Funcionamento familiar e delinquência juvenil: A mediação do autocontrolo
Teoria Geral do Crime e Funcionamento Familiar
A Teoria Geral do Crime de Gottfredson e Hirschi (1990) é certamente um dos
modelos criminológicos mais testados empiricamente, provavelmente pelos
pressupostos teóricos e explicativos de toda atividade criminosa e delinquente
(Goode, 2008). Gottfredson e Hirschi (1990) defendem que o crime e
comportamentos semelhantes são fonte de excitação e gratificação dos desejos e
prazeres imediatos, requerendo poucas competências sociocognitivas. Deste modo,
os comportamentos delinquentes parecem atrair os sujeitos com baixo
autocontrolo, descritos pelo seu comportamento impulsivo e autocentrado, e
simultaneamente insensíveis às necessidades e ao sofrimento dos outros
(Gottfredson & Hirschi, 1990; Hirschi, 2004).
Desta forma, a Teoria Geral do Crime (Gottfredson & Hirschi, 1990)
posiciona claramente o autocontrolo como a principal causa do comportamento
delinquente. Além disso, é vasta a literatura sobre a evidência empírica sobre
o impacto determinante do baixo autocontrolo no comportamento delinquente
(e.g., Arneklev, Elis, & Medlicott, 2006; Longshore, Turner, & Stein,
1996; Pauwels, Weerman, Bruinsma, & Bernasco, 2011; Pratt & Cullen,
2000; Vazsonyi & Huang, 2010). Contudo, os autores desta teoria defendem
que a falta de autocontrolo não implica necessariamente a prática de
comportamentos delinquentes, mas sim, que os sujeitos com baixo autocontrolo
têm maior propensão para a prática transgressiva. Esta relação parece ser
mediada pelo papel das oportunidades para delinquir (e.g., Cochran, Wood,
Sellers, Wilkerson, & Chamlin, 1998; Desmond, Bruce, & Stacer, 2012;
Fonseca & Simões, 2002).
Gottfredson e Hirschi (1990) apontam as práticas parentais ineficazes e
desadequadas como a principal causa da falta de autocontrolo. Segundo estes
autores, os cuidadores das crianças deveriam ser capazes de reconhecer e
corrigir as demonstrações de falta de autocontrolo, suprimindo progressivamente
o seu comportamento impulsivo. Os autores referem quatro condições que devem
ser satisfeitas para promover as capacidades de autocontrolo nas crianças: (1)
Vínculo dos pais à criança, na medida em que é este laço afetivo que faz com
que o cuidador se preocupe com o seu desenvolvimento saudável; (2) Supervisão
parental, através da qual os cuidadores previnem práticas desviantes da mesma
forma que fazem a ponte entre o controlo externo e interno; (3) Reconhecimento
do comportamento desviante, sem o qual, a monitorização não teria impacto no
autocontrolo; e, por último, (4) Punição do comportamento desviante, não
devendo ocorrer essa punição nem de forma demasiado rígida nem de forma
demasiado branda.
Além da teoria geral do crime (Gottfredson & Hirschi, 1990), outros autores
(e.g., Hay, 2001; Meldrum, 2008; Meldrum, Young, & Hay, 2012; Pauwels &
Svensson, 2009; Pratt, Turner, & Piquero, 2004) têm também vindo a
demonstrar que práticas parentais eficazes (i.e., vinculação parental e
supervisão parental) influenciam fortemente o autocontrolo dos sujeitos, uma
relação que parece estar presente em diferentes culturas (Vazsonyi &
Belliston, 2007) e em diferentes estratos socioeconómicos (Vazsonyi &
Klanjsek, 2008).
A literatura não é consensual se a delinquência é mais influenciada pela
vinculação ou pela supervisão parental. De facto, Cochran et al. (1998),
Miller, Jennings, Alvarez-Rivera e Lanza-Kaduce (2009) evidenciaram através dos
seus estudos que apenas o vínculo entre pais e filhos predizia a sua capacidade
de autocontrolo e não a supervisão parental. Contudo, Rebellon, Straus e
Medeiros (2008) encontraram uma relação negativa entre a negligência parental e
o autocontrolo dos adolescentes.
