Feedback na prática letiva: Uma oficina de formação de professores
Introdução
O feedback do professor relativo ao desempenho e compreensão por parte do aluno
pode constituir o aspeto prático mais importante da relação entre professores e
alunos (Black & Wiliam, 1998; Black, Harrison, Lee, Marshall, & Wiliam,
2002). Além de influenciar a compreensão e o desempenho dos alunos (Kluger
& DeNisi, 1996, 1998; Salema, 2005; Valente, 1997; Zimmerman & Schunk,
2001, 2007), o feedback do professor tem um papel fundamental no seu
envolvimento com a escola (Carvalho et al., 2011; Conboy & Fonseca, 2009;
Fonseca, Valente, & Conboy, 2011; Fonseca & Conboy, 2006; Fredricks,
Blumenfeld, & Paris, 2004; Schussler, 2009; Veiga, 2009; Verkuyten &
Thijs, 2009). Afeta também a construção da identidade do aluno e as suas
trajetórias académicas (Cornelius & Herrenkohl, 2004). Especificamente,
sendo uma componente da qualidade da relação que os professores desenvolvem com
os seus alunos, o feedback, juntamente com diversos tipos de tarefas e
atividades que os professores propõem, afetará os contextos de participação
(Carvalho & Solomon, 2012) e pode contribuir para reificar posições de
identidade (Freire, Carvalho, Freire, Azevedo, & Oliveira, 2009). Apesar da
sua importância, largamente acentuada na literatura, alguns resultados de
investigação apontam para um mau uso do feedback por parte do professor, na sua
sala de aula (Valente, Conboy, & Carvalho, 2009), e para uma consequente
necessidade de desenvolvimento profissional de professores neste domínio.
Feedback: evidências, estrutura e consequências
O feedback ocorre após um comportamento, intervenção ou atitude e consiste na
informação que recebemos sobre como estamos a sair-nos no esforço que
desenvolvemos para alcançar um determinado objetivo (Wiggins, 2012). O feedback
é sempre uma consequência da nossa atuação e a sua finalidade pedagógica é
fornecer informações relacionadas com a tarefa ou processo de aprendizagem, a
fim de melhorar o desempenho numa tarefa específica e/ou o entendimento de um
determinado assunto (Sadler, 1989). De acordo com Hattie (2009), o feedback
visa a redução das discrepâncias entre a compreensão e desempenho atuais, por
um lado, e uma intenção ou objetivo de aprendizagem, por outro.
O feedback tem sido descrito por vários autores como tendo dimensões
cognitivas, motivacionais e afetivas. Na sua dimensão cognitiva, pode ser
entendido como a "informação fornecida por um agente (por exemplo,
professores, colegas, livro, pais, o próprio, experiência) sobre aspetos do
desempenho ou entendimento de outro agente" (Hattie & Timperley, 2007,
p. 81). Uma tal informação poderá ter impacto sobre a autorregulação da
aprendizagem e sobre o desempenho do aluno (Kluger & DeNisi, 1996, 1998;
Salema, 2005; Valente, 1997; Zimmerman & Schunk, 2001, 2007).
Brookhart (2008) descreve o feedback eficaz em termos de duas dimensões: a
cognitiva e a motivacional. A dimensão cognitiva tem a ver com o fornecimento
de informações necessárias aos alunos para poderem compreender "em que
ponto se encontram na sua aprendizagem e o que têm de fazer a seguir" (p.
2); a dimensão motivacional diz respeito ao desenvolvimento, nos alunos, da
"sensação de que têm controlo sobre sua própria aprendizagem" (p. 2).
A literatura indica igualmente que as estratégias de feedback são um fator
relevante na promoção da relação entre professores e alunos, bem como no
envolvimento académico destes e no seu desempenho e autorregulação de
aprendizagens (Black et al., 2002; Black & Wiliam, 1998; Hattie, 2009). Mas
nem sempre assim acontece, como veremos a seguir.
Dweck (2006) teoriza que a natureza do feedback influencia o posicionamento
motivacional dos alunos perante a situação de aprendizagem (mero desempenho vs
mestria). Isto é, se o feedback do professor recompensa a velocidade, então
será velocidade o que o aluno aprende a procurar; se o feedback mostra
preferência por se obter a resposta certa, então os alunos irão esforçar-se por
obter a resposta certa. Mas se o feedback está estruturado para reconhecer e
compensar o esforço, a persistência e a aplicação de princípios, então os
alunos irão aprender a trabalhar intensamente, a perseverar e a pensar.
Black e Wiliam (1998) sintetizaram os resultados de 250 estudos internacionais
sobre a análise de desempenho em sala de aula e concluíram que há duas ações do
professor que proporcionam um impacto mais sólido na aprendizagem do que
qualquer outra inovação educacional já documentada: (a) envolver os alunos
nessa análise; e (b) aumentar a quantidade de feedback descritivo, enquanto se
diminui o feedback avaliativo. Hattie e Timperley (2007), usando uma abordagem
de meta-análise, concluíram que se obtém magnitudes de efeito substancialmente
mais elevadas para as estratégias de feedback do que para outras intervenções
educativas mais típicas. Tais conclusões sobre a importância do feedback deram
origem a um movimento que valoriza a avaliação para a aprendizagem, ao
contrário da avaliação da aprendizagem ou da avaliação como aprendizagem (Black
& Wiliam, 1998; Wiggins, 2012).
Há um consenso geral de que o feedback deve ser dado a um nível que os alunos
possam compreender (Orsmond, Merry, & Reiling, 2005) e será mais eficaz na
promoção da aprendizagem e facilitação da sua melhoria se for fornecido num
ambiente propício, ao invés de ser oferecido como juízo de valor (Weaver,
2006). De acordo com Hattie (2009), o feedback pode ser direcionado para
diferentes níveis: (a) a tarefa (o quão bem as tarefas são executadas); (b) o
processamento da tarefa (o processo necessário para executar tarefas); (c)
autorregulação (auto-monitorização das ações); e (d) o self (avaliações
pessoais do aluno). Como tal, Hattie (2009) afirma que as estratégias a adotar
por professores e alunos para reduzir discrepâncias de desempenho estarão em
parte relacionadas com o nível a que o feedback tem lugar:
Se o feedback for direcionado para o nível adequado, poderá ajudar os
alunos a compreender, realizar ou desenvolver estratégias eficazes
para processar informações que se pretende sejam aprendidas. Para ser
eficiente, o feedback deve ser claro, ter um propósito, ser
significativo e compatível com o conhecimento prévio dos alunos, e
deverá fornecer conexões lógicas (pp. 177-178).
