Protótipos de vinculação amorosa: Bem-estar psicológico e psicopatologia em
jovens de famílias intactas e divorciadas
INTRODUÇÃO
O estabelecimento de relações de qualidade com as figuras primárias de cuidado
nos primeiros anos de vida constitui um fator fundamental para o
desenvolvimento físico e emocional de crianças e jovens (e.g., Ainsworth, 1989;
Bowlby, 1988). Neste sentido, os indivíduos desde logo percecionam as figuras
primordiais como figuras afetivas que lhes transmitem segurança, proteção e
confiança para a exploração de si, dos outros e do meio. Deste modo, jovens com
uma vinculação segura constroem representações positivas de si, enquanto
merecedores de amor e atenção, partindo da avaliação dos outros baseadas na
confiança e segurança que figuras significativas de afeto lhes proporcionaram
(Bowlby, 1973). Nesta medida, as relações que o indivíduo vai estabelecendo ao
longo do seu desenvolvimento, com as figuras significativas, desencadeiam a
organização dos modelos internos dinâmicos. Estes funcionam como mapas
cognitivos que o indivíduo vai elaborando acerca de si e do seu comportamento,
bem como daqueles que estão à sua volta (Bowlby, 1988). Ao longo processo
desenvolvimental, os modelos internos dinâmicos funcionam como esquemas
afetivos, cuja ativação influencia as escolhas pessoais dos indivíduos (Holmes,
1993).
Assim, embora os modelos internos dinâmicos se desenvolvam desde muito cedo,
eles não são estáticos, pelo que proporcionam a adaptação do indivíduo às
diferentes circunstâncias com os quais se vai confrontando, permitindo a
reorganização dos mesmos ao longo de períodos como a infância e especialmente
na adolescência (Bowlby, 1973). De acordo com Ainsworth (1989) durante a
adolescência ocorrem alterações significativas nos jovens potenciando o
desenvolvimento de relações próximas, intensas e íntimas com os pares, ainda
que na base destas novas relações estejam implícitos os padrões de vinculação
estabelecidos com as figuras primordiais. Nesta fase, os jovens tendem a
distanciar-se das figuras de vinculação primordiais estabelecendo novos laços
com os pares amigos e pares amorosos. Estas novas figuras constituem um
importante fator de crescimento pessoal pela identificação, similaridade e
partilha das mesmas vivências. Os pares e parceiros amorosos, na adolescência e
jovem adultícia, são considerados portos seguros enquanto promotores de apoio e
conforto, ainda que detenham maior labilidade e resolução não efetiva das
necessidades de ajuda comparativamente com as figuras primordiais de afeto
(Bowlby, 1958). O desenvolvimento de relações românticas na adolescência, para
além de fomentarem o desenvolvimento individual e a formação da identidade,
permitem o desenvolvimento de relações de harmonia e apoio na adaptação do
indivíduo perante possíveis mudanças que possam acontecer na família. Nesta
medida servem, também, para satisfazerem necessidades afetivas, podendo
desempenhar um papel preponderante no processo de desenvolvimento dos jovens
(Collins, Welsh, & Furman, 2009). O estudo de Doyle, Lawford e Markiewicz
(2009), que compreendeu uma amostra de 374 adolescentes, revelou que as
raparigas denotam maior vontade de proximidade no que concerne ao
desenvolvimento de relações românticas, no entanto comparativamente com os
rapazes descrevem mais resistência em confiar e depender do seu parceiro com
medo de sofrerem na relação. Neste sentido, o estabelecimento de
relacionamentos amorosos no período da adolescência decorrem num contexto vasto
e complexo de importantes transformações desenvolvimentais, assumindo um papel
de grande importância no curso do processo desenvolvimental (Matos, 2006).
No âmbito desta abordagem, e partindo de ideologias traçadas por Bowlby (1969,
1973, 1980), Ainsworth (1989), Main, reportando-se ainda na linha de Hazan e
Shaver (1994) (sob o ponto de vista das relações amorosas), Bartholomew (1990;
Bartholomew & Horowitz, 1991) debruça-se nesta tarefa de análise
desenvolvimental do jovem e do adulto, propondo um modelo organizado em função
da positividade e negatividade das tipologias latentes em torno do modelo de si
próprio e do outro. Nesta questão, a autora apela aos modelos internos
dinâmicos que se enredam na expectativa acerca do selfe da disponibilidade dos
outros. Distingue-se dos demais autores por desenvolver um ponto de vista
mediante protótipos. Assim, Bartholomew (1990; Bartholomew & Horowitz,
1991) descreve as representações do selfe as representações dos outros em
função de quatro protótipos de vinculação e regulação emocional, a salientar:
Seguro [Secure], Preocupado [Preoccupied], Desinvestido [Dismissing] e
Amedrontado [Fearful].
