O currículo de Ciências no 1º Ciclo do Ensino Básico: Estudo de
(des)continuidades na mensagem pedagógica
Introdução
O currículo escrito é uma fonte documental que nos proporciona um importante
testemunho da estrutura institucionalizada da educação. Ele contém os
conhecimentos e as competências a desenvolver pelos alunos, os valores e as
normas de conduta social. Como diz Goodson (1997), o estudo do currículo
escrito promove o conhecimento relativamente aos valores e objetivos
representados na educação.
Em Portugal, há cerca de dez anos, o currículo valorizava, segundo Leite
(2006), uma cultura escolar que impunha como natural a existência de um
currículo uniforme para todo o território português, detalhando, com pormenor,
todos os seus elementos e os modos de os concretizar para, deste modo, os
professores o implementarem tal como tinha sido concebido. Em 2001, com a
publicação do D.L. 6/2001, de 18 de Janeiro, tentou-se alterar esta tradição ao
passar-se para um modelo de flexibilização do currículo que abriria a
possibilidade de cada escola organizar e gerir, autonomamente, o processo de
ensino e de aprendizagem, tomando como referência os saberes e as competências
nucleares a desenvolver pelos alunos. Por outras palavras, este modelo de
gestão flexível do currículo daria a possibilidade de as escolas adequarem o
processo de ensino-aprendizagem às necessidades diferenciadas de cada contexto
escolar, traduzindo-se isso num aumento de autonomia para os professores.
No âmbito desta reorganização curricular foram definidas, para cada ciclo do
Ensino Básico, as competências consideradas essenciais e estruturantes do
desenvolvimento do currículo, incluindo um perfil de competências terminais
para cada ciclo. Esta reorganização curricular contemplou ainda a definição de
Orientações Curriculares, embora apenas para algumas disciplinas/áreas
disciplinares. No 1º Ciclo do Ensino Básico permaneceram os programas
anteriores à reestruturação curricular, havendo apenas a indicação de que estes
programas deveriam ser reinterpretados à luz dos princípios do novo currículo
nacional. O Programa do Estudo do Meio, que consta do documento Organização
Curricular e Programas do 1º Ciclo (DEB, 2004), foi implementado em 1990,
aquando da reforma do Ensino Básico e Secundário e, nessa altura, já
representou uma continuidade do programa anterior de 1980 (Meio Físico e
Social), permanecendo atualmente em vigor, em simultâneo, com o documento das
Competências Essenciais para o Estudo do Meio.
Deste modo, no que diz respeito ao ensino das Ciências no 1º Ciclo do Ensino
Básico, os professores orientam as suas práticas de acordo com dois documentos
curriculares concebidos em tempos muito diferentes. Por um lado, o Currículo
Nacional do Ensino Básico - Competências Essenciais para o Estudo do Meio (DEB,
2001), elaborado num quadro de gestão flexível do currículo, onde são referidos
os princípios da flexibilização, adequação e diferenciação e, consequentemente,
onde é pressuposto os professores terem um elevado grau de autonomia; por outro
lado, o Programa do Estudo do Meio (DEB, 2004), concebido cerca de 20 anos
antes do documento anterior, onde os princípios sobre educação em Ciências são
diferentes dos valorizados nos últimos anos, a nível nacional e internacional
(Cachapuz, Praia, & Jorge, 2004; DeBoer, 2000; Miller, 2006), e onde a
flexibilização, a adequação e a diferenciação assumem também menor expressão.
Admitindo, como referem Fontes e Cardoso (2006), que a formação de professores
nem sempre tem acompanhado as novas exigências da educação científica,
possíveis inconsistências e descontinuidades no discurso pedagógico oficial
(DPO) expresso nos currículos podem tornar ainda mais difícil o alcance dessas
exigências. O estudo apresentado neste artigo centra-se na análise do discurso
pedagógico oficial para o ensino das Ciências no 1º Ciclo do Ensino Básico,
veiculado no Currículo Nacional do Ensino Básico - Competências Essenciais para
o Estudo do Meio (DEB, 2001) e no Programa do Estudo do Meio (DEB, 2004), e faz
parte de uma investigação mais ampla (Silva, 2010), realizada no âmbito do
Grupo ESSA1, em que se analisou o modo como o discurso pedagógico oficial, a
proficiência científica e as ideologias poderão influenciar as práticas
pedagógicas de professores que, sem receberem formação específica, aplicam
materiais curriculares concebidos de acordo com resultados de investigação, e
as implicações dessas práticas na aprendizagem científica de alunos socialmente
diferenciados.
O estudo aqui apresentado pretende dar resposta à seguinte questão: Em que
diferem as mensagens veiculadas em documentos curriculares oficiais, concebidos
em períodos distintos, mas atualmente coexistentes, quando se considera o que
se ensina e a forma como se ensina e as implicações dessas diferenças de
mensagem nas práticas dos professores e na aprendizagem dos alunos? No sentido
de encontrar resposta a esta questão, definiram-se os seguintes objetivos: (1)
analisar comparativamente a mensagem contida nos dois documentos curriculares
oficiais, Competências Essenciais - Estudo do Meio e Programa do Estudo do
Meio, em termos de o que é ensinado e de o como é ensinado; (2) refletir sobre
a mensagem veiculada nos documentos curriculares à luz dos princípios
valorizados atualmente no ensino das Ciências; (3) discutir, com base em
resultados de investigação, as implicações das diferenças de mensagem dos dois
documentos curriculares nas práticas dos professores e na aprendizagem dos
alunos.
Enquadramento teórico
A investigação desenvolvida centrou-se em pressupostos psicológicos (Vygostky,
1978, 1996) e sociológicos (Bernstein, 1977, 1990, 2000), embora esteja
particularmente baseada na teoria do discurso pedagógico de Bernstein (1990,
2000). De acordo com este autor, o discurso pedagógico oficial (DPO) pode ser
definido pela relação entre o discurso instrucional e o discurso regulador (DI/
DR), ou seja, pela relação entre os conhecimentos/competências a transmitir na
relação pedagógica e os valores, atitudes e normas de conduta social, sendo que
o discurso regulador está sempre subjacente ao discurso instrucional.
Segundo Bernstein (1990, 2000), no modelo do discurso pedagógico, podem ser
considerados três níveis de análise: o da geração, o da recontextualização e o
da transmissão. Os dois primeiros níveis dizem respeito ao contexto da produção
e o terceiro nível diz respeito ao contexto da reprodução, indicando que o
discurso pedagógico é determinado por um conjunto complexo de relações que
pressupõem a intervenção de diferentes campos e contextos.
