O conhecimento e acesso ao script de base segura e a perceção de suporte social
em mães com crianças em idade pré-escolar
Introdução
Segundo Bowlby (1988) os comportamentos da figura de vinculação são organizados
num "sistema de cuidados parentais" recíproco ao sistema
comportamental de vinculação da criança. Nesse sentido, George e Solomon (2008)
consideram que a análise e compreensão deste sistema constitui-se como uma mais
valia, na medida em que possibilita um olhar sobre as relações de vinculação
sob a perspetiva parental.
O desenvolvimento do sistema de cuidados consiste numa complexa transação entre
fatores biológicos e as experiências vivenciadas pelo indivíduo. O principal
objetivo deste sistema é a promoção da proximidade pais-filhos, com a função
biológica adjacente de proteção (Cassidy, 2000; George & Solomon, 2008).
George e Solomon (2008) definiram o sistema de cuidados como um conjunto de
comportamentos parentais os quais pretendem promover a proximidade e conforto
(proteção e sobrevivência da cria enquanto principal função adaptativa), nas
situações em que os pais (ou seus substitutos) se apercebam que a criança
esteja a vivenciar uma situação de perigo, potencial ou efetivo (e.g.,
separação, medos da criança, desconforto ou stress sentido pela criança). No
seguimento desta situação as figuras parentais colocarão em ação diversos
comportamentos (ativação do sistema) ligados à função protetora deste sistema
(e.g., manter proximidade, pegar, chamar, observar, sorrir). Assim que a
aproximação (física ou psicológica) à criança acontece e esta se encontra
confortada ocorre a desativação do sistema de cuidados parentais (Cassidy,
2000; Mikulincer & Shaver, 2007). É, portanto, através deste sistema que
são postas em exercício as funções de uma figura de vinculação: providing a
safe havene providing a secure base for exploration(Bowlby, 1997).
O sistema de cuidados parentais tem na sua génese o sistema comportamental de
vinculação e os modelos internos dinâmicos (MID) de vinculação do indivíduo
(componente integrante do sistema de vinculação ao nível representacional) cuja
construção ocorre durante a infância, no contexto das relações de vinculação.
Este sistema engloba, assim, representações mentais do sujeito enquanto
cuidador, da criança enquanto recetora dos seus cuidados e das relações pais-
criança. Estas representações mentais guiarão os comportamentos de cuidados
parentais do sujeito, influenciando as suas expectativas, sentimentos e ações
enquanto pai/mãe (George & Solomon, 2008). Este sistema, ao nível
cognitivo, é regulado por um modelo de relações distinto, contando com uma
trajetória de desenvolvimento e de organização mental diferente dos MID de
vinculação. Assim, apesar de ter o seu início na infância, o sistema de
cuidados atinge o exponencial do seu desenvolvimento na transição para a
parentalidade (George & Solomon, 2008).
A noção de que as experiências construídas no passado determinam, em parte, a
parentalidade como é abordado por autores como Sroufe e Fleeson (1986) ao
sugerirem que os bebés aprendem os dois lados da relação diádica, nomeadamente,
como é ser um bebé por um lado, enquanto por outro, como é o comportamento de
uma figura parental. A teoria da vinculação sugere que os indivíduos que
durante os primeiros anos de vida experienciam cuidados sensíveis, em
contraposição às crianças expostas a cuidados insensíveis e marcados pela
inconsistência, tendem a representar e ter expectativas do seu cuidador como
responsivo, desenvolvendo sentimentos de segurança e confiança face ao mesmo
(Ainsworth, Blehar, Waters, & Wall, 1978; Bowlby, 1988). Apesar de durante
a infância os MID se encontrarem abertos à mudança, dependendo de alterações
significativas na qualidade dos cuidados parentais (Bretherton &
Munholland, 2008) estes, com o desenvolvimento da criança, vão-se tornando cada
vez mais estáveis através de experiências repetidas no tempo, acabando por se
generalizar. Segundo Bretherton (1985) os MID dos pais face às suas relações de
vinculação na infância guiam o comportamento do indivíduo enquanto figura de
vinculação no futuro, recorrendo para tal aos modelos das suas figuras
parentais ou do self.
