Implicações da vinculação amorosa e suporte social na autoestima em jovens
universitários
Introdução
Processos de Vinculação e o desenvolvimento do jovem adulto
A teoria da vinculação originalmente estudada por Bowlby e Ainsworth, tornou-se
num importante contributo para a compreensão das relações interpessoais que se
estabelecem ao longo do ciclo de vida (Bowlby, 1988). A natureza dos laços
emocionais construídos desde os primeiros tempos de vida assume especial
relevância ao longo do desenvolvimento psicológico da criança e mais adiante na
adolescência e adultícia. Numa perspetiva da teoria evolucionista da
vinculação, a criança está dotada desde cedo de um sistema capaz de
diversificar os seus comportamentos com o fim de manter a proximidade da figura
de vinculação e garantir a sobrevivência. A proximidade e a capacidade de
acolher, dar e cuidar evidencia-se na forma da criança tolerar os momentos mais
difíceis que podem ir desde a mera separação física, até um nível mais elevado
como uma doença ou um desastre que ativa no adulto o sistema vinculativo,
estando mais capaz de combater a ansiedade (Ainsworth, Blehar, Waters, &
Wall, 1978). À medida que a criança cresce, este sistema assume contornos mais
complexos e diversificados, influenciado por representações internas de si, dos
outros e do mundo que a rodeia contribuindo para uma importante fonte de
previsão dos comportamentos sociais. Este conjunto de representações ou modelos
internos dinâmicos começam a ser formados nos primeiros meses de vida através
de acontecimentos de vinculação relevantes e refletem a história das interações
com as figuras cuidadoras. Desta forma, a disponibilidade e sensibilidade
pessoal dos pais ou figuras cuidadoras constitui um preditor para o
desenvolvimento futuro de laços afetivos, constatando-se uma associação entre a
segurança emocional e as relações com o grupo de pares e par amoroso (e.g.,
Allen et al., 2003). Na perspetiva do ciclo vital, a vinculação surge como um
processo contínuo que não termina na infância. Esta fase percebe-se como
difícil para o adolescente que, por um lado, busca a sua independência
psicológica e a sua autonomia pelo afastamento, mas por outro lado, não sente
suficiente segurança para se separar dos pais, recorrendo a eles como fonte de
apoio (Matos & Costa, 1996).
De acordo com uma perspetiva ecológica (Bronfenbrenner, 1996) as crianças vão
sendo progressivamente integradas num contexto exterior cada vez mais amplo, e
vão paulatinamente criando um distanciamento físico e temporal dos pais
entendido não como detachment, mas como oportunidade desenvolvimental de
exploração, que posteriormente permite o processo de individuação, ou o
constituir-se como diferenciado das relações com os pais, passando a integrar a
relação com os pares amigos e par amoroso, desenvolvendo um sentido de
autonomia do self(Mattanah, Brand, & Hancok, 2004). A entrada na
adolescência traduz a procura de integração e aceitação fora do contexto
parental, o que reflete um sentimento de pertença e valorização pessoal; e, em
simultâneo, a necessidade de manutenção do laço parental, fonte impreterível de
segurança, mesmo que fisicamente mais ténue na relação direta (Fleming, 2003).
Nesta medida, o desenvolvimento pessoal passa pelo processo de individuação e
pela forma como os jovens percebem as suas experiências emocionais como sendo
mais ou menos satisfatórias, repercutindo-se na relação com as demais figuras
significativas (Buhl, 2008). O processo de separação enfatiza a importância de
terem mais responsabilidade emocional, comportamental e cognitiva onde se
destaca a maior independência aos pais e a progressiva ligação ao par amoroso
(Allen & Stoltenberg, 2001).
Posto isto, a conceção do desenvolvimento humano é visto como um processo
dinâmico e que se constrói continuamente à semelhança do processo vinculativo e
que tem a capacidade de desenvolver e manter ligações com os pares, ou com o
par romântico. Durante os últimos 20 anos, a teoria de vinculação tornou-se
numa estrutura consistente para clarificar o cariz das relações de namoro que
se estabelecem nos jovens (Fraley & Shaver, 2000). À semelhança do que
acontece no período da infância em que a criança procura segurança na figura
vinculativa, também no período da adultícia os jovens adultos experimentam
sentimentos de procura de segurança na relação de namoro (Hazan & Shaver,
1987). Portanto, o amor romântico é um processo biossocial, constituído por
laços afetivos que se formam entre dois parceiros à semelhança dos laços
afetivos que são formados na infância. Dito de outra forma, para que uma
vinculação se forme, deve haver uma forte ligação de proximidade. Na infância
esta proximidade é regulada pelos sistemas de vinculação que promovem segurança
na criança. Nas relações de namoro, Hazan e Shaver (1994, p. 11) mencionam que
"the sexual mating system (sexual attraction) to be another primary
instigator for the proximity seeking that is the first step toward attachment
formation".
