Modelos internos dinâmicos de vinculação: Uma metáfora conceptual?
Para explicar a associação entre o estabelecimento de relações de vinculação
durante a infância, desenvolvimento e saúde mental, Bowlby (1969/1982, 1973,
1980, 1988) apoiou-se no conceito de Modelos Internos Dinâmicos (MID), uma
metáfora conceptual introduzida para descrever componentes afectivos e
cognitivos que, podendo variar na extensão em que são acessíveis à consciência,
formam representações mentais, tendencialmente estáveis, do self em interação
com as principais figuras cuidadoras. A este respeito, dizem-nos Fonagy e
Target (2007), que os MID podem ser, simbolicamente, perspetivados enquanto uma
representação do próprio num diálogo metafórico com outro(s) significativo(s),
com o tom da conversa a ser dominado pelas expectativas mútuas orquestradas na
experiência passada e consequentes enviesamentos ao nível dos processos
dinâmicos de processamento da informação.
De acordo com Bowlby, os MID são a consequência natural da capacidade humana
para construir representações da realidade. Deste modo, à semelhança de
quaisquer outras representações, têm como função adaptativa tornar possíveis
simulações internas dessa mesma realidade e dos comportamentos possíveis num
dado contexto, podendo ser comparadas a "pequenas experiências
virtuais"(Bowlby, 1969/1982) que permitem ao indivíduo testar mentalmente
várias alternativas de resposta e estimar as suas consequências prováveis.
Podendo, à partida, eliminar alternativas que se mostrem potencialmente
ineficazes, pouco efetivas, ou demasiado exigentes, o indivíduo diminui o grau
de risco das suas ações ficando mais apto para adotar um comportamento
refletido, orientado por objetivos, o que, por sua vez, aumenta as suas
probabilidades de sobrevivência.
Sendo construídos com base em experiências interativas que começam durante o
primeiro ano de vida e que são repetidas praticamente de forma diária durante a
infância, os MID operam primariamente a um nível sensório-motor emergindo
precocemente sob a forma de expectativas rudimentares sobre a acessibilidade e
responsividade dos principais cuidadores. Segundo Bowlby (1973), estes modelos
vão sendo progressivamente atualizados pela integração de experiências
relacionais relevantes posteriores, evoluindo para um conjunto organizado de
crenças relativas a ser-se aceite, protegido, confortado e ajudado por outros
significativos, quando necessário (e vice-versa).
É de realçar, contudo, a ênfase colocada na rejeição de qualquer determinismo
linear, bem sinalizada pela adoção do termo dinâmicos que caracteriza os MID
como estando abertos à revisão e à mudança em face da experiência
desconfirmatória de outras relações de vinculação significativas (ou da
vivência de experiências de diferente qualidade com os cuidadores primordiais,
em virtude, por exemplo, de mudanças contextuais). No entanto, é realçada a sua
tendência para a continuidade, esperando-se que, depois de consolidados,
permaneçam relativamente estáveis ao longo da vida em virtude do forte impacto
que têm para a própria perceção do real, guiando a experiência subjetiva
(Bowlby, 1980).
Desta forma, os MID podem ser equiparados a filtros interpretativos, através
dos quais os indivíduos absorvem e analisam novas experiências relacionais, de
forma consistente com as experiências passadas, funcionando como modelo
implícito para o estabelecimento de relações afetivas íntimas futuras (ver
Bretherton, 2005; Bretherton & Munholland, 2008).
UM CONCEITO A MEIO CAMINHO ENTRE UMA "UNIÃO-ESTÁVEL" TEÓRICA E UM
"ADULTÉRIO" FELIZ
Num tempo histórico em que, confrontadas com a Revolução Cognitiva, as duas
correntes teóricas clássicas, Psicanalítica e Behaviorista, começavam a temer
pela sobrevivência dos seus lugares, orgulhosamente sós, em margens opostas e
invioláveis da verdade, John Bowlby (1969/1982, 1973, 1980, 1988) teve a
ousadia de as cruzar, na procura de uma explicação teórica satisfatória para as
reações adversas observáveis em crianças pequenas como resultado de separações
temporárias à figