Desenvolvimento da Escala de Regulação da Satisfação de Necessidades
Psicológicas de Proximidade e Autonomia: Relação com o bem-estar e mal-estar
psicológicos
A investigação sobre o bem-estar psicológico tem tentado explicitar os seus
correlatos ou determinantes, tais como idade, género, etnia, educação, estado
conjugal, crenças religiosas, inteligência, contacto social e variáveis de
personalidade (Diener, 1984; Diener, Suh, Lucas, & Smith, 1999). Entre as
últimas, encontram-se as necessidades psicológicas.
O interesse actual por este constructo originou várias listas de necessidades
candidatas a forças motivadoras do comportamento (e.g., Murray, 1938/2008) ou
nutrientes psicológicos essenciais ao bem-estar psicológico (e.g., Deci &
Ryan, 2000). Contudo, apesar da multiplicidade, diversidade e abrangência de
propostas, as necessidades de proximidade(i.e., estabelecimento e manutenção de
relações íntimas) e autonomia(i.e., auto-determinação e diferenciação) são
frequentemente referidas como precursoras de um funcionamento adaptativo (e.g.,
Baumeister & Leary, 1995; Deci & Ryan, 2000; Epstein, 1993; Sheldon,
Elliot, Kim, & Kasser, 2001).
Contudo, a relação entre estas necessidades não tem sido descrita de forma
suficientemente clara, encontrando uma formulação explícita no Modelo de
Complementaridade Paradigmática (Vasco, 2009). Este modelo propôs sete pares de
necessidades dialécticas, entre as quais se incluem as necessidades
supracitadas, cuja regulação teria efeitos nos níveis de beme mal-estar
psicológicos. Concretizando, pressupõe-se que o Bem-estar Psicológico resulta
de um processo contínuo de negociação e balanceamento das polaridades
dialécticas, o qual é responsável por uma regulação satisfatória das
necessidades de Proximidade e Autonomia. Deste modo, o Bem-estar e Mal-estar
Psicológicos resultam da capacidade do indivíduo em atender, simbolizar e
negociar os requisitos experienciais inerentes ao estabelecimento/manutenção de
relações próximas e à auto-determinação.
O presente artigo pretende contribuir para o desenvolvimento de um instrumento
de avaliação do grau de regulação destas necessidades, bem como explorar a
natureza da relação entre as mesmas.
Necessidades psicológicas e bem-estar psicológico
O interesse pela natureza das necessidades psicológicas e o seu impacto no
funcionamento humano iniciou-se nos princípios do século XX, tendo sido
estudadas por diversos autores, os quais propuseram listas de necessidades
universais (e.g., Deci & Ryan, 1985; Epstein, 1993; Freud, 1920; Maslow,
1943; McDougall 1908; Murray, 1938/2008; Sheldon et al., 2001).
No princípio dos anos 80, e após algumas décadas de escassa investigação, com o
desenvolvimento da Teoria da Auto-Determinação (TAD), resumiu-se o estudo das
necessidades psicológicas e o seu impacto em vários domínios do comportamento
humano (e.g., trabalho, relações interpessoais, educação, parentalidade, saúde
física e mental, Deci & Ryan, 2008). Neste período, a TAD foi aplicada e
investigada num domínio que mereceu um destaque consistente: o Bem-estar
Psicológico.
Para estes autores, as Necessidades são requisitos experienciais ou nutrientes
psicológicos essenciais à regulação de níveis de bem-estar e mal-estar
psicológico. De uma forma mais específica, propuseram três necessidades
psicológicas (Autonomia, Proximidade e Competência) cuja satisfação é essencial
para que seja experienciado Bem-estar. A Autonomia refere-se à experiência de
escolha, autoria e apoio ao mais alto nível de consciência de um determinado
comportamento. A Proximidade é a experiência de ser compreendido, de estar em
ligação come de ser apreciado pelos outros. Já a noção de competênciarespeita
ao sentido de auto-eficácia na obtenção de resultados em tarefas exigentes.
A investigação empírica realizada tem sustentado os pressupostos teóricos
apresentados pela Teoria da Auto-Determinação, na medida em que a satisfação
destas necessidades associa-se positivamente a medidas de Bem-estar Psicológico
(e.g., Reis, Sheldon, Gable, Roscoe, & Ryan, 2000S; heldon, Ryan, &
Reis, 1996) e a sua privação ao longo do ciclo vital constitui uma condição
facilitadora para o desenvolvimento de perturbações mentais, como a anorexia e
bulimia nervosa, a título de exemplo (Strauss & Ryan, 1987).
Proximidade e autonomia: Necessidades dialécticas
A relação dialéctica entre estas necessidades implica afirmar que existe um
elemento de contraste e de síntese nas estruturas psicológicas envolvidas na
regulação da satisfação das necessidades de Proximidade e Autonomia. Ou seja,
por um lado, é-lhe inerente um elemento de oposiçãoe tensão, na medida em que,
em algumas circunstâncias, os requisitos necessários para a satisfação conjunta
e simultânea são incompatíveis. Este cenário ocorre quando, por exemplo, numa
relação interpessoal abdicamos de certas actividades preferidas a favor de
outras, de maneira a satisfazer os interesses do outro, permitindo a manutenção
do laço relacional (Deci & Ryan, 2000). Por outro lado, a relação entre
necessidades poderá caracterizar-se por ser sinérgicae mutualista, no sentido
em que o desenvolvimento da capacidade de regulação de Proximidade com
qualidade (não dependente) influi e beneficia a regulação da necessidade de
Autonomia com qualidade (não evitante) e vice-versa.
