Representações de vinculação e qualidade do brincar interativo em crianças em
idade pré-escolar
Introdução
Nas atividades lúdicas das crianças estão interligados todos os domínios de
desenvolvimento infantil. Para além das influências positivas do brincar no
desenvolvimento motor, comportamental, cognitivo e sócio-cognitivo e emocional
(Bruner, 1972; Dunn, 2010; Hartup, 1996; Johnson, Christie, & Yawkey,
1999), a forma de brincar com os outros pode determinar a aceitação ou rejeição
social, e o desenvolvimento de amizades, que por sua vez facilitam outros
aspectos do desenvolvimento sócio-emocional e sócio-cognitivo (Howes, 1983;
Ladd, Price, & Hart, 1988; Vaughn & Santos, 2008). As actividades de
brincadeira são um contexto fundamental para estudar a forma como crianças pré-
escolares adquirem competências interactivas e conhecimento social (Johnson et
al., 1999). De acordo com Vygotsky (1933) o brincar é mesmo o principal motor
do desenvolvimento na idade pré-escolar. Envolver-se em brincadeiras com as
outras crianças requer habilidades e competências adquiridas no contexto das
relações de pares (Howes, 1988; Fantuzzo et al., 1996), embora existam
precursores precoces na interação com os pais (e.g., Kerns & Barth, 1995;
Porter, 2009), nomeadamente na relação de vinculação.
Vinculação e modelos internos dinâmicos
Numa perspetiva etológica e evolutiva, John Bowlby propôs que a relação de
vinculação se baseia num sistema comportamental constituído por respostas
instintivas, ou padrões de comportamentos específicos, que surgem durante o
primeiro ano de vida da criança e se tornam cada vez mais integrados e focados
na mãe, servindo para ligar a criança a esta figura (Bowlby, 1958, 1973;
Bretherton, 1992). Estes comportamentos de vinculação promovem e asseguram não
só a proximidade entre a mãe e a criança, como também a proteção em situações
de perigo eventual, desempenhando dessa forma uma importante função biológica
(Ainsworth & Bell, 1970). Desta forma, em contextos familiares onde se
verifique ausência de "pistas naturais de perigo" ocorrerão
preferencialmente comportamentos de exploração (a criança afasta-se da mãe,
para explorar o meio e interagir com outras pessoas e regressa para junto dela
por sua iniciativa, para brincar ou para estabelecer um breve contacto,
afastando-se novamente, num movimento contínuo de exploração-retorno). Em
contextos onde situações de perigo poderão estar presentes, serão favorecidos
os comportamentos de proximidade e contacto físico, assistindo-se,
consequentemente, a uma diminuição dos comportamentos de exploração (Bowlby,
1973).
Numa segunda fase, quando a criança internaliza o modelo relacional com a
figura materna e adquire a segurança necessária para explorar o meio por si só,
o sistema comportamental de vinculação passa a assumir também uma função
psicológica. Segundo Bowlby (1982), gradualmente, a partir do final do primeiro
ano de vida, e sobretudo durante o segundo e terceiro anos através da
linguagem, a criança constrói modelos internos (Modelos Internos Dinâmicos
- MID - de Vinculação e do Self) acerca do mundo, de si, de como a
(s) figura(s) de vinculação esperam que se comporte e de como estas interagem
umas com as outras. Deste modo, podemos entender que estes modelos contêm
componentes afetivos e cognitivos, normalmente não-conscientes, formando
representações mentais generalizadas e tendencialmente estáveis sobre o self,
os outros e o mundo; nesse sentido, ajudam a criança na regulação,
interpretação e predição dos comportamentos, pensamentos e sentimentos nas
situações interativas. Construídos a partir da relação com as figuras de
vinculação, os modelos internos dinâmicos resultam das experiências de
interacção que se vão tornando cada vez mais complexas mas também
generalizáveis. De acordo com Bowlby, a qualidade destes modelos está
diretamente relacionada com o modo como as figuras de vinculação são sensíveis
às necessidades das crianças em termos de conforto, proteção, carinho e apoio
na exploração do meio, bem como à sua disponibilidade e capacidade de perceber
e responder a essas necessidades de forma contingente.
