Modernidades múltiplas
I
A noção de "modernidades múltiplas" denota uma certa visão do mundo
contemporâneo - também da história e das características da era moderna - que
contraria as visões desde há muito prevalecentes no discurso académico e
geral.1 Contraria a visão das teorias "clássicas" da modernização e da
convergência das sociedades industriais, prevalecentes na década de 50, e
contraria as próprias análises clássicas de Marx, Durkheim e, em grande medida,
mesmo a de Weber, pelo menos no que respeita a uma das leituras que permite a
sua obra. Todas elas assumiam, mesmo que só implicitamente, que o programa
cultural da modernidade, tal como se desenvolveu na Europa, e as constelações
institucionais básicas que aí emergiram, acabariam por dominar todas as
sociedades modernas e em modernização; com a expansão da modernidade, viriam a
prevalecer por todo o mundo (Kamenka, 1983; Weber, 1978; 1968a; 1968b; e 1958;
Runciman, 1978; Bellah, 1973; Jay, 1984).
A realidade que emergiu na sequência do chamado começo da modernidade, e
especialmente depois da II Guerra Mundial, não suportou estas assunções. Os
desenvolvimentos concretos nas sociedades em modernização refutaram as
assunções homogeneizadoras e hegemónicas deste programa ocidental de
modernidade. A par de uma tendência generalizada que se desenvolveu na maior
parte destas sociedades, no sentido da diferenciação estrutural entre diversas
instituições - na vida familiar, nas estruturas económicas e políticas, na
urbanização, na educação moderna, nos meios de comunicação de massas e nas
orientações individuais -, as formas através das quais estas arenas se foram
definindo e organizando variaram fortemente, nos diversos períodos do seu
desenvolvimento, dando origem a múltiplos padrões institucionais e ideológicos.
Significativamente, estes padrões não se constituíram, na era moderna, como
simples prolongamentos das tradições das respectivas sociedades. Todos eles
eram distintamente modernos, apesar de largamente influenciados por premissas
culturais, tradições e experiências históricas específicas. Todos eles
desenvolveram dinâmicas modernas e modos de interpretação distintos, para os
quais o projecto original do ocidente se constituiu como referência crucial (e,
normalmente, ambivalente). Muitos dos movimentos que se desenvolveram em
sociedades não ocidentais articularam fortes temas anti-ocidente, ou mesmo
antimodernos; no entanto, todos eles eram distintamente modernos. Isto
aplicava-se não só aos vários movimentos nacionalistas e tradicionalistas que
surgiram nestas sociedades, a partir de cerca de meados do século XIX até à II
Guerra Mundial, mas, também, como faremos notar, aos movimentos
fundamentalistas mais contemporâneos.
A ideia de modernidades múltiplas pressupõe que a melhor forma de compreender o
mundo contemporâneo - e também para explicar a própria história da modernidade
- é vê-lo como uma história contínua de constituição e reconstituição de uma
multiplicidade de programas culturais. Estas incessantes reconstruções dos
múltiplos padrões institucionais e ideológicos são levadas a cabo por actores
sociais específicos em estreita relação com activistas sociais, políticos e
intelectuais, e também por movimentos sociais que perseguem diferentes
programas de modernidade, defendendo visões muito diferentes acerca do que
torna uma sociedade moderna. Através da ligação destes actores com sectores
mais alargados das suas respectivas sociedades, são realizadas expressões
únicas de modernidade. Estas actividades não se confinaram a nenhuma sociedade
ou estado específico, apesar de certas sociedades e estados se terem revelado
arenas privilegiadas para que activistas sociais pudessem implantar os seus
programas e lutar pelos seus objectivos. Apesar de se terem desenvolvido
diferentes interpretações da modernidade múltipla nos diferentes estados-nação,
no interior de diferentes agrupamentos étnicos e culturais, entre comunistas,
fascistas e movimentos fundamentalistas, cada um deles, por mais diferente que
fosse dos restantes, era, em diversos sentidos, internacional.
Uma das implicações mais importantes do termo "modernidades múltiplas" é que a
modernidade e a ocidentalização não são idênticas; os padrões ocidentais de
modernidade não constituem as únicas modernidades "autênticas", apesar de
gozarem de precedência histórica e de continuarem a ser um ponto de referência
básico para os restantes.
Ao admitir-se uma multiplicidade de modernidades em contínua evolução, somos
confrontados com o problema de saber o que se constitui como núcleo comum da
modernidade. Este problema é não só exacerbado como é também transformado pela
desconstrução ou decomposição contemporânea de muitos dos componentes dos
modelos "clássicos" da nação e dos estados revolucionários, em particular como
consequência da globalização. O discurso contemporâneo levantou a possibilidade
de o projecto moderno, pelo menos nos termos da sua formulação clássica, se ter
esgotado. Uma visão contemporânea defende que esse esgotamento é manifesto "no
fim da história" (Fukuyama, 1992). A outra visão mais difundida é a noção de
Huntington (1996) de "choque de civilizações", em que a civilização ocidental -
a síntese aparente da modernidade - é confrontada por um mundo em que
civilizações tradicionais, fundamentalistas, anti-modernas e anti-ocidentais
são predominantes, algumas delas vendo o ocidente com animosidade ou desdém (de
forma mais evidente, os agrupamentos islâmicos e os chamados confucionistas).
II
O programa cultural e político da modernidade, como começou por ser
desenvolvido na Europa ocidental e central, implicava, como nota Björn Wittrock
(2000), premissas ideológicas e institucionais distintas. O programa cultural
da modernidade implicava alterações muito diferentes na concepção de acção
humana e do seu lugar no fluir do tempo. Carregava consigo uma concepção de
futuro caracterizada por um número de possibilidades realizáveis através da
acção humana autónoma. As premissas em que assentava a ordem social, ontológica
e política, e a legitimação dessa mesma ordem, já não eram dadas como
garantidas. Desenvolveu-se assim uma intensa reflexividade em torno das
premissas ontológicas básicas das estruturas da autoridade social e política -
uma reflexividade partilhada mesmo pelos críticos mais radicais da modernidade,
que negavam por princípio a sua validade. A melhor formulação deste processo
foi conseguida por Weber. Seguindo a apresentação de James D. Faubian (1993:
113-115) sobre a concepção weberiana de modernidade:
Weber descobre o limiar existencial da modernidade numa certa desconstrução:
daquilo a que se refere como o "postulado ético de que o mundo é governado por
Deus, e é portanto um cosmos que, de alguma forma, possui um significado e é
eticamente orientado "
A asserção de Weber - o que em qualquer caso pode ser extrapolado das suas
asserções - é que o limiar da modernidade pode ser marcado precisamente no
momento em que a legitimidade incontestada de uma ordem social divinamente pré-
ordenada entra no seu declínio. A modernidade emerge - ou, de modo mais
preciso, uma variedade de possíveis modernidades emergem - tão-somente quando
aquilo que tinha sido visto como um cosmos imutável deixa de ser dado como
certo. Os que se opunham à modernidade rejeitam essa abordagem, acreditando que
o que é imutável não é a ordem social, mas as tarefas exigidas pela construção
e pelo funcionamento de qualquer ordem social
Podem ser extraídas duas teses: 1) em toda a sua variedade, as modernidades, o
que quer que possam ser, são respostas à mesma problemática existencial; 2) em
toda a sua variedade, as modernidades, o que quer que possam ser, são
precisamente essas respostas que deixam intacta a problemática em questão, que
formulam visões da vida e da prática que não a ultrapassam nem a negam, que as
formulam antes no seu interior, mesmo em deferência para com ela
O grau de reflexividade característico da modernidade ultrapassou aquilo que
estava cristalizado nas civilizações da era axial [Eisenstadt, 1982; e
Eisenstadt (org.), 1986]. A reflexividade que se desenvolveu no seio do
programa moderno não se centrou somente na possibilidade da existência de
diferentes interpretações das visões transcendentais nucleares e das concepções
ontológicas básicas prevalecentes numa sociedade ou civilização particular;
questionou-se também a própria evidência dessas visões e dos padrões
institucionais com elas relacionados. Surgiu assim uma consciência da
possibilidade de múltiplas visões que, de facto, podiam ser contestadas.
