As relações entre pares de adolescentes socialmente retraídos
A literatura tem atestado, de forma inequívoca, a importância que as interações
e relações com pares - particularmente as de amizade e com o grupo
- assumem no desenvolvimento e bem-estar psicossocial dos indivíduos ao
longo de todo o ciclo vital. Como consequência, começou a surgir o interesse
por aqueles sujeitos que, devido ao medo, à ansiedade e/ou à timidez, se
retiravam das interações - nomeadamente com os seus pares -
perdendo, assim, todos os benefícios individuais, sociais, cognitivos e
emocionais que lhe estão associados e que estão empiricamente verificados (p.
ex., Rubin, Bukowski, & Laursen, 2009; Rubin, Bukowski, & Parker,
2006).
O estudo da problemática do retraimento social - isto é, da remoção
promovida pelos próprios sujeitos da interação com os pares, de forma
recorrente e consistente ao longo de diferentes situações, contextos e tempo,
com o objetivo de evitar o medo da rejeição (Coplan & Rubin, 2008; Rubin
& Coplan, 2004; Rubin, Coplan, & Bowker, 2009) - tem tido um
crescimento exponencial ao longo das últimas quatro décadas. Neste período, tem
sido solidamente demonstrado que, desde a infância até à adultícia, estes
indivíduos revelam uma grande variedade de dificuldades, quer de natureza
social, quer individual - apresentando mais problemas de internalização,
como sejam baixa autoestima, perturbações depressivas ou de ansiedade (p. ex.,
Prior, Smart, Sanson, & Oberklaid, 2000; Rubin, Chen, McDougall, Bowker,
& McKinnon, 1995) -, passando também pelas dificuldades escolares
- evidenciando piores relações com os professores e aproveitamento
académico (p. ex., Coplan & Prakash, 2003).
No domínio das interações e relacionamentos sociais, a investigação tem-se
centrado, essencialmente, em dois níveis de complexidade (Hinde, 1987): o da
relação com o grupo de pares e o das relações de amizade. Tem-se verificado que
os sujeitos socialmente retraídos são não só menos aceites, como também mais
ativamente rejeitados, excluídos e vitimizados pelos colegas, de forma estável
e tornando-se mais evidente ao longo do desenvolvimento (Gazelle & Rudolph,
2004; Hymel, Bowker, & Woody, 1993; Oh, Rubin, Bowker, Booth-LaForce, Rose-
Krasnor, & Laursen, 2008).
No entanto, apesar destas dificuldades com o grupo mais alargado, da timidez e
de todos problemas de internalização que dificultam a normal interação com os
pares, estes jovens são tão capazes quanto os seus colegas de formar e manter
relações de melhor amizade (Ladd & Burgess, 1999; Rubin, Wojslawowicz,
Rose-Krasnor, Booth-LaForce, & Burgess, 2006; Schneider, 1999). Apesar
disso, a maior parte destas amizades tenda a ser de menor qualidade e com
alguém que partilha muitos dos seus próprios problemas psicossociais (Hogue
& Steinberg, 1995; Rubin, Wojslawowicz et al., 2006).
Mais recentemente tem-se procurado, igualmente, averiguar como é que as
relações sociais poderão ser fatores protetores e/ou de risco nas trajetórias
desenvolvimentais destas crianças e jovens. Os estudos têm mostrado que
diferentes respostas do ambiente social - concretamente, diferentes graus
de rejeição, exclusão e vitimização por parte dos colegas -, prevêem não
só níveis iniciais de retraimento social dos sujeitos, como também contribuem
significativamente para a sua manutenção, exacerbação ou diminuição ao longo do
tempo (p. ex., Gazelle & Rudolph, 2004; Oh et al., 2008). Por outro lado, a
participação numa relação de melhor amizade parece proteger de maiores
dificuldades sociais e emocionais, ainda que não as evite completamente (p.
ex., Oh et al., 2008; Rubin, Wojslawowicz et al., 2006). Este aspeto depende
sempre, quer das características sociais dos amigos, quer da qualidade da
relação estabelecida (p. ex., Oh, Rubin, Burgess, Booth-LaForce & Rose-
Krasnor, 2004; Oh et al., 2008). Adicionalmente, a estabilidade ou o ganho de
uma amizade têm sido associados a um melhor ajustamento ao longo do tempo,
enquanto a perda ou a ausência destas relações próximas e recíprocas estão
correlacionadas com um agravamento dos problemas intra e interpessoais (p. ex.,
Wojslawowicz Bowker, Rubin, Burgess, Booth-LaForce, & Rose-Krasnor, 2006).