Os efeitos da vinculação amorosa no jovem adulto
Vários estudos foram realizados no âmbito da vinculação na idade adulta.
Bragança e Campos (2010) com uma amostra de 187 estudantes universitários com
idades compreendidas entre os 18 e os 43 anos, concluíram que a relação entre
experiências relacionais na infância com as figuras significativas, se
relacionam com os estilos de vinculação amorosa no adulto. Sendo assim, as
experiências baseadas numa vinculação segura entre o pai e a criança, parecem
importantes para a oportunidade de vir a constituir, na posteridade, relações
satisfatórias com o par romântico. Tendo um modelo positivo de si e negativo do
outro, os desinvestidos terão uma tendência para que nas relações amorosas
apresentem baixos níveis de confiança, incapacidade de interdependência, falta
de proximidade e evitamento da intimidade. Por outro lado, um modelo positivo
de si e do outro, características dos seguros, leva-os a confiar em si próprios
enquanto sujeitos passíveis de ser amados e passíveis de amar.
Mais frequentemente, as fontes de segurança do jovem adulto dividem-se pelas
várias ligações afetivas significativas, seja no âmbito familiar, seja no
âmbito amoroso, seja ainda, no âmbito de algumas relações de amizade. Mais
tardiamente, e embora o jovem adulto disponha de um contíguo mais ou menos
alargado de figuras, que poderão eventualmente fornecer as funções de
vinculação, o par romântico tende a assumir um lugar primordial na hierarquia
das figuras de vinculação (Hazan & Zeifman, 1994).
Suporte social, vinculação na relação romântica e a autoestima em jovens
adultos
A presença de suporte social parece afetar positivamente o bem-estar emocional
dos jovens, pois pode trazer-lhes um conjunto de resultados satisfatórios, uma
vez que o jovem se percebe como disponível, amado, reconhecido e valorizado
(Pinheiro & Ferreira, 2005). Sarason, Levine, Basham e Sarason (1983, p.
197) referem-se ao suporte social como "existência ou a disponibilidade
de pessoas em que se pode confiar, nos mostram que se preocupam connosco, nos
valorizam e gostam de nós". Portanto, o suporte social é um constructo
multidimensional comportando recursos psicológicos e materiais que estão ao
dispor do sujeito nas suas relações sociais (Sarason & Sarason, 2009). O
suporte social, mais especificamente o suporte familiar e suporte dos amigos,
pode ser considerado um dos mais relevantes amortecedores de acontecimentos de
vida adversos, tornando-o fundamental nos estudos de resiliência psicológica
(Batista, 2005). O suporte social pode também ser estruturado por professores
desde que assumam funções que caracterizem as dimensões exigência e
responsividade (Feitosa, Matos, Prette, & Prette, 2005).
Adicionalmente o suporte social poderá estar ligado ao desenvolvimento de uma
melhor ou menor qualidade de relacionamentos que se estabelece, ou seja, a
relação romântica não existe num vácuo, ela é influenciada pela rede social dos
jovens, que poderá ser a família, amigos ou até conhecidos (Sprecher, 2011).
Por outro lado, a presença de suporte social também parece afetar positivamente
o bem-estar emocional dos jovens e trazer-lhes um conjunto de resultados
satisfatórios, uma vez que o jovem se percebe como disponível, amado,
reconhecido e valorizado (Arslan 2009; Cordero, 2011; Ratelle, Simard, &
Guay, 2013; Talaei & Ardani, 2010).