Por outro lado ainda, outros investigadores focaram os seus trabalhos em
características estruturais da família e encontraram que crianças pertencentes
a famílias reconstituídas e a pais solteiros apresentavam níveis de
autocontrolo significativamente mais baixos (e.g., Phythian, Keane, &
Krull, 2008; Polakowski, 1994). No entanto, Boutwell e Beaver (2010)
verificaram que, depois de controlar os efeitos de vários fatores parentais
(e.g., autocontrolo dos pais, deficits neuro-psicológicos, depressão, etc.), a
estrutura familiar não influenciava os níveis do autocontrolo dos adolescentes.
Em concordância com estes dados Mandara e Murray (2000) demonstraram que
características do funcionamento familiar, tais como a coesão familiar,
autonomia, organização e controlo podem "abafar" os efeitos
prejudiciais dos lares "desfeitos" na capacidade de autocontrolo
dos adolescentes.
A progressiva compreensão do funcionamento familiar e da sua importância na
forma como os membros da família estão ligados emocionalmente e se comportam
levou vários autores a considerar modelos cada vez mais complexos e
integrativos, nomeadamente a perspetiva sistémica. Dentro do modelo sistémico,
terapeutas familiares tais como Minuchin (1988) e Ausloos (1996) salientaram a
importância da coesão e da flexibilidade familiar no desenvolvimento da
delinquência juvenil. Da mesma forma, evidência empírica demonstra
consistentemente como níveis extremamente baixos de coesão familiar (i.e.,
famílias desagregadas) (e.g., Brook, Pahl, & Cohen, 2008; Gorman-Smith,
Henry, & Tolan, 2004; Henry, Tolan, & Gorman-Smith, 2001; Kliewer et
al., 2006; Tolan, Gorman-Smith, Huesmann, & Zelli, 1997), bem como níveis
extremamente elevados de flexibilidade familiar (i.e., famílias caóticas)
(e.g., Blaske, Bourduin, Henggeler, & Mann, 1989; McGaha & Leoni,
1995), estão relacionados com vários aspetos do comportamento delinquente
juvenil.
Assim, parece-nos evidente a necessidade de mais investigação que nos permita
compreender melhor como o funcionamento familiar afeta a capacidade de
autocontrolo e a delinquência. No presente trabalho pretendemos analisar o
impacto do funcionamento familiar (coesão e flexibilidade) tal como é descrito
no Modelo Circumplexo dos Sistemas Familiares e Conjugais(Olson, 2011), quer no
autocontrolo quer na delinquência.
Modelo Circumplexo: Coesão e flexibilidade familiar
Em resposta à necessidade de se explorarem múltiplas variáveis familiares,
Olson (2000, 2011) desenvolveu o Modelo Circumplexo que integra uma perspetiva
sistémica. Este modelo é considerado como particularmente útil no diagnóstico
relacional dos sistemas conjugais e familiares, pois integra duas dimensões
familiares que foram repetidamente apontadas como aspetos centrais na
compreensão do funcionamento familiar - a coesão familiare a
flexibilidade familiar.
Em primeiro lugar, a coesão familiar é definida como o laço emocional que o
casal ou os membros familiares estabelecem entre si (Olson & Gorall, 2003)
e diz respeito à forma como as famílias se organizam entre os dois extremos
desde a total separação até à união extrema. O Modelo Circumplexo de Olson
(2011) descreve a coesão familiar num continuumde cinco níveis, desde as
famílias desagregadas(níveis de coesão extremamente baixos), famílias algo
ligadas(níveis baixos a moderados), famílias ligadas(níveis moderados),
famílias muito ligadas(níveis moderados a elevados), até às famílias
aglutinadas(níveis de coesão extremamente elevados).
Esta conceção do continuumda coesão familiar estabelece que os três níveis
centrais correspondam a graus equilibrados de coesão familiar, hipoteticamente
associados a funcionamentos familiares saudáveis. Os níveis extremos de coesão
familiar (i.e., desagregadoe aglutinado) correspondem a níveis desequilibrados,
que tendem a ser problemáticos para o desenvolvimento dos elementos da família
ao longo do tempo (Olson, 2011; Olson & Gorall, 2003).