Contudo, o conhecimento que se tem da problemática do retraimento social, os
seus correlatos, consequências desenvolvimentais e fatores protetores e/ou de
risco deriva de estudos realizados com amostras norte-americanas, canadianas,
asiáticas e centro e norte-europeias. Mesmo nas amostras centro e norte-
europeias, têm sido evidenciadas algumas especificidades culturais na avaliação
deste comportamento. Assim, a investigação deste fenómeno em diferentes
culturas é não só importante, como se torna absolutamente necessária (Rubin
& Burgess, 2001). Como já foi demonstrado em alguns estudos, este
comportamento pode ser culturalmente aceite e valorizado (p. ex., Chen, Rubin,
& Sun, 1992), enquanto noutros se constatou que a relação, coesão e
conformidade ao grupo são mais importantes do que as relações de amizade ou do
que os valores como a independência, autonomia ou assertividade (p. ex., Chen
et al., 2004).
Há ainda a considerar que, apesar do número crescente de estudos sobre esta
problemática, a grande maioria ainda se centra sobre o período da infância e
idade escolar (6-12 anos), sabendo-se consideravelmente menos sobre as
manifestações e implicações do retraimento social na adolescência. Este dado
reveste-se de particular importância, na medida em que é neste período que as
relações sociais - especificamente, ser aceite pelo grupo de pares e ter
amigos - se tornam particularmente importantes e influentes no
desenvolvimento harmonioso dos sujeitos (p. ex., Bagwell, Newcomb, &
Bukowski, 1998). Com efeito, o sentido de inclusão e pertença, assim como a
intimidade, afeto, validação e segurança emocional que estas relações
proporcionam são fundamentais para a aprendizagem de um conjunto de
competências e para a concretização das tarefas desenvolvimentais específicas
da adolescência. Concretamente, a adaptação a um novo corpo púbere, a conquista
de uma maior autonomia face aos pais mantendo uma relação harmoniosa com os
mesmos, ou a formação de uma identidade e autoconceito positivos (p. ex.,
Berndt, 2004) são tarefas fundamentais deste período do desenvolvimento.
O presente estudo tem como principal objetivo a caracterização das relações
sociais de adolescentes portugueses socialmente retraídos, quer com o grupo de
pares, quer com os seus melhores amigos, por comparação com um grupo normativo.
Relativamente à caraterização das relações de amizade (melhores amigos) foram
consideradas as três facetas identificadas por Hartup (1996): prevalência,
identidade do amigo e qualidade da relação. Procurou-se ainda averiguar o
potencial efeito protetor que a participação numa melhor amizade poderá ter
para os sujeitos socialmente retraídos quer ao nível do seu funcionamento
social, quer quando avaliados pelos pares. Finalmente, foram também exploradas
possíveis diferenças de sexo e idade.
Atendendo à literatura anteriormente revista, hipotetiza-se que, ao nível da
relação com o grupo de pares, os jovens socialmente retraídos serão descritos
pelos seus pares como sendo mais retraídos, excluídos e vitimizados do que os
seus colegas do grupo de comparação.
No que diz respeito às relações com os melhores amigos, não se prevê que sejam
encontradas diferenças significativas entre os grupos relativamente à
prevalência, mas espera-se que haja diferenças quanto às características dos
melhores amigos e à qualidade da relação. De forma mais concreta, espera-se
que, à luz da hipótese da homofilia (Rubin, Wojslawowicz et al., 2006), os
amigos dos jovens socialmente retraídos sejam igualmente mais retraídos,
excluídos e vitimizados do que os amigos dos sujeitos do grupo de controlo, e
que a qualidade da amizade relatada, quer pelos próprios sujeitos retraídos,
quer pelos seus melhores amigos, seja inferior à reportada pelos elementos das
díades normativas.
Considerando ainda o potencial efeito protetor que as melhores amizades poderão
ter (p. ex., Bagwell et al., 1998), colocou-se a hipótese de os jovens
socialmente retraídos que não estejam envolvidos em nenhuma amizade,
enfrentarem maiores dificuldades sociais, nomeadamente serem mais excluídos e
vitimizados, comparativamente com aqueles que têm pelo menos uma amizade
recíproca.