Na perspetiva de Waters e Rodrigues-Doolabh (2001) a história individual de
interações entre a criança e a figura de vinculação é representada na memória
sob a forma de um script de base segura. Se o suporte de base segura vivenciado
pelo indivíduo foi consistente e adequado, o script será completo, bem
consolidado, e de fácil acesso, em situações que remetam para conteúdos ou
experiências de vinculação. Assim, uma história de suporte efetivo e credível
tenderá a ser generalizada, enquanto expectativa que a figura de vinculação
estará "sempre" acessível e disponível, seja enquanto porto de
abrigo ao qual a criança poderá regressar, seja enquanto base segura e a partir
da qual poderá explorar o ambiente físico e social em segurança (Waters &
Waters, 2006). A longo destas interações o indivíduo vai construindo não só
representações do que é procurar e receber suporte mas, também, o que é dar
esse suporte. Embora abertas a revisão e mudança, estas crenças construídas no
contexto das relações com os cuidadores, na idade adulta servirão de ponto de
partida para crenças mais gerais do indivíduo, quer seja acerca das relações
românticas, quer de relações de parentalidade (Wais & Treboux, 2003).
Assim, apesar de estáveis no tempo a idade e experiência do indivíduo vão
tornando estes esquemas mais elaborados e flexíveis. Estas representações
permitem ao indivíduo antecipar, prever e interpretar as experiências do
quotidiano, tornando-se possível não só especificar as ligações temporais e
causais, como igualmente remeter para um conjunto de ações e expectativas
subjacentes a determinado evento familiar (Waters & Rodrigues-Doolabh,
2001).
O protótipo de script de base segura engloba uma sequência de eventos no qual:
(1) o cuidador apoia a exploração da criança; (2) mantem-se disponível,
responsivo e serve como um recurso se necessário; (3) a criança encontra um
obstáculo/ameaça e sente-se assutada/medo; (4) procura o cuidador ou este
dirige-se até ela; (5) a situação de perigo é resolvida ou removida; (6) a
proximidade e/ou contacto com o cuidador conforta a criança de forma eficaz e
finalmente (7) a criança regressa novamente à brincadeira/exploração sendo o
equilíbrio restabelecido (Waters & Waters, 2006). É, deste modo, possível
perceber que a base segura (pais/companheiro) ajudará o outro (criança/
companheiro) a lidar com uma situação de stress, promovendo o restabelecimento
do equilíbrio e retorno à normalidade. Para que se verifique tal organização,
nas histórias elaboradas pelos sujeitos, a "base segura" deverá
ajudar o outro na seleção e implementação de estratégias que visem normalizar a
situação vivenciada, difundindo ou evitando sentimentos de angústia e
facilitando a mudança para outras atividades, podendo, em função da idade da
criança, ajudá-la a compreender o ocorrido. Compete também à "base
segura" salientar o lado positivo das experiências, bem como ser sensível
ao estado emocional do outro. Uma narrativa com conteúdo de base segura
focaliza-se, portanto, na interação entre as personagens e não apenas na
descrição de acontecimentos, denotando-se a cooperação entre elas, bem como a
reciprocidade emocional. O objetivo é, portanto, facilitar a exploração,
incentivando a ocorrência de experiências positivas. É no conhecimento e acesso
a este script que reside a diferença entre adultos com representações seguras e
aqueles com representações inseguras. Segundo Waters e Rodrigues-Doolabh (2001)
o mesmo script organiza os comportamentos dos sujeitos, quer nas histórias de
interação adulto-criança, quer nas histórias de interação adulto-adulto, sendo,
por isso, possível falar da existência de um script único e geral (e.g.,
Coppola, Vaughn, Cassibba, & Constantini, 2006; Vaughn et al., 2007).
O script de base segura será, assim, uma ferramenta mental que guia os
comportamentos parentais na interação com os seus filhos. Coppola et al. (2006)
verificaram numa amostra de mães, uma relação positiva e significativa entre a
qualidade do script e a coerência na AAI; e entre a qualidade do script e a
sensibilidade materna, relação esta que vem demonstrar a validade preditiva das
Narrativas, bem como a ligação existente entre o conhecimento e acesso ao
script de base segura e a qualidade dos comportamentos maternos. Ao nível das
amostras portuguesas existe, também, evidência empírica que atesta que pais e
mães portugueses organizam as representações de vinculação em torno de um
script de base segura geral e abstrato (Monteiro & Veríssimo, 2010;
Monteiro, Veríssimo, Vaughn, Santos, & Bost, 2008; Vaughn et al., 2007;
Veríssimo, Monteiro, Vaughn, Santos, & Waters, 2005).