Relativamente à produção, no que se refere ao nível de geração, verifica-se uma
interação entre os campos do Estado, da economia (recursos físicos) e do
controlo simbólico (recursos discursivos), relacionados ainda com o campo
internacional, resultando desta interação os princípios dominantes da
sociedade, ou seja, o discurso regulador geral (DRG) que corresponde ao
discurso oficial do Estado. Este discurso está institucionalizado em textos
legais e administrativos como, por exemplo, a Lei de Bases do Sistema
Educativo. Os princípios dominantes da sociedade (normas, valores, atitudes),
ao integrarem o DRG, vão ser sujeitos ao campo de recontextualização oficial,
onde se situam o Ministério da Educação e as respetivas secretarias de Estado,
sofrendo, deste modo, uma primeira alteração, ou seja, uma primeira
recontextualização. Este processo de ajustamento dos princípios dominantes a um
novo contexto (sistema educativo) corresponde ao segundo nível de análise da
produção do discurso pedagógico, sendo responsável pela produção do discurso
pedagógico oficial (DPO), expresso no currículo escolar, nos programas e ainda
em normas diversas. A produção deste discurso é, assim, resultante de diversas
forças intervenientes num processo que envolve muitos conflitos,
descontinuidades e ruturas entre os interesses dos diversos agentes envolvidos.
O discurso pedagógico oficial, uma vez produzido, entra no campo da
recontextualização pedagógica, onde se incluem, por exemplo, os departamentos
universitários de educação, as escolas de formação de professores, bem como os
meios de comunicação especializada, sofrendo um segundo processo de
recontextualização. Deste processo surge o discurso pedagógico de reprodução
que, ao ser inserido nos contextos de reprodução pedagógica (diferentes níveis
de ensino), pode ser sujeito a princípios de recontextualização dependentes do
contexto específico de uma dada escola e, sobretudo, da prática pedagógica do
professor que, por sua vez, é mediada por diferentes fatores.
O discurso pedagógico oficial, expresso nos documentos curriculares oficiais,
pode ser analisado em termos de o que deve ser transmitido/adquirido e de como
deve ser transmitido/adquirido. No primeiro caso, a análise pode centrar-se,
por exemplo, no grau de exigência conceptual, isto é, no grau de
conceptualização das aprendizagens expresso na complexidade dos conhecimentos e
das competências a adquirir. A seleção da exigência conceptual, como dimensão
de análise de o que, apoia-se nas ideias de Vygotsky (1978, 1996) ao
considerar-se que ela pode promover o desenvolvimento de processos mentais
elevados. No caso de o como o discurso pedagógico deve ser transmitido/
adquirido, a análise pode centrar-se, de acordo com o modelo do discurso
pedagógico de Bernstein (1990, 2000), nas relações que definem os contextos
instrucional e regulador do ensino-aprendizagem. No âmbito do contexto
instrucional podem ser analisadas relações entre sujeitos, entre discursos e
entre agências. Nas relações entre sujeitos situa-se a relação professor-
alunos, que pode ser perspetivada em função das regras discursivas (seleção,
sequência, ritmagem e critérios de avaliação). Nas relações entre discursos
situa-se a relação entre discursos da mesma disciplina (intradisciplinaridade)
e a relação entre discursos pertencentes a disciplinas diferentes
(interdisciplinaridade). Na relação entre agências está, por exemplo, a relação
escola-comunidade, que pode ser analisada, indiretamente, a partir do apelo que
a escola faz ao conhecimento não académico. No que concerne ao contexto
regulador, podem ser analisadas relações entre sujeitos, isto é, entre
professor e alunos e entre alunos, e ainda entre espaços (espaço do professor e
dos alunos e espaço dos diversos alunos). No âmbito deste contexto, a relação
entre sujeitos é vista quanto às regras hierárquicas.
Na caracterização das regras discursivas e hierárquicas utiliza-se o conceito
de enquadramento, que nos dá a possibilidade de analisar, por exemplo, o grau
de controlo que o professor e o aluno têm relativamente a cada uma das
componentes que definem a prática pedagógica. A relação escola-comunidade,
caracterizada com base nos conceitos de classificação e enquadramento, permite
analisar o apelo que a escola faz ao conhecimento do quotidiano. Por outro
lado, a caracterização da relação entre discursos e entre espaços, com recurso
ao conceito de classificação, dá-nos a possibilidade de analisar,
respetivamente, a organização discursiva e espacial em que se consubstancia a
relação pedagógica. O conceito de enquadramento, ao analisar a natureza das
relações de controlo entre categorias em interação, é considerado forte quando
a categoria com maior estatuto na interação tem o controlo da relação.
Contrariamente, é considerado fraco quando a categoria com menor estatuto
também exerce algum controlo. A classificação, ao analisar as relações de poder
entre categorias, é considerada forte se existirem fronteiras muito marcadas
entre categorias com estatutos diferentes e é fraca se as fronteiras entre
essas categorias estiverem esbatidas.
A análise curricular, segundo esta perspetiva, recai nos princípios pedagógicos
que deverão orientar a aprendizagem dos alunos, permitindo discutir o
significado sociológico da implementação desses princípios. Em termos globais,
práticas pedagógicas caracterizadas por classificações e enquadramentos fortes
correspondem a práticas didácticas, centradas no transmissor, enquanto práticas
pedagógicas caracterizadas por classificações e enquadramentos fracos
correspondem a práticas autorreguladoras, centradas no aquisidor. Entre estes
dois tipos extremos ainda é possível haver modalidades de prática mista,
caracterizadas nalgumas relações por classificações e/ou enquadramentos fortes
e, noutras relações, por classificações e/ou enquadramentos fracos. De acordo
com vários estudos (ex. Morais & Neves, 2003; Pires, Morais, & Neves,
2004; Morais & Neves, 2009; Silva, 2010), uma prática pedagógica mista com
as características a seguir indicadas revelou-se favorável à aprendizagem de
todos os alunos, nomeadamente dos mais desfavorecidos. As características dessa
prática, para os contextos instrucional e regulador, são: (1) um controlo
limitado dos alunos na seleção e sequência da sua aprendizagem; (2) um ritmo de
aprendizagem que vá ao encontro das necessidades dos alunos, refletindo um
enquadramento muito fraco na relação professor-aluno; (3) uma forte
explicitação dos conhecimentos/competências a explorar, isto é, um
enquadramento muito forte na relação professor-aluno, quanto aos critérios de
avaliação; (4) uma inter-relação dos conhecimentos científicos, traduzida por
uma fraca classificação entre eles; (5) um aproveitamento do conhecimento do
dia a dia para tornar a aprendizagem dos conhecimentos científicos mais
significativa, isto é, um enfraquecimento do enquadramento na relação escola-
comunidade; (6) relações sociais de comunicação entre o professor e os alunos
de natureza interpessoal, ou seja, um enquadramento fraco na relação professor-
aluno, quanto às regras hierárquicas; (7) um enfraquecimento das fronteiras
entre os espaços dos vários alunos e entre o espaço dos alunos e o espaço do
professor.