Esta consciência estava estreitamente ligada a duas componentes centrais do
projecto de modernidade, sublinhadas em estudos anteriores sobre a
modernização, tanto por Daniel Lerner (1958), como por Alex Inkeles e David H.
Smith (1974). O primeiro reconheceu entre os modernos, ou entre os que se
tornavam "modernizados, " a consciência da existência de uma grande variedade
de papéis para lá dos papéis estreitos, determinados, locais e familiares. Os
segundos reconhecem a possibilidade de pertença a comunidades translocais
alargadas, sujeitas a possíveis mudanças.
No centro deste programa cultural encontrava-se a ênfase colocada na autonomia
do homem: a emancipação do homem ou da mulher (na sua formulação original,
tratava-se certamente do "homem") dos grilhões da autoridade política e
cultural tradicionais. Neste processo de contínua expansão do domínio da
liberdade e da actividade pessoal e institucional, essa autonomia começou por
implicar a reflexividade e a exploração; em segundo lugar, implicou também a
construção activa e o domínio da natureza, incluindo a natureza humana. Este
projecto de modernidade colocava uma ênfase muito forte na participação
autónoma dos membros da sociedade na constituição da ordem social e política,
no acesso autónomo de todos os membros da sociedade a estas ordens e aos seus
centros.
Da conjugação destas diferentes concepções surgiu uma crença na possibilidade
de a sociedade poder ser constituída activamente por meio da actividade humana
consciente. Duas tendências complementares, mas potencialmente contraditórias,
desenvolveram-se no interior deste programa, em torno das melhores formas de
concretizar a construção social. A primeira, cristalizada sobretudo nas grandes
revoluções, deu origem, talvez pela primeira vez na história, à crença na
possibilidade de diminuir o fosso entre a ordem transcendente e a ordem mundana
- de realizar, através da acção humana consciente, praticada ao nível da vida
social, grandes visões utópicas e escatológicas. A segunda sublinhou o
crescente reconhecimento da legitimidade de múltiplos objectivos e interesses,
individuais e colectivos, permitindo, como consequência, múltiplas
interpretações do bem comum (Eisenstadt, 1992; 1978; 1985; e 1981; Voegelin,
1975; Seligman, 1989).
III
O programa moderno implicava igualmente uma transformação radical das
concepções e das premissas da ordem política, da constituição da arena política
e das características do processo político. O rompimento com todas as
legitimações tradicionais da ordem política era central na ideia de
modernidade, o que implicava a abertura a diferentes possibilidades de
construção da nova ordem. Estas possibilidades combinavam temas de rebelião,
protesto e antinomismo intelectual, permitindo a formação de novos centros e a
construção de novas instituições, dando origem a movimentos de protesto que se
transformaram em componente permanente do processo político (Ackerman, 1991).
Estas ideias, associadas às características que então emergiam, definindo a
arena política moderna, sublinharam a abertura desta arena e dos processos
políticos, que, de um modo geral, se encontrava em estreita relação com uma
forte aceitação da participação activa da periferia da "sociedade" em questões
de interesse político. Fortes tendências para a permeabilização das periferias
sociais pelos centros, e o impacte das periferias sobre os centros, levaram,
inevitavelmente, ao esbatimento das distinções entre centro e periferia.
Estavam lançados os fundamentos para uma nova e poderosa combinação da
"carismatização" do centro, ou centros, com temas e símbolos de protesto;
estes, por sua vez, tornaram-se nos componentes elementares das visões
transcendentais modernas. Temas e símbolos de protesto - igualdade e liberdade,
justiça e autonomia, solidariedade e identidade - tornaram-se componentes
centrais do projecto moderno da emancipação do homem. De facto, foi a
incorporação dos temas de protesto da periferia no centro que anunciou a
transformação radical de diversas visões utópicas sectárias em elementos
centrais do programa político e cultural.
A partir da ideologia e das premissas do programa político da modernidade e das
características nucleares das instituições políticas modernas, emergiram três
aspectos centrais do processo político moderno: a reestruturação das relações
centro-periferia como principal foco da dinâmica política nas sociedades
modernas; uma forte tendência para politizar as exigências de diversos sectores
da sociedade e os conflitos entre eles; e a luta contínua sobre a definição do
domínio do político. De facto, foi só com o advento da modernidade que o
traçado dos limites da esfera política se tornou num dos maiores focos de
contestação aberta e de luta política.
IV
A modernidade implicou também um modo distinto de construção das fronteiras das
colectividades e das identidades colectivas (Eisenstadt e Giesen, 1995; Shils,
1975). Desenvolveram-se novas definições concretas dos componentes básicos das
identidades colectivas - civis, primordiais e universalistas, transcendentais
ou "sagradas". Desenvolveram-se fortes tendências que procuravam enquadrar
estas definições em termos absolutos, sublinhando os seus componentes civis. Ao
mesmo tempo, desenharam-se ligações entre a construção das fronteiras da esfera
política e as das colectividades culturais. Desta forma, tornou-se inevitável
que se enfatizasse a importância das fronteiras territoriais dessas
colectividades, criando tensões contínuas entre os componentes territoriais e/
ou particulares e outros mais alargados, mais universalistas. Em contraste com
as civilizações da era axial, pelo menos parcialmente, as identidades
colectivas já não eram dadas como adquiridas, pré-ordenadas por uma qualquer
visão e autoridade transcendente, ou sancionadas por um costume ancestral.
Constituíam focos de contestação e de luta expressas, muitas vezes, em termos
profundamente ideológicos.
V
À medida que a civilização da modernidade se foi desenvolvendo, primeiro no
ocidente, foi assolada por antinomias e contradições internas, dando origem a
um contínuo discurso crítico e a contestações políticas. As antinomias básicas
da modernidade constituíram uma transformação radical em relação às que eram
características das civilizações da era axial. Centradas em questões
desconhecidas nessa época anterior, revelavam desta forma consciência sobre um
amplo leque de visões e interpretações transcendentais. No programa moderno,
estas foram transformadas em conflitos ideológicos entre avaliações
concorrentes das principais dimensões da experiência humana (especialmente a
razão e as emoções e o seu lugar respectivo na vida e na sociedade humanas).
Não existiam afirmações acerca da necessidade de construção activa da
sociedade; o controlo e a autonomia, a disciplina e a liberdade tornaram-se
assuntos polémicos.