De acordo com Hattie (2009), o feedback é mais eficaz quando informa o aluno
acerca do seu desempenho, quando o leva a concentrar-se em maneiras de melhorar
esse desempenho, e ainda quando é fornecido em contextos que protejam a
identidade e autoestima do aluno. Alguns estudos mostram também que os alunos
apreciam e anseiam por um bom feedback, não apenas porque querem obter notas
que lhes permitam passar de ano, mas porque querem desenvolver as suas
competências (Higgins, Hartley, & Skelton, 2002; Orsmond et al., 2005;
Valente et al., 2009).
Quando o feedback não funciona ou funciona no sentido oposto ao desejado
O feedback envolve uma dimensão afetiva de particular importância quando a
informação transmitida pelo professor se centra no próprio aluno e não no
desempenho ou compreensão. Este tipo de feedback, centrado nas características
pessoais do aluno, pode algumas vezes ter resultados indesejáveis, entre eles
aumentar o medo do fracasso. De facto, o feedback fornece informação que
permite aos alunos fazer interpretações sobre si mesmos, sobre os outros e
sobre a escola. No entanto, se a componente afetiva do feedback for
negligenciada por um professor, os alunos poderão minimizar o seu esforço,
tentando assim evitar riscos para si próprios na abordagem de tarefas
desafiadoras (Black & William, 1998). Isto acontece com maior frequência
quando o feedback enfatiza aspectos do eu que podem influenciar, não somente as
decisões que os estudantes tomam sobre a escola (Freire et al., 2009), mas
também a maneira como se irão posicionar eles próprios na sua comunidade
escolar (Hand, 2006; Holland, Lachicotte, Skinner, & Cain, 1998).
Outros estudos têm mostrado que os alunos, por vezes, não respondem bem ao
feedback do professor - ou por este feedback ser mal interpretado (Lea
& Street, 2000), ou por não ser valorizado (Hounsell, 1987), ou ainda por,
tendo sido valorizado, não ser na prática utilizado (Ding, 1998). E mesmo
quando tudo parece ter sido feito pedagogicamente de forma correta, o feedback
pode não ter o efeito desejado sobre a aprendizagem dos alunos (Fritz, Morris,
Bjork, Gelman, & Wickens, 2000; McClellan, 2001).
Uma pesquisa recente realizada em Portugal apoia a afirmação de que muitas
vezes os professores vêem o feedback como uma forma de fazer declarações sobre
os alunos, e não sobre o seu ensino (Valente et al., 2009). Os autores
descrevem métodos usados por professores do ensino secundário na apresentação
de informações respeitantes à avaliação dos alunos, bem como as reações destes
alunos ao receberem tais informações, e ainda como esta dinâmica pode afetar o
envolvimento dos estudantes nas atividades escolares. Os resultados apoiaram a
tese de Schussler (2009) de que as práticas de feedback que não motivem para a
aquisição de conhecimentos e o desenvolvimento de capacidades, por parte do
aluno, e não promovam uma relação professor-aluno baseada no respeito e na
confiança podem ter um efeito adverso sobre o envolvimento académico dos
estudantes.
Uma descoberta marcante do estudo descrito por Valente et al. (2009) foi a de
que o mau uso de feedback do professor parece ser comum. Ao invés de ter o
objetivo de se concentrar na tarefa e reduzir as discrepâncias de desempenho, o
feedback era frequentemente centrado no próprio aluno e utilizado pelos
professores para acusar, julgar e punir. Este tipo de feedback não será eficaz
na promoção da aprendizagem e mostra, mais uma vez, como a dimensão afetiva do
feedback pode funcionar como uma 'espada de dois gumes' (Kluger
& DeNisi, 1996). Com base nestes resultados, conclui-se que existe
necessidade de se continuar a promover projetos de desenvolvimento profissional
de professores em Portugal, a fim de se assegurar que as estratégias de
feedback são usadas na sala de aula de um modo adequado e eficaz.
O que os professores precisam saber sobre feedback
A preparação adequada de professores no uso de feedback eficiente implica o
desenvolvimento de competências adequadas para que possam ajudar os seus alunos
a melhor compreenderem a distância a que se encontram dos objetivos de
aprendizagem, não deixando nunca de proteger a autoestima destes.
Diversas abordagens ao feedback foram defendidas pelos vários autores referidos
nos parágrafos anteriores. A fim de desenvolver um enquadramento teórico
apropriado para o desenvolvimento profissional, consideramos o que essas
abordagens têm em comum e, usando a morfologia de Brookhart (2008), relativa a
Estratégias e Conteúdo, podemos resumir algumas características comuns do
feedback.
As Estratégias de feedback podem ser descritas e avaliadas em termos de: (a)
Timing (quando é dado o feedback e com que frequência); (b) Quantidade
(quantidade de feedback dado); (c) Modo (oral, escrito, ou feedback visual/
cinestésico); e (d) Audiência (individual, grupo, feedback em grupo-turma). O
Conteúdo do feedback pode ser descrito e avaliado em termos de: (a) Enfoque
(trabalho, processo, autorregulação); (b) Comparação (critério, norma,
autorreferenciada); (c) Função/Valência (descrição, juízo de valor/valência
positiva ou negativa); (d) Clareza/Especificidade; e (e) Tom (respeito pelo
aluno, aluno como agente).
De modo a ser eficaz, o feedback de sala de aula deve ter características
identificáveis que estão, em grande parte, sob o controlo parcial do professor.
O feedback eficaz é apresentado o mais rapidamente possível após o facto
(Timing) e é seletivo. Ou seja, os professores não devem tentar comentar todos
os aspetos do desempenho dos alunos, mas sim focalizar os aspetos específicos
que terão o maior efeito (Quantidade). O feedback pode ser eficaz, quer seja
oral, escrito ou visual, quer seja dado individualmente ou em grupo. Os
professores devem reconhecer que cada situação específica poderá levar a um
diferente e preferencial Modo e também Audiência.