Metodologia
Aspetos gerais
Neste estudo recorreu-se a uma metodologia mista que apresenta características
associadas às abordagens qualitativa e quantitativa (Creswell, 2003; Morais
& Neves, 2007; Tashakkori & Teddlie, 1998). Considera-se que a
orientação metodológica desta investigação tem uma base fundamentalmente
racionalista (característica de abordagens quantitativas), ao utilizar quadros
teóricos de referência que serviram de base à conceção dos instrumentos de
análise (mensagem presente nos documentos curriculares oficiais). Contudo, no
que se refere ao processo de obtenção e tratamento dos dados, procedeu-se a uma
análise interpretativa do texto curricular, a qual corresponde a um
procedimento metodológico de natureza qualitativa.
Ao selecionar-se esta orientação metodológica, que conjuga aspetos das
abordagens quantitativa e qualitativa, pretendeu-se uma relação dialética entre
os conceitos teóricos que guiam a investigação e os dados empíricos em análise,
traduzindo-se esta relação na construção de uma linguagem externa de descrição
derivada da linguagem interna de descrição. A linguagem de descrição, segundo
Bernstein (2000), é um instrumento de tradução em que uma linguagem é
transformada noutra, correspondendo a linguagem interna às teorias e conceitos
e a linguagem de descrição externa à interface que permite o diálogo entre os
dados empíricos e a linguagem interna. Através desta dialéctica, segundo Morais
e Neves (2003), as proposições teóricas, a linguagem de descrição e a análise
empírica interagem, transformando-se mutuamente e, consequentemente, a precisão
e a profundidade da realidade que se pretende compreender aumenta. Neste
sentido, considera-se que as análises, norteadas por instrumentos construídos
na base desta orientação metodológica que combina aspetos dos dois paradigmas
de investigação (quantitativo e qualitativo), através do desenvolvimento de uma
linguagem externa de descrição resultante da dialética entre os conceitos
teóricos (linguagem interna de descrição) e os dados empíricos dos contextos em
estudo, possuem um caráter menos subjetivo e mais distanciado de um processo de
investigação puramente indutivista.
Parâmetros de análise
Neste estudo, como mostra a Figura_1, analisou-se o que e o como do DPO,
veiculados nos documentos curriculares oficiais (Competências Essenciais para o
Estudo do Meio e Programa do Estudo do Meio), tendo o que sido analisado, no
Programa, no conjunto dos quatro anos do ciclo e também por ano de
escolaridade.
Relativamente ao que se ensina, analisou-se a exigência conceptual, vista em
termos de complexidade dos conhecimentos relacionados com as ciências e a
complexidade das competências cognitivas de natureza investigativa. Quanto ao
como se ensina, analisou-se, no âmbito do contexto instrucional, a relação de
controlo entre professor-alunos para as regras discursivas (seleção, sequência,
ritmagem e critérios de avaliação), a relação de controlo entre a escola e a
comunidade (a partir da relação entre o conhecimento académico e o não
académico) e a relação de poder entre discursos (intradisciplinaridade e
interdisciplinaridade). No âmbito do contexto regulador de o como se ensina,
analisou-se a relação de controlo entre professor-alunos e entre alunos para as
regras hierárquicas e a relação de poder entre espaços (espaço do professor e
espaço dos alunos e espaços dos vários alunos). Como foi referido no
enquadramento teórico, para a análise das relações de controlo foi utilizado o
conceito de enquadramento e para a análise das relações de poder o conceito de
classificação.
Os dois documentos curriculares oficiais analisados integram conhecimentos de
História, Geografia e Ciências, mas a análise incidiu apenas no domínio das
Ciências, uma vez que a investigação se centrou neste contexto de aprendizagem.
Assim, numa primeira fase, separou-se o texto relativo às Ciências, dividindo-
se esse texto em unidades de análise, tendo cada uma delas sido definida como
um excerto de texto, com um ou mais períodos, que, no seu conjunto, evidencia
um determinado significado semântico (Gall, Borg, & Gall, 1996). Após a
individualização das unidades, estas foram agrupadas, consoante a sua natureza,
em três secções distintas (Conhecimentos, Finalidades e Orientações
Metodológicas). Esta organização prende-se com o fato de serem dimensões que,
habitualmente, fazem parte da estrutura dos documentos curriculares oficiais,
independentemente de ser esta a designação utilizada, e também porque permitem
o agrupamento de todas as unidades identificadas. Procedeu-se, posteriormente,
à análise de todas as unidades em função dos parâmetros selecionados. Como
algumas unidades de análise têm um sentido lato, ou seja, são unidades que,
embora foquem o contexto das ciências, estão sobretudo dirigidas para o saber-
fazer ou para o saber-ser, estas foram analisadas apenas quanto aos parâmetros
relativos às relações que caracterizam o contexto regulador da prática
pedagógica (regras hierárquicas e relação entre espaços). Por outras palavras,
estas unidades de análise, por contemplarem essencialmente aspetos do contexto
regulador, não foram analisadas quanto à complexidade dos conhecimentos e
competências investigativas, nem quanto às relações que caracterizam o contexto
instrucional da prática pedagógica (regras discursivas professor-aluno, relação
entre discursos e relação escola-comunidade). São exemplos destas unidades de
análise: selecionar jogos e brincadeiras, músicas, cores, frutos e animais, ou
respeitar os interesses individuais e coletivos.
Conceção e aplicação dos instrumentos
Para analisar o DPO, presente nos documentos curriculares, conceberam-se dois
grupos de instrumentos. Um deles visou a análise de o que do DPO e o outro a
análise de o como do DPO. Para a análise de o que utilizaram-se dois
instrumentos, um destinado à caracterização da complexidade dos conhecimentos
científicos e o outro destinado à caracterização da complexidade das
competências investigativas, tendo sido definidos, para cada instrumento, três
indicadores (Conhecimentos, Orientações Metodológicas e Finalidades),
coincidentes com as secções selecionadas. No que diz respeito aos instrumentos
de análise de o como do DPO, procurou-se caracterizar, como se referiu
anteriormente, as relações que definem os contextos instrucional e regulador do
ensino-aprendizagem. Para o efeito, foram igualmente selecionados os
indicadores Conhecimentos, Finalidades e Orientações Metodológicas e, para cada
um deles, foi concebida uma escala que reflete diferentes graus de
enquadramento ou de classificação, consoante a relação em causa diz respeito,
respetivamente, à dimensão interacional ou organizacional.
Instrumentos de o que do discurso pedagógico oficial
O instrumento de análise da complexidade dos conhecimentos científicos
contempla, para cada indicador, uma escala de 3 graus, tendo o conhecimento
sido considerado tanto mais complexo quanto maior for o número de relações
previstas2. O conhecimento mais simples corresponde aos factos e o mais
complexo aos conceitos. Os factos podem decorrer da observação (conhecimento
mais simples) ou resultar de uma relação entre factos do mesmo tipo (facto
generalizado). O facto foi tomado como uma afirmação acerca de um
acontecimento, fenómeno ou objeto, isento de interpretação e ideias
preconcebidas (Afonso, 2008). O conceito foi considerado uma "construção
mental, um grupo de elementos ou atributos partilhados por certos objectos ou
eventos" (Brandwein et al., 1980, p. 12) e constitui uma ideia resultante da
associação de vários factos ou de outros conceitos, podendo ter diferentes
níveis de abstração, consoante a variedade de fenómenos relacionados.
