Qualidade da vinculação percebida por mães e crianças em idade escolar
provenientes de diferentes tipos de família
A VINCULAÇÃO EM IDADE ESCOLAR
É na família que fazemos as primeiras aprendizagens, daí que a qualidade da
relação com os pais se vá refletir nas relações interpessoais ao longo da vida
(Verschueren & Marcoen, 2005). Todavia, o período escolar tem sido
negligenciado, nomeadamente no que diz respeito à compreensão da relação de
vinculação (Raikes & Thompson, 2005).
A teoria da vinculação foca-se no estabelecimento de relações interpessoais
significativas ao longo do ciclo vital e defende que todo o desenvolvimento
emocional, cognitivo e social do indivíduo se organiza em torno das relações
com as figuras de vinculação. A vinculação remete para a ligação emocional que
une a criança à figura de vinculação e que faz com que aquela procure essa
pessoa em particular, designadamente em busca de segurança, conforto (Bowlby,
1969), cuidados físicos e psicológicos (Howes, 1999). Os estudos Ainsworth,
Blehar, Waters e Wall (1978) permitiram concluir sobre o papel essencial da
disponibilidade e responsividade da figura de vinculação, visto que, se a
criança se sente segura, ativa os sistemas exploratório e de comportamento
social, afastando-se da sua "base segura" para explorar e aprender
e, em oposição, se não se sente segura, ativa o sistema de medo e alerta e o
sistema de vinculação (Marvin & Britner, 1999). À medida que interage com
as figuras de vinculação, a criança reúne um conjunto de conhecimentos e
expectativas sobre a sua acessibilidade e responsividade e sobre a influência
que ela própria exerce nos outros. Estas representações sobre o self, sobre as
figuras de vinculação e sobre as relações são o que Bowlby designa por modelos
internos dinâmicos de vinculação (Marvin & Britner, 1999; Soares, 2007), e
possibilitam que a criança antecipe e interprete o comportamento da figura de
vinculação (Wright, Binney, & Smith, 1995) e decida sobre como vai
interagir com ela (Soares, 2007). Vários laços podem ser formados, quebrados e
reorganizados ao longo da vida, mas aqueles são sempre determinados pelo
primeiro modelo de relações sociais - a relação de vinculação (Ainsworth,
1989).
No período escolar, entre os 6 e os 12 anos, ocorrem diversas transformações,
de ordem cognitiva, emocional e relacional que vão ter um impacto profundo em
todo o sistema de vinculação (Dwyer, 2005; Raikes & Thompson, 2005). Apesar
de os pais continuarem a ser a principal figura de vinculação (Kerns, Tomich,
& Kim, 2006), a relação entre estes e a criança irá sofrer alterações, a
nível da quantidade, conteúdo e tipo (Collins, Madsen, & Susman-Stillman,
2002). Assim, à medida que cresce, a criança vai sendo cada vez mais ativa na
interação com a figura de vinculação, de acordo com o alargamento do seu
reportório comportamental, cognitivo e emocional (Soares, 2001). As aquisições
cognitivas da criança neste período possibilitam uma maior compreensão de si
própria e dos outros, das relações e da sociedade, aumentando a competência
social e o raciocínio moral (Collins et al., 2002; Mayseless, 2005). A nível
emocional, desenvolve-se o autoconceito, tendo a criança uma perceção mais
profunda de si e dos outros (Collins et al., 2002), contribuindo para uma
crescente regulação emocional e uma maior autonomia emocional face aos pais
(Raikes & Thompson, 2005). O sistema comportamental de vinculação fica,
então, mais sofisticado e abstrato (Mayseless, 2005), sendo a criança capaz de
orientar-se por internalizações cognitivas-afetivas para elaborar
representações generalizadas da vinculação, regulando os seus comportamentos de
vinculação com base nas suas cognições e sentimentos (Marvin & Britner,
1999; Raikes & Thompson, 2005). Paralelamente, ocorre a diminuição dos
comportamentos de controlo dos pais e a criança e aumenta progressivamente a
sua capacidade de autonomia (Marvin & Britner, 1999; Pettit, Keiley, Laird,
Bates, & Dodge, 2007). Acrescente-se que o desenvolvimento social e afetivo
no período escolar envolve uma mudança nas características da ecologia das
relações e nos elementos da rede social pessoal, sendo exposta a cada vez mais
e diversificados agentes de socialização (educadores, professores, treinadores,
pares).
Não obstante, os pais continuam a exercer um papel fundamental no suporte
emocional dos filhos e, mais importante do que a presença da figura de
vinculação, passa a ser a sua acessibilidade e responsividade (Soares, 2007).
É, portanto, um dos principais objetivos dos pais estarem disponíveis quando os
seus filhos solicitam/necessitam de proteção face a estados emocionais de
desconforto e stresse(Marvin & Britner, 1999; Mayseless, 2005; Parke &
Buriel, 2006), sendo percecionados como os maiores prestadores de suporte
emocional, instrumental, informacional, e de companhia, constituindo-se
enquanto figuras privilegiadas no suporte dirigido ao cumprimento das tarefas
desenvolvimentais desta fase (Collins et al., 2002; Pereira, Canavarro,
Mendonça, & Cardoso, 2005).