O Conteúdo do feedback eficaz pode ser descrito e avaliado de uma forma
semelhante. Os professores têm de ter a capacidade de analisar e criticar as
suas próprias práticas de feedback. Será que essas práticas tendem a enfatizar
o trabalho do aluno, o processo cognitivo, ou questões de autorregulação
(Enfoque)? Ao identificar discrepâncias entre metas e desempenho, fazem-no com
base num critério de referência, numa norma, ou ainda com base no desempenho
prévio do aluno (Comparação)? São os comentários dos professores de carácter
descritivo ou crítico? São positivos ou negativos (Função/Valência)?
Finalmente, a informação apresentada sobre as discrepâncias desempenho/meta é
uma informação compreensível e acionável (Clareza/Especificidade)? E é sensível
às relações de poder potencialmente desiguais na sala de aula e a preocupações
com a autoestima do aluno (Tom)?
Estas características das estratégias e conteúdo de feedback não devem ser
entendidas como dimensões isoladas e ortogonais. Estão intrinsecamente
interligadas. Um programa de desenvolvimento profissional deve procurar
preparar um professor para ser capaz de identificar opções de prática de sala
de aula e seus efeitos potenciais. Esse professor irá promover a comunicação
interativa e descritiva, em vez de uma comunicação crítica e de sentido único,
e irá concentrar-se no trabalho do aluno e não no próprio aluno. Tal professor
é franco e aberto na comunicação das discrepâncias metas/desempenho encontradas
e, ao mesmo tempo, sensível a preocupações relativas à autoestima do aluno.
Será um professor que contribui para um ambiente de abertura e de respeito
mútuo que promove o controlo dos alunos sobre sua própria aprendizagem.
Como promover a aprendizagem sobre feedback por parte dos professores
Ao pensar-se num programa de desenvolvimento profissional de professores, a
preocupação central é a do potencial formativo do mesmo, designadamente a sua
eficácia na consecução dos objetivos pretendidos - no caso específico do
programa aqui descrito e avaliado, a alteração e melhoria de conhecimentos e
competências dos professores no uso de feedback, bem como a alteração e
melhoria dos seus sentimentos relativos a esse uso e, ainda, a aplicação
efetiva de estratégias de feedback na prática letiva dos professores.
Alguns estudos internacionais indicam que o desempenho dos alunos está
diretamente relacionado com o investimento e apoio colocados no desenvolvimento
profissional dos professores (Jaquith, Mindich, Wei, & Darling-Hammond,
2010) e que a qualidade do ensino está diretamente relacionada com a qualidade
do desenvolvimento profissional que os professores recebem (Guskey & Yoon,
2009). Lawless & Pellegrino (2007) acreditam que um programa de
desenvolvimento profissional de qualidade elevada tem de ter uma longa duração
(incluindo tempo de contacto presencial e respetiva aplicação na sala de aula),
envolver os professores em atividades relevantes para o seu contexto específico
de sala de aula, promover a colaboração entre pares e a formação de uma
comunidade e, finalmente, estar imbuído de uma visão claramente articulada do
que se pretende em termos de desempenho do aluno. Outros autores recomendam uma
estrutura semelhante para os programas de desenvolvimento profissional de
professores: (a) ênfase em objetivos específicos; (b) integração entre teoria e
prática; (c) implementação a longo termo (distribuída ao longo de um ano
escolar ou mais); (d) aplicação à sala de aula; e (e) reflexão colaborativa
entre pares (Dana, Campbell, & Lunetta, 1997; Fonseca, 2002; Fonseca,
Conboy, Macedo, & Mestre, 2004; Hattie & Timperley, 2007; Salema,
2005).
Um estudo conduzido em 2000 pelo National Center for Education Statistics, nos
EUA, revelou que os professores percecionam o desenvolvimento profissional
formal como não tendo efeito no seu ensino, a não ser que seja desenhado e
planeado para interligar o que os professores aprendem com o que acontece
realmente na sua sala de aula (Hodge, 2014). Adicionalmente, o desenvolvimento
profissional tem de ser embebido no contexto educacional de sala de aula, isto
é, tem de visar a melhoria da relação entre o ensino académico feito pelo
professor e a motivação para aprender por parte dos alunos.
Para além da teorização que modela um programa de formação, o modo como se
'ensina' um professor ao longo desse programa tem de ser igualmente
equacionado. Assim, de acordo com a literatura, uma oficina de formação sobre
feedback deverá ser estruturada de modo a propor e discutir as linhas-mestras
de todo o programa, facultar informação útil sobre os conceitos relevantes a
serem tratados (no caso específico da nossa oficina, conceitos de feedback e
outros que lhe estão associados) e promover um ambiente facilitador e de
confiança. Deverá ainda proceder à identificação dos sentimentos e
posicionamentos iniciais ('crenças') dos professores relativamente
ao uso de feedback e relativamente à análise e observação do mesmo em sala de
aula. E deverá partir desses posicionamentos evolvendo no sentido de os alterar
e melhorar.
Partindo-se de uma postura de negação relativa à necessidade de mudança através
da observação, como é esperado de grande parte dos professores, e através de
atividades hands-on e/ou role-play em que o formador modele o uso de feedback,
com observação feita por alguns participantes, e posterior reflexão
colaborativa entre todos os presentes, os professores serão levados a
confrontar os seus posicionamentos iniciais com o que na sessão experienciam.
Assim mudam as as suas ideias e acabam por propor, eles próprios, atividades
subsequentes de melhoria no uso de feedback, nas suas salas de aula, com
observação por pares. Várias outras sessões de formação poderão seguir uma
formulação semelhante, sempre no sentido de aprimorar e aprofundar
conhecimentos e competências no uso de feedback e alterar sentimentos relativos
a esse uso.
