Avaliação psicológica de jovens com comportamentos desviantes
Introdução
A avaliação psicológica constitui sempre um processo complexo que deve atender
às especificidades inerentes ao indivíduo que se pretende avaliar, bem como ao
grupo e à comunidade em que ele se insere. Tal aplica-se igualmente aos jovens
que apresentem condutas desviantes e, dentro deste grupo muito alargado, devem
ainda ser consideradas as especificidades subjacentes ao tipo de comportamento
e ao contexto da sua manifestação.
Por isso, e tratando-se de um universo muito específico que exige uma atenção
especial, o que se propõe no presente trabalho é um plano/roteiro de avaliação
direcionado para jovens com comportamentos desviantes, num registo de maior ou
menor flexibilidade no seguimento dos procedimentos aconselhados, sempre em
função das características do alvo de avaliação. Assim, tendo por base a
análise da literatura e a experiência adquirida no âmbito do trabalho
desenvolvido pelo Grupo de Consumos e Delinquências (GCD) da Clínica Pedagógica
de Psicologia (CPP) da Universidade Fernando Pessoa (UFP), apresentamos um
protocolo de avaliação, com o objetivo geral de nortear o conjunto de
procedimentos e a sua sequência, aquando da avaliação de jovens com sinalização
de problemas comportamentais, designadamente com condutas desviantes. As
condutas desviantes são aqui entendidas como todo e qualquer tipo de conduta/
comportamento (e.g., atos agressivos, furto, vandalismo, fugas de casa, consumo
de drogas, entre outros) em que se verifica um desvio ou violação das normas ou
expectativas socialmente estabelecidas (Negreiros, 2008).
Assim, dadas as particularidades da população a avaliar, propomos a edificação
de um esquema de procedimentos sequenciais que, através do recurso a diferentes
estratégias avaliativas e técnicas, possibilite a melhor orientação da
avaliação psicológica a jovens com condutas desviantes.
Tendo em vista tal objetivo geral, ao longo deste artigo procuramos apresentar
um modelo de análise que abarque uma vertente mais idiográfica, em que se
analisam aspetos mais subjetivos e extremamente ricos, apelando a técnicas como
a observação e a entrevista, não deixando de considerar os aspetos mais
objetivos, com o recurso a técnicas e a instrumentos estruturados, sempre de
forma contextualizada e consertada. De facto, de acordo com Manita (2002), a
evolução dos "paradigmas de avaliação" tem ligações com mudanças ao
nível da conceção do indivíduo e, obviamente, tem sofrido repetidas
reconceitualizações. Saliente-se que aqui se está a tratar de uma população em
que se instalam registos de funcionamento muito complexos, já que entre os
comportamentos desviantes se encontra o consumo de drogas, enquanto conduta a
que se associam vários outros problemas, como as práticas delituosas (Nunes,
2011), a vitimação (Nunes & Sani, 2014), os problemas sociais e a perda de
domicílio (Bender et al., 2012), os problemas de saúde (Nunes & Jolluskin,
2010) e os relacionados com os contactos com o sistema de justiça (Lyman,
2014), entre outros.
Tais evidências permitem, assim, reforçar a ideia de que a população
constituída por jovens com comportamentos desviantes evidencia características
particulares que requerem modalidades e estratégias de avaliação igualmente
específicas e devidamente contextualizadas. Efetivamente, a análise e o
acompanhamento de alguns casos no âmbito do trabalho desenvolvido na CPP,
geraram esta necessidade de criar um protocolo de avaliação que, assente na
observação de casos práticos, exigiu uma análise da literatura com adaptação de
estratégias e técnicas a esses casos mais problemáticos. Dessa forma, foi
possível a criação de um esquema de inteligibilidade a respeito da avaliação
psicológica neste campo do desvio, construindo-se assim um modelo integrador de
análise. Mas antes de passarmos à apresentação desta proposta de avaliação,
justifica-se a necessidade de primeiramente se caracterizar a população a
avaliar.
A especificidade da população a avaliar
Um dos primeiros aspetos a considerar no contacto com este tipo de população
prende-se desde logo com a faixa etária em que praticaram os comportamentos
desviantes, na medida em que esta irá determinar o enquadramento jurídico da
situação e, consequentemente, os tipos de avaliação e intervenção a adotar.