Vários fatores podem influenciar a qualidade da vinculação da criança, que
podem ser intrínsecos à própria criança, estarem associados às figuras de
vinculação ou advirem do contexto em que aquela está inserida (Bowlby, 1969).
Os estudos sugerem uma maior prevalência da vinculação insegura associada a
crianças com um temperamento mais difícil (Vaughn & Bost, 1999), um nível
de funcionamento cognitivo inferior (Ainsworth et al., 1978; Sroufe, Egeland,
Carlson, & Collins, 2005) e do sexo masculino (Michiels, Grietens, Onghena,
& Kuppens, 2010), ainda que o sexo da criança pareça ter um papel de maior
relevância a partir da idade escolar.
No que respeita às variáveis relacionais e referentes às figuras parentais,
destacam-se em particular os estilos educativos e as práticas educativas
parentais, a qualidade da relação interparental, a coparentalidade, bem como os
recursos psicológicos dos pais. O estilo educativo parental autorizado,
caracterizado pelo suporte, afeto e aceitação, tem maior probabilidade de se
associar a uma vinculação segura (Karavasilis, Doyle, & Markiewicz, 2003;
Michielset al., 2010; Roelofs, Meesters, & Muris, 2008). Refira-se o estudo
português de Simões, Farate, Soares e Duarte (2013), que identificou como
fatores preditores da (in)segurança da vinculação de crianças em idade escolar
a rejeição e o suporte emocional maternos, não assumindo poder preditivo o tipo
de família.
Também a qualidade da relação entre os pais pode constituir um fator protetor
ou, ao invés, um fator de risco para o percurso desenvolvimental da criança.
Desta forma, uma relação parental conflituosa é prejudicial não só ao
comportamento parental (Shelton & Harold, 2008), como à vinculação da
criança (Cummings & Davies, 2002; Owen & Cox, 1997). O conflito
interparental tem, aliás, efeitos mais adversos na qualidade da vinculação da
criança do que a separação conjugal propriamente dita (Amato & Booth, 1996;
Hetherington, Bridges, & Insabella, 1998). Por outro lado, a
coparentalidade, ou seja, o processo através do qual pai e mãe coordenam os
seus comportamentos parentais, se apoiam e partilham responsabilidades e
tarefas educativas, é fundamental na qualidade da vinculação da criança
(McHale, Lauretti, Talbot, & Pouquette, 2002). Igualmente, os recursos
psicológicos dos pais, nomeadamente a sua saúde mental e psicológica, o seu
bem-estar e algumas características da personalidade, ao influenciarem a
qualidade dos cuidados prestados à criança, refletem-se na qualidade da
vinculação (Belsky & Fearon, 2008). Sabe-se, por exemplo, que mães que
sofrem de perturbação bipolar ou depressão têm maior probabilidade de terem
filhos com vinculações inseguras (Poehlmann & Fiese, 2001).
Por fim, há questões do contexto familiar que são relevantes para o
desenvolvimento harmonioso da criança e o estabelecimento de uma vinculação
segura, designadamente o número de irmãos e a posição da criança na fratria,
sendo o nascimento de um irmão um fator de mudança da vinculação, no sentido da
segurança (Ammantini, Speranza, & Fedele, 2005). Os pais que vivem em
contextos sociais desvantajosos podem sentir um maior nível de stresse parental
e, consequentemente, estabelecer relações de vinculação mais inseguras (Scher
& Mayseless, 2000), havendo grande prevalência de vinculação insegura em
amostras de risco e de baixo nível socioeconómico (Weinfield, Sroufe, &
Egeland, 2000). Por fim, o suporte social também tem um papel relevante na
segurança da vinculação, correspondendo a um aumento do nível de suporte social
recebido uma melhoria da qualidade da vinculação da criança (Sroufe, 2002).
QUALIDADE DA VINCULAÇÃO E TIPO DE FAMÍLIA
Na nossa sociedade, associamos o conceito de família à estrutura nuclear,
constituída por um casal e seus filhos, porém assiste-se a um crescente aumento
de outros tipos de família, com distintas dinâmicas. Nas famílias
monoparentais, por razões diversas, o agregado familiar inclui apenas um
progenitor. As famílias reconstituídas caracterizam-se sobretudo por incluírem
elementos que já fizeram parte de outras famílias, na sequência de uma viuvez,
divórcio ou monoparentalidade. A sobrecarga e o stresse parental, o estigma
social, o conflito entre os progenitores, a falta ou ausência de um dos pais
são, entre outras, algumas das dificuldades que estas famílias enfrentam
(Alarcão, 2002).
Alterações profundas na estrutura familiar, que ocorrem quando os pais se
separam, implicam adaptações às modificações que a separação traz à vida
familiar. Estas alterações podem prejudicar a disponibilidade e a
responsividade dos pais (Faber & Wittenborn, 2010; Page & Bretherton,
2001), podendo os seus filhos manifestar problemas comportamentais, emocionais,
sociais e académicos (Fabricius & Luecken, 2007).
