Pais e mães protegem, acarinham e brincam de formas diferentes
INTRODUÇÃO
A vinculação é a relação preferencial entre a criança e a(s) sua(s) figura(s)
materna(s), não necessariamente a mãe biológica mas quem lhe presta cuidados,
oferece proteção e com quem desenvolve uma relação afetiva de referência
(Bowlby, 1969/1982). Tradicionalmente, no seio da investigação sobre a
vinculação a relação mãe-filho(a) tem sido mais estudada do que a relação pai-
filho(a) (e.g., Frodi & Thompson, 1985; Huth-Boks, Levendosky, Bogat, &
von Eye, 2004; Mills-Koonce et al., 2007; Pederson & Moran, 1996; Pederson,
Gleason, Moran, & Bento, 1998; Poehlmann & Fiese, 2001; Raikes &
Thompson, 2005; Slade, 1987; Tarabulsy et al., 2005). Contudo, o pai é uma
figura de vinculação (e.g., Belsky, Gilstrap, & Rovine, 1984; Braungart-
Rieker et al., 2001; Schoppe-Sullivan, 2006; Volling, McElwain, Notaro, &
Herrea, 2002) e nas sociedades ocidentais verifica-se o aumento da implicação
do pai na prestação de cuidados à criança (Coleman, Garfield, & Committee
on Psychosocial Aspects of Child and Family Health, 2004; Pordata, 2014).
Assim, como se caracterizam os pais enquanto figuras de vinculação em
comparação com as mães? E como cuidador? Que fatores explicam as possíveis
diferenças? A presente revisão de literatura pretende reunir dados sobre a
qualidade da vinculação entre pais e filhos e entre mães e filhos tentando
evocar alguns elementos explicativos da vinculação com a figura materna e com a
figura paterna.
Ao longo de mais de 40 anos, o campo de estudo da vinculação tem sido um dos
mais produtivos da história da psicologia (em número de publicações e citações)
e o ritmo não parece abrandar. Possivelmente, porque para além da organização
dos comportamentos da vinculação, por serem complexos (integrando naturee
nurturenuma mútua influência) ainda estejam por deslindar (e.g., Bakermans-
Kranenburg, van IJzendoorn, Bokhorst, & Schuengel, 2004; Bokhorst et al.,
2003; Fearon et al., 2006). Da nuvem de dados, resultam interpretações e
abordagens teóricas distintas que coabitam e enriquecem a compreensão deste
fenómeno. Esperamos com esta reunião e discussão de informação contribuir
também para esta compreensão1.
Relações de vinculação
Segundo Bowbly (1969/1982) o estabelecimento de relações de vinculação é, em
si, um fenómeno normativo e universal na espécie humana. As crianças
desenvolvem um laço afetivo com as figuras que lhes dispensam cuidados
maternos. As figuras maternas são procuradas para obter conforto e segurança,
em situações que a criança interpreta como ameaçantes bem como são uma
retaguarda para explorar o meio (físico e social) quando o perigo não se
avizinha2. O modo como a criança utiliza essas figuras enquanto fonte de
segurança diferencia-se entre as díades (Ainsworth, 1965). Tais variações são
concebidas como diferenças individuais da vinculação.
Sob o ponto de vista metodológico têm sido propostas várias abordagens, para
estudar a qualidade da vinculação em diferentes períodos do desenvolvimento dos
indivíduos (cf., Crowell, Fraley, & Shaver, 2008; George, Kaplan, &
Main, 1996; Solomon & George, 2008). Mary Ainsworth foi a primeira autora a
propor um sistema destinado a avaliar a qualidade da vinculação. Apresentou,
assim, um procedimento laboratorial conhecido pelo nome de Situação Estranha
(Ainsworth, Blehar, Waters, & Wall, 1978) voltado para o estudo do
comportamento da criança entre os 12 e os 20 meses. Este procedimento procura
apreender a relação entre as respostas infantis de vinculação e de exploração
ao longo de 8 episódios que instituem, progressivamente, condições de
stressmoderado, mediante manipulação da presença ou ausência de uma pessoa
desconhecida (a Estranha) e a criação de momentos de separação da figura de
vinculação.