Desde janeiro de 2001, dispomos no contexto português de três dispositivos
legais que podem ser ativados em casos de jovens que manifestem condutas
desviantes. Referimo-nos à Lei Tutelar Educativa (L.T.E.) (lei nº 166/99 de 14
de Setembro); ao Regime Especial para Jovens (decreto-lei n.º 401/82 de 23 de
Setembro) e ainda, à Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo
(L.P.C.J.P.) (lei n.º: 147/99, 1 de Setembro), leis estas que permitiram romper
com o até então designado "modelo de proteção" e o qual assentava
essencialmente em medidas protetivas e preventivas da delinquência juvenil
(Martins, 2006). A emergência do modelo de justiça introduziu um tratamento
diferenciado entre menores maltratados ou em perigo e menores infratores, isto
é, menores que pratiquem factos que a lei consagra como crime. A este segundo
grupo de menores, com idades compreendidas entre os 12 e os 16 anos, destina-se
a Lei Tutelar Educativa, a qual visa a educação do menor para o direito e sua
inserção de forma digna e responsável na vida/comunidade. A L.T.E. contempla
diferentes medidas tutelares educativas, com carácter gradativo1 (Martins
2006). Os jovens com idades compreendidas entre os 16 e os 21 anos que
pratiquem factos qualificados pela lei penal como crime poderão ser abrangidos
pelo Regime Especial para Jovens, evitando-se assim a aplicação de penas de
prisão a jovens adultos. De destacar ainda as medidas de promoção e proteção no
âmbito da L.P.C.J.P., destinadas a crianças com idades compreendidas entre os 0
e os 18 anos de idade (podendo em situações específicas ir até aos 21 anos),
que se encontrem em situação de perigo2. Assim, aos jovens que pratiquem factos
qualificados como crime e que não se encontrem na faixa etária entre os 12 e os
16 anos são aplicadas medidas de promoção e proteção. Se o ministério público
assim o entender, é possível a aplicação simultânea das MPP nos processos
tutelares educativos.
Concomitantemente, há outras especificidades a considerar nos jovens com
condutas desviantes. Desde logo deve averiguar-se a eventual presença de
consumo de substâncias e, se for o caso, a possível toxicodependência, bem como
outros problemas associados, de que são exemplos os comportamentos antissociais
(Nardi, Cunha, Bizarro, & Dell'Aglio, 2012). Acresce, ainda, a
prática de delitos (Passini, 2012), a existência de contactos/problemas com o
sistema de justiça (Taxman, 2014), as ações violentas e até as práticas sexuais
de risco (Lyman, 2014) e em que é empregue a violência (Scully, 1994),
sobretudo em associação a estados de intoxicação por consumo de determinadas
substâncias (Anglin, Spears, & Hutson, 1997).
A população com comportamentos desviantes, designadamente a que se apresenta
numa faixa etária correspondente à adolescência ou à de jovens adultos, terá
adotado esse registo comportamental sob influência de diversos fatores (cf.
Kroneman, Hipwell, Loeber, Koot, & Pardini, 2011). Destacam-se, assim, os
fatores relacionados com o envolvente social ou organizacional no caso da
exteriorização de tal conduta ocorrer em contexto laboral (Appelbaum, Iaconi,
& Matousek, 2007), os relacionados com o contexto escolar (e.g., pobre
desempenho académico; reduzido envolvimento escolar; fugas/abandono da escola;
parcas relações com os professores) (e.g., Born, 2005) e seio familiar (e.g.,
práticas de educação; laços afectivos entre pais e filhos; exposição à
violência interparental; criminalidade parental, psicopatologia parental, entre
outros) (e.g., Kury & Woessner, 2002). Saliente-se ainda que os
comportamentos desviantes podem efetivamente não passar de meros ensaios para
ultrapassar uma fase desenvolvimental - adolescência -, podendo no
entanto ser antecedentes de outras condutas muito graves, de que fazem parte as
delituosas (Jessor, 1991; Jessor & Turbin, 2014). A este propósito, não
serão de negligenciar as evidências científicas decorrentes de estudos
longitudinais (e.g., Farrington, 2004; Loeber et al., 2002) conduzidos com esta
população e os quais identificam a idade precoce das primeiras manifestações de
comportamentos desviantes como um importante fator de risco para o
desenvolvimento de uma carreira delinquente. De forma mais específica, tem sido
sustentado que quanto mais precocemente surgirem estas condutas, maiores serão
as probabilidades de se registar uma evolução e continuidade até à idade adulta
e mais graves serão as suas consequências (Farrington, 2004; Fonseca, 2004).
Tais dados atestam, assim, a extrema relevância da precocidade da avaliação e
intervenção com esta população.