Neste sentido, de acordo com o modelo de Bartholomew (1990; Bartholomew &
Horowitz, 1991) o protótipo seguro refere-se aos indivíduos que desenvolvem
representações positivas de si e dos outros, permitindo-lhes confiar e
envolverem-se não apenas com os que lhe são mais próximos, como desenvolver
laços afetivos com os outros. Percecionam os eventos presentes e passados como
situações que fomentam a aprendizagem e o conhecimento, procuram apoio nos
outros em momentos de stresse, são sociáveis e estabelecem relações
caracterizadas pelo envolvimento e intimidade. O protótipo preocupado diz
respeito aos indivíduos que desenvolvem representações negativas de si e
positivas dos outros. As suas relações são caracterizadas por uma excessiva
procura de proximidade, elevada necessidade de atenção, falta de autoestima e
autoconfiança, as separações geram uma ansiedade excessiva, precisam dos outros
para resolverem os seus problemas e percecionam a vida amorosa como um aspeto
nuclear nas suas vidas, embora adotando comportamentos extremos na relação. O
protótipo desinvestido manifesta uma represen tação positiva de si, contudo
negativa do outro. Não valoriza as relações pessoais, transparece uma aparente
alexitimia nos comportamentos, manifesta pouco envolvimento e proximidade
emocional nas suas relações, avalia os outros como tendo uma imagem negativa de
si, apresenta uma moderada a elevada autoconfiança, não procura proximidade nem
reage à separação, para resolver os seus problemas usa como estratégia o
evitamento e a resistência. Por fim, o protótipo amedrontado caracteriza os
indivíduos que desenvolvem representações negativas de si e dos outros. São
indivíduos inseguros e vulneráveis, denotam vontade de proximidade, embora
evitem as relações mais próximas com medo da rejeição, estabelecem relações de
intimidade por iniciativa do outro, no entanto com o passar do tempo tornam-se
dependentes na relação. Na tentativa de resolverem os seus problemas, estes
indivíduos não procuram ajuda nos outros e permanecem à volta do problema
(Bartholomew, 1990; Bartholomew & Horowitz, 1991). Assim, parece que o
indivíduo constrói e desenvolve a sua identidade, bem como a perceção do outro
com base na representação da imagem que as figuras primordiais lhes
transmitiram acerca de si e do ambiente, repercutindo-se no seu modo de
funcionamento e bem-estar psicológico. A manutenção dos estilos de vinculação
ao longo do processo desenvolvimental pode ser influenciada por fatores
contextuais como o divórcio parental. Neste sentido, de acordo com Lewis,
Feiring e Rosenthal (2000) o divórcio experienciado ao longo do processo
desenvolvimental encontra-se relacionado com a descontinuidade na jovem
adultícia do estilo de vinculação segura estabelecido na primeira infância. O
divórcio compromete a disponibilidade parental, favorecendo o aumento de
interações negativas entre pais e filhos, promovendo assim o estabelecimento de
uma vinculação insegura. Lewis, Feiring e Rosenthal (2000) realizaram um estudo
longitudinal que contou com uma amostra de 84 indivíduos. Os mesmos foram
avaliados aos 12 meses de vida, 13 e 18 anos, tendo 14% da amostra
experienciado o divórcio parental após o primeiro ano de vida. Os resultados
mostraram que a vinculação segura estabelecida no primeiro ano de vida não se
apresentou como uma variável protetora face aos efeitos do divórcio, uma vez
que na jovem adultícia tratavam-se de indivíduos que desenvolveram um estilo de
vinculação insegura. No mesmo estudo constataram que mais do que o estilo de
vinculação estabelecido no primeiro ano de vida, o divórcio constitui-se como
preditor do desajustamento na jovem adultícia. Assim, o presente estudo
procurou analisar a organização desta construção de protótipos de vinculação
numa amostra de adolescentes e jovens adultos provenientes de diferentes
configurações familiares, enfatizando a discussão em torno da existência ou
inexistência de diferenças entre as famílias tradicionais e divorciadas. Deste
modo é sabido que, o divórcio é um acontecimento passível de ocorrer no ciclo
vital familiar, podendo afetar quer a sua estrutura, quer a dinâmica das
relações entre os elementos que a compõem (Cano, Gabarra, Moré, & Crepaldi,
2009). Os dados mais recentes do número de divórcios em Portugal apontam para
um aumento dos mesmos, onde 70% dos casais divorciados tinham pelo menos um
filho, e 56,1% compreendiam idades a partir dos 10 anos (INE, 2010).
As experiências relacionais dos indivíduos ao longo do seu processo
desenvolvimental encontram-se associadas ao ajustamento e bem-estar psicológico
dos mesmos. O estilo de vinculação estabelecido com as figuras significativas
de afeto pode promover, ou dificultar o desenvolvimento de competências e
estratégias de regulação emocional dos indivíduos (Mikulincer & Shaver,
2007; Soares & Dias, 2007). Deste modo, indivíduos que desenvolvem
protótipos de vinculação segura, ao longo do seu processo desenvolvimental,
tendem a desenvolver competências interpessoais e padrões comportamentais,
cognitivos e emocionais que lhes permite responderem adequadamente às
exigências do quotidiano, funcionando como fator protetor face ao
desenvolvimento de perturbações psicológicas (Davis, Shaver, & Vernon,
2003; Mikulincer & Shaver, 2007). Por sua vez, a insegurança desenvolvida a
partir do estabelecimento de experiências relacionais insatisfatórias levam os
sujeitos a percecionarem os outros como instáveis e incapazes de lhes
proporcionarem suporte emocional, repercutindo-se na sua capacidade de
autorregulação emocional e na procura de apoio podendo levar ao desenvolvimento
de psicopatologia (Dozier, Stovall-McCough, & Albus, 2008). De acordo com
Zeifman e Hazan (2008) em momentos de distressou fragilidade os indivíduos
tendem a procurar apoio e proteção em figuras capazes de os auxiliarem na sua
reorganização psicológica. Neste sentido, o desenvolvimento de relações
românticas podem promover o bem-estar e equilíbrio emocional dos jovens
proporcionando-lhes aprendizagens e o desenvolvimento de estratégias para lidar
com as adversidades, sentimentos de aceitação, estima e felicidade (Pinto,
2009). Com o presente estudo pretendemos averiguar a presença de eventuais
diferenças dos protótipos de vinculação tendo em conta a configuração familiar
da qual os indivíduos provêm, bem como analisar em que medida o bem-estar
psicológico e o desenvolvimento de psicopatologia diferem em função dos
protótipos de vinculação dos sujeitos no período da adolescência e jovem
adultícia.