Suporte social
O suporte social é definido como um constructo complexo que abarca múltiplas
dimensões (aspetos objetivos e aspetos subjetivos do social) que podem ser
abordadas a diversos níveis (Sarason & Sarason, 2009). Considerado estável
ao longo do tempo, e das situações vivenciadas pelos sujeitos, Sarason, Levine,
Basham e Sarason (1983) definem-no através da "existência ou
disponibilidade de pessoas em quem se pode confiar, pessoas que nos mostram que
se preocupam connosco, nos valorizam e gostam de nós." (p. 127).
São considerados dois níveis: "suporte social percebido" e
recebido, remetendo o primeiro para o suporte que o sujeito percebe como
disponível caso necessite dele, enquanto o segundo remete para o suporte
efetivamente recebido.
O suporte social percebido refere-se à perceção do sujeito face à
disponibilidade do suporte, caso este entenda aceder ao mesmo, as relações
encontradas entre o suporte social percebido e o suporte social recebido têm
sido consideradas modestas (Sarason, Pierce, Shearin, Sarason, & Waltz,
1991). Sarason, Pierce, Bannerman e Sarason (1993) por seu lado, definem o
suporte social percebido como o sentimento de que se é querido e valorizado
pelos outros, sendo este relativamente estável, mesmo em períodos da vida
marcados por mudanças significativas. A perceção do suporte social tende a
reduzir os medos de falhar e a antecipação dos perigos, predispondo-se o
sujeito a correr certos riscos, devido à disponibilidade que este percebe por
parte daqueles que lhe são significativos e que lhe prestarão apoio caso este
necessite (Sarason & Sarason, 2009).
Segundo Sarason et al. (1991) os sujeitos que percebem o suporte social como
disponível, e se encontram satisfeitos com o mesmo, têm uma autopercepção mais
positiva e detentora de menos características negativas, acreditando que os
outros têm uma opinião similar à sua. Usufruir de suporte social, quando
necessário, contribuirá também, na perspetiva de Sarason et al. (1993), para
que os indivíduos possuam uma autoimagem mais positiva.
Vinculação e suporte social
Mikulincer e Shaver (2007) referem que uma abordagem ao nível do contexto e das
variáveis pessoais que têm impacto na qualidade dos cuidados parentais faz com
que estas se possam constituir como variáveis moderadoras, no que concerne à
possível relação entre o padrão de vinculação dos pais e os cuidados parentais
prestados por estes. Diversos estudos indicam que o suporte social constitui-se
como um fator importante para a organização comportamental dos pais, passível
de promover a qualidade dos cuidados parentais e consequentemente ter impacto
no desenvolvimento das relações de vinculação das crianças (Belsky &
Fearon, 2008). Neste sentido, ao analisar variáveis de contexto e sociais,
Belsky (1996) concluiu que a qualidade dos recursos familiares (relação
conjugal, suporte social e relação família-trabalho) se relacionava com os
padrões de vinculação seguros encontrados.
Relativamente ao suporte social a investigação tem sugerido que este poderá
refletir características da personalidade do sujeito e não apenas a presente
disponibilidade dos outros para o ajudar (Sarason et al., 1991). Sarason et al.
(1993) indicam que as perceções dos indivíduos, face à disponibilidade do
suporte social se encontram relacionadas com a forma como as suas figuras
parentais os veem. Deste modo, não só as características do sujeito, como,
também, as daquele que fornece suporte e a relação existente entre ambos,
desempenham um papel crucial nas perceções do suporte social do primeiro.