O brincar
Embora não encontremos na literatura uma definição unânime sobre o que podemos
entender por brincar/atividades lúdicas, autores como Rubin, Fein e Vandenberg
(1983) e Coplan, Rubin e Fendlay (2006), tendo por base diferentes perspetivas
teóricas, assumem a existência de alguns fatores que podem caracterizar estes
comportamentos. Essa caracterização baseia-se na sua origem motivacional, na
orientação dos organismos para os objetivos, nos estímulos físicos e na
existência de regras: (a) o brincar não é motivado por instintos ou pulsões ou
por fatores externos ao comportamento, sendo antes um comportamento
intrinsecamente motivado; (b) o brincar é espontâneo, no sentido em que os seus
objetivos são autoimpostos e não impostos por outros; (c) ao contrário do
comportamento exploratório, cujo objetivo é reduzir a incerteza e obter
informação acerca de determinado objeto, numa situação de brincar, sendo o
objeto conhecido, a questão coloca-se em torno do que se poderá fazer com o
mesmo; (d) o brincar consiste num conjunto de atividades simbólicas e não
apenas sensoriomotoras, isto é, os significados comuns dos objetos podem ser
dispensados e a criança pode assumir novos significados para determinado
objeto; (e) o brincar é livre, no sentido em que não existem regras definidas a
priori(e aqui reside a diferença entre o brincar e os jogos com regras); (f) e,
por último, o brincar requer que a criança esteja ativamente envolvida numa
determinada atividade.
Na sua forma interativa, ou seja, em interação com os pares, o brincar é
entendido como um fenómeno bastante complexo e multidimensional que inclui
várias componentes estruturais e sociais (Rubin & Coplan, 1998). De acordo
com diversos estudos teóricos e empíricos, o brincar interativo considera-se um
contexto de consequências imediatas para a competência social das crianças (ver
revisões de Creasey, Jarvis, & Berk, 1998; Fisher, 1997). O brincar
interativo é considerado simultaneamente e como um reflexo da competência
social e como um facilitador direto de aptidões que contribuem para relações
mais positivas com os pares (Creasey et al., 1998). Ou seja, ainda que a
questão da causa-efeito entre o brincar com os pares e a competência social das
crianças permaneça em aberto, assume-se a existência de uma ligação entre a
qualidade da brincadeira das crianças e a qualidade das suas relações com os
pares (Colwell & Lindsey, 2005).
Finalmente, as competências associadas ao brincar interativo (tais como o
estabelecimento e manutenção de interações lúdicas positivas e a gestão e
exploração das emoções em brincadeiras sociodramáticas) podem servir de base e
facilitar a emergência de outras competências importantes nas fases seguintes
de desenvolvimento (Waters & Sroufe, 1983), como a adaptação à escola
durante a infância e a adolescência e a capacidade de partilha emocional entre
amigos também no período da adolescência (Bretherton, 1989).
Qualidade da vinculação e qualidade do brincar interactivo
Diversos estudos analisaram e concluíram acerca da relação positiva entre a
qualidade da vinculação das crianças aos seus cuidadores primários e a sua
competência social das mesmas (e.g., Veríssimo, Santos, Fernandes, Shin, &
Vaughn, 2014; Veríssimo et al., 2011). No entanto, embora o brincar das
crianças com os pares possa ser compreendido como um componente da sua
competência social, estes dois construtos não são equivalentes, sendo
importante investigar especificamente um e outro constructo.
Tanto quanto é do nosso conhecimento, e embora algumas investigações anteriores
façam menção a possíveis ligações entre o tipo de vinculação e o funcionamento
simbólico precoce (Bretherton, Bates, Benigni, Camaioni, & Volterra, 1979;
Main, 1983; Matas, Arend, & Sroufe, 1978), foram até hoje realizados seis
estudos sobre a qualidade da vinculação das crianças aos pais e a forma como as
crianças brincam. Os resultados dessas investigações demonstraram a existência
de uma associação positiva entre os constructos, sugerindo que diferenças
individuais na qualidade da relação precoce influenciam a emergência de
processos simbólicos precoces.