Objetivos
Este estudo objetiva analisar diferenças dos protótipos de vinculação, criados
à luz dos pressupostos de Bartholomew, em função da idade, género, configuração
familiar, bem-estar psicológico e psicopatologia, em jovens provenientes de
famílias intactas e divorciadas.
Hipóteses
Espera-se que os protótipos de vinculação apresentem diferenças significativas
face à configuração familiar, género e idade. Espera-se ainda que os protótipos
de vinculação apresentem diferenças significativas face ao bem-estar
psicológico e psicopatologia.
MÉTODO
Participantes
O estudo contou com a participação de 334 indivíduos com idades compreendidas
entre os 13 e os 25 anos (M=18.51; DP=3.25). No que respeita à configuração
familiar, 215 (64.4%) dos participantes provinham de famílias intactas ou em
união de facto, sendo que 119 (35.6%) eram procedentes de famílias separadas ou
divorciadas. Da totalidade de participantes, 249 (74.6%) contemplaram o género
feminino, enquanto 85 (25.4%) respeitaram ao género masculino. Os participantes
compreendiam habilitações entre o 7º ano (3º ciclo) e o ensino superior
(mestrado), denotando em média o ensino médio enquanto habilitações literárias
(M=11.37; DP=2.04). Todos os jovens que constituem o presente estudo mantêm uma
relação amorosa considerada pelos mesmos como estável, uma vez que 103 mantêm
uma relação com duração até 6 meses (31.6%), 53 conservam a relação amorosa
entre 6 a 12 meses (16.3%), 97 indivíduos detêm uma relação amorosa com duração
entre 1 a 3 anos (29.8%), sendo que 73 mantêm uma relação amorosa com duração
superior a 3 anos (22.4%).
Instrumentos
Dados demográficos -Na recolha de dados foi usado um questionário
sociodemográfico composto por um conjunto de questões que dizem respeito ao
indivíduo, como a idade, género, ano de escolaridade; relativas à
caracterização da sua família, dados referentes aos pais e à configuração
familiar. No caso de se tratar de indivíduos provenientes de famílias separadas
ou divorciadas acresceram questões respeitantes ao processo de divórcio.
Qualidade da vinculação amorosa -Foi utilizado o Questionário de
Vinculação Amorosa (QVA), validado para a população portuguesa por Matos,
Barbosa e Costa (2001) tratando-se da versão reduzida de 25 itens distribuídos
por 4 fatores sendo o primeiro a Dependência (6 itens), Confiança (6 itens),
Evitamento (6 itens) a Ambivalência (7 itens). A resposta aos itens é feita
numa escala tipo Likertde 6 pontos desde 1 (Discordo Totalmente) até 6
(Concordo Totalmente). A análise de consistência interna demonstrou valores de
alphade Cronbachde .66 para a totalidade do instrumento, apresentando no que se
refere às dimensões que o compõem valores de alphade .87 para a Confiança, .78
para a Dependência , .83 para o Evitamento e, .84 para a Ambivalência. A
análise fatorial confirmatória verificou que o QVA apresenta um ajustamento
adequado (CFI=.96; AGFI=.88; GFI=.95; RMR=.09; RMSEA=.08).
Bem-estar psicológico -Foi utilizada a Escala de Bem-estar Psicológico
(BEP) traduzida e adaptada para a população portuguesa por Monteiro, Tavares e
Pereira (2006) a partir da versão original da Échelle de Mesure des
Manifestations du Bien-Être Psychologiquede Massé, Poulin, Dassa, Lambert e
Battaglini (1998). Trata-se de uma escala de autorrelato composta por um total
de 25 itens distribuídos por 6 escalas que avaliam fatores como: Autoestima,
Equilíbrio, Envolvimento Social, Sociabilidade, Controlo de Si e Acontecimentos
e Felicidade. A resposta aos itens é efetuada numa escala tipo Likertque varia
de 1 (Nunca) a 5 (Quase Sempre). A análise de consistência interna demonstrou
valores de alphade Cronbachde .93 para a totalidade do instrumento. No que se
refere à consistência interna de cada dimensão, registaram-se valores de
alphade .86 para a Felicidade, .80 para a Sociabilidade e Envolvimento Social,
.75 para o Controlo de Si, Acontecimentos e Equilíbrio, e .85 para a
Autoestima. A análise fatorial confirmatória do BEP apresentou valores de
ajustamento adequados (CFI=.95; AGFI=.88; GFI=.94; RMR=.02; RMSEA=.08).
Psicopatologia -Foi utilizada a versão portuguesa do "Brief Symptom
Inventory - B.S.I." (Derogatis, 1982), validado para a população
portuguesa por Canavarro (1999), consiste num instrumento de autorrelato que
avalia sintomas psicopatológicos numa escala de tipo Likertque oscila entre 0
("Nunca") e 4 ("Muitíssimas vezes") num total de oito
dimensões, Somatização, Obsessões-Compulsões, Sensibilidade Interpessoal,
Depressão, Ansiedade, Hostilidade, Ideação Paranóide/psicoticismo e Ansiedade
Fóbica. A análise de consistência interna demonstrou valores de alphade
Cronbachde .97 para a totalidade do instrumento. No que concerne a cada
dimensão observaram-se valores de alphade .85 para a Somatização, .82 para
Obsessões-compulsões, .82 para a Sensibilidade Interpessoal, .88 para a
Depressão, .80 para a Ansiedade, .81 para a Hostilidade, .89 para a Ideação
Paranóide e Psicoticismo, e .75 para a Ansiedade Fóbica. A análise fatorial
confirmatória apresentou índices de ajustamento adequados (CFI=.94; AGFI=.82;
GFI=.87; RMR=.03; RMSEA=.07).