Finalmente e considerando o fator sexo, a literatura tem descrito que as
raparigas privilegiam relações mais exclusivas, em díade ou pequeno grupo e,
portanto, mais íntimas, enquanto os rapazes valorizam mais a pertença a um
grupo de pares alargado, constituído por amigos, colegas e conhecidos (p. ex.,
Maccoby, 1995; Poulin & Chan, 2010). Por outro lado, na avaliação que fazem
das suas amizades, as raparigas reportam índices de maior qualidade,
classificando-as como mais intensas e íntimas (Parker, & Asher, 1993;
Underwood, 2007). Diferentes estudos apontaram, igualmente, para o facto de os
rapazes experienciarem maiores dificuldades psicossociais do que as raparigas,
na infância e na idade escolar, sendo os resultados mais contraditórios quando
o foco é o período da adolescência (p. ex., Gazelle & Rudolph, 2004). Deste
modo, foi também colocada a hipótese de encontrar diferenças de resultados em
função do sexo, ao nível da prevalência e qualidade da amizade, mas não em
termos das características dos amigos ou da relação com o grupo de pares.
MÉTODO
Participantes
Participaram neste estudo 850 pré-adolescentes (418 do sexo feminino e 432 do
sexo masculino), que frequentavam o 7º e 8º anos em três escolas na zona da
Grande Lisboa, com uma média de idades de 13 anos (DP=1.44). Estes sujeitos
fazem parte de uma amostra normativa que integra um projeto de investigação
longitudinal financiado pela FCT (PTDC/PSI-PDE/098257/2008). O projeto foi
submetido à comissão de ética e todos os sujeitos e respetivos pais assinaram
um consentimento informado.
Instrumentos
Extended Class Play (ECP; Burgess, Rubin, Wojslawowicz, Rose-Krasnor, &
Booth, 2003; Correia, Santos, Freitas, Rosado, & Rubin, 2014)
Os participantes completaram a versão traduzida, adaptada e validada para uma
amostra de jovens portugueses (Correia et al., 2014) do Extended Class Play
(ECP, Burgess et al., 2003). Trata-se de um instrumento composto por 37 itens,
que procura aceder às avaliações que os pares fazem do funcionamento e
reputação sociais dos sujeitos. É pedido a cada adolescente que se coloque no
papel de um realizador de cinema que tem de escolher, entre os seus colegas de
turma, aqueles que melhor desempenhariam diversos papéis de valência positiva e
negativa.
Para o efeito, foi fornecida a cada sujeito uma listagem de todos os seus
colegas autorizados a participar e clarificado que cada papel podia conter
apenas uma nomeação feminina e outra masculina, embora a mesma pessoa pudesse
ser escolhida mais do que uma vez.
Apenas as nomeações entre sujeitos do mesmo sexo foram consideradas, evitando
possíveis enviesamentos por estereótipos de sexo (Zeller, Vannatta, Schafer
& Noll, 2003). Os valores obtidos para os itens foram estandardizados para
o sexo e turma, de modo a ajustar o número de nomeações recebidas ao número de
nomeadores.
A estrutura hexofatorial da escala original foi validada e confirmada numa
amostra de jovens portugueses (Correia et al., 2014) e as seis dimensões do
comportamento social que ela permite avaliar são: Agressividade(6 itens;
α=.84); Timidez/Retraimento Social(3 itens; α=.86); Comportamento pro-social(4
itens; α=.78); Popularidade/Sociabilidade(4 itens; α=.76); Vitimização(3 itens;
α=.87); e Exclusão(3 itens; α=.79). Os alfas de Cronbach obtidos para as seis
dimensões indicam uma elevada consistência interna.
Medida de nomeações de amizade
Os participantes preencheram o questionário de Identificação da Rede de
Relacionamentos (IRR; Bukowski, Gauze, Hoza, & Newcomb, 1993), tendo-lhes
sido pedido que indicassem o nome do seu "melhor amigo" e também do
"segundo melhor amigo", entre os sujeitos da mesma turma e do mesmo
sexo. Esta condição é importante, uma vez que a literatura tem demonstrado que,
neste período do desenvolvimento, não só existem diferenças entre raparigas e
rapazes nas suas relações de amizade, como também são raras as nomeações entre
pré-adolescentes de sexos opostos (Buhrmester, 1998; Bukowskiet al., 1993).
Optou-se por se considerar para análise, apenas o número de amizades
recíprocas, isto é, os jovens que se escolhiam mutuamente nas suas primeiras ou
segundas nomeações e que, desse modo, foram definidos como os "melhores
amigos".
Medida de qualidade da amizade
Os participantes completaram a versão traduzida, adaptada e validada para uma
amostra de jovens portugueses (Freitas, Santos, Correia, Ribeiro, &
Fernandes, 2013) do Friendship Quality Questionnaire(FQQ; Parker & Asher,
1993). A sua estrutura fatorial foi validada e confirmada nesta amostra
(Freitas et al., 2013). Trata-se de um questionário de autopreenchimento
destinado a crianças e adolescentes, que procura avaliar a qualidade da amizade
acedendo às perceções que os sujeitos têm de vários aspetos qualitativos da sua
melhor amizade. As subescalas de valência positiva deste questionário
revelaram-se fortemente correlacionadas o que justificou a adoção dos
procedimentos que recomendam a combinação destas dimensões num só valor global
de Qualidade da Amizade (α=.95), tendo sido esta a única medida utilizada neste
estudo (Wojslawowicz et al., 2006).