Paralelamente, o suporte social e a vinculação amorosa poderão influenciar a
autoestima do jovem adulto. A autoestima é definida como o valor que os
indivíduos conferem a eles próprios, estabelecendo um elemento importante no
auto conhecimento (Baumeister, 1993), referindo-se a uma atitude positiva ou
negativa em relação a si próprio (Rosenberg, Schooler, Schoenback, &
Rosenberg, 1995). De acordo com a teoria da vinculação, a qualidade da relação
com as figuras vinculativas contribuem para o desenvolvimento da autoestima,
podendo esta funcionar como moderadora (Rocha, Mota, & Matos, 2001). Desta
forma, a qualidade das relações amorosas parece associar-se à qualidade da
autoestima, pois jovens que são confiantes e seguros apresentam uma melhor
qualidade de relacionamento amoroso. Cramer (2003) postula que a autoestima
está positivamente relacionada com condições que facilitam as relações amorosas
e negativamente relacionada com a procura de aprovação. Sendo que, a noção que
os jovens têm sobre si próprios parece relacionar-se com qualidade da sua
relação com os outros podendo exercer um efeito significativo na autoestima
(Knee, Canevello, Bush, & Idiro, 2008). Um estudo realizado por Veld e
Denollet (2011) com 555 participantes sobre o tipo de vinculação e a autoestima
verificou que o tipo de vinculação apresenta uma correlação significativa com a
autoestima. É ainda importante mencionar que estudos de Murray, Holmes e
Griffin (2000), apoiam a ideia de que indivíduos com baixa autoestima
subestimam a visão otimista que o parceiro possa ter sobre ele, estando
relacionado com níveis baixos de bem-estar na relação.
Método
Objetivo
Esta investigação tem como objetivo analisar em que medida a qualidade da
relação com o par amoroso e o suporte social percebido pelos jovens adultos
afetam a autoestima.
Hipóteses
De acordo com o objetivo traçado foram elaborados três hipóteses: Espera-se que
as dimensões de suporte social se correlacionem positivamente com as dimensões
de qualidade da vinculação amorosa e com a autoestima; Aguarda-se que o suporte
social tenha um efeito positivo significativo na autoestima; Espera-se que a
qualidade da relação romântica exerça um papel moderador entre a perceção de
suporte social e autoestima.
Participantes
A amostra é constituída por 334 indivíduos, com idades entre os 18 e os 25 anos
(M=20.15; DP=1.92), de ambos os géneros, 125 jovens do sexo masculino (37.4 %)
e 209 do sexo feminino (62.6%). Um total de 179 jovens (53.5%) apresentam
atualmente uma ligação amorosa e 155 jovens (46.4%), embora já tenham tido, não
apresentam no momento uma relação amorosa. Assim, 328 jovens (98.2.%) indicam
que ter uma relação romântica é muito importante, e apenas 6 jovens (1.8%)
referem que não é importante ter uma relação romântica. Em relação à
escolaridade, amostra compõem-se maioritariamente por alunos que frequentam o
segundo ano de licenciatura (40.4%), seguindo-se os alunos do primeiro ano da
licenciatura (35.3%), e por último, os alunos do primeiro ano de mestrado (3%).
Relativo à configuração familiar (pessoas com quem vivem), importa referir que
275 jovens vivem com os pais (82.9%), 19 jovens referem morar com os avós
(5.9%), 9 jovens mencionam morar com o namorado(a) (2.7%), 18 jovens referem
morar com pais e avós (5.7%) e 10 jovens mencionam morar com os irmãos (2.9%).
Procedimentos
Tratando-se de um estudo transversal a recolha dos dados foi realizada apenas
num momento. A administração do protocolo de investigação foi realizada através
da autorização prévia dos presidentes de várias escolas da Universidade de
Trás-os-Montes e Alto Douro - UTAD, em vila real, norte de Portugal.
Foram garantidos os princípios éticos, nomeadamente o anonimato e proteção de
dados, bem como a voluntariedade da participação no estudo. No decorrer da
aplicação do protocolo, realizada em contexto letivo, foram dadas instruções
padrão de preenchimento, verificando-se uma total adesão e disponibilidade por
parte dos alunos. Posteriormente os dados foram introduzidos na base de dados
com recurso ao programa SPSS versão 19. Foi realizada a limpeza da amostra,
identificando os missingse os outliers(observações que apresentam um grande
afastamento das restantes ou são inconsistentes com elas) através do método
combinatório hierárquico (determinação dos Z e posteriormente, os
outliersmultivariados com a distância de Mahalanobis. Foram ainda realizadas
análises preliminares no sentido de averiguar as propriedades psicométricas dos
instrumentos utilizados, consistências internas com recurso ao programa SPSS e
análises fatoriais confirmatórias de 1ª ordem com recurso ao programa EQS,
versão 6.1. Foi ainda testada a normalidade da amostra afim de garantir o uso
de análises paramétricas.