A oficina de formação sobre feedback
Objetivo
O objetivo deste artigo é descrever e avaliar uma oficina que procurou promover
o desenvolvimento profissional do professor no uso de estratégias de feedback
adequadas e eficientes. O estudo é de natureza qualitativa e descritiva e
envolve uma análise das sessões presenciais da oficina e do trabalho autónomo
dos participantes (aplicação em sala de aula dos conteúdos e objetivos das
sessões). Os métodos específicos de recolha de dados incluíram a observação,
relatórios escritos solicitados aos participantes e a reflexão conjunta do
formador com os participantes durante as sessões da oficina.
Método
A organização, delineamento e implementação da oficina, como veículo de
desenvolvimento profissional de professores, teve como objetivos a melhoria nos
conhecimentos e capacidades dos participantes no que respeita ao uso de
feedback adequado e eficiente, a promoção de sentimentos positivos em relação à
importância de estratégias de feedback e, ainda, a aplicação efetiva de tais
estratégias em sala de aula, com reflexão sobre as mesmas.
Integrada num projeto de investigação mais amplo, a oficina incluiu temas como:
(a) Feedback do professor e envolvimento, identidade e trajetórias académicas
do aluno; (b) Observação e análise de estratégias de feedback; (c) Estratégias
de comunicação e processamento cognitivo; (d) Tipos e consequências de feedback
num quadro de identidade e motivações do aluno; (e) Feedback verbal e não-
verbal no trabalho de grupo colaborativo; (f) Feedback em contextos de
resolução de problemas; (g) Conceções dos participantes sobre fatores da
motivação escolar dos alunos; e (h) Avaliação da oficina de formação,
expectativas e concretizações, dificuldades e sucessos.
As sessões de trabalho, facilitadas por dois formadores (ver secção
"Procedimentos gerais para as sessões", mais adiante), incluíram a
apresentação, discussão e, por vezes, a simulação de práticas de feedback,
seguindo-se atividades de aplicação em grupos de trabalho (jogos, simulações,
dramatizações e outros) e posterior reflexão sobre as mesmas. As duas últimas
sessões de formação não tiveram esse formato - serviram de reflexão sobre
as aprendizagens, sucessos e insucessos, frustrações ou motivações dos
participantes, e de avaliação de todo o trabalho realizado. A penúltima foi uma
sessão apenas de reflexão, com a intervenção individual de todos os
professores. A última sessão incluiu, para além de reflexão de avaliação do
trabalho e aprendizagens dos participantes e da própria oficina, o
preenchimento de dois questionários de avaliação, um fornecido pelo Conselho
Científico-Pedagógico da Formação Contínua e outro preparado pelos
coordenadores da oficina, solicitando a opinião geral dos participantes sobre o
programa de formação, sobre em que medida as suas expetativas haviam sido
concretizadas e ainda sobre a sua disponibilidade para colaboração futura com
os formadores.
As sessões presenciais ocorreram mensalmente. A seguir a cada sessão, os
participantes realizaram trabalho autónomo nas suas turmas, com aplicação das
aprendizagens respeitantes a essa sessão. Este trabalho foi acompanhado à
distância pelos formadores. O trabalho incluiu também uma reflexão por escrito
que foi analisada pelos formadores.
Na primeira sessão, uma introdução teórica incluiu conceitos de diferentes
tipos de feedback e suas consequências, bem como os conceitos relacionados de
identidade estudantil, envolvimento dos alunos e trajetórias académicas. Os
participantes foram informados de que havia sido preparada, para a oficina, uma
plataforma web, o Moodle, a que teriam acesso permanente e que seria
constantemente atualizada ao longo das várias sessões, através de afixação de
textos científicos, descrição das sessões e outras informações úteis. O Moodle
serviria também como plataforma de apoio aos professores, por parte dos
formadores, durante o trabalho não-presencial. No trabalho não-presencial para
a primeira sessão, os participantes examinaram literatura relevante, bem como
relatórios que apresentavam indicadores de boas práticas de feedback.
Nas cinco sessões seguintes, através de atividades práticas e em contextos
específicos, conforme os temas tratados, os participantes experimentaram
estratégias de feedback: primeiro exercitaram-nas como 'alunos'; em
seguida, aplicaram-nas como 'professores'. Finalmente, refletiram
sobre essas estratégias e seus efeitos. No trabalho autónomo, os professores
conceberam, desenvolveram e implementaram estratégias de feedback para promover
a aprendizagem dos alunos nas suas áreas curriculares específicas e escreveram
relatos descritivos da aplicação e seus efeitos. Os formadores da oficina
ajudaram os participantes na análise de feedback implementado nas suas aulas e
ajudaram-nos no desenvolvimento de competências de investigação sobre as suas
práticas de ensino (incluindo auto e heteroavaliação das suas convicções,
formas de pensar e processos implementados), a fim de melhorar essas práticas e
a própria reflexão sobre elas. Seguindo estes procedimentos, os professores
resolveram alguns problemas surgidos na sua prática de ensino, elaborando
também alguns materiais e atividades curriculares úteis para essa prática e que
puderam partilhar.
Estrutura, participantes e contexto
O planeamento e a conceção da oficina de formação foram guiados por
recomendações baseadas na literatura para a preparação deste tipo de ações para
o desenvolvimento profissional do professor. Assim, como vimos acima, a
estrutura prevê: (a) ênfase em objetivos específicos; (b) integração entre
teoria e prática; (c) implementação de longo prazo (distribuída ao longo de um
ano escolar); (d) aplicação e reflexão colaborativa por pares (Dana et al.,
1997; Fonseca, 2002; Fonseca et al., 2004; Hattie & Timperley, 2007;
Salema, 2005); e ainda (e) interligação entre o que os professores aprendem e o
que acontece realmente na sua sala de aula (Hodge, 2014).
A estrutura da oficina procurou igualmente ter em conta alguma outra literatura
(e.g. Paakkari, Tynjåla, & Kannas, 2001) onde se procura associar as
conceções dos professores e as decisões tomadas na prática letiva para as
aprendizagens dos alunos em sala de aula, tendo, no entanto, em conta que
"a relação causal entre ambas é difícil de demonstrar" (Paakkari et
al., 2001, p. 705), atendendo aos diversos contextos educacionais que situam as
práticas dos professores.