Em segundo lugar, a flexibilidade familiar refere-se ao modo como os sistemas
familiares se posicionam entre os extremos de estabilidade e mudança, sendo
definida pela quantidade de mudança na liderança, nos papéis e nas regras
relacionais (Olson & Gorall, 2003). Segundo a perspetiva sistémica, o
funcionamento familiar necessita de ambas estabilidade e mudança, pois deve
responder às necessidades individuais e, ao mesmo tempo, manter uma sensação de
unidade/estabilidade (Sampaio & Gameiro, 2005).
O Modelo Circumplexo descreve a flexibilidade familiar num continuumde cinco
níveis que vão desde as famílias rígidas(flexibilidade extremamente baixa),
famílias algo flexíveis(flexibilidade baixa a moderada), famílias flexíveis
(flexibilidade moderada), famílias muito flexíveis(flexibilidade moderada a
alta), até às famílias caóticas(flexibilidade extremamente alta) (Olson, 2011;
Olson & Gorall, 2003). À semelhança do que sucedia com a coesão familiar,
também para esta dimensão não existe um nível absoluto de melhor flexibilidade
familiar, uma vez que diferentes eventos do ciclo familiar podem requerer
diferentes estilos de relacionamento entre elementos da família. Não obstante,
a hipótese central deste modelo estabelece que níveis equilibrados de
flexibilidade familiar estão mais associados com sistemas familiares
funcionais, enquanto níveis extremos de flexibilidade (i.e., famílias rígidase
caóticas) representam sistemas familiares desequilibrados, potencialmente
conducentes a comportamentos sintomáticos.
O funcionamento familiar, de acordo com o Modelo Circumplexo de Olson (2011), é
explicado pelo entrosamento destas duas dimensões familiares centrais (coesão e
flexibilidade), o que permite a compreensão do funcionamento familiar desde
sistemas familiares desequilibrados aos equilibrados. A hipótese central do
Modelo Circumplexo (Olson, 2011), designada por hipótese curvilínea, pressupõe
que relacionamentos familiares equilibrados conduzem a um funcionamento
familiar saudável, enquanto os relacionamentos familiares desequilibrados estão
associados a funcionamentos familiares problemáticos e disfuncionais (Olson,
2011).
O Modelo Circumplexo tem demonstrado a sua versatilidade e relevância na
intervenção familiar sistémica em múltiplos contextos, tais como na ideação
suicida (e.g., Compton, Thompson, & Kaslow, 2005; Gouveia-Pereira, Abreu,
& Martins, 2014), consumo de drogas (e.g., Natakusumah, Piercy, Robert,
Sprenckle, & Trepper, 1992; Tafá & Baiocco, 2009) e comportamento
delinquente (e.g., Blaske et al., 1989; Matherne & Thomas, 2001; McGaha
& Leoni, 1995; Shields & Clark, 1995).
No entanto, tanto quanto sabemos são escassos os estudos que analisam
simultaneamente o impacto da coesão e da flexibilidade, quer no autocontrolo
quer nos comportamentos de delinquência.
Autocontrolo como mediador
Como temos vindo a referir, um elevado número de investigações tem relacionado
diferentes fatores familiares ao comportamento delinquente juvenil, enquanto a
Teoria Geral do Crime (Gottfredson & Hirschi, 1990) assume que as
características familiares afetam apenas indiretamente o comportamento
delinquente através do autocontrolo dos jovens. Deste modo, colocamos a
hipótese de que o autocontrolo poderá mediar a relação entre os fatores
familiares e a conduta delinquente. Na verdade, alguns estudos apresentam
evidência empírica de suporte às previsões da Teoria Geral do Crime,
nomeadamente o papel mediador do autocontrolo na relação entre as práticas
parentais ou monitorização parental e os comportamentos delinquentes (Feldman
& Weinberger, 1994; McKee, 2012). Ou ainda, Miller et al. (2009) que
obtiveram resultados no sentido de que o baixo autocontrolo apenas mediava
parcialmente os efeitos da vinculação materna no comportamento desviante.