Assim, para além de se considerar o período em que tiveram início as condutas
problemáticas, deve atender-se à possível presença de uma multiplicidade de
problemas. Desde logo, importa atender aos aspetos intrínsecos, como o
funcionamento global do indivíduo (e.g., a existência ou não de psicopatologia,
a presença de traços de personalidade patológicos, entre outros), não sendo
negligenciados outros elementos de extrema importância, como o contexto social,
familiar e até económico, a que se devem reunir os fatores ligados à existência
ou não de problemas com a justiça e de apoio social, formal ou informal como,
aliás e de acordo com Le Blanc (1999), é tão frequente nesta população. É nesse
sentido que se avança aqui com uma proposta integradora, que abarque a
avaliação através de instrumentos psicométricos, conjugada com a análise mais
subjetiva de uma multiplicidade de aspetos aos quais é possível aceder através
de técnicas de entrevista e de observação, sempre num registo de
contextualização biográfica, e mediante um roteiro sequencial de procedimentos
e medidas a adotar.
Protocolo de avaliação de jovens com condutas desviantes
A avaliação de jovens com comportamentos desviantes requer uma análise
minuciosa dos diferentes contextos de socialização do jovem. Para tal,
enfatizamos a necessidade de a avaliação ser multidimensional, multimétodo e
multiagente; isto é, para além de se considerarem as diferentes dimensões do
funcionamento do jovem em diferentes contextos (familiar, individual,
ocupacional, social, entre outros), importa recorrer a diversas técnicas e a
diferentes métodos de recolha de informação (desde o recurso a entrevistas
semi-estruturadas, grelhas de observação, construção do biograma, instrumentos
de autorrelato, entre outros) e a múltiplos informantes (e.g., para além do
jovem avaliado, envolver na medida do possível, os seus cuidadores/
progenitores, técnicos envolvidos, professores, entre outros). Assim, será
possível traçar um "retrato" mais fidedigno e completo da história
e do funcionamento do sujeito. Esta tem sido, de resto, a estratégia adotada
pela grande maioria dos protocolos de avaliação existentes na literatura
nacional (cf. Braga & Gonçalves, 2011; Manita, 2002; Martins &
Gonçalves, 2005) e internacional (cf. Kazdin & Buela-Casal, 2001) para esta
população e que nós subescrevemos dada a sua comprovada funcionalidade. Neste
sentido, sistematizamos a nossa proposta de avaliação no Quadro_1.
As dimensões aqui referidas como sendo alvo de avaliação carecem, naturalmente,
de ser acompanhadas de uma análise que possibilite a contextualização
biográfica dos elementos entretanto apurados. Por isso, e porque o método
biográfico por nós escolhido é a edificação do biograma, serão apresentadas
estas dimensões da avaliação e, posteriormente, será apresentado o biograma, já
que este acompanha todo o processo e permite preparar a fase da intervenção.
Por outro lado, e de acordo com o ilustrado no Quadro_1, pode constatar-se a
presença quase permanente da entrevista como técnica privilegiada do processo
de avaliação, acompanhando e sustentando a recolha de informação com vista à
análise das diferentes dimensões definidas como alvo de avaliação. Portanto,
haverá um momento em que a entrevista será particularmente explorada, muito
embora deva ter-se em consideração que a mesma será mencionada ao longo de todo
o processo e nas suas diferentes fases, que a agora passaremos a desenvolver.
Exploração da motivação para a mudança
Se há algo que revela uma fulcral importância no trabalho desenvolvido com este
tipo de população, é precisamente a motivação para a mudança, tão raras vezes
presente aquando da primeira abordagem ao sujeito, e tão dificilmente
conseguida entre indivíduos que funcionam num registo de desvio à norma. Por
isso, esta parcela da avaliação será central para que se situe o jovem numa
posição que afetará todo o processo subsequente.
Evidentemente, tal como já foi referido, esta etapa é fortemente marcada pela
entrevista, através da qual se procurará perceber até que ponto o sujeito
estará ou não envolvido numa dinâmica de mudança. A sua motivação poderá
situar-se entre os estádios apontados por Prochaska e DiClemente (1982, 1986),
que ainda que se trate de um modelo voltado para as questões da
toxicodependência, poderá ser adaptável a outras condutas problemáticas. As
etapas referidas pelos autores podem descrever-se sumariamente da seguinte
forma: fase da pré-contemplação, em que se verifica o não reconhecimento do
problema, não havendo qualquer intenção de mudança; o estádio de contemplação,
que diz respeito à fase em que o indivíduo tanto reconhece como rejeita a
existência de um comportamento problemático; a fase de preparação, que surge
como uma oportunidade de reflexão sobre uma futura possibilidade de mudança
comportamental; o quarto estádio, de acção, já com algumas ações e movimentos
do sujeito, no sentido da mudança; o estádio de manutenção da ação, que
consiste na etapa em que se sedimenta a persecução da mudança comportamental.
Esta análise poderá ser levada a cabo através da condução da entrevista, aqui
diretiva e estruturada, com perguntas essencialmente fechadas e voltadas para
aspetos como: a dimensão do problema, a concordância com a avaliação e
subsequente necessidade de intervenção, o que está disposto a fazer para
alterar esse problema e o que já fez nesse sentido, entre outros. Uma vez
localizado o sujeito num dos estádios de motivação para a mudança, poderá
pensar-se na planificação da entrevista motivacional (Miller & Rolnick,
2013), a fim de reunir as melhores condições de adesão do sujeito ao processo
de avaliação que se seguirá. Esta técnica consiste em adotar uma série de
estratégias que podem ser implementadas individualmente ou em grupo (Jarvis,
Tebbutt, Mattick, & Shand, 2005). É igualmente aconselhável para indivíduos
que se mostram relutantes à mudança ou que se encontrem em estado de
ambivalência quanto à possibilidade de alteração comportamental, seguindo as
indicações fornecidas por Miller e Rollnick (2013), bem como os princípios
gerais deste tipo de entrevista e também apontados pelos seus autores. Note-se
que, aquando da análise da motivação do sujeito, bem como ao longo de toda a
avaliação, será fulcral o registo de observações que obviamente complementarão
as informações verbalmente transmitidas.
A observação - Grelha de registo de comportamentos não verbais.Integrada
na avaliação, neste momento de análise da motivação, e acompanhando o restante
processo, a observação possibilitará aceder aos comportamentos não verbais e
que se afiguram relevantes neste tipo de população. Trata-se de uma técnica que
se deve servir de um instrumento adequado à análise do comportamento não
verbal: condutas corporais, gestos e expressões (Quivy & Campenhoudt,
2005). Enquanto técnica de recolha de informação que faz utilização dos
sentidos, poderá ser sistemática ou estruturada, não participante ou passiva,
individual ou grupal. Para que seja rigorosa, a observação carece de
instrumentos de registo do observado, no indivíduo, no grupo ou nos fenómenos
(Marconi & Lakatos, 1990).
Na verdade, devem-se ter alguns cuidados na elaboração da grelha de registo de
comportamentos observados. Se se optar por uma grelha muito formalizada, tal
como as utilizadas nas observações de carácter experimental, é facilitada a
interpretação dos comportamentos observados, mas, por outro lado, pode
verificar-se que a grelha é muito superficial para captar a complexidade de
certos processos a analisar. Ora, no caso das observações desenvolvidas num
campo não experimental (mais concretamente no âmbito da avaliação psicológica),
opta-se por grelhas de observação mais flexíveis e adaptáveis a outras técnicas
como é a entrevista (Quivy & Campenhoudt, 2005).
Neste sentido, desenvolvemos uma Grelha de Registo de Observação de
Comportamentos Não-verbais, que apresenta uma parte referente à observação de
aspetos como a postura geral do jovem face ao avaliador, a apresentação, o
contacto ocular, a expressão facial e o comportamento psicomotor, nos termos
que podem ser observados na Figura_1.
Análise do funcionamento global dos jovens com comportamentos desviantes
É inquestionável a riqueza da entrevista enquanto técnica que deve ser
profundamente explorada e sistematicamente conduzida em qualquer processo de
avaliação psicológica do indivíduo, com comportamentos desviantes ou não.
