A natureza da ciência nos currículos de ciências - Estudo do currículo de
Ciências Naturais do 3º ciclo do ensino básico
Introdução
Actualmente, e a partir dos anos setenta do século XX, tem-se vindo a
desenvolver a ideia de que a educação científica deve englobar uma vertente
metacientífica, isto é, relativa à construção da ciência/ natureza da ciência,
na qual assume grande relevância a relação entre ciência, tecnologia e
sociedade (Santos, 1999). Deste modo, aspectos como a metodologia da ciência, a
forma como esta evolui, a relação da ciência com a sociedade e a tecnologia, as
relações que se estabelecem dentro da comunidade científica e as
características psicológicas dos cientistas, passam a ser considerados
importantes no âmbito do ensino das ciências (e.g. McComas & Olson, 1998).
Tal como referem McComas, Clough e Almazroa (1998),
"a frase 'natureza da ciência' é usada para descrever a
intersecção de assuntos relacionados com a filosofia, história,
sociologia, e psicologia da ciência no modo como se aplicam e
potencialmente influenciam o ensino e aprendizagem da ciência. Como
tal, a natureza da ciência é um domínio fundamental para guiar os
educadores de ciência na representação cuidada da ciência aos
alunos" (p.5).
Consequentemente, diversos currículos de ciências, em todo o mundo, aumentaram
a sua ênfase na natureza da ciência (BouJaoude, 2002). O mesmo sucedeu em
Portugal quando, no ano escolar de 2001/2002, se iniciou um processo de
reorganização curricular do ensino básico com a aplicação de novas orientações
organizativas e de novos desenhos curriculares.
No âmbito desta reorganização curricular, foram elaborados dois documentos
orientadores: Currículo nacional do ensino básico - Competências Essenciais
(DEB, 2001); e Orientações Curriculares para o ensino básico (DEB, 2002). O
primeiro documento define o conjunto de competências consideradas essenciais no
âmbito do desenvolvimento do currículo nacional para o ensino básico ao longo
das várias disciplinas. O segundo documento apresenta as competências
específicas para cada disciplina. Na área das Ciências Físicas e Naturais, este
documento apresenta em paralelo as orientações curriculares relativas a cada
uma destas disciplinas, tendo sido delineado em torno de quatro temas
organizadores: "Terra no Espaço", "Terra em Transformação",
"Sustentabilidade na Terra" e "Viver Melhor na Terra".
O estudo que se apresenta neste artigo é parte de uma investigação mais ampla
(Ferreira, 2007) que analisa a mensagem sociológica transmitida pelo Discurso
Pedagógico Oficial (DPO) do currículo de Ciências Naturais do 3º ciclo do
ensino básico, que emanou da referida reorganização curricular, e que investiga
em que medida essa mensagem resulta dos princípios ideológicos e pedagógicos
dos seus autores. A investigação esteve centrada em dimensões do DPO
relacionadas com o que se ensina e com a forma como se ensina no que se refere
à natureza da ciência. No primeiro caso, considerou-se o processo de construção
da ciência e a exigência conceptual em termos de competências e conhecimentos
científicos e no segundo caso, considerou-se a relação entre ciência e
metaciência enquanto discursos da mesma disciplina (intradisciplinaridade). O
grau de intradisciplinaridade foi também tido em conta na apreciação da
exigência conceptual do currículo. A escolha destas dimensões prendeu-se,
sobretudo, com resultados obtidos em estudos já realizados por investigadores
do grupo ESSA (e.g. Morais & Neves, 2003; Morais, Neves & Pires, 2004)
e por outros autores (e.g. McComas, Clough & Almazroa, 1998), que
evidenciaram a sua importância na promoção de um elevado nível de aprendizagem
científica. A explicitação do DPO na relação Ministério da Educação-professor
(critérios de avaliação) foi igualmente objecto de análise da mensagem do DPO.
Na Figura 1 apresenta-se um esquema síntese das relações analisadas na
investigação, de acordo com Ferreira (2009).
Figura 1 - Diagrama geral das relações analisadas na investigação
O estudo apresentado neste artigo centra-se na mensagem do DPO no que se refere
ao processo de construção da ciência, às relações intradisciplinares entre
conhecimentos científicos e metacientíficos e à forma como o Ministério da
Educação explicita aos professores as características anteriores. Este estudo
pretende responder ao seguinte problema: Em que medida a mensagem sociológica
transmitida pelo DPO veiculado no currículo de ciências contempla a natureza da
ciência? De acordo com este problema estabeleceram-se as seguintes questões de
investigação: (1) Em que medida o DPO expresso nos dois documentos curriculares
(Competências Essenciais e Orientações Curriculares) contempla o processo de
construção da ciência e a intradisciplinaridade entre conhecimentos científicos
e metacientíficos?; (2) Em que medida o Ministério da Educação torna explícito
aos professores (critérios de avaliação) estas características?; e (3) Qual a
extensão e sentido de recontextualização efectuada pelo documento Orientações
Curriculares em relação ao documento Competências Essenciais, no âmbito do
campo de recontextualização oficial?
Enquadramento teórico
A investigação desenvolvida apresenta pressupostos epistemológicos e
sociológicos e está particularmente baseada na noção de construção da ciência
preconizada por Ziman (1984, 2000) e na teoria do discurso pedagógico de
Bernstein (1999, 2000). De acordo com Bernstein, o discurso pedagógico é
determinado por um conjunto complexo de relações que pressupõem a intervenção
de diferentes campos e contextos, desde o macro-nível do campo de Estado até ao
micro-nível da sala de aula.
No campo de Estado, sob a influência do campo internacional, do campo da
economia (recursos físicos) e do campo do controlo simbólico (recursos
discursivos), é produzido o Discurso Regulador Geral (DRG). Como resultado da
recontextualização oficial do DRG, designadamente ao nível do Ministério da
Educação e suas agências, é produzido o discurso pedagógico oficial (DPO), o
qual se encontra expresso em textos como os programas e currículos. Este
processo de recontextualização é influenciado pelo campo da economia, pelo
campo intelectual da educação (parte do campo de controlo simbólico) e pelo
campo internacional e ainda, em grande parte, pelas ideologias dos autores. Tal
como referem Neves e Morais (2001):
"Este texto oficial contém na sua mensagem os princípios e as
normas que constituem o discurso regulador geral que caracteriza um
determinado contexto socio-político. Contudo, enquanto discurso
pedagógico oficial, também contém uma mensagem que reflecte o
conjunto de opções que se afiguram mais adequadas a um determinado
contexto educacional, as quais também são influenciadas pelos vários
campos." (p. 226).
Entre essas opções figuram, por exemplo: os discursos e competências que devem
ser adquiridos; a natureza das relações entre os diferentes conhecimentos da
disciplina (relação intradisciplinar) e entre os conhecimentos da disciplina e
os conhecimentos de outras disciplinas do currículo (relação interdisciplinar);
a forma de interacção pedagógica que deverá estar presente na relação
professor-aluno (modelo da teoria de instrução privilegiado). Estas opções
definem, assim, o que e o como do DPO, ou seja, os discursos a serem
transmitidos e o modo como esses discursos são transmitidos no contexto de
ensino-aprendizagem. O modelo mostra assim que o discurso pedagógico não é o
resultado mecânico dos princípios dominantes da sociedade, uma vez que podem
ocorrer recontextualizações aos vários níveis do aparelho pedagógico oficial.
Essas recontextualizações criam espaços de mudança e por essa razão o discurso
que é produzido (DPO) e o discurso que é reproduzido na sala de aula não
correspondem rigorosamente ao discurso regulador geral.