Procedimento
Numa primeira fase foram selecionadas instituições de ensino secundário e do
ensino superior da região interior norte de Portugal, posteriormente foram
solicitadas as devidas autorizações para a recolha dos dados. A recolha da
amostra foi aleatória entre os jovens embora houvesse, por conveniência, um
recurso aos estabelecimentos de ensino secundário e superior, no sentido de
realizar um maior controlo da faixa etária dos jovens. O preenchimento
institucional decorreu em salas de aula, na presença do investigador
responsável, tendo sido totalmente assegurados o anonimato, a voluntariedade de
participação e confidencialidade dos dados. O consentimento para o uso dos
dados foi oficializado através de um consentimento informado assinado pelos
participantes ou responsáveis legais no caso de se tratar de menores de idade.
Procedeu-se à inversão dos questionários de autorrelato, com a finalidade de
evitar enviesamentos nas respostas devido ao fator cansaço. Tratando-se de um
estudo de natureza transversal a recolha de dados foi realizada no período
entre Dezembro de 2011 e Março de 2012, em 6 escolas secundárias nas turmas do
7º ao 12º ano, em turmas de cursos superiores da Universidade de Trás-os-Montes
e Alto Douro (UTAD), bem como de forma aleatória na população em geral da
região norte do país, sendo apenas controlado o fator idade.
No que se refere ao tratamento dos dados, primeiramente procedeu-se à análise
com base no programa estatístico (Statistical Package for the Social Sciences)
-SPSS versão 17. Na continuidade foi testada a normalidade da
distribuição dos dados a partir do teste de Kolmogorov-Smirnov, gráficos de
Histogramas, Q-Q Plots, Scatterplotse Boxplotsuma vez que os mesmos
providenciam informação acerca da distribuição dos dados (Pallant, 2001).
Foram, igualmente, calculadas as medidas de assimetria (skeweness) e
achatamento (kurtosis) dos dados dos elementos da amostra em torno da média (-
1 e 1) garantindo a normalidade da amostra (Marôco, 2007).
RESULTADOS
Com o intuito de se realizarem analises diferenciais face às variáveis
sociodemográficas, bem-estar psicológico e psicopatologia, numa primeira fase
procedeu-se à determinação dos protótipos de vinculação, considerando o modelo
bidimensional preconizado por Bartholomew (Bartholomew, 1990; Bartholomew &
Horowitz, 1991). Neste sentido, pretendeu-se verificar em que medida as
dimensões respeitantes à qualidade da vinculação amorosa (QVA) se organizaram
em torno dos quatro protótipos de vinculação de Bartholomew: seguro,
preocupado, desinvestido e amedrontado, tendo-se realizado para o efeito uma
análise de clusters. De acordo com Marôco (2007), a análise de clustersé um
método exploratório de análise multivariada através da qual é passível agrupar
sujeitos, ou variáveis, em grupos homogéneos de acordo com uma ou mais
características que os mesmos detêm em comum. Neste sentido, a agregação dos
indivíduos foi distribuída a 4 clusters, de modo a que cada um correspondesse a
um protótipo de vinculação. A paridade entre participantes, de modo a serem
agrupados num grupo homogéneo, foi medida a partir da Euclidean Distance,tendo-
se utilizado a combinação do método hierárquico e não-hierárquico, de modo a
retirar benefícios de ambos. O método hierárquico (K-Means) permitiu determinar
os centróides, por sua vez o método não-hierarquico (K-Means) serviu como
primeiro ponto para a criação dos clusters(Hair, Aderson, Tatham, & Black,
1998).
Assim, determinou-se como primeiro protótipoo protótipo seguro, uma vez que
agrupou sujeitos que aduzem elevada confiança em si e nos outros, pouca
dependência e evitamento e baixa ambivalência relativamente aos outros. Neste
protótipo enquadraram-se 88 sujeitos (26.3%). O segundo protótipoobtido refere-
se ao protótipo preocupado, pelo facto de abarcar sujeitos que denotam
confiança e dependência em si e nos demais, evidenciando um baixo evitamento e
ambivalência face ao outro. Neste protótipo enquadraram-se 103 sujeitos
(30.8%). Por sua vez, determinou-se como terceiro protótipoo protótipo
amedrontado, pelo facto de abranger sujeitos que evidenciam pouca confiança em
si e nos demais, ligeira dependência e evitamento e baixa ambivalência face aos
outros. Verificou-se que 84 sujeitos (25.1%) se caracterizaram como
amedrontados. Por fim, considerou-se o quarto protótipocomo respeitante ao
protótipo desinvestido, uma vez que compreende indivíduos que evidenciam
elevada confiança em si, ainda que pouca confiança nos demais, pouca
dependência, alto evitamento e ambivalência média na sua relação com os outros.
Enquadraram-se neste protótipo 59 sujeitos (17.7%) (Figura_1).
Associações entre qualidade da vinculação ao par amoroso, bem-estar
psicológico, e psicopatologia
Os resultados iniciam com a apresentação das associações entre as dimensões dos
instrumentos em estudo respeitantes às variáveis qualidade da relação amorosa,
bem-estar psicológico e psicopatologia, tendo-se realizado para o efeito
correlações de Pearson(Tabela_1).
Análises diferenciais nos protótipos de vinculação em função das variáveis
idade, género e configuração familiar
Criados os protótipos de vinculação, pretendeu-se averiguar diferenças dos
mesmos face às variáveis idade, géneroe configuração familiardos adolescentes e
jovens adultos. Para o efeito, realizou-se uma análise univariada (ANOVA)
relativamente à idade e análises de Qui-Quadrado concernentes ao género e
configuração familiar.