Todavia, a vasta maioria destes estudos focaram-se apenas em aspetos isolados
da vida familiar, tais como a estrutura familiar, monitorização parental,
vinculação, entre outros aspetos, mas não analisaram variáveis mais
integradoras tais como o funcionamento familiar do Modelo Circumplexo, podendo
possibilitar uma compreensão mais holística destas relações. Este é um dos
objetivos principais deste estudo.
Uma ideia interessante é o facto de que as duas dimensões principais do Modelo
Circumplexo (Olson, 2011) (coesão e flexibilidade familiar) parecerem
corresponder às quatro condições descritas por Gottfredson e Hirschi (1990).
Primeiro, o vínculo dos pais à criançadescrito pelo laço emocional entre pais e
filhos pode ser considerado como coesão familiar. Enquanto a Supervisão
parental, Reconhecimento do comportamento desviantee Punição do comportamento
desviantepodem ser integradas na dimensão flexibilidade familiar através das
características de disciplina, controlo e regras familiares. Desta forma,
parece-nos que a Teoria Geral do Crime (Gottfredson & Hirschi, 1990) possa
ser melhor compreendida sob o paradigma do funcionamento familiar do Modelo
Circumplexo de Olson (2011).
PRESENTE INVESTIGAÇÃO
Neste estudo pretendemos explorar duas das principais preposições da Teoria
Geral do Crime. Primeiro iremos analisar a adequabilidade do Modelo Circumplexo
(Olson, 2011) na preposição de Gottfredson e Hirschi (1990) quanto ao impacto
do funcionamento familiar no autocontrolo. Segundo, iremos analisar se o
autocontrolo dos adolescentes medeia totalmente a relação entre o funcionamento
familiar, coesão e flexibilidade, e o comportamento delinquente juvenil.
Desta forma, numa primeira hipótese esperamos que jovens provenientes de
sistemas familiares funcionais, por oposição aos jovens provenientes de
sistemas disfuncionais de acordo com o Modelo Circumplexo, apresentem níveis de
autocontrolo mais elevados. Assim, esperamos encontrar uma correlação positiva
entre o funcionamento familiar e o autocontrolo, na medida em que quanto mais
funcional for o sistema familiar, maior a capacidade de autocontrolo dos
jovens.
Finalmente, tomando em consideração que Gottfredson e Hirschi (1990)
estabelecem o autocontrolo como a componente fundamental do comportamento
delinquente, colocamos a segunda hipótese de que o autocontrolo medeia a
relação entre o funcionamento familiar (coesão e flexibilidade) e o
comportamento delinquente. Esperamos, deste modo, que quanto mais funcional for
o sistema familiar do jovem, maior será a sua capacidade de autocontrolo. E,
por sua vez, quanto maior o seu autocontrolo, menos comportamentos delinquentes
os jovens apresentarão.
MÉTODO
Participantes
A amostra é constituída por 181 adolescentes, 110 do sexo feminino e 71 do sexo
masculino, com idades compreendidas entre os 12 e os 19 anos de idade (M=16.92,
DP=1.55). Estes participantes eram alunos de quatro escolas da área de Lisboa,
em que 71.8% pertenciam a 3 escolas regulares a frequentar entre o 7º e 12º ano
e 28.2% pertenciam a uma escola profissional a frequentar o 10º ano. A maioria
dos adolescentes é de nacionalidade portuguesa (86.5%).