A entrevista, para além ser muito útil no estabelecimento de uma relação de
confiança entre o avaliador e o avaliado, constitui uma técnica privilegiada de
recolha de informação sobre as circunstâncias em que as condutas problemáticas
se despoletaram, sobre as suas diversas manifestações, bem como acerca das
reações que essas condutas promoveram no meio onde se insere o sujeito, na
escola e na família (Fonseca & Simões, 2004). De forma mais específica,
através da entrevista é possível indagar a respeito do possível consumo de
drogas, da prática delituosa e de outras condutas problemáticas que podem estar
presentes, assim como explorar outras dimensões como a ocupacional, a familiar,
a afetiva e a social. A entrevista tem sido, assim, identificada como uma
técnica particularmente adequada ao estudo aprofundado de jovens com
exteriorização de condutas problemáticas (Fonseca & Simões, 2004). Neste
sentido, estão disponíveis alguns guiões de entrevista desenvolvidos
especificamente para serem usados com populações forenses e os quais integram
alguns protocolos de avaliação amplamente difundidos ao nível internacional
(Espanha, Canadá) (cf. Braga & Gonçalves, 2011). Referimo-nos, pois, ao
YLS/CMI (Youth Level of Service/Case Management Inventory. Interview Guide) de
Hoge e Andrews, 2002 e o qual se encontra já traduzido e adaptado para a
população portuguesa por Braga e Gonçalves (2010); e ainda a PCL-YV
(Psychopathy Checklist Youth Version; Forth, Kosson, & Hare, 2003),
traduzida e adaptada por Oliveira (2006), que se trata de uma versão breve da
PCL-R. Estes guiões destinam-se a jovens delinquentes com idades compreendidas
entre os 12 e os 18 anos e os quais permitem recolher informação diversa,
incluindo os temas/dimensões que constam do Quadro_2. Para os mais novos, com
idades inferiores a 12 anos de idade poderá recorrer-se a uma outra entrevista
semi-estruturada - SCICA (Semi-Strutured Clinical Interview for Children
and Adolescentsde Achenbach & McCnaughy, 1997) traduzida e adaptada por
Gonçalves e Simões (2000).
Não obstante, em alguns casos poderá revelar-se igualmente útil apelar a um
método biográfico (sobretudo ao nível da exploração da história de
comportamentos problemáticos e dos contactos com a justiça) que funcione com
este tipo de população, como descreveremos mais adiante. No Quadro_2,
identificamos as principais dimensões e respetivos aspetos/temas a explorar em
cada uma das dimensões e que deverão orientar a entrevista semi-estruturada a
ser conduzida junto de jovens com condutas desviantes.
Funcionamentos familiar, ocupacional e social.Atendendo ao importante papel que
a família desempenha no processo de socialização do jovem, seja através do
modelo educativo que proporciona, seja através das dinâmicas familiares que se
estabelecem e que influenciam o seu modo de agir, é de extrema relevância
indagar sobre o funcionamento familiar e de que forma este poderá ajudar a
compreender os comportamentos desviantes adotados pelo jovem. Refira-se, aliás,
que a influência da família na etiologia dos comportamentos desviantes dos
jovens é algo já estabelecida ao nível da literatura (cf. Born, 2005; Kury
& Woessner, 2002).
A recolha desta informação poderá ser realizada diretamente junto do jovem,
mediante a exploração dos diferentes tópicos apresentados no Quadro_2. De igual
modo, é crucial envolver os pais na recolha deste tipo de informação, na medida
em que estes constituem uma fonte de informação privilegiada não só pelo
conhecimento que possuem sobre a conduta do jovem nas mais diversas situações e
nas diferentes fases do seu desenvolvimento, mas também porque desempenham um
papel igualmente importante na modificação e/ou prevenção da sua conduta
desviante (Kazdin & Buela-Casal, 2001; Kury & Woessner, 2002). Assim,
na entrevista conduzida junto do pais, para além de se procurar indagar sobre
os diferentes aspetos que constam do Quadro_2, é igualmente importante que se
abordem e desenvolvam temas como a supervisão e controlo parental, práticas
educativas adotadas na gestão do comportamento difícil apresentado pelo jovem
tal como o recomendado em outros protocolos de avaliação (cf. Braga &
Gonçalves, 2011). Tratam-se, pois, de importantes indicadores na compreensão da
conduta, desviante ou não, do jovem e os quais têm sido amplamente estudados
(e.g., Born, 2005).
A exploração do funcionamento social do jovem é crucial. Neste âmbito, é
importante perceber de que forma este ocupa os seus tempos livres, as relações
que estabelece com os pares/amigos, bem como analisar a existência de
experiências relacionais íntimas e qualidade das mesmas. Efetivamente, na fase
da adolescência os pares desempenham um papel determinante na vida da grande
maioria dos jovens, sendo pelos próprios identificados como potenciais modelos
e fontes de reforço da violência e de outros comportamentos problemáticos, mas
também fontes de eleição dos jovens para partilharem as suas experiências
abusivas amorosas (Caridade, 2011) ou de outra natureza. Além disso, tem sido
sustentado que o progressivo afastamento da família que ocorre à medida que o
jovem avança no seu processo desenvolvimental está geralmente associado a um
aumento e diversificação das condutas problemáticas e as quais ocorrem, muito
frequentemente, em grupo (Fonseca & Simões, 2004). Por isto mesmo, o estudo
da influência do grupo de pares na sua conduta (normativa ou não) é deveras
relevante no processo avaliativo, sendo que, quando possível, poderá ser
igualmente benéfico auscultarem-se os pares, os quais têm sido identificados
como fontes de informação muito relevantes na compreensão da conduta desviante
(Fonseca & Simões, 2004).