Para caracterizar a complexidade das competências investigativas, o instrumento
possui igualmente uma escala de 3 graus para cada um dos indicadores3. Na
conceptualização desta escala teve-se presente a complexidade dos processos
psicológicos exigidos aos alunos neste tipo de competências, sendo de sublinhar
que as competências foram entendidas como "operações e processos intelectuais
abstractos" (Arends, 1995, p. 396), cujos níveis de abstração são diferentes
consoante os processos psicológicos envolvidos. Tomando como referência a
Taxonomia de Bloom (Bloom, Engelhart, Furst, Hill, & Krathwohl, 1972), se
os processos psicológicos envolvidos são simplesmente a memorização e a
compreensão de nível mais elementar (translação), as competências são
consideradas simples; no entanto, se os processos psicológicos envolvidos têm
subjacente um nível de abstração superior, isto é, dizem respeito à compreensão
de níveis elevados (interpretação, extrapolação) e à aplicação, síntese e
avaliação, as competências são consideradas complexas. Optou-se por escalas,
com apenas 3 graus, tanto para os conhecimentos científicos como para as
competências investigativas, por se considerar que os documentos curriculares
destinados ao 1º Ciclo do Ensino Básico possuem um número reduzido de
conhecimentos de elevada abstração e de competências investigativas de grande
complexidade.
Seguidamente apresentam-se dois excertos dos instrumentos de análise do que do
DPO: um relativo à complexidade dos conhecimentos científicos (Tabela_I),
quando se consideram as unidades da secção Conhecimentos; outro relativo à
análise das competências (Tabela_II), quando se consideram as unidades da
secção Orientações Metodológicas. Junto de cada excerto, apresentam-se exemplos
de unidades de análise retiradas dos documentos curriculares, ilustrativas dos
vários graus das escalas.
Instrumentos de o como do discurso pedagógico oficial
Contexto instrucional
Relação entre sujeitos: professor-aluno (regras discursivas)
As regras discursivas, na relação professor-alunos, foram vistas na
globalidade, sem se proceder à sua análise individual, já que se estava perante
um texto monológico em que é impossível encontrar elementos, ainda que
indiretos, que permitam uma caracterização fiável de cada uma destas regras. O
instrumento de caracterização das regras discursivas contempla, para cada
indicador, uma escala com 4 graus de enquadramento (E++ a E--) em que, na
conceção dos descritivos empíricos dos diferentes graus, se conciliou a
explicitação dos conhecimentos a adquirir com o processo de aprendizagem. A
explicitação dos conhecimentos permite a apreciação do controlo do professor e
dos alunos ao nível dos critérios de avaliação, enquanto o processo de
aprendizagem valorizado permite uma análise indireta do controlo do professor e
alunos na seleção, na sequência e na ritmagem. Com efeito, o grau de
enquadramento muito forte (E++) refere-se a situações em que os conhecimentos a
adquirir estão discriminados e em que são valorizados processos de aprendizagem
totalmente centrados no professor, quer ao macro-nível, quer ao micro-nível.
Contrariamente, os descritivos empíricos correspondentes a um enquadramento
muito fraco (E--) referem-se a situações em que os conhecimentos a adquirir não
estão discriminados e em que são valorizados processos de aprendizagem
totalmente centrados no aluno, quer ao macro-nível, quer ao micro-nível. Os
descritivos empíricos respeitantes aos graus intermédios de enquadramento
correspondem a situações em que a discriminação dos conhecimentos e/ou a
valorização da participação dos alunos assumem expressões intermédias. Para
ilustrar o instrumento, no que respeita às regras discursivas, apresenta-se, na
Tabela_III, um excerto do mesmo, assim como dois exemplos, retirados dos
documentos, correspondentes às situações mais extremadas da escala. Na primeira
situação não se prevê a intervenção do aluno, enquanto na segunda já se prevê.
Relação entre discursos
Para caracterizar a relação entre discursos (intradisciplinaridade e
interdisciplinaridade), o instrumento possui, para cada um dos indicadores
(Conhecimentos, Finalidades e Orientações Metodológicas), uma escala de 4 graus
de classificação. Neste caso, partiu-se do significado teórico de
classificação, ou seja, da visibilidade da fronteira entre os vários
conhecimentos, para a definição empírica dos 4 graus da escala. Na
intradisciplinaridade, o grau muito forte de classificação (C++) foi definido
empiricamente pela ausência de relação entre os diferentes conhecimentos de
Ciências e, na interdisciplinaridade, pela ausência de relação entre
conhecimentos de Ciências e de outras áreas disciplinares. Contrariamente, o
grau muito fraco de classificação (C--), na intradisciplinaridade, foi definido
pela abrangência da relação entre temas de Ciências e, na
interdisciplinaridade, por uma forte relação entre os conhecimentos de Ciências
e os de outras áreas disciplinares. Os graus intermédios de classificação C+ e
C- foram definidos por uma relação intermédia entre diferentes conhecimentos de
Ciências (intradisciplinaridade) e entre conhecimentos de Ciências e
conhecimentos de outras áreas disciplinares (interdisciplinaridade). Para
ilustrar o instrumento apresenta-se um excerto do mesmo, relativo à
intradisciplinaridade (Tabela_IV) e à interdisciplinaridade (Tabela_V), bem
como dois exemplos dos graus da escala.
Relação escola-comunidade
Para caracterizar a relação escola-comunidade definiu-se, igualmente, para cada
indicador uma escala de 4 graus. No entanto, para a descrição empírica destes
graus partiu-se do significado teórico de classificação e de enquadramento.
Admitiu-se que a relação escola-comunidade podia ser caracterizada a partir da
relação entre o conhecimento académico e o não académico, considerando-se, para
o efeito, que a classificação entre os dois tipos de conhecimento deveria ser
sempre muito forte e que o enquadramento variava de acordo com o maior ou menor
apelo ao conhecimento não académico. A classificação é considerada sempre muito
forte, porque existe uma fronteira bem visível entre estes dois tipos de
conhecimento, assumindo o conhecimento académico um estatuto mais elevado. Esta
diferença de estatuto está patente no facto de a avaliação, no contexto
escolar, incidir no conhecimento académico e não no conhecimento não académico.
A escala de enquadramento, que varia de acordo com a intensidade do apelo ao
conhecimento não académico (conhecimento do dia a dia do aluno), reflete,
assim, a interação/comunicação entre o contexto escolar e o contexto da
comunidade. Se não há apelo a conhecimentos não académicos, isto é, a
conhecimentos do dia a dia dos alunos, provenientes da sua vivência na
comunidade, pressupõe-se que não há interação/comunicação entre a escola e a
comunidade e, portanto, o enquadramento é muito forte (E++). Contrariamente, se
há um forte apelo a conhecimentos não académicos, ou seja, a conhecimentos
resultantes da vivência dos alunos na comunidade, pressupõe-se uma forte
interação/comunicação entre a escola e a comunidade e o enquadramento é muito
fraco (E--). Os graus intermédios referem-se a situações cujo apelo a esta
inter-relação é mais ou menos limitado. O excerto da Tabela_VI ilustra o
instrumento, na relação escola-comunidade, sendo apresentados exemplos
representativos dos extremos da escala.
