Investigação qualitativa em educação: O professor-investigador
A investigação qualitativa em educação tem-se projetado nos últimos 30 anos
como um factor de melhoria de práticas em diversos contextos educacionais. O
movimento nasceu nos anos 70 tendo como precursor Lawrence Stenhouse (citado
por Norton, 2009), "who believed that all teaching should be based on
research and that such research was the preserve of teachers not
researchers" (p. 52). Stenhouse (2003) afirma que o professor deve ser
autónomo, livre e com determinados propósitos, orientados pelo conhecimento,
que articula todos os elos da sua prática, autorregulado por um "processo
de investigação que é inerente ao processo de ensino e de aprendizagem"
(p. 19). O mesmo autor e Rudduck (1985) elencavam críticas à ideia do
professor-investigador, tais como:
• Os professores não sabem o que fazer
• Os professores são parciais com as descobertas da pesquisa
• Escassez de tempo para o ensino e a pesquisa
• Dificuldade de conciliar pesquisa e ensino
• Falta de esforço
Alarcão (2001) refere que "ser professor-investigador é, pois, primeiro
que tudo, ter uma atitude de estar na profissão como intelectual que
criticamente questiona e se questiona… Ser professor-investigador é ser capaz
de se organizar para, perante uma situação problemática, se questionar
intencional e sistematicamente com vista à sua compreensão e posterior
solução" (p. 6).
Um professor-investigador é um questionador. As suas perguntas
impulsionam para a frente (Hansen, 1997; Souza, Souza, & Costa, 2014). O
que sei sobre cada aluno e de que forma pode aprender melhor determinado
conteúdo? Que apoio posso oferecer? Poderíamos elencar dezenas de perguntas,
umas mais complexas do que outras que, dificilmente, seriam respondidas sem uma
prática investigativa.
Nesta perspetiva deve repensar-se e reestruturar-se a formação de professores
com esta orientação pela investigação, no intuito de melhorar a qualidade. Tal
prática deverá constituir o uso da investigação como atitude do dia-a-dia de
uma sala de aula (Galiazzi & Moraes, 2002).
Atualmente, o professor tem ao seu alcance inúmeras ferramentas tecnológicas
que lhe permitem apoiar a análise dos dados recolhidos em contexto de sala de
aula. Apesar dos métodos/processos mais comuns em educação, estas ferramentas
não se fecham em si mesmas, podendo o professor analisar dados provenientes de
um Estudo de Caso, um Estudo Etnográfico, um Estudo Fenomenológico, entre
outros. Relativamente às técnicas e métodos de recolha de dados, uma sala de
aula, uma saída de campo, permite uma imensidão de formas de recolha.
Como afirmam Slomski e Martins (2008), "a cultura de investigação
fundamenta-se na ideia de uma ciência educativa em que cada sala de aula é um
laboratório e cada professor um membro da comunidade científica" (p. 6).
Por outro lado, se compreendermos que nem todos os estudos educacionais são
quantificáveis e que, na maioria das vezes, interessa-nos compreender
determinado fenómeno dentro de um contexto específico, a investigação
qualitativa em educação proporciona ao professor métodos e técnicas
fundamentais para a melhoria da prática lectiva.
Neste sentido, o Congresso Ibero-Americano em Investigação Qualitativa (CIAIQ)
posiciona-se como um fórum extremamente relevante na área da investigação
qualitativa em educação. O CIAIQ procura fomentar, através da interação,
revisão, validação e publicação de qualidade, alguns destes pressupostos de
melhoria da qualidade da investigação qualitativa em educação.
O 4º Congresso Ibero-Americano em Investigação Qualitativa (CIAIQ2015) decorreu
de 5 a 7 de agosto de 2015 na Universidade Tiradentes em Aracaju, Brasil. A
conferência recebeu um total de 464 submissões de artigos, envolvendo 906
autores de 17 países. Cada artigo foi submetido a um processo de revisão
double-blind realizado por uma comissão científica composta por elementos
altamente qualificados nas áreas científicas do congresso.
Este núcleo temático da Revista Portuguesa de Educação (RPE) contém cinco
artigos selecionados pela comissão organizadora e científica do CIAIQ2015, de
entre os melhores trabalhos de investigação da conferência relacionados com
Educação e, posteriormente, validados por revisores da RPE. Os artigos deste
núcleo foram ampliados e aprofundados em relação aos resumos publicados nas
atas do CIAIQ2015.
O primeiro artigo - Concepções sobre desenvolvimento infantil na
perspectiva de educadoras em creches públicas e particulares - relata uma
investigação levada a cabo no Brasil, em creches públicas e particulares, e
procura levantar e discutir as conceções das educadoras sobre o construto
desenvolvimento infantil. Para tal foram entrevistadas vinte e quatro
educadoras (acompanhando crianças dos 24 aos 30 meses de idade), tendo os dados
sido analisados mediante análise de conteúdo por categorias temáticas.
Fundamentando-se na teoria sócio-histórica de Vigotski, as autoras apresentam
como resultados um conjunto de categorias que vão desde as crenças adquiridas
ao longo da vida até à experiência da formação inicial, passando pela interação
afetiva, entre outras. Apontam para a necessidade de repensar a formação
profissional de quantos trabalham na área da educação infantil, ou seja, com
crianças menores de quatro anos de idade.
O segundo artigo - A teacher´s tensions in a Spanish first grade two-way
bilingual immersion program - localiza-se no contexto do primeiro ciclo
do ensino básico no nordeste dos Estados Unidos da América e incide nas
reflexões sobre as lutas diárias e tensões vividas por uma professora que
leciona numa escola pública em sistema de imersão bilingue (maioria de língua
inglesa e minoria de língua espanhola). As crianças falantes de inglês tornam-
se bilingues no seu currículo académico, as crianças falantes de espanhol
precisam de ser bilingues para manter as suas raízes culturais e linguísticas e
terem sucesso num país que fala inglês. O discurso e as crenças dos
professores, nestes contextos, podem constituir um fator chave na defesa das
minorias, promovendo ou desfavorecendo o status linguístico. Em entrevistas
individuais, a professora interpretou a sua realidade no contexto da sua sala
de aula. A estas entrevistas foi aplicada análise indutiva e de conteúdo.
O terceiro artigo - Critical thinking in the context of clinical
practice: the need to reinvent pharmacy education - transporta-nos para o
domínio da graduação em Farmácia, também nos Estados Unidos da América. Através
de uma etnografia crítica, socorrendo-se de observação participante, grupos
focais e entrevistas em profundidade com estudantes e professores, as autoras
investigam a necessidade de aprendizagem do pensamento crítico para uma prática
clínica mais próxima do paciente, como a profissão assim exige. Sustentam que o
conhecimento farmacêutico tradicionalmente ensinado não é suficiente para
preparar estudantes para essa prática. Pensamento crítico implica boa educação
que forneça aos estudantes uma identidade social, dando forma a valores e
atitudes apropriados ao grupo profissional. Entre outros resultados, a
introdução de hábitos de criatividade revela-se de enorme importância para o
desenvolvimento do pensamento crítico.
O quarto artigo - Inclusão no ensino superior: Percepções dos estudantes
com NEE sobre o ingresso à universidade - situa-se no quadro do Ensino
Superior em Portugal e debruça-se sobre os fatores que apoiam ou não a escolha
e ingresso de estudantes com necessidades educativas especiais (NEE) na
universidade. No caso, na Universidade de Aveiro, onde onze estudantes foram
entrevistados à luz de um paradigma de investigação interpretativa. Foi
questionado o seu percurso universitário, tentando identificar e compreender os
fatores pessoais, educativos e socioculturais que fundamentaram as suas
escolhas no acesso à universidade. Emerge a ideia de que são as melhores
universidades quem se preocupa com estes estudantes e com a inclusão da
diversidade em geral, constituindo esta, como curiosamente dizem as autoras, um
desassossego para a instituição.
O quinto artigo - Matemática e música: Sistematização de analogias entre
conteúdos matemáticos e musicais - remete-nos para uma temática cujas
origens remontam à Grécia Antiga. A escola pitagórica dividiu as ciências
matemáticas em quatro partes - Aritmética, Geometria, Música e Astronomia -,
que viriam a ser designadas por Quadrivium, componente basilar das sete artes
liberais do currículo medieval (até finais do século XV e decénios do XVI),
completado com o Trivium (Gramática, Dialética e Retórica). Carecendo-se, de
acordo com os autores, de literatura que elenque de forma sistemática estas
relações (concretamente com os programas escolares), foi constituída esta
síntese de associações que possa servir investigações futuras sobre as ligações
entre matemática e música, como, por exemplo, o ensino e a aprendizagem da
matemática por meio de aulas integradas de matemática e música. Com este
intento, foi efetuada uma revisão, análise e sistematização qualitativa da
literatura sobre as ligações entre matemática e música através de: pesquisa em
repositórios de bases bibliográficas; consulta de manuais específicos; e
sistematização das relações entre matemática e música, atendendo à organização
por temas da matemática.
Finalizamos, agradecendo a todos os que de forma direta ou indireta colaboraram
com o sucesso do CIAIQ2015 e com a produção deste núcleo temático, incluindo os
participantes, autores, comissão organizadora e científica, apoios, equipa
editorial, entre muitos outros. Através do seu interesse, participação e da
qualidade e rigor do seu trabalho científico, agora publicado na Revista
Portuguesa de Educação, esperamos que possa ser promovida a expansão da
investigação qualitativa numa área tão relevante como é a da Investigação em
Educação.