O discurso pedagógico veicula, como mensagem sociológica, determinadas relações
de poder e controlo entre as seguintes categorias: espaços (espaço professor-
aluno e espaço aluno-aluno), discursos (intradisciplinar, interdisciplinar e
académico-não académico) e sujeitos (Ministério da Educação-professor,
professor-aluno e aluno-aluno). Estas relações reflectem, em maior ou menor
grau, de acordo com a recontextualização que ocorreu, as relações legitimadas
no DRG subjacente. Para analisar estas relações de poder e controlo, Bernstein
(1990, 2000) usou, respectivamente, os conceitos de classificação e de
enquadramento. A classificação diz respeito ao estabelecimento de fronteiras
mais ou menos acentuadas entre as categorias anteriormente mencionadas. A
classificação será tanto mais forte, quanto mais nítida for a separação
existente entre as categorias. O enquadramento está relacionado com as relações
sociais que se estabelecem entre as categorias consideradas, ou seja, a
comunicação que se irá estabelecer entre elas. O enquadramento será tanto mais
forte quanto maior for o controlo que as categorias superiores (por exemplo, o
Ministério da Educação) tiverem sobre as categorias inferiores (por exemplo os
professores). A classificação e o enquadramento podem, dentro de certos
limites, variar independentemente, por exemplo, uma classificação forte pode
coexistir com um enquadramento fraco.
No presente estudo foi seguida a noção de construção da ciência apresentada por
Ziman (1984). De acordo com este autor, a ciência deve ser encarada como uma
instituição social que pode ser perspectivada em função de várias dimensões
metacientíficas: filosófica, histórica, psicológica e sociológica.
A dimensão filosófica da ciência dá ênfase ao aspecto metodológico da ciência,
isto é, aos métodos utilizados pelos cientistas para fazer ciência. "A
filosofia da ciência analisa teorias sobre a construção da ciência, as
condições que a validam e os diversos métodos científicos utilizados"
(Fontes & Silva, 2004: 18). Esses métodos incluem, por exemplo, a
observação, a experimen- tação e a teorização, sendo considerados por Ziman
(1984) como elementos de um método específico de obter informação, digna de
confiança, acerca do mundo natural.
A dimensão histórica da ciência dá ênfase ao seu aspecto de arquivo, já que a
acumulação de conhecimento científico, organizado em esquemas teóricos
coerentes e divulgado em publicações é um processo histórico com especial
significado. O conhecimento científico adquire significado quando é divulgado,
permitindo reestruturar esquemas teóricos universais e utilizá-los em proveito
da humanidade (Ziman, 1984). Desta forma, a dimensão histórica apresenta a
ciência como uma actividade dinâmica, que evolui ao longo do tempo.
A dimensão psicológica da ciência contempla as características psicológicas dos
cientistas que influenciam a sua actividade científica. Há que ter em
consideração que, sendo a ciência uma actividade humana e portanto sujeita aos
condicionalismos da natureza humana, pode revelar, como outra actividade
qualquer, procedimentos dignos ou procedimentos menos correctos (Ziman, 1984).
A dimensão sociológica da ciência envolve duas vertentes, a sociológica interna
e a sociológica externa. A primeira engloba as relações sociais que se
estabelecem e desenvolvem dentro da comunidade científica. A segunda está
relacionada com a produção científica nas suas relações com os diversos actores
sociais. No que concerne à dimensão sociológica interna da ciência, Ziman
(1984) salienta que os cientistas estão integrados numa comunidade científica,
estabelecendo interacções sociais uns com os outros enquanto cientistas. Deste
modo, os cientistas comunicam entre si, partilhando perspectivas e resultados
experimentais que os levam a reestruturar constantemente os seus trabalhos, a
encontrar novas vias de investigação num empreendimento que é, cada vez mais,
um processo colaborativo e não uma actividade isolada. No que diz respeito à
dimensão sociológica externa da ciência, a ciência é encarada como uma
instituição social, inserida na sociedade e que desempenha certas funções para
a sociedade. A interacção entre ciência, tecnologia e sociedade (CTS) encontra-
se incluída nesta dimensão da noção de construção da ciência apresentada por
Ziman (1984). Assim sendo, no presente estudo, quando se considera a relação
CTS, está-se apenas a considerá-la na dimensão sociológica externa da ciência,
ao contrário do que defendem outros autores (e.g. Aikenhead, 1999; Santos,
1999)1.
A diferença de estrutura entre o conhecimento científico e o conhecimento
metacientífico deve ser considerada quando se estuda a introdução da construção
da ciência na aprendizagem científica. De acordo com Bernstein (1999), podemos
dizer que o conhecimento metacientífico corresponde a um discurso com uma
estrutura horizontal, caracterizada por uma série de linguagens paralelas, em
que o seu desenvolvimento é alcançado através da construção de uma nova
linguagem, com um novo conjunto de questões e de relações e fortemente
classificada em relação a outras linguagens pré-existentes. O conhecimento
científico possui uma estrutura hierárquica, na qual o desenvolvimento é
alcançado através da selecção e integração de conceitos distintos de modo a
alcançar-se um corpo comum de conhecimento com maior nível de abstracção e
poder de explicação. O que científico do ensino-aprendizagem das ciências
corresponde a uma estrutura hierárquica do conhecimento, enquanto o que da
metaciência corresponde a uma estrutura horizontal do conhecimento.
Metodologia
Aspectos gerais
Neste estudo recorreu-se a uma metodologia mista que apresenta características
associadas às abordagens qualitativa e quantitativa (Creswell, 2003; Morais
& Neves, 2007; Tashakkori & Teddlie, 1998). Por exemplo, foram
utilizadas características associadas à abordagem quantitativa quando, para a
análise dos documentos do currículo, foram definidas previamente, com uma base
teórica, categorias e vários indicadores. Contudo, os dados empíricos que
estavam a ser analisados também contribuíram para a definição de algumas
categorias e respectivos indicadores, seguindo uma abordagem qualitativa.
O estudo seguiu um processo dialéctico entre o teórico e o empírico. Neste
sentido, rejeitou-se quer a análise do empírico sem uma base teórica quer a
utilização de uma teoria que não permitisse a sua transformação com base no
empírico. Esta dialéctica só foi possível porque a metodologia deste estudo
utilizou uma linguagem externa de descrição derivada de uma linguagem interna
de descrição, tal como preconizado por Bernstein (2000).
Para a análise do DPO do currículo de Ciências Naturais do 3º ciclo do ensino
básico foram considerados dois documentos: Currículo Nacional do Ensino Básico
- Competências Essenciais (DEB, 2001), nomeadamente a parte com as competências
para Ciências Físicas e Naturais; e Orientações Curriculares para o 3º ciclo do
Ensino Básico (DEB, 2002), especificamente a secção referente à disciplina de
Ciências Naturais. A análise centrou-se no tema "Sustentabilidade na
Terra". A análise exigiu que o texto dos dois documentos fosse segmentado
em unidades de análise (excertos): no documento Competências Essenciais foram
definidas 76 unidades de análise e no documento Orientações Curriculares 91.
Como unidade de análise considerou-se um excerto do texto, com um ou mais
períodos, que no seu conjunto tivesse um determinado significado semântico
(Gall, Borg & Gall, 1996). Quando ocorriam listagens de itens, como
acontece no caso das competências e experiências de aprendizagem, cada item foi
considerado uma unidade de análise. Cada um dos esquemas foi considerado uma
unidade de análise.