Por fim, a análise do funcionamento ocupacional do sujeito, de que é exemplo a
exploração da trajectória escolar e/ou laboral, comportamento adotado na
escola; o seu desempenho profissional, constitui um outro indicador a atender
na entrevista conduzida junto do jovem ou de outros significativos (e.g., pais,
professores, pares) e que irá permitir despistar outros fatores de risco
relacionados com esta dimensão de funcionamento e que frequentemente estão
presentes em jovens com condutas desviantes (Kazdin & Buela-Casal, 2001).
De referir que no estudo destas diferentes dimensões deveremos sempre atender à
perspetiva do jovem avaliado, mas também procurar, na medida do possível,
auscultar outros significativos (e.g., pais, professores, pares e /ou técnicos
envolvidos no processo), os quais poderão fornecer informação muito válida na
compreensão do funcionamento do jovem nas diversas áreas.
Funcionamento individual.Atendendo a que a investigação comprova que certas
características individuais do jovem poderão constituir importantes fatores de
risco ou mesmo de proteção para a emergência e desenvolvimento da conduta
delinquente (Born, 2005; Fonseca, 2004), importa igualmente proceder a uma
análise pormenorizada do funcionamento individual do jovem, Para tal, e para
além de se atender ao ponto de vista do jovem e de outros informantes
privilegiados (como é o caso dos pais e professores), poderá ainda recorrer-se
a uma componente avaliativa mais estruturada, e ancorada em instrumentos de
avaliação psicológica que visem a recolha de informação mais objetiva.
Desde logo, e de um ponto de vista individual, é previsível a possibilidade de
ser necessário analisar o funcionamento do sujeito, atendendo à sua
personalidade e ao seu estilo relacional. Se é certo que tais dimensões não são
forçosamente avaliadas, em determinadas situações impõe-se a sua análise, com a
finalidade de perceber melhor certos comportamentos e para despistar a
possibilidade de algum quadro disfuncional, em relação à personalidade e do
estabelecimento de laços afetivos. Afinal, trata-se de um conjunto de dimensões
que podem definir o funcionamento global do sujeito, ajudando a perceber uma
boa parte dos seus comportamentos.
No que respeita à avaliação da personalidade, é possível encontrar hoje um
leque bastante satisfatório de instrumentos de avaliação, embora possam
divergir nos graus de validade e utilidade em função das populações-alvo a que
se destinam (Manita, 2002). Muitos destes instrumentos têm sido submetidos a um
processo de adaptação para a população mais jovem (e.g., MMPI-A; NEO-FFI, entre
outros). O NEO Five-Factor Inventory - NEO-FFI(Costa & McCrae, 1992;
Lima & Simões, 2000) poderá, em nosso entender, constituir uma opção viável
para aceder às características da estrutura, organização e funcionamento da
personalidade dos jovens com condutas desviantes, estando validado para a
população portuguesa. O NEO-FFI consiste numa versão abreviada do NEO PI-R,
constituído por 60 itens, em modelo de resposta do tipo Likert(para cada
afirmação ou item existem 5 possibilidades de resposta que vai desde
"discordo fortemente" a "concordo fortemente"). Baseado
no modelo dos 5 fatores da personalidade de Costa e McCrae (2000)
(neuroticismo, abertura à experiência, amabilidade, extroversão e
conscienciosidade), o NEO-FFI foi desenvolvido para constituir uma medida
rápida e fiável de cinco domínios da personalidade do adulto. A cada domínio
correspondem 12 itens da escala.
Esta versão reduzida do NEO PI-R tem sido considerada como uma medida válida
para os 5 fatores na sua versão original (Costa & McCrae, 1992; Lima &
Simões, 2000), tendo sido já alvo de tradução em diversos países (e.g.,
Polónia, Alemanha, China, Coreia, Japão, entre outros) obtendo-se bons
resultados no que respeita a sua validade enquanto instrumento psicométrico.
