Para uma clarificação das políticas económica, financeira e social: um
observatório sobre as práticas da gestão pública
PARA UMA CLARIFICAÇÃO DAS POLÍTICAS ECONÓMICA, FINANCEIRA E SOCIAL
Um observatório sobre as práticas da gestão pública
António Farinha do Amaral *
O efeito de crise exponencial na lógica do senso comum
No âmbito do actual debate sobre o sector público, há que identificar três
registos discursivos sobre a hipotética crise das empresas públicas versus
papel do estado providência.
Tem sido vulgar que, em qualquer local onde se discutam as empresas públicas,
haja sempre uma manifesta opinião sobre a situação de crise e eventuais
derrapagens e não se vaticine sobre o sector intervencionado do estado. Desde
os opinion makers que anunciam especulativamente sobre a matéria cenários
demasiado negros para o futuro das empresas, passando pela avalanche de
informação que trespassa a estratégia ou opções de negócio pouco
tranquilizantes para quem decidiu, numa aposta gestionária, dar a garantia a
curto prazo de um sinal revitalizante na sobrevivência da empresa. Ou então
aqueles que constroem como solução de todos os problemas a insinuante palavra
da privatização. Esta última tem estado cada vez mais na ordem do dia; quase
que, para quem se disponibilizar a aceitar tamanhas virtudes, a solução é mesmo
ao virar da esquina. Acompanhado por este passe de mágica, o garante dum
discurso projectado e cheio de efeitos especiais que se augura como uma solução
potencialmente redentora e que, até parece, antevê um futuro sorridente de
sucesso económico e financeiro para as empresas.
Os défices das empresas são vistos como a parte suja da ineficiência e
ineficácia da gestão dos negócios, ao mesmo tempo que as políticas de
racionalização nas empresas avançam para o seu emagrecimento. Não se avaliou se
existem outros problemas que estejam subjacentes à conceptualidade tradicional
de se viabilizar ou projectar para uma dimensão mais rigorosa da sua inserção
produtiva, e tece-se de imediato a velha fórmula clássica: trabalhar para o
rácio de produtividade, para um determinado VAB (Valor Acrescentado Bruto),
havendo que baixar o número de efectivos. São casos sobre que, quase todos os
dias, os que se interessam por aquilo que se passa no país não param de se
questionar. São esses os assuntos sobre que muitos dos cidadãos comuns se
interrogam perante a tirada menos escrupulosa de quem se indigna impulsivamente
e que não deixa de dizer: tantos milhões de contos de investimento nas infra-
estruturas, ferroviárias e rodoviárias, modernização de linhas, expansões da
rede metropolitana e respectivo alargamento a outras regiões do país, melhoria
das condições do transporte fluvial, investimento em material circulante com
tecnologia mais recente, etc. Mas aquilo que subsiste junto de todos aqueles
que utilizam os transportes, comunicações ou outros quaisquer serviços é a
desconfiança que começa a ganhar algum estatuto de verosimilhança, acompanhada
pelo receio de insegurança cujo impacte transbordante se traduz em imagens que
valem mais que mil palavras sobre o sofrimento. Daí que a responsabilidade das
empresas públicas pela gestão que realizam e o papel que desempenham as
respectivas tutelas tenha de ser muito mais rigorosa, para que a persistente
ideia do senso comum, embora considerada como preocupação legítima porque está
em causa um confronto diário com a prestação de um serviço de qualidade ou a
falta dele, se arrogue e se substitua à avaliação técnica e gestionária que
envolve maior complexidade analítica do que as meras suposições dos cidadãos.
Para maior tranquilidade destes e sem qualquer desprezo pela sua pertinência
observadora, já é tempo de se efectuarem avaliações a diferentes níveis da
gestão do sector público e intervencionado do estado.