Belsky, Garduque e Hrncir (1984) conduziram uma investigação em que analisaram
a relação entre a qualidade da vinculação das crianças às mães e aos pais e o
nível de brincadeira livre e estruturada das crianças. Os resultados revelaram
que as crianças avaliadas como seguras em termos de vinculação, exploravam mais
e melhor o meio e faziam melhor uso das suas competências cognitivas no
brincar, do que as crianças classificadas como inseguras.
Um estudo longitudinal de Slade (1987) pretendeu investigar a relação entre a
qualidade da vinculação das crianças e o desenvolvimento do jogo simbólico. Os
resultados revelaram que as crianças com vinculação segura, são capazes de
funcionar no máximo nível das suas capacidades, reforçando os resultados de
Belsky et al. (1984). A autora concluiu que as diferenças entre os grupos de
crianças seguras e inseguras não se devem a diferenças na sua capacidade
cognitiva, dependendo antes da forma como as competências cognitivas interagem
com as competências sociais. Num outro estudo longitudinal, Howes (1997)
demonstrou que as crianças tornam-se mais seguras em relação aos cuidadores e
mais envolvidas num jogo complexo com os pares à medida que estão há mais tempo
nos programas de cuidado infantil. De forma análoga, também os seus cuidadores
se tornam mais sensíveis com o tempo. Além disso, os resultados encontrados
sugerem existir uma relação direta entre a vinculação segura criança-cuidador e
os comportamentos de competência social, e uma ligação indireta entre a
sensibilidade do cuidador e os comportamentos da criança com os pares.
Meins e Russell (1997) investigaram a relação entre a segurança da vinculação e
o jogo simbólico das crianças. Para tal, analisaram as respostas das crianças a
sugestões específicas do experimentador em termos do seu sucesso ou insucesso
em responder e incorporar o que era sugerido. Os resultados demonstraram que ao
nível do jogo solitário não existiam diferenças entre as crianças seguras e
inseguras nas suas capacidades para brincar ao faz-de-conta. Contudo, as
crianças com vinculação segura revelaram-se mais capazes de recorrer às
sugestões do experimentador e de as incorporar nas suas sequências de jogo, o
que levou a que obtivessem níveis mais elevados de jogo instruído. De acordo
com os autores, uma hipótese explicativa destes resultados é a sensibilidade
materna, sugerindo que materna vinculação segura seja responsável pelo
estabelecimento de uma propensão por parte da criança a utilizar os outros como
fontes úteis de informação e orientação.
Cassibba, Van IJzendoorn e D'Odorico (2000) encontraram uma correlação
significativa entre a vinculação segura criança-mãe e educadora-criança e o
brincar dramático, mas não com o brincar social. Finalmente, análises de
regressões múltiplas, permitiram inferir que a rede de vinculação (combinando
ambos os tipos de vinculação) é, de forma geral, um melhor (e mais potente)
preditor das capacidade de brincar da criança em meio escolar, do que as
vinculações isoladamente (à mãe ou à educadora em separado).
Mais recentemente, Cugmas (2011) investigou as associações entre a vinculação
criança-educador e três diferentes variáveis: o brincar cognitivo e social, o
contacto da criança com os seus pares e a educadora durante a sessão de
brincadeira livre, e as características de personalidade da criança. Os
resultados deste estudo revelaram que quanto mais frequentemente as crianças
expressavam alguma forma de segurança na relação com a educadora, mais tempo
passavam em brincadeira cooperativa e mais contacto iniciavam com a educadora.
Verificou-se também que quanto mais contacto as crianças tinham com os seus
pares e com a educadora durante a brincadeira livre, mais sociáveis elas eram,
expressavam mais emoções positivas, e eram mais abertas à experiência.
Podemos concluir então que existe uma relativa escassez de estudos empíricos
que relacionem a qualidade da vinculação das crianças, nomeadamente no que diz
respeito à vinculação com os seus pais e o modo como as crianças interagem
ludicamente com os pares, em contexto escolar. Adicionalmente, não conhecemos
nenhuma investigação que tenha analisado as representações de vinculação das
crianças e as suas capacidades de brincadeira social.
Nesse sentido, o principal objetivo da presente investigação consiste em
verificar a existência de uma relação entre a qualidade das representações de
vinculação das crianças e diferentes tipos de brincar social em crianças de
idade pré-escolar. Propomos que crianças com representações de vinculação mais
seguras sejam mais capazes de realizar interações positivas com os seus pares
em contextos lúdicos, em relação a crianças com representações de vinculação
menos seguras.
