O caso de Foz Coa: um laboratório de análise sociopolítica
O CASO DE FOZ COA: UM LABORATÓRIO DE ANÁLISE SOCIOPOLÍTICA
[Maria Eduarda Gonçalves (org.), Lisboa, Edições 70, 2001]
Maria de Lourdes Lima dos Santos
Neste estudo, o caso de Foz Coa é restituído, através de uma análise
multifacetada, alimentada por abordagens pluridisciplinares, contextualizantes
e informadas por fecundos contributos teóricos.1Uma análise que permite ao
leitor apreender a especificidade do caso sem ficar fechado na sua
singularidade, antes podendo desenvolver uma densa e alargada reflexividade por
caminhos em que o conhecimento do caso e o conhecimento dos diferentes
processos que o atravessam reciprocamente se vão iluminando.
Para esta bem conseguida restituição do caso Foz Coa concorre a presença
cumulativa de diversos factores, nomeadamente a capacidade de accionar
referências bibliográficas actualizadas e pertinentes, de rentabilizar os
benefícios da retrospecção já possível, de diversificar e cruzar
infatigavelmente as fontes de informação, de conseguir integrar as múltiplas
perspectivas analíticas e de trazer algo de novo a partir da articulação entre
trabalho de campo e reflexão teórica.
Naturalmente que, para quem conhece o trabalho dos autores, assinalar a
presença destes factores é insistir no óbvio, mas julgo que é cada vez mais
necessário relembrar que o esforço de rigor associado à criatividade faz a
diferença entre o resultado de uma investigação em ciências sociais e de um
relatório de tipo administrativo, uma diferença que, nos meios político-
administrativos encomendadores de pesquisas, às vezes se ignora.
Aliás, na(s) análise(s) presente(s), a dupla rigor-criatividade alcança força
atractiva mesmo para o leitor não especialista, aquele que, para lá da
informação mais ou menos fragmentada, parcial e superficial recolhida através
da comunicação social, precisa agora de suspender os seus juízos sobre o caso,
problematizá-los à luz de novas perspectivas e reperguntar-se, como fazem os
autores do livro: porque terá o debate público e a acção pública alcançado tal
intensidade no caso de Foz Coa? uma questão de partida que o levará, de
capítulo em capítulo, a defrontar-se com várias séries de outras questões e um
complexo conjunto de respostas possíveis.
Como bom estudo de caso que é, este trabalho tem também implícitos elementos de
dramatização ou mesmo de suspense, independentemente da sua legitimidade
científica este será um aspecto secundário do estudo, mas não quero deixar de
o referir (adiante se perceberá porquê). Com efeito, em termos de elementos de
dramatização, deparamo-nos com uma ou várias histórias ou intrigas, que se vão
desenrolando ao longo dos sete capítulos por exemplo, a história do
aparecimento e sucessivas revisões do projecto de aproveitamento hidráulico de
Foz Coa, criado e desenvolvido em desconexão com a envolvente social, cultural
e ambiental, e perpassado de algum mistério Ou, um outro exemplo, a história
da animada sucessão de debates parlamentares contundentes e predominantemente
polarizados entre discursos economicistas e discursos culturalistas. Deparamo-
nos também com personagens muito diversas que protagonizam as diversas
histórias por exemplo, peritos tais como engenheiros e arqueólogos, decisores
políticos, jornalistas, elementos da população local, etc., envolvidos em
estratégias de aliança ou de hostilização. Deparamo-nos com equívocos e lances
dramáticos por exemplo, o irromper do problema da datação das gravuras (do
Paleolítico Superior ou de há 300 anos?) ou as interpelações da imprensa
internacional (o Times acusando o governo português de atentar contra um
património da humanidade). Deparamo-nos com desfechos aparentemente inesperados
por exemplo, a decisão política de proteger as gravuras e abandonar o
projecto da barragem. Deparamo-nos, enfim, com o prolongamento do suspense a
ausência de fim da história porque o caso de Foz Coa não está encerrado e o seu
futuro não é claro.
Ao avançar sumariamente estes exemplos da presença de elementos de
dramatização, sublinhando ao mesmo tempo o carácter secundário que per se têm
no estudo do caso, o que pretendo fazer notar é que a dita presença de tais
elementos cumpre aqui objectivos que não são os tendencialmente visados por
algumas abordagens jornalísticas. Neste estudo, precisamente, o aliciante está
não na montagem mas na desmontagem das máquinas de desejos que foram sendo
mediaticamente engendradas no decurso do caso esta é a questão da utilização
de dispositivos de dramatização e do seu papel (directo ou indirecto) na
mobilização da opinião pública em torno do caso de Foz Coa, uma das questões
que os autores colocam face à pergunta acima formulada porque terá o debate
e a acção pública alcançado tal intensidade no caso de Foz Coa?
Sem querer sobrepor-me à indispensável leitura do livro, gostava de destacar
sucintamente alguns aspectos desse trabalho de desmontagem e restituição do
caso Foz Coa que vai sendo realizado ao longo da pesquisa. Trata-se de um
exercício que incorpora vários níveis de análise, combinando etapas, agentes,
estratégias e dinâmicas e utilizando diferentes técnicas (entrevista, inquérito
por questionário, análise documental e de discurso).