Contexto regulador
Relação professor-aluno: Regras hierárquicas
Na relação professor-aluno, quanto às regras hierárquicas, o instrumento
contém, para cada indicador (Conhecimentos, Finalidades e Orientações
Metodológicas), uma escala também com 4 graus de enquadramento, cujo
significado teórico foi o controlo na relação de comunicação entre professor e
aluno, traduzido, empiricamente, pelo grau de intervenção/participação do aluno
no processo de ensino-aprendizagem. Considerou-se que, se ao nível dos
Conhecimentos e/ou das Finalidades e/ou das Orientações Metodológicas, são
valorizados processos de ensino-aprendizagem totalmente centrados no professor,
é porque não se pretende dar controlo ao aluno na relação de comunicação
professor-aluno e, portanto, a relação de comunicação é dominada apenas pelo
professor, sendo uma situação em que o enquadramento é muito forte (E++). Pelo
contrário, se, ao nível dos Conhecimentos e/ou das Finalidades e/ou das
Orientações Metodológicas, se valorizam processos de ensino-aprendizagem
centrados no aluno, é porque se pretende que este tenha uma intervenção ativa
no processo e, portanto, tenha controlo na relação de comunicação entre
professor e aluno, sendo neste caso o enquadramento muito fraco (E--). Para os
graus intermédios de enquadramento, os descritivos empíricos correspondem a
situações em que se prevê a participação mais ou menos limitada dos alunos no
processo de ensino-aprendizagem e, portanto, um controlo limitado nas relações
de comunicação. De sublinhar que se trata de uma forma indireta de percecionar
a relação de comunicação professor-aluno, visto estar-se perante um texto
monológico, onde não é possível apreciar a intervenção direta dos sujeitos.
Para ilustrar o instrumento relativamente a esta relação, segue-se um excerto
do mesmo (Tabela_VII) e exemplos dos extremos da escala, retirados dos
documentos curriculares.
No primeiro exemplo é dada ênfase à ação do professor na gestão do processo de
ensino-aprendizagem, deduzindo-se que o aluno tem um papel passivo e, portanto,
o controlo da relação está centrado no professor. No segundo exemplo prevê-se
um papel ativo do aluno, tendo este um elevado controlo na relação professor-
aluno.
Relação aluno-aluno: Regras hierárquicas
Para a análise da relação de comunicação aluno-aluno, ou seja, para a análise
das regras hierárquicas na relação aluno-aluno, o instrumento possui também,
para cada um dos indicadores, uma escala de 4 graus de enquadramento. Na
definição desta escala, partiu-se igualmente do controlo dos vários alunos na
relação de comunicação aluno-aluno; no entanto, como o texto a analisar é
monológico, os descritivos empíricos tiveram de ser concebidos a partir da
natureza do processo de ensino-aprendizagem valorizado. Para qualquer um dos
indicadores, admitiu-se que, se for valorizado um processo de ensino centrado
no professor, a discussão entre os alunos não é privilegiada e, portanto, a
possibilidade de interação entre eles será muito pequena, sendo o grau de
enquadramento muito forte (E++). Contrariamente, admitiu-se que, se for
valorizado um processo de ensino-aprendizagem centrado nos alunos, pode ocorrer
discussão entre eles e, nesse caso, é provável haver uma forte relação de
comunicação entre si, sendo o grau de enquadramento muito fraco (E--). Os graus
intermédios da escala fazem referência a situações em que é previsível a
interação entre os alunos, mas de uma forma mais ou menos limitada.
O excerto da Tabela_VIII ilustra o instrumento na relação aluno-aluno, para as
regras hierárquicas, seguindo-se exemplos retirados dos documentos,
representativos dos graus mais extremados que se encontraram.
Nos dois exemplos, pela natureza do trabalho evocado, prevê-se que haja uma
forte interação entre os alunos; no entanto, no segundo exemplo prevê-se que
essa interação seja mais intensa porque se apela a um trabalho totalmente
centrado no aluno.
Relação entre espaços
Para caracterizar a relação entre os espaços (espaço do professor e espaço dos
alunos e espaço dos diversos alunos), o instrumento possui, para cada
indicador, uma escala de apenas 2 graus, tendo-se partido do significado
teórico de classificação para definir, empiricamente, estes graus. Atendendo a
que a classificação indica o tipo de fronteira entre os contextos, uma
classificação forte significa, nestas relações, uma fronteira bem demarcada
entre os espaços e uma classificação fraca significa uma fronteira esbatida
entre os espaços. Contudo, através de um texto monológico não é possível
apreciar diretamente a fronteira entre os espaços, uma vez que não se tem
acesso ao contexto no qual os sujeitos se movimentam. Deste modo, os
descritivos empíricos, relativos a cada um dos graus da escala, basearam-se
igualmente na natureza do processo de ensino-aprendizagem valorizado nas
unidades de análise. Para cada um dos indicadores, o descritivo empírico,
relativo à classificação forte (C+), refere-se a situações que valorizam os
processos de ensino-aprendizagem totalmente centrados no professor, sendo
previsível a demarcação de espaços e a ausência de partilha de materiais. Os
descritivos empíricos relativos à classificação fraca (C) referem-se a
situações que valorizam processos de ensino-aprendizagem totalmente centrados
no aluno e onde se prevê a possibilidade de partilha de espaços e materiais. A
opção por apenas 2 graus prende-se com a dificuldade em discernir, num texto
monológico, as situações correspondentes aos graus intermédios.
Segue-se um excerto do instrumento, quando se considera a relação entre os
espaços do professor e o espaço dos alunos (Tabela_IX) e a relação entre o
espaço dos vários alunos (Tabela_X), assim como exemplos ilustrativos dos
respetivos graus da escala.
Na primeira situação, a ação está centrada no professor, prevendo-se que este
não partilhe materiais e espaços com os alunos. Na segunda situação, a ação
está claramente centrada no aluno, sendo previsível esta partilha.
Após a análise de todas as unidades, contabilizou-se, para o que e para cada
relação inerente ao como do discurso pedagógico, o total de unidades
correspondentes a cada grau da escala e o total de unidades ambíguas. Algumas
unidades de análise não foram classificadas relativamente a todas as relações,
por se terem revelado ambíguas face a essas relações e/ou por não contemplarem
elementos sobre essas relações. Em consequência disso, o total de unidades de
análise classificadas difere consoante a relação em causa. Contudo, os dados
relativos às unidades ambíguas não foram menosprezados. Eles foram
contabilizados e ajudaram em algumas interpretações. Por fim, converteu-se o
número de unidades de análise, correspondentes a cada grau da escala, em
percentagem, com vista à normalização dos resultados e à sua comparação.
Análise dos resultados
Complexidade dos conhecimentos e competências investigativas
Ao comparar a complexidade dos conhecimentos expressos nos dois documentos
curriculares (Fig._2), de acordo com a escala concebida, verifica-se que esta
complexidade é claramente superior no documento das Competências Essenciais. A
maioria das unidades de análise deste documento apela a conceitos (Grau 3),
enquanto a maioria das unidades de análise do Programa apela a factos
específicos e a factos generalizados (Graus 1 e 2). Contudo, este nível de
complexidade varia com a secção. O nível de complexidade dos conhecimentos, nos
dois documentos, é superior nas secções Orientações Metodológicas e
Finalidades.
Ao comparar a complexidade das competências investigativas dos dois documentos
(Fig._3), verifica-se, igualmente, que esta é superior no documento das
Competências Essenciais. Neste documento, a maioria das unidades de análise
(62%) veicula uma complexidade de grau 3, enquanto no Programa apenas 12% das
unidades de análise expressam este grau. Tal como no caso dos conhecimentos, a
complexidade das competências investigativas varia também com a secção,
verificando-se que, em ambos os documentos, a complexidade das competências é
sempre inferior na secção dos Conhecimentos.
Quando se considera a complexidade dos conhecimentos e das competências
expressos no Programa, por ano de escolaridade (Fig._4), constata-se que essa
complexidade aumenta com o ano de escolaridade. No caso dos conhecimentos,
observa-se que, no 1º ano, apenas 4% das unidades de análise da secção dos
Conhecimentos (a única passível de ser analisada por ano de escolaridade) são
de grau 3, enquanto no 4º ano este grau é expresso por 58% das unidades. No
caso das competências (Fig._4), o Programa não prevê, para os dois primeiros
anos, o desenvolvimento de competências de grau 3, o que significa que não é
pressuposto o desenvolvimento de competências relacionadas com os processos
científicos, como sejam formulação de problemas, hipóteses, controlo de
variáveis e planeamento experimental. Nos dois anos seguintes (3º e 4º anos),
este tipo de competências representa apenas, respetivamente, 8% e 11% das
competências investigativas.
Considerando que as competências investigativas são fundamentais para a
compreensão da Ciência e para se alcançarem níveis elevados de literacia
científica, ter-se-á de admitir que o Programa não está orientado nesse
sentido, contrariando a mensagem do atual currículo de Ciências quando diz que
o ensino da Ciência, na Educação Básica, visa proporcionar aos alunos a
"aquisição das estruturas explicativas da Ciência, bem como dos procedimentos
da investigação científica de modo a que os alunos se sintam confiantes na
abordagem de questões científicas e tecnológicas" (DEB, 2001, p. 129).
Pelo anteriormente exposto, pode-se concluir que o nível de conceptualização
das aprendizagens, quando visto a partir da complexidade dos conhecimentos e
das competências, é maior no documento das Competências Essenciais do que no
Programa e, em ambos os documentos, advém sobretudo da complexidade dos
conhecimentos. No caso do Programa, este aspeto assume maior expressão porque a
complexidade das competências é muito baixa, não se verificando competências de
Grau 3 nos dois primeiros anos de escolaridade.
Relações que caracterizam o processo de ensino-aprendizagem no contexto
instrucional
Relação professor-alunos: Regras discursivas
As regras discursivas dizem respeito ao controlo que professor e alunos têm no
processo de ensino-aprendizagem. Quanto a este aspeto, os resultados da análise
dos dois documentos (Fig._5) mostram que não é possível indicar com clareza
quem deve ter o controlo desta relação. Em 57% (E- e E--) das unidades de
análise das Competências Essenciais e em 49% das unidades de análise do
Programa, o controlo da relação está centrado no aluno (E- e E--), não
existindo, assim, tendências expressivas que evidenciem o tipo de controlo
valorizado nos documentos, embora nas Competências Essenciais se verifique uma
ligeira tendência para um controlo mais centrado no aluno.
Apesar de as regras discursivas nos poderem dar indicação da teoria de
instrução, estes resultados não nos permitem afirmar com clareza a teoria
veiculada pelos documentos curriculares. Esta dificuldade resulta, por um lado,
da impossibilidade de se analisarem individualmente as regras discursivas (por
se tratar de textos monológicos) e, por outro lado, da heterogeneidade da
mensagem veiculada pelos documentos. Como se pode constatar na Fig._5, o teor
da mensagem varia com a secção, sendo a das Orientações Metodológicas a que, em
ambos os documentos, mais se afasta das restantes secções. Aquela secção
expressa, nos dois documentos, uma preocupação com a intervenção ativa dos
alunos no processo de ensino-aprendizagem, contrariamente à secção dos
Conhecimentos, que se afasta desta perspetiva, valorizando mais um controlo
centrado no professor. Esta falta de uniformidade nas tendências emergentes das
várias secções indica a valorização de diferentes processos de ensino-
aprendizagem, dificultando a definição de uma teoria de instrução e também a
interpretação da mensagem dos documentos, por parte dos professores, com
reflexo nas suas práticas. Contudo, se considerarmos apenas a mensagem
veiculada pelas secções Orientações Metodológicas e Finalidades, a mensagem
torna-se mais uniforme. Neste caso, emerge uma tendência mais expressiva, em
cada um dos documentos, que aponta para processos de ensino-aprendizagem
centrados no aluno.
Relação entre discursos: Intradisciplinaridade e interdisciplinaridade
A mensagem que emerge da totalidade das unidades de análise classificadas em
cada um dos documentos curriculares aponta para uma reduzida relação entre os
conhecimentos científicos (Fig._6) e também para uma fraca relação entre
conhecimentos de Ciências e conhecimentos de outras áreas disciplinares (Fig.
7).
No que respeita à intradisciplinaridade, apesar de a mensagem global dos dois
documentos apelar pouco à relação entre os conhecimentos
(intradisciplinaridade), a secção das Orientações Metodológicas do documento
Competências Essenciais realça essa preocupação, evidenciando que a mensagem
não é uniforme nas várias secções do documento. Se considerarmos que para se
alcançarem níveis elevados de literacia científica é fundamental a relação
entre conhecimentos de Ciências, ter-se-á de admitir que nenhum dos documentos
transmite uma clara preocupação nesse sentido. Terão de ser os professores a
introduzir a intradisciplinaridade nas suas práticas, recontextualizando o
discurso pedagógico oficial, o que só acontecerá se estes estiverem
sensibilizados para a importância da mesma na aprendizagem dos alunos.
Relativamente à interdisciplinaridade, a mensagem global dos dois documentos
valoriza-a pouco, sendo isso mais notório no Programa. Contudo, a mensagem
global dos dois documentos não está uniformemente distribuída pelas diferentes
secções, designadamente no documento das Competências Essenciais. Neste
documento, a mensagem valorizada nas secções Orientações Metodológicas e
Finalidades, ao apelar à interdisciplinaridade, contrasta com a da secção dos
Conhecimentos e com a mensagem global.