O divórcio envolve sempre algum distanciamento do progenitor que não fica com a
custódia (Page & Bretherton, 2001), sendo na maior parte das vezes o
relacionamento com o pai o mais afetado (Amato & Booth, 1996; Moura &
Matos, 2008). Ao deixar de haver contacto diário com o pai, a criança pode
sentir-se abandonada (Tippelt & Konig, 2007). É, portanto, fundamental para
a relação de vinculação que haja uma convivência regular e prolongada entre o
filho e o pai que não vive consigo, com uma verdadeira presença física e
psicológica que se possa constituir como fator protetor do desenvolvimento da
criança (Amato & Gilbraith, 1999; Lowenstein, 2010; Taanila, Laitinen,
Moilanen, & Jãrvelin, 2002). Se há afastamento do pai face ao filho, pode
tornar-se um fator protetor do desenvolvimento da criança uma relação
privilegiada com outro familiar masculino (Hetherington & Kelly, 2002;
Schenck et al., 2009).
Neste sentido, é espectável que se observem alterações, temporária ou
permanentemente, na segurança da vinculação a um ou a ambos os pais, na
sequência da separação (Faber & Wittenborn, 2010). Apesar de ser
inconclusiva a forma como o impacto do divórcio interfere na vinculação da
criança, sabe-se que os dois primeiros anos após a separação dos pais são os
mais críticos e que, a partir daí, o impacto deste acontecimento tende a
diminuir ao longo do tempo (Hetherington & Kelly, 2002). Vários estudos
indiciam que os filhos de pais divorciados correm maior risco de desenvolver
uma vinculação insegura, quando comparados com os filhos de pais casados
(Hetherington & Kelly, 2002; Moura & Matos, 2008; Tippelt & Konig,
2007; Woodward, Fergusson, & Belsky, 2000), ao passo que outras
investigações não encontram diferenças no comportamento e ajustamento destas
crianças (Page & Bretherton, 2001; Ruschena, Prior, Sanson, & Smart,
2005). Acrescente-se que a grande maioria das crianças é resiliente ao divórcio
e até pode beneficiar com a sua nova situação de vida (Hetherington, 2003),
tendo alguns estudos sugerido efeitos favoráveis, no sentido de uma maior
maturidade e autoestima dos filhos (Amato & Keith, 1991; Crosnoe &
Elder, 2004).
Também quando a estrutura familiar se altera, para a constituição de uma
família reconstituída, se podem observar alterações na qualidade de vinculação
das crianças, sobretudo quando a criança sente a mãe menos apoiante e
disponível (Faber & Wittenborn, 2010). Se a eminência do casamento pode
parecer uma ameaça à relação próxima com a mãe (Hetherington, 2003;
Hetherington & Kelly, 2002), num sentido similar, uma relação difícil com o
padrasto pode refletir-se na qualidade das relações futuras (Bowlby, 1973). Os
estudos indicam, ainda, que há uma maior probabilidade de as crianças a viverem
em famílias reconstituídas apresentarem problemas de ajustamento social,
comportamental, académico e emocional (Cheng, Dunn, O'Connor, &
Golding, 2006; Dunn, 2002; Ganong & Coleman, 2004). Não obstante, a
presença de um padrasto na vida de uma criança que não mantenha relação com o
seu pai pode ser um fator protetor do seu desenvolvimento (Schencket al.,
2009). Acrescente-se que a investigação tem apontado para a importância que a
qualidade da relação com os pais tem no ajustamento da criança ao recasamento
de um ou de ambos os pais (Dunn, 2002).
Em suma, a literatura sugere que a vinculação segura é mais frequente em
famílias nucleares do que noutros tipos de família. Porém, a tipologia familiar
per senão é determinante do ajustamento da criança, pelo que é necessário
entrar em linha de conta com questões como as relações familiares (e.g.,
qualidade da relação interparental e da coparentalidade), as trajetórias de
vida, o nível socioeconómico da família, a saúde mental dos pais e a existência
prévia de problemas desenvolvimentais e comportamentais na criança (Booth,
Clarke-Stewart, McCartney, Owen, & Vandell, 2000; Dunn, 2002; Nicholson,
Fergusson, & Horwood, 1999). Sem a presença destes fatores de risco, as
desvantagens desenvolvimentais de crianças de famílias monoparentais e
reconstituídas reduzem-se substancialmente (Cherlin, Chase-Lansdale, &
McRae, 1998; Nicholson et al., 1999).
Face ao exposto, parece-nos pertinente estudar a qualidade da vinculação no
período escolar, nos vários tipos de família. Desta forma, o presente estudo
teve por objetivos: (1) Estudar a qualidade da vinculação de crianças em idade
escolar, em função do tipo de família (nuclear, monoparental ou reconstituída);
(2) Avaliar em que medida a representação da vinculação de crianças em idade
escolar, avaliada através de um instrumento semiprojetivo, o Separation Anxiety
Test(SAT), é convergente com a perceção das mães sobre os comportamentos de
vinculação destas mesmas crianças, avaliada por um instrumento psicométrico, a
Escala de Perceção Materna do Comportamento de Vinculação da Criança (PCV-M).
MÉTODO
Participantes
A amostra foi constituída por 168 díades de mães e filhos, dividida em três
grupos de acordo com o tipo de família, em que as crianças frequentavam o 3º ou
o 4º ano de escolaridade em escolas de seis agrupamentos do concelho de
Coimbra. Assim, 33.3% (n=56) das crianças pertenciam a famílias nucleares,
33.3% de famílias monoparentais e as restantes 33.3% tinham famílias
reconstituídas.
A amostra compreendeu igual número de meninas e meninos, sendo que 17.9% (n=30)
das crianças frequentavam o 3º ano de escolaridade e 82.1% (n=138) o 4º ano de
escolaridade. Acrescente-se que, da amostra total, 13.1% (n=22) das crianças já
tinham ficado retidas no mesmo ano escolar. A idade das crianças variou entre
os 8 e os 11 anos, com uma média de 9.17 (DP=0.77). Da totalidade da amostra,
42.9% (n=72) das crianças eram filhas únicas, enquanto as restantes ocupavam
diferentes posições em fratrias de 1 a 6 filhos. A idade das mães variou entre
23 e 53 anos (M=36.04; DP=5.80) e a idade dos pais variou entre 25 e 66 anos
(M=38.48; DP=6.17). No que respeita à escolaridade das mães, quase metade da
amostra (44%; n=74) tinha apenas o ensino básico, 27% (n=45) das mães
completaram o ensino secundário e 29% (n=49) tinham formação universitária. Das
famílias em estudo, houve uma distribuição semelhante pelas zonas de residência
urbana (48.8%; n=82) e rural (51.2%; n=86).
Ao comparar os três subgrupos em função das variáveis sociodemográficas,
verificámos que os três tipos de famílias estudados são semelhantes nas
variáveis sociodemográficas idade e sexo da criança, número de irmãos e posição
na fratria, e idade e habilitações literárias da mãe.
Instrumentos
Questionário Sociodemográfico.Este questionário foi adaptado de Farate, Pocinho
e Machado (2010), originalmente organizado em 8 secções de questões fechadas e
pré-codificadas, relativas à criança e à família. Tem como finalidade recolher
informações relevantes sobre o contexto sociofamiliar da criança,
designadamente: composição do agregado familiar, idade da criança e posição na
fratria, idade dos pais, grau de escolaridade e profissão dos pais.
Escala de Perceção Materna do Comportamento de Vinculação da Criança da Criança
aos 6 anos(PCV-M; Dias, Soares, & Freire, 2002). O PCV-M permite aferir a
perceção da mãe em relação aos comportamentos de vinculação do seu filho em
idade escolar. Este instrumento é composto por 33 itens cotados numa escala
tipo Likert referentes a três dimensões do comportamento de vinculação da
criança e uma da mãe, sendo que a um adequado funcionamento nestas dimensões
corresponde uma relação de vinculação segura (Martins, Soares, & GEV,
2007). As dimensões do PCV-M são: Dificuldades de Autorregulação Emocional
(DARE, 12 itens - 1, 6, 8, 11, 14, 16, 19, 21, 23, 25, 29, 33);
Comportamento de Base Segura (CBS, 7 itens - 2, 5, 12, 18, 22, 27, 31),
Partilha de Afeto (PA, 7 itens - 3, 7, 9, 17, 24, 26, 30), e
Desejabilidade Social (DS, 7 itens - 4, 10, 13, 15, 20, 28, 32). Os itens
que compõem a subescala Dificuldades de Autorregulação Emocional são cotados de
modo invertido. A pontuação global do PCV-M é indicadora da perceção materna da
segurança da vinculação da criança sendo que os valores mais baixos indicam que
há uma perceção da vinculação como insegura, enquanto os mais elevados indicam
uma perceção de segurança da vinculação (Dias et al., 2002). Segundo Dias,
Carvalho, Rios, Silva e Soares (2007), a dimensão DARE refere-se a indicadores
de insegurança da relação de vinculação, em situações em que o sistema de
vinculação esteja ativado; a dimensão CBS indica comportamentos de utilização
das figuras de vinculação como base segura na exploração do meio; a PA remete
para comportamentos de partilha de experiências e afetos com a figura de
vinculação; e a escala DS identifica valores de desejabilidade social da parte
da mãe, usando itens com pouca probabilidade de serem observados em crianças
desta idade (Martins, Soares, & GEV, 2007).Os valores de alphade Cronbach
dos itens do PCV-M são muito bons, situando-se entre .86 e .85. Para as
subescalas, obtivemos alphasde .82 na DARE, .72 na CBS, .76 na PA e .81 na DS.
De realçar que o alphade Cronbach deste estudo superou o dos autores do
instrumento.
Separation Anxiety Test(SAT; Hansburg, 1972; Resnick, 1991; Slough &
Greenberg, 1990, traduzido para português por Almeida, Soares, & Martins,
1996) é uma entrevista semiprojetiva que avalia a qualidade da vinculação da
criança. É constituída por 10 placas de imagens de situações de separação dos
pais, que pretendem ativar o sistema de vinculação da criança, aferindo depois
os sentimentos que a criança projeta e as soluções de coping. Após transcritas
as entrevistas, as respostas são avaliadas por dois juízes, que fazem a cotação
em separado. Quando não há consenso, recorre-se a um terceiro juiz (Resnick,
1993). A avaliação da criança tem em conta as seguintes escalas (Resnick, 1991,
1993): (1) abertura emocional e vulnerabilidade (é capaz de nomear claramente
sentimentos de vulnerabilidade, como medo ou tristeza); (2) rejeição/
desvalorização da vinculação (se valoriza as suas relações e se percebe a
vulnerabilidade decorrente da perda das figuras de vinculação); (3) atribuição
de culpa (se e a quem atribui culpa pela separação, e se esta culpa é razoável
ou excessiva); (4) resistência/evitamento (se a criança resiste ou evita
responder às perguntas da entrevista); (5) irritação/raiva (se mostra raiva
pela separação e, se sim, a quem se dirige e com que intensidade); (6)
deslocamento de sentimentos (a quem a criança dirige os seus sentimentos de
vinculação, se às figuras de vinculação, se a outras figuras alternativas ou a
objetos e/ou lugares); (7) ansiedade (se há esperança na resolução da separação
ou se uma perspetiva pessimista na resposta); (8) coerência da entrevista
(organização geral e consistência interna das respostas); (9) classificação de
soluções (avalia se as soluções para a situação de separação são construtivas,
destrutivas ou inexistentes). Conforme a pontuação geral e de cada uma das
escalas, é atribuído o padrão e o subpadrão que caracteriza a representação da
vinculação da criança. Na vinculação segura (padrão F) há uma valorização
espontânea das relações de vinculação, podendo a criança ser classificada com
os seguintes subpadrões: F1: Seguro mas um pouco desligado; F2: Relativamente
seguro; F3: Seguro/valorização espontânea da vinculação; F4: Alguma preocupação
com as FV. A vinculação insegura pode organizar-se no padrão DS (evitante:
desvalorização da vinculação) ou no padrão E (preocupado/emaranhado/
ambivalente).
Do padrão DS fazem parte os subpadrões DS1: Rejeição da vinculação; DS2:
Desvalorização/depreciação da vinculação; DS3: Restrição de sentimentos. Por
fim, no padrão E englobam-se os subpadrões E1: Passivo e E2: Irritado/
conflituoso (Resnick, 1991, 1993).
Num estudo preliminar, Resnick (1991) encontrou um acordo interjuízes de 75% e
Rios (2006) uma concordância de 85.7%. Neste estudo, houve acordo em 147 das
168 entrevistas cotadas, com igual atribuição do padrão de vinculação, tendo-se
recorrido a um terceiro juiz para as restantes entrevistas. Observou-se,
portanto, uma satisfatória percentagem de 87.5% de acordo. O nível de acordo
interjuízes foi avaliado pelo teste kappa de Cohen. O kappa deCohen foi de .67
na classificação da segurança da vinculação (seguro ou inseguro), de .66 na
atribuição do padrão de vinculação (F, DS ou E), e de .49 na atribuição do
subpadrão (F1, F2, F3, F4, F5; DS1, DS2, DS3; E1, E2), variando assim entre
"muito bom" na diferenciação entre seguro e inseguro e na
atribuição do padrão de vinculação e "bom" na atribuição do
subpadrão de vinculação (Pestana & Gageiro, 2008).
Procedimentos
Numa primeira fase, procurou-se obter autorização formal da Comissão Nacional
de Protecção de Dados, da Direção Regional de Educação do Centro e das Direções
dos Agrupamentos de Escolas de Coimbra. Para selecionar os três grupos da
amostra, procedeu-se a um emparelhamento de crianças procedentes de famílias
nucleares e monoparentais, mediante informação das fichas de caracterização
sociodemográfica passadas previamente às mães das crianças do 1º ciclo do
ensino básico. Este emparelhamento teve em conta a idade e sexo da criança, o
número de irmãos e posição na fratria e a idade e habilitações literárias da
mãe. Apenas foram selecionadas crianças a frequentarem o 3º ou o 4º ano de
escolaridade. Excluíram-se crianças adotadas ou institucionalizadas e crianças
que vivessem só com o pai ou com os avós. Foi objetivo da presente investigação
estudar as mães e seus filhos em idade escolar, por ser mais frequente as
crianças pertencentes a famílias monoparentais residirem com as suas mães.
Acrescente-se que as crianças a viver com pais do sexo masculino em família
monoparental foram excluídas da amostra, igualmente, por apresentaram pouca
representatividade estatística, não viabilizando uma análise rigorosa. A
seleção do grupo de famílias reconstituídas foi feita casuisticamente, por
serem em número substancialmente reduzido, o que dificultou a utilização dos
mesmos critérios. Posteriormente, foi enviado o protocolo de investigação às
mães, do qual fazia parte o consentimento informado, o Questionário
Sociodemográfico e o PCV-M. Após devolução dos instrumentos devidamente
preenchidos, procedeu-se à administração do SAT às crianças, em contexto
escolar.
O tratamento estatístico dos dados recolhidos foi efetuado com recurso ao
programa Statistical Package for the Social Sciences(SPSS), na versão 17.0.