Esta relação dialéctica foi posta em evidência por Blatt (2008). Baseando-se na
Teoria de Desenvolvimento Psicossocial de Erikson (1982), o autor defendeu que
o desenvolvimento saudável da personalidade envolve a maturação ao longo de
duas linhas de desenvolvimento - individuaçãoe relacionamento. Contudo, o
desenvolvimento ao longo destas não é serial e estanque, mas sim, sinérgico e
dialéctico. Assim, o desenvolvimento de uma personalidade organizada e madura
implica a progressão emparelhada entre estas linhas, sendo que a diferenciação
ao nível da Individuação potencia o desenvolvimento de estruturas e processos
psicológicos mais capazes de estabelecer e manter relações interpessoais; e
estes, por sua vez, potenciam níveis superiores de Individuação e definição do
Self.Deste modo, o desenvolvimento psicológico do indivíduo, ao longo do ciclo
vital, requer uma série de transacções mutualistas e dialécticas entre estes
dois eixos de organização da personalidade.
Blatt (2008) relacionou o desenvolvimento destas duas dimensões de
personalidade com a regulação de necessidades de Proximidade e Autonomia. Para
tal, fez a correspondência entre individuação e necessidades de Autonomia e
Competência, bem como entre relacionamento e necessidade de Proximidade. Assim,
tendo em conta esta associação entre o modelo de Blatt e a TAD, foi possível
retirar duas conclusões. Em primeiro lugar, a diferenciação progressiva destes
selves(i.e., selfrelacional e selfindividuado) permite níveis progressivamente
superiores de regulação da satisfação de necessidades de Proximidade e
Autonomia.Isto é, quanto mais relacionaise individuados formos, mais capazes
seremos de regular a satisfação de necessidades de Proximidade e Autonomia. Em
segundo lugar, o desenvolvimento dos processos psicológicos responsáveis pela
regulação de necessidades tem o mesmo carácter sinérgico e dialéctico da
perspectiva desenvolvimentista de Blatt, no sentido em que se influenciam mútua
e reciprocamente.
Nesse sentido, a investigação empírica realizada sobre este tema tem
apresentado dados que apoiam a relação dialéctica entre estas necessidades,
existindo associações positivas entre a autonomiae estilos de vinculação
seguros (Leak & Cooney, 2001, citado em LaGuardia & Patrick, 2008) e
satisfação relacional (Hodgins, Koestner, & Duncan, 1996; Patrick, 2007,
citado em LaGuardia & Patrick, 2008).
Modelo de complementaridade paradigmática
O Modelo de Complementaridade Paradigmática (Vasco, 2009) hipotetizou sobre a
natureza e relação entre necessidades psicológicas. Para esse efeito, propôs
sete pares de necessidades dialécticas cuja regulação teria efeitos nos níveis
de bem e mal-estar psicológico obtidos pelas pessoas. Estas necessidades são:
(1) Prazer - Dor (capacidade de obtenção e apreço de prazer físico e
psicológico; capacidade de suportar dores inevitáveis e de atribuir significado
à dor); (2) Proximidade - Autonomia(capacidade de estabelecer e manter
relações íntimas; capacidade de auto-determinação e diferenciação); (3)
Produtividade - Lazer(capacidade para concretizar feitos valorizados pelo
próprio; capacidade para se envolver e desfrutar em actividades não-
produtivas); (4) Controlo - Cedência(capacidade de influenciar o
ambiente; capacidade de delegar e abdicar de controlo); (5) Actualização/
Exploração - Tranquilidade(capacidade para explorar e expor-se à
novidade; capacidade para apreciar o que se possui); (6) Coerência doSelf
- Incoerência doSelf (congruência entre o Eu real e o Eu ideal,
congruência entre o que se pensa, sente e faz; capacidade para tolerar
conflitos e incongruências ocasionais); (7) Auto-estima - Auto-Crítica
(capacidade para sentir-se satisfeito consigo próprio; capacidade para
identificar, tolerar e aprender com insatisfações pessoais).
A par de sugerir estas necessidades, este modelo vincou a relação dialéctica
entre as mesmas, explicitando os processos psicológicos subjacentes à regulação
contínua das mesmas. Assim, pressupõe-se que o Bem-estar Psicológico resulta de
um processo contínuo de negociação e balanceamento das polaridades dialécticas,
o qual é responsável por uma regulação satisfatória das mesmas. Aplicando este
processo ao caso específico das necessidades destacadas no presente estudo, o
Bem-estar e Mal-estar psicológicos serão consequências da capacidade do
indivíduo em atender, simbolizar e negociar os requisitos experienciais de
Proximidade e Autonomia.
Assim e em jeito de resumo, a investigação feita nesta área tem vindo a
demonstrar a existência de uma associação positiva entre a satisfação de
necessidades de Proximidade e Autonomia e o Bem-estar psicológico e uma
associação negativa ao Mal-estar Psicológico. Simultaneamente, tem havido um
aumento de conhecimento em termos conceptuais relativamente à relação
dialéctica e sinérgica entre o funcionamento autónomo e a capacidade de
estabelecer e manter relações próximas. Contudo, esta conceptualização não
reconhece, de forma suficientemente explícita, a ligação entre os diferentes
níveis de funcionamento em ambas as dimensões (Proximidade e Individuação, nos
termos usados por Blatt, 2008) e a regulação da satisfação de necessidades
propostas no presente estudo.