Instrumentos
Foi utilizado o Questionário de Vinculação Amorosa - QVA(versão breve
adaptado por Matos, Cabral, & Costa, 2008). O QVA é um questionário de
autorrelato inspirado nas contribuições teóricas e conceptuais de Bowlby e
Ainsworth e na proposta de avaliação da vinculação de Bartholomew. Nesta
investigação foi utilizada a versão reduzida, constituída por 25 itens que se
dividem em quatro dimensões, sendo elas a Confiança(6 itens), a Dependência(6
itens), o Evitamento(6 itens) e, por fim, a Ambivalência(7 itens). O tipo de
resposta constitui uma escala tipo Likertde 6 pontos, que vai do discordo
totalmente até ao concordo totalmente. Na presente amostra o instrumento
apresenta alphade Cronbachadequados. Na escala total apresenta um alphade
Cronbachde .80, nas subescalas, nomeadamente, na dimensão confiança .89, na
dimensão dependência .79, na dimensão ambivalência .81 e por fim, na dimensão
evitamento .81. As análises fatoriais confirmatórias de 1ª ordem evidenciaram
índices de ajustamento adequados, χ2
(66)=157.77; p=.001; Ratio=2.39, um CFI de .95, um RMSEA de .08 e um SRMR de
.062.
Também foi utilizado o Social Support Appraisals - SSA(Vaux, 1986;
adaptação de Antunes & Fontaine, 1994). Este questionário baseia-se na
perceção de suporte social e permite distinguir a perceção de apoio dos pais,
amigos, e o apoio geral. A versão portuguesa do questionário SSA (Antunes &
Fontaine, 1994) utilizada nesta investigação, divide-se em quatro subescalas:
perceção de apoio da família (7 itens); perceção de apoio dos amigos (8 itens);
perceção de apoio dos professores (7 itens) e perceção de apoio em geral (8
itens). Os itens contêm afirmações em que o indivíduo deve responder de acordo
com a escala de Likert de seis pontos com opções de resposta que variam entre o
"concordo totalmente" ao "discordo totalmente". Nesta
pesquisa, a escala SSA, mostrou valores de consistência interna satisfatórios,
sendo que o alpha de Cronbach total é de .88. Para a subescala a perceção de
apoio social dos amigos (SSA-am), o valor é de .81. Para a subescala perceção
de apoio da família (SSA-fam) foi obtido um valor de .87. Relativamente a esta
dimensão, importa mencionar que o item 9 foi retirado, pois na presente amostra
não se correlaciona significativamente com os demais itens, diminuindo
significativamente a consistência interna. Para a subescala perceção do apoio
social dos professores (SSA-prof) o valor é de .85. Por fim, a subescala
perceção de apoio social em geral (SSA-ger) o valor é de de .79. As análises
fatoriais confirmatórias de 1ª ordem evidenciaram índices de ajustamento
adequados χ2
(66)=133.51; p=.001; Ratio=2.02, um CFI de .095, um RMSEA de .08 e um SRMR de
.047.
A Rosenberg Self-Esteem Scale - RSES(Rosenberg, 1987; Adaptação de Rocha
& Matos, 2003) foi utilizada neste estudo para avaliar a autoestima. É
considerada atualmente um dos instrumentos mais usados para a avaliação da
autoestima global apresentando uma das tentativas de obter uma medida
unidimensional da autoestima. A RSES é constituída por 10 itens, com conteúdos
relativos aos sentimentos de respeito e aceitação de si mesmo. Metade dos itens
estão expressos de uma forma positiva e a outra metade de uma forma negativa
(item 3, 5, 8, 9 e 10), devendo portanto ser invertidos. Na presente amostra, o
valor de consistência interna, alphade Cronbachfoi de .86. Relativamente aos
índices de ajustamento, aquando da análise fatorial confirmatória de 1ª ordem,
verificamos valores igualmente valores robustos: χ2(32)=83.42; p=.001;
Ratio=2.60, CFI .96 e RMSEA de .07, SRMR .048.