O estudo do DPO do currículo de Ciências Naturais, relativamente à natureza da
ciência, ocorreu de acordo com o esquema apresentado na Figura 2. Esta análise
incidiu sobre a componente instrucional do contexto de transmissão/aquisição,
isto é, nos discursos a serem transmitidos/ adquiridos, e centrou-se em dois
aspectos: o que o Ministério da Educação legitima como DPO do currículo e que
diz respeito aos discursos a serem transmitidos/ adquiridos; e o como esses
discursos são transmitidos no contexto do ensino-aprendizagem e que diz
respeito aos princípios que regulam a transmissão/ aquisição desses discursos.
Centrou-se ainda na relação Ministério da Educação-professor.
Figura 2 - Esquema de análise da natureza da ciência no currículo de Ciências
Naturais
A análise do que do DPO expresso no currículo consistiu na caracterização dos
conteúdos referentes ao processo de construção da ciência e, para esta análise,
foi considerado o seu grau de complexidade. No que se refere à análise do como
do DPO, foi considerada a relação entre discursos no processo de ensino-
aprendizagem, analisando-se o grau de relação entre os conhecimentos
científicos e os conhecimentos metacientíficos que o currículo prevê que seja
estabelecido. Estas relações intradisciplinares foram caracterizadas através do
conceito de classificação. No que diz respeito à relação Ministério da
Educação-professor, foi analisado o grau de controlo dado pelo Ministério da
Educação aos professores - grau de explicitação do DPO - sobre os conhecimentos
metacientíficos e o sobre a relação entre conhecimentos científicos e
metacientíficos. O grau de explicitação foi caracterizado através do conceito
de enquadramento.
Concepção e aplicação dos instrumentos
De modo a efectuarmos esta análise do DPO do currículo, foram construídos,
pilotados e aplicados instrumentos2, que tiveram como ponto de partida modelos/
instrumentos construídos em estudos anteriores do grupo ESSA, sobre a análise
de currículos de ciências (e.g. Castro, 2006). Para cada um dos aspectos em
análise, os instrumentos foram organizados de forma a contemplar as quatro
secções principais de um qualquer programa e que correspondem a aspectos do
currículo considerados referenciais para o processo de ensino-aprendizagem: (a)
Conhecimentos; (b) Finalidades; (c) Orientações Metodológicas; e (d) Avaliação.
Tal como refere Pacheco (2001), "qualquer que seja o nível de
planificação, as decisões curriculares incidem sobre objectivos, conteúdos,
experiências de aprendizagem (actividades), recursos e avaliação" (p. 67).
Assim, cada unidade de análise foi associada a uma das quatro secções
previamente definidas e analisada através dos diferentes instrumentos
construídos. Estas tarefas foram realizadas em conjunto por três investigadoras
e, posteriormente, validadas por outras duas investigadoras.
Na descrição dos instrumentos que se segue, começa-se por apresentar aqueles
que se referem à caracterização do processo de construção da ciência e
respectiva explicitação, seguindo-se os que se referem às relações entre
conhecimentos científicos e metacientíficos e respectiva explicitação.
Caracterização do processo de construção da ciência
Para a caracterização do processo de construção da ciência foram elaborados
três instrumentos: (1) um instrumento de caracterização do processo de
construção da ciência, para avaliar o nível de conceptualização dos conteúdos
metacientíficos; (2) um instrumento com conhecimentos e competências cognitivas
das dimensões da construção da ciência preconizadas por Ziman (1984, 2000); e
(3) um instrumento de avaliação do grau de explicitação dos conhecimentos
metacientíficos.
O primeiro desses instrumentos (Instrumento 1) foi construído tendo em
consideração a natureza e grau de complexidade dos conhecimentos
metacientíficos, assim como o desenvolvimento de competências relacionadas com
a metaciência. Quer os conhecimentos, quer as competências foram considerados
ao nível das várias dimensões da construção da ciência preconizadas por Ziman
(1984): filosófica, histórica, psicológica, sociológica interna e sociológica
externa.
As quatro secções, referidas anteriormente, foram consideradas neste
instrumento e, para cada secção, foram definidos descritivos correspondentes a
quatro graus de complexidade dos conteúdos metacientíficos relativos a cada
dimensão do processo de construção da ciência. A escala de quatro graus foi
elaborada com base nos seguintes critérios:
Grau 1 - corresponde a uma ausência de conhecimentos relativos à
dimensão da construção da ciência em análise, não se prevendo também
o desenvolvimento de competências associadas a essa dimensão.
Grau 2 - pode corresponder a uma de três situações distintas: 1)
referência a conhecimentos de ordem simples relativos à dimensão da
construção da ciência em análise, mas não se prevendo a sua aplicação
no desenvolvimento de competências associadas a essa dimensão; 2)
referência ao desenvolvimento de competências, mas não se prevendo a
sua relação com o processo de construção da ciência; ou 3) referência
a conhecimentos de ordem simples relativos à dimensão da construção
da ciência em análise, prevendo-se a sua aplicação no desenvolvimento
de competências associadas a essa dimensão.
Grau 3 - corresponde a conhecimentos de ordem complexa relativos à
dimensão da construção da ciência em análise, mas em que não se prevê
o desenvolvimento de competências associadas a essa dimensão.
Grau 4 - corresponde a conhecimentos metacientíficos de ordem
complexa e que, em simultâneo, se prevê o desenvolvimento de
competências relacionadas com a dimensão da construção da ciência em
estudo.
É de salientar que as diferentes situações apresentadas no descritivo do grau 2
surgiram no decorrer de uma análise exploratória das unidades de análise de
ambos os documentos do currículo. A necessidade do descritivo apresentar uma
segunda parte deveu-se ao facto do currículo preconizar, com alguma frequência,
o desenvolvimento de competências, por exemplo investigativas, sem, no entanto,
as relacionar com o processo de construção da ciência.
Na Tabela I apresentam-se um excerto deste instrumento, para a secção
Conhecimentos e para a dimensão sociológica externa e exemplos de unidades de
análise do currículo que ilustram diferentes graus de complexidade.
Tabela I - Excerto do instrumento de caracterização do processo de construção
da ciência
Unidades de análise:
Grau 1: "No que diz respeito aos ciclos de matéria, não se
pretende analisar os vários ciclos biogeoquímicos, mas realçar a
existência nas comunidades de grupos de seres vivos com actividades,
de certa forma, complementares (produtores, consumidores e
decompositores), que possibilitam uma reciclagem permanente da
matéria" (Orientações Curriculares, pp.23-24).
Grau 4: "[...] através da compreensão das potencialidades e
limites da Ciência e das suas aplicações tecnológicas na Sociedade.
Por outro lado, permite uma tomada de consciência quanto ao
significado científico, tecnológico e social da intervenção humana na
Terra, o que poderá constituir uma dimensão importante em termos de
uma desejável educação para a cidadania" (Competências
Essenciais, p.134).
Para que existisse coerência e um referencial na aplicação do Instrumento 1,
houve necessidade de construir um segundo instrumento (Instrumento 2) -
instrumento com conhecimentos de ordem simples e de ordem complexa e
competências cognitivas relacionadas com as várias dimensões da construção da
ciência, de acordo com a noção de Ziman (1984, 2000). Nesta definição
considerou-se que os conhecimentos de ordem simples incluíam factos
generalizados e conceitos simples e que os conhecimentos de ordem complexa
incluíam conceitos complexos e temas unificadores.