Procedimento
Os instrumentos foram administrados em grupo, em contexto de sala de aula, por
dois investigadores. Cada sessão durou, aproximadamente, 90 minutos. A ordem de
aplicação dos instrumentos foi pré-determinada: primeiro o Extended Class Play,
depois as Nomeações de Amizade e, por último, o Friendship Quality
Questionnaire.
RESULTADOS
Identificação do grupo de adolescentes socialmente retraídos e do grupo de
controlo
A identificação do Grupo de Adolescentes Socialmente Retraídose do Grupo de
Controlofoi feita com base no ECP, seguindo o procedimento e critérios
anteriormente utilizados por outros autores (p. ex., Fredstrom et al., 2012;
Rubin, Wojslawowicz et al., 2006). Assim, foram incluídos no Grupo de
Retraídosos sujeitos cujos valores estandardizados na dimensão de Timidez/
Retraimento Social se encontravam no terço superior (percentil 67) e abaixo da
mediana na dimensão de Agressividade. O Grupo de Controlofoi constituído pelos
adolescentes que tinham valores estandardizados abaixo da mediana para estas
mesmas dimensões. Desta forma, da amostra inicial filtraram-se 163 sujeitos
para o Grupo de Retraídos(87 do sexo feminino), com um resultado médio
estandardizado de 1.18 na dimensão de Retraimento Social e de -.50 na de
Agressividade. Para o Grupo de Controlo, filtraram-se 199 sujeitos (95 do sexo
feminino), cujo resultado médio estandardizado foi de -.48 na dimensão de
Retraimento Social e de -.50 na de Agressividade.
Identificação das díades de melhores amigos
Com base nas nomeações recíprocas de amizade dos adolescentes Retraídose dos do
Grupo de Controlo, foram identificadas díades de melhores amigos. Seguindo os
procedimentos adotados noutras investigações (p. ex., Rubin, Wojslawowicz et
al., 2006), a constituição das díades obedeceu aos seguintes critérios: quando
um adolescente tinha duas amizades recíprocas, foi definido como seu par na
díade aquele que correspondesse à sua primeira nomeação; nas situações em que
dois sujeitos do Grupo de Retraídoseram amigos recíprocos, aquele que
apresentasse o maior nível de Timidez/Retraimento Social era definido como
"alvo", enquanto o outro adolescente era integrado no grupo de
"melhor amigo" correspondente - ou seja, o grupo dos
"melhores amigos de jovens retraídos"; se dois jovens do Grupo de
Controlofossem amigos recíprocos, aquele que apresentasse o menor nível de
Timidez/Retraimento Social era identificado como "alvo", enquanto o
outro era inserido no grupo dos "melhores amigos de jovens de
controlo"; finalmente, quando um sujeito do Grupo de Retraídose um do
Grupo de Controloeram amigos recíprocos (10 situações), a escolha do
"alvo" era feita aleatoriamente, sendo o adolescente que restava
colocado no grupo de melhores amigos correspondente.
Através do uso destes critérios, 67 adolescentes retraídos (39 raparigas e 28
rapazes) e 58 adolescentes de controlo (31 raparigas e 27 rapazes) formaram
díades com os seus melhores amigos, com ambos os grupos a apresentarem uma
percentagem superior a 90% de díades constituídas com base na primeira nomeação
de amizade.
Prevalência de relações de amizade nos grupos
Para avaliar se existiam diferenças relativas ao número de relações de amizade
recíprocas, entre os adolescentes socialmente retraídos e os jovens do grupo de
controlo, foi realizada uma ANOVA 2 (Grupo: Retraídos, Controlo) x 2 (sexo),
que não detetou diferenças significativas entre os grupos [F(1,237)=2.40, ns],
nem efeitos de interação [F(1,237)=1.02, ns].No entanto, foram encontradas
diferenças significativas em função do sexo, com as raparigas a reportarem mais
amizades recíprocas do que os rapazes [F(1,237)=6.32, p<.05, ε²=.03].