Resultados
Associação entre as variáveis de vinculação amorosa, perceção de suporte social
e autoestima.
Como se pode verificar através da análise da Tabela_1 existem associações
significativas entre os instrumentos utilizados (QVA, SSA e RSES) na amostra.
Na associação entre as variáveis de vinculação amorosa, perceção de apoio
social e autoestima, verifica-se correlações significativas positivas
moderadamente baixas entre a vinculação amorosa na dimensão confiança com a
perceção de apoio da família (.288**), uma associação significativa positiva
baixa entre a confiança com a perceção de apoio dos amigos (.186**), uma
correlação significativa positiva e moderadamente baixa entre a confiança e a
perceção de apoio dos professores (.243**) e também uma associação
significativa positiva baixa entre a confiança e a perceção de apoio em geral
(.193**). Na dimensão ambivalência (da vinculação amorosa) apresentam uma
correlação significativa negativa e moderadamente baixa entre a perceção de
apoio familiar (-.244**), uma associação significativa negativa e baixa com a
perceção de apoio dos amigos (-.165**), uma correlação significativa negativa e
moderadamente baixa com a perceção de apoio dos professores (-.204**) e uma
associação significativa positiva e moderadamente baixa com a perceção de apoio
em geral (.259**). Na dimensão dependência, as associações mostram-nos uma
associação negativa moderadamente entre a perceção de apoio em geral (-.115*).
Na dimensão evitamento, as correlações dão-nos conta de uma associação negativa
moderadamente entre a perceção de apoio dos amigos (-156**) e perceção de apoio
em geral (-.126**) e uma associação significativa negativa e moderadamente
baixa entre a perceção de apoio da família (-237**).
Relativamente à autoestima, verifica-se uma correlação significativa negativa
embora moderadamente baixa entre as variáveis de vinculação amorosa,
nomeadamente da ambivalência (-.271**), uma associação significativa negativa
embora baixa com a dependência (-.136*) e com o evitamento (-.121**), ou seja,
níveis superiores de ambivalência, dependência e evitamento, associam-se a
menor autoestima. Por outro lado, verifica-se uma correlação significativa
positiva e moderadamente baixa entre a autoestima e a perceção de apoio dos
amigos (.226**), ou seja, quanto maior é a perceção de apoio dos amigos, maior
é a autoestima.
Efeito preditor do suporte social e relação romântica na autoestima
A análise da regressão múltipla hierárquica relativamente à autoestima (Tabela
2) permitiu perceber o efeito preditor de várias variáveis independentes que
foram inseridas em blocos distintos: no bloco 1, foi inserido o género
explicando 0.3 % da variância total (R2
=.003), contribuindo individualmente com 0.3% da variância para o modelo
(R2change=.003). No bloco 2, o questionário de vinculação amorosa, explica
12.3% da variância total (R2
=.123), apresentando um contributo individual de 12% (R2change=.120) com uma
contribuição significativa [F(5,304)=8.530; p=0.000]. No bloco 3, o suporte
social explica 32.4% da variância total (R2
=.324), apresentando um contributo individual de 20.1% (R2change=.201) com uma
contribuição significativa [F(9,300)=15.992; p=0.000].
Assim, ao examinar particularmente a contribuição de cada uma das variáveis
independentes dos blocos, a variável perceção de apoio em geral mostra um
contributo positivo de β=.491. A variável perceção de apoio dos professores
apresenta uma contribuição significativa com um peso positivo β=.125 e a
variável perceção de apoio da família com um peso β=.105. Por outro lado,
averiguamos que o QVA dependência apresenta um peso negativo de β=-.165 e o QVA
ambivalência apresenta uma contribuição significativa negativa com um peso de
β=-.161.
Papel moderador da vinculação amorosa na associação entre a perceção de suporte
social e autoestima
Por forma a testar a separadamente o papel moderador da variável qualidade da
vinculação amorosa, foi realizada uma análise independente das demais variáveis
com recurso à covariância. Nesta medida foi necessário converter as variáveis
do SSA e do QVA, contendo apenas 2 grupos - alto/baixo nível de suporte
social e qualidade da vinculação amorosa. Desta forma procedeu-se à elaboração
das médias das respetivas dimensões que compõem o QVA separadamente pretendeu-
se criar uma variável para cada dimensão e a partir daqui realizar a
categorização em alto e baixa vinculação ao par amoroso (e.g., ambivalência,
dependência), com objetivo de examinar os que se encontram abaixo (baixo) e
acima (alto) das respetivas médias. Os mesmos passos foram realizados no que
respeitam às dimensões da perceção de suporte social.
