no original (nota do tradutor).
8 Hiperglobalizers, sceptics and transformationalists, no original (nota do
tradutor).
9 Governance, no original (nota do tradutor).
10 Welfare states, no original (nota do tradutor).
11 Entre 1946 e 1975, o número de tratados internacionais em vigor aumentou de
6351 para 14061. Em 1996, existiam 260 organizações intergovernamentais,
incluindo as Nações Unidas e as suas diversas agências, outros organismos
globais como a Organização Mundial do Comércio, organismos regionais como a
União Europeia (UE) e o Fórum Ásia-Pacífico para Cooperação Económica (APEC),
organizações para a administração da justiça como o Tribunal Internacional de
Justiça, e organismos especializados em todas as áreas imagináveis da produção,
do comércio, da cultura, dos direitos humanos e outras. Existiam 5472
organizações internacionais não governamentais incluindo lobbies dos mais
diversos tipos, agências de auxílio, grupos de empregadores, organizações
internacionais de sindicatos, grupos religiosos, associações culturais, etc.
(Held e outros, 1999).
12 Settlement, no original (nota do tradutor).
13 Continuous Reporting System on Migration, no original (nota do tradutor).
14 Human Development Report, no original (nota do tradutor).
15 Landlessness, no original (nota do tradutor).
16 Resettlement, no original (nota do tradutor).
17 Top-down and bottom-up approaches, no original (nota do tradutor).
18 Para um exemplo de uma abordagem deste tipo nas favelas do Brasil ver: Abel
Mejia, Brazil: municipalities and low-income sanition, em Banco Mundial
(1996).
19 Rapid Rural Appraisal, no original (nota do tradutor).
20 Participatory Rural Appraisal, no original (nota do tradutor).
21 Por exemplo, numa zona residencial desfavorecida num subúrbio de Sidney, um
inquérito efectuado por trabalhadores da assistência social chegou à conclusão
que o principal problema era o crime e a ordem pública, levando à exigência de
melhor policiamento. Em contrapartida, num estudo posterior, sobre as
percepções dos residentes locais, conclui-se que o principal problema era a
incapacidade das autoridades locais para efectuar a manutenção adequada das
habitações, o que havia conduzido a uma situação de fracas condições de vida e
a um sentimento de abandono. Esta constatação levou os serviços a reprensarem
as estratégias de intervenção, por forma a incluírem os residentes no
planeamento e no acompanhamento dos serviços de manutenção.
22 Johan Galtung denuncia o imperialismo cultural implícito no aconselhamento
para o desenvolvimento, invertendo o processo: Imaginem o que isto pode
significar em termos práticos. Uma delegação indiana chega a Manhattan para
estudar os padrões americanos de procriação e de planeamento familiar,
firmemente convencida de que, se 5% da população mundial consome quantidades
desproporcionadas dos recursos energéticos mundiais e se é responsável por
quantidades desproporcionadas da poluição mundial, então, o que é necessário é
uma redução drástica da população. Relatórios deste tipo foram elaborados para
os países menos desenvolvidos pelos países mais desenvolvidos. E se os
primeiros fizessem o mesmo em relação aos segundos? (Galtung, 1996).
23 Ver International Political Science Review/Revue Internationale de Science
Politique, 21, 2000, Beverly Hills, California, Sage (nota do tradutor).
24 Globalization from below, no original (nota do tradutor).
25 O autor deste artigo participou no projecto Relações interculturais,
identidade e cidadania: uma comparação da Austrália, da França e da Alemanha,
desenvolvido em colaboração por equipas de investigação dos três países, e
financiado pela Fundação Volkswagen. O significado das diferentes culturas de
investigação científico-social nacionais foi uma descoberta importante e
inesperada do projecto, levando à decisão de dedicar um dos três livros
baseados no projecto a este tema.