A clivagem mais crítica, em termos tanto ideológicos como políticos, talvez
tenha sido a que separava visões universalistas e particularistas - entre uma
visão que aceitava a existência de diferentes valores e racionalidades e uma
visão que via diferentes valores e, acima de tudo, a racionalidade, de um modo
totalizante. Esta tensão desenvolveu-se, antes de mais, a respeito do próprio
conceito de razão e do seu lugar na constituição da sociedade humana. Era
manifesta, como Stephen Toulmin (1990) mostrou, de uma forma algo exagerada, na
diferença entre as concepções mais particularistas de Montaigne ou de Erasmus,
por oposição à visão totalizante promulgada por Descartes. O movimento mais
significativo, que procurou universalizar diferentes racionalidades - muitas
vezes identificado como a principal mensagem do iluminismo -, foi o da
soberania da razão, que subsumia a racionalidade orientada para valores
(Wertrationalitåt), ou a racionalidade substantiva, à racionalidade
instrumental (Zweckrationalitåt), transformando-a numa visão utópica de cariz
moralista e totalizante.
A par destas tensões, desenvolveram-se no interior do programa da modernidade
contradições contínuas entre as premissas básicas das dimensões culturais e
políticas e os grandes desenvolvimentos institucionais. De particular
importância - tão fortemente sublinhada por Weber - foi a dimensão criativa
inerente a visões que levavam à cristalização da modernidade, e o esbatimento
destas visões, o "desencantamento" do mundo, inerente à crescente rotinização e
burocratização. Tratava-se de um conflito entre uma visão englobante, através
da qual o mundo ganhava significado, e a fragmentação desse significado pela
força de uma dinâmica imparável no sentido do desenvolvimento autónomo de todas
as arenas institucionais - económica, política e cultural (Elias, 1983; e 1978-
1982; Foucault, 1973; 1988; 1975; e 1965). Aqui se reflecte a tensão,
inerentemente moderna, entre a tónica colocada sobre a autonomia humana e os
controlos restritivos, inerentes à realização institucional da vida moderna: na
formulação de Peter Wagner (1994), a tensão entre liberdade e controlo.
VI
No interior do discurso político moderno, estas tensões têm sido manifestas no
conflito insanável entre a legitimidade de um sem-número de interesses
abstractos, individuais e de grupo, de diferentes concepções de bem comum e
ordem moral, e as ideologias totalitárias que negavam taxativamente a
legitimidade desses pluralismos. Uma das formas principais da ideologia
totalitária sublinhava a primazia das colectividades percepcionadas como
entidades ontológicas distintas, assentes em atributos primordiais ou
espirituais comuns - principalmente a nacionalidade colectiva. Uma segunda
forma era a visão jacobina, cujas raízes históricas remontam a fontes
escatológicas medievais. A crença na primazia da política, na possibilidade de
a política ser capaz de reconstituir a sociedade, transformando-a através da
mobilização da acção política participativa, era central ao pensamento
jacobino. Quaisquer que fossem as diferenças entre estas ideologias
colectivistas, elas partilhavam entre si fortes suspeitas acerca da discussão
aberta e pública dos processos políticos e, especialmente, a respeito das
instituições representativas. Não é surpreendente que partilhassem fortes
tendências autocráticas.
Estas várias tensões inerentes ao programa político da modernidade estavam
fortemente relacionadas com as que existiam entre os diferentes modos de
legitimação dos regimes modernos - entre, por um lado, a legitimação legal em
termos de adesão civil às regras do jogo e, por outro, os modos de legitimação
"substantivos", os quais dependiam acima de tudo, na terminologia de Edward
Shils (1975), de diversos componentes primordiais, "sagrados", religiosos ou
secular-ideológicos. Contradições paralelas desenvolveram-se em torno da
construção de identidades colectivas, promulgadas por novas formas activistas -
os movimentos nacionais.
VII
Entre estes activistas, os movimentos sociais, muitas vezes movimentos de
protesto, eram de especial importância. No cenário moderno, transformaram
algumas das principais heterodoxias das civilizações da era axial,
especialmente as que pretendiam realizar certas visões utópicas, através da
acção política e da reconstrução do centro. Entre os movimentos que se
desenvolveram durante o século XIX e as seis primeiras décadas do século XX, os
mais importantes foram o movimento liberal e o socialista/comunista; os quais
foram seguidos por outros dois, assentes em preconceitos nacionalistas, o
fascista e o nacional-socialista. Estes movimentos eram internacionais, mesmo
quando as suas bases ou raízes assentavam em países específicos. Os que
alcançaram maior sucesso cristalizaram-se em padrões ideológicos e
institucionais distintos, que se vieram a identificar muitas vezes com um
estado específico (como no caso da França revolucionária e, mais tarde, da
Rússia soviética), mas o seu alcance ultrapassou largamente as fronteiras
nacionais.2
Os conflitos entre estes movimentos e outros - religiosos, cooperativos,
sindicalistas ou anarquistas - não eram simplesmente ideológicos. Todos eles
tiveram lugar dentro de limites específicos da arena política moderna, acabando
por ser também afectados pelo processo político moderno, especialmente pela
luta contínua em torno da definição das fronteiras da esfera política.
Em todas as sociedades modernas desenvolveram-se padrões de conflito entre
estes actores sociais, em torno de pólos fundados nas antinomias inerentes aos
programas políticos e culturais específicos da modernidade. O primeiro desses
pólos centrava-se em torno do grau de homogeneização das principais
colectividades modernas, significativamente influenciadas pelo grau de
articulação entre as dimensões ou componentes primordiais, civis ou
universalistas, da identidade colectiva nestas diferentes sociedades. O segundo
pólo reflectia o confronto entre orientações particularistas e universalistas.
Estes choques emergiram em todas as colectividades e em todos os estados
modernos, primeiro na Europa, mais tarde na América e, com o decorrer do tempo,
em todo o mundo. Foram de uma importância crucial na configuração dos diversos
padrões de sociedades modernas, primeiro no interior de estados territoriais e
de estados-nação, gerando aí diferentes definições das premissas da ordem
política. Definiram os termos de responsabilidade das relações de autoridade
entre estado e sociedade civil; estabeleceram padrões de identidade colectiva,
moldando as autopercepções das sociedades individuais, sobretudo a sua
autopercepção como modernas.
À medida que estas contestações surgiram na Europa, o padrão dominante destes
conflitos fundou-se em tradições europeias específicas, centrando-se em torno
das clivagens existentes entre orientações utópicas e civis. Os princípios de
hierarquia e de igualdade competiam na construção da ordem política e dos
centros políticos. O estado e a sociedade civil eram vistos por alguns como
entidades separadas. A identidade colectiva, muitas vezes expressa em termos
ideológicos, era definida de um modo diferente. A variedade dos resultados
sociais pode ser ilustrada pelas diferentes concepções de estado que se
desenvolveram no continente e em Inglaterra. Existia, por um lado, a forte
"laicização" da França, com resultados homogeneizadores, ou, num sentido
diferente, dos países escandinavos luteranos, e por outro lado, as disposições
muito mais consolidadas e pluralistas, comuns à Holanda e à Suíça e, numa
escala muito menor, à Grã-Bretanha. A forte concepção semifeudal e
aristocrática de autoridade na Grã-Bretanha contrastava com visões mais
democráticas, mesmo mais populistas, de outros países europeus (Graubard, 1986;
Kuhnle, 1975; Rothstein, 1996; Rustow, 1956; Thomas, 1978; Thompson, 1968;
Thomson, 1940; e 1960; Geyl, 1958; Beloff, 1954; Daalder, 1971; Bergier, 1974;
Lehmbruch, 1972; Lorwin, 1971; Steiner, 1974).