Método
Participantes
Participaram no estudo 55 crianças, 29 do sexo feminino, com idades
compreendidas entre os 4 e os 5 anos de idade. As habilitações literárias das
mães variavam entre os 7 e os 23 anos de escolaridade (M=15.20, DP=3.26) e dos
pais entre 7 e os 23 anos de escolaridade (M=14.70, DP=3.11) As famílias
pertenciam a um nível socioeconómico médio, de acordo com os padrões nacionais,
tendo sido recrutadas para o projeto através das Creches/Jardins-de-infância
que frequentavam no Concelho de Lisboa e Oeiras. Todas as famílias foram
informadas dos objectivos do estudo e assinaram um consentimento informado. Os
dados apresentados fazem parte de um estudo longitudinal a decorrer no William
James Center Research, ISPA - Instituto Universitário.
Instrumentos: Descrição, aplicação e cotação
Attachment Story Completion Task(ASCT; Bretherton, Ridgeway, & Cassidy
1990; Maia, Veríssimo, Ferreira, Silva, & Fernandes, 2009). O ASCT é um
instrumento cujo objetivo reside em aceder ao modelo interno dinâmico de
vinculação das crianças, através da análise das diferenças individuais na
construção de narrativas a partir de cenários do dia-a-dia familiar
relacionados com a vinculação. É aplicável entre os 3 e os 6 anos de idade e
consiste numa entrevista de cerca de 30 minutos, durante a qual, através de uma
família de pequenos bonecos são apresentados os inícios de 6 histórias
distintas (Maia et al., 2009), sendo a primeira história neutra, de aquecimento
e, portanto, não cotada. As restantes cinco histórias do ASCT foram formuladas
no sentido de remeter cada uma para uma problemática distinta acerca da
vinculação: a figura de vinculação num papel de autoridade face a um acidente
da criança (história do Sumo Entornado); a dor e o medo como desencadeadores de
comportamentos de vinculação e proteção (história do Joelho Magoado e história
do Monstro no Quarto); a ansiedade de separação e capacidade de copingcom um
cuidador substituto - a "vizinha" (história da Partida); e a
tonalidade afetiva do regresso dos pais (história do Reencontro).
O ASCT foi aplicado de forma individual, numa sala disponibilizada pela
instituição de ensino das crianças. Foi assegurada a independência da equipa de
investigadores que aplicaram e cotaram o ASCT. O entrevistador e a criança
estiveram sentados numa mesa, em situação de face a face. O entrevistador
começou por apresentar cada elemento da família à criança, pedindo-lhe que
desse um nome a cada um dos filhos, bem como à vizinha, e explicou o seguinte à
criança: "Vamos fazer umas histórias com a nossa família. Eu começo a
contar e depois tu continuas, está bem?". Conforme o manual do ASCT,
começou pela história neutra (o Bolo de Aniversário) para se assegurar que a
criança compreendia o procedimento e promover a familiarização com o próprio
entrevistador (história não cotada). Cada início de história terminou com a
seguinte solicitação do experimentador: "Mostra-me e conta-me o que
acontece agora.". Para iniciar cada história seguinte, o experimentador
disse à criança: "Como é que tu achas que esta tua história poderia
terminar?"ou "Aconteceu mais alguma coisa nesta história ou podemos
passar à próxima?". Todas as entrevistas foram aplicadas e filmadas por
investigadores previamente treinados e desconhecedores de qualquer informação
acerca dos participantes.
Numa fase posterior, as entrevistas foram escolhidas aleatoriamente e cotadas
por três investigadores, também estes previamente treinados, estranhos à
situação de recolha de dados e desconhecedores de quaisquer informações
relativas às crianças. As histórias foram cotadas em termos de Segurança de
vinculação numa escala de 8 pontos que varia de desorganizado (1) a muito
seguro (8), e de Coerência da narrativa, também numa escala de 8 pontos (1
- extremamente incoerente; 8 - muito coerente). A cotação tem em
conta ainda o tipo de Resolução dada ao problema desencadeado por cada história
(1 - resolução mínima; 2 - resolução completa; 3 - sem
resolução; 4 - resolução com reviravolta). Obteve-se um acordo inter-
juízes entre 0.81 e 0.85.