Interpretados à luz das assunções teóricas de Bowlby (1969/1982), os dados
obtidos no contexto dos episódios da Situação Estranha3 permitem verificar as
diferentes maneiras como as crianças utilizam a figura de vinculação enquanto
base de exploração ou "porto de abrigo". Ainsworth e colegas (1978)
identificaram e tipificaram três grandes padrões de vinculação: o B (seguro), o
A (inseguro-evitante) e o C (inseguro-resistente/ambivalente). Dentro de cada
um destes padrões são descritos vários subgrupos: A1 e A2; B1, B2, B3 e B4; C1
e C2.
O grupo da vinculação segura(padrão B) é o que possui uma prevalência maior na
generalidade das amostras internacionais estudadas: oscilando os 50% e 75%
(e.g., van IJzendoorn & Kroonenberg, 1988) e entre os 45-58% nas amostras
nacionais (revisão em Fuertes, 2005). O bebé seguro é ativo nas brincadeiras,
procura contacto quando se sente mais ansioso (mas após ser confortado retoma a
exploração), partilha atitudes de afeto positivo à distância e pode chorar em
caso de aflição sendo facilmente acalmado pela figura de vinculação.
Na vinculação denominada de insegura/evitante(padrão A), as crianças evitam a
mãe nos episódios de reunião (Bowlby, 1969/1982), principalmente após a sua
segunda breve ausência, e comportam-se, sobretudo durante as separações, de
modo mais amigável com a estranha do que com a própria mãe. Neste grupo o
evitamento da proximidade e do contacto ocorre principalmente nos episódios de
reunião. O evitamento geralmente é expresso pela ausência de procura de
contacto ou por subtis comportamentos de distanciamento. A criança pode
atrasar-se em responder à mãe, pode ignorá-la olhando para o lado oposto,
passar perto dela sem se aproximar, dedicar-se exclusivamente à exploração dos
brinquedos, rejeitar o contato físico (Ainsworth et al., 1978) ou, simplesmente
mostrar um comportamento "pressed lip", que se traduz numa
expressão muito subtil de raiva (Malatesta, Culver, Tesman, & Shepard,
1989). Quando a mãe estabelece contacto físico com a criança, esta tende a
evitar olhar para ela, não fazendo qualquer esforço para manter o contato.
No tipo de vinculação inseguro resistente/ambivalente(padrão C) as crianças
oscilam a procura da proximidade e contacto com a mãe e a resistência a esse
mesmo contato (Bowlby, 1969/1982). Estas crianças não usam a mãe como base
segura para explorar o novo espaço e podem iniciar a procura do contacto antes
da mãe se ausentar. Quando o adulto cuidador se ausenta, as crianças podem
ficar irritadas e ansiosas, não sendo fácil para a figura de vinculação acalmá-
las.
Vários estudos verificaram que nem todas as crianças observadas, no âmbito da
Situação Estranha, se enquadravam dentro da tipologia A/B/C e geraram novas
tipologias (e.g., Crittenden, 1985; Lyons-Ruth, Connell, Zoll, & Stahl,
1997; Main & Weston, 1981; Radke-Yarrow, Cummings, Kuckzinsky, &
Chapman, 1985). Previamente, Ainsworth e colegas (1978) tinham relatado a
dificuldade ou, até, a impossibilidade de classificarem cerca de 5% dos casos
nas amostras não clínicas. Nestes casos as crianças exibem elevada perturbação
e comportamentos atípicos, desorientados ou sem aparente coerência. Mais tarde,
van IJzendoorn (1992) assinala em revisão metanalítica da literatura uma
percentagem três vezes superior (média de cerca de 15%). A incidência de casos
inclassificáveis revelava-se particularmente elevada quando as amostras
incluíam crianças assinaladas com situações de maltrato ou outras condições de
risco psicossocial. Assim, desenvolvimentos posteriores na classificação da
vinculação viram surgir novas propostas de classificação que expandiam o número
dos padrões originalmente descritos tais como o padrão D-Desorganizado/
Desorientado proposto por Main e Solomon (1986), U-A identificado por Lyons-
Ruth e colegas (1997), A+, C+ e A/C proposto por Crittenden (ver revisão em
Fuertes, 2011).