Doze professores de uma escola na área da grande Lisboa ofereceram-se para
participar na oficina. Todos os professores tinham mais de cinco anos de
experiência de ensino e provinham das áreas curriculares de Inglês, Geografia,
Física e Química, História, Matemática, Economia e Português. Seis possuíam uma
pós-graduação numa área de educação. Os alunos desses professores distribuíam-
se por vários anos de escolaridade, do 7.º ao 11.º.
A oficina teve lugar nas instalações da escola, após o estabelecimento de um
protocolo entre esta e o Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. A
escola fica situada numa comunidade socialmente carenciada, com elevada
densidade populacional e famílias, em geral, de baixos rendimentos. A população
escolar é caracterizada pela heterogeneidade cultural, incluindo estudantes
portugueses, estudantes provenientes de outros países de língua portuguesa como
Angola e Brasil, mas também alunos da Ucrânia, Moldávia, Roménia, Paquistão e
Índia. Embora este multiculturalismo possa ter benefícios, levanta também
algumas questões relacionais e de linguagem. Têm sido identificados nesta
escola problemas relacionados com indisciplina e violência, altas taxas de
retenção e desistência, e escasso envolvimento das famílias com a escola.
Instrumentos de observação e análise
O modelo de desenvolvimento profissional do professor utilizado assume a
importância da reflexão sobre a prática docente em sala de aula. O referencial
teórico fornece áreas específicas para a reflexão. A fim de promover e
facilitar essa reflexão, foi elaborada, pelos formadores, uma grelha de
observação destinada à identificação e análise de feedback. A preparação da
grelha incorporou ideais de Hattie (2009), Black e William (1998) e Wiggins
(2012). A sua organização centra-se, no entanto, sobretudo nas quatro
estratégias e cinco áreas de conteúdo do feedback introduzidas por Brookhart
(2008). A grelha foi usada de forma flexível - houve diversas adaptações
consoante os temas tratados -, tanto nos trabalhos de grupo de algumas
das sessões presenciais, como no trabalho autónomo que os participantes
realizaram nas suas salas de aula.
Apresenta-se na Tabela_1 a grelha mais amplamente utilizada. Nesta tabela são
apresentadas as sete categorias mais tipicamente analisadas pelos professores
nos seus relatórios (timing, modo, audiência, enfoque, tom, função/valência,
clareza/especificidade), bem como uma breve descrição de cada uma delas. Não é
nossa intenção quantificar, ou diferenciar, a importância atribuída a cada uma
das categorias. Tal hierarquia teria pouco significado, dadas as diferentes
áreas científicas dos professores e a natureza, não conhecida em pormenor, das
atividades específicas de sala de aula que deram origem à identificação das
categorias.
Pontualmente, foram ainda usadas mais duas grelhas adaptadas ao tipo de
trabalho a ser executado, uma direcionada para o feedback não-verbal (utilizada
numa das sessões presenciais) e outra para o trabalho de grupo na resolução de
problemas (utilizada noutra das sessões presenciais). A primeira incidia sobre
as competências de atendimento não-verbal do professor, demonstradas em termos
de atenção e importância dadas às ações, mensagens e verbalizações do aluno,
nomeadamente através da postura, contacto visual, espaço corporal, barreiras e
igualdade/desigualdade de estatuto. A segunda integrava uma alternativa de
classificação das dimensões do feedback, tendo ainda por base os trabalhos de
Brookhart (2008), Hattie (2009) e Wiggins (2012). Considerava cinco dimensões:
(1) timing (significado idêntico ao do item homónimo da grelha descrita na
Tabela_1); (2) probabilidade de uso futuro (feedback é concreto, compreensível,
acionável); (3) tangibilidade e transparência(feedback incide sobre aspetos
relevantes, é suficiente para ajudar o aluno a continuar e promove a
compreensão de relações entre ideias); (4) meta-referência (feedback compara o
desempenho com a meta a alcançar; fornece alternativas para atingir a meta); e
(5) consistência (feedback descreve o que foi feito e sugere formas de
melhorar).
Procedimentos gerais para as sessões
A oficina foi estruturada em oito sessões de três horas, uma sessão por mês a
partir de outubro até ao final de maio. Havia sete formadores envolvidos na
oficina. Dois dos formadores foram os coordenadores de todo o trabalho
desenvolvido e são indicados neste artigo como os primeiros dois autores. Cada
formador era responsável por uma sessão presencial e pela forma como se
pretendia que fosse aplicada em sala de aula por parte dos participantes. Cada
sessão foi orientada, segundo uma abordagem de team-teaching, por dois dos
formadores de professores; um deles era o responsável por essa sessão
específica e o outro era um dos coordenadores. A presença de pelo menos um dos
coordenadores em cada sessão teve a finalidade de assegurar a continuidade e
articulação entre todas as sessões. Para garantir a consistência entre os
formadores, foram realizadas reuniões de reflexão colaborativa regulares com
todos eles presentes.
Atividades em grupos de trabalho. A exploração de feedback através de
atividades em grupo ilustrou os conceitos e temas abordados na introdução da
sessão. Em algumas das sessões, por cada grupo de trabalho, foram designados um
'observador' e um 'professor'. Em outras sessões, o
'professor' era o próprio formador da sessão. O observador
registava os comentários de feedback utilizados pelo designado
'professor' e também pelos participantes do grupo. No final das
atividades de grupo, houve discussão nesses pequenos grupos, para identificar e
avaliar as estratégias de feedback que foram úteis para a progressão da
atividade. Houve também uma discussão global, com todos os participantes, sobre
as competências reveladas pelas técnicas de observação e sobre a sua
eficiência.
Trabalho não-presencial atribuído. Após as atividades em grupo e discussão, era
introduzido o trabalho a efetuar entre sessões - a aplicação, na sala de
aula, do que tinha sido aprendido em cada uma das sessões. Os participantes
foram convidados a desenvolver estratégias de feedback no conteúdo das suas
áreas científicas e a implementar essas estratégias na sala de aula, bem como a
analisar as práticas resultantes. Previamente à sessão presencial seguinte, os
professores entregavam um relatório escrito com as suas auto e heterorreflexões
respeitantes às práticas de feedback. Quando havia dúvidas ou comentários ao
trabalho não-presencial, dedicava-se algum tempo da sessão a essas questões. Na
penúltima sessão, o trabalho autónomo dos professores teve um cariz diferente:
pediu-se aos participantes para entrevistarem dois dos seus alunos com o
objetivo de perceberem se eles tinham sentido ou detetado algumas diferenças
nas atividades de sala de aula ou na forma como o professor comunicava com eles
e qual a sua reação a essas diferenças, quando as havia. Os professores
prepararam os guiões das entrevistas, transcreveram-nas e fizeram uma análise
das respostas, que apresentaram na forma de relatório.