Instrumentos
Funcionamento Familiar- A Escala de Coesão e Flexibilidade Familiar foi
adaptada da Family Adaptability and Cohesion Evaluation Scale(FACES IV) de
acordo com o Modelo Circumplexo (Olson, 2011). Atualmente este instrumento
encontra-se na sua quarta versão, FACES IV (Olson, 2011) e em processo de
validação para a população portuguesa (Gouveia-Pereira, Gomes, Martins,
Miranda, & Coutinho, 2014). O FACES IV é um instrumento de autorrelato com
um total de 42 itens permitindo avaliar duas dimensões centrais: (a) a coesão
familiar (i.e., o laço emocional que une os elementos familiares) e (b) a
flexibilidade familiar (i.e., a capacidade de mudança relativamente à liderança
e às regras familiares). Por sua vez, dividem-se em seis subescalas (7 itens
cada), em que duas subescalas permitem aceder aos níveis equilibrados de coesão
e flexibilidade familiar, ou seja, a subescala de Coesão Equilibrada (e.g.,
"Os membros da minha família estão envolvidos nas vidas uns dos
outros") e a subescala de Flexibilidade Equilibrada (e.g., "A nossa
família tenta novas formas de lidar com os problemas"); e quatro
subescalas acedem aos níveis desequilibradas, permitindo aceder aos níveis mais
baixos e mais altos de coesão familiar, ou seja, Coesão Desagregada (e.g.,
"Nós damo-nos melhor com pessoas de fora da nossa família do que com as
de dentro") e Coesão Aglutinada (e.g., "Nós passamos
'demasiado' tempo juntos"), bem como os níveis mais baixos e
mais altos de flexibilidade familiar, ou seja, Flexibilidade Rígida (e.g.,
"Na nossa família há uma regra para quase todas as situações") e
Flexibilidade Caótica (e.g., "Na nossa família, parece que nunca nos
conseguimos organizar"). Estas últimas quatro subescalas não faziam parte
das versões anteriores do FACES IV. As respostas foram dadas numa escala tipo
Likert de 5 pontos (1=Discordo Fortemente e 5=Concordo Fortemente). Uma análise
das propriedades psicométricas revelou níveis aceitáveis de consistência
interna (Tabela_1).
Olson (2011) apresenta várias formas para codificar os dados obtidos através da
escala FACES IV, sugerindo a transformação dos dados em valores de percentil ou
rácios. Neste trabalho optámos pela análise através dos rácios. Assim, três
rácios podem ser obtidos (i.e., Rácio de Coesão Familiar, Rácio de
Flexibilidade Familiare Rácio do Funcionamento Familiar), através das fórmulas
apresentadas na Figura_1. A possibilidade de testar as hipóteses centrais do
Modelo Circumplexo através destes rácios é uma das inovações introduzidas nesta
nova versão do FACES IV.
Autocontrolo- A escala de autocontrolo foi originalmente desenvolvida no
âmbito da Teoria Geral do Crime por (Gottfredson & Hirschi,1990; Grasmick,
Tittle, Bursik, & Arneklev, 1993) e foi validada para a população
portuguesa por Fonseca (2002) (α=.81). Esta escala é constituída por um total
de 24 itens (e.g., "Faço coisas arriscadas só para me divertir").
Para a respetiva análise faz-se o somatório das respostas dos indivíduos, o que
fornece um valor total que pode variar entre 0 e 72, sendo que valores globais
mais elevados representam níveis de autocontrolo mais baixos. Contudo,
decidimos inverter os valores, significando deste modo que altos valores na
escala equivalem a altos valores no autocontrolo. Nesta escala obtiveram-se os
seguintes valores: (M=47.41; DP=10.33; α=.84).
Delinquência Juvenil- A escala de variedade de delinquência, construída
por Sanches, Gouveia-Pereira, Maroco, Gomes e Roncon (2014), foi adaptada de
uma escala de Comportamentos Desviantes de Gouveia-Pereira (2009). Esta escala
tem 19 itens e permite aceder aos comportamentos de delinquência, tais como
comportamentos aditivos (e.g., "Fumo haxixe ou marijuana") ou
comportamentos relacionados com roubos (e.g., "Eu roubei, ou tentei
roubar a um estranho, dinheiro ou objetos, tais como um relógio, telemóvel,
MP3, etc."). Era pedido aos participantes para dizerem se tinham cometido
este tipo de comportamentos no último ano. As respostas são dadas numa escala
de dois pontos (0=Não; 1=Sim). Assim, o valor das respostas varia entre 0 e 19.
A escala obteve os seguintes valores: (M=4.80; DP=3.34; α=.81).