No entanto, não trataremos neste artigo dessas propostas e procuraremos
circunscrever a revisão a estudos realizados com a situação estranha (embora
existam outras metodologias validadas como o Q-Sort), por facilitar a
comparação dos resultados dos estudos limitando a diversidade dos contextos de
recolha de dados. Tentamos, igualmente, limitar a revisão sobre a vinculação a
estudos que incluam amostras paternas e maternas.
O estudo da qualidade da vinculação assumiu marcada influência na psicologia do
desenvolvimento, com o acumular de evidências que consistentemente apontam para
uma relação entre a segurança da vinculação estabelecida no primeiro ano de
vida e o desenvolvimento subsequente (infantil e juvenil) (em termos de
desempenhosver revisão em Sigelman, 1999, van IJzendoorn, Juffer, & Klein
Poelhuis, 2005 e para competências sociaisver Weinfield, Sroufe, Egeland, &
Carlson, 2008).
Pais e mães enquanto figuras de vinculação
Bowlby (1969) postulou a teoria da vinculação recorrendo a uma perspetiva
evolutiva e etológica da relação mãe-filho. Contudo, posteriormente Bowlby
(1982) referiu que esta figura materna não tinha de ser necessariamente a mãe
biológica, admitindo que o pai pode desempenhar este papel. Ainsworth (1967),
enfatizando que a mãe não constitui a única pessoa com quem a criança
estabelece relações de vinculação, observou fortes ligações entre o bebé e o
pai ao longo do seu estudo efectuado no Uganda, mesmo quando os contactos eram
pouco frequentes: "It seemed to be especially to the father that these
other attachments were formed, even in the cases of babies who saw their
fathers relatively infrequently. One can only assume that there was some
special quality in the father's interaction with his child -
whether of tenderness or intense delight - which evoked in turn a
strength of attachment disproportionate to the frequency of his interaction
with the baby" (p. 352).
Estas ideias ganham fundamento empírico em vários estudos sobre a vinculação
pai-filho que recorrendo à Situação Estranha conseguem a identificação de
padrões de segurança ou insegurança como nas díades mãe-filho (para revisão ver
Lucassen et al., 2011). Não obstante, os estudos comparativos entre a qualidade
da vinculação mãe-filho e pai-filho revelam que o padrão de relacionamento
seguro é mais provável nas díades mãe-filho (consultar Quadro_1). Contudo, a
introdução da classificação D parece atenuar ou mesmo alterar as diferenças na
incidência da segurança com a mãe e com o pai.
Se existem diferenças entre a qualidade da vinculação mãe-filho(a) e pai-filho
(a), que fatores poderão contribuir para estas diferenças entre pais e mães?
Sensibilidade materna e paterna
Embora a vinculação tenha de ser entendida num quadro compreensivo sistémico
resultando de múltiplos fatores e interações, o antecedente isolado mais
fortemente associado à qualidade da vinculação segura é a sensibilidade materna
(De Wolf & van IJzendoorn, 1997). A sensibilidade foi definida como a
capacidade do adulto "(...) to perceive and to interpret accurately the
signals and communications implicit in her infant's behavior, and given
this understanding, to respond to them appropriately and promptly"
(Ainsworth, Bell, & Stayton, 1974, p. 127). Segundo a autora a
sensibilidade comporta quatro aspectos fundamentais: (i) capacidade para
perceber os sinais exteriorizados pela criança; (ii) capacidade para os
interpretar correctamente; (iii) adequação das respostas dadas; (iv) prontidão
dessas mesmas respostas. Será diferente a sensibilidade materna da
sensibilidade paterna?
A literatura indica que, em média, a sensibilidade materna é superior à paterna
(Volling, McElwain, Notaro, & Herrera, 2002). Até recentemente, era dúbia a
relação entre sensibilidade paterna e segurança na vinculação infantil. De
facto, alguns estudos não encontraram resultados significativos entre a
qualidade da interação dos pais e a segurança da vinculação com o pai (Caldera,
Huston, & O'Brien, 1995; Grossmann & Grossmann, 1992; Schneider,
Rosen, & Rothbaum, 1993). Outras investigações, pelo contrário, indicam uma
correlação significativa entre a sensibilidade paterna e segurança da
vinculação (Cox, Owen, Henderson, & Margand, 1992; Goossens & van
IJzendoorn, 1990).