Tendo em conta esta limitação, achou-se pertinente a construção de um novo
instrumento de avaliação do grau de regulação destas necessidades, o qual
tivesse em consideração a conceptualização teórica proposta pelo Modelo de
Complementaridade Paradigmática. Apesar de existirem instru mentos aptos a
medir a satisfação da necessidade de Proximidade e de Autonomia (e.g., Reis et
al., 2000; Sheldon et al., 1996), a estrutura dos mesmos não contempla de forma
suficientemente explícita a natureza dialéctica e sinérgica destas
necessidades. Noutras palavras, não incorporam o conceito de influência mútua e
recíproca entre estas necessidades, no sentido de que o desenvolvimento da
capacidade de regular a necessidade de Proximidade requer e beneficia do
desenvolvimento da capacidade de regular a necessidade de Autonomia e vice-
versa.
A par disso, a construção da Escala de Regulação da Satisfação das Necessidades
de Proximidade e Autonomia (ERSN-P/A) disponibilizaria um instrumento que
avalie, num determinado momento, o estado da capacidade das pessoas em regular
as duas necessidades tidas como fundamentais a um funcionamento óptimo. Como
tal, este instrumento poderá constituir uma ferramenta útil a terapeutas de
várias formações teóricas, permitindo uma monitorização da progressão do
paciente ao longo da terapia no que diz respeito à capacidade de estabelecer e
manter relações íntimas e de ser autónomo.
A par desta lacuna, não foi feito nenhum estudo que tivesse como objectivo
fundamental a determinação do funcionamento conjunto da capacidade de regulação
da satisfação de necessidades de Proximidade e Autonomia no Bem-estar e Mal-
estar Psicológico. Considerando o Modelo de Complementaridade Paradigmática,
seria expectável que os indivíduos mais capazes de negociar e balancear as
polaridades dialécticas de Proximidade e Autonomia obtivessem níveis elevados
de regulação da satisfação de ambas as necessidades e, consequentemente níveis
elevados de Bem-estar Psicológico e reduzidos de Mal-estar Psicológico. Este
desempenho diferencial em termos de bem-estar seria válido para este grupo de
indivíduos quando comparados com outros que não fossem tão capazes de tal
equilíbrio, pois este último grupo, pelas dificuldades inerentes a este
processo, teria um desempenho inferior.
Em suma, o processo de negociação e balanceamento de necessidades (variável que
não é medida directamente no nosso estudo) tem efeito na regulação da
satisfação das mesmas e consequentemente nos níveis de bem-estar. Ou seja, em
teoria, quanto mais capazes forem os indivíduos a negociar e balancear as
necessidades, melhores serão os seus níveis de regulação de necessidades e,
consequentemente, de bem-estar. Como tal, esperou-se demonstrar a provável
importância do processo dialéctico de regulação indirectamente, através da
comparação do grupo com níveis elevados de regulação em proximidadee
autonomiacom os restantes grupos.
Assim, este estudo propôs-se a desenvolver um instrumento de medida de
regulação da satisfação de necessidades de Proximidade e Autonomia, bem como a
clarificar a relação entre estas medidas e resultados de Bem-estar e Mal-estar
Psicológicos.
De uma forma mais concreta, hipotetiza-se que:
1) A regulação da satisfação da necessidade de Proximidade e Autonomia
influencie, individualmente, o Bem-estar Psicológico. Isto é, os valores mais
elevados em cada uma destas variáveis corresponderão a valores mais elevados de
Bem-estar Psicológico.
2) A regulação da satisfação da necessidade de Proximidade e Autonomia
influencie, individualmente, o Mal-estar Psicológico. Isto é, os valores mais
reduzidos em cada uma destas variáveis corresponderão a valores mais elevados
de Mal-estar Psicológico.
3) O grupo de indivíduos com níveis mais elevados de regulação simultânea de
Proximidade e Autonomia apresentem resultados superiores de Bem-estar e
inferiores de Mal-estar Psicológico, quando comparados com o grupo de
indivíduos com níveis mais reduzidos em ambas as variáveis e com o grupo de
indivíduos com níveis elevados em apenas uma delas (Proximidade ou Autonomia).
Método
Procedimento e participantes
De maneira a concretizar os objectivos propostos, foram colocados dois
instrumentos (i.e., Inventário de Saúde Mentale Escala de Regulação da
Satisfação de Necessidades- Proximidade/Autonomia) numa plataforma
informática onlineprivada (i.e., cujo acesso aos dados dos participantes era
exclusiva aos investigadores), durante um período de dois meses. Por motivos de
conveniência, a par da ERSN-P/A foram apresentados aos sujeitos duas outras
escalas integrantes da Escala de Regulação da Satisfação de Necessidades,
correspondentes a outros pares dialécticos de necessidades: a Escala de
Regulação da Satisfação de Necessidades - Prazer/Dor e a Escala de
Regulação da Satisfação de Necessidades - Coerência/Incoerência.
A página de apresentação da plataforma informática consistiu num enunciado do
tema, objectivo e método da investigação, bem como das condições de
participação no mesmo, incluindo a garantia de confidencialidade e anonimato.