Começámos por fazer uma breve análise da amostra com métodos de estatística
descritiva (frequências absolutas e percentuais, média e desvio-padrão). A
consistência interna do PCV-M foi testada através do cálculo do alpha
deCronbach, e o grau de acordo interjuízes no SAT através do kappa deCohen.
Recorreu-se ao teste Kolmogorov-Smirnovpara analisar a normalidade da
distribuição dos dados. Apesar de a amostra não seguir uma distribuição normal
na maioria das variáveis estudadas, foram utilizados testes paramétricos na
maioria dos dados, já que se considera que amostras superiores a 30 tendem para
a normalidade, independentemente da sua distribuição (Pestana & Gageiro,
2008). Assim, a correlação entre as dimensões do PCV-M e as escalas do SAT,
tendo em conta o tipo de família, foi aferida com o coeficiente de Pearson.
Recorreu-se, ainda, ao teste U de Mann-Whitneypara analisar a convergência
entre as escalas do PCV-M e a classificação do SAT, uma vez que alguns grupos
em comparação não tinham um N igual ou superior a 30. A fim de estudar a
dependência entre as variáveis representação da vinculação da criança e tipo de
família, utilizou-se o teste do qui quadrado para a independência. Finalmente,
a perceção da mãe no PCV-M em função do tipo de família foi avaliada através da
análise da variância univariada (Anova).
RESULTADOS
No que diz respeito à representação da vinculação da criança, a maioria das
crianças evidenciou uma representação segura da vinculação (78.0%), seguindo-se
o padrão inseguro-evitante (17.9%) e o padrão inseguro-preocupado (4.1%)
(Tabela_1).
O teste do qui quadrado para a independência indicou que não há associação
significativa entre os três tipos de família e a qualidade da vinculação, tal
como é medida no SAT (χ2=.485, p<.785) (Tabela_2). No mesmo sentido, não foi
encontrada uma associação significativa entre os três tipos de família e o
padrão de vinculação atribuído no SAT (χ2=.593, p<.964), bem no que se refere à
distribuição dos subpadrões por tipo de família (χ2=10.971, p<.964).
Quando comparados os três tipos de família em relação à perceção materna da
vinculaçãoatravés do teste Anova(Tabela_3), não se observam diferenças entre as
tipologias familiares. Não obstante, refira-se uma tendência estatística para a
diferença, quando comparadas as pontuações obtidas na dimensão dificuldades de
autorregulação emocional do PCV-M (p=.089), em que as mães de famílias
nucleares são as que perceberam nos seus filhos uma maior capacidade de
regulação emocional (M=51.64), ao contrário das mães de famílias
reconstituídas, que reconheceram nos seus filhos maiores dificuldades de
autorregulação emocional (M=48.54).
A fim de analisar a convergência entre a perceção materna do comportamento de
vinculação dos filhos e a representação da vinculação das crianças, realizou-se
um teste U de Mann-Whitney(UMW), entre as escalas do PCV-M e a classificação do
SAT. Como se pode ver na Tabela_4, na subescala Comportamento Base-Segura
(U=103.5; p=.001) observam-se diferenças entre crianças provenientes de
famílias monoparentais classificadas no SAT como seguras (M=31.61) e inseguras
(M=27.17). Isto significa que, no grupo de famílias monoparentais, as mães de
crianças com uma repre sentação insegura da vinculação observaram menos
comportamentos de base-segura nos seus filhos, em comparação com mães de
crianças que apresentam uma representação segura da vinculação.
Quando se examinam as correlações entre as pontuações obtidas nas subescalas do
PCV-M e a pontuação obtida pela criança nas escalas do SAT, destaca-se que é no
grupo de famílias monoparentais que houve mais associações estatisticamente
significativas1. Assim, a dimensão Comportamento Base-Segura relacionou-se
negativamente com a escala Rejeição/Desvalorização da Vinculação (r=-.316,
p<.05) e positivamente com as escalas Abertura Emocional e Vulnerabilidade
(r=.325, p<.05), Raiva Incontida (p=.362, p<.01), OP (r=.289, p<.05) e
Coerência da entrevista (r=.446, p<.01). A subescala Partilha de Afeto
associou-se negativamente à escala Rejeição/Desvalorização da Vinculação
(r=-.271, p<.05) e positivamente às escalas Abertura Emocional e
Vulnerabilidade (r=.304, p<.05), Resistência e Evitamento (r=.342, p<.01),
Ansiedade/Otimismo e Pessimismo (r=.320, p<.05) e Coerência da Entrevista
(r=.481, p<.01). Finalmente, a pontuação global do PCV-M correlacionou-se
positivamente com as escalas Ansiedade/Otimismo e Pessimismo (r=.307, p<.05) e
Coerência da Entrevista (r=.383, p<.01).
Ou seja, as crianças com maior abertura emocional e que não rejeitaram as
figuras de vinculação no SAT foram descritas pelas suas mães no PCV-M como
tendo mais comportamentos de base-segura e de partilha de afetos. Por sua vez,
as crianças que se mostraram mais otimistas e coerentes na entrevista SAT,
foram percebidas pelas mães como tendo mais comportamentos de base-segura,
maior capacidade para partilhar afetos e um comportamento de vinculação mais
seguro em geral. Da mesma forma, as crianças que menos resistiram ou evitaram
as perguntas do SAT foram as que apresentam mais comportamentos de base-segura.