Características dos melhores amigos dos adolescentes retraídos
De seguida, foi explorada a existência de diferenças no funcionamento social
dos melhores amigos dos adolescentes retraídos e dos sujeitos do grupo de
controlo, realizando-se uma MANOVA 2 (Grupo: Melhores Amigos de Retraídos,
Melhores Amigos de Controlo) x 2 (Sexo) para as seis dimensões do ECP-
timidez/retraimento social, agressividade, vitimização, exclusão, comportamento
pro-social e popularidade/sociabilidade.
Nestas análises, foram utilizados os dados relativos ao "melhor
amigo", tendo os resultados revelado um efeito significativo para os
grupos [F(5,116)=3.33, p<.01; Wilks' λ=.85, ε²=.15], com os melhores
amigos dos jovens retraídosa serem descritos pelos seus pares como
significativamente mais isolados [F(1,121)=5.18, p<.05; ε²=.04], mais excluídos
[F(1,121)=12.53, p<.01; ε²=.09] e ainda como menos agressivos [F(1,121)=5.72,
p<.05; ε²=.04] do que os melhores amigos dos adolescentes do grupo de controlo.
Não se verificaram diferenças significativas nas dimensões da vitimização [F
(1,121)=.26, ns], comportamento prosocial [F(1,121)=.11, ns] ou sociabilidade/
popularidade [F(1,121)=.000, ns], nem efeitos de interação significativos [F
(5,116)=.61, ns].
Qualidade da amizade
Explorou-se ainda a possibilidade da qualidade de amizade variar em função da
pertença a um dos grupos, considerando as diferentes perspetivas: a dos
sujeitos-alvo, a dos seus melhores amigos e, finalmente, procurando as
diferenças dentro da própria díade. Relativamente à perspetiva do sujeito-alvo,
realizou-se uma ANOVA 2 (Grupo: Retraídos, Controlo) x 2 (sexo), que não
revelou efeitos significativos para o grupo [F(1, 109)=2.81, ns] mas revelou
efeitos para o sexo [F(1,109)=12.37, p<.01; ε²=.10]. Estes resultados indicam
que a perceção que os adolescentes retraídostêm da qualidade da sua melhor
amizade não é significativamente diferente da dos jovens de controlo. No
entanto, as raparigas reportam mais qualidade nas suas amizades do que os
rapazes. Finalmente, não foram encontrados efeitos de interação significativos
[F(1,109)=.19, ns].
Considerando a perspetiva do melhor amigo, foi efetuada uma ANOVA 2 (Grupo:
Melhores Amigos de Retraídos, Melhores Amigos de Controlo) x 2 (Sexo) para
avaliar a existência de possíveis diferenças na qualidade da relação. Também
aqui não foram encontradas diferenças significativas entre os grupos de
melhores amigos [F(1,110)=1.50, ns],mas foram reveladas diferenças
relativamente ao sexo, [F(1,110)=16.50, p<.001; ε²=.13]. Os resultados indicam
que os melhores amigos dos adolescentes retraídos não vêem a qualidade da sua
amizade de modo diferente dos melhores amigos dos adolescentes de controlo.
Apenas a relação nas díades femininas é descrita como apresentado maior
qualidade. Não foram encontrados novamente efeitos de interação significativos
[F(1,110)=.04, ns].
Finalmente, procurou-se averiguar se os sujeitos-alvo e os seus melhores amigos
diferiam na perceção da qualidade das suas amizades. Para isso, realizou-se
separadamente para cada grupo (Retraídose Controlo) uma ANOVA 2 (Díade: Alvo,
Melhor Amigo) x 2 (Sexo). Esta análise revelou que não existem diferenças
significativas na perspetiva que sujeitos-alvo e os seus parceiros na díade têm
da qualidade da sua relação, nem nas díades do grupo dos retraídos[F
(1,121)=1.17, ns], nem nas díades do grupo de controlo[F(1,99)=.34, ns].
Verificaram-se, novamente, diferenças de sexo, com as raparigas a descreverem
maior qualidade da amizade, nas díades de ambos os grupos - retraídos[F
(1,121)=17.95, p<.001; ε²=.13] e controlo[F(1, 99)=13.64, p<.001; ε²=.12].
Funcionamento social dos adolescentes retraídos com e sem amigos recíprocos
Por último, procurou-se compreender a importância que a participação numa
relação de amizade pode ter para os adolescentes socialmente retraídos. Para
tal, foi comparado o funcionamento social dos sujeitos do Grupo de Retraídosque
tinham, pelo menos, uma amizade recíproca com aqueles que não tinham, através
de uma MANOVA 2 (Grupo: Retraídos Com Amigo Recíproco, Retraídos Sem Amigo
Recíproco) x 2 (Sexo) nas dimensões do ECP.