Identificação do perfil do gestor público: da malha burocrática-estatutária aos
desafios de clarificação, mudança e inovação nas empresas
A clarificação económica e financeira desse sector assim o exige, mas sobretudo
nos impactos sociais e da sua performance nas organizações, num contexto célere
de mudanças no quadro da globalização e sob o signo das directivas europeias. O
efeito das mesmas tem de ser confrontado com as práticas gestionárias
desenvolvidas. Sob pena de que ao se falar do atraso estrutural no
desenvolvimento económico e social, quando comparado com os países do centro
europeu, não demos conta, entretanto, que este conjunto de condições de
abordagem permite corrigir de forma a que esse objectivo tenha maior
probabilidade de se aproximar à realidade de um desenvolvimento mais
sustentado. O maior obstáculo não é a ignorância em que, por vezes, se
permanece, é a profunda convicção de que uma ilusão de conhecimento se sobrepõe
à irrupção de novas experiências e lógicas de funcionalidade organizacional. O
que aparentemente está bem pode não estar face a figurinos de maior
complexidade no futuro. A antecipação é crucial perante desafios de relativa
previsibilidade. A resistência e a abertura, bem com a perda de oportunidade,
são tensões de que a dinâmica gestionária terá toda a vantagem em se rever e de
se denotar a diferença, a aposta e caminhos a seguir: do jogo de tensões à
acentuada crise ou de potencial desenvolvimento. Mas de que maneira, se não
existe nenhum observatório nacional que traduza essa experiência enriquecedora
com padrões comparativos face às práticas gestionárias na Europa, nos Estados
Unidos ou no Japão? Ora é precisamente aqui que reside a maior lacuna e,
simultaneamente, o enorme desafio aos investigadores, por um lado, e aos
gestores, por outro, é o de perceberem o que é que faltou às empresas para que
as suas equipas e organizações não garantissem resultados mais encorajadores a
diferentes níveis: não apenas na vertente economicista do resultado líquido do
exercício, que é fundamental, mas não só, no desenvolvimento da gestão humana e
na sua capacidade de mudança no quadro das dinâmicas sociais de produção
(Francfort, Osty, Sainsaulieu e Uhalde, 1990: 580). É uma herança gestionária
que, muitas vezes, não é transmitida à equipa seguinte com balanços precisos
sobre os projectos que, a manterem-se, necessitam de cuidados específicos no
seu acompanhamento. O que se verifica é que a transmissão do testemunho
gestionário é praticamente nula no âmbito das empresas públicas. Quem saiu do
topo estratégico, alvo de uma remodelação tutelar, não tem uma obrigatoriedade
de ética gestionária que transfira um acerto de pontos de situação, com as
devidas advertências, e demonstração do itinerário de potenciais soluções para
eventuais percursos de natureza periclitante.
Far-se-á por acaso o balanço junto dos ministérios que tutelam essas empresas
da performance gestionária e avaliar-se-á o seu impacte nas instituições e
junto da sociedade? Como foi possível o caso da TAP, agora tornado emblemático
pelo tipo de crise que atravessa, chegar ao ponto que chegou? Que conclusões se
retiram das práticas gestionárias anteriores? Não há responsáveis? Que
acumulação de erros foi cometida? Outro caso de crise já anunciada, o da CP,
esta devido ao anúncio do seu défice de 57 milhões de contos, do qual resulta
uma falência técnica. Que crise estrutural espreita esta transportadora
centenária após a aplicação racionalizadora do decreto-lei 104/97?1
Nem sempre se percebe que a roda viva de mudança de administrações constitui o
elemento chave que está associado a práticas de natureza gestionária, cujas
equipas se constituem por laços de afinidade que, por vezes, extravasam a
delimitação cada vez mais exigente de operacionalização de medidas que obrigam
a mecanismos mais inovadores e de potenciação das organizações. Nem sempre os
perfis das equipas do topo estratégico se encontram ajustados à dinâmica
exigente de concretização de determinadas estratégias. A sua responsabilidade é
acrescida quando depende de uma tecno-estrutura e de todas as pessoas que
coordenam recursos e que velam pelo ajustamento contínuo das acções.
Saber quem são estes dirigentes das empresas públicas do ponto de vista
sociológico e avaliar esse potencial e confrontá-lo com as missões concretas e
a capacidade de realização, é algo de que necessita uma análise permanente, com
vista a uma performance gestionária de maior responsabilização. Porque
essencialmente os cargos que ocupam são de elevadíssima responsabilidade com
impacte na economia e na sociedade. De elevada capacidade que deveria ser o
nível de exigência no quadro de uma análise permanente de responsabilização. O
topo estratégico das organizações deveria ser simultaneamente o de líder,
visionário e animador da organização e com um papel de coordenador ajustando
constantemente a acção da organização aos problemas que encontra (Zaleznik,
1977). É por isso que os gestores superiores são directamente responsáveis
pelo desempenho da organização, tanto actual como potencial (Bertrand e
Guillemet, 1994: 193).
Ora os gestores públicos devem às empresas e, sobretudo, à sociedade esse
contrato: o de uma gestão mais transparente, mais qualitativa na sua
performance, de forma a que aos olhos da opinião pública não se corrobore a
agitação eloquente de que há gastos e dívidas traduzidas em défices crescentes
e passivos desmesurados. É certo aparentemente, mas o mais importante é
entender o como e o porquê desses resultados. Não se deveria resumir apenas aos
resultados, mas ao conjunto de acções de carácter gestionário que contribuíram
para esse resultado acrescido. Sempre haverá a possibilidade de se demonstrar
as razões e se buscar nelas uma potencial explicação dos comportamentos
gestionários, dos resultados e dos exemplos, certamente enriquecedores dessa
clarificação, nas diferentes dimensões: proveitos e custos, económicos, sociais
e ambientais. A sociedade e os cidadãos carecem de uma forma acessível desse
manancial de informação. Comparar para poder melhorar e avaliar as exigências
traçadas. Poder-se-á advogar o prenúncio da sociedade do conhecimento inscrita
no aprofundamento do processo de democratização da mesma e que passa pelo
esclarecimento do essencial, mas também pela promoção do debate e partilha
envolvente de toda a comunidade. O caminho que eventualmente se percorrer para
uma era de informação decerto que não a envergonhará por isso.