Apesar da disponibilidade do suporte social ser uma condição imprescindível
para que o indivíduo possa usufruir do mesmo esta não é, no entanto,
suficiente. Para que tal suceda é necessário que o indivíduo possua um
reportório de "competências sociais", bem como um conjunto de
crenças e disposição ao nível da personalidade, promotoras da procura de
suporte em caso de necessidade. A capacidade para confiar e estabelecer
relações íntimas, que se encontram relacionadas com a responsividade e
qualidade dos cuidados parentais (Cohn, 1990), constituem-se como duas
competências cruciais para aceder ao suporte social. Paralelamente, a
investigação tem confirmado que padrões de vinculação seguros na infância estão
relacionados com a maior capacidade para, na idade adulta, os indivíduos
providenciarem suporte social aos outros (Crowell & Feldman, 1991).
Os modelos internos dinâmicos do self e dos outros medeiam, segundo Main,
Kaplan e Cassidy (1985), a relação entre as experiências pessoais do sujeito e
o impacto das mesmas no ajustamento do indivíduo. Neste sentido, e segundo
Sarason et al. (1991) os modelos dinâmicos do sujeito constituem-se como a
lente através da qual o sujeito analisa os comportamentos e sentimentos do
outro, sendo por isso expectável que indivíduos com relações de vinculação
seguras sejam mais recetivos a estabelecer relações de suporte social.
Jacobson e Frye (1991) numa amostra de 46 primíparas, que usufruíam de um
programa de ajuda alimentar, constataram que a qualidade do suporte social
disponível, no caso de mães sujeitas a elevados fatores de stress, baixo nível
socioeconómico e isolamento social, promove o desenvolvimento de relações de
vinculação seguras das crianças no primeiro ano de vida. O bem-estar maternal
encontrava-se, também, relacionado com o tipo de vinculação das crianças. No
estudo de Crockenberg (1981) verificou-se que elevados níveis de suporte social
se encontravam, de modo consistente, associados à segurança da qualidade da
relação de vinculação das crianças com as mães, e que baixos níveis de suporte
social se encontravam associados a elevada resistência, evitamento e relações
marcadas pela ansiedade. Baixos níveis de responsividade materna encontravam-se
associados a padrões de vinculação inseguros, mas apenas quando o suporte
social era baixo.
Sarason, Sarason e Sherin (1986), numa amostra de estudantes universitários,
verificaram que as perceções que estes tinham das suas relações parentais eram
preditoras das perceções de suporte social. Assim, enquanto representações de
padrões comportamentais (avaliados através de uma medida de autorrelato/
autopreenchimento: Parental Bonding Instrument) baseados na superproteção
materna estavam associados a uma satisfação social baixa, no caso da figura
paterna, a postura superprotetora relacionava-se com uma menor quantidade de
suporte social. A baixa perceção de suporte social encontra-se relacionada com
a solidão, depressão, ansiedade e hostilidade, para além do facto dos
indivíduos com suporte social elevado, quando comparado com os sujeitos com
baixo suporte social, caracterizarem as suas relações parentais como mais
marcadas pela existência de cuidados afetuosos e solicitude.
Belsky e Fearon (2008) mencionam um conjunto de estudos (e.g., Crockenberg,
1981) cujos resultados são indicadores da importância do suporte social na
promoção de relações de vinculação seguras entre a criança e a figura materna.
Estes são, contudo, na sua maioria realizados com amostras consideradas de
risco (e.g., bebés com temperamentos difícil, mães afro-americanas de nível
socioeconómico baixo, filhos de mães abusivas ou negligentes, mães de bebés
prematuros). Diversos trabalhos, com amostras normativas, não encontraram
qualquer relação entre as variáveis, sugerindo a utilização de modelos de
moderação em futuras investigações, contemplando fatores de risco e de proteção
(Belsky & Fearon, 2008).
Objetivos
O presente estudo teve como objetivo analisar o conhecimento e acesso ao script
de base segura materno, utilizando as Narrativas de Representação da Vinculação
em adultos (Waters & Rodrigues-Doolabh, 2004), contribuindo para a análise
da sua validade. Os estudos existentes, nomeadamente, com amostras portuguesas
(Monteiro et al., 2008; Monteiro & Veríssimo, 2010; Veríssimo et al., 2005)
indicam bons níveis de fidelidade e validade convergente e discriminativa.