É, no entanto, de salientar que, na análise da intradisciplinaridade e da
interdisciplinaridade, se constatou um número muito elevado de unidades de
análise ambíguas, o que pode ter influenciado a análise dos dados. Contudo,
esta ambiguidade mostra, em si mesma, que não há uma verdadeira preocupação com
este tipo de inter-relações no discurso pedagógico oficial.
Relação escola-comunidade
Como se pode constatar pela Fig._8, em nenhum dos documentos há um verdadeiro
apelo à inter-relação entre o conhecimento académico e o não académico.
A secção que, em ambos os documentos, dá mais importância à relação entre o
conhecimento académico e o não académico é a das Orientações Metodológicas,
embora apenas 24% das unidades de análise das Competências Essenciais e 25% das
do Programa espelhem esta relação. Alguns dos exemplos dados nesta secção fazem
referência ao quotidiano e à sua importância na aprendizagem dos alunos, mas
não tornam explícita a relação que deve ser estabelecida entre o conhecimento
académico e não académico. O facto de o conhecimento do senso comum aparecer
desligado do conhecimento científico pode levar os professores a considerarem o
primeiro como conhecimento académico, atribuindo-lhe esse estatuto, ou então a
reconhecerem-no como não académico mas não o relacionarem com o académico por
não estar explícita a relação entre ambos.
Relações que caracterizam o processo de ensino-aprendizagem no contexto
regulador
Regras hierárquicas na relação professor-aluno e na relação aluno-aluno
As regras hierárquicas, quer na relação professor-alunos, quer na relação
aluno-aluno, como se referiu na parte da metodologia, foram analisadas a partir
dos processos de ensino-aprendizagem expressos nas unidades de análise, devido
ao texto ser monológico e não exprimir as interações entre os sujeitos.
Como se pode verificar na Fig._9, a mensagem do documento das Competências
Essenciais é diferente da mensagem do Programa. No primeiro documento há uma
tendência para um enquadramento fraco na relação professor-alunos, indicando
que os alunos devem ter uma participação ativa nas relações de comunicação. No
Programa, não há uma tendência definida, mostrando que este tipo de
participação dos alunos não é tão valorizado como no documento das Competências
Essenciais.
Na análise desta relação, a mensagem expressa nas diferentes secções dos
documentos também não é uniforme, sendo a secção das Orientações Metodológicas
a que mais privilegia, em ambos os documentos, a participação dos alunos nas
relações de comunicação entre professor e alunos.
No que diz respeito às regras hierárquicas, na relação entre os alunos (Fig.
10), a mensagem que emerge do documento das Competências Essenciais não é
clara, assumindo o enquadramento forte entre os alunos (E+ e E++) uma expressão
próxima do enquadramento fraco (E- e E--). No Programa já se destaca uma
tendência mais clara que aponta para uma relação caracterizada por fortes
enquadramentos entre os alunos (61%). Contudo, nas Orientações Metodológicas de
ambos os documentos, observa-se uma forte interação entre alunos que contrasta
com a tendência global dos documentos.
Relação entre espaços (espaço do professor-alunos e espaços dos diversos
alunos)
Ao analisar-se a relação entre o espaço do professor e os espaços dos alunos
(Fig._11), a mensagem que emerge do documento das Competências Essenciais
aponta, claramente, para um esbatimento das fronteiras entre o espaço do
professor e os espaços dos alunos. No entanto, no Programa, esta mensagem já
não é tão evidente, pois está expressa em apenas 52% das unidades de análise, o
que indica que, neste documento, não há uma orientação bem definida quanto à
fronteira entre os espaços do professor e os dos alunos.
No que respeita à relação entre os espaços dos diversos alunos (Fig._12), a
mensagem a destacar, em ambos os documentos, aponta para fronteiras bem
marcadas entre os espaços dos alunos, pressupondo que estes realizem as tarefas
em lugares determinados, sem possibilidade de os alterar. No entanto, a
tendência encontrada em cada documento não está distribuída uniformemente em
todas as secções, sendo a tendência da secção Orientações Metodológicas a que
mais se afasta da tendência global, à semelhança do que se verificou também na
análise das outras relações. A diferença entre a mensagem global e a da secção
das Orientações Metodológicas só não se torna ainda mais acentuada porque as
outras duas secções ajudam a esbater a diferença. Há, efetivamente, um registo,
comum aos dois documentos, que aponta a secção das Orientações Metodológicas
como a que se aproxima mais do que é valorizado no ensino das Ciências (Miller,
2006; NRC, 1996).
A análise, descrita anteriormente, da mensagem valorizada pelos documentos
curriculares, no que respeita à forma de ensinar (o como), encontra-se
sistematizada na Tabela_XI, sendo de sublinhar que na, organização dos
resultados, se utilizou uma escala com apenas 2 graus para tornar mais
percetíveis as tendências.
Conclusões
O estudo, desenvolvido no contexto do 1º Ciclo do Ensino Básico, procurou
comparar a mensagem contida nos documentos curriculares Competências Essenciais
- Estudo do Meio e Programa do Estudo do Meio, refletir sobre a mensagem
veiculada nesses documentos à luz dos princípios valorizados atualmente no
ensino das Ciências e discutir, com base em resultados de investigação, as
implicações das diferenças de mensagem dos dois documentos nas práticas dos
professores e na aprendizagem dos alunos.
Ao analisar os dois documentos curriculares, verifica-se que a mensagem
pedagógica é diferente não só entre os documentos, mas também no seio deles
próprios. Ela varia nas diferentes secções em que se analisaram os documentos,
sendo a mensagem da secção dos Conhecimentos a que mais se afasta das restantes
secções. A diferença entre os documentos diz fundamentalmente respeito à
complexidade dos conhecimentos e competências que se pretende ensinar. O
Programa, relativamente ao que se ensina, apela menos à conceptualização das
aprendizagens do que o documento das Competências Essenciais. Se atendermos ao
facto de a conceptualização das aprendizagens induzir a um tipo de perceção
generalizante, com reflexo importante na conscientização dos processos mentais
da criança (Vygotsky, 1996), o Programa prevê um menor desenvolvimento destes
processos do que o documento das Competências Essenciais.
No que respeita à forma de ensinar, a análise comparativa dos documentos sugere
que eles não veiculam exatamente a mesma teoria de instrução. De acordo com a
análise das regras discursivas (Tabela_XI), o Programa parece privilegiar menos
uma teoria de instrução centrada no aluno do que o documento das Competências
Essenciais, embora seja difícil perceber se valoriza uma pedagogia mista, pelo
menos nos termos em que é referida em alguma literatura da especialidade (ex.