Feitos estes procedimentos iniciais no sentido de preparar a variável
moderadora (QVA) e a variável preditora (SSA) para as análises, procedeu-se
posteriormente à realização das análises de covariância (ANCOVA) no sentido de
verificar as interações face à variável dependente - autoestima. Os
resultados verificaram apenas a existência de significância na variável
qualidade de vinculação amorosa com efeito da dependência e em função da
variável perceção de apoio em geral (SSA) F(1,306)=4.678; p=.031. Deste modo,
sujeitos com uma alta perceção de apoio geral e na presença de uma baixa
dependência na vinculação amorosa, evidenciam mais autoestima, comparativamente
com sujeitos com uma baixa perceção de apoio geral e uma alta dependência na
vinculação amorosa.
Discussão
Esta investigação teve como intuito perceber em que medida a qualidade da
relação com o par amoroso e o suporte social percebido pelos jovens adultos
afetam a autoestima.
Os resultados observados apontam para a existência de uma associação embora
baixa a moderada, na dimensão confiança com a perceção de suporte social,
nomeadamente o apoio dos amigos, da família, dos professores e em geral. Nesta
medida jovens com um suporte social positivo, das figuras parentais, amigos e
outras figuras em geral parecem assumir maior disponibilidade na relação com os
demais, criando uma imagem positiva de si e em consequência sentindo-se mais
confiantes na relação amorosa (Bragança & Campos, 2010; Sprecher, 2011). Um
estudo realizado com 529 estudantes a frequentar o ensino universitário teve
como objectivo perceber numa perspetiva social as relações amorosas.
Verificaram que os seus comportamentos sociais tiveram influência nos seus
relacionamentos amorosos (Sprecher, 2011).
Os resultados apontam ainda associações negativas, baixas a moderadamente
baixas, entre a vinculação amorosa e a autoestima. Nesta medida, jovens que
sentem as suas relações amorosas pautadas por ambivalência, dependência e
evitamento parecem manifestar menos segurança nas relações, desenvolvendo uma
imagem menos positiva de si, questão que parece assumir relevância no que
respeita à auto-estima. Por sua vez índices mais elevados de autoestima
traduzem uma maior segurança ao par amoroso (Murray, Holmes, & Griffin,
2000; Veld & Denollet, 2011).
Face às análises correlacionais foram também encontradas associações entre a
perceção de suporte social, nomeadamente a perceção de apoio dos amigos com a
autoestima. Parece que os jovens que se sentem amadas e aceites no seu contexto
social, parecem manifestar uma perceção da sua autoestima mais elevada
(Marigold, Cavallo, Holmes, & Wood, 2014).
No que concerne à predição da autoestima, o suporte social assume uma maior
percentagem de variância explicada do modelo. Especificamente verificamos uma
contribuição positiva da perceção de apoio da família, dos professores e apoio
em geral. Os resultados vão de encontro ao esperado na medida em que a família
exerce um papel preponderante na autoestima do jovem adulto. Desta feita a
qualidade das experiências de vinculação e a sua representação através da
construção dos modelos internos dinâmicos parecem contribuir para o
desenvolvimento socio-emocional. Por um lado, a família e os professores
oferecem uma sensação de segurança e conforto que permite ao jovem ter a
perceção de que ele ou ela é cuidado estimado e valorizado e consequentemente
aumentando a autoestima (Demaray, Malecki, Davidson, Hodgson, & Rebus,
2005). O estudo com jovens estudantes com idade de média de 20 anos sobre o
suporte social e autoestima verificou que os sujeitos com baixa autoestima
estão envolvidos em menos comportamentos sociais (Marigold, Cavallo, Holmes,
& Wood, 2014). Phillips (2012) corrobora esta ideia no seu estudo realizado
com 278 adolescentes com idade média de 14.78, sobre a influência da
configuração familiar versuso clima familiar com o bem-estar dos participantes,
verificaram que o clima familiar e o bem-estar (autoestima) apresentam uma
correlação significativa. Portanto, uma perceção de suporte familiar contribui
para um melhor desenvolvimento da autoestima dos jovens.