No que se refere à idadeconstatam-se diferenças significativas F(3,330)=3.02,
p=.03; η2=.71 face aos diferentes protótipos de vinculação. Contudo, quando
analisadas as diferenças de idades entre os diferentes protótipos de
vinculação, de acordo com testes post-hoc, não se registam diferenças
significativas.
Relativamente ao géneroverificam-se diferenças significativas χ2(3)=29.377,
p<.001, onde os indivíduos do género feminino se enquadram maioritariamente nos
protótipos seguro (22.5%), amedrontado (19.5%) e preocupado (24.3%), tendo-se
enquadrado menos no protótipo desinvestido (8.4%). Sendo que os indivíduos do
género masculino enquadram-se maioritariamente no protótipo desinvestido
(9.3%), enquadrando-se menos nos protótipos seguro (3.9%), amedrontado (5.7%) e
preocupado (6.6%) comparativamente ao género feminino. Por fim, no que concerne
à configuração familiar não se registam diferenças significativas χ2(3)=5.606,
p<.05. No que se refere à configuração casados/juntos 18.6% dos indivíduos
correspondiam ao protótipo seguro, 21.3% ao protótipo preocupado, 14.1% ao
protótipo amedrontado e 10.5% ao protótipo desinvestido. Relativamente à
configuração separados/divorciados 7.8% dos indivíduos respeitaram ao protótipo
seguro, 9.6% ao protótipo preocupado, 11.1% ao protótipo amedrontado, e 7.2% ao
protótipo desinvestido.
Análises diferenciais dos protótipos de vinculação em função das variáveis bem-
estar psicológico e psicopatologia
Foram realizadas análises multivariadas (MANOVAS) com o intuito de analisar
diferenças nos protótipos de vinculaçãoface às variáveis do bem-estar
psicológicoe psicopatologia.As comparações múltiplas entre os grupos foram
realizadas a partir de testes post-hoctendo-se utilizado o teste de Scheffé
(1953).
No que se refere ao bem-estar psicológico os resultados não revelam a
existência de diferenças significativas F(12,984)=1.33, p=.197; η2=.75.
No que concerne à psicopatologia verificam-se diferenças significativas nos
protótipos de vinculação F(24,969)=2.22, p=.001; η2=1. Destacam-se diferenças
significativas na variável somatização onde os indivíduos seguros denotam menos
somatização comparativamente com os indivíduos desinvestidos. Verificam-se,
igualmente, diferenças significativas na variável obsessões-compulsões F
(3,28)=3.64, p=.013; η2=.80, que mostram que os indivíduos seguros revelam
menos obsessões-compulsões, comparativamente com os indivíduos preocupados.
Também se constatam diferenças significativas na variável sensibilidade
interpessoal F(3,28)=5.15, p=.002; η2=.92 onde os indivíduos seguros denotam
menos sensibilidade interpessoal, comparativamente com os indivíduos
preocupados , amedrontados e desinvestidos. Diferenças significativas são
observadas na variável depressão F(3,28)=10.91, p=.000; η2=1, que indicam que
os indivíduos preocupados, amedrontados e desinvestidos, revelam mais
sintomatologia depressiva, comparativamente com os indivíduos seguros. A
variável ansiedade revela igualmente diferenças significativas F(3,28)=3.41,
p=.018; η2=.77, onde se constata que os indivíduos preocupados evidenciam
maiores níveis de ansiedade, comparativamente com os indivíduos seguros.
Diferenças significativas são registadas na variável hostilidade F(3,28)=4.95,
p=.002; η2=.91, que evidenciam que os indivíduos preocupados, amedrontados e
desinvestidos denotam mais hostilidade, comparativamente com os indivíduos
seguros. A variável ideação paranoide e psicoticismo revela, também, a
existência de diferenças significativas F(3,28)=8.43, p=.000; η2=1, uma vez que
os indivíduos preocupados, amedrontados e desinvestidos aduzem mais ideação
paranoide e psicoticismo, comparativamente com os indivíduos seguros. Por fim,
verificam-se diferenças significativas na variável ansiedade fóbica F
(3,28)=3.28, p=.021; η2=.75, que constatam que os indivíduos desinvestidos
indicam maiores níveis de ansiedade fóbica, comparativamente com os indivíduos,
seguros (Tabela_2).
DISCUSSÃO
O presente estudo teve como principal pressuposto analisar em que medida os
indivíduos distribuídos pelos diferentes protótipos de vinculação apresentam
diferenças no que concerne ao género, idade e configuração familiar, assim como
diferenças no bem-estar psicológico e desenvolvimento de psicopatologia. A
construção dos protótipos de vinculação apresenta uma proporção que tem vindo a
ser verificada em estudos similares na população portuguesa havendo uma maior
incidência nos protótipos seguros, preocupados e amedrontados em detrimento do
protótipo desinvestido (e.g., Barbosa, 2008; Mota, 2008; Rocha, 2008).
Na sequência da criação de protótipos de vinculação foram realizadas análises
diferenciais, tendo em conta variáveis sociodemográficas, bem-estar e
psicopatologia. No que respeita às análises dos protótipos de vinculação face à
idade, ainda que os resultados tenham apontado para a existência de diferenças
significativas, os testes post-hocnão sublinharam a existência de diferenças de
idade face aos quatros protótipos de vinculação. Rocha (2008) corrobora esta
ideia, dado que no seu estudo realizado com 627 jovens com idades entre os 13 e
os 23 anos, com o objetivo de estudar a articulação entre vinculação ao
parceiro amoroso e influencia dos acontecimentos de vida, tipo de escola, idade
e género na vinculação, não revelou diferenças significativas. Contudo, a
existência de diferenças significativas seria expectável, uma vez que a duração
e estabilidade das relações, também, poderiam ser afetadas pela idade dos
jovens. De acordo com o estudo de Barbosa (2008) que teve como objetivo
explorar as relações entre vinculação aos pais, pares e par romântico e as
vivências corporais numa amostra de 690 adolescentes e jovens adultos com
idades compreendidas entre os 15 e os 23 anos, foi verificado que os indivíduos
mais velhos, enquadravam-se maioritariamente no protótipo seguro, enquanto os
mais novos enquadravam-se nos protótipos desinvestido, amedrontado e
preocupado. No mesmo estudo percebeu-se existir uma relação entre o protótipo
seguro e a duração da relação amorosa, uma vez que os indivíduos seguros
mantinham relações duradouras, enquanto os mais inseguros mantinham relações
amorosas com duração inferior a 6 meses.