Antes pelo contrário, é mais do que necessário que os gestores, atendendo à
complexidade com que se confrontam, se interroguem cada vez mais da pertinência
de paradigmas demonstrativos de ordem económica e financeira. Não são apenas os
resultados deficitários que eventualmente possam traduzir com rigor todos os
movimentos de prestação de serviço de uma empresa pública. O que se procura
problematizar aqui é que a racionalização económica aponta sempre no mesmo
sentido, para a recuperação económica de determinados sectores de actividade: o
emagrecimento das empresas. Pode ser uma medida adequada, mas não deixa de se
interrogar que a capacidade de oferta de uma área como a dos transportes,
designadamente o ferroviário e subterrâneo, tenha necessariamente um impacte no
tecido social. Entre aquilo que é a oferta do serviço e a economia que as
famílias auferem pela procura que efectuam. Não existe uma devolução à empresa
do custo que verdadeiramente representa com a utilização dos recursos
disponíveis para assegurar esse meio de transporte. Ou seja, não está a ser
paga na sua verdadeira dimensão económica. Há de facto, de acordo com as
tarifas determinadas pelo estado, um resultado salutar para os clientes desse
serviço, mas não se contabiliza socialmente o benefício auferido pelas
famílias, logo favorecendo uma certa coesão social. Dito de outra maneira, não
há uma contabilidade social da empresa e muito menos uma contabilidade
ambiental do impacte produzido por uma produção de transporte com aquelas
características e que, em bom rigor, não está sujeita a qualquer mecanismo
atenuante na demonstração de resultados da empresa. Ser amigo do ambiente como
pertença de valores ecológicos não representa valor acrescentado para o meio e,
consequentemente, para a sociedade, pelo menos num certo tipo de transporte
mais limpo. Há a consciência do problema, mas reconhece-se que é uma
preocupação crescente para a sociedade, num factor fundamental que impede a
acção rápida por parte da indústria e diz respeito à natureza e extensão do
processo da responsabilidade corporativa (Smith, 1997: 289-290). Este tipo de
responsabilidade está sistematicamente confrontado com uma gestão de cariz
burocrático, e acelera ainda a sua perspectiva degenerescente, sem propor como
alternativa mecanismos que disputem no terreno concorrencial modelos de
contabilização demonstrativos daquilo que representa manter, em áreas
metropolitanas, determinados meios de transporte público, sem alterações
significativas de tarifas.
Esta perspectiva, também de foro gestionário, pode não ter muita receptividade
pela tutela, mas o dever de quem executa determinada gestão não é apenas o de
cumprir as estipulações constrangedoras do Ministério das Finanças é, também, o
de introduzir lógicas que permitam a redução dos défices e respectivos
passivos. Existem outros ganhos contabilizados pela sociedade e que não se
traduzem em proveitos contabilísticos da prestação de serviço de uma empresa
pública. Geralmente, a realidade é muito mais cruel, porque dá a entender pelos
media que os avultados prejuízos ao longo de anos de determinadas empresas
públicas foram fruto de uma gestão despesista, por vezes negligente, nalguns
casos até poderia corresponder a parte da verdade, mas nunca se sabe se assim
foi. Está por demonstrar. Mas aquilo que seria fundamental equacionar era
verificar se, de facto, foram esgotadas essas perspectivas com vista a
credibilizar a gestão pública. Quanto mais não seja porque houve práticas
gestionárias que contribuíram para a liquidação de recursos nalgumas empresas,
como no caso da RTP que, ao ser obrigada a vender a sua rede de transmissões às
telecomunicações, ficou sem qualquer fonte que lhe garantisse a auto-
sustentabilidade.