Relatório final e autoanálise
No final do ano letivo, tal como tinha sido informado nas primeiras sessões da
oficina, os participantes foram solicitados a apresentar um relatório final
sobre o seu desenvolvimento profissional em termos de implementação de
estratégias de feedback. No relatório deveriam identificar os seus principais
desafios e dificuldades na transferência do conhecimento para a sala de aula e
as soluções encontradas para superar essas dificuldades. O relatório final
também pedia aos professores para realizarem a autoavaliação do trabalho que
desenvolveram ao longo dos oito meses em que decorreu o programa de formação e
do impacto que os seus alunos haviam detetado nas suas ações letivas.
Avaliação da oficina de formação
A avaliação da oficina foi feita com base nas seguintes fontes de informação:
(a) relatos escritos descritivos do trabalho não-presencial respeitante a cada
uma das sessões presenciais; (b) relatório final escrito; (c) reflexões orais,
especialmente nas duas últimas sessões presenciais; e (d) respostas aos dois
questionários preenchidos na última sessão (um oficial, do serviço de
creditação da formação contínua, para avaliação da oficina; e um interno,
elaborado pelos coordenadores do programa de formação, sobre perspetivas
respeitantes ao trabalho desenvolvido e planos de trabalho futuro).
As reflexões orais e as respostas aos dois questionários da última sessão
presencial serão analisadas na secção "Discussão". Nos Relatos do
Trabalho Não-Presencial, que constituíram também um dos elementos da avaliação
dos participantes, os professores descreveram e analisaram a implementação do
feedback em sala de aula, tendo como uma importante referência as grelhas
observacionais desenvolvidas e utilizadas na oficina. Apresentamos a seguir
alguns exemplos de como os professores, nos Relatos do Trabalho Não-Presencial
ao longo do ano, descreveram o uso de estratégias de feedback e como entenderam
a importância e os efeitos sobre os alunos de tais estratégias. Cada citação
diz respeito a um professor diferente (no fim de cada uma, apresentamos a
classificação de acordo com as categorias na Tabela_1).
(...) através do feedback individual aos alunos que trabalham em
grupos, tomei consciência de que se trata de uma forma eficiente de
feedback e acompanhamento destes alunos, embora isso me dê um pouco
de frustração por não ser capaz de atender a todos os alunos que
precisam de ajuda num determinado momento. (Audiência)
(...) na minha aula sobre diferenças culturais, perante atitudes
xenófobas de alguns alunos, confrontei essas atitudes (feedback, NA)
e envolvi todos os alunos numa atividade em que eles tinham que
representar a situação de discriminação (feedback, NA), o que ajudou
os alunos a melhorar as suas competências de cidadania. (Enfoque)
Eu não julguei negativamente as ideias do aluno... e o resultado foi
positivo. (Função e Valência)
Um aluno disse-me, na minha aula de Inglês, que não era capaz de
escrever em inglês. Perguntei-lhe por que seria. O estudante pensou
sobre as suas dificuldades e identificou, como razões, o vocabulário
fraco e a dificuldade em conjugar os verbos. (Tom)
Durante a aula de Física e Química, usei vocabulário simplificado
para uma melhor compreensão de conceitos por parte dos alunos e só
mais tarde é que apresentei a terminologia científica. (Clareza e
Especificidade)
Transcrevemos agora alguns exemplos de comentários provindos do trabalho
autónomo dos professores, respeitantes à análise das respostas das entrevistas
aos alunos. Novamente, as citações correspondem a diferentes professores e, na
sua maioria, estes são distintos daqueles cujas citações incluímos acima.
Algo que me surpreendeu durante as entrevistas foi verificar que o
feedback mais importante para estes alunos é o facto de o professor
acreditar que eles conseguem ter sucesso: "A professora de
Português diz que todos conseguem, e este é um bom método porque leva
a que os alunos acreditem que conseguem". Assim, constata-se que
as crenças dos professores são muito influenciadoras para as
expectativas que os alunos têm de si próprios, ou seja as trajetórias
dos alunos podem ser marcadas, negativamente ou positivamente, a
partir do posicionamento que o professor tem perante os seus alunos.
Muitos dos alunos que desistem são fruto de situações, em sala de
aula, onde o professor não consegue dar uma resposta capaz, que vá ao
encontro da questão que o aluno coloca. Cada aluno é um potencial que
é necessário explorar e, para isso, são necessárias algumas
condições, nomeadamente proporcionar feedback eficaz de acordo com as
necessidades do aluno, e não de acordo com o que por vezes damos.
Há professores que ajudam mais aqueles de quem gostam do que aqueles
que têm mais dificuldades.
O aluno A referiu, no seu discurso, que apesar de contar com a ajuda
da mãe e dos colegas, a ajuda mais significativa para si, ao longo do
ano, tinha sido dada pelos professores de apoio, pois sempre que
tinha uma dúvida os professores davam feedback imediato, o que é
bastante compreensível. Já o aluno B, referiu que a escola, em geral,
era o local ideal para esclarecer as suas dúvidas, mas que a Internet
era fundamental para si, embora com as limitações associadas.