Apesar de ser um instrumento que apela à competência verbal dos sujeitos, o que
o instrumento avalia através da produção das narrativas é a presença e
qualidade do script de base segura. O número de estudos que controla o Q.I.
verbal, ou o conhecimento verbal dos indivíduos é bastante reduzido. Nos
estudos de Waters e Rodrigues-Doolabh (2001) e Elliot, Tini, Fetten e Saunders
(2003) não foi encontrada qualquer associação entre o Q.I. de mulheres e homens
e os seus valores script. Nenhum estudo realizado com amostras portuguesas
reporta até à data o controle do Q.I. verbal nas suas análises, pelo que este
estudo procura contribuir para colmatar esta lacuna, ao controlar o Índice de
Compreensão Verbal dos participantes.
Analisou-se, ainda, a relação entre o conhecimento e acesso ao script de base
segura e a qualidade do suporte social percebido (controlando o ICV materno). A
metodologia utilizada permitirá, ainda, uma discussão conceptual e metodológica
relacionada com as associações entre as representações de vinculação e o
suporte social percebido. A maioria dos estudos existentes (e.g., Sarason et
al., 1991) inserem-se no domínio da psicologia social, recorrendo a medidas de
autorrelato e partilhando as mesmas fontes de informação. Neste estudo, ao
utilizarmos uma medida que ativa conhecimentos implícitos relativos à
vinculação (Monteiro & Veríssimo, 2010; Waters & Rodrigues-Doolabh,
2004) do domínio da psicologia do desenvolvimento, procurar-se ultrapassar
estas limitações.
Método
Participantes
Neste estudo participaram 36 mães casadas ou a viver em união de facto, apenas
uma se encontrava divorciada/separada. As mães tinham idades compreendidas
entre os 24 e 50 anos (M=35.33, DP=4.62) e os pais entre os 29 e os 52 anos
(M=36.64, DP=4.49). As suas habilitações literárias variavam entre os 6 e os 19
anos de escolaridade (M=14.36, DP=3.33) e as dos pais entre os 6 e os 19 anos
(M=13.08, DP=3.65). Vinte cinco mães e 29 pais trabalhavam, encontrando-se os
restantes desempregados. As crianças tinham idades compreendidas entre os 36 e
os 75 meses (M=51.64, DP=11.95), sendo 16 do sexo feminino e 20 do sexo
masculino. Destas, 23 têm irmãos. As famílias pertenciam a um nível
socioeconómico médio baixo (INE) (M=1464.83, DP=831.66). Todos as participantes
foram recrutadas para o estudo através das Creches e Jardins de Infância de
instituições particulares de solidariedade social (IPSS) que as crianças
frequentam, sendo esta uma amostra de conveniência. As famílias são oriundas
dos concelhos de Peniche, Torres Vedras e Lisboa.
Instrumentos/procedimento
Ficha de Caracterização Sociodemográfica(Veríssimo, sd). Visa recolher
informação sociodemográfica relativa aos pais (e.g., estado civil, idade,
habilitações literárias, situação profissional, composição do agregado familiar
e nível socioeconómico) e às crianças (e.g., idade, sexo, número de irmãos).
Neste estudo esta ficha foi preenchida pela mãe.
Narrativas de Representação da Vinculação em Adultos(Waters & Rodrigues-
Doolabh, 2004, manual não publicado). Este instrumento permite aceder ao
scriptde base segura dos adultos, a partir de histórias por eles elaboradas,
com base num conjunto de palavras sugestivas (Vaughn et al., 2006). As seis
histórias abordam contextos ansiogénicos e de rotina familiar, remetendo quatro
das histórias para cenários relevantes do ponto de vista da vinculação (duas
histórias têm por base a interação mãe/pai-criança "A manhã do
bebé" e "No consultório médico" e duas são de interação
adulto-adulto "O acampamento da Joana e do Pedro" e "O
acidente da Susana") e duas para contextos de rotinas familiares
("O passeio no parque" e "Uma tarde nas compras"),
consideradas neutras, dado não terem relevância para o fenómeno de base segura.
A sequência pela qual as histórias foram apresentadas aos sujeitos foi
controlada, de modo a evitar efeitos de ordem. Todas as histórias foram
gravadas, para posteriormente serem transcritas e cotadas por dois
investigadores, treinados por H. Waters, e sem qualquer conhecimento relativo
aos participantes. A cotação foi realizada com base numa escala de 7 pontos,
indicando o valor de cada história a medida em que esta se encontra organizada
em torno do script de base segura. A média das quatro histórias indica o valor
script de base segura geral para cada sujeito (ver Monteiro et al., 2008;
Waters & Waters, 2006, para uma descrição mais pormenorizada do
instrumento). Diversos estudos com amostras anglo-saxónicas, colombianas,
italianas e portuguesas demos traram a validade do instrumento (e.g., Monteiro
et al., 2008; Vaughn et al., 2007; Veríssimo et al., 2005).