As competências relacionadas com a metaciência foram definidas no sentido de
estarem associadas, por um lado, à respectiva dimensão da construção da ciência
e, por outro, à área científica e não a outra área disciplinar, uma vez que o
instrumento foi construído com o objectivo de analisar um currículo de
ciências. Reconhece-se, no entanto, que algumas dessas competências também
podem ser mobilizadas noutras áreas disciplinares para além da científica.
Devido a condicionalismos que se prenderam com a delimitação do âmbito desta
investigação, destaca-se o facto de se ter optado por analisá-las sem as
discriminar em função do seu grau de complexidade, ao contrário do que é feito
para os conhecimentos metacientíficos. Optou-se também por analisar apenas as
competências ligadas ao domínio cognitivo, excluindo-se as competências sócio-
afectivas.
Na Tabela II apresenta-se um excerto deste instrumento para a dimensão
sociológica externa.
Tabela II - Excerto do instrumento com conhecimentos e competências cognitivas
das dimensões da construção da ciência
De modo a avaliar o grau de explicitação dos conhecimentos metacientíficos no
currículo de ciências em estudo, construiu-se um terceiro instrumento
(Instrumento 3). Através deste instrumento pretendeu-se avaliar em que medida a
mensagem do DPO veiculada no currículo de Ciências Naturais relativamente ao
que do ensino-aprendizagem da metaciência é deixada explícita, ou não, pelo
Ministério da Educação aos professores.
Este instrumento foi aplicado a cada unidade de análise que contemplasse
conhecimentos metacientíficos relativos a uma determinada dimensão do processo
de construção da ciência e com um determinado grau de complexidade (caso dos
graus 2-1ª parte, 3 e 4), previamente determinado através do Instrumento 1.
Este instrumento contém, para cada secção do currículo, cada dimensão da
metaciência e cada grau de complexidade, descritivos correspondentes a quatro
graus de uma escala de enquadramento (E++, E+, E-, E--) 3 com um grau
decrescente de explicitação.
Na Tabela III apresenta-se um excerto deste instrumento, para a secção
Orientações Metodológicas, a dimensão sociológica externa e o grau 4 de
caracterização do processo de construção da ciência. Seguem-se exemplos de
unidades de análise dos documentos curriculares que ilustram diferentes graus
de enquadramento quanto aos critérios de avaliação.
Tabela III - Excerto do instrumento de avaliação do grau de explicitação dos
conhecimentos metacientíficos
Unidades de análise:
Grau E-: "[...] A este nível sugere-se a discussão de
problemáticas reais, como por ex. acidentes em centrais nucleares, o
lançamento para a atmosfera de fumos provenientes de queimas [ ].
Estas problemáticas poderão constituir oportunidade para discussão
sobre questões de natureza social e ética que permitam aos alunos
momentos de reflexão a propósito dos prós e contras de algumas
inovações científicas para o indivíduo, para a sociedade e para o
ambiente" (Orientações Curriculares, p. 29).
Grau E--: "É recomendada a realização de visitas de estudo a
unidades industriais existentes na região e a correspondente análise
dos custos, benefícios e riscos sociais e ambientais associados à
actividade industrial" (Orientações Curriculares, p. 27).
Relações intradisciplinares entre conhecimentos científicos e metacientíficos
Relativamente à caracterização das relações intradisciplinares entre
conhecimentos científicos e metacientíficos, foram construídos dois
instrumentos: um instrumento de avaliação do grau de relação entre
conhecimentos científicos e metacientíficos (Instrumento 4) e outro instrumento
de avaliação do grau de explicitação destas relações intradisciplinares
(Instrumento 5).
No Instrumento 4, a relação que se estabelece entre os conhecimentos
científicos e metacientíficos foi traduzida através de uma escala de
classificação com quatro graus (C++, C+, C-, C--) com um grau crescente de
relação.
Na Tabela IV apresenta-se um excerto deste instrumento, para a secção
Finalidades. Seguem-se exemplos de unidades de análise dos documentos
analisados que ilustram diferentes graus de classificação quanto às relações
intradisciplinares.
Tabela IV - Excerto do instrumento de avaliação do grau de relação entre
conhecimentos científicos e metacientíficos
Unidades de análise:
Grau C++-1ª parte: "Relativamente a este assunto, deve ser
valorizada a interpretação dos alunos face aos vários exemplos de
interacções, identificando benefícios e prejuízos para os seres
envolvidos, em vez da simples aplicação de terminologia"
(Orientações Curriculares, p. 23).
Grau C--: "Reconhecimento da necessidade de tratamento de
materiais residuais, para evitar a sua acumulação, considerando as
dimensões económicas, ambientais, políticas e éticas"
(Competências Essenciais, p.143).
O Instrumento 5 foi elaborado de modo a permitir a análise do grau de
explicitação das relações entre conhecimentos científicos e conhecimentos
metacientíficos, previamente caracterizadas através do Instrumento 4 (graus C-
e C--). Foi considerada uma escala de enquadramento com quatro graus (E++, E+,
E-, E--) 4 com um grau decrescente de explicitação.
Na Tabela V apresenta-se um excerto deste instrumento, para a secção
Conhecimentos. Seguem-se exemplos de unidades de análise do currículo que
ilustram diferentes graus de enquadramento quanto aos critérios de avaliação.
Tabela V - Excerto do instrumento de avaliação do grau de explicitação das
relações entre conhecimentos científicos e metacientíficos
Unidades de análise:
Grau E-: "Com estas, ou outras actividades, pretende-se
mobilizar os alunos para a importância da reciclagem dos resíduos
[...] e, ao mesmo tempo, sensibilizá-los para a necessidade de
preservar, e economizar os recursos naturais" (Orientações
Curriculares, p.28).
Grau E--: "Para um desenvolvimento sustentável, a Educação em
Ciência deverá ter em conta a diversidade de ambientes físicos,
biológicos, sociais, económicos e éticos" (Competências
Essenciais, p. 140).
Após a aplicação de cada instrumento a todas as unidades de análise de ambos os
documentos do currículo de Ciências Naturais, efectuou-se o tratamento dos
resultados obtidos, separadamente para cada documento.
Análise dos resultados
Caracterização do processo de construção da ciência
Dimensões da construção da ciência
De modo a caracterizar-se o processo de construção da ciência expresso nos
documentos curriculares em estudo, calculou-se a frequência de excertos
(expressa em percentagem relativa) analisados de acordo com uma escala de
quatro graus e considerando cada uma das dimensões da metaciência. O gráfico da
Figura 3 apresenta os resultados desta análise para a dimensão filosófica.
Estes resultados estão organizados em função de cada uma das quatro secções dos
documentos e da totalidade das secções.
Figura 3 - Dimensão filosófica da ciência no currículo de Ciências Naturais:
Competências Essenciais (CE) e Orientações Curriculares (OC)
O gráfico da Figura 3 evidencia que em ambos os documentos curriculares, na sua
globalidade, a maioria dos excertos analisados não contemplam conhecimentos
relativos à dimensão filosófica da construção da ciência e não prevêem também o
desenvolvimento de competências metacientíficas associadas a esta dimensão
(grau 1). Em relação aos excertos classificados no grau 2 da escala utilizada,
verificou-se que a maioria corresponde à segunda parte do descritivo deste
grau, ou seja, prevêem o desenvolvimento de competências associadas à dimensão
filosófica da ciência mas não a sua relação com os conhecimentos
metacientíficos associados a esta dimensão. Pode observar-se esta tendência
global nas diferentes secções do currículo, excepto na secção Orientações
Metodológicas, onde o grau 2 predomina ligeiramente sobre o grau 1. Este
aspecto deveu-se, principalmente, ao facto de nesta secção as estratégias
sugeridas contemplarem apenas competências, mas não conhecimentos associados à
dimensão filosófica da ciência. Os excertos, que a seguir se transcrevem, são
ilustrativos do que se acabou de mencionar:
"Realizar actividade experimental e ter oportunidade de usar
diferentes instrumentos de observação e medida. [ ] deve haver lugar
a formulação de hipóteses e previsão de resultados, observação e
explicação." (Competências Essenciais, pp. 131-132)
"No âmbito do estudo desta temática podem também ser realizadas
actividades experimentais para a observação, por exemplo, da
influência da luz no desenvolvimento das plantas." (Orientações
Curriculares, p. 22)
Pode verificar-se ainda que o grau 3 apenas ocorre nos excertos do documento
Competências Essenciais, devido à existência de excertos na secção
Conhecimentos onde são referidos conhecimentos de ordem complexa relativos à
dimensão filosófica da ciência. Salienta-se, no entanto, que esta secção
integra poucos excertos e que, por sua vez, destes excertos apenas um foi
classificado com este grau.
Em relação à secção Avaliação, o documento Competências Essenciais não
apresenta excertos que foquem a avaliação de conhecimentos e competências do
processo de ensino-aprendizagem das ciências. Por sua vez, o documento
Orientações Curriculares apresenta excertos enquadrados na secção Avaliação,
mas em pequeno número, sendo assim difícil retirar ilações quanto ao processo
de avaliação dos conhecimentos e/ou competências metacientíficas. Esta
dificuldade encontrou-se também presente na análise efectuada às restantes
dimensões da ciência, dado que se colocaram os mesmos problemas.
Os dados relativos à análise da dimensão histórica do processo de construção da
ciência estão expressos no gráfico da Figura 4. Através dos dados expressos na
figura, pode observar-se que em ambos os documentos curriculares, na sua
globalidade, a grande maioria dos excertos analisados não contemplam
conhecimentos relativos à dimensão histórica da construção da ciência e também
não prevêem o desenvolvimento de competências metacientíficas associadas a esta
dimensão (grau 1). Em relação aos excertos classificados com o grau 2, realça-
se que todos eles correspondem à segunda parte do descritivo deste grau, ou
seja, prevêem o desenvolvimento de competências associadas à dimensão histórica
da ciência mas não a sua relação com a construção da ciência.
Figura 4 - Dimensão histórica da ciência no currículo de Ciências Naturais:
Competências Essenciais (CE) e Orientações Curriculares (OC)
Quando se considera a secção Finalidades, destacam-se algumas diferenças entre
os dois documentos do currículo, apenas o documento Competências Essenciais
inclui competências que se referem à dimensão histórica da ciência, não estando
prevista a sua relação com a construção da ciência, e contém ainda competências
que contemplam conhecimentos de ordem complexa relativos a esta dimensão da
ciência.
Relativamente à caracterização da dimensão psicológica do processo de
construção da ciência (Figura 5), é possível constatar que, em ambos os
documentos curriculares, na sua globalidade, a quase totalidade dos excertos
analisados não contemplam conhecimentos relativos à dimensão psicológica da
construção da ciência e também não prevêem o desenvolvimento de competências
metacientíficas associadas a esta dimensão (grau 1). No que diz respeito aos
excertos classificados com o grau 2, realça-se que todos eles estão incluídos
na secção Orientações Metodológicas e correspondem à primeira parte do
descritivo deste grau, ou seja, visam apenas a transmissão/aquisição de
conhecimentos de ordem simples relativos a esta dimensão.
Figura 5 - Dimensão psicológica da ciência no currículo de Ciências Naturais:
Competências Essenciais (CE) e Orientações Curriculares (OC)
Os dados relativos à análise da dimensão sociológica interna do processo de
construção da ciência (Figura 6) revelam que, em ambos os documentos
curriculares, na sua globalidade, a grande maioria dos excertos analisados não
contempla conhecimentos relativos à dimensão sociológica interna da construção
da ciência e também não prevê o desenvolvimento de competências metacientíficas
associadas a esta dimensão (grau 1). Em relação aos excertos classificados com
o grau 2, destaca-se que todos eles correspondem à segunda parte do descritivo
deste grau.
Figura 6 - Dimensão sociológica interna da ciência no currículo de Ciências
Naturais: Competências Essenciais (CE) e Orientações Curriculares (OC)
Considerando as secções Finalidades e Orientações Metodológicas, é possível
constatar que ocorre, em pequeno grau, uma diminuição da valorização relativa
atribuída à dimensão sociológica interna quando se passa do texto Competências
Essenciais para o texto Orientações Curriculares.
Em relação à caracterização da dimensão sociológica externa do processo de
construção da ciência (Figura 7), os dados mostram que, em ambos os documentos
curriculares, ao contrário do que se constata para as outras dimensões da
ciência, o grau 1 deixa de estar na maioria dos excertos analisados. Para além
disso, também se pode observar que é dada uma maior ênfase aos conhecimentos
metacientíficos de ordem simples (grau 2) e aos de ordem complexa (graus 3 e 4)
relativos a esta dimensão da ciência, assim como ao desenvolvimento de
competências associadas a esta dimensão (graus 2 e 4). Pode-se, assim,
verificar que o currículo de Ciências Naturais na temática da
"Sustentabilidade da Terra" atribui um maior grau de complexidade à
dimensão sociológica externa no contexto de transmissão/aquisição do processo
de construção da ciência. Esta é a dimensão da ciência com maior
representatividade no currículo de ciências, em ambos os documentos analisados,
o que estará relacionado com o enfoque dado pelas autoras deste currículo à
relação C-T-S.
Figura 7 - Dimensão sociológica externa da ciência no currículo de Ciências
Naturais: Competências Essenciais (CE) e Orientações Curriculares (OC)
Considerando as secções Conhecimentos e Finalidades, é possível constatar que
ocorre uma diminuição da valorização relativa atribuída à dimensão sociológica
externa quando se passa do texto Competências Essenciais para o texto
Orientações Curriculares. Salienta-se, no entanto, que o número de excertos
incluídos na secção Conhecimentos do texto Competências Essenciaisé bastante
inferior ao número de excertos desta secção do texto Orientações Curriculares.
A situação contrária verificou-se para o número de excertos incluídos na secção
Finalidades.
Relativamente à secção Orientações Metodológicas, pode observar-se que existe
um maior grau de complexidade dos conhecimentos relativos à dimensão
sociológica externa no texto Orientações Curriculares. Este aspecto assume
especial importância quando se verifica que é esta secção que tem maior
representatividade neste texto.
Explicitação dos conhecimentos metacientíficos
Quando se considera a relação Ministério da Educação-professor no que se refere
à explicitação do processo de construção da ciência, nas suas diferentes
dimensões, observam-se os resultados evidenciados no gráfico da Figura 8.
Optou-se por construir apenas um gráfico, tendo-se reunido os valores de
enquadramento dos graus 2 a 4 da aplicação do Instrumento 1 e considerando
unicamente a globalidade dos resultados, uma vez que o número de excertos
analisados foi muito reduzido5. Deste modo, verificou-se se o processo de
construção da ciência para cada dimensão era explícito, ou não,
independentemente do grau de complexidade e da secção em que se encontrava no
currículo. No caso dos excertos da dimensão histórica nas Orientações
Curriculares e da dimensão sociológica interna para ambos os documentos, eles
não foram analisados quanto ao grau de explicitação, uma vez que o grau 2 que
lhes foi atribuído correspondia à situação em que havia referência ao
desenvolvimento de competências metacientíficas, mas não se previa a sua
relação com os conhecimentos metacientíficos.