Por outro lado, também o suporte dos professores parece assumir um papel
relevante na vida do jovem adulto. Antunes e Fontaine (2005) sugerem que a
relação com os professores é considerada importante para o desenvolvimento da
autoestima, uma vez que um meio envolvente positivo é crucial para o bem-estar
dos jovens. Neste sentido os professores aumentam o bem-estar dos alunos,
quando as relações são impressas de confiança, partilha, apoio e compreensão,
pelo que os jovens se sentem mais disponíveis afetivamente enquanto merecedores
de afeto e valorização de si. De acordo com Mota e Matos (2014) a escola assume
um lugar importante na vida do jovem, pois é um local onde passam a maior parte
do seu tempo, mas também um lugar externo à família, e onde se vivenciam
relações empáticas e positivas que promovem o desenvolvimento positivo de si.
Um aspeto interessante e inesperado refere-se ao facto de a perceção de suporte
social dos amigos não ser significativo nesta faixa etária. Nesta medida
importa analisar este resultado à luz da faixa etária em estudo, nomeadamente
os adultos emergentes. Assim, enquanto que na adolescência o grupo de pares
assume extrema relevância, nos jovens adultos este aspeto parece dissolver-se
em detrimento das relações parentais e o investimento na relação amorosa.
Adicionalmente, a vinculação amorosa na sua dimensão de ambivalência e
dependência mostra um contributo significativo negativo na predição da
autoestima. No que refere ao contributo da vinculação amorosa, verificamos que
a ambivalência e a dependência apresentam, tal como esperado, um efeito
negativo na autoestima repercutindo-se na forma como o jovem adulto se sente na
relação romântica. Jovens com padrão de ambivalência e dependência nas relações
com os pares românticos poderão evidenciar vivências inseguras e modelos
internos de si negativos. Nesta medida, jovens com modelos de vinculação
insegura apresentam atitudes disfuncionais e consequentemente uma baixa-
autoestima (Bragança & Campos, 2010; Lee & Hankin, 2009; Murray,
Holmes, & Griffin, 2000).
Finalmente aquando da análise do papel moderador da vinculação amorosa na
associação entre o suporte social e a autoestima, sublinha-se que a vinculação
amorosa parece ter um efeito significativo enquanto moderador desta relação.
Todavia, a significância estatística apenas se mostrou evidente na dependência
(QVA) e na variável perceção de apoio em geral (SSA). Assim, jovens com uma
alta perceção de apoio em geral e baixa dependência na vinculação amorosa
evidenciam maior autoestima, quando comparados com jovens com uma perceção de
apoio geral baixo e alta dependência. Portanto, elevada dependência na relação
amorosa parece prejudicar o desenvolvimento da autoestima, se a perceção de
apoio for baixa. Note-se que o apoio geral continua a fazer a diferença no
sentido de predizer a autoestima, mas sempre que os níveis de dependência ao
par amoroso se mostram baixos (o que implica mais segurança na relação dos
jovens). Um estudo realizado por Arslan (2009) com 499 sujeitos com idades
compreendias entre os 16 e os 18 anos, pretenderam verificar as associações
entre a perceção de apoio social, a autoestima, a raiva-traço e ainda a
expressão de raiva. Um dos resultados averiguados com esta investigação, foi a
presença de uma relação positiva significativa entre a autoestima e o apoio
social (dos professores e da família). Este estudo apoia as conclusões desta
investigação, corroborando a importância do apoio social fornecido ao jovem
adulto, e a construção da imagem positiva de si enquanto merecedor deste
suporte. Adicionalmente importa discutir que elevada dependência na qualidade
de vinculação amorosa pode traduzir relações menos seguras, com jovens menos
capazes de resolver de forma adaptativa o processo de separação-individuação.