O acordo intercotadores, para as 4 histórias com script de base segura, foi
calculado através do Coeficiente de Correlação Interclasses tendo os valores
variado entre .96 e .98. Os valores Spearman-Brownde fiabilidade para cada
história variaram entre .87 e .98. O Alpha de Cronbachpara as 4 histórias com
scriptde base segura é de .72 indicando um nível aceitável de consistência
interna do instrumento (e.g., Monteiro & Veríssimo, 2010; Veríssimo et al.,
2005).
WAIS - III Escala de Inteligência de Wechsler para Adultos(Rocha, 2008).
O Índice de Compreensão Verbal (ICV) dos sujeitos foi analisado utilizando-se a
adaptação portuguesa da Escala de Inteligência Wechsler para Adultos -
Terceira Edição (WAIS-III) (Rocha, 2008). Este mede os conhecimentos verbais e
o raciocínio verbal dos indivíduos entre os 16 e 89 anos de idade. Os subtestes
que permitem o cálculo deste índice fatorial são: o subteste do Vocabulário,
das Semelhanças e de Informação, por esta mesma ordem. Este instrumento
encontra-se validado para a população portuguesa, revelando os três subtestes
bem como o ICV, valores de fidelidade, de validade convergente e discriminante
bastante satisfatórios (Rocha, 2008).
A aplicação do ICV e das Narrativas foi realizada dentro do espaço escolar,
contando apenas com a presença do participante e do investigador na sala,
contando com um tempo de duração de cerca de 60 minutos.
Escala de Satisfação com o Suporte Social(Pais-Ribeiro, 1999, 2011). Analisa a
perceção da satisfação do indivíduo, neste estudo da figura materna, com o
suporte social existente. Esta é descrita como uma dimensão fundamental nos
processos cognitivos e emocionais ligados ao bem-estar e à qualidade de vida do
indivíduo (Pais-Ribeiro, 2011). A escala é composta por 15 itens [concordo
totalmente (A), não concordo nem discordo (C) discordo totalmente (E)] que
remetem para quatro dimensões que analisam diversos aspetos do suporte social:
(1) "Satisfação com Amigos" (α.77) (e.g., item 3 - Os amigos
não me procuram tantas vezes quantas eu gostaria); (2) "Intimidade"
(α.64); (3)"Satisfação com a Família" (α.79) e (4)
"Atividades Sociais" (α.69). Valores mais elevados correspondem a
uma perceção mais elevada de suporte social.
Resultados
Script de base segura materno
Com o objetivo de analisar a presença e qualidade do script de base segura das
mães nas histórias de interação Adulto/Criança, Adulto/Adulto e Total
(compósito das quatro histórias com script de base segura), procedeu-se ao
cálculo das respetivas médias e desvios padrão. A Tabela_1 reporta os valores
encontrados.
Os valores das narrativas variaram entre 1.25 e 6.41 para as histórias Adulto/
Criança; entre 1.67 e 6.92 para as Adulto/Adulto. Os valores médios obtidos
indicam que as mães face a um conjunto de palavras sugeridas nas diferentes
histórias acedem e utilizam o script de base segura na elaboração das
narrativas.
Os valores do Índice de Compreensão Verbal materno variaram entre 77 e 129
(M=101.88; DP=13.22), com 45 % dos valores situados entre 90 e 109, ou seja,
dentro daqueles que são considerados os valores mínimos e máximos de um índice
de compreensão verbal médio, encontrando-se os restantes 21% num nível médio
inferior e 33% num nível médio superior (Rocha, 2008).
De seguida, correlacionou-se o Índice de Compreensão Verbal materno com os
valores Total do script de base segura [r(33)=.33, p=.07], tendo-se obtido uma
associação marginalmente significativa.
Relativamente às variáveis sociodemográficas encontrou-se, ainda, uma
associação positiva e significativa [r(36)=.38, p<.05] entre as habilitações
literárias maternas e o valor total de script.