Figura 8 - Explicitação aos professores das dimensões da construção da ciência
no currículo de Ciências Naturais: Competências Essenciais (CE) e Orientações
Curriculares (OC)
A análise mostra que os excertos analisados são classificados apenas com dois
dos quatro valores da escala: E- ou E--. Comparando os dois documentos
analisados, não se verificam diferenças na explicitação do significado dos
conhecimentos e/ou competências metacientíficos para cada dimensão em estudo,
no âmbito do ensino-aprendizagem das ciências.
Pode-se, assim, dizer que nos dois documentos do currículo de Ciências
Naturais, para a temática "Sustentabilidade da Terra", os
conhecimentos e/ou competências metacientíficos, mesmo quando estão presentes,
o seu significado não é tornado explícito. A mensagem do processo de construção
da ciência está implícita, sendo nalguns casos claramente implícita (E--). O
facto do Ministério da Educação deixar implícitos os conhecimentos
metacientíficos a abordar e as competências metacientíficas a desenvolver,
significa que o professor poderá ter um grande controlo sobre a inclusão da
metaciência no ensino-aprendizagem da ciência.
Relações intradisciplinares entre conhecimentos científicos e metacientíficos
No que diz respeito às relações intradisciplinares entre conhecimentos
científicos e conhecimentos metacientíficos, o gráfico da Figura 9 evidencia os
resultados dessa análise. Pode-se verificar que, na sua globalidade, metade dos
excertos analisados no documento Competências Essenciais e a maioria dos
excertos analisados no documento Orientações Curriculares não contemplam a
relação entre conhecimentos científicos e metacientíficos (C++), correspondendo
a maior parte destes excertos à situação em que se contemplam apenas
conhecimentos científicos. Também se pode constatar que a frequência de
excertos classificados de C- (maior estatuto do conhecimento científico) é
superior no documento Orientações Curricularesenquanto a frequência de excertos
C-- (igual estatuto dos conhecimentos científicos e metacientíficos) é superior
no documento Competências Essenciais. Destaca-se ainda que a abordagem de
conhecimentos científicos e metacientíficos, mas sem haver relações entre eles
(C+), está ausente nos excertos analisados em ambos os documentos curriculares.
Figura 9 - Relações intradisciplinares entre conhecimentos científicos e
metacientíficos no currículo de Ciências Naturais: Competências Essenciais (CE)
e Orientações Curriculares (OC)
Considerando as secções do currículo, pode observar-se que há diferenças em
relação à tendência global dos excertos analisados. É interessante verificar
que na secção Conhecimentos deixa de haver um predomínio do grau C++, para
passar a haver uma maior ênfase do grau C-- nos excertos do documento
Competências Essenciais e uma frequência idêntica dos graus C++, C- e C-- nos
excertos do documento Orientações Curriculares. Este aspecto parece dever-se,
sobretudo, ao facto dos autores dos dois documentos do currículo tentarem
relacionar, com bastante frequência, conhecimentos da dimensão sociológica
externa da construção da ciência com os conhecimentos científicos a abordar na
temática da "Sustentabilidade na Terra".
Na secção Orientações Metodológicas, os excertos analisados em ambos os
documentos curriculares passam a ter uma distribuição muito semelhante. O
documento Orientações Curriculares mantém a sua tendência global, mas no
documento Competências Essenciais passa a existir uma maior frequência dos
graus C++ e C- e uma diminuição do grau C--. Esta alteração no documento
Competências Essenciais parece estar relacionada com o facto dos excertos
analisados nesta secção serem ambíguos quanto aos conhecimentos a serem
apreendidos pelos alunos, havendo um maior enfoque nas competências a
desenvolver. O excerto, que a seguir se transcreve, ilustra o que se acabou de
mencionar:
"Analisar e criticar notícias de jornais e televisão, aplicando
conhecimentos científicos na abordagem de situações da vida
quotidiana" (Competências Essenciais, p. 132, grau C++).
Em relação à secção Avaliação, e tal como já referiu aquando a análise do
processo de construção da ciência, o documento Competências Essenciais não
apresentou excertos que focassem a avaliação das relações intradisciplinares
entre conhecimentos científicos e metacientíficos. O documento Orientações
Curriculares apresentou excertos incluídos nesta secção, mas em pequeno número
e não estava prevista a avaliação das relações estabelecidas entre estes dois
tipos de conhecimentos.
Explicitação das relações entre conhecimentos científicos e metacientíficos
Quando se considera a relação Ministério da Educação-professor no que se refere
à explicitação das relações intradisciplinares entre conhecimentos científicos
e metacientíficos, observam-se os resultados expressos no gráfico da Figura 10.
Para a elaboração deste gráfico os valores de enquadramento dizem apenas
respeito às relações intradisciplinares correspondentes aos graus de
classificação C- e C--, uma vez que, nestes casos, foi analisado apenas um
número reduzido de excertos. Os graus C+ e C++ não foram analisados quanto ao
seu enquadramento, uma vez que não correspondiam a relações intradisciplinares
entre conhecimentos científicos e metacientíficos. Assim sendo, verificou-se se
a intradisciplinaridade entre conhecimentos científicos e metacientíficos era
explícita, ou não, independentemente do grau de classificação (C- ou C--) em
que se encontrava no currículo.
Figura 10 - Explicitação aos professores das relações intradisciplinares entre
conhecimentos científicos e metacientíficos no currículo de Ciências Naturais:
Competências Essenciais (CE) e Orientações Curriculares (OC)
Os dados da Figura 10 mostram que os excertos analisados foram classificados
apenas com dois dos quatro valores da escala: ou E- ou E--, tal como já se
tinha verificado para a explicitação do processo de construção da ciência.
Comparando os dois documentos analisados, pode-se constatar que ambos os
documentos curriculares não tornam explícitas as relações a estabelecer entre
conhecimentos científicos e metacientíficos, essas relações são apenas
apresentadas. Destaca-se, contudo, que no documento Orientações Curriculares,
na sua globalidade, a maior parte dos excertos analisados estão claramente
implícitos quanto às relações a estabelecer entre conhecimentos científicos e
metacientíficos (há uma maior frequência do grau E--) - essas relações apenas
são apresentadas de forma genérica. Esta tendência verifica-se nas diferentes
secções analisadas, excepto na secção Finalidades, na qual todos os excertos
analisados apresentam um enquadramento fraco, mas não o mais fraco; aspecto que
poderá estar relacionado com o facto desta percentagem relativa apenas
corresponder a um excerto analisado.
Pode-se, assim, referir que nos dois documentos do currículo de Ciências
Naturais, para a temática "Sustentabilidade da Terra", as relações
intradisciplinares entre conhecimentos científicos e metacientíficos que são
apresentadas não têm o seu significado explícito no âmbito do ensino das
ciências. O facto do Ministério da Educação deixar implícitas estas relações
intradisciplinares, significa que o professor poderá ter um grande controlo
sobre o como do ensino-aprendizagem ao nível da intradisciplinaridade entre
conhecimentos científicos e metacientíficos.