Encontraram-se efeitos de grupo significativos [F(5,123)=3.91, p<.01;
Wilks' λ=.84, ε²=.16], com ANOVAs de follow-upque demonstraram que os
sujeitos retraídos sem amigos recíprocossão descritos pelos seus pares como
mais excluídos [F(1,128)=11.58, p<.01; ε²=.08] e vitimizados [F(1,128)=7.59,
p<.01; ε²=.06], mas também menos prosociais [F(1,128)=17.10, p<.001; ε²=.12] e
sociáveis [F(1,128)=9.13, p<.01; ε²=.07]. Verificou-se, igualmente, uma
tendência para que estes adolescentes retraídos sejam ainda vistos como mais
retraídos [F(1,128)=3.46, p=.06, ns].
Foi também encontrado um efeito principal significativo relativo ao sexo [F
(5,123)=3.07, p<.01; Wilks' λ=.87, ε²=.13], com as raparigas retraídas a
serem descritas como mais excluídas [F(1,128)=14.77, p<.001; ε²=.10],
vitimizadas [F(1,128)=10.00, p<.01; ε²=.07] e menos sociáveis [F(1,128)=4.30,
p<.05; ε²=.03] do que os rapazes retraídos. Finalmente, foi revelado um efeito
de interação [F(5,123)=3.57, p<.01; Wilks' λ=.85, ε²=.15], com as
raparigas retraídas sem amigas a serem vistas pelos pares como mais excluídas
[F(1,128)=14.55, p<.001; ε²=.10] e vitimizadas [F(1,128)=6.09, p<.01; ε²=.08].
DISCUSSÃO
Os resultados deste estudo podem juntar-se a um corpo teórico de conhecimentos
que se tem vindo a constituir a partir de investigações feitas com amostras de
diferentes culturas - americana, europeia e asiática (p. ex., Gazelle
& Rudolph, 2004). Ficou demonstrado que, também na realidade portuguesa, o
fenómeno do retraimento social se associa a grandes dificuldades nos
relacionamentos com os pais. Estes jovens adolescentes socialmente retraídos
são não só ativamente excluídos das conversas e das atividades do grupo de
pares, como também são mais vitimizados pelos colegas. Este comportamento por
parte dos pares poderá dever-se ao facto de, sobretudo no período da
adolescência, o evitamento e a remoção das interações sociais, bem como a
manutenção à margem do grupo poder ser crescentemente percecionado pelos outros
como atípico, desviante e estranho face às expetativas e padrões sociais
normativos (Rubin, Bowker, & Gazelle, 2010). Por outro lado, o próprio
comportamento destes jovens socialmente retraídos na sua relação com os colegas
(tímido, receoso, ansioso e inseguro), para além de poder ser percebido como
não acrescentando nada de positivo ao grupo (Rubin, Bukowski, & Parker,
2006), pode inclusivamente sugerir aos pares que se tratam de "alvos
fáceis", submissos e incapazes de retaliar (Rubin et al., 2006).
Neste sentido, poderá ser criado um ciclo negativo na vida destes jovens, uma
vez que o retraimento social potencia (com o avanço da idade) dificuldades na
relação com o grupo de pares que, por seu turno, podem levar ao desenvolvimento
de um autoconceito pobre e promover ainda mais o comportamento de retirada
social, enquanto estratégia de fuga à exclusão e vitimização. Obviamente, esta
resposta não só se revela desajustada e ineficaz, como destaca ainda mais estes
jovens pela negativa, colocando-os numa posição de maior vulnerabilidade para o
desenvolvimento de problemas de carácter inter e intrapessoal (Rubin, Coplan,
& Bowker, 2009).
Tal como é descrito na literatura, também se verificou que, apesar de todas as
dificuldades descritas na relação com o grupo de pares, não existiam diferenças
significativas entre jovens socialmente retraídos e os de uma amostra normativa
relativamente à probabilidade de terem uma melhor amizade (p. ex., Ladd &
Burgess, 1999; Rubin, Wojslawowicz et al., 2006; Schneider, 1999). Estes
resultados parecem indicar que, do mesmo modo que ser socialmente competente,
por si só, não garante sucesso no envolvimento numa relação de melhor amizade,
ser socialmente retraído também não o impede. Ou seja, o desconforto, ansiedade
e insegurança reveladas num contexto mais amplo - e que promovem um
comportamento de retraimento social, de exclusão e vitimização por parte dos
pares -, não são obstáculos intransponíveis para o estabelecimento de uma
melhor amizade. A única diferença registada foi em função do sexo, com as
raparigas a reportarem mais amizades recíprocas do que os rapazes, talvez por
privilegiarem as relações mais próximas e íntimas. De facto, perante os
critérios de definição de amizade que estabelecemos, é possível que as
raparigas - que têm relações mais exclusivas e menos extensivas do que os
rapazes tenham maior probabilidade de terem mais reciprocidades, na medida em
que o número de colegas potencialmente elegíveis é menor.