Todavia na presente amostra o mesmo não foi verificado, pelo que face a este
resultado parece que os protótipos de vinculação amorosa não parecem variar em
detrimento das faixas etárias em que os jovens se encontram. O primeiro estudo
foi realizado recorrendo apenas ao instrumento da qualidade da vinculação
amorosa - QVA, já o segundo estudo foi realizado recorrendo a 3
instrumentos: QVPM - Qualidade da Vinculação ao Pai e Mãe; QVA -
Qualidade de Vinculação Amorosa; e IPPA - Inventory of Peer and Parents
Attachment. Nesta medida, julgamos que as diferenças poderão não estar
relacionadas com os instrumentos, mas com a amostra em estudo. Lembramos que o
interesse do estudo constitui precisamente compreender em que medida as
diferentes amostras se distribuem nos protótipos de vinculação.
Relativamente ao género, verifica-se predominância do género feminino nos
protótipos seguro, preocupado e amedrontado, enquanto no género masculino
prevalece o protótipo desinvestido. Estes resultados constituem um dado
interessante, no sentido que denotam a manutenção e compreensão da dinâmica
relacional e vivência afetiva dos diferentes géneros. Durante muito tempo a
literatura fez referência à universalidade no que respeita ao maior
desinvestimento do género nas relações amorosas, contudo estudos atuais relatam
tratar-se de uma questão cultural (Schmitt et al., 2003). De acordo com o
estudo de Schmitt et al. (2003) no mundo ocidental, comparativamente com as
mulheres, os homens continuam a evidenciar maior desinvestimento nas relações
amorosas. Os autores referem que as diferenças de género devem-se a questões
socioculturais uma vez que em países com elevada taxa de mortalidade, poucos
recursos económicos e níveis elevados de fertilidade não se registam
diferenças.
Neste sentido, julgamos que na presente amostra o género feminino poderá
revelar maior confiança, estando mais disponíveis para prestar, bem como
solicitar ajuda e tolerar a frustração, comparativamente ao género masculino,
contudo também se constitui na presente amostra um grupo de raparigas que se
apresentam como mais amedrontadas no que se refere às relações amorosas. Este
resultado vai de encontro aos estudos que têm vindo a ser realizados na
população portuguesa, em que as raparigas, tendencialmente, denotam maior
disponibilidade e investimento no que concerne às relações amorosas, situando-
se por isso mais no protótipo seguro e amedrontado, ao invés dos rapazes que
embora possam envolver-se e criar interesse nas relações, parecem ser mais
defensivos e distantes (Assunção & Matos, 2010; Cordeiro, 2012; Fachada,
2009; Rocha, 2008).
Fachada (2009) com o objetivo de compreender a experiencia emocional do toque
associada a questões da qualidade das relações românticas, numa amostra de 414
indivíduos com idades entre os 17 e os 25 anos, verificou que os indivíduos do
género feminino evidenciam maior confiança na relação amorosa, enquanto os
indivíduos do género masculino se mostraram mais evitantes. Resultados
similares foram encontrados no estudo de Assunção e Matos (2010) com o objetivo
de investigar a existência de variáveis mediadoras entre a vinculação parental
e amorosa nomeadamente a competência interpessoal e a tomada de perspetiva,
numa amostra de 322 adolescentes e jovens adultos com idades compreendidas
entre os 16 e os 25 anos. No mesmo foi verificado que enquanto as raparigas se
mostraram mais confiantes nas suas relações amorosas, os rapazes denotaram um
maior evitamento, ainda que tenham evidenciado também, uma maior dependência.
Contudo as autoras depreendem que a dependência possa estar associada à idade
em que iniciaram a relação, bem como pelo facto de se tratar de relações
amorosas de longa duração.
De acordo com Cordeiro (2012) as diferenças de género devem-se aos papéis
sociais incutidos desde cedo, pelo que o género feminino tende a manifestar
maior disponibilidade na resposta à vulnerabilidade do outro, enquanto o género
masculino é socializado com atividades mais voltadas para o domínio físico.
Contudo, no presente estudo foi verificado que, por um lado o género feminino
parece desenvolver protótipos seguros nas relações, pelo cariz de envolvimento
e procura de proximidade saudável, porém averiguamos, também, que poderá
existir um grupo significativo de raparigas mais amedrontadas, ressurtindo
insegurança e vulnerabilidade no contacto com o outro o que pode traduzir medo
de rejeição na relação. Por outro lado os rapazes enquadraram-se no protótipo
desinvestido reportando um comportamento afetivo mais racional e menos
emocional traduzido numa necessidade de fuga e evitamento ao sofrimento, que
muitas vezes o cariz das relações emocionais comporta.