Pires, Morais, & Neves, 2004; Morais & Neves, 2009). Se considerarmos
que, no Programa, o enquadramento nas regras discursivas é tendencialmente
pouco fraco, parece estar presente uma pedagogia mista; no entanto, quando se
verifica que a relação entre discursos e a relação escola-comunidade são
caracterizadas, respetivamente, por classificações e enquadramentos fortes,
percebe-se que essa pedagogia não pode estar presente. Neste caso, a
dificuldade em definir, com exatidão, a teoria de instrução resulta dos
documentos curriculares serem textos monológicos, em que a interação entre os
sujeitos teve de ser analisada indiretamente, não permitindo, por exemplo,
verificar se o controlo previsto para os alunos nos critérios de avaliação é
menor do que o previsto para as outras regras discursivas, nomeadamente para a
ritmagem, sendo este aspeto importante na definição de uma pedagogia mista.
Uma reflexão sobre a mensagem dos documentos curriculares aponta ainda para que
alguns princípios do discurso dominante no ensino das Ciências (NRC, 1996;
Miller, 2006), como a literacia científica, não estejam valorizados de igual
forma. Embora a análise dos documentos curriculares não tenha incidido
diretamente sobre a literacia científica, se considerarmos que para o
desenvolvimento desta é fundamental a compreensão de conceitos científicos,
processos e métodos da Ciência (Miller, 2006), podemos concluir que o Programa
contribui menos para a literacia científica do que o documento das Competências
Essenciais. Com efeito, o Programa destaca pouco o conhecimento
conceptualizado, as competências investigativas complexas, a
intradisciplinaridade e a interdisciplinaridade, que são aspetos que contribuem
para a promoção de níveis elevados de literacia científica. O Programa apenas
prevê, de forma incipiente, o desenvolvimento de competências investigativas
complexas nos 3º e 4º anos de escolaridade, estando não só a contribuir pouco
para o desenvolvimento da literacia científica, como também a contrariar a
mensagem do próprio currículo de Ciências do Ensino Básico.
Quanto às implicações das diferenças de mensagem dos documentos curriculares,
admite-se que podem estar a refletir-se, direta e indiretamente, na prática dos
professores e, consequentemente, na aprendizagem dos alunos. Estar-se-ão a
refletir diretamente na prática dos professores atendendo a que alguns destes
profissionais têm lacunas na sua formação científica e pedagógica (Fontes &
Cardoso, 2006; Martins et al., 2005; Silva, 2010) e, perante mensagens
diferentes, podem ficar confusos. Alguns professores poderão ter dificuldade em
fazer uma análise crítica fundamentada dos documentos curriculares e em
selecionar os aspetos pedagógicos mais favoráveis ao desenvolvimento da
alfabetização científica dos alunos. Por exemplo, se os professores orientarem
a sua prática pelo Programa, já que é o documento curricular oficial
tradicionalmente mais utilizado pelos professores, poderão selecionar
conhecimentos e competências de baixa complexidade, assim como atividades que
envolvem pouca participação ativa dos alunos, afastando-se, assim, de um
processo pedagógico favorável ao desenvolvimento de níveis elevados de
alfabetização científica e também das próprias finalidades do currículo do
Ensino Básico. De salientar que, se a exigência conceptual do documento
curricular é baixa, provavelmente os professores irão desenvolver práticas com
um nível de exigência conceptual igualmente baixo. Como se tem verificado em
vários estudos (Alves, 2007; Calado, 2007), quando se passa dos documentos
curriculares oficiais para os contextos de reprodução do discurso pedagógico,
há uma recontextualização no sentido de uma menor exigência conceptual. Embora
uma prática pedagógica de sala de aula possa reproduzir a mensagem do Programa
e/ou do documento das Competências Essenciais, essa reprodução nunca é total,
pois existe sempre um potencial espaço de mudança quando se passa de um
contexto para o outro, mas que só será utilizado para promover uma prática
conducente ao aumento de exigência conceptual se essa for a ideologia do
professor e se este tiver competência científica e pedagógica para o fazer4. Se
os professores possuem lacunas na sua formação, tendem a subverter este espaço
de mudança, conferindo ao ensino-aprendizagem uma exigência conceptual mais
baixa do que a veiculada pelo documento curricular.
Se, por um lado, admitimos que os professores podem ficar confusos perante a
diferença de mensagens dos documentos curriculares, por outro, também teremos
de admitir que podem ficar confusos com a inconsistência da mensagem no seio
dos próprios documentos. Como se referiu anteriormente, para várias relações do
contexto pedagógico, a mensagem que emerge das diferentes secções em que os
documentos foram analisados não é igual, verificando-se mesmo mensagens
contraditórias entre a secção dos Conhecimentos e as restantes secções. Estas
diferenças nas mensagens dos documentos curriculares também se podem estar a
refletir indiretamente na prática dos professores através dos manuais
escolares. Os autores dos manuais tendem a recorrer mais frequentemente ao
Programa do que ao documento das Competências Essenciais, talvez devido à
natureza daquele documento e/ou à dificuldade em conciliarem princípios
divergentes. Deste modo, como os professores recorrem aos manuais escolares
para planificarem as suas aulas, até mais do que aos documentos curriculares
oficiais, o reflexo da mensagem do Programa acaba por se repercutir, direta e
indiretamente, na prática dos professores, ou seja, tem nela um efeito
cumulativo. Uma possível forma de se tentar elevar o nível de conceptualização
do ensino-aprendizagem seria a partir dos manuais escolares, sendo no entanto
necessário que os seus autores recontextualizassem o discurso pedagógico
oficial, no sentido de uma maior exigência conceptual. Contudo, como referido
em Afonso (2008), ao conceberem os manuais escolares, os autores tendem a
diminuir ainda mais a exigência conceptual veiculada no Programa.
Se nos abstrairmos dos reflexos das diferenças de mensagem dos documentos
curriculares e nos centrarmos apenas nas características das mensagens,
verificamos que nenhuma delas tem subjacente uma prática pedagógica mista com
as características que vários estudos (ex. Morais & Neves, 2003; Pires,
Morais, & Neves, 2004; Morais & Neves, 2009; Silva, 2010) têm revelado
ter potencialidades para promover níveis elevados de literacia científica em
todos os alunos, nomeadamente nos socialmente mais desfavorecidos (referida no
enquadramento teórico). Se compararmos as características desta prática com as
da prática veiculada nos documentos curriculares oficiais, observam-se
diferenças notórias, designadamente na relação escola-comunidade e na relação
entre discursos (intradisciplinaridade e interdisciplinaridade), sendo de
salientar que a intradisciplinaridade é uma característica da prática que se
tem revelado crucial na aprendizagem dos alunos (Pires, Morais, & Neves,
2004). O facto de os documentos curriculares não valorizarem aspetos da
aprendizagem dos alunos que a investigação tem revelado importantes leva-nos a
questionar, não só as diferenças de mensagem entre os documentos curriculares,
mas também a importância do discurso pedagógico oficial na aprendizagem dos
alunos. Importa refletir sobre as diferenças das mensagens dos documentos
curriculares e sobre as características que apresentam e considerar que a
coexistência de textos curriculares divergentes, já há dez anos, apela a uma
urgente revisão dos mesmos.