Procedimento
Como os participantes eram provenientes de contextos escolares, o projeto foi
avaliado pela Direcção-Geral da Educação, através do serviço de Monitorização
de Inquéritos em Meio Escolar, que autorizou a sua realização. De seguida,
foram pedidas autorizações aos respetivos encarregados de educação dos
adolescentes. Antes de distribuir as escalas, os participantes foram informados
que as suas respostas eram anónimas, a sua participação era confidencial e
voluntária e caso tivessem alguma dúvida seriam esclarecidos. Além do
preenchimento das escalas os participantes respondiam também a alguns dados
demográficos, como idade, sexo, ano escolar, etc. O preenchimento demorou
aproximadamente 20 minutos.
RESULTADOS
Funcionamento familiar e autocontrolo
De forma a analisar a primeira hipótese, ou seja, se os sistemas familiares
funcionais apresentavam jovens com maior capacidade de autocontrolo que os
provenientes de sistemas disfuncionais, realizámos uma correlação de Pearson
entre o Rácio do funcionamento familiar e os resultados na escala de
autocontrolo (Tabela_2). Nesta análise verificámos que estas duas variáveis se
relacionam positivamente (r=.19) o que significa que o autocontrolo dos jovens
aumenta na mesma medida que melhora o funcionamento familiar.
Realizámos igualmente uma correlação entre o Rácio de coesão, o Rácio de
flexibilidade e o autocontrolo dos adolescentes (Tabela_2). Primeiro, podemos
notar que estes dois rácios familiares se encontram fortemente correlacionados
(r=.64), significando que quanto mais funcional são estas famílias numa destas
dimensões (e.g., coesão familiar), mais funcionais serão na outra dimensão
(e.g., flexibilidade familiar). No que diz respeito ao autocontrolo,
verificámos que o Rácio de coesão (r=.20) se encontra positivamente
correlacionado com o autocontrolo, o mesmo não sucedeu com o Rácio de
flexibilidade (r=.14, p=.063), que revela apenas uma tendência estatística.
Autocontrolo como mediador da relação entre o funcionamento familiar e a
delinquência
Finalmente, na nossa segunda hipótese propúnhamos um modelo em que o
autocontrolo seria o mediador da relação estabelecida entre o funcionamento
familiar e comportamento delinquente. Por forma a analisar esta hipótese usámos
o método proposto por Baron e Kenny (1986), onde estes autores apontam para a
necessidade de se satisfazerem quatro condições essenciais por forma a concluir
pela presença do modelo de mediação em análise.
A primeira condição diz respeito à necessidade de se verificar, numa primeira
análise de regressão, um efeito significativo entre a variável independente e a
variável mediadora. Assim, para testar esta primeira condição, desenvolvemos
uma regressão linear entre o Rácio do funcionamento familiar e o autocontrolo.
Assim, através deste teste verificámos como estas variáveis se relacionam de
forma significativa (β=.19,), o que nos permite concluir a verificação da
primeira condição.
A segunda condição apontada por estes autores diz respeito à realização de uma
nova regressão linear entre a variável independente (Rácio do funcionamento
familiar) e a variável dependente (Comportamento delinquente), em que
observámos que efetivamente o funcionamento familiar tem impacto nos
comportamentos de delinquência (β=-.19,). Realizámos uma outra análise de
regressão linear em que observámos que o autocontrolo está fortemente associado
com o comportamento delinquente (β=-.47).
Finalmente, conduzimos uma análise de regressão, desta vez com o método
stepwise, onde introduzimos simultaneamente a variável independente (Rácio do
funcionamento familiar) e variável mediadora (autocontrolo), e testámos os seus
efeitos na variável dependente (comportamento delinquente juvenil). A terceira
condição implica que a variável mediadora mantenha um efeito significativo na
variável dependente, o que sucedeu (β=-.47, p=.000, R2a
=.213), pelo que podemos garantir a terceira condição.