Quando se fala na RTP, e nos seus prejuízos, ninguém se lembra o que ela
representou e representa para a cultura, para o conhecimento e entretenimento
durante anos a fio na sociedade portuguesa. E porquê? Porque o paradigma de
produção contabilística com que vivemos ainda não chegou ao estádio de produção
dos valores de imaterialidade, com tradução prática e rigorosa em proveitos na
sociedade portuguesa. Para todos os efeitos, não são contabilizados, tornando-
se invisíveis à luz da contabilidade geral e analítica que temos, e não
aparecem como elementos representativos nas contas dos balanços e balancetes
das empresas. Quando isso for possível, esperemos se questione da pertinência
deste género de contabilidade, visto que nos encontramos na era da informação e
do conhecimento, que representam valor acrescentado, e não contabilizado, em
todo o tipo de bens. Se houve a reconsideração dum paradigma nos anos 70, em
que as questões teóricas, metodológicas, étnicas e ideológicas, por essa
altura, perante a complexidade da evolução industrial e das organizações, foram
postas em causa, não se vê razão alguma para que este género de abordagens não
se enquadrem nas fórmulas críticas e se integrem progressivamente no campo
científico (Ballé, 1990: 108).
Na falta deste quadro objectivo, a par e passo, a opinião pública tece a
reserva das dúvidas que legitimamente lhe assiste: terão sido as orientações de
gestão preconizadas eficientes e eficazes? Que medidas de grande impacto e com
resultados visíveis se obtiveram? E que padrão de gestores soube produzir esse
quadro de soluções com relativo sucesso? Que práticas gestionárias estiveram
associadas a esse conjunto de políticas concretas? Que efeitos se produziram
junto das organizações? Em que medida a sua performance possibilitou uma
capacidade acrescida concorrencial? Que diferença sociológica existe entre esse
padrão de dirigentes de topo e os modelos contrastantes dos gestores alemães,
dos franceses e dos britânicos? Em que é que nos diferenciamos? Em que tipo de
elite económica e social se insere, pela defesa da eficiência pública, o gestor
público? Que perfil é necessário face ao quadro de cumprimento das directivas
europeias?
Em suma, que performance de gestores de topo se pretende para combater o atraso
estrutural do nosso desenvolvimento face aos países do centro da Europa? Que
obrigatoriedade deveria ser estabelecida para que esse campo, quase de
profissionalização, fosse modelado por perfis de muito maior exigência
gestionária, para além da relação de confiança em torno de um projecto político
do governo? A estas perguntas dever-se-ia obter respostas.
Em Portugal não se conhecem estudos das elites dirigentes do tecido
empresarial, e a sua comparabilidade em termos sociológicos com a dos outros
países está por se fazer. Talvez já seja altura de se desenvolver alguma
investigação nesse sentido. É bastante enriquecedor para as sociedades
compreenderem esses pequenos mundos sociais. Conseguir-se obter traços
identitários dos gestores públicos e dos empresários das PME portuguesas
obriga-nos a conhecermo-nos melhor para que ganhemos consciência das nossas
debilidades mas, também, de todo um potencial que se vislumbra numa sociedade
cada vez mais exigente. A transparência de resultados e confronto com outras
realidades gestionárias de outros países trarão, certamente, uma outra dimensão
e outras visões daquilo de que enferma a nossa gestão.
Apesar de as grandes orientações políticas, para os diferentes sectores, não
terem um papel muito mais activo junto dos responsáveis pela gestão pública,
compete ao poder político tutelar, quando nomeia para o exercício de funções
gestores para o topo dessas organizações, inverter essa tendência de
distanciamento e de desimplicação em torno dos resultados de gestão das
empresas. Essas empresas têm uma margem de manobra no seu interior muitíssimo
maior do que à partida se poderia supor. A ideia é a de promover a
transparência da gestão de todos os sectores empresariais de gestão pública e
intervencionada do estado, para que os défices e os passivos acumulados nesses
sectores não se transformem em terreno larvar de uma eventual má gestão
efectuada pelos conselhos de administração dessas empresas, sem qualquer
responsabilização daqueles que por lá passam. A avaliação gestionária deve
procurar dignificar o desempenho cada vez mais exigente de qualquer gestor
nomeado pelo estado. Um bom desempenho deve ser tido como exemplar e de rápido
marketing.
Deve servir de modelo e estímulo para que o sucesso alcançado seja partilhado
pelas diferentes equipas e a vários níveis pelas outras empresas. As equipas
que deixam crises profundas nesses sectores nunca poderão ser exemplos para
prosseguirem a mesma odisseia em outros lugares. E há a prática corrente desse
tipo de habilidades de cariz pouco gestionário que, dificilmente, poderá ser
promissora naquilo que se pretende obter e inverter no quadro da gestão
responsável: assumir o compromisso de maior exigência gestionária. Essa
obrigatoriedade não é resultado de observações vãs, mas de análise de
resultados que demonstre que não é por acaso que no sector da administração
pública existe uma fraca sintonia na definição e compreensão dos objectivos
organizacionais, e falta de pressão organizacional no sentido do cumprimento
rigoroso dos mesmos, bem como a reduzida participação ou envolvimento nas
políticas de GRH muitas vezes decretadas pela tutela (Gonçalves das Neves,
2000: 241).