De forma mais específica, e elaborando sobre o procedimento de selecção da
amostra, estabeleceram-se as seguintes condições de participação necessárias:
idade igual ou superior a 18 anos; nível de escolaridade mínimo equivalente ao
9º ano; Português como língua materna; e por último, o não-acompanhamento
psicoterapêutico ou psiquiátrico no momento da participação no estudo. Esta
última condição foi inserida com o propósito explícito de obter uma amostra
não-clínica. A recolha destes dados identificativos (i.e., idade, género,
estado civil e habilitações literárias) limitou-se ao estritamente necessário,
pretendendo-se garantir a confidencialidade da informação prestada pelos
participantes. Após a leitura desta página de apresentação do estudo, os
participantes tinham a possibilidade de avançar para o preenchimento dos
questionários.
Com a aplicação deste procedimento obteve-se uma amostra de 237 participantes.
Esta amostra foi constituída pelos participantes que acederam à plataforma
informática e completaram todos os itens propostos, tendo sido excluídos 10
participantes os quais iniciaram os questionários, mas não os concluíram. Na
sua maioria, os participantes eram do sexo feminino (72.57%), com uma idade
média de 30.2 anos (DP=9.97), variando entre os 18 e os 64 anos e habilitações
literárias predominantemente de nível superior (84.81%). Na sua maioria, tinham
uma relação amorosa estável (62.45%).
Medidas
A Escala de Regulação da Satisfação de Necessidades - Proximidade/
Autonomia (ERSN-P/A) foi elaborada como medida da regulação de necessidades de
Proximidade e Autonomia.
A ERSN-P/A consiste num instrumento de auto-relato composto por 2 subescalas
(Proximidade; Autonomia) e 16 itens. Para cada item, os participantes indicam o
seu grau de acordo. A sua resposta é classificada numa escala de tipo Likert,
com oito pontos, a qual varia entre o valor 1 (discordo completamente) e 8
(concordo completamente). Ambas as sub-escalas basearam-se na revisão de
literatura existente (e.g., Blatt, 2008) e na experiência clínica, a partir da
qual formulou-se 16 itens alinhados conceptualmente com os modelos teóricos
relevantes. Tendo em conta esta formulação conceptual, a versão disponibilizada
aos participantes foi idêntica à versão inicialmente concebida pelos autores.
A sub-escala Proximidade é constituída por 8 itens, 2 dos quais invertidos e
implica o desenvolvimento e manutenção de relações interpessoais
significativas. Estas relações são caracterizadas por interacções agradáveis e
frequentes (exemplificado no item "Tenho prazer em estar com os
outros"). Simultaneamente, as interacções indicadoras de Proximidade
implicam que as pessoas envolvidas nas mesmas experienciem afectos ou estados
emocionais sensíveis ao bem-estar do outro (por exemplo, "Sinto-me
preocupado(a) quando sei que pessoas próximas estão a sofrer"). Por
último, incluiu-se na sub-escala de Proximidade o item "É inevitável que,
por vezes, me sinta só"reflectindo um componente distinto associado às
relações interpessoais: a experiência de conforto com a solidão. Esta
característica deriva da conceptualização de Winnicott (1958), o qual defendeu
que a capacidade de estar só deriva da experiência de relações interpessoais
suficientemente boas.
A sub-escala de Autonomia é composta igualmente por 8 itens, 3 dos quais
invertidos. Considerou-se que esta contém três componentes: agência,
concordância com o selfe diferenciação do self. A agênciaconsiste num locusde
causalidade interna ou de auto-determinação, em que a escolha subjacente a um
acto resulta de características do próprio (i.e., crenças, desejos e valores).
Em resultado da percepção da determinação causal interna, um indivíduo autónomo
experiencia-se como a origem e causa das suas escolhas e comportamentos (por
exemplo, "Sinto-me livre para escolher a maneira como vivo a minha
vida"). O segundo componente de Autonomia define-se pela concordância com
o self de decisões, objectivos e comportamentos, os quais podem variar no grau
em que são aceites, apoiados e congruentes com valores pessoais (por exemplo,
"Sinto-me confortável e bem comigo próprio(a) quando tomo uma decisão,
mesmo que esta seja contrária à dos outros"). O terceiro e último
componente consiste na diferenciação do self, conceito defendido por Brewer
(1991, citado em Sheldon & Bettencourt, 2002), sendo medido pelo item
"Ainda que possa preferir estar acompanhado(a), sou capaz de me sentir
bem quando estou sozinho(a)".
O Inventário de Saúde Mental(ISM) foi utilizado para avaliar os níveis de Bem-
estar Psicológico e Mal-estar Psicológico (versão portuguesa de José L. Pais-
Ribeiro, 2001; adaptação por M. Eugénia Duarte-Silva e Rosa Novo, 2001. FPCE
- Universidade de Lisboa), versão portuguesa do Mental Health Inventory
(MHI)(Ware, Johnston, Davies-Avery, & Brook, 1979, citado em Ribeiro,
2001).
Tal como o MHI, a versão portuguesa deste instrumento, o ISM, caracteriza-se
por ser um inventário de auto-relato, com resposta de tipo ordinal de cinco ou
seis categorias, que visa avaliar a Saúde Mental em dimensões positivas e
negativas. Os 38 itens que compõem este Inventário agrupam-se em cinco destas
dimensões. A subescala de DistressPsicológico é composta por três dimensões
negativas (Ansiedade - 10 itens, Depressão - cinco itens, Perda de
Controlo Emocional/Comportamental - nove itens). Por sua vez, a subescala
de Bem-estar Psicológico é constituído pelas restantes duas dimensões, de
valência positiva (Afecto Positivo - 11 itens, Laços Emocionais -
três itens). As duas subescalas resultam do somatório dos resultados brutos de
cada item, podendo variar entre 24 e 142 pontos para a subescala de
DistressPsicológico e entre 14 e 84 pontos para a subescala Bem-estar
Psicológico.