Nos testes de validade efectuados por McCrae e Costa (1997), estes constataram
a mesma estrutura dos 5 fatores nas diferentes amostras, reforçando-se, desta
forma, o caráter culturalmente transversal do instrumento e a universalidade da
estrutura da personalidade dos 5 traços.
No âmbito da avaliação mais estruturada, importa também salientar o importante
papel do estilo relacional e da sua avaliação entre população desviante. Em
casos em que se suspeita (ou se tem conhecimento) de abuso de substâncias e de
práticas delinquentes esta análise torna-se ainda mais pertinente para que se
capture melhor o funcionamento global do indivíduo e para que se consiga aceder
à forma como ele perceciona os restantes e se perceciona a si, em termos
afetivos. Por isso, importa avaliar o padrão predominante de vinculação, pelo
que se propõe a utilização de um outro instrumento de avaliação, que contém 18
itens e que permite identificar a tendência do estilo relacional do sujeito.
Refere-se aqui a escala EVA da autoria de Collins e Read (1990), de resposta
rápida e fácil, e o qual se encontra já traduzida e adaptada à população
portuguesa por Canavarro (1999). O instrumento permite aceder ao padrão de
vinculação predominante nos indivíduos, possibilitando a perceção do estilo
relacional afetivo dos mesmos (Canavarro, Dias, & Lima, 2006).
Em função das particularidades de cada caso (e.g., motivo subjacente à
avaliação psicológica, características individuais do jovem avaliado,
circunstância em que ocorre o pedido de avaliação psicológica, etc.), a
avaliação estruturada poderá envolver ainda o recurso a outros instrumentos de
avaliação psicológica, sejam de largo espetro (como é o caso do Modelo
Multiaxial de Achenbach), sejam de despiste de problemáticas e/ou
sintomatologia mais específicas (e.g., a psicopatia, agressividade, distúrbios
de conduta, depressão, ansiedade, entre outros), já devidamente descritos em
outros protocolos de avaliação de jovens desviantes, testados e amplamente
divulgados na literatura (cf. Braga & Gonçalves, 2013; Martins &
Gonçalves, 2005).
Posteriormente, e já num registo de cruzamento entre a análise estruturada e a
mais idiográfica, pode recorrer-se a lista de verificação de elementos
facilitadores de trajetória transgressiva (Nunes & Trindade, 2013),
mediante o que se for retirando ao longo do processo de avaliação. Trata-se de
uma lista de verificação que, não sendo um instrumento psicométrico, é no
entanto uma forma de registo da presença/ausência de determinados elementos,
que foi pré-testada à semelhança do que é usualmente feito com estes
instrumentos menos estruturados, numa linha de análise convergente com as
conhecidas checkliststão usadas em contexto forense.
Em complementaridade com o que se for extraindo através do recurso a
instrumentos mais estruturados, e sempre numa aproximação à realidade única e
irrepetível do indivíduo, impõe-se que os valores eventualmente obtidos através
da análise a aspetos mais objetivos sejam contextualizados ao nível das
subjetividades identificadas e da história vivida do jovem.
A contextualização biográfica.Mais uma vez, a entrevista revela-se como sendo
de central importância, quer para aceder a aspetos relacionados com o percurso
desviante do indivíduo, que para captar os elementos biográficos que sejam
relevantes para a atual situação. Não obstante a pertinência e relevância da
entrevista na avaliação psicológica, é sabido que a população com condutas
desviante, não raras vezes, se revela renitente em expor-se e frequentemente
sem grande resistência à frustração, pelo que, nestas circunstâncias, o ideal
será recorrer a um método biográfico adequado e eficaz, que envolva ativamente
o sujeito na construção de um esquema de compreensão do seu próprio percurso
(Digneffe & Beckers, 2005; Smith, 1994).
O método biográfico permite o estabelecimento de ligações entre as diferentes
dimensões do funcionamento do indivíduo, desde a individual à social, abre
portas ao conhecimento do grupo específico a que o sujeito pertence e
possibilita a compreensão do que significa estar integrado nesse grupo. Através
do acesso à biografia do indivíduo torna-se possível apreender o particular, o
marginal, as regularidades e os pontos de rotura e equívocos mais marcantes da
vida do sujeito (Digneffe & Beckers, 2005).
Ora, com esta população, o que aqui se propõe é o biograma, enquanto conjunto
de pequenas narrativas que possibilitam a edificação de uma estrutura
esquemática e pautada pelos acontecimentos e circunstâncias de vida mais
marcantes para o indivíduo, sempre sob o seu próprio ponto de vista.