Penn Interactive Peer Play Scale(PIPPS; Fantuzzo et al., 1995; Torres, Freitas,
Monteiro, Antunes, & Santos, 2014). O PIPPS é um questionário, criado por
Fantuzzo et al. (1995), destinado a pais e a professores/educadores, que
identifica comportamentos de brincadeira interativa em idade pré-escolar
permitindo distinguir crianças que conseguem estabelecer e manter relações
positivas de brincadeira interativa, das que não o conseguem fazer. É composto
por 32 itens, os quais descrevem comportamentos concretos da criança no
contexto de atividades lúdicas com outras crianças durante os períodos de
recreio ou de brincadeira livre. Por exemplo: item 6 "Partilha os
brinquedos com outras crianças"; item 11 "É ignorada pelos
outros"; item 14 "Destrói as coisas dos outros". Os itens são
avaliados numa escala de resposta de 4 pontos, variando entre 1 - nunca
ocorre e 4 - ocorre sempre. É possível identificar três dimensões
relacionadas com características do brincar: Disrupção (Jogo Disruptivo),
Desconexão (Jogo Isolado) e Interação Positiva com os Pares (Jogo Interativo).
O fator Disrupção é composto por itens relacionados com a agressividade e
comportamentos de brincadeira antissociais, tais como começar brigas e
discussões, tirar as coisas aos outros e agressão física e verbal. O fator
Desconexão refere-se à falta de participação em brincadeiras sociais/
interativas, abrangendo comportamentos como ficar de fora do grupo de
brincadeira, retirar-se, vaguear sem rumo e ser ignorado pelos outros. E, por
último, o fator Interação Positiva avalia os pontos fortes da atividade lúdica
e liderança em brincadeiras, focando-se em comportamentos como partilhar
ideias, liderar, ajudar outras crianças e encorajar os outros a juntarem-se às
brincadeiras. O tempo de preenchimento é de aproximadamente 10-15 minutos.
Torres et al. (2014) avaliaram as características psicométricas da PIPPS, na
sua versão portuguesa para educadores do ensino pré-escolar, e testaram a
estrutura fatorial dos 3 fatores proposta pelos autores do instrumento. Os
autores verificaram que todos os itens do instrumento apresentam pesos
fatoriais estandardizados iguais ou superiores a 0.5, o que significa que todos
os fatores apresentam validade fatorial. Por outro lado, também a fiabilidade
compósita se revelou elevada, com todos os valores superiores a 0.7. Foram
também calculados os índices de consistência interna das escalas, através do
alfa de Cronbach, tendo sido obtidos coeficientes de 0.80 para a escala de
Interação Positiva, de 0.77 para a de Disrupção, e 0.80 para a de Desconexão.
Para o presente estudo, os índices foram de 0.79 para a escala de Interação
Positiva, de 0.78 para a de Disrupção, e 0.73 para a de Desconexão.
O contacto com as educadoras participantes foi feito através das Direções dos
equipamentos pré-escolares que aprovaram a realização deste estudo, no qual
participaram voluntariamente. De seguida, as educadoras contactaram os pais das
crianças de cada sala de aula e pediram-lhes o consentimento informado para o
preenchimento dos questionários. Finalmente, foi pedido às educadoras que
respondessem ao questionário, relativamente às crianças da sua sala cujos pais
consentiram a participação, solicitando que assinalassem, relativamente a cada
item, a frequência com que nos últimos dois meses observaram o comportamento
descrito. De ressalvar que as educadoras devem conhecer suficientemente bem a
criança de forma a conseguirem descrever os seus comportamentos em contexto de
brincadeira livre nos últimos dois meses.
Para a cotação do questionário foram somados os valores dos itens
correspondentes a cada uma das três dimensões - Interação, Disrupção e
Desconexão -, seguidos da realização de uma média aritmética para
obtenção de uma nota total bruta em cada uma das três dimensões (Torres et al.,
2014).