Características do amigo
Apesar de não existirem diferenças na probabilidade de terem uma melhor
amizade, concluiu-se que os amigos dos jovens socialmente retraídos são mais
isolados e excluídos (mas não vitimizados, ao contrário do que se tinha
previsto), assim como menos agressivos do que os dos adolescentes do grupo de
comparação - o que é consistente com a hipótese da homofilia definida
pela literatura (p. ex., Rubin, Wojslawowicz et al., 2006). Assim, parece que,
perante todas as dificuldades psicossociais que estes sujeitos enfrentam, as
possíveis escolhas de um amigo estão limitadas a outros que também as vivem. O
cenário de "misery loves company" defendido por Rubin e
colaboradores (Rubin, Wojslawowicz et al., 2006, p. 154) poderá ser traduzido
para esta realidade como "mais vale acompanhado do que só",
sobretudo se por alguém que compreende, como ninguém, os problemas e impactos
que estas dificuldades acarretam.
Deste modo, as vantagens desenvolvimentais, frequentemente associadas à
participação numa melhor amizade poderão estar comprometidas. Se as díades
entrarem em processos de ruminação e de lamentações recorrentes sobre as suas
dificuldades intra e interpessoais, apenas poderão reforçá-las, impedindo uma
verdadeira comunicação, ajuda e colaboração mútua e positiva na elaboração de
estratégias de copingmais adequadas. É igualmente interessante salientar o
facto de as análises realizadas não terem registado efeitos de sexo, o que faz
pensar que esta é uma realidade válida tanto para raparigas, como para rapazes.
Qualidade da amizade
Relativamente à qualidade da amizade, não foram encontradas diferenças
estatisticamente significativas em nenhum dos níveis de análise considerados,
isto é, não há diferenças entre os sujeitos socialmente retraídos e os de
comparação, nem entre os seus melhores amigos, nem ainda, no seio das díades
consideradas (retraídos ou de controlo). Estes resultados contrariam os estudos
anteriormente apresentados e não confirmam a hipótese estabelecida. Pelo
contrário, indicam que os adolescentes socialmente retraídos podem ter uma
relação de amizade de qualidade semelhante à dos seus colegas, facto que também
é afirmado pelos seus melhores amigos. Assim, parece que estes jovens, não
obstante todas as suas dificuldades relacionais, podem, no contexto mais
privado de uma melhor amizade, revelar as competências e a serenidade
necessárias para cultivar uma relação íntima, de apoio, suporte, companheirismo
e validação mútuos, bem como serem capazes de superar eventuais
desentendimentos e conflitos, estabelecendo uma relação recompensadora para
ambos. Tal facto poderá ser benéfico para o seu ajustamento psicossocial ao
longo do tempo, uma vez que tem sido demonstrado que os níveis de retraimento
social aumentam no seio de díades de amigos com amizades de média e baixa
qualidade (Berndt, Hawkins, & Jiao, 1999).
Outro dado relevante é o facto de não existirem diferenças dentro da díade, o
que parece indicar que ela é equitativa e igualmente proveitosa para ambos os
membros. Ao contrário do que foi observado por Schneider e Tessier (2007), os
sujeitos socialmente retraídos podem ser capazes de se descentrar das suas
próprias necessidades e dificuldades, preocupar-se e interessar-se pelo amigo,
corresponder às suas necessidades e expetativas e, assim, manter uma relação de
boa qualidade e benéfica para ambos. A única diferença significativa detetada
foi relativa ao sexo, em que as raparigas reportaram em qualquer uma das três
análises realizadas, maior qualidade de amizade, o que é consistente com a
literatura existente para este período desenvolvimental (p. ex., Parker &
Asher, 1993; Rubin et al., 2004).
Funcionamento social de retraídos com e sem amigos
Por último, procurou-se perceber se a amizade poderia funcionar como um fator
protetor para os adolescentes socialmente retraídos. Para isso, compararam-se
aqueles que tinham pelo menos uma amizade recíproca com os que não tinham.
Verificou-se que os adolescentes socialmente retraídos que não tinham, pelo
menos, uma amizade recíproca, eram significativamente mais excluídos e
vitimizados (tal como previmos), assim como menos pro-sociais e sociáveis.