No grupo das famílias nucleares observou-se uma associação positiva entre as
escalas Partilha de Afeto do PCV-M e Abertura Emocional e Vulnerabilidade do
SAT (r=.266, p<.05), significando que as crianças com mais sentimentos de
vulnerabilidade no SAT revelaram também maior capacidade de partilhar afetos,
na perspetiva das suas mães (Tabela_5).
DISCUSSÃO
Este estudo teve como objetivos centrais avaliar a qualidade da representação
da vinculação da criança em idade escolar e a perspetiva materna sobre os
comportamentos de vinculação, por tipo de família, verificando se havia
diferenças em função do tipo de família, bem como analisar a convergência entre
a representação da vinculação da criança e a perceção materna sobre os
comportamentos de vinculação do seu filho.
A maioria das crianças evidenciou uma representação segura da vinculação,
seguido pelos padrões inseguro-evitante e inseguro-preocupado. Esta
distribuição dos padrões de vinculação vai ao encontro das conclusões de Soares
(1996) e de Rios (2006). Deste modo, independentemente do tipo de família a que
pertence, a maioria das crianças apresentou um padrão de vinculação segura.
Nesta linha, sublinhe-se que muitos estudos têm referido que há uma menor
prevalência de casos de vinculação insegura em crianças no período escolar,
quando comparado com outras faixas etárias (Roelofs et al., 2008).
No que respeita às diferenças na qualidade da vinculação da criança em função
do tipo de família, as crianças de famílias reconstituídas apresentaram
soluções menos construtivas perante situações de separação, contrariamente às
famílias monoparentais. Todavia, não houve uma associação entre a qualidade da
vinculação da criança e o tipo de família a que pertence. Concluímos, desta
forma, que o tipo de família a que a criança pertence não foi determinante da
segurança da sua vinculação. Os resultados da nossa investigação afastam-se,
assim, de outros estudos que associam uma vinculação insegura a diferentes
tipologias familiares (Faber & Wittenborn, 2010; Tippelt & Konig,
2007). Efetivamente há vários fatores individuais, relacionais e contextuais
que intervêm na qualidade da vinculação da criança, e que vão além do estado
civil dos pais ou da estrutura do agregado familiar (Ammantini et al., 2005;
Moss, Cyr, Bureau, Tarabulsy, & Dubois-Comtois, 2005). O conflito conjugal,
por exemplo, é melhor preditor da qualidade da vinculação do que divórcio dos
pais, independentemente do tipo de família (Laurent, Kim, & Capaldi, 2008;
Moura & Matos, 2008).
Porém, foram encontradas diferenças na perceção das mães sobre o comportamento
de vinculação do filho, em função do tipo de família. As mães de famílias
reconstituídas reconheceram mais dificuldades de autorregulação emocional nos
seus filhos do que as mães de famílias nucleares, que percecionaram os seus
filhos como mais competentes a regularem as emoções. A literatura indica que há
um maior risco de as crianças de famílias reconstituídas apresentarem
dificuldades a este nível (Cheng et al., 2006; Dunn, 2002; Ganong &
Coleman, 2004). Sabe-se que o impacto negativo que a transição familiar pode
ter na qualidade dos comportamentos de vinculação da criança diminui ao longo
do tempo; todavia, os dados recolhidos não nos permitem analisar estes
resultados à luz desta variável.
Os resultados desta investigação revelam que a perceção que as mães têm dos
comportamentos de vinculação dos filhosnem sempre vai ao encontro da avaliação
da representação da criança. Foi apenas no grupo de famílias monoparentais que
se observaram correlações entre as dimensões do PCV-M e as 9 escalas que
compõem o SAT. Verificou-se também, neste grupo, uma associação entre a
qualidade da vinculação da criança e a perceção materna do comportamento de
base-segura, o que significa que estas mães identificam menos comportamentos de
base-segura nos seus filhos, quando há uma representação insegura da
vinculação. Estes resultados estão em linha com as conclusões de Rios (2006)
que, no seu estudo, também não observou associação entre os resultados do SAT e
do PCV-M. Portanto, no nosso estudo, apesar de SAT e PCV-M avaliarem a
vinculação de forma diferente, registaram-se alguns pontos de convergência
entre os seus resultados, sobretudo no que diz respeito ao grupo de famílias
monoparentais.