Nas décadas 20 e 30, marcadas indelevelmente pelas tensões e antinomias da
modernidade, à medida que se ia desenvolvendo na Europa, surgiram distintamente
as primeiras modernidades ideológicas "alternativas" - as de tipo comunista
soviético e as de tipo fascista/nacional-socialista (Arnason, 1990, e 2000;
Sunker e Otto, 1997). Os movimentos socialistas e comunistas estavam em acordo
absoluto com o enquadramento traçado pelo programa cultural da modernidade e,
acima de tudo, com o enquadramento traçado pelo iluminismo e pelas principais
revoluções. A sua crítica ao programa da sociedade capitalista moderna girava
em torno do conceito de imperfeição destes programas modernos. Em contraste, os
movimentos nacionais ou nacionalistas, especialmente o fascismo extremista ou o
nacional-socialismo, pretendiam acima de tudo reconfigurar os limites das
colectividades modernas. Procuravam assim provocar um confronto entre as
componentes universalistas e as mais particularistas e primordiais das
identidades colectivas dos regimes modernos. A sua crítica à ordem social
existente negava as componentes universalistas do programa cultural da
modernidade, especialmente na sua versão iluminista. Revelavam menor zelo
missionário em transcender as fronteiras puramente nacionais. No entanto, e de
modo significativo, apesar de repudiarem as componentes universalistas do
programa cultural e político da modernidade, procuravam transpô-las de diversas
formas para as suas visões particularistas, tentando apresentá-las em certos
termos semiuniversalistas - de que, paradoxalmente, raça pode ser um caso.
Por meados do século, o desenvolvimento incessante de modernidades múltiplas na
Europa testemunhava uma evolução contínua. Como observou Nilüfer Göle (1996),
uma das características mais importantes da modernidade é simplesmente a sua
capacidade potencial para a autocorrecção contínua. Essa qualidade, já
manifesta no século XIX, no encontro das sociedades modernas com os muitos
problemas criados pelas revoluções industriais e democráticas, não podia,
contudo, ser tomada como um dado adquirido. O desenvolvimento da modernidade
gerou no seu seio possibilidades destrutivas que foram expressas, muito
frequentemente, de um modo algo irónico, através de alguns dos seus críticos
mais radicais, que acreditavam que a modernidade era uma força moralmente
destruidora, sublinhando os efeitos negativos de algumas das suas
características nucleares. A cristalização da modernidade europeia e sua
expansão posterior não foram, de forma alguma, pacíficas. Contrariamente às
visões optimistas da modernidade, que a concebiam como progresso inevitável, a
cristalização das modernidades era continuamente entretecida por confrontos e
conflitos internos, fundados nas contradições e tensões implícitas ao
desenvolvimento dos sistemas capitalistas e, na arena política, às crescentes
exigências de democratização. A composição destes factores foi desenhada por
conflitos internacionais, que foram depois exacerbados pelo estado moderno e
pelos sistemas imperialistas. A guerra e o genocídio não eram fenómenos novos
na história. No entanto, viram-se radicalmente transformados e intensificados,
gerando modos de barbárie especificamente modernos. A ideologia da violência,
do terror e da guerra - testemunhada pela primeira vez e da forma mais
expressiva na revolução francesa - tornou-se num dos componentes de cidadania
mais importantes, senão mesmo nos componentes exclusivos, para a sustentação
dos estados modernos. A tendência existente para essas ideologias da violência
veio a relacionar-se de modo estreito com o facto de o estado-nação se ter
tornado no foco central dos símbolos de identidade colectiva (Giddens e Held,
1982; Schumpeter, 1991; Furet, 1982; Furet e Ozouf, 1989; Joas, 1996). O
holocausto, que teve lugar no centro da modernidade, foi a sua manifestação
extrema e tornou-se num símbolo do seu potencial negativo e destrutivo, da
barbaridade latente no interior do seu próprio centro.
VIII
Desenvolveram-se diversos temas no seio do discurso da modernidade sem que
nenhum tivesse sido mais importante do que o que sublinhava o confronto
contínuo entre os sectores mais "tradicionais" da sociedade e os chamados
centros ou sectores modernos que se desenvolviam no seu interior. Desta forma,
existia também uma tensão inerente entre a cultura da modernidade, o modelo
"racional" moderno do iluminismo que emergia hegemonicamente em certos períodos
e locais, e outros programas construídos de modo a reflectir as tradições
culturais mais "autênticas" de sociedades específicas. Entre os apoiantes das
ideologias da autenticidade tradicional, e no interior dos sectores mais
tradicionais de certas sociedades, desenvolveu-se igualmente uma ambivalência
duradoura a respeito das culturas modernas (e, consequentemente, das suas
premissas e dos seus símbolos universalistas e exclusivistas), e uma oscilação
contínua entre cosmopolitismo e localismo. Estes temas começaram por ser
desenvolvidos no interior da própria Europa; com a expansão da modernidade para
as américas e (especialmente) para os países asiáticos e africanos, estes temas
continuaram a ser desenvolvidos, ainda que num sentido diferente.
IX
A primeira transformação radical das premissas de ordem cultural e política
teve lugar com a expansão da modernidade para as américas. Emergiram então
modernidades distintas, reflectindo novos padrões de vida institucional, com
novas autoconcepções e novas formas de consciência colectiva. Dizê-lo é
sublinhar que praticamente desde o começo da expansão da modernidade se
desenvolveram modernidades múltiplas, todas elas no interior do que pode ser
definido como o enquadramento civilizacional ocidental. É importante notar que
tais modernidades, de cariz ocidental, mas significativamente diferentes das
europeias, se desenvolveram em primeiro lugar não na Ásia - Japão, China ou
Índia - ou em sociedades muçulmanas, a que podem ter sido atribuídas pela
existência de tradições distintamente não europeias, mas no interior do
enquadramento geral das civilizações ocidentais. Elas reflectiam uma
transformação radical das premissas europeias.
A cristalização de padrões de modernidade distintos nas américas ocorreu,
através do confronto discursivo com a Europa - particularmente com a Inglaterra
e a França (Heideking, 2000). Apesar de não ser normal sustentar estes
argumentos em termos de diferentes interpretações de modernidade, eles estavam,
de facto, centrados nas vantagens e desvantagens de padrões institucionais que
se desenvolveram nos Estados Unidos, os quais eram marcadamente diferentes dos
que se tinham desenvolvido na Europa. Para além disto, os principais temas
relacionados com a dimensão internacional da modernidade encontravam-se
claramente articulados neste discurso. Esses confrontos tornaram-se
característicos do discurso contínuo acerca da modernidade à medida que ele se
foi difundindo pelo mundo. Apesar de esta ideia se aplicar também à América
latina, existiam importantes diferenças entre as américas, especialmente entre
os Estados Unidos e a América latina. Nesta última, pontos de referência
"externos" - ainda que muitas vezes ambivalentes - mantinham uma importância
crucial (Ortiz, 2000). A importância prolongada destes pontos de referência,
sobretudo na Europa - Espanha, França e Inglaterra - e mais tarde nos Estados
Unidos, foi de importância crítica para a autoconcepção das sociedades latino-
americanas. Semelhantes considerações foram gradualmente perdendo importância
nos Estados Unidos, que se viam a si próprios, cada vez mais, como o centro da
modernidade.
X
A variabilidade das modernidades foi concretizada, sobretudo, através do
imperialismo económico e militar e através do colonialismo, e efectivada pela
superioridade económica, militar e das tecnologias de comunicação. A
modernidade ultrapassou os limites do ocidente, pela primeira vez, ao penetrar
em diferentes sociedades asiáticas - Japão, Índia, Birmânia, Sri Lanka, China,
Vietname, Laos, Cambodja, Malásia, Indonésia -, em países do médio oriente,
chegando finalmente a África. No final do século XX, engloba quase o mundo
inteiro, na primeira verdadeira vaga de globalização.
Em todas estas sociedades o modelo básico do estado territorial e, mais tarde,
do estado-nação foi adoptado, tal como as premissas e os símbolos básicos da
modernidade ocidental, e as instituições modernas do ocidente -
representativas, legais e administrativas. Mas ao mesmo tempo, o encontro da
modernidade com sociedades não ocidentais causou transformações de longo
alcance nas premissas, símbolos e instituições da modernidade - fazendo surgir,
como consequência, novos problemas.
O poder de atracção de muitos dos temas e formas institucionais da modernidade
sobre muitos grupos nestas sociedades resultava, em primeiro lugar, do facto de
ter sido o padrão europeu (mais tarde, ocidental), desenvolvido e difundido
através do mundo pela expansão económica, tecnológica e militar ocidentais, a
enfraquecer as premissas culturais e os centros institucionais destas
sociedades antigas. A apropriação destes temas e instituições permitiu que
muitos dos que viviam em sociedades não europeias - especialmente elites e
intelectuais - participassem activamente na nova tradição moderna e universal
(apesar de inicialmente ocidental), podendo do mesmo passo seleccionar muitos
dos seus aspectos, com especial destaque para aqueles que garantiam a hegemonia
das formulações ocidentais do programa cultural da modernidade. A apropriação
destes temas da modernidade possibilitou que estes grupos incorporassem alguns
dos elementos ocidentais da modernidade de cariz universalista na construção
das suas próprias identidades colectivas, sem que abdicassem das componentes
específicas das suas identidades tradicionais (sustentadas frequentemente, tal
como os temas da modernidade ocidental, em termos universalistas, especialmente
religiosos). Não aboliu também as atitudes negativas ou, pelo menos,
ambivalentes, em relação ao ocidente. Os temas de protesto e a construção
institucional, característicos da modernidade, e a redefinição do centro e da
periferia, serviram para encorajar e acelerar a transposição do projecto
moderno para cenários não europeus, não ocidentais. Muitos destes temas, apesar
de inicialmente terem sido expressos em termos ocidentais, encontraram
ressonância nas tradições políticas de muitas destas sociedades (Eisenstadt,
1982; e 1986).
XI
A apropriação por parte de sociedades não ocidentais de temas e padrões
institucionais específicos das sociedades da civilização moderna ocidental
implicou a selecção, a reinterpretação e a reformulação contínuas destas ideias
importadas. Estas vieram produzir inovação contínua, com a emergência de novos
programas culturais e políticos, que exibiam novas ideologias e padrões
institucionais. Os programas culturais e institucionais que se desenvolveram
nestas sociedades eram caracterizados, sobretudo, pela tensão entre concepções
de si mesmo como parte integrante do mundo moderno e atitudes ambivalentes para
com a modernidade em geral e o ocidente em particular.
Em todas estas sociedades ocorreram transformações de longo alcance. Estas
transformações, moldadas em cada uma das sociedades pelo impacte combinado das
suas respectivas tradições históricas e dos modos diversos de incorporação no
novo sistema-mundo moderno, são admiravelmente interpretadas num ensaio de
Sudipta Kaviraj (2000). O autor analisa o impacte das tradições políticas e da
experiência colonial imperial na constituição das características distintas de
modernidade tal como se cristalizaram na Índia. Investigações semelhantes para
os casos da China ou do Vietname parecem indicar os modos específicos que
permitem que noções "alternativas", revolucionárias e universalistas do
programa moderno de modernidade surjam dos seus contextos civilizacionais. O
caso do Japão é diferente; aí, a sobreposição entre o estado e a sociedade
civil, a fraqueza das orientações utópicas, a ausência de conflitos de
princípio com o estado entre os principais movimentos de protesto e o
significado relativo de componentes universalistas e particularistas
contribuíram para a criação de uma identidade moderna colectiva diferente de
todas as outras sociedades (Eisenstadt, 1996).
XII
Os múltiplos e divergentes casos da idade "clássica" da modernidade
cristalizaram-se durante o século XIX e, sobretudo, nas primeiras seis ou sete
décadas do século XX, em estados-nação e estados revolucionários, e em
movimentos sociais na Europa, nas américas e, depois da II Guerra Mundial, na
Ásia. Os contornos institucionais, simbólicos e ideológicos dos estados
nacionais e revolucionários modernos, que chegaram a ser vistos como a síntese
da modernidade, mudaram radicalmente com a recente intensificação das forças de
globalização. Estas tendências, manifestas sobretudo na crescente autonomia do
mundo financeiro e dos fluxos financeiros, intensificaram as migrações
internacionais e o desenvolvimento paralelo, a um nível internacional, de
problemas sociais tais como a propagação de doenças, da prostituição, do crime
organizado e da violência juvenil. Tudo isto serviu para reduzir o controlo do
estado-nação sobre os seus assuntos políticos e económicos, apesar dos esforços
contínuos para fortalecer políticas tecnocráticas, de cariz racional e secular,
em diversas arenas. Os estados-nação perderam também parte do seu monopólio
sobre a violência interna e internacional, que foi sempre um monopólio parcial,
para grupos locais ou internacionais de separatistas ou terroristas. Em muitos
países, os processos de globalização são também evidentes na arena cultural,
com a expansão hegemónica, através da influência dos principais média, do que
aparentemente são programas ou visões uniformes de proveniência ocidental,
sobretudo americana (Friedman, 1994; Hannerz, 1992; Marcus, 1993; AA.VV, 1999;
Smolicz, 1998).
A centralidade simbólica e ideológica do estado-nação, a sua posição enquanto
lugar carismático nas principais componentes do programa cultural da
modernidade e da identidade colectiva, foi enfraquecida; novas visões
políticas, sociais e civilizacionais, novas visões de identidade colectiva
estão correntemente a desenvolver-se. Estas novas visões e identidades foram
proclamadas por uma variedade de novos movimentos sociais; todos eles, por
muito diferentes que fossem, desafiaram as premissas da nação clássica moderna
e do seu programa de modernidade, que ocupavam, até então, o centro
incontestado do pensamento político e cultural.
Os primeiros desses movimentos a desenvolverem-se na maioria dos países
ocidentais - o movimento feminista e o movimento ecologista - estavam
estreitamente relacionados ou enraizados nos movimentos estudantis e anti-
Vietname dos finais da década de 60 e do início da década de 70. Eram
indicativos de uma mudança mais geral em muitos países, quer fossem
"capitalistas" ou comunistas: um abandono dos movimentos orientados em torno do
estado, em favor dos movimentos com um alcance e com programas mais locais. Em
vez de se centrarem na reconstituição dos estados-nação, ou na resolução de
conflitos macroeconómicos, estas novas forças - muitas vezes apresentando-se a
si próprias como "pós-modernas" e "multiculturais" - promulgaram uma política
cultural, ou uma política de identidade, sustentada, muitas vezes, como
multiculturalismo, e estavam orientadas para a construção de novos espaços
sociais, políticos e culturais autónomos (Marcus, 1993).
Os movimentos fundamentalistas emergiram um tanto mais tarde entre comunidades
muçulmanas, judias e protestantes, e conseguiram ocupar o palco central em
muitas sociedades nacionais e, de tempos a tempos, na cena internacional. Os
movimentos religiosos comunais desenvolveram-se de modo paralelo no interior
das culturas hindu e budista, partilhando, geralmente, fortes temas
antimodernos e/ou antiocidentais (Eisenstadt, s. d.; Marty e Appleby 1995;
1994; 1993a; 1993b; 1991).
Um terceiro e novo tipo de movimento, que ganhou dinâmica especialmente nas
duas últimas décadas do século XX, tem sido o movimento "étnico"
particularista. Observado inicialmente nas antigas repúblicas da União
Soviética, emergiu igualmente de formas horrendas em África e em partes dos
Balcãs, especialmente na antiga Jugoslávia.
Todos estes movimentos desenvolveram-se por arrastamento, tendo sido mesmo
acelerados por transformações sociais muito importantes, servindo para
consolidar novos cenários e enquadramentos sociais. Para mencionar apenas dois
dos mais importantes, o mundo vê surgir agora novas diásporas, especialmente de
muçulmanos, chineses e indianos, algumas investigadas num artigo de Stanley
J. Tambiah (2000). A seguir ao colapso do império soviético, as minorias russas
surgiram como forças visíveis, em muitos dos estados que sucederam à União
Soviética nos antigos países comunistas da Europa de leste.
Nestes e em muitos outros cenários emergiram novos tipos de identidade
colectiva, superando os modelos do estado-nação e do estado revolucionário,
deixando de se centrar neles. Muitas destas identidades étnicas locais,
regionais e transnacionais, até então "subjugadas", moveram-se, mesmo que de um
modo altamente reconstruído, para os centros das respectivas sociedades e,
muitas vezes, também para a arena internacional. Ao reclamar o seu próprio
lugar autónomo em arenas institucionais centrais - programas educativos,
comunicações públicas, emissões nos média -, contestavam a hegemonia dos
anteriores programas homogeneizadores, vindo a ter cada vez maior sucesso na
afirmação de exigências de longo alcance, a respeito da redefinição da
cidadania e de direitos e garantias a ela associados.
Nestes cenários, as preocupações e os interesses locais surgem muitas vezes sob
novas formas, indo além do modelo clássico do estado-nação, seleccionando
alianças com organizações transnacionais como a União Europeia, ou com
enquadramentos religiosos alargados fundados nas grandes religiões do islão, do
hinduísmo, do budismo ou das ramificações protestantes do cristianismo.
Simultaneamente, vemos uma decomposição contínua da imagem relativamente
compacta oferecida por sistemas de crença que sustentam estilos de vida, que
definem o "homem civilizado" - todas associadas à emergência e difusão do
programa original da modernidade (Eickelman, 1993; 1983; Eickelman e Piscatori,
1996; Hefner, 1998). Ninguém pode duvidar de que ocorrem presentemente mudanças
significativas e duradouras na posição relativa e na influência detida pelos
diferentes centros de modernidade - oscilando entre o ocidente e o oriente.
Este facto pode apenas produzir maior contenção entre centros, a respeito do
seu grau de influência num mundo em processo de globalização (Tiryakian, 1996).
XIII
Todos estes desenvolvimentos atestam a decomposição das principais
características estruturais e o enfraquecimento da hegemonia ideológica dos
outrora poderosos estados-nação. Mas assinalarão eles o "fim da história" e o
fim do programa moderno, sintetizado no desenvolvimento de diferentes pós-
modernidades (assim são chamadas) e, acima de tudo, num recuo da modernidade
patenteado nos movimentos fundamentalistas e religiosos de cariz comunal,
tantas vezes retratados pelos próprios como diametralmente opostos ao programa
moderno?
Uma análise mais próxima destes movimentos apresenta um retrato bem mais
complexo. Em primeiro lugar, muitos dos movimentos fundamentalistas radicais
revelam características distintas do jacobinismo moderno, mesmo quando
combinadas com fortes ideologias antiocidente e anti-iluminismo. De facto, as
diferentes visões dos movimentos fundamentalistas têm sido formuladas em termos
comuns ao discurso da modernidade; procuram assim apropriar-se da modernidade
nos seus próprios termos. Enquanto os fundamentalistas radicais constroem
elaborados temas aparentemente antimodernos (ou antes, anti-iluministas), eles
constituem basicamente movimentos revolucionários jacobinos que se inserem na
tradição moderna, partilhando, paradoxalmente, muitas características (por
vezes, reflectindo-se como um espelho) com movimentos comunistas de épocas
anteriores (Eisenstadt, s. d.). Partilham com os movimentos comunistas a
promulgação de visões totalizantes, as quais implicam a transformação tanto do
homem como da sociedade. Alguns afirmam preocuparem-se com a "purificação" de
ambos. Trata-se da reconstrução total da personalidade, de identidades
individuais e colectivas, através da acção humana consciente, nomeadamente pela
acção política, e da construção de novas identidades pessoais e colectivas, que
implicam a submersão do indivíduo na sociedade que procuram realizar. Tal como
os movimentos comunistas, estes movimentos procuram estabelecer uma nova ordem
social, fundada em dogmas ideológicos revolucionários e universalistas,
transcendendo em princípio todas as unidades primordiais, nacionais ou étnicas.
No caso dos primeiros regimes comunistas, os objectivos declarados reclamavam a
produção de colectividades de "operários" e de "intelectuais" que se alargariam
a todo o género humano; no caso dos regimes fundamentalistas islâmicos, o
domínio do islão, como nova concepção do ummah, transcende qualquer lugar
específico, possuindo fronteiras alargadas e em constante mudança, ainda que
ideologicamente fechadas. Tanto os movimentos comunistas como os
fundamentalistas - sobretudo, mas não exclusivamente, os muçulmanos - são
transnacionais, sendo activados por redes intensivas em contínua reconstrução,
que facilitam a expansão das visões sociais e culturais proclamadas por esses
grupos. Ao mesmo tempo, vão sendo confrontados com visões concorrentes. De
todas estas formas, tanto os movimentos como os seus programas constituem parte
e parcela da agenda política moderna.
Existem, certamente, diferenças marcantes nas visões respectivas dos dois tipos
de movimentos e regimes jacobinos (os comunistas e os fundamentalistas),
sobretudo no que se relaciona com a sua atitude para com a modernidade e nas
suas críticas. Na sua análise das antinomias básicas da modernidade e na sua
interpretação e rejeição de diferentes componentes dos programas culturais e
políticos da modernidade clássica, os fundamentalistas islâmicos partilham,
como Nilüfer Göle (2000) demonstra, uma preocupação com a modernidade. Esta
constitui o seu principal quadro de referência (idem, 1996).
XIV
As tentativas de apropriação e de interpretação da modernidade nos seus
próprios termos não se confinam, contudo, aos movimentos fundamentalistas. Eles
constituem antes parte de um conjunto de desenvolvimentos muito mais alargados
que têm tido lugar por todo o mundo, como mostra Dale F. Eickelman (2000), num
ensaio a respeito das sociedades islâmicas. Dando continuidade aos confrontos
entre movimentos religiosos reformistas e outros movimentos tradicionais mais
antigos que se desenvolveram nestas comunidades, as tensões inerentes ao novo
programa moderno, especialmente entre valores pluralistas e universais, são
jogadas em novos termos. Quer se trate de atitudes utópicas ou outras mais
abertas e pragmáticas, de identidades multifacetadas ou fechadas, todas elas
implicam uma mudança importante, mesmo radical, no discurso acerca do confronto
com a modernidade, no reenquadrar da relação entre civilizações, religiões e
sociedades, ocidentais e não ocidentais (Eickelman, 1993).
É possível identificar paralelos significativos entre estes diversos grupos
religiosos, incluindo o fundamentalismo, e os seus opositores aparentemente
extremos - os diversos movimentos pós-modernos com os quais entram muitas vezes
em confronto a respeito da hegemonia entre os diferentes sectores da sociedade.
Assim, em muitos destes movimentos "pós-modernos" ou "multiculturais",
desenvolveram-se orientações profundamente totalitárias, manifestas, por
exemplo, em diferentes programas de correcção política. Ironicamente, por causa
da sua grande variedade e da sua dinâmica interna e pragmatismo mais
pluralista, vemos também certos temas "pós-modernos" surgirem em movimentos
fundamentalistas. Para lá deste paradoxo, estes movimentos partilham uma
preocupação generalizada acerca da relação entre as identidades que promulgam e
os temas universalistas promulgados por outros programas hegemónicos de
modernidade, sobretudo no que respeita à relação entre as suas identidades que
pretendem ser autênticas e a presumida hegemonia cultural do ocidente,
especialmente americana, na cena contemporânea. De modo significativo, o medo
da erosão das culturas locais como resultado do impacte da globalização levou
estes movimentos a criarem suspeitas acerca dos centros emergentes de um mundo
em globalização, dando origem uma vez mais a uma oscilação contínua entre
cosmopolitismo e diversas tendências "particularistas" (Friedman, 1994; Marcus,
1993; Smolicz, 1998; AA.VV, 1999).
XV
A saliência contínua das tensões entre programas pluralistas e universalistas,
entre identidades multifacetadas por oposição a outras fechadas, e a
ambivalência contínua dos novos centros da modernidade para com os principais
centros tradicionais da hegemonia cultural atestam o facto de que, ao
ultrapassar o modelo do estado-nação, estes novos movimentos não ultrapassaram
os problemas básicos da modernidade. Todos eles são profundamente reflexivos,
possuindo a consciência de que nenhuma resposta às tensões inerentes à
modernidade será a resposta final - mesmo se cada um deles procura à sua
própria maneira fornecer repostas finais e incontestáveis aos dilemas
irredutíveis da modernidade. Todos eles reconstituíram os problemas da
modernidade em novos contextos históricos, em novas formas. Todos eles procuram
um alcance mundial e a difusão através dos diversos média. Os problemas que
enfrentam, reconstruindo continuamente as suas identidades colectivas por
referência ao novo contexto global, constituem desafios de proporções sem
precedentes. A própria pluralização dos espaços quotidianos no enquadramento
global leva-os a ideias absolutistas altamente ideológicas e, do mesmo passo,
transporta-os para o centro da arena política. O debate em que se inserem pode
ser descrito em termos "civilizacionais", mas estes mesmos termos - o próprio
termo "civilização" integrado nesse discurso - são já expressos na nova língua
da modernidade, utilizando termos totalizantes, essencialistas e absolutistas.
Quando nos debates culturais esses choques se interceptam com lutas políticas,
militares ou económicas, podem rapidamente tornar-se violentos.
As reconstruções das diversas visões políticas e culturais, através do espectro
de identidades colectivas na cena contemporânea, implicam uma mudança no
confronto entre as civilizações ocidental e não ocidental, entre religiões e
sociedades, e também na relação destes confrontos com o programa cultural da
modernidade do ocidente. Por oposição à aparente aceitação generalizada das
premissas da modernidade e da sua contínua reinterpretação, característica dos
antigos movimentos religiosos e nacionais reformistas, a maior parte dos
movimentos religiosos contemporâneos - incluindo movimentos fundamentalistas e
a maioria dos movimentos religiosos comunais - parecem enveredar por uma
rejeição muito mais intensa e selectiva de pelo menos algumas destas premissas.
Assumiram uma atitude conflituosa para com o ocidente, para tudo o que seja
concebido como ocidental, procurando apropriar-se da modernidade e do sistema
global nos seus próprios termos, muitas vezes antiocidentais. O seu confronto
com o ocidente não assume a forma de desejo de incorporação numa nova
civilização hegemónica, mas de apropriação da nova cena global internacional e
da modernidade para eles próprios, celebrando as suas tradições e
"civilizações". Estes movimentos tentaram desassociar a ocidentalização da
modernidade, negando o monopólio ocidental sobre a modernidade e rejeitando o
programa cultural ocidental como a síntese da modernidade. Significativo é o
facto de muitos destes temas serem também abraçados, apesar de em diferentes
idiomas, por muitos movimentos "pós-modernos".
XVI
A análise anterior não implica que a experiência histórica e as tradições
culturais destas sociedades não possuam qualquer importância no desdobrar das
suas dinâmicas de modernidade. O significado das suas tradições anteriores é
manifesto no facto de que entre as sociedades modernas e contemporâneas, os
movimentos fundamentalistas se desenvolvem sobretudo em sociedades que ganharam
forma em contextos de religião monoteísta ecuménica - as civilizações
muçulmana, judaica e cristã. Nestes contextos, o sistema político tem sido
percepcionado como a principal arena para o implemento de visões utópicas
transcendentais. Por contraste, a reconstrução ideológica do centro político na
forma jacobina tem sido muito mais fraca em civilizações com orientações "além-
mundo" - especialmente na Índia, e numa medida de certa forma menor, em países
budistas. Nestes casos, a ordem política não é percepcionada como fórum para a
implantação de uma visão transcendental (Eisenstadt, s. d.).
Trata-se de um lugar comum observar que as distintas variedades de democracia
moderna na Índia ou no Japão, por exemplo, podem ser atribuídas ao encontro
entre a modernidade ocidental e as tradições culturais e as experiências
históricas destas sociedades. Isto aplicava-se também, evidentemente, para os
diferentes regimes comunistas. Menos compreendido é o facto de o mesmo se ter
passado no que respeita ao primeiro caso de modernidade - o europeu -,
profundamente enraizado nas premissas culturais e na experiência histórica
especificamente europeia (Eisenstadt, 1987). Mas, tal como no caso da Europa,
todas estas influências "históricas" ou "civilizacionais" não perpetuaram
simplesmente um velho padrão de vida institucional.