A versão portuguesa (ISM) apresenta valores de consistência interna que variam
entre o satisfatório a elevado, sendo comparáveis ao instrumento original
(Ribeiro, 2001). No presente estudo, a consistência interna oscilou entre .67
(sub-escala Depressão) e .95 (Escala Total). O Quadro_1 apresenta as medidas de
consistência do MHI, do ISM, bem como as referentes ao presente estudo.
Resultados
Estudo I. Avaliação das qualidades psicométricas da ERSN-P/A
O Quadro_2 mostra os resultados (média e desvio-padrão) por item e por sub-
escala.
Análise factorial.Os 16 itens da ERSN-P/A foram submetidos a uma análise de
componentes principais. Contudo, apesar de ser revelada uma estrutura
factorial, esta não fez sentido do ponto de vista teórico, podendo ser o
resultado da correlação forte entre as variáveis de Proximidade e Autonomia.
Consistência interna.A consistência interna foi analisada através do
coeficiente alfa de Cronbach, em termos de escala global e de cada uma das
subescalas (Proximidade e Autonomia). Considerou-se um resultado alfa superior
a .7 como um bom indicador de consistência interna. Assim, a escala global
obteve uma medida de consistência interna boa (α=.761). Por outro lado, as duas
subescalas obtiveram níveis inferiores ao esperado (Proximidade, α=.697;
Autonomia, α=.647). De forma a melhorar a precisão das sub-escalas, procedeu-se
a uma análise às correlações entre itens, da qual resultou a decisão de retirar
itens a cada uma das subescalas de maneira a torná-la mais precisa: (1) na
subescala de Proximidade, procedeu-se à retirada do item "É inevitável
que, por vezes, me sinta só"devido à correlação negativa com a restante
subescala (r=-.211); (2) na subescala de Autonomia, decidiu-se retirar o item
com a correlação mais baixa com os restantes itens da sub-escala ("É-me
muito difícil tomar uma decisão sem ouvir a opinião dos outros", r=.257).
Fundamentando estas escolhas, decidiu-se retirar apenas um item da sub-escala
de Autonomia porque a sua ausência permitiu aumentar a média da correlação
entre itens, tornando a precisão da escala mais aceitável. Optou-se por afastar
apenas um item pois um número reduzido de itens numa escala influencia
negativamente as medidas de precisão (Pallant, 2007). Por outro lado, com a
exclusão destes itens, a consistência interna do instrumento global (ERSN-P/A)
é de α=.836.
Após estas alterações, a consistência interna da Proximidade é de α=.833 e da
subescala de Autonomia é de α=.641. Ou seja, o alfa de Cronbach da subescala de
Autonomia manteve-se inferior ao desejável. Contudo, com base em Pallant
(2007), é possível argumentar que os resultados inferiores a .7 são aceitáveis
em escalas com um número de itens inferior a 10. Aliás, nestes casos, é
possível utilizar uma medida de consistência interna alternativa, a média da
correlação entre itens, a qual, para ser aceitável, deverá encontrar-se entre
.2 e .4 (Briggs & Cheek, 1986). Para esta subescala, este valor é de
r=.206, encontrando-se, desta forma, dentro de parâmetros aceitáveis.
O Quadro_2 apresenta os dados de consistência das subescalas de Proximidade e
Autonomia.
Validade dos itens.A validade dos itens foi analisada com base na correlação de
cada item com a subescala a que pertence (validade convergente). Considerou-se
como correlação adequada um valor superior a .3. Apenas 2 itens da subescala de
Autonomia não cumpriram com estes critérios, apresentando um valor inferior a
.3 (ver Quadro_2).
Em termos de validade divergente, decidiu-se que a diferença entre a correlação
do item com a sub-escala a que pertence deveria ser superior em .1
relativamente à correlação com a subescalas a que não pertence (Ribeiro, 2001).
Quanto a este critério, verificou-se que dos 14 itens, apenas 3 não cumpriram
os critérios especificados (A1, A3 e A8).
Estudo II - Análise da relação entre as variáveis
Correlações entre variáveis.Analisaram-se as correlações entre as quatro
variáveis, usando o coeficiente de Pearson. Os resultados encontram-se no
Quadro_3.
Regressão linear múltipla.Foi realizada uma Regressão Linear Múltipla
standardde maneira a estudar a capacidade explicativa das variáveis Proximidade
e Autonomia no Bem-estar e Mal-estar Psicológico.
Os resultados apresentados no Quadro_4 demonstram que as variáveis Proximidade
e Autonomia têm, no seu conjunto, um valor explicativo do Bem-estar Psicológico
[r²=.34, F(2,234)=58.86, p=.000]. A mesma constatação verifica-se para cada uma
das variáveis, de forma individual [Proximidade, β=.47, t(236)=7.42, p<.001]
[Autonomia, β=.16, t(236)=2.54, p=.01].
Quanto ao Mal-estar Psicológico, os resultados indicam que existe pelo menos
uma variável com influência nos valores de Mal-estar, já que o conjunto destas
variáveis explicam 32.8% da variância dos resultados de Mal-estar Psicológico
[r²=.33), F(2,234)=57.21, p<.001]. Concretizando, quer a Proximidade [β=-.38, t
(236)=-5.90, p<.001], quer a Autonomia [β=-.27, t(236)=-4.21, p<.001], explicam
significativamente o Mal-estar Psicológico.