Weschsler Preschool and Primary Scale of Intelligence - Revised
Administration and Scoring Manual(WPPSI-R; Weschler, 1989; Portuguese version
of Seabra-Santos et al., 2003). A WPPSI-R foi administrada individualmente a
crianças com idades compreendidas entre os 3 e os 6 anos e 6 meses, que permite
a avaliação do seu funcionamento intelectual - QI global -, e que
se subdivide em duas partes: QI verbal e QI de realização. A prova original é
constituída por cinco subtestes verbais (Informação, Vocabulário, Aritmética,
Semelhanças, e Compreensão) e cinco subtestes de realização (Composição de
Objetos, Figuras Geométricos, Quadrados, Labirintos, e Completamento de
Gravuras). A WPPSI-R inclui ainda dois subtestes opcionais: o Tabuleiro dos
Animais como prova de realização e as Frases Memorizadas como prova verbal.
Neste estudo foram aplicadas apenas as cinco provas verbais da WPPSI-R, uma vez
que era nosso objetivo medir as competências verbais das crianças, ou seja, o
seu QI verbal, para controlar potenciais efeitos nos resultados obtidos em
relação às representações de vinculação das crianças, dada a natureza de
administração do instrumento ASCT.
A recolha dos dados relativos ao QI verbal de cada criança foi realizada de
forma individual e independente, em dias diferentes da recolha do ASCT, segundo
a disponibilidade de cada criança. As provas foram administradas pela seguinte
ordem: Informação, Vocabulário, Aritmética, Semelhanças e Compreensão.
Todas as respostas das crianças foram registadas nas respetivas folhas de
registo e posteriormente cotadas, através da atribuição de uma pontuação em
cada item de cada subteste, de acordo com as normas descritas no manual. De
seguida, estas pontuações foram somadas e o total bruto de cada subteste foi
transformado num total normalizado, considerando a idade de cada sujeito. Por
fim, os resultados normalizados foram somados e transformados num valor de QI
verbal.
Resultados
ASCT
As médias de Segurança variaram entre 3,66 e 7,43 (DP=0,87), enquanto as médias
de Coerência oscilaram entre 3,66 e 7,43 (DP=0,85). Uma vez que as duas
categorias do ASCT - Segurança e Coerência - se encontram
fortemente correlacionadas (r=0.97; p<0.001), optámos por utilizar nas nossas
análises apenas a dimensão da Segurança. Uma análise correlacional entre as
pontuações de cada participante relativamente à Segurança, nas diferentes
histórias do ASCT, demonstrou que estas se encontram significativamente
relacionadas entre si (entre 0,67 e 0,89). O valor do alfa de Cronbachpara o
conjunto das histórias foi de 0,81.
Através de uma correlação de Pearson, verificou-se que o QI verbal não se
encontra associado de forma estatisticamente significativa aos valores da
Segurança (r=0.149; p=0.204), sugerindo a ausência de uma influência da
capacidade verbal dos sujeitos nas pontuações obtidas nas histórias para a
Segurança.
Representações de vinculação e tipo de brincadeira interativa. De forma a
verificar a existência de uma associação entre a Segurança das representações
de vinculação e os diferentes tipos de jogo, foram realizadas correlações de
Pearson, que se revelaram estatisticamente significativas. Desta forma, os
resultados indicam uma correlação moderada e negativa entre a Segurança da
vinculação e o Jogo Disruptivo (r=-.32; p=.02) e entre a Segurança da
vinculação e o Jogo Isolado (r=-.43; p=.001), sugerindo que quanto mais baixos
os níveis de Segurança, os sujeitos parecem apresentar um maior número de
comportamentos agressivos e antissociais, bem como de retirada e exclusão
social. Em relação à Segurança e ao Jogo Interativo foi encontrada uma
correlação fraca e positiva (r=.28; p=.04) entre estas variáveis, indicando
que, quanto maiores forem os níveis de Segurança, maior será também a tendência
para comportamentos de, partilha e ajuda entre os pares.
Discussão
Na presente investigação, foi possível observar a existência de relações
positivas estatisticamente significativas entre a segurança das representações
de vinculação de crianças aos seus pais em idade pré-escolar e os seus
comportamentos de brincadeira interativa (jogo disruptivo, jogo isolado e jogo
interativo), reportado pelas educadoras em contexto escolar. Especificamente,
através da análise das narrativas produzidas no ASCT, os resultados
demonstraram que as crianças que apresentam valores mais elevados relativamente
à Segurança das representações das suas relações de vinculação aos pais,
apresentam também mais comportamentos associados ao tipo de Jogo Interativo.