Conclusões
No presente estudo procurou-se analisar a mensagem sociológica transmitida pelo
Discurso Pedagógico Oficial do currículo de Ciências Naturais do 3º ciclo do
ensino básico, na temática "Sustentabilidade na Terra", quanto a
características do processo de ensino-aprendizagem relacionadas com a
construção da ciência - dimensões metacientíficas e intradisciplinaridade entre
conhecimentos científicos e metacientíficos. Analisou-se também a relação
Ministério da Educação-professor, no que respeita ao grau de explicitação
daquelas características. Com esta análise, pretendeu-se também avaliar os
processos de recontextualização que podem ter ocorrido entre os dois principais
documentos do currículo, as Competências Essenciais (linhas gerais) e as
Orientações Curriculares (orientações específicas da disciplina). Partindo do
modelo do discurso pedagógico desenvolvido por Bernstein (1990, 2000), foi
intenção global do estudo explorar empiricamente este modelo ao nível da
produção do discurso.
Da análise realizada, e tendo em consideração o nível de alfabetização
científica que as perspectivas actuais do ensino das ciências preconizam que os
alunos alcancem, surgem de imediato algumas preocupações relacionadas,
especialmente, com a forma como o processo de construção da ciência está
contemplado neste currículo e ainda com as fracas relações intradisciplinares
estabelecidas entre os conhecimentos científicos e metacientíficos. Essas
preocupações estão directamente associadas com o baixo nível de
conceptualização das aprendizagens preconizadas, mas também com o baixo grau de
explicitação destas características no currículo.
Relativamente ao processo de construção da ciência, os resultados do estudo
revelaram que o currículo de Ciências Naturais, na temática da
"Sustentabilidade da Terra", foca as cinco dimensões da construção da
ciência preconizadas por Ziman (1984), no entanto estas apresentam um estatuto
diferenciado. Com efeito, no DPO veiculado no currículo de ciências, a
metodologia da ciência tem um menor estatuto que a sociologia externa da
ciência, mas um pouco mais elevado que a sociologia interna e a história da
ciência. Já a influência das características psicológicas dos cientistas na
construção da ciência foi quase ignorada ao nível deste currículo de ciências.
Estas conclusões, relativas ao processo de construção da ciência na temática
"Sustentabilidade na Terra", têm paralelo com as conclusões de um
estudo realizado por Calado (2007), relativamente à temática "Viver Melhor
na Terra".
A dimensão sociológica externa foi a dimensão da ciência que apresentou maior
estatuto em ambos os documentos do currículo, o que estará relacionado com o
enfoque dado pelas autoras deste currículo à relação C-T-S6. Esse elevado
estatuto atribuído a esta dimensão está ligado, não só à sua maior
representatividade no currículo de ciências, mas também ao maior grau de
complexidade dos conhecimentos relativos a esta dimensão. Assim sendo, o
currículo de ciências preconiza, para a sociologia externa da ciência,
aprendizagens com um maior nível de conceptualização quando comparado com o
nível das restantes dimensões.
Quanto à dimensão filosófica, a maioria dos excertos que contemplavam esta
dimensão visavam apenas o desenvolvimento de competências passíveis de serem
trabalhadas no domínio da metodologia da ciência, mas sem que fosse
estabelecida a sua relação com a construção da ciência. Estas competências
correspondiam a competências investigativas que o currículo, tanto nas
orientações gerais como nas orientações específicas, visava mobilizar com a
realização de actividades práticas sem, no entanto, relacioná-las com os
métodos de trabalho dos cientistas. Por conseguinte, os resultados do estudo
evidenciaram que o nível de conceptualização do currículo de ciências, no
âmbito da metodologia da ciência, é muito baixo, sendo mesmo redutor do ponto
de vista de um ensino das ciências que se pretende que promova a relação entre
os produtos e os processos da ciência.
No caso da sociologia interna da ciência, os excertos incluídos nesta dimensão
visavam apenas o desenvolvimento de competências, mas sem que fosse
estabelecida a sua relação com a construção da ciência. Este aspecto também se
verificou para a maioria dos excertos analisados em relação à dimensão
histórica da ciência.
Quanto à dimensão psicológica, esta surge apenas em ambos os documentos do
currículo, numa orientação geral das suas autoras quando se referem ao
conhecimento epistemológico. Assim sendo, parece que as autoras do currículo
tiveram alguma dificuldade em sugerir propostas de operacionalização
relativamente a essa orientação geral, nomeadamente no que se refere ao
documento Orientações Curriculares. Pode ainda acontecer que as autoras,
simplesmente, decidiram atribuir um baixo estatuto a esta dimensão
metacientífica para o ensino das ciências. Não deixa de ser curioso que, quando
se observam alguns dos instrumentos utilizados para avaliação da compreensão
dos alunos sobre questões ligadas à natureza da ciência (e.g. Canavarro, 2000;
Lederman, Abd-El-Khalick, Bell & Schwartz, 2002), uma das dimensões da
ciência que é constantemente focada é a psicológica.
Os resultados obtidos neste estudo são, assim, reveladores do baixo nível de
conceptualização do currículo de ciências, no âmbito das diferentes dimensões
metacientíficas. Uma das hipóteses explicativas para este facto está
relacionada com a estrutura horizontal (Bernstein, 1999) do conhecimento
metacientífico que, sendo diferente da estrutura hierárquica do conhecimento
científico, poderá levantar dificuldades de operacionalização aos autores de
currículos de ciências.
Estes resultados afastam-se dos resultados obtidos num estudo realizado por
McComas & Olson (1998), no qual analisaram oito currículos internacionais
de ciências, dos anos noventa do século XX, em relação ao processo de
construção da ciência. Nesses currículos, as dimensões filosófica e histórica
são as que tinham um maior estatuto. No entanto, à semelhança do que se
verificou no currículo de ciências português, também nos oito currículos
internacionais, a dimensão psicológica foi a que apresentou menor estatuto. Por
conseguinte, a mudança curricular que está a ocorrer em Portugal está a ir no
sentido de valorizar a dimensão sociológica externa em detrimento das dimensões
filosófica e histórica, ao contrário do que ocorria em currículos
internacionais do século passado.
Ainda em relação ao processo de construção da ciência, os resultados do estudo
revelaram que as recontextualizações, que sucedem quando se passa das
orientações gerais do ensino das ciências para as orientações específicas,
ocorreram no sentido de haver uma diminuição da valorização relativa atribuída
ao processo de construção da ciência. Este aspecto está evidenciado nas
dimensões filosófica e histórica, quando no documento Competências Essenciais
alguns excertos contemplavam conhecimentos de ordem complexa relativos a esta
dimensão e no documento Orientações Curriculares estes conhecimentos complexos
estão ausentes. Na dimensão sociológica externa também se verificou que o
documento Competências Essenciais tem uma maior representatividade de excertos
que contemplam conhecimentos de ordem complexa e/ou competências associadas a
esta dimensão.
Ao contrário do que se tem verificado em outros estudos que incidem na análise
de currículos de ciências (e.g. BouJoude, 2002; Neves, Morais, Medeiros &
Peneda, 1999), as diferenças que existem entre as mensagens sociológicas das
intenções gerais do currículo e das orientações específicas da disciplina não
foram muito expressivas, para este currículo de Ciências Naturais, na temática
"Sustentabilidade na Terra", e para as características do processo de
ensino-aprendizagem consideradas. Uma hipótese que se pode colocar para
explicar esta relativa continuidade entre os dois documentos curriculares é o
facto destes dois documentos terem sido elaborados por uma equipa de autoras,
que não sendo exactamente a mesma, manteve as autoras com um peso mais
significativo nas decisões curriculares que foram sendo tomadas7.