Por último, de acordo com Baron e Kenny (1986) o efeito da variável
independente na variável dependente nesta últimaregressão linear deve diminuir
quando comparada com a análise de regressão linear quando fora considerada como
único fator. Assim, nesta última análise de regressão podemos observar que o
efeito do funcionamento familiar sofreu uma redução substancial (β=-.104,
p=.122) tornando-se não significativo e garantindo a última condição.
Mais ainda, conduzimos o teste Zde Sobel, através do qual podemos concluir que
a diminuição do efeito do Rácio do funcionamento familiar no comportamento
delinquente é estatisticamente significativo (Z=-2.426, p=.015). Desta forma,
podemos concluir que a relação entre o funcionamento familiar e delinquência
juvenil é totalmente mediada pelas capacidades de autocontrolo dos adolescentes
(Figura_2). Confirma-se assim a nossa segunda hipótese.
DISCUSSÃO
Desde a apresentação da Teoria Geral do Crime de Gottfredson e Hirschi (1990),
por vezes também designada por Teoria do Autocontrolo, muitos investigadores se
dedicaram ao estudo das suas preposições. Ainda assim, através da evolução do
conhecimento deste assunto em particular, vários problemas surgiram e muitas
questões se mantêm por responder. O presente estudo teve por objetivo lançar
alguma clarificação sobre duas preposições essenciais da Teoria Geral do Crime,
nomeadamente a sua premissa acerca das origens familiares do autocontrolo,
estudada neste trabalho sob o Modelo Circumplexo do funcionamento familiar
sistémico de Olson (2011), bem como a sua premissa de que o autocontrolo é
total mediador da relação entre o funcionamento familiar e a delinquência
juvenil.
No que concerne ao nosso primeiro objetivo, os resultados mostram como o
funcionamento familiar se relaciona positivamente com o autocontrolo dos
adolescentes, sendo estes resultados consistentes com as preposições da Teoria
Geral do Crime, bem como com os estudos empíricos que têm demonstrado o
contexto familiar como crucial para o desenvolvimento do autocontrolo dos
indivíduos. Como vimos, outros investigadores interessados no estudo da
etiologia do autocontrolo têm-se focado em aspetos isolados do funcionamento
familiar, tais como a supervisão parental e disciplina (e.g., Hay, 2001;
Meldrum, 2008; Pratt, Turner, & Piquero, 2004), statussocioeconómico da
família, estrutura familiar, proximidade (e.g., Vazsonyi & Belliston, 2007;
Vazsonyi & Klanjsek, 2008), ou mesmo vinculação maternal (e.g., Meldrum,
Young, & Hay, 2012), mas surpreendentemente, o estudo das influências
sistémicas familiares no desenvolvimento do autocontrolo encontra-se pouco
explorado.
Assim, o presente trabalho é uma tentativa de ligar a Teoria Geral do Crime ao
funcionamento familiar tal como é descrito pelo Modelo Circumplexo (Olson,
2011), uma vez que permite uma análise mais sistémica do funcionamento
familiar, i.e., permite analisar em conjunto a coesão e a flexibilidade
familiar através do Rácio do funcionamento familiar.
Como observámos o Rácio do funcionamento familiar revelou estar positivamente
relacionado com autocontrolo dos adolescentes, por outras palavras, à medida
que o funcionamento familiar melhora, aumenta a capacidade de autocontrolo dos
adolescentes.
Os resultados deste estudo parecem vir reforçar os resultados encontrados por
alguns investigadores que descrevem a importância de ambas as dimensões de
vínculo parental e supervisão parental no desenvolvimento do autocontrolo dos
adolescentes (e.g., Hay, 2001; Meldrum, 2008; Meldrum, Young, & Hay, 2012;
Pauwels & Svensson, 2009; Pratt, Turner, & Piquero, 2004), tal como
fora previsto na Teoria Geral do Crime (Gottfredson & Hirschi, 1990). No
entanto, parece-nos que o mérito deste trabalho é analisar o funcionamento
familiar através do Modelo Circumplexo do Olson (2011), possibilitando uma
análise conjunta da coesão e da flexibilidade familiar. Desta forma, os nossos
resultados confirmam a preposição central do Modelo Circumplexo acerca da
funcionalidade familiar, de forma que quanto mais equilibrado é o sistema
familiar maior a capacidade de autocontrolo dos adolescentes.