De acordo com os resultados obtidos neste estudo, crianças capazes de construir
narrativas mais seguras, ou seja, mais capazes de enfrentar e resolver os
problemas que lhes foram apresentados nas diferentes histórias da ASCT, de
forma emocionalmente aberta e com resoluções mais coerentes, são também aquelas
que estabelecem mais interações positivas em brincadeira livre com os seus
colegas. Desta forma, crianças com modelos internos de vinculação mais seguros,
ao brincarem interactivamente com os seus pares na creche e jardim-de-infância,
são mais capazes de experimentar papéis e usar regras sociais - como
esperar a sua vez, partilhar, cooperar, considerar a perspetiva do outro, e
gerir a agressividade, entre outras - e desenvolvem capacidades de meta-
comunicação nas brincadeiras sociais de faz-de-conta (Bretherton, 1989). A
relevância destes dados é enfatizada pelo facto da capacidade de estabelecer e
manter interações lúdicas positivas no período pré-escolar ter vindo a ser
apontada como um dos principais indicadores de prontidão e de ajustamento
escolar durante a infância e a adolescência (Coolahan, Fantuzzo, Mendez, &
McDermott, 2000; Fantuzzo & McWayne, 2002; Ladd, 1990; Ladd, Price, &
Hart, 1988).
Por outro lado, constatámos no presente estudo que as crianças que apresentam
valores mais baixos ao nível da Segurança das representações de vinculação,
isto é, crianças com narrativas menos seguras, menos coerentes e mais restritas
ou inapropriadas de um ponto de vista emocional, onde as figuras de vinculação
se assumem como ausentes ou menos disponíveis para responder às suas
necessidades, tendem a apresentar um maior número de comportamentos associados
ao Jogo Isolado e ao Jogo Disruptivo. Para compreendermos melhor estes
resultados, importa refletir sobre os comportamentos específicos que compõem
cada um destes tipos de jogo.
O fator Desconexão (Jogo Isolado) traduz uma ausência de participação em
brincadeiras interativas, que tanto pode ser de retirada social como de
exclusão pelos pares. Não deixando de considerar as características individuais
da criança, bem como do seu macrossistema, as crianças com representações de
vinculação menos seguras apresentam uma tendência para serem mais cautelosas
face à exploração do meio e ao estabelecimento de novas interações sociais, o
que poderá justificar a existência de possíveis comportamentos de Jogo Isolado,
tais como permanecer fora das brincadeiras do grupo, vaguear pela sala e/ou
recusar brincar quando solicitadas. Por sua vez, no fator Disrupção, composto
por comportamentos de agressivos e antissociais na brincadeira, encontramos
crianças que apresentam na relação com os pares maiores dificuldades de gestão
emocional e comportamental, proporcionando a ocorrência de comportamentos
agressivos e desadequados durante as interações lúdicas.
Consideramos que a forma como recolhemos os nossos dados com recurso a fontes
de informação independentes reforça a validade dos resultados obtidos na
presente investigação. Contudo, consideramos que também que o presente estudo
apresenta algumas limitações: por um lado, utilizámos os relatos das educadoras
no que concerne às brincadeiras lúdicas das crianças, ou seja uma fonte de
observação indireta; por outro lado, o nosso tipo de amostra (não
probabilística de conveniência), contribui para a diminuição da generalização
dos resultados.
Futuras investigações que pretendam analisar a relação entre a qualidade das
representações de vinculação das crianças aos seus pais e o tipo de brincadeira
em crianças de idade pré-escolar, deverão utilizar uma amostra mais
diversificada do ponto de vista das características sociodemográficas,
sobretudo no que respeita ao estatuto socioeconómico das famílias. De forma a
contornar possíveis enviesamentos do instrumento utilizado para descrever os
comportamentos lúdicos das crianças em contexto escolar, seria importante, em
futuros estudos, o recurso adicional a uma metodologia de observação direta de
comportamentos de brincadeira livre. Seria também interessante perceber se a
relação entre as variáveis estudadas se mantêm noutros contextos não escolares.