Em 2011, mais uma meta-análise de van IJzendoorn e a sua equipa, reunindo três
décadas de investigação, desfez a dúvida ao encontrar uma associação (ainda que
fraca) entre a qualidade de resposta dos pais e a vinculação (Lucassen et al.,
2011). No entanto, a associação entre a sensibilidade materna e a segurança da
vinculação é moderada (r=.23) enquanto esta associação em díades paternas é
fraca (r=.13).
As diferenças entre os pais e as mães são corroboradas pela fraca associação
entre a qualidade da vinculação mãe-filho e pai-filho (r=.17). Por outras
palavras, é possível (e provável) que uma criança possa ter um relacionamento
seguro com um dos pais e inseguro com o outro (de Wolf & van IJzendoorn,
1997).
Contudo, a qualidade da vinculação pai-filho parece ser um fator importante
para o desenvolvimento e bem estar infantil (e.g., Lamb, 1997; Lamb &
Lewis, 2004). Alguns estudos indicam que as crianças que estabelecem relações
seguras com os seus pais tendem a apresentar menos problemas de comportamento
(Vershueren & Marcoen, 1999), maior sociabilidade (Sagi et al., 1985) e
relações mais recíprocas com os seus pares (Veríssimo et al., 2011). Por outro
lado, a literatura indica que a ausência do pai ou que a relação pai-filho(a)
insensível afetam o desenvolvimento socioemocional da criança e do jovem
(Grossmann, Grossmann, & Kindler, 2005 para uma revisão). Outros autores,
como Lamb (2012) sugerem que o género dos pais não é uma variavel crítica no
bem estar ("adjusment") dos filhos. Enquanto a qualidade das
relações entre pais e filhos e entre os próprios pais e adultos significativos
na vida das crianças, tendo em conta os recursos sócio-económicos disponíveis,
têm um papel determinante.
Um estudo realizado pela equipa de Grossmans e colegas (2002) indicou que o
impacto do comportamento parental é maior a longo prazo (aos 10 anos de idade)
abrindo a porta à compreensão do papel do pai como dinâmico mas crucial.
Em suma, os papéis dos pais e das mães podem ser diferentes mas são
complementares e igualmente relevantes para o desenvolvimento infantil!
Tarefas e papéis maternos e paternos
Parke e Sawin (1976) observaram as mães e os pais enquanto estes alimentavam os
seus filhos e concluíram que os pais eram capazes de realizar esta tarefa com a
mesma eficiência e sensibilidade que as mães. Igualmente, outras investigações
indicam que os pais que participam (e escolhem participar) nas rotinas
familiares realizam com a mesma proficiência a prestação de cuidados às
crianças (Belsky, Gistrap, & Rovine, 1984; Lamb, 1981; Parke & Tinsley,
1981). Com efeito, a questão colocada por alguns autores é qual das seguintes
variáveis mais pesa na organização da vinculação: o tempo dedicado pelo pai e
pela mãe nos cuidados e interação com os filhos ou o género dos pais?
Na maioria das culturas, constata-se que as mães passam mais tempo com os
filhos do que os pais (Hewlett, 1992; Parke & Buriel, 2006; Phares, 1996),
embora, os pais comecem a passar mais tempo a brincar com os filhos (Coleman,
Garfield, & Committee on Psychosocial Aspects of Child and Family Health,
2004; Prodata, 2014), principalmente quando se trata do primeiro filho
(Michale, 2007). Quando comparados com as mães, os pais, ainda continuam a
passar menos tempo com os filhos, principalmente dos 0 aos 2 anos (Yeung,
Sandberg, Davis-Kean, & Hofferth, 2001) e a ter menor responsabilidade nos
cuidados infantis (Lamb & Oppenheim, 1989), principalmente nas culturas
ocidentais (Cooksey & Fondell, 1996; Yeung et al., 2001).
Alguns trabalhos compararam pais "cuidadores primários" (definidos
como aqueles que atribuíam 20 ou mais horas por semana de cuidados à criança)
versuspais que não desempenham cuidados primários à criança. Os resultados
indicam que os pais que assumem o papel de cuidador primário apresentam
interações igualmente positivas e com a mesma atmosfera de prazer
comparativamente às mães (Lewis et al., 2009; Yogman, 1982).