Nas reflexões escritas no Relatório Final, alguns comentários dos participantes
revelam que, através da sua participação na oficina, os professores
desenvolveram, não só competências, mas também sentimentos positivos em relação
ao uso das estratégias de feedback como instrumento para melhorar o
envolvimento, motivação, autoconfiança e capacidades de pensamento e
autorregulação dos seus alunos. Alguns professores também reiteraram a
importância do feedback dos alunos para ajudar os professores a repensar as
suas estratégias de ensino e os auxiliar na resolução de problemas do dia a
dia. Uma ilustração desses efeitos pode ser dada pelos seguintes comentários
fornecidos por alguns dos professores (deve notar-se que se procurou abranger,
com estas e as outras citações, todos os doze professores):
Eu usei feedback oral em situações de trabalho de grupo e feedback
escrito para o trabalho individual escrito. Isto parece funcionar bem
em termos de ajudar os alunos a refletir sobre o seu trabalho. (Modo)
O feedback oral que dei foi sempre interativo - o aluno e eu
conversámos sobre o seu trabalho e sobre como eu poderia ajudá-lo a
'descobrir' as suas competências. (Modo)
Eu tinha como objetivo orientar os alunos para a sua autorregulação,
fazendo-os compreender que eles são os agentes da sua própria
aprendizagem. Os alunos foram incentivados a pensar e refletir e
avaliar a sua própria aprendizagem. (Enfoque)
Quando entreguei os testes, dei aos alunos o seu próprio teste,
informando-os sobre a pontuação para cada questão. Pedi-lhes para
identificarem os erros que tinham cometido em cada questão com base
na pontuação que tinham obtido. (Tom)
Usar feedback imediato em casos de respostas erradas e feedback
diferido para as situações de competências de processo resultará na
motivação dos alunos e seu envolvimento. (Timing)
Quando notei uma conceção alternativa na argumentação do aluno,
confrontei os argumentos com contra exemplos, a fim de conduzir o
aluno a conceções mais rigorosas e científicas. (Função e Valência)
Para o Relatório Final, tínhamos pedido também aos participantes as suas
reflexões pessoais sobre a oficina em termos do contributo que teve no seu
desenvolvimento profissional. Seguem-se alguns comentários de quatro dos
participantes:
Esta formação permitiu-me tomar consciência de algumas práticas, em
termos de feedback, que eu já uso ao longo dos anos, sendo algumas
positivas e outras que devem ser colocadas de lado. Sei que esta
formação, só por si, não elimina, por artes de magia, os aspetos
menos positivos desta prática, mas contribuiu para um olhar mais
atento sobre eles.
Esta formação sobre a comunicação de feedback em sala de aula foi
extremamente útil para a minha prática futura, uma vez que me
permitiu reconhecer tipos e conteúdos de feedback e a sua importância
na trajetória académica dos alunos. Acredito que o conhecimento que
adquiri neste programa de formação é importante em termos do meu
desempenho profissional, uma vez que me permite reconhecer formas de
agir que vão ajudar o aluno a aprender a aprender, contribuindo para
o seu sucesso.
Numa profissão em que a comunicação desempenha um papel tão
importante, desenvolver e refinar o tipo de resposta (feedback) é
fundamental para melhorar a qualidade da educação. Também estou mais
ciente de alguns detalhes do que estava no início do workshop, o que
é positivo para a compreensão e melhoria da minha abordagem com os
alunos em sala de aula.
Adquiri ferramentas que irão facilitar a minha abordagem com
estudantes e disciplinas curriculares; fiquei mais sensibilizada para
adequadas formas de agir tendo em vista motivar e orientar os alunos
através do uso de vários tipos de feedback. Tenho refletido sobre o
impacto que as minhas atitudes verbais e não-verbais podem ter sobre
os alunos.
(…) esta ação veio confirmar a sua importância em termos de
conhecimento e de partilha, já que estes foram de grande importância
para a docente e para a escola, pois o recurso a estratégias de
feedback levou-nos a refletir sobre as práticas de ensino e, em
conjunto, com a autorregulação das aprendizagens, alterou-se a
planificação e as atividades na sala de aula.
Discussão e conclusões
A análise dos resultados do nosso programa de desenvolvimento profissional de
professores, estruturado como uma oficina de formação, revelou que o programa
cumpriu objetivos importantes relativamente aos professores participantes e, na
opinião destes, também em relação aos seus alunos. Os professores desenvolveram
conhecimentos e capacidades no uso e análise de estratégias de feedback, bem
como melhoraram as suas atitudes relativamente ao uso dessas estratégias.
Observações provenientes das várias fontes de análise mostraram que o uso
informado de estratégias de feedback influenciou a compreensão e o desempenho
de alguns dos alunos dos professores participantes na oficina, na linha do que
afirmaram vários autores (Kluger & DeNisi, 1998; Salema, 2005; Valente,
1997; Zimmerman & Schunk, 2007). Mostraram igualmente os efeitos positivos
sobre o envolvimento dos alunos com a escola (Carvalho et al., 2011; Conboy
& Fonseca, 2009; Fonseca & Conboy, 2006; Fredricks et al., 2004;
Schussler, 2009; Verkuyten & Thijs, 2009) e a importância do feedback do
professor na qualidade da relação entre professores e alunos (Black &
Wiliam, 1998; Black et al., 2002).
As observações apoiam ainda a noção, introduzida por vários autores, de que os
efeitos do feedback se manifestam em diversas dimensões, incluindo a cognitiva,
a afetiva e a motivacional (Brookhart, 2008; Dweck, 2006; Hattie, 2009; Hattie
& Timperley, 2007). Do mesmo modo, encontrámos concordância entre os nossos
resultados e a literatura em termos dos efeitos na autorregulação da
aprendizagem e desempenho do aluno como agente recetor (Kluger & DeNisi,
1996, 1998; Salema, 2005; Valente, 1997; Zimmerman & Schunk, 2001, 2007).
Das nove categorias de estratégias e conteúdos propostas por Brookhart (2008),
encontrámos aplicação prática para sete. Nem a estratégia quantidade nem o
conteúdo comparação foram validados pelos professores participantes nas suas
citações e reflexões.
O nosso programa de desenvolvimento profissional não permitiu tirar conclusões
sobre os efeitos de feedback na construção da identidade do aluno, nem das suas
trajetórias académicas a longo prazo. Cornelius e Herrenkohl (2004) fazem
afirmações nesse âmbito, mas uma constatação destes efeitos exigiria uma
análise num período mais alargado.
É indispensável levar a cabo uma formação de professores que permita assegurar
que são utilizadas, em sala de aula, estratégias de feedback adequadas e
eficientes. Tais programas de formação de professores devem, de acordo com
Brookhart (2008) e Carvalho e Solomon (2012), centrar-se em competências para
desenvolver e implementar atividades e estratégias letivas que visem ajudar os
alunos a ser reflexivos, concentrados e interessados em explorar a sua própria
compreensão dos conteúdos da disciplina.