A não convergência entre SAT e PCV-M pode ter origem na própria diferença da
natureza dos dois instrumentos. O SAT é uma medida semiprojetiva e clinométrica
usada para avaliar a representação da vinculação através de uma entrevista
realizada à criança. Este é um instrumento categorial que permite classificar a
representação da vinculação dos sujeitos em segura ou insegura, possibilitando,
ainda, a atribuição de um padrão e de um subpadrão de classificação. Por outro
lado, o PCV-M destina-se a registar a perceção materna do comportamento de
vinculação do seu filho e, ainda que a sua pontuação global seja um indicador
da segurança da vinculação da criança, este é um instrumento dimensional. Ou
seja, o presente estudo comparou as respostas que a criança dá em face de
situações de separação com a perceção materna sobre o comportamento de
vinculação da criança. É importante referir que o SAT ora remete a criança para
ambos os progenitores, ora remete para um deles, não diferenciando a vinculação
da criança ao pai e à mãe (Bohlin, Hagekull, & Rydell 2000; Wright et al.,
1995). E, paralelamente, o PCV-M apenas recolhe a perspetiva da mãe. Por outro
lado, a possibilidade de não haver identificação com a figura das placas do
instrumento e, consequentemente, de não ocorrer uma projeção fidedigna dos
comportamentos de vinculação pela criança (Slought & Greenberg, 1990), pode
também contribuir para estes resultados.
Não obstante as referências anteriormente tecidas em relação à ausência de
convergência significativa entre o PCV-M e o SAT, este estudo tem a vantagem de
conjugar duas medidas com características diferentes, que poderão recolher
informações diferenciadas e complementares sobre a qualidade da vinculação das
crianças em idade escolar. Uma das medidas, o SAT, tem a vantagem de avaliar
diretamente a representação da vinculação da criança de modo semiprojetivo, ao
passo que o PCV-M, como medida dimensional, poderá ser mais precisa do que as
medidas categoriais a captar as características complexas do sistema de
vinculação no período escolar, como advogam alguns autores (Dwyer, 2005).
Consideramos, assim, que o recurso aos dois instrumentos é uma mais-valia no
estudo da vinculação, ao recolher informações diferenciadas e complementares
sobre a qualidade da vinculação das crianças em idade escolar. Isto porque,
enquanto o SAT nos permite avaliar a representação da vinculação da criança
diretamente, o PCV-M contribui para a compreensão de aspetos comportamentais
característicos da vinculação neste período desenvolvimental (Dwyer, 2005).
Esta investigação teve como objetivo principal analisar as perspetivas cruzadas
de mães e crianças de diferentes tipos de famílias, sobre a segurança da
vinculação destas crianças em idade escolar. É de salientar que não foi
observada uma relação entre a qualidade da vinculação da criança e o tipo de
família, o que é particularmente relevante se tivermos em conta que o número de
famílias nucleares tem vindo a reduzir-se substancialmente nos últimos anos.
Neste sentido, percebe-se que poderão existir outras variáveis contextuais e
relacionais a desempenhar uma maior influência na qualidade da vinculação da
criança, em comparação com a tipologia familiar ou estatuto conjugal dos pais
(Booth et al., 2000), designadamente os estilos educativos parentais, a
qualidade da relação interparental e a qualidade da coparentalidade praticada
pelos pais.
Um dos aspetos que assegura qualidade científica ao presente estudo é a
dimensão da amostra e a sua divisão em três subgrupos correspondentes a três
tipologias familiares com idênticas características sociodemográficas.
Sublinhe-se ainda que esta investigação veio trazer mais dados empíricos sobre
a vinculação em idade escolar, período desenvolvimental comparativamente pouco
explorado na literatura da vinculação, com a vantagem de recorrer a diferentes
informadores e a diferentes instrumentos: SAT e PCV-M. Outra mais-valia deste
estudo é a sua contribuição para aprofundar o conhecimento das qualidades
psicométricas do PCV-M e testar o nível do grau de acordo interjuízes no SAT.
Convém, no entanto, referir algumas limitações desta investigação,
designadamente a ausência da perspetiva paterna, sobretudo porque o SAT não faz
distinção entre as duas figuras de vinculação. Além disso, é limitada a
literatura sobre a utilização conjunta do SAT e PCV-M, o que dificultou a
análise e discussão dos resultados. Acrescente-se que há algumas variáveis que
não foram controladas e que se sabe serem fatores de risco para a vinculação da
criança, designadamente a qualidade da relação entre os pais da criança e o
tempo de existência da nova constelação familiar (no caso das famílias
monoparentais e reconstituídas). Por fim, deve ter-se em consideração que a
representatividade da população em geral pode estar, em parte, comprometida
pelo facto da recolha da amostra não ter incluído escolas do ensino privado.
É importante que se realizem mais estudos sobre as perceções cruzadas de mães e
filhos em relação à qualidade dos comportamentos de vinculação destes últimos,
preferencialmente recorrendo a procedimentos de validação convergente entre SAT
e PCV-M. Em estudos futuros seria igualmente relevante incluir a perspetiva
paterna porque, como já foi referido, se o SAT mede a ansiedade de separação em
relação às duas figuras de vinculação primária, o PCV-M apenas avalia a
perceção materna sobre o comportamento de vinculação do filho.
Consequentemente, seria também interessante comparar a perspetiva dos dois
progenitores em relação aos comportamentos de vinculação da criança, apesar de
o instrumento aqui utilizado estar apenas adaptado à perspetiva da mãe.
Finalmente, será igualmente pertinente levar em consideração a perspetiva
sistémica em estudos futuros empíricos sobre esta temática, por exemplo,
através da análise da rede de suporte familiar e dos padrões de comunicação
intrafamiliar, variáveis significativas, em particular, para as famílias
monoparentais.