O mesmo foi verificado no estudo de Rocha (2008) com o objetivo de estudar a
articulação entre vinculação ao parceiro amoroso e influencia dos
acontecimentos de vida, tipo de escola, idade e género na vinculação numa
amostra de 627 jovens com idades entre os 13 e os 23 anos. No mesmo, os
indivíduos do género masculino mostraram maior evitamento face ao
estabelecimento de relacionamentos amorosos, enquadrando-se maioritariamente no
protótipo desinvestido, enquanto o género feminino se mostrou mais seguro e
simultaneamente mais preocupado e amedrontado. De acordo com a autora, e
seguindo a linha de pensamento de outros autores referidos anteriormente, estes
resultados devem-se aos papéis socialmente e culturalmente esperados face ao
género. As raparigas evidenciam por um lado serem mais preocupadas,
desenvolvendo níveis mais elevados de ansiedade resultantes do medo de perda e
abandono do par amoroso por se tratar de uma situação socialmente mais
penalizadora para elas, por outro mostram-se mais amedrontadas no contacto com
o outro uma vez que é-lhes incutida a pertinência em manter um certo resguardo
e prudência face aos relacionamentos amorosos. Contrariamente, atitudes de
maior evitamento conferem aos rapazes a imagem de masculinidade permitindo-lhes
uma maior exploração e um maior reconhecimento no que respeita aos
relacionamentos amorosos.
Resultados semelhantes foram encontrados no estudo de Cordeiro (2012), com o
objetivo de estudar a relação entre os padrões de vinculação parental e amorosa
e o temperamento afetivo, numa amostra de 760 jovens adultos com uma média de
idades de 21,3 anos, no qual, indivíduos do género masculino revelaram maiores
níveis de evitamento face ao parceiro amoroso enquanto as raparigas se
mostraram mais confiantes e ambivalentes.
No que diz respeito à análise das diferenças dos protótipos de vinculação em
função da configuração familiar não se observaram diferenças significativas.
Este resultado torna-se revelador na medida em que, o presente estudo retrata
que a configuração familiar não é determinante na forma como os jovens
desenvolvem relações de vinculação. Ressalta que os padrões de vinculação
estabelecidos nos primeiros anos de vida relacionam-se, principalmente, com a
qualidade das relações entre pais e filhos, e não tanto com as diferentes
configurações que as famílias possam adotar, o que mais tarde se revê na
qualidade da vinculação desenvolvida nas relações amorosas. O mesmo foi
verificado no estudo de Sobral, Almeida e Costa (2010) com o objetivo de
analisar a compreensão da adaptação relacional dos jovens adultos, avaliando o
efeito da vinculação aos pais e par amoroso sobre o medo da intimidade e a
medida em que estes são influenciados pela experiência de divórcio parental,
numa mostra de 264 indivíduos entre os 18 e os 30 anos. As autoras não
encontraram diferenças na qualidade da vinculação amorosa em jovens
provenientes de famílias intactas e divorciadas, pelo que a estrutura familiar
parece não influenciar diretamente a qualidade da vinculação amorosa em jovens
adultos. Mota (2008) desenvolveu um estudo com o objetivo de estudar dimensões
relacionais capazes de mediar o processo de resiliência e adaptação
psicossocial em adolescentes inseridos em diferentes configurações familiares
numa amostra de 403 adolescentes com idades compreendidas entre os 14 e os 19
anos. No mesmo foi constatado que a configuração familiar, particularmente o
divórcio per se, não parece condicionar a qualidade da vinculação dos jovens
com outras figuras significativas ao longo do processo desenvolvimental.
De acordo com Atger (2004) indivíduos que percecionaram confiança e apoio nas
figuras primordiais de vinculação propendem a desenvolver personalidades mais
estáveis e confiantes para enfrentar o futuro, bem como face ao estabelecimento
e qualidade das novas relações desenvolvidas na adolescência. Um estudo
realizado por Zimmermann (2004) com uma amostra de 43 adolescentes revela que
existem evidências de que os padrões de vinculação, que se estabelecem durante
os primeiros anos de vida, são preditores dos comportamentos e da qualidade das
relações de grande proximidade que se estabelecem na adolescência. Neste
estudo, verificou-se uma forte associação entre o protótipo seguro de
vinculação e a qualidade e valorização do desenvolvimento de relações de grande
proximidade com os pares. Contrariamente, jovens com protótipos de vinculação
insegura tendem a mostrar-se mais resistentes, defensivos ou retractivos face
ao estabelecimento de relações de grande proximidade. Os estudos que incidem
nos efeitos das alterações familiares são uma mais-valia para sublinhar a
importância da manutenção dos vínculos entre pais e filhos uma vez que a
separação dos pais não pressupõe a separação destes para com os filhos. Nesta
medida, o estabelecimento de uma vinculação segura com os pais pode ser um
fator de resiliência nas dificuldades que os filhos possam sentir ao longo do
processo de divórcio dos pais (Ramires, 2004).
No que concerne à análise dos protótipos de vinculação face à variável bem-
estar psicológico, não se verificou a existência de diferenças significativas.
As mesmas seriam expectáveis uma vez que de acordo com a teoria da vinculação a
qualidade das relações estabelecidas ao longo do processo desenvolvimental
influenciam o desenvolvimento social e emocional dos indivíduos (Mikulincer
& Shaver, 2007; Soares & Dias, 2007). Neste sentido perante o resultado
obtido no presente estudo podemos estar perante uma amostra de sujeitos em que
os protótipos de vinculação estabelecidos no âmbito dos relacionamentos
amorosos parecem não ser determinante para o seu bem-estar psicológico. Assim,
postulamos que nesta faixa etária o cariz mais lábil das relações, assim como a
sua duração, poderão revelar uma implicação menos significativa para o bem-
estar dos jovens, quando comparado com outras dimensões relacionais, podendo
haver outras variáveis mais relevantes para os jovens.