Tendencialmente, eram ainda mais isolados do que aqueles que tinham pelo menos
uma amizade recíproca. Assim, parece ser possível que a participação numa
melhor amizade ofereça o suporte e a ajuda necessários para atenuar algumas
dificuldades sociocognitivas e emocionais e, desta forma, permita enfrentar os
dilemas interpessoais com mais confiança. Como consequência, estes adolescentes
podem exibir um comportamento social um pouco mais adequado. Efetivamente, são
os próprios pares que reconhecem estas diferenças, ao considerá-los mais
prosociais e sociáveis do que os outros jovens igualmente retraídos mas sem
amigos, à semelhança do que foi demonstrado noutras investigações (Rubin,
Wojslawowicz et al., 2006).
De qualquer modo, torna-se importante realçar que, embora a existência de uma
melhor amizade possa associar-se a um melhor ajustamento psicossocial, ela não
pode prevenir ou proteger os adolescentes socialmente retraídos de continuarem
a ser excluídos e vitimizados pelo seu grupo de pares, apenas permite que o
sejam menos. Não obstante os benefícios de ter um melhor amigo, eles poderão
ser limitados aos olhos dos colegas, pelo menos, a curto-prazo. Porém, se o
sujeito continuar a demonstrar um comportamento mais adequado, não só o grupo
poderá ir mudando progressivamente a sua conduta, como também ele próprio se
vai tornando mais interessante e atraente enquanto potencial amigo de outros
colegas.
Neste domínio, foram encontradas diferenças de sexo, com as raparigas
socialmente retraídas a serem mais excluídas e vitimizadas, bem como menos
sociáveis do que os rapazes. Estes resultados parecem contrariar a ideia de que
o retraimento social é não só mais tolerado, como também acarreta menos riscos
de ajustamento psicossocial para o sexo feminino. No entanto, vão ao encontro
de outros estudos que fizeram uso de amostras de adolescentes e que não
confirmaram esta ideia (p. ex., Gazelle & Rudolph, 2004). Assim, torna-se
necessário prosseguir com as investigações para perceber se estes resultados,
que já estão verificados para a infância, se aplicam igualmente em outras
etapas do ciclo vital, bem como a diferentes culturas.
Foi ainda revelado um efeito de interação, em que as raparigas socialmente
retraídas e sem amigas são descritas, pelos seus pares, como mais excluídas e
vitimizadas. Este comportamento mais negativo por parte dos pares relativamente
às raparigas poderá dever-se ao facto de ser duplamente estranho: é não só o
movimento de retraimento e afastamento da interação com os pares, como ainda o
facto de uma rapariga não ter uma melhor amizade. Na medida em que a literatura
tem sido sugerido que as amizades podem ser mais importantes para as raparigas,
enquanto para os rapazes é a inclusão num grupo mais alargado (p. ex., Maccoby,
1995), poder-se-á pensar que existe uma expetativa social associada a este
aspeto. Poder-se-á esperar que as raparigas tenham sempre uma melhor amiga, uma
vez que se afiliam em pequenas díades ou tríades caracterizadas por uma grande
exclusividade e intimidade.
Limitações e direções futuras
Esta investigação pretende, apenas, ser o início de muitas outras sobre a
problemática do retraimento social na realidade portuguesa, na medida em que,
muitas questões continuam em aberto, nos mais diversos domínios. Efetivamente,
mesmo no domínio social que é o foco desta investigação, seria interessante
incluir outras dimensões que pudessem caraterizar melhor a relação que estes
adolescentes mantêm com o grupo de pares, nomeadamente a aceitação/rejeição ou
o estatuto social. Por outro lado, neste estudo foi utilizada apenas a medida
das melhores amizades recíprocas - pela sua maior influência no
desenvolvimento sócio-emocional (p. ex., Urberg, Degirmencioglu, & Tolson,
1998) -, com sujeitos do mesmo sexo - por ainda serem raras as
nomeações ao sexo oposto, nesta fase do desenvolvimento (p. ex., Haselager,
Hartup, van Lieshout, & Riksen-Walraven, 1998) - e, por questões
metodológicas, com alguém da mesma turma. Contudo, seria interessante
considerar um critério mais abrangente, que pudesse incluir as amizades com
pares de sexo oposto e/ou de outros contextos, de modo a esclarecer, de forma
inequívoca, se os indivíduos que foram tratados como não tendo amigos não os
têm mesmo, ou não os têm apenas devido aos critérios definidos. Isto permitiria
aferir melhor o valor protetor da amizade para os adolescentes que exibem
comportamentos de retraimento social. Para além do domínio social circunscrito
à relação com os pares, seria igualmente importante considerar o papel da
relação com os pais no retraimento social.