Análise de variâncias Multivariada - MANOVA.Utilizou-se uma Análise de
Variâncias Multivariada (MANOVA) para verificar as diferenças de variâncias de
grupos com diferentes valores em Proximidade e Autonomia. Para tal, os grupos
foram divididos pelas medianas dos resultados nestas variáveis. Como variáveis
dependentes foram considerados o Bem-estar e o Mal-estar. O grupo 1 é composto
pelos participantes com resultados inferiores à mediana em Proximidade e
Autonomia (P-A-; N=89). O grupo 2, os participantes com resultados inferiores
em Proximidade e superiores em Autonomia (P-A+; N=40). O grupo 3 reúne os
participantes com resultados superiores em Proximidade e inferiores em
Autonomia (P+A-; N=72). E por último, o grupo 4 contém os participantes com
resultados superiores em Proximidade e Autonomia (P+A+; N=72).
Através da MANOVA pretendeu-se comparar os vários grupos em termos de
Proximidade e Autonomia. Para tal, realizaram-se duas comparações: o grupo 4
(P+A+) com o conjunto dos outros grupos (P+A-; P-A+; P-A-) e entre todos os
grupos. Esta análise permitiu, por um lado, testar a hipótese de que os
indivíduos com elevados níveis de regulação de ambas as necessidades (Grupo 4,
P+A+) teriam resultados superiores de Bem-estar Psicológico e inferiores de
Mal-estar Psicológico, quando comparados com o conjunto dos restantes grupos
(Grupos 1, 2 e 3). Por outro, ao comparar cada grupo individualmente, almejou-
se avaliar o impacto de diferentes níveis de regulação de Proximidade e
Autonomia no Bem-estar e Mal-Estar Psicológico. Recorde-se que o presente
estudo propôs que os indivíduos com níveis elevados de regulação de Proximidade
e Autonomia (grupo 4) teriam resultados superiores de Bem-estar e inferiores de
Mal-estar Psicológico, quando comparados com os grupos com apenas uma
necessidade com nível elevado (grupo 2, P-A+; grupo 3, P+A-). Estes grupos, por
sua vez, deveriam ter resultados superiores em Bem-estar e inferiores em Mal-
estar Psicológico, quando comparados com o grupo com resultados inferiores em
ambas as necessidades (grupo 1, P-A-).
No que diz respeito ao Mal-estar, obteve-se um resultado F(1,235)=35.64,
p<.001, partial eta squared=.13. Através dos resultados médios, verifica-se que
o grupo 4 (Grupo 4: M=50.97; DP=1.17) tem uma média significativamente inferior
ao conjunto dos grupos 1, 2 e 3 (Grupo 123: M=63.67; DP=1.17).
No que diz respeito à comparação entre cada grupo, os resultados indicam que
existe uma diferença significativa entre os 4 grupos, quer para a variável Bem-
estar [F(3,23)=31.26; p<.001; partial eta squared=.29], quer para a variável
Mal-estar Psicológico [F(3,23)=29.89; p<.001; partial eta squared=.27].
Comparando as diferenças entre os 4 grupos, verificaram-se diferenças
significativas entre estes. O Quadro_5 resume as comparações entre grupos nas
variáveis Bem-estar e Mal-estar Psicológico.
Relativamente à variável Bem-estar Psicológico, observam-se os seguintes
resultados: o grupo 4 (P+A+) obtém níveis de Bem-estar significativamente
superiores ao grupo 1 (P-A-) (p<.001) e ao grupo 2 (P-A+) (p=.002); o grupo 3
(P+A-) obtém níveis de Bem-estar significativamente superiores ao grupo 1 (P-A-
) (p<.001); e o grupo 2 (P-A+) obtém níveis de Bem-estar significativamente
superiores ao grupo 1 (P-A-) (p=.012).
Relativamente à variável Mal-estar Psicológico, verifica-se que: o grupo 4
(P+A+) obtém níveis de Mal-estar significativamente inferiores ao grupo 1 (P-A-
) (p<.001); o grupo 3 (P+A-) obtém níveis de Mal-estar significativamente
inferiores ao grupo 1 (P-A-) (p<.001); o grupo 2 (P-A+) obtém níveis de Mal-
estar significativamente inferiores ao grupo 1 (P-A-). Ainda no que diz
respeito à variável Mal-estar Psicológico, os resultados indicam que o grupo 1
(P-A-) tem resultados significativamente superiores ao grupo 2 (P-A+) (p<.001),
grupo 3 (P+A-) (p<.001) e grupo 4 (P+A+) (p<.001).
Discussão de resultados
O presente estudo teve como objectivos a elaboração de um instrumento de
avaliação do grau de regulação da satisfação das necessidades de Proximidade e
Autonomia e a exploração da relação entre o grau de regulação das mesmas em
medidas de Bem-estar e Mal-estar Psicológico.
Quanto ao referido instrumento (ERSN-P/A), após a remoção de dois itens, este
mostrou ser preciso, apresentando um nível bom de consistência interna. Por sua
vez, as subescalas de Proximidade e Autonomia revelaram uma consistência
interna boa e aceitável, respectivamente, de acordo com Briggs e Cheeks, 1986.