Nem, tão pouco, o mesmo acontece na cena contemporânea, como se nada mais do
que a continuação dos respectivos passados e padrões históricos fosse nela
perpetuada. Pelo contrário, estas experiências particulares influenciam a
emergência contínua de novos movimentos e redes entre diferentes actores -
juízes, especialistas, deputados e outros - de um modo transversal a todas as
sociedades, mantendo um fluxo entre elas. A dinâmica política em todas estas
sociedades está estreitamente entretecida com realidades geopolíticas,
influenciada pela história e moldada sobretudo por desenvolvimentos e conflitos
modernos, o que torna impossível qualquer esforço no sentido de construir
entidades "fechadas" (AA.VV., 1999).
Assim, o processo de globalização na cena contemporânea não implica nem o "fim
da história" - no sentido do fim dos choques ideológicos conflituosos entre
diferentes programas de modernidade - nem um "choque de civilizações" entre um
ocidente secular em confronto com sociedades que parecem rejeitar, ou negar, o
programa da modernidade. Não constitui sequer um regresso aos problemas das
civilizações axiais pré-modernas, como se tal fosse possível. Pelo contrário,
as tendências da globalização nada revelam de forma tão clara como a contínua
reinterpretação do programa cultural da modernidade, como a construção de
modernidades múltiplas, como as tentativas por parte de diversos grupos e
movimentos de se apropriarem e redefinirem o discurso da modernidade nos seus
próprios termos. Ao mesmo tempo, estão a provocar um reposicionamento das
principais arenas de contestação em que são moldadas novas formas de
modernidade, distanciando-se do fórum tradicional do estado-nação em direcção a
novas áreas em que diferentes movimentos e sociedades interagem continuamente.
Não só continuam a emergir modernidades múltiplas - indo, hoje em dia, para
além das premissas do estado-nação - como surgem igualmente novos modos de
questionar e reinterpretar as diferentes dimensões da modernidade no seio de
todas as sociedades. É inegável a tendência, no final do século XX, para a
crescente diversificação dos modos de compreensão da modernidade, dos programas
culturais básicos de diferentes sociedades modernas - muito para além das
visões homogéneas e hegemónicas da modernidade que prevaleciam na década de 50.
Para além disto, em todas as sociedades, estas tentativas de interpretação da
modernidade encontram-se em contínua mutação, submetidas ao impacte de forças
históricas que se vão alterando, dando assim origem a novos movimentos que
chegarão, a seu tempo, a reinterpretar uma vez mais o sentido da modernidade.
Se é verdade que o ponto de partida comum foi outrora o programa cultural da
modernidade tal como se desenvolveu no ocidente, desenvolvimentos mais recentes
viram uma multiplicidade de formações culturais e sociais superar esses
aspectos homogeneizadores da versão original. Todos estes desenvolvimentos
atestam, de facto, o contínuo desenvolvimento de modernidades múltiplas, ou de
múltiplas interpretações da modernidade - e, sobretudo, atestam as tentativas
de "desocidentalização", privando o ocidente do seu monopólio sobre a
modernidade.
XVII
Estas considerações encontram-se em estreita relação com os problemas
levantados nos ensaios reunidos na revista Daedalus.3 Todos eles discutem, de
diversas perspectivas e através de um grande leque de casos, as características
centrais da modernidade. Do mesmo passo, os estudos aí apresentados atestam a
contínua expansão do leque de possibilidades de interpretações ideológicas,
tanto das construções do sentido da modernidade como dos padrões institucionais
da vida política e social. Estas considerações confirmam, como demonstra
Nilüfer Göle (2000), que uma das características mais importantes da
modernidade é simplesmente, mas de modo profundo, o seu potencial para a
autocorrecção, a sua capacidade de enfrentar problemas nunca imaginados no seu
programa original. Hoje em dia, os problemas mais importantes são provavelmente
aqueles que se relacionam com o ambiente, com a igualdade entre sexos e com os
novos conflitos políticos e internacionais que já discutimos. Ao procurar lidar
com estes problemas, as diferentes sociedades contemporâneas podem utilizar de
modos cada vez mais diversos, como nota Tu Weiming (2000), os recursos
culturais das respectivas tradições civilizacionais.
Do mesmo passo, estes mesmos desenvolvimentos - sobretudo a tendência para a
constante autocorrecção característica da modernidade - tornam mais premente a
grande dificuldade que é dar resposta a respeito dos limites da modernidade.
Não se trata de afirmar a inexistência desses limites; mas o simples facto de
levantarmos essa questão, insere-a no seio do discurso da modernidade.
Elucidar e descrever o carácter essencialmente moderno dos novos movimentos e
identidades colectivas, desenhando percursos que de alguma forma ultrapassam o
modelo clássico do estado, territorial, nacional ou revolucionário, não nos
leva necessariamente a assumir uma visão optimista. Pelo contrário; as
ramificações são de tal ordem que tornam evidente a fragilidade e mutabilidade
de diferentes modernidades, bem como as forças destrutivas inerentes a certos
programas modernos, que se revelam de forma mais vincada na ideologia da
violência, do terror e da guerra. Estas forças destrutivas - os "traumas" da
modernidade que puseram em questão as suas grandes promessas - surgiram
claramente depois da I Guerra Mundial, tornando-se ainda mais visíveis na II
Guerra Mundial e no holocausto, e foram geralmente ignoradas ou postas de parte
no discurso da modernidade nas décadas de 50, 60 e 70. Ultimamente, ressurgiram
de um modo assustador - no novo conflito "étnico" em partes dos Balcãs
(especialmente na antiga Jugoslávia), em muitas das antigas repúblicas da União
Soviética, no Sri Lanka e, de uma forma terrível, em países africanos como o
Ruanda ou o Burundi. Não são simples erupções de velhas forças "tradicionais",
mas o resultado de um diálogo contínuo entre forças de reconstrução modernas e
outras aparentemente "tradicionais". Do mesmo modo, desenvolveram-se também
movimentos fundamentalistas e religiosos de cariz comunal no quadro da
modernidade, que não podem ser compreendidos completamente senão no interior
desse mesmo quadro. A modernidade - parafraseando a bem conseguida e humorada
expressão de Leszek Kolakowsky (1990) - está de facto "em julgamento contínuo".
[Tradução de Frederico Ágoas]
Notas
1 Uma primeira versão deste artigo foi publicada em inglês na revista
Dædalus: Journal of the American Academy of Arts and Sciences, 129 (1), 2000.
2 Sobre revoluções e modernidade ver, por exemplo, o número especial sobre
"A revolução francesa e o nascimento da modernidade", Social Research (1989).
Sobre o papel desempenhado por grupos de intelectuais heterodoxos em algumas
das revoluções e em períodos anteriores, ver Augustin Cochin (1924); e 1979; J.
Baechler (1979); François Furet (1982); Vladimir C. Nahirny (1981).
3 Dædalus: Journal of the American Academy of Arts and Sciences, 129 (1),
2000.