Segundo os professores, a oficina de formação ajudou-os a estarem mais atentos
às características únicas de um determinado aluno e ao contexto de aprendizagem
em que este está inserido, o que os levou, dessa forma, a adotar estratégias de
feedback adequadas, conforme previsto no trabalho de Opfer e Pedder (2011).
Nas duas últimas sessões da oficina de desenvolvimento profissional descrita
neste artigo, através de debates gerais e de respostas escritas a dois
questionários de avaliação da oficina, os professores mostraram o seu apreço
pelo facto de terem tido a oportunidade de trabalhar em equipa e de observar
colegas e ser observados por eles, bem como de refletir de forma colaborativa
sobre as suas competências na utilização de estratégias de feedback. Este
último comentário revelou uma mudança substancial de atitude em relação a terem
observadores do seu desempenho em sala de aula, pois que no início do programa
tinha havido unânime resistência a tal observação.
No entanto, alguns participantes também indicaram, quer na reflexão oral, quer
nas respostas ao questionário preparado pelos coordenadores, que já usavam
estratégias de feedback antes da sua participação na oficina, embora de uma
forma muito menos cuidadosa, sistemática e intencional. Alguns afirmaram que
antes da participação na oficina não refletiam muito sobre as suas estratégias
de feedback.
No geral, alguns comentários dos participantes incluídos nas respostas aos
questionários revelam que, através da sua participação na oficina, os
professores desenvolveram não só competências, mas também sentimentos positivos
em relação ao uso das estratégias de feedback como instrumento para melhorar o
envolvimento, a motivação, a autoconfiança e as competências de autorregulação
dos seus alunos.
Os coordenadores do programa, responsáveis também pela última sessão,
inquiriram os participantes sobre quais os aspetos da oficina que poderiam ser
melhorados. Os professores declararam que o trabalho não-presencial foi
demasiado para o tempo que tinham disponível, por entre as suas
responsabilidades escolares numerosas. Alguns deles indicaram que as sessões
presenciais poderiam ter sido mais práticas, com mais exemplos dos conceitos
focados e com mais partilha de experiências e de dificuldades e sucessos na
elaboração do trabalho não-presencial. Estas sugestões foram igualmente
indicadas num dos questionários aplicados na última sessão de formação.
Quando se lhes perguntou sobre o seu interesse e disponibilidade para colaborar
com os formadores no ano letivo seguinte, para aplicação e avaliação dos
efeitos do feedback sobre os alunos, 50% dos participantes disseram que iriam
fazê-lo se as condições na escola o permitissem. Estas respostas foram
consistentes com as dadas por escrito.
Considerando as observações e sugestões feitas pelos participantes, sugerimos
que atividades futuras de formação de professores relacionadas com a utilização
de feedback nas suas práticas letivas devam sempre procurar uma profunda
articulação entre todas as sessões do programa e um equilíbrio entre as
abordagens mais teóricas e as mais práticas. Especificamente, em cada sessão
deve haver uma alargada discussão sobre o trabalho não-presencial realizado.
Além disso, os professores devem ter a possibilidade de trabalhar de forma
colaborativa no desenvolvimento, implementação e análise das suas atividades em
sala de aula. Um uso mais amplo de simulações de situações reais de sala de
aula melhorará o conhecimento do professor sobre as estratégias de feedback
mais úteis para cada aluno, tarefas específicas a realizar por este e
organização de sala de aula que se pretende. No planeamento de programas
futuros, é preciso também ter em mente que, embora o trabalho não-presencial
solicitado deva encorajar os participantes a pesquisar e refletir profundamente
sobre as suas práticas de feedback, é igualmente relevante e imprescindível que
este trabalho seja possível no contexto de horários tão preenchidos quanto eram
os que os participantes tinham no período em que decorreu a oficina.
A literatura científica em educação tem permitido desenvolver uma série de
princípios úteis para a descrição de contextos e resultados educacionais,
nomeadamente a associação entre a natureza do feedback dado pelos professores e
o envolvimento e desempenho dos alunos. De forma consistente com a literatura,
os resultados do nosso programa de formação indicam que as estratégias de
feedback podem ser um fator relevante na promoção da relação em sala de aula,
bem como na promoção do envolvimento, desempenho e autorregulação dos alunos. O
impacto da oficina, observado qualitativamente, confirma a necessidade de uma
formação de professores que vise a implementação de um feedback adequado pelos
mesmos.
Estamos de acordo com Hattie (2009) ao sugerir pesquisas futuras que enfatizem
esta importante área de estudo e importante área do ensino e desenvolvimento
profissional de professores. Também é necessário estudar os programas de
desenvolvimento profissional, a fim de identificar as características que os
tornam bem sucedidos no cumprimento dos objetivos. Nas palavras de Williams e
Ryan (2013), a investigação deve procurar estar mais preocupada em compreender
como as coisas funcionam e menos com o que funciona. Contudo, estudos relativos
à promoção de estratégias de feedback eficientes em sala de aula são escassos.
O nosso estudo identificou algumas características potencialmente relevantes:
(a) a oficina focou objetivos específicos de desenvolvimento de conhecimento
sobre feedback e adoção de adequadas estratégias de feedback por parte dos
participantes; (b) foi implementado ao longo de um período de tempo prolongado;
(c) integrou teoria e prática e envolveu sessões presenciais de grupo
entremeadas com trabalho individual de aplicação em sala de aula; e (d)
enfatizou a reflexão colaborativa entre professores. Um programa assim
estruturado parece ter facilitado o desenvolvimento profissional dos
professores, capacitando-os a usar estratégias de feedback de forma adequada e
eficiente.
A oficina estruturada deste modo resultou na alteração do uso de feedback pelos
professores em sala de aula e numa maior clarificação sobre as dinâmicas
associadas. A participação nas sessões e a aplicação em sala de aula promoveram
o envolvimento, conhecimentos e competências dos professores relativamente ao
uso de adequadas estratégias de feedback. Uma grande parte dos professores
participantes observou igualmente um maior envolvimento, participação ativa e
aprendizagem por parte dos seus alunos.