Se hoje as empresas pretendem recrutar empregados que sejam capazes de inovar,
pensar e imaginar e desafiar o status quo, como é que será possível ter um
topo estratégico que delineie um conjunto de políticas de recrutamento, com
aquelas características, quando aquilo a que se assiste é que as estruturas
organizacionais sobrevivem à base da docilização cúmplice dos seus empregados
com o poder burocrático (Toffler 2001: 23). Aliás, é assim que sobrevivem. De
resto, os que desafiam o meio, são vistos no interior das empresas como
rebeldes que nunca estão bem e só vivem em conflito. Ficam talhados com este
estigma até ao fim da sua vida profissional. A iniciativa individual nas
organizações está remetida para uma condenação típica das estruturas de
administração pública; neste aspecto, por exemplo, a francesa não se distancia
muito da portuguesa: o seu funcionamento baseia-se no respeito pela hierarquia
e pelos regulamentos. Perante uma determinada situação, todo o agente deve
remeter-se à aplicação de um texto ou recorrer ao seu superior hierárquico. ( )
É este modelo que as novas formas de gestão põem em causa, quer se trate do
reconhecimento do trabalho em equipa ou da gestão em rede. Em última instância,
o futuro da empresa assenta em iniciativas individuais, que constituem a
resposta a situações imprevistas (Landier, 1994: 127). Qualquer semelhança com
a realidade portuguesa não é pura coincidência. E é por este facto que o
problema social duma empresa reside sempre em poder mobilizar um colectivo de
indivíduos em torno da produção (Sainsaulieu, 1987: 347). Obriga-nos, isso sim,
a questionar: que geração de gestores públicos temos pela frente que saiba
romper com esse modus vivendi, acomodado com o poder, de uma tecno-estrutura
reinante, que reproduz e legitima um certo tipo de culturas e práticas? Quem é
que a questiona? Porventura a gestão de topo promove a mudança no seu interior?
Provavelmente o apelo insistente dos equilíbrios mantidos por acordos é mais
forte e sobrevaloriza a lógica conservadora da organização?
Um modelo de gestor público passa pela avaliação da gestão pública
A avaliação da gestão pública também deverá passar por este conjunto de
abordagens que dê resposta às interrogações atrás referidas. Sem elas
dificilmente poderemos perceber que perfis de gestores temos e para que perfil
é necessário evoluir. E que competências sociais acrescidas para encontrar os
meios de articular um conjunto de capacidades criadoras e participativas. Este
talvez seja um dos problemas que os responsáveis do desenvolvimento social da
empresa têm pela frente. E nesta senda, Sainsaulieu coloca a interrogação sobre
que tipo de padrão colectivo de valores possui cada sistema social de relações
de trabalho. Refere-se, justamente, à necessidade de se obterem respostas sobre
as culturas de empresa, os seus valores, à capacidade de se adaptarem, ou não,
às mudanças tecnológicas, sobretudo à emergência das suas representações
colectivas e portadoras de federações interindividuais (idem, ibidem: 352). Até
é provável que estejamos perante um modelo de evolução burocrático que em
contacto com os clientes do serviço público se encontre confrontado com uma
verdadeira dinamização de relações de trabalho entre os agentes e níveis de
hierarquia para ajustarem as procuras sociais dos clientes (Francfort, Osty,
Sainsaulieu e Uhalde, 1990: 484). E ao reconhecerem essas transformações
concretas nas relações de trabalho, os agentes do serviço público apresentam
novas respostas locais a uma sociedade em dificuldade, mas sem que isso resulte
em verdadeiras mudanças institucionais. Caracterizar esta provável situação no
interior das empresas públicas e procurar dar um salto mais qualitativo requer
um outro olhar sobre as práticas de gestão. Tendo em conta o terreno e a
complexidade sociais e o que hoje é exigido aos gestores de topo, atendendo à
emergência de novos paradigmas gestionários, resultantes da investigação e
produção científicas, há que desmistificar a ideia de que a carreira de gestor
público é para toda a vida. Houve e há gestores públicos que ultrapassam a
idade de reforma e, outros ainda, já reformados a ocuparem cargos de enorme
responsabilidade ou como assessores de topo estratégico. É uma fase
profissional de evolução na carreira que terá de acompanhar não só a
experiência vivida mas, também, o conhecimento de novas competências e saberes
sociais. De acordo com um estudo sobre o modelo europeu de dirigentes,
produzido em 1996, a idade média dos dirigentes em França era de 57 anos, na
Alemanha 56 e na Grã-Bretanha 58 anos (Bauer e Bertin-Mourot, 1996: 129). Daí
que seja cada vez mais pertinente um estudo sobre os gestores das empresas
públicas. Não se possui o retrato-robot pelos diferentes tipos de actividade
e, assim, não se mostra até que ponto uma sociologia da empresa pode
enriquecer-se integrando uma análise adequada dos seus dirigentes/gestores,
aliás, como foi defendido em França por Michel Bauer, quando ensaia o caso
francês e faz destacar que não há uma sociologia de empresa sem uma sociologia
dos seus dirigentes (Bauer, 1990: 148).