Entre os métodos biográficos apresentados e explorados no âmbito da Psicologia,
destaca-se o biograma cujo desenvolvimento tem sido muito útil para populações
desviantes (Manita, 2002). Trata-se de um instrumento com o potencial de, de
acordo com a mesma autora, recolher e registar uma sequência de pequenas
narrativas, apresentadas pelo próprio que vai explorando as diferentes etapas
da sua vida, organizando-as ao longo de um eixo cronológico. A exploração das
diferentes fases da biografia do indivíduo pode ser feita através de diferentes
aspetos centrais da sua vida, como o consumo de drogas, a prática delituosa,
etc. Assim, de tema em tema, vai-se edificando o chamado biograma temático, que
possibilita ao indivíduo ir expondo aquilo que ele próprio interpreta como
tendo sido central na sua vida. Efetivamente, a biografia inclui a narrativa e
o comportamento simultaneamente, e através do biograma, torna-se possível
aceder ao processo pelo qual o sujeito foi passando ao longo do seu percurso,
narrado na primeira pessoa (Manita, 2002).
O biograma proporciona a oportunidade de repensar e registar conjuntamente a
história familiar, o trajeto de consumos, o percurso escolar, o historial de
comportamentos desviantes, a história dos afetos e muito mais a respeito da
trajetória que foi sendo traçada pelo indivíduo (Tinoco & Pinto, 2001). É
ainda de salientar que se está a explorar um instrumento único, porque
apresenta o potencial de sistematizar e reorganizar as (ir)regularidades
biográficas do indivíduo, identificando os pontos fulcrais que terão
contribuído para a situação em que o mesmo se encontra no momento da avaliação
(Tinoco & Pinto, 2003).
Pode referir-se o biograma como sendo uma forma de aceder a informação, no
âmbito da avaliação, mas também como instrumento que, sendo construído
conjuntamente com o indivíduo e apresentado um processo de edificação como o
que foi sendo aqui descrito, se apresenta também como ferramenta de intervenção
(Nunes, 2011).
A condução da entrevista com vista à construção do biograma deve ser guiada
pela necessidade de envolver o sujeito na sua (re)construção biográfica, sendo
que o biograma mais não será, então, do que um instrumento edificado pelo
sujeito que, conjuntamente com o terapeuta, vais analisando o seu percurso
existencial através de uma espécie de revisitação aos diferentes campos da sua
vida, não deixando escapar os associados com o seu percurso desviante.
Conclusão
Avaliar jovens com comportamentos desviantes pressupõe desde logo atender à
grande heterogeneidade que caracteriza esta população, seja pela gravidade das
condutas exibidas (e.g., prática ou não de delitos), pela especificidade
inerente aos seus padrões de funcionamento (e.g., dificuldades cognitivas,
manifestações de ansiedade ou depressão, personalidade), ou mesmo pelo facto de
poderem apresentar uma combinação de diferentes fatores de risco que os
predispõe para a prática de delitos e outros comportamentos desviantes na
adolescência (Braga & Gonçalves, 2011; Fonseca, 2004). Por este motivo, a
avaliação deverá configurar-se como um processo complexo e dinâmico que deverá
atender a diferentes aspetos e empregar diferentes técnicas e fontes de
informação (Fonseca & Simões, 2004). Tendo por base estas evidências,
apresentámos ao longo deste capítulo, um roteiro de avaliação sustentado numa
vertente idiográfica, em que se analisam quer aspetos mais subjetivos (e.g.,
funcionamento familiar, social e ocupacional), fazendo uso de técnicas como a
entrevista e a observação, quer os aspetos mais objetivos (e.g., personalidade,
vinculação), mediante o recurso a técnicas e a instrumentos estruturados,
sempre de forma contextualizada e integrada. Para tal, é imperativo que o
processo avaliativo contemple não só o jovem avaliado, mas também a sua família
e outros contextos (como a escola através da auscultação dos professores e o
grupo de pares) e os quais detém um papel crucial na socialização do indivíduo
e, deste modo, poderão determinar a sua conduta normativa ou desviante. De
referir que o modelo que aqui se apresenta não poderá ser rígida e forçosamente
seguido sem que seja feita uma análise preliminar que permita ajustar este
modelo a cada caso que se nos apresenta. Só desta forma será possível emitir um
diagnóstico ajustado a cada caso e poder esboçar as devidas implicações para a
prática interventiva.