Suporte social percebido
A perceção materna relativamente ao suporte social foi avaliada através das
quatro dimensões do suporte social. Na Tabela_2 são apresentadas as Médias e
Desvios Padrão.
As mães reportam valores de satisfação que variam entre 3.25 (Atividades
Sociais) e 4.04 (Intimidade) nas diferentes dimensões, indicando os valores
mais baixos perceções da satisfação de suporte social mais baixo.
Relativamente às variáveis sociodemográficas o número de horas/semanais de
trabalho do pai encontra-se positiva e significativamente correlacionado com a
perceção de satisfação com o suporte íntimo [r(36)=.34, p<.05]. Constatou-se,
ainda, que são as mães com maior carga horária laboral aquelas que referem
sentir-se menos satisfeitas com o suporte familiar [r(36)=-.483, p<.01].
Script de base segura materno e suporte social
Por fim analisou-se a relação entre os valores do script materno e a sua
perceção do suporte social, ao nível das quatro dimensões. Apenas na dimensão
Atividades Sociais se encontrou uma correlação positiva, e marginalmente
significativa [r(33)=.34, p=.06]. Recalculou-se esta análise controlando-se o
ICV [rparcial(ICV)=.40; p<.05], tendo a magnitude da associação aumentado,
atingindo significância.
Discussão
O presente estudo analisou o conhecimento e acesso ao script da base segura,
numa amostra de mães com filhos em idade pré-escolar, considerando aspetos
metodológicos do instrumento das Narrativas de Representação da Vinculação em
Adultos (Waters & Waters, 2006). Face a diferentes conjuntos de palavras
sugestivas, que remetiam para temáticas relacionadas com conteúdos de
vinculação, as mães acedem e utilizam o script de base segura, na produção das
suas narrativas. Estes dados corroboraram os resultados obtidos noutros estudos
empíricos (e.g., Coppola et al., 2006; Monteiro & Veríssimo, 2010; Vaughn
et al., 2007).
As análises realizadas ao nível da fiabilidade e validade interna indicam
valores comparáveis aos anteriormente reportados (Vaughn et al., 2007;
Veríssimo, Monteiro, & Santos, 2006). No sentido de colmatar uma lacuna
identificada ao nível do teste da validade discriminativa, em amostras
portuguesas, analisaram-se as associações com o ICV. Tendo-se obtido uma
associação marginalmente significativa com o total das histórias com Script de
base segura. O que não corrobora os resultados dos estudos iniciais de Waters e
Rodrigues-Doolabh (2001). Constatou-se, ainda, que ao nível das habilitações
literárias existe alguma variabilidade (3% das mães têm mestrado, 50%
licenciatura, 6% bacharelato, 28% completou o ensino secundário, 11% o 3º
ciclo, e 3% o 2º ciclo de escolaridade) sendo que, neste estudo, as mães com
habilitações literárias mais elevadas são as que apresentam valores de script
mais elevados (Coppola et al., 2006; Vaughn et al., 2007). Segundo Bakermans-
Kranenburg (2006), enquanto pedras basilares dos modelos internos dinâmicos de
vinculação, os scripts, como estruturas cognitivas que são e pelo facto de
serem avaliados através de narrativas, a eventual associação entre a
competência verbal dos sujeitos e o valor script de base segura não deverá ser
encarado como algo inesperado. Waters, Rodrigues e Ridgeway (1998) referem o
facto de quer a memória semântica quer a episódica, assim como outras
representações mentais poderem influenciar tanto a elaboração como a qualidade
dos scripts na produção das narrativas salientando, assim, que a investigação
em torno desta temática, deverá controlar as variáveis cognitivas.
O suporte social percebido consiste na perceção que o indivíduo tem acerca da
disponibilidade da rede social para fornecer apoio caso seja necessário
constituindo-se, assim, como a componente cognitiva deste constructo,
contrariamente ao suporte recebido o qual representa a componente
comportamental (Coventry, Gillespue, Heath, & Martin, 2004). Neste estudo,
verificou-se que quanto mais horas os pais trabalham, mais elevada é perceção
materna de satisfação com o suporte íntimo (apoio proveniente de relações
íntimas independentemente de ser ou não familiar). Contrariamente, a satisfação
com o suporte familiar materno (que remete para o apoio proveniente da
família), é mais baixo quando as mães que têm cargas horárias laborais maiores.