As ideias ou as opiniões que transparecem num simples lugar comum de um
transporte de passageiros, ou num simples restaurante, estão cheias de uma
corrente que gera, na fortuita observação crítica, o estabelecimento de
cumplicidades que prossegue no seu império discursivo e avassalador do mau
estar, fruto do país em que se vive ou, então, deste ou daquele ministro, de
qualquer que seja o governo. Acaba por ser uma página desgarrada de um
quotidiano de pessoas às avessas com uma realidade que não lhes toca. Mas que a
transmitem de viva voz como se de protagonistas se tratasse. Ao romper esse
profundo distanciamento, demonstra-se, de vez em quando, uma boa vontade para
explicar as razões mais profundas que estão subjacentes a um conjunto de
práticas que se repetem com a mesma lassidão, se perpetuam no tempo sem nunca
serem problematizadas e que tornam confrangedores os actos de gestão. A mesma
fórmula: discursos por vezes muito avançados com vista a alterações
organizacionais que até dão a ideia que aquilo é parte integrante do espírito
de corpo que colocaram em toda a tecno-estrutura empresarial. Mas será que essa
tecno-estrutura partilha desses pontos de vista? As resistências e as
correcções de rota discursiva foram aferidas? Nada disso, profundo engano,
poderá ser algo que se aproxima da intencionalidade, mas timidamente. O que
acabará por emergir é pacífico e menos problemático, por isso fazer o menos
possível de ondas torna-se aconselhável a estratégia é a de sobrevivência
de longa duração nos cargos de gestão.
O meio pode ser um obstáculo, claramente identificado à partida, mas a
renitência em assumir uma orientação com este timbre de mudança inovadora, por
constrangimentos de vária ordem de interesses, faz com que se abortem
reorganizações e mudanças necessárias, vertical e horizontalmente. Aliás, é
preciso saber em que medida é que esta observação superficial corresponde, ou
não, a constrangimentos de variada ordem no desenvolvimento de uma gestão. Se,
de facto, há esforços inovadores ou se aquilo que sobressai da medida
tecnocrática, revelando o estado da arte da gestão, se resume basicamente a
isto: contorne-se o problema, de acordo com as circunstâncias, porque haverá
certamente alguém que se encarregará, a longo prazo, de tomar as medidas mais
drásticas. Na maior parte das vezes, pecam por tardias, insensatas e
profundamente dramáticas, em outros casos, como modas gestionárias, ou como
receitas precipitadas: o downsising, certas reengenharias, fusões e
alienações sem terem em consideração as especificidades dos sectores, as suas
culturas organizacionais e imensos outros factores. A gestão preventiva e
preditiva é retórica, não passa dos bancos das universidades e não tem
aplicabilidade à realidade das empresas, segundo alguns. Aquele que se atrever
a brandir as proclamadas teorias, testando-as no terreno, acabará rapidamente
por ser excomungado e desaprovado pelo meio gestionário. O tempo, esse é que
é implacável, não se compadece com erros de cálculo, crescimentos de pessoal
muito acima das posses económicas e financeiras das empresas, e com essa
natureza de políticas, a esperança de que a imprevisibilidade traga boas
notícias nem sempre corresponde à verdade adia o problema mas nunca o
resolve.
Uma abordagem sociológica na diferenciação de três modelos de produção de
autoridade legítima nas elites dirigentes de grandes empresas: comparação entre
os casos francês, alemão e britânico
2
Traços da elite francesa
No que se refere ao caso francês, o estudo citado demonstra que, para se aceder
ao topo das grandes empresas e contrariando os numerosos discursos que
afirmavam, principalmente, a singularidade e a complexidade das grandes
empresas e a importância do seu papel socioeconómico , estas organizações não
aparecem como viveiros muito eficazes do ponto de vista da renovação da classe
dirigente empresarial. A conclusão, remetida para os principais traços das
elites dirigentes francesas e sua evolução, faz constatar que as empresas não
produzem a autoridade legítima suficiente para se aceder ao topo das mesmas.