Por outro lado, os nossos resultados levam-nos a concluir que a Teoria Geral do
Crime pode ser compreendida sob o paradigma do funcionamento familiar
apresentado no Modelo Circumplexo dos Sistemas Familiares e Conjugais (Olson,
2011), em que os sistemas familiares equilibrados, com níveis balanceados de
coesão e flexibilidade familiar, são mais condutivos ao desenvolvimento
individual saudável, em que os adolescentes apresentam níveis de autocontrolo
mais elevados. Nestes contextos familiares, os adolescentes podem passar algum
tempo separado mas também junto com as suas famílias, onde a tomada de decisões
é partilhada, onde a liderança tende a ser democrática, onde existem papéis
estáveis que podem ser partilhados, em que as regras familiares são
consistentes e adequam melhor as necessidades do desenvolvimento dos seus
elementos (Olson, 2011; Olson & Gorall, 2003).
Na segunda hipótese testámos o modelo proposto na Teoria Geral do Crime no qual
o autocontrolo seria mediador da relação entre o funcionamento familiar e o
comportamento delinquente juvenil. Por forma a testar este modelo de mediação
desenvolvemos um conjunto de análises estatísticas que nos permitiram concluir
que, consistentemente com a multiplicidade de estudos prévios (e.g., Arneklev,
Elis, & Medlicott, 2006; Longshore, Turner, & Stein, 1996; Pauwels et
al., 2011; Pratt & Cullen, 2000; Vazsonyi & Huang, 2010), o
autocontrolo se relaciona fortemente com o comportamento delinquente,
adicionando-se ao vasto suporte empírico para esta hipótese central da Teoria
Geral do Crime (Gottfredson & Hirschi, 1990).
Mais ainda, nesta análise de dados pudemos demonstrar como o Rácio do
funcionamento familiar está significativamente associado com o comportamento
delinquente juvenil, destacando a relevância e a adequação do Modelo
Circumplexo (Olson, 2011) no estudo da conduta criminal e de comportamentos
semelhantes.
Finalmente, o efeito direto do funcionamento familiar no comportamento
delinquente dos adolescentes desapareceu depois de controlarmos para a mediação
do autocontrolo. Assim, a análise dos resultados permite-nos concluir que o
autocontrolo medeia totalmente a relação estabelecida entre o funcionamento
familiar e a delinquência juvenil. Os resultados do presente trabalho coincidem
com aqueles encontrados por Feldman e Weinberger (1994), e McKee (2012), que
encontraram também o modelo de mediação total entre estas variáveis,
contrariamente aos resultados de alguns autores que encontraram que o
autocontrolo apenas mediava parcialmente este efeito (e.g., Hay, 2001; Miller
et al., 2009; Vettenburg et al., 2013).
Estas descobertas suportam as preposições da Teoria Geral do Crime (Gottfredson
& Hirschi, 1990), em que o papel primário do contexto familiar no que
concerne ao comportamento delinquente é desenrolado através da sua incapacidade
de promover competências de autocontrolo nas crianças, que, por sua vez, é
considerado como a premissa central da delinquência juvenil.
Concluindo, podemos referir que o Modelo Circumplexo de Olson (2011) se revelou
uma mais-valia na compreensão do papel desenrolado pela família na Teoria Geral
do Crime (Gottfredson & Hirschi, 1990), bem como o modelo de mediação em
que que a relação entre o funcionamento familiar e o comportamento delinquente
adolescente é totalmente mediado pelo autocontrolo, como sugerem Gottfredson e
Hirschi (1990).
Assim, parece-nos que investigação futura deve continuar a explorar mais
preposições da Teoria Geral do Crime (Gottfredson & Hirschi, 1990) tendo em
consideração o Modelo Circumplexo de Olson (2011), bem como outros modelos
sistémicos. Além disso, seria importante explorar como diferentes estilos
familiares se relacionam com o desenvolvimento do autocontrolo e comportamento
delinquente.