Desta forma a qualidade da vinculação amorosa assume uma importância cabal no
bem-estar dos jovens adultos, constituindo uma peça relevante na construção da
autoestima. Lehmiler (2009) suporta esta posição, na medida em que o
comprometimento da proximidade psicológica entre os parceiros românticos,
representa uma ameaça à estabilidade enquanto casal, podendo gerar sentimentos
negativos, como uma baixa autoestima. Rocha (2008) sugere que a autoestima se
relaciona com a qualidade das relações amorosas de tal modo que, índices mais
elevados de autoestima global se traduzem em maior segurança ao par amoroso, ou
seja, em maior confiança, menor dependência e evitamento. Como nota final,
destaca-se que as variáveis em estudo parecem apresentar um significativo grau
de bidirecionalidade, na medida em que a literatura (e.g., Cramer, 2003; Knee,
Canevello, Bush, & Idiro, 2008; Veld & Denollet, 2011) suporta o facto
de que a autoestima enquanto variável desenvolvimental se associa de forma
muito significativa com o desenvolvimento da qualidade da vinculação que os
jovens são capazes de estabelecer com as figuras parentais, par amoroso e
outras figuras significativas em geral. Desta feita, ressalta a qualidade da
relação aos pais e par amoroso no presente estudo, questão que poderá prender-
se com a faixa etária em análise, verificando-se uma menor relação com o
contexto escolar, dado que a relação com professores no contexto universitário
tende a ser mais distante e ainda uma menor valorização do papel dos pares, que
ainda que presente deixa de ser considerado o porto seguro por excelência tal
como acontece na adolescência.
Conclusão e implicações práticas
Chegando ao final desta investigação é possível tecer algumas considerações aos
resultados adquiridos, ressaltando limitações inerentes a um estudo deste tipo
e implicações práticas com vista à sua continuidade em futuras investigações.
Este estudo apresenta importantes implicações práticas, nomeadamente a
pertinência da análise do suporte social conferido aos jovens aquando da
transição para o meio universitário. Frequentemente são percebidas situações de
abandono, desadaptação e até psicopatologia dos jovens no meio universitário,
pela ausência de relações de apoio, quer das figuras parentais, grupo de pares
ou par romântico. Importa portanto destacar a relevância de um processo de
transição adaptativo para o desenvolvimento da autoestima dos jovens, questão
fundamental para um percurso académico e pessoal saudável. Por outro lado,
destaca-se neste estudo a introdução de análises que comportam as variáveis de
suporte social e a vinculação amorosa, pelo que a literatura científica
portuguesa aborda de forma escassa a sua conjugação e implicações no
desenvolvimento afetivo e académico dos jovens.
Paralelamente, e de encontro ao que era esperado foi interessante averiguar os
contornos que a autoestima adotou na investigação constatando-se a importância
do suporte social e do estabelecimento de relações amorosas de qualidade no
desenvolvimento adaptativo dos jovens.
Para finalizar, torna-se relevante apontar pistas futuras que podem ser fios
condutores para novos trabalhos. Nesta medida, seria interessante alargar este
tipo de estudo para outro tipo de população, uma vez que a esta amostra engloba
apenas estudantes universitários, no sentido de controlar outras variáveis,
nomeadamente os estilos parentais, a configuração familiar e ainda o nível
socioeconómico dos jovens. De destacar que a variável autoestima assumiu um
papel relevante enquanto variável predita, todavia a literatura destaca que ela
também pode constituir uma variável preditora que pode ser controlada no
sentido de testar a predição da vinculação amorosa e perceção de suporte
social. Outras variáveis poderiam ainda ser acrescidas a este estudo,
nomeadamente processos de coping.
Apesar do contributo destes resultados, existe a consciência de algumas
limitações inerentes aos estudo, nomeadamente o facto de ser uma amostra de
estudantes universitários, não representativa da população jovem adulta,
condicionando a generalização destes resultados. Dada a natureza transversal da
presente investigação, verifica-se uma limitação no que concerne ao
estabelecimento de causalidade entre variáveis pelo que seria interessante
recorrer-se a estudos longitudinais, com o objetivo de avaliar a evolução dos
jovens. Uma outra limitação refere-se ao facto dos instrumentos utilizados na
investigação serem de autorrelato, onde poderá limitar a perspetiva apenas aos
jovens, sendo relevante em futuros estudos ter em consideração a perspetiva dos
pais, dos pares e dos professores. Apesar das limitações da pesquisa, julga-se
ter contribuído com um pouco mais de conhecimento acerca dos efeitos das
variáveis de vinculação amorosa, do suporte social e da autoestima no
desenvolvimento do jovem adulto, especialmente no que concerne ao processo
adaptativo no contexto universitário.