Sobre um matizado pano de fundo teórico tecem-se, digamos assim, as operações
de desmontagem e restituição, respondendo a exigências que eu alinharei segundo
três ou quatro dimensões indissociáveis umas das outras e transversais aos
vários capítulos: (1) o enquadramento histórico-social, reclamando, por um
lado, um recuo temporal que antecede o arranque cronológico do caso e, por
outro lado, um alastramento espacial que transvasa, por vezes, para o nível
internacional; (2) a utilização de modelos não polarizados, particularmente
adequados frente a um objecto de análise tão fortemente marcado pelo carácter
heterogéneo e móvel das interacções entre os agentes e, ao mesmo tempo,
paradoxalmente, tão marcado por leituras redutoramente polarizadas das
disposições e acções desses mesmos agentes; (3) o privilegiar da análise de
determinados processos que, como já ficou dito, ao interceptar este caso o
iluminam e são por ele iluminados (estou a pensar em processos como o da
evolução das relações entre ciência e estado, o do confronto entre diferentes
modelos de desenvolvimento, o da configuração de novas formas de cidadania, o
da mobilização dos públicos e seu envolvimento em movimentos sociais
contestatários, etc.); (4) a avaliação apoiada na já referida retrospecção
possível e no compulsar de alguns dos recentes prolongamentos do caso de Foz
Coa.
Relativamente a esta última dimensão, há que evocar uma segunda grande pergunta
com que os autores confrontam o leitor: em que medida Foz Coa constitui um
caso atípico ou um caso exemplar na sociedade portuguesa? De algum modo, as
respostas possíveis que se vão recolhendo da leitura, através da identificação
de determinadas mudanças na sociedade portuguesa, constituem elementos
explicativos tanto para esta segunda pergunta como para a primeira (porque
terá o debate etc., etc.). Efectivamente, se percorrermos as várias abordagens
dos processos a que aludi ao enunciar as quatro dimensões de desmontagem e
restituição do caso Foz Coa, encontramos tendências novas e pressões para a
mudança que ultrapassam estratégias conjunturais ligadas a interesses
corporativos ou partidários. Não vou, escusado será dizê-lo, demorar-me em
panorâmicas sobre a mudança na sociedade portuguesa, mas tão-só, reter algumas
alterações a que se associaram novas opções e novos modos de os vários actores
em jogo se posicionarem e a que os decisores políticos e os cientistas têm, a
diferentes títulos, de estar atentos ao abordar um caso como o de Foz Coa. Pela
própria espectacularidade que adquiriu, ele funciona como um revelador de
mudança, conforme o demonstram os autores deste trabalho ao apontarem a
emergência ou o relevo que novos modelos ganham entre nós com o despoletar do
dito caso.
É assim que Foz Coa faz sobressair a inoperância de um modelo de
desenvolvimento economicista e incentiva a procura de conteúdos novos ou
alternativos, procura que, para lá das polarizações entre o modelo
industrialista e o modelo culturalista, irá acolher um novo conceito de
cultura, ela mesma factor integrante de desenvolvimento. É assim também que Foz
Coa faz sobressair novas formas de relação entre ciência, política e opinião
pública, formas perpassadas por contradições de vária ordem e aprendizagens
difíceis, nomeadamente entre uma busca crescente de alicerçar decisões
políticas em certezas científicas e uma necessidade crescente de gerir
politicamente as manifestas divergências e incertezas científicas. Ou, por
outro lado, novas formas de afirmação de legitimidade científica por parte da
respectiva comunidade e de luta pelo reconhecimento público do lugar devido aos
especialistas (neste caso, os arqueólogos). É assim, ainda, que Foz Coa faz
sobressair a função mobilizadora dos média, em particular do jornalismo (o meio
de comunicação considerado neste estudo), como função ambivalentemente
mobilizadora, porque o tratamento mediático desenvolvido a partir de uma
controvérsia pode ser, ao que parece, condição para desencadear um movimento de
contestação e, ao mesmo tempo, pode ter um efeito electrificante, arrastando
uma capacidade de encenação, de intriga, que não é propícia a uma representação
reconstrutiva da ocorrência mas antes a uma adesão ou rejeição fácil,
simplista. É, assim, para terminar, que Foz Coa faz sobressair o aparecimento,
entre nós, de certas novas práticas de participação, de cidadania, que passam,
por exemplo, pela importância conferida ao património. De notar, no entanto,
que a este respeito, o inquérito aos visitantes do Parque Arqueológico elucida-
nos sobre o carácter restrito do significado social que a opção de conservação
das gravuras hoje alcança, pelo menos em termos da caracterização sociológica
dos praticantes que se deslocam ao santuário do Vale de Coa.
Mas no horizonte, a sustentar expectativas de futuro desenvolvimento local
integrado, estão as dinâmicas que, apesar das dificuldades muitas, se vão
desenvolvendo na esteira do caso de Foz Coa, para cujo entendimento este livro
é inegavelmente uma peça indispensável.
Nota
1 Este texto corresponde à apresentação feita quando do lançamento do livro.