Antes pelo contrário, dá-nos conta que a tese da revolução gestionária ficou
muito aquém, como via de acesso à classe dirigente. Esta dificuldade, que emana
das empresas, em produzir uma autoridade legítima, não diminui, mas antes se
reforça. Se a empresa foi reabilitada, o mesmo não se pode dizer do topo das
empresas. Elas estão longe de uma valorização própria que lhes permita
alimentar a classe dirigente. Por um lado, do ponto de vista do capital e,
por outro, do estado, as grandes empresas não são receptivas a uma terceira
via. Elas alimentam-se mais dos numerosos discursos sobre a eficácia das
lógicas de empresa, forçando-as a permanecerem fechadas (Bauer e Bertin-Mourot,
1996: 69).
Por isso a renovação da população de dirigentes das grandes empresas apresenta
traços de abertura e de fechamento. De abertura a uma fracção de dirigentes,
pelo peso que representam como fundadores e de herdeiros-fundadores, que
estão longe de ser descurados, e que manifestam mobilidades sociais ascendentes
muito importantes. Todavia, do ponto de vista da lógica do capitalismo
familiar, precisamente no período que abarca 1985-1996, esta abertura tem
tendência a diminuir, até porque, simultaneamente, o número de herdeiros
aumenta. Encontra-se um outro factor de abertura desta fracção dirigente: o
peso dos membros dos corpos gerentes, tendo em conta o modo de acesso a estes
viveiros pela via de concurso. Não é sempre uma abertura social significativa;
ao êxito académico está fortemente associada a origem social, mas a abertura é
real, nomeadamente para os jovens mais promissores provenientes das classes
médias.
Este modo de acesso às elites dirigentes funciona como um dispositivo de
segurança, por sua vez, de abertura da classe dirigente do ponto de vista
multigeracional e do seu grande fechamento do ponto de vista monogeracional.
O papel muito significativo do modo de acesso desenha uma população de
dirigentes relativamente aberta em termos de primeira oportunidade mas,
inversamente, muito fechada à segunda oportunidade. Em quase todos eles o
trajecto é jogado antes da vida profissional e, por conseguinte, à entrada na
empresa. As empresas gerem a carreira dos seus quadros aceitando a tirania do
diploma inicial. Surge, assim, uma certa incapacidade das empresas francesas de
porem em causa as hierarquias académicas e em produzirem novas hierarquias.
Assim se explica e reforça a enorme pressão exercida sobre o sistema de ensino,
designadamente no ensino superior
Denota-se, desta forma, uma incapacidade das empresas francesas em produzirem,
individual e colectivamente, dirigentes, subordinadas que estão ao recurso
sistemático a viveiros exteriores bem delimitados, para detectar os seus
futuros patrões, reforçando assim a homogeneidade da classe dirigente francesa.
Se existe uma forte circulação das elites, ela só se manifesta apenas num único
sentido. Esta origem comum de responsáveis políticos faz conservar a ausência
de debate que atravessa esta classe dirigente e o seu fosso com os dirigidos.
No fundo, para se aceder à classe dirigente tudo se joga demasiado cedo, no
diploma inicial, e por conseguinte, à entrada nas grandes universidades ou,
mesmo antes, nos cursos de liceu. Tudo se passa como se a função principal do
sistema superior não fosse o de formar mais mas, como princípio, classificar os
jovens duma geração e seleccionar os melhores.
Uma grande parte da composição da classe dirigente francesa deveria passar por
uma modificação substancial do modo de renovação dos seus dirigentes nas
grandes empresas. Ela necessita de passar por uma transformação que ateste uma
real competitividade entre grupos de dirigentes portadores de projectos
alternativos, bem como por uma grande abertura da classe dirigente, e por um
novo papel do sistema de ensino, assim como pelo exercício de uma democracia de
segunda oportunidade.
Traços da elite alemã
A análise que se efectuou sobre um conjunto de dirigentes das grandes empresas
revela até que ponto a experiência profissional na empresa é valorizada na
Alemanha. A reprodução de dirigentes, considerada maioritária para o período em
análise ou seja, de 1989 a 1994 , mostra que a experiência adquirida no seio
do universo da empresa constitui o factor com maior peso, revelando-se mesmo
uma condição necessária para aceder ao topo, e aparecendo, assim, com uma
ligação forte e legítima na produção de autoridade, na esfera económica.
O único e eventual contrapeso a esta hegemonia de dirigentes detectada no mundo
da empresa é a procura na taxa de dirigentes familiares que, mesmo em redução,
representa quase um quarto da população, onde se encontra uma grande maioria de
herdeiros e muito poucos fundadores.
As formas do capitalismo alemão articulam-se em torno de duas lógicas: por um
lado, uma lógica dominante de capitalismo gestionário e, por outro, uma lógica
de capitalismo familiar.
A grande maioria dos dirigentes alemães são diplomados. Mas existe na Alemanha
uma multiplicidade de vias de acesso a estes diplomas, acabando por se revelar
uma grande abertura nas empresas deste país relativamente à formação.