Relativamente à intradisciplinaridade entre conhecimentos científicos e
metacientíficos, os resultados do estudo evidenciaram que no currículo de
Ciências Naturais, na temática da "Sustentabilidade da Terra", há o
estabelecimento, em alguns casos, de relações intradisciplinares, no entanto é
a sua ausência que predomina em ambos os documentos curriculares. No estudo
realizado por Calado (2007), para a temática "Viver Melhor na Terra",
a ausência destas relações é ainda mais acentuada, prevalecendo fronteiras bem
definidas entre os dois domínios do conhecimento.
Sempre que ocorrem relações intradisciplinares entre conhecimentos científicos
e metacientíficos, constata-se que, no caso das orientações gerais do
currículo, foi atribuído um maior enfoque às relações entre conhecimentos
científicos e metacientíficos em que os dois tipos de conhecimentos têm igual
estatuto, sendo menor o número de excertos onde se atribui maior estatuto ao
conhecimento científico. No entanto, tratando-se de um currículo de ciências,
os conhecimentos científicos deveriam ter maior estatuto nessas relações
intradisciplinares. Considera-se que a situação que melhor ilustra uma
aprendizagem científica significativa, consolidada pela compreensão e aplicação
de conhecimentos metacientíficos, será aquela em que existe um predomínio das
relações entre conhecimentos científicos e metacientíficos, sendo conferido ao
domínio científico maior estatuto nessa relação (grau C-). Coloca-se a hipótese
deste documento com as orientações gerais atribuir, maioritariamente, igual
estatuto aos dois tipos de conhecimentos, de modo a realçar a importância do
ensino das ciências contemplar o processo de construção da ciência, aspecto que
não tem sido preconizado em currículos portugueses de Ciências Naturais
anteriores. Em relação a esta característica específica da aprendizagem
científica, o grau de recontextualização entre os dois documentos do currículo
não foi significativo. Estas conclusões estão também em concordância com as que
foram obtidas por Calado (2007), para a temática "Viver Melhor na
Terra".
Relativamente à explicitação aos professores das dimensões da construção da
ciência, os resultados do estudo evidenciaram que o Ministério da Educação
deixa implícitos, mesmo quando eles estão presentes, os conhecimentos
metacientíficos a abordar e as competências metacientíficas a desenvolver,
assim como as relações intradisciplinares entre conhecimentos científicos e
metacientíficos a serem estabelecidas no ensino das ciências. Assim, quando
implementa o currículo de Ciências Naturais, na temática "Sustentabilidade
na Terra", o professor tem um elevado grau de controlo conferido pelo
Ministério da Educação, nomeadamente sobre o que do ensino-aprendizagem da
metaciência e sobre o como do ensino-aprendizagem ao nível da
intradisciplinaridade entre conhecimentos científicos e metacientíficos. Está-
se, assim, a atribuir mais autonomia ao professor na gestão do currículo. O
mesmo se verificou relativamente à temática "Viver Melhor na Terra",
uma vez que estas conclusões estão igualmente em consonância com as que foram
obtidas por Calado (2007).
Este grande espaço de intervenção conferido ao professor pode apresentar
limitações, especialmente ao contribuir para aumentar a recontextualização
sofrida pelo DPO quando se passa do currículo para a sua concretização, em sala
de aula. Este aspecto assume especial importância se pensarmos que a ausência
de critérios explícitos quanto ao currículo a ser implementado nas escolas
poderá levar a que os professores, especialmente os que revelam lacunas de
formação científica e pedagógica, não sejam capazes de construir, sozinhos, um
currículo que tenha em consideração resultados de investigação sobre a
importância, na aprendizagem científica dos alunos, da inclusão da metaciência.
Deste modo, o professor, na ausência de uma preparação que lhe permita
reflectir sobre o significado das mensagens sociológicas contidas no currículo,
pode subverter o espaço de intervenção que lhe possa ser atribuído numa
situação de maior controlo. Este aspecto é evidenciado por Hipkins, Barker
& Bolstad (2005) quando focam a falta de explicitação do currículo de
ciências da Nova Zelândia, quanto ao processo de construção da ciência. De
acordo com estes autores, pretendeu-se que os professores tivessem mais
autonomia na interpretação do currículo, mas esta falta de orientação tem
levado os professores a centrarem a construção da ciência apenas na relação
entre ciência e tecnologia8. Por conseguinte, considera-se que, para que os
professores promovam uma aprendizagem científica eficiente, são necessários
critérios explícitos no que diz respeito, pelo menos, aos conhecimentos e
competências a serem desenvolvidos e à articulação conceptual entre
conhecimentos. Este aspecto está bem problematizado por Morais & Neves
(2006) quando referem:
"Uma compreensão distinta dos professores/escolas (e dos autores
de manuais escolares) do que significa uma aprendizagem eficiente, em
termos das especificidades dos alunos, escolas e seus contextos
geográficos, pode restringir, num contexto de flexibilidade
curricular, o sucesso da reforma no que diz respeito ao sucesso de
todos os alunos. De forma que a qualidade de educação exista para
todos os alunos, tornar o currículo flexível não significa deixar
para professores/escolas (e autores dos manuais escolares) a selecção
dos conceitos, competências e objectivos a serem desenvolvidos, mas a
selecção, em termos das especificidades dos alunos, de actividades
que permitam que todos eles tenham acesso aos mesmos conceitos e a
competências de níveis semelhantes de complexidade" (p.17).
Este grande espaço de intervenção conferido ao professor, para além das
limitações que pode apresentar, pode também ter potencialidades, que dependerão
certamente da formação científica e pedagógica do professor e ainda da sua
concepção de ensino-aprendizagem que foi elaborando no decurso do seu
desenvolvimento profissional. Deste modo, os professores melhor preparados
terão à sua disposição um espaço de controlo que lhes poderá permitir
desenvolver aprendizagens de nível de exigência conceptual mais elevado,
através da integração da natureza da ciência na educação em ciências.
Notas
1 Para Aikenhead (1999), na relação CTS estão incluídas todas as dimensões
do processo de construção da ciência preconizado por Ziman (1984). Aquele Autor
refere que o conteúdo CTS compreende a interacção entre ciência e tecnologia,
ou entre ciência e sociedade, ou ainda qualquer outro dos seguintes aspectos:
assuntos da sociedade relacionados com ciência ou tecnologia e assuntos da
filosofia, história ou sociologia da ciência.
2 Ver instrumentos do estudo em Ferreira (2007). Também disponível online
http://essa.fc.ul.pt/materiais_instrumentos_texto.htm
3 Apesar de se ter verificado, numa análise exploratória do currículo, que os
graus E++ e E+ não seriam atribuídos a nenhuma das unidades de análise de ambos
os documentos, considerámos que seriam de manter neste instrumento, uma vez que
correspondem a situações que podem ocorrer na explicitação da metaciência de
outros currículos de ciências. Estes graus foram, por exemplo, atribuídos por
Castro (2006) na análise do currículo de ciências do 10º ano de escolaridade.
4 Ver nota 3.
5 Por exemplo, na análise da dimensão filosófica na secção Orientações
Metodológicas apenas existia a classificação de E- para um excerto no grau 2.
6 Em relação aos princípios ideológicos e pedagógicos dos autores do
currículo de Ciências Naturais, consultar Ferreira, Morais & Neves (2009).
7 Ver nota 6.
8 A acrescentar a este aspecto, alguns estudos (e.g. Halai & McNicholl,
2004; McComas, Clough & Almazroa, 1998) têm mostrado que os professores de
ciências não possuem concepções adequadas sobre a natureza da ciência.