Em 2010, uma investigação realizada em Portugal, por Monteiro e colegas,
indicou que a participação dos pais na prestação de cuidados e em atividades de
jogo e lazer estava associada a scores mais elevados de segurança avaliados
através do Attachment Q-sort (AQS; Waters, Vaughn, & Egeland, 1980).
Posteriormente, outra investigação nacional (desenvolvida com a Situação
Estranha) indicou que a qualidade do tempo passado com a criança foi mais
importante do que a quantidade do tempo (Faria, Lopes-dos-Santos, Beeghly,
& Fuertes, in press). Este último estudo indicou que as mães mais dedicadas
a brincar e a passear com os filhos (em oposição às mães menos dedicadas a
estas tarefas4) tendiam a estabelecer uma vinculação segura e uma interação
positiva com as crianças. No grupo dos pais, aqueles que passavam mais tempo a
prestar cuidados básicos aos filhos tendiam a obter scores mais elevados na
qualidade da interação e os filhos a desenvolverem com eles uma relação segura.
Comportamentos maternos e paternos de acordo com o género da criança
Parecem existir diferenças no modo como os pais interagem com os filhos e as
filhas. Alguns autores relatam que os pais encorajam mais os filhos a
participar em brincadeiras masculinas (típicas dos rapazes) e as filhas em
brincadeiras femininas (típicas das raparigas) (Snow, Jacklin, & Maccoby,
1983). As mães tendem a tratar igualitariamente os filhos e as filhas, enquanto
os pais adaptam o seu estilo parental, aos filhos e às filhas (Brundin,
Rodholm, & Larsson, 1988; Lytton & Romney, 1991). De facto, os pais
interagem em jogos e brincadeiras mais físicas, ativas (Feldman, 2003; Rohner
& Veneziano, 2001) e imprevisíveis (Parke, 1995) com os filhos do que com
as filhas (Jacklin, DiePietro, & Maccoby, 1984; MacDonald & Parke,
1986), e têm uma maior satisfação parental, após 12 a 16 semanas do nascimento,
com os filhos (Hudson, Elek, & Ofe Fleck, 2001). Por seu lado, as mães
interagem em mais jogos simbólicos (Langlois & Downs, 1980; Tamis-LeMonda
& Bornstein, 1991) e estão mais disponíveis emocionalmente (Volling et al.,
2002) com as filhas.
Weinberg, Tronick, Cohn e Olson (1998) verificaram que era mais fácil reparar a
interação nas díades mãe-filha do que nas díades mãe-filho. Apesar dos rapazes
estarem inicialmente mais sincronizados com a mãe durante o jogo do que as
raparigas, quando a mãe se tornava não responsiva, os rapazes mostravam-se
bastante reativos exibindo mais afeto negativo. Ao contrário, as raparigas
evidenciavam maior capacidade de auto-regulação na ausência de resposta materna
(op. cit.). Alguns estudos referem maior sincronia nas díades do mesmo género
(e.g., pai-filho ou mãe-filha) (Manlove & Vernon-Feagans, 2002). Outros
estudos mostram que as raparigas são significativamente mais responsivas às
vocalizações maternas do que os rapazes (Gumnar & Donahue, 1980). Por seu
lado, as mães são mais rápidas a responder às expressões faciais das raparigas
(Haviland, 1977).
Assim, o conjunto dos estudos sobre a qualidade de interação mãe-filho/filha e
pai-filho/filha revela que existem diferenças nos comportamentos dos pais e das
mães mediadas pelo género da criança. No entanto, no que respeita à vinculação
o género da criança tem sido pouco discutido como variável relevante. Com
efeito, a maioria dos estudos com a mãe ou com o pai como figura de vinculação
não têm indicado diferenças significativas consoante o género da criança (para
revisão ver, Grossman, Grossman, Kindler, & Zimmermann, 2008).