Por outro lado, nenhum diploma parece providenciar a substituição da avaliação
feita pela empresa no seu próprio terreno. A descoberta, pela base, das lógicas
de funcionamento do mundo e, frequentemente, num trabalho prolongado no seio de
um sector de actividade particular, demonstra-se essencial.
A taxa relativamente fraca, neste país, de dirigentes detectados antes da vida
profissional manifesta que as cartas são pouco jogadas antes da vida
profissional e que elas se atribuem durante a vida profissional. Ser detentor
de um diploma académico não é indispensável para aceder ao topo da gestão das
empresas, rejeitando-se, pois, a obrigatoriedade da exigência do diploma
inicial: por um lado, os viveiros escolares naquelas empresas alemãs, de onde
extraem os seus futuros dirigentes, são muito vastos e, por outro lado, uma
verdadeira formação na empresa bem como a experiência adquirida são fortemente
valorizadas.
A taxa marginal de dirigentes oriundos do mundo da administração e/ou da
política indica que existe uma forte diferenciação entre as elites político-
administrativas e as elites das empresas uma diferenciação ainda acentuada
pela ausência de viveiros comuns de tipo escolas de excelência: as elites
económicas alemãs demoram muito a especializarem-se. Todavia, o fraco movimento
de circulação das elites parece fazer-se nos dois sentidos: os fenómenos de
ida-retorno não são raros.
Traços da elite britânica
O acesso ao topo das grandes empresas britânicas é essencialmente caracterizado
por uma dualidade entre a produção dos dirigentes da empresa, por um lado, e a
reprodução social, por outro.
Por um lado, os detentores de trunfos de carreira, onde dominam os da
mobilidade; são aqueles que circulam e operam no mercado interempresas, mais do
que propriamente no seu interior.
Por outro lado, os detentores de trunfos de excelência escolar e de capital,
onde se encontram pessoas que passaram pela public school e/ou que herdaram a
empresa.
Esta estrutura dual manifesta a coexistência, quase equilibrada, dum fechamento
social e duma abertura profissional, que se reencontram tanto na formação como
na detecção:
* a análise das formações revela ainda a coabitação entre, por um lado, as
velhas public schools e a Oxbridgeonde se estabelecem as redes(old boys
networks) e as solidariedades do establishment e, por outro, os autodidactas,
das antigas grammar schools e das universidades de segunda linha.
* a análise em termos de detecção revela, à mesma, a coabitação entre aqueles
que, detentores de um trunfo de carreira, tiveram durante a vida profissional
a sua oportunidade de promoção.
Estes diferentes traços manifestam duas ausências:
* a ausência de um dinamismo capitalista de tipo familiar portador de
fundadores de empresas: a importância das lógicas de reprodução social (e sem
dúvida as lógicas financeiras sobre o mercado das empresas) parece assim
pesar sobre a vitalidade das lógicas empreendedoras;
* a ausência de uma detecção operada durante a vida profissional fora da
empresa, dito de outra maneira, de abertura aos detentores de trunfos na alta
administração ou política. É verdade que as instituições britânicas não
oferecem muito a ocasião duma circulação das elites das esferas políticas e,
sobretudo, administrativas para a esfera económica. A forte homogeneidade da
classe dirigente, produto das public schools e Oxbridge,coexiste assim com
uma forte diferenciação profissional.
Em suma, as elites dirigentes das grandes empresas britânicas parecem realizar
a coexistência, quase equilibrada, entre as lógicas gestionárias e as lógicas
aristocrático-familiares. Esta coabitação é sem dúvida facilitada por certos
traços comuns do modelo cultural daquelas duas populações, nomeadamente numa
orientação essencialmente financeira, manifestando um melhor conhecimento das
regras de mercado das empresas do que da empresa dirigida e resultante da
importância das mobilidades e dos chartered accountants.
Notas
1 O decreto-lei 104/97 teve como finalidade buscar uma solução para o sector
dos transportes no quadro das políticas europeias, ao separar aquilo que
representava a parte das infra-estruturas da Caminhos de Ferro Portugueses,
actualmente denominada REFER, da parte da exploração que ficou com a designação
da empresa de origem, a CP.
2 Este estudo comparativo é da autoria de Michel Bauer e Benedicte Bertin-
Mourot, ambos sociólogos do CNRS, França, com a colaboração de d'Herve Joly e
de Pascal Thobois, produziram Vers un Modèle Européen de Dirigents?, em 1996.
Procurou-se, assim, fazer uma resumida tradução com base nos resultados de
investigação destes autores, obtendo para o efeito as diferenças dos vários
traços das elites dos casos estudados: francês, alemão e britânico.