Em termos de validade, a sub-escala de Proximidade apresentou boas medidas de
validade convergente e divergente, enquanto a sub-escala de Autonomia revelou
algumas limitações com três itens. Não obstante estas limitações, este
incumprimento do critério de validade divergente (i.e., correlação superior a
.1 com a sub-escala a que pertence relativamente à restante sub-escala) pode
ser explicado pela formulação dos itens em causa [Sinto-me livre para escolher
como vivo a minha vida; Consigo sentir-me eu próprio(a) durante a maior parte
do tempo; Ainda que possa preferir estar acompanhado(a), sou capaz de me sentir
bem quando estou sozinho(a)]. De forma mais concreta, estes poderão distinguir-
se dos restantes por reflectirem, não só os componentes de carácter
experiencial da necessidade de Autonomia (i.e., locusde causalidade interna,
concordância com o selfe diferenciação do self), mas também as características
de um selfautónomo e diferenciado. Como tal, numa eventual reformulação desta
sub-escala, estes itens poderão ser construídos de forma a reflectir a
experiência "directa" da necessidade de autonomia. Apesar destas
limitações, tendo em conta as qualidades psicométricas globais verificadas na
ERSN-P/A, esta revelou-se uma escala de avaliação suficientemente precisa e
adequada ao seu propósito. Consequentemente, poderá ser considerada na inclusão
de uma futura Escala de Regulação da Satisfação de Necessidades (ERSN),
destinada a medir a regulação da satisfação dos sete pares de necessidades
dialécticas propostos pelo Modelo de Complementaridade Paradigmática (Vasco,
2009). Esta escala, por sua vez, poderia ser útil quando utilizada num contexto
psicoterapêutico, considerando os efeitos que a regulação de necessidades tem
ao nível de Bem-estar e Mal-estar Psicológicos.
Este carácter útil da Escala provém da relevância do próprio conceito de
Necessidade Psicológica. Conceição e Vasco (2005) propuseram que as
Necessidades Psicológicas poderiam ser conceitos relevantes a vários modelos
psicoterapêuticos de diferentes orientações teóricas. De facto, alguns modelos
incluíram o conceito de Necessidades nas suas teorias de perturbação, de
funcionamento adaptativo e de mudança. Numa tradição mais cognitivista, por
exemplo, Young, Klosko e Weishar (2003) associaram a origem de esquemas
desadaptativos à não-satisfação de necessidades. Dentro de uma linha mais
humanista e experiencial, Greenberg, Rice e Elliot (1993) identificaram o mesmo
motivo (i.e., a não-satisfação de necessidades) como tendo uma relação causal
com alguns tipos de dificuldades de processamento emocional, nomeadamente
assuntos inacabados. Acrescentaram também que a resolução deste tipo de queixas
implica a utilização de tarefas terapêuticas que envolvem, por exemplo, o
contacto experiencial e simbolização de necessidades.
Assim, tendo em conta a relevância potencial do constructo Necessidade
Psicológica (e sua regulação) para o funcionamento adaptativo e óptimo, génese
e manutenção de sofrimento mental e mudança, considera-se oportuna esta
proposta de 7 pares de Necessidades dialécticas, bem como de uma escala que
permita avaliá-las.
No que respeita à relação entre as variáveis, os resultados obtidos apoiaram
uma das hipóteses propostas: a regulação das necessidades de Proximidade e
Autonomia previu, individualmente, os níveis de Bem-estar e Mal-estar
Psicológico. De uma forma resumida, quanto maior foi a capacidade de regulação
da Proximidade ou de Autonomia, maior foi o Bem-estar e menor o Mal-estar e
sofrimento psicológico.
Este resultado vem confirmar aquilo que tem sido colocado em evidência pela
Teoria da Auto-Determinação (e.g., Deci & Ryan, 2000) sobre a influência de
cada uma destas necessidades no Bem-estar Psicológico. Simultaneamente, vem
salientar um ponto que tem sido menos explorado pela literatura até ao momento:
as dificuldades na regulação da satisfação de necessidades de Proximidade ou
Autonomia poderão ter influências ao nível de Mal-estar Psicológico e da
probabilidade de ocorrência de algum tipo de perturbação mental.
A confirmação destas hipóteses acrescenta validade à proposta apresentada
anteriormente relativamente à relevância do trabalho terapêutico que incida
sobre necessidades psicológicas, nomeadamente a Proximidade e Autonomia. De
forma mais concreta, os resultados apresentados neste estudo relativamente à
regulação individual das necessidades de Proximidade e de Autonomia parecem
confirmar o valor de intervenções terapêuticas promotoras de mudança ao nível
de estruturas e processos psicológicos responsáveis pela regulação destas
necessidades.
Em seguida, reflicta-se sobre as comparações entre grupos de participantes. A
comparação do grupo de participantes com níveis mais elevados em ambas as
variáveis, Proximidade e Autonomia (grupo 4), com o conjunto dos outros (grupo
1+2+3) revela, tal como esperado, diferenças significativas nos níveis de Bem-
estar e Mal-estar Psicológico. Este resultado parece indicar que os indivíduos
com capacidades elevadas de regulação de ambas necessidades obtêm níveis
superiores de Bem-estar e inferiores de Mal-estar Psicológico, quando
comparados com os restantes indivíduos.
Este padrão de resultados obtidos por indivíduos com elevadas capacidades de
regulação de ambas as necessidades encontra suporte parcial noutras comparações
efectuadas. A título de exemplo, o grupo de participantes com resultados
elevados em Proximidade e Autonomia (Grupo 4, P+A+) está significativamente
melhor em termos de Bem-estar e Mal-estar Psicológicos relativamente ao grupo
com resultados inferiores em ambas as variáveis (Grupo 1, P-A-).