Contexto das relações de vinculação
Posterior a Bowbly e Ainsworth, os teóricos da vinculação recorrem cada vez
mais a abordagens multisistémicas, ecológicas e transacionais para explicar a
qualidade da vinculação longe de uma causalidade direta, apenas, centrada na
sensibilidade materna (e.g., Belsky, 2005; Cicchetti & Barnett, 1991;
Crittenden, 2000; Sroufe, 1996). Entre as várias causas aduzidas para explicar
a qualidade do relacionamento entre as figuras maternas e a criança contam-se
as experiências de vinculação da mãe(Benoit & Parker, 1994; Fonagy, Steele,
& Steele, 1991; Fonagy, Steele, Moran, Steele, & Higgitt, 1993; Levine,
Tuber, Slade, & Ward, 1991; Slade & Cohen, 1996; Ward & Carlson,
1995), e do pai(Grossmann et al., 2002) vividas durante as suas infâncias. Os
pais que se lembram de terem tido pais atenciosos (Sagi, 1982) e implicados nos
cuidados básicos (Cabrera, Tamis-LeMonda, Bradley, Hofferth, & Lamb, 2000)
mostraram-se mais envolvidos nos cuidados parentais (Cohn, Cowan, Cowan, &
Pearson, 1992). O mesmo foi observado com as mães, isto é, as mães que
referiram terem tido mães estáveis, disponíveis, carinhosas e competentes nos
cuidados, mostraram uma maior tendência para terem vinculações seguras com os
(as) seus(suas) filhos(as) (Morris, 1980).
Outro elemento importante na segurança da vinculação mas, apenas, com um impato
indireto é a relação maritaldos pais. Com efeito, o conflito entre pais e mães
parece afetar o comportamento materno e paterno (e.g., Tarabulsy et al., 2005;
Tomlinson, Cooper, & Murray, 2005). Tal reflete-se, posteriormente, na
qualidade da vinculação (e.g., Cowan et al., 2005; Edwards, Eiden, &
Leonard, 2006; Solomon & George, 1999). Igualmente, a participação dos pais
nas tarefas diárias e nos cuidados à criança parece ser um factor mediador da
sensibilidade materna (e.g., Barnett & Baruch, 1987; Neville & Parke,
1979; Parke & Buriel, 1998).
Igualmente importante é a satisfação profissionaldos pais. As mães que indicam
ter muito stress profissional ou más condições profissionais como horários
irregulares (Parke et al., 2004; Raver, 2003; Repetti & Wood, 1997), ou que
identificam o trabalho como pouco reconhecido socialmente (Menaghan, 1983;
Raver, 2003; Repetti & Wood, 1997) têm maior dificuldade em desenvolverem
relações positivas com os seus filhos e estes tendem a apresentar um
desenvolvimento menos ajustado (Felfe & Hsin, 2012). Pelo contrário, as
mães com maior satisfação profissional são descritas na literatura como mais
"divertidas" nas brincadeiras, entregues no relacionamento com os
filhos, descontraídas e alegres (National Institute of Child Health and Human
Development [NICHD] Early Child Care Research Network, 2000; ver também Horn,
2000, para revisão). No caso dos pais, o número de horas de trabalho medeia o
envolvimento parental (Barnett & Baruch, 1987; Brown, McBride, Bost, &
Shin, 2011).
A depressãomaterna tanto como a depressão paterna afetam significativamente o
relacionamento afetivo dos pais e das mães com os filhos (e.g., Wilson &
Durbin, 2010). Um vasto corpo de literatura indica que a depressão materna é
fator de risco para a segurança na vinculação e que está associada a piores
desempenhos desenvolvimentais (meta-análises: Atkison, Atkison, Smith, Bem,
& Nolen-Hocksema, 2000; Belsky & Jaffe, 2006 para revisão; Martins
& Graffan, 2000). Alguma literatura indica que a depressão materna é um
fator de maior adversidade do que a depressão paterna (e.g., Connell &
Goodman, 2002; Kane & Garber, 2004; Klein, Astrachan, & Smyrnios, 2005;
Ramchandani, Stein, Evans, & O'Connor, 2005). Contudo, pais
deprimidos em comparação com pais sem depressão diagnosticada tendem a
apresentar mais alterações de humor, comportamentos negativos, intrusividade e
afastamento psicológico (Wilson & Durbin, 2010).
Outro fator que poderá influenciar a segurança na vinculação prende-se com o
estatuto socioeconómico da família(Braungart-Rieker, Courtmey, & Garwood,
1999; Chase-Lansdale & Owen, 1987; Rooparine, Fouts, Lamb, & Lewis-
Elligan, 2005; Volling & Belsky, 1992). Fuertes, Faria, Soares e Crittenden
(2008) referem que esta condição pode ter um poderoso impacto na qualidade da
interação mãe-filho(a), ainda maior que a prematuridade ou problemas de saúde.
Possivelmente, porque a condição de pobreza está associada a várias
adversidades como a baixa escolaridade, problemas de saúde, desemprego e
outras.
No que concerne à escolaridade dos pais (pais e mães)verifica-se que o aumento
de anos de escolaridade dos pais está associado a relações seguras (Pederson
& Moran, 1996). As mães com mais anos de escolaridade são tendencialmente
mais sensíveis e perspicazes em interpretar os sinais emitidos pela criança
(Fuertes, Faria, Oliveira-Costa, Corval, & Figueiredo, 2009), dedicam mais
tempo a cuidar e a brincar com os filhos (Pederson, Gleason, Moran, &
Bento, 1998), tendem a ser mais rápidas e eficientes nas respostas prestadas às
solicitações das crianças (Silva, Del Prette, & Del Prette, 2002). Por
outro lado, as mães com menos anos de escolaridade podem ser mais controladoras
interferindo com maior frequência nas ações das crianças (Silva et al., 2002).
Nesta revisão não exaustiva dos fatores que podem condicionar o comportamento
dos pais verificamos que fatores ligados à família como a relação marital, a
satisfação profissional, o nível sócioeconómico ou a escolaridade das mães
contribuem para a parentalidade em geral e para a qualidade da vinculação.
Igualmente, fatores associados aos pais como a depressão, a idade das mães
(especialmente mães adolescentes; e.g., Moran, Forbes, Evans, Tarabulsy, &
Madigan, 2008), fatores associados à criança como a prematuridade (e.g.,
Fuertes, Lopes dos Santos, Beeghly, & Tronick, 2006, 2009), problemas
graves de saúde ou alguns tipos de incapacidade podem contribuir para a
diferenciação (e.g., Olrick, Pianta, & Marvin, 2002) da parentalidade e o
aumento da prevalência da vinculação insegura (ver revisão em Lopes dos Santos
& Fuertes, 2005). Em síntese, a parentalidade é o produto das relações
estabelecidas no seio da família e da ecologia de multi-influências que a
afetam e, a parentalidade é o contexto onde as relações da vinculação se
estabelecem.
DISCUSSÃO FINAL
Nos últimos anos os investigadores e desenvolvimentalistas tomaram em conta o
facto da família ser um sistema no qual todos contribuem para a sua homeostasia
(incluindo o pai). Um vasto corpo de literatura indica que o papel do pai ou da
mãe, não pode ser apenas explicado pela atuação direta com a criança (revisão
em George & Solomon, 2008; Monteiro & Veríssimo, 2010). Com efeito, a
relação conjugal, suporte formal e informal dado à família bem como fatores
pessoais e sociais são importantes mediadores e moderadores da sensibilidade
dos adultos.
Para além dos dados da vinculação em que se encontram diferenças entre pais e
mães (ainda por explicar), a literatura tem caraterizado as mães e os pais como
parceiros distintos de interação. Geiger (1996) refere que as mães usam com
maior frequência o contacto físico, as demonstrações afetivas explícitas e a
verbalização nas interações com os filhos, enquanto as interações pais-filhos
revestem-se tipicamente de brincadeiras emocionantes, divertidas, robustas e
fisicamente estimulantes (Clarke-Stewart, 1978; Crawley & Sherrod, 1984;
Lamb, 1977). Os pais foram descritos como mais assertivos (Leaper, 2000) e
menos responsivos aos desejos dos filhos (Power, 1985; Power & Parke,
1983). Na comunicação, os pais parecem ser mais diretos quando pedem algo aos
filhos (e.g., dá-me o carro), enquanto as mães optam pela negociação(e.g., se
comeres tudo deixo-te ver televisão), pelo afeto(e.g., querido dás a mão à
mamã?) ou pela justificação(e.g., come tudo para poderes ir brincar mais
depressa) (Power, McGrath, Hughes, & Manire, 1994). Não obstante, os papéis
maternos e paternos estão em mudança, com a alteração do papel da mulher na
sociedade ocidental e os dados que tipificam os papéis maternos e paternos
podem vir a ganhar novos contornos (Biller, 1993; Lamb 1992; Parke, 1996; Prado
& Vieira, 2003). Desta alteração de papéis, especulamos que resultem
mudanças para a parentalidade e para a qualidade interativa dos pais, e
subsequentemente para a qualidade da vinculação.
Numa pequena investigação exploratória desenvolvida em Portugal (Alves,
Fuertes, & Sousa, 2014, in press) com as mães e pais de crianças com 15
meses, as mães exibiam quase cerca de 5 vezes mais comportamentos verbais
(significando, expandindo e reelaborando as verbalizações da criança), o dobro
do toque e dos comportamentos afetivos. Os pais, por seu lado, seguiram com
maior frequência os interesses da criança e aceitaram mais as suas escolhas de
atividade (ao contrário do descrito anteriormente na literatura). Na Alemanha,
um grupo de investigadores na área da educação de infância quis estudar se o
género tinha impacto na qualidade de interação de educadores e de educadoras
com as crianças (Brandes, Andra, Roseler, & Schneider-Andrich, 2012).
Educadores e educadoras (com a mesma experiência e formação profissional) eram
convidados a brincarem em laboratório com crianças entre os 3 e os 6 anos. Os
resultados indicaram que os educadores e educadoras escolheram os mesmos
materiais e desenvolveram com as crianças projetos semelhantes. Na verdade, não
se encontraram diferenças significativas entre estes profissionais. Os autores
sugerem que a formação profissional teria um papel dissuasor das diferenças de
género, considerando que elas se devem mais a fatores sociais e culturalmente
"aprendidos".
Colocam-se, naturalmente, questões metodológicas que importam ainda discutir
especialmente no seio da Situação Estranha. Alguns estudos aplicam o
procedimento experimental aos 12 meses com um dos pais e com o outro passados
13 meses, quando não está demonstrado que a criança não recorde (ao longo da
segunda situação experimental) a experiência prévia vivida um mês antes.
Noutros estudos são usadas amostras independentes e ainda outros recorrem a
pequenas adaptações da Situação Estranha com maior ou menor validação. Esta
diversidade metodológica no seio da Situação Estranha pode contribuir para o
conhecimento da vinculação em diversas condições. Com efeito, a maioria dos
estudos independentemente da metodologia aplicada indicam diferenças na
vinculação à mãe e ao pai mas não em todos. Porém, para acumular um corpo de
conhecimento robusto e consistente que nos permita avançar para fases mais
complexas de análise, por ventura serão necessárias novas reformulações
metodológicas capazes de responder às limitações atuais.
Nos estudos das interações pais-criança a diversidade metodológica é enorme
partindo de conceitos e construtos distintos, recolhida em situações
laboratoriais, de jogo livre ou em contexto natural, e com sistemas de cotação
muito diversos. Faria, Lopes-dos-Santos, Beeghly e Fuertes (in press)
questionam a adequação destes sistemas de cotação para avaliar a relação pai-
filho que foram desenvolvidos originalmente a partir de observações da relação
mãe-filho. Não sabemos se estas escalas integram a diversidade de
comportamentos dos pais com as crianças e das crianças com os pais.
A investigação da vinculação com o pai e com a mãe tem, entre outros, o mérito
de indicar que a mesma criança pode estabelecer uma relação segura com um pai e
insegura com outro pai, comprovando a flexibilidade e labilidade da organização
dos processos de vinculação prevista por Bowbly (1969/1982). Para os
profissionais da intervenção precoce esta é também uma informação valiosa! Os
técnicos não devem, apenas, recolher informação sobre a relação mãe-filho mas
também pai-filho. Mais, com base nos estudos desenvolvidos por Veríssimo,
Monteiro e Santos (2006) devem observar e descrever o funcionamento da tríade
(pai e mãe em interação conjunta com a criança).
Longe de encontrarmos respostas, ficam perguntas que podem estimular novos
estudos: Em que medida as diferenças da vinculação associadas ao género dos
pais são afetadas pela cultura? Em que medida os fatores de risco afetam a
vinculação com o pai e a interação pai-filho? Qual a natureza específica das
relações e interações entre pais com as filhas e com os filhos?