Uma possível explicação para estes resultados poderá estar ligada à
representação da paternidade, nomeadamente, a uma perspetiva mais conservadora
associada à dimensão de sustento financeiro da família, e a representação da
maternidade associada aos cuidados familiares (Lamb, 1987). Ou seja, enquanto a
ausência da figura paterna poderá não ter um impacto negativo na perceção da
mulher sobre o suporte íntimo, remetendo-nos para um papel paterno mais
conservador, já um maior investimento materno no mundo laboral poderá ter
consequências no tipo e necessidade de maior suporte por parte da família, no
sentido de gerir mais eficazmente estes papéis.
As mães participantes neste estudo têm filhos a frequentar o ensino pré-
escolar, tendo a investigação demonstrado que a existência e disponibilidade de
relações interpessoais de suporte/apoio poderão ter um impacto positivo na
parentalidade. Neste estudo procurou-se analisar uma componente do sistema de
cuidados parentais: os MID, podendo esperar-se que mães com valores mais
elevados de script (saibam o que é ser e/ou procurar uma base segura) pudessem
apresentar níveis mais elevados em termos da qualidade da rede de suporte
social percebido (mais especificamente ao nível das dimensões da intimidade e
satisfação familiar). Embora estejamos perante constructos teóricos distintos
(relações com objetivos distintos), espera-se que mães que sabem o que é ser e/
ou procurar uma base segura, saibam como procurar suporte e manter relações
satisfatórias com os outros, quando o necessitam. Tal não se verificou. apenas
se encontrando uma associação com a perceção do suporte social relativo às
atividades sociais, dimensão que remete para questões ligadas à vida social da
mãe.
Um aspeto que nos parece, também, importante é o facto de o script de base
segura materno ter sido avaliado através das Narrativas de Representação da
Vinculação em Adultos que ativa conhecimentos implícitos, e não através de
medidas de autorrelato respondidas pelos mesmos sujeitos. Estudos no domínio da
psicologia social têm analisado a relação entre a vinculação e o suporte social
(percebido e recebido), e modo geral, os resultados vão no sentido de que o
estilo da vinculação, visto enquanto traço estável, influencia a forma como o
suporte social (familiar e proveniente das relações de amizade) é acionado e
percebido (Collins & Feeney, 2004).
Ravitz, Maunder, Hunter, Sthankiya e Lancee (2010) salientam que cada tipo de
instrumento (medidas que ativam conhecimentos implícitos do sujeito como as
narrativas e medidas de autorrelato, respondidas pelos mesmos sujeitos como os
questionários) poderá estar a avaliar diferentes aspetos relativos à
vinculação. Se a psicologia do desenvolvimento, na área da vinculação, procura
utilizar medidas que não assenta na autoavaliação consciente por parte do
sujeito, por seu lado, a psicologia social recorre a medidas de autorrelato, as
quais acedem às atitudes conscientes face aos relacionamentos, bem como, a
memórias de experiências dos relacionamentos atuais (Crowell, Fraley, &
Shaver, 2008), e não aos MID que têm por base as primeiras relações.
O facto da dimensão da coerência da AAI se encontrar frequentemente relacionada
com medidas como: entrevistas, observações laboratoriais e naturalísticas, ou
tarefas de produção estruturada de narrativas (Waters, Crowell, Elliot,
Corcoran, & Treboux, 2002), mas não com as medidas de autorrelato (ver
Waters et al., 2002) parece ir no sentido dos nossos resultados. Dado não se
ter aplicado uma medida de autorrelato sobre a vinculação, aos nossos sujeitos,
não nos permite aprofundar esta questão.
Em estudos futuros, e com amostras maiores, seria interessante compreender o
modo como a perceção do suporte social poderá moderar, por exemplo, a relação
entre os MID das figuras parentais e a qualidade dos seus comportamentos na
interação com os filhos; alargando a análise à figura paterna. Face aos
resultados obtidos sugere-se, ainda, que se continue a controlar o ICV e
verificar se as associações esperadas com a sensibilidade dos cuidados
parentais se mantem.