Contudo, este padrão de resultados significativos é quebrado ao comparar os
grupos 3 (P+A-) com o grupo 4 (P+A+) na variável Bem-estar Psicológico e entre
os grupos 2 (P-A+), 3 (P+A-) e 4 (P+A+) em termos de Mal-estar Psicológico. Em
todas estas comparações, a diferença entre os grupos não é significativa. Não
obstante, e apesar da não-significância obtida na comparação entre estes dois
grupos, os resultados comprovam a estrutura global do modelo como foi
anteriormente referido, na medida em que o grupo 1 (P-A-) obtém os piores
resultados em termos de Bem-estar e Mal-estar Psicológicos, o grupo 4 (P+A+),
os melhores resultados, e os grupos 2 (P-A+) e 3 (P+A-) colocam-se numa posição
intermédia.
A ausência de uma diferença significativa entre os grupos 3 (P+A-) e 4 (P+A+)
poderá ter uma interpretação adicional. Aparentemente, a partir do momento em
que a regulação de Proximidade é elevada, o aumento da regulação de Autonomia
parece acrescentar pouco em termos de Bem-estar. Simultaneamente, o grupo 3
(P+A-) apresenta um nível de Bem-estar superior ao grupo 2 (P-A+). Um padrão
semelhante ocorre quando se analisa os resultados em termos de Mal-estar
Psicológico.Ou seja, quando são comparados os resultados entre grupos com
níveis elevados em apenasuma necessidade, a regulação de Proximidade sobressai-
se.
Estas diferenças obtidas nas comparações de grupos, juntamente com o facto de a
regulação de Proximidade ter um maior poder explicativo sobre o Bem-estar
Psicológico quando comparado com a Autonomia, sugerem um padrão. Este padrão
remete-nos para a possibilidade de que a regulação da necessidade de
Proximidade poderá ter um peso superior no que diz respeito à influência em
níveis de níveis de Bem-estar. Estes dados parecem estar em linha com a
literatura disponível, a qual sublinha a o papel fundamental da necessidade de
Proximidade em termos de Bem-estar Psicológico (e.g., Baumeister & Leary,
1995).
Estas diferenças sugerem que bastará sermos capazes de regular uma destas
necessidades para ter uma diminuição significativa em termos de Mal-estar e
sofrimento mental. Apesar de não existirem diferenças significativas entre os
indivíduos capazes de regular apenas uma necessidade, a capacidade de regular a
Proximidade parece estar associada a menores níveis de Mal-estar.
Em suma, apesar de nem sempre significativos, os resultados apontam no sentido
de a regulação conjunta das duas variáveis (Proximidade e Autonomia)
influenciar decisivamente o funcionamento adaptativo das pessoas, tendo um
impacto relevante nas experiências de Bem e Mal-estar Psicológico.
Uma possível limitação do presente estudo diz respeito aos mecanismos causais
subjacentes (i.e., processos dialécticos de regulação de necessidades) à
oscilação de níveis de Proximidade e Autonomia, limitação a qual deriva, pelo
menos em parte, do método utilizado. Embora seja possível concluir que os
indivíduos com resultados elevados em ambas as variáveis tenham um
funcionamento próximoe autónomo, não é possível determinar se o mesmo se deve
ao balanço dialéctico inerente à regulação destas necessidades ou a outras
causas. A par desta limitação, salientamos também as limitações inerentes à
investigação mediada pela internet, a qual implica levantar dúvidas sobre a
representatividade da amostra utilizada e o controlo de variáveis passíveis de
influenciar o comportamento dos participantes durante o preenchimento dos
questionários. Por último, a precisão (apenas) aceitável da sub-escala de
Autonomia constitui um factor a ter em conta na análise de resultados. Em
termos de investigações futuras, olhando para além do par de necessidades
Proximidade - Autonomia deste estudo e com base no modelo da
complementaridade paradigmática, seria interessante estudar quais das
polaridades dialécticas têm um maior impacto no Bem e Mal-estar Psicológicos,
bem como a relação entre cada par. Esse hipotético estudo poderia responder a
algumas perguntas, tais como: (1) Haverá pares de necessidades cuja regulação
seja mais influente que outros?; (2) será que a regulação de algum par
dialéctico funciona como variável moderadora de outro par? Fica a sugestão para
nova investigação.
Adiantando, o estudo das necessidades psicológicas poderia beneficiar da
inclusão de variáveis relativas a processos de negociação e balanceamento de
regulação de necessidades. Nesse sentido, Conceição e Vasco (2005) esboçaram
aquilo que entenderam ser o funcionamento patológico dos processos reguladores
implicados na regulação de necessidades. Este funcionamento é caracterizado
por: (1) Ausência ou insuficiência de conhecimento e validação de necessidades
próprias; (2) indiferenciação de tipos e relações entre necessidades próprias;
(3) ausência ou insuficiência de escolha e/ou compromisso com necessidades
próprias; (4) não permitir a satisfação e/ou frustração de necessidades
próprias; (5) não-actualização de necessidades próprias.
Estas cinco dimensões poderiam constituir um ponto de partida para o qual seria
elaborado um instrumento de medida válido e preciso quanto ao grau de
salubridade ou patologia dos processos dialécticos responsáveis pela regulação
da satisfação de necessidades. Com base neste instrumento, seria possível
estudar as relações recíprocas entre essa variável, a regulação de necessidades
e os níveis de bem-estar e mal-estar psicológicos.