Relativamente ao desenvolvimento de psicopatologia, no que respeita aos
protótipos de vinculação, e contrariamente ao resultado observado face ao bem-
estar psicológico, destacam-se consideráveis diferenças. Assim, e de encontro
ao que seria esperado, os indivíduos enquadrados no protótipo seguro denotam
níveis inferiores de sensibilidade interpessoal, depressão, hostilidade e
ideação paranóide e psicoticismo comparativamente com os indivíduos
respeitantes aos protótipos preocupado, amedrontado e desinvestido. Verificou-
se igualmente que os indivíduos seguros evidenciam níveis inferiores de
somatização e ansiedade fóbica comparativamente com os indivíduos
desinvestidos, bem como níveis inferiores de obsessões-compulsões e ansiedade
comparativamente com os indivíduos preocupados.
Os resultados obtidos no presente estudo ressaltam o cariz positivo dos
indivíduos que se caracterizam com o protótipo seguro. Trata-se de indivíduos
que evidenciam maior capacidade de se adaptar às mudanças ou dificuldades, são
mais tolerantes à frustração, pautam a sua conduta pela ajuda exterior,
denotando uma menor interiorização e por sua vez uma maior socialização. Deste
modo, trata-se de indivíduos cuja imagem positiva de si e dos outros lhes
confere maior capacidade de envolvimento, interação social e procura de apoio
em momentos menos positivos da sua vida, ainda que promovam igualmente a sua
autonomia. Este resultado corrobora o estudo de Coutinho (2010), com o objetivo
de estudar a relação entre marcos de transição para a idade adulta,
sintomatologia depressiva e estilos de vinculação, numa amostra de 78
indivíduos com uma média de idades de 26,3 anos. A autora verificou que quanto
mais seguros são os indivíduos, menos propensos são a evidenciarem e
desenvolverem sintomatologia depressiva. Ainda Rivera, Cruz e Muñoz (2011) com
o objetivo de caracterizar as relações amorosas e relação entre a satisfação
relacional e a ansiedade, vinculação e sintomatologia depressiva no início da
jovem adultícia numa amostra de 120 estudantes com idades compreendidas entre
os 17 e 16 anos, suportam esta ideia. O estudo constatou que jovens
respeitantes aos protótipos inseguros, preocupados e amedrontados tendem a
manifestar ansiedade nas relações pelo medo de perder o outro.
Em suma os resultados permitem sublinhar a importância da qualidade das
relações primordiais no percurso desenvolvimental dos indivíduos, pelo que
adolescentes e jovens que evidenciam maior segurança nas suas relações amorosas
parecem relatar menores níveis de psicopatologia. De acordo com Lamela,
Figueiredo e Bastos (2010) o estabelecimento de relações de vinculação segura
ao longo do processo desenvolvimental, e mesmo na vida adulta, permitem a
aquisição de competências interpessoais e o desenvolvimento de padrões de
comportamento adaptativos e adequados. Neste sentido face a situações de
distress os indivíduos desenvolvem estratégias de copingque lhes permitem uma
maior proteção face ao desenvolvimento de psicopatologia. No sentido de
discutir esta dinâmica, cabe também ressaltar a forma como os jovens
desenvolvem a visão em torno das suas relações, pelo que uma perspectiva
negativa de si poderá ocasionar níveis de psicopatologia significativos. Neste
sentido uma imagem menos investida de si pode traduzir menos disponibilidade
pessoal para a relação com o exterior, nomeadamente no que concerne à qualidade
das relações amorosas. Estudos longitudinais têm vindo a corroborar esta ideia,
na medida em que jovens mais internalizantes, com uma postura ruminativa e
pautada por maiores níveis de sintomatologia depressiva (e.g., Starr &
Davila, 2009) e ansiosa (e.g., Kashdan, Volkmann, Breen, & Han, 2007),
parecem condicionar o desenvolvimento das relações amorosas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Tendo em conta que o processo de vinculação se inicia no contacto com as
figuras primordiais, e é um continuumna adolescência, bem como ao encontro do
modelo bidimensional de Bartholomew, na sua maioria, os resultados obtidos no
presente estudo corroboram estudos idênticos realizados em Portugal.
Particularmente no que se refere às diferenças dos protótipos de vinculação
amorosa tendo em conta as variáveis idade, género, configuração familiar e
desenvolvimento de sintomatologia psicopatológica. Já no que diz respeito ao
bem-estar psicológico, contrariamente ao que se aguardava, não foram
encontradas diferenças significativas. Na generalidade, os resultados sublinham
a pertinência do estabelecimento de uma vinculação segura, com as figuras
significativas, e criação de uma imagem positiva de si e dos demais para o
ajustamento emocional dos adolescentes e jovens adultos nas suas relações
futuras.
Como apontamentos finais resta destacar algumas limitações encontradas no
presente estudo, assim como acrescentar pistas futuras. Assim, desde logo o
facto de o mesmo constituir um estudo transversal o que impossibilita o
estabelecimento de relações de causalidade, neste sentido futuramente seria
interessante perceber o percurso longitudinal dos indivíduos caracterizados
pelos diferentes protótipos de vinculação amorosa em diferentes etapas de vida.
Seria igualmente relevante complementar a recolha de dados com a realização de
entrevistas, equacionando-se o desenvolvimento de uma análise qualitativa
juntos dos jovens e do par amoroso. Futuramente seria pertinente analisar
efeitos dos protótipos de vinculação no desenvolvimento do bem-estar
psicológico, da psicopatologia e ainda outras variáveis como a resiliência dos
jovens. Seria de todo relevante perceber em que medida a duração e o cariz de
estabilidade, da mesma, poderá interferir na determinação dos protótipos de
vinculação amorosa. Um estudo deste cariz poderia ainda completar-se
futuramente aportando dados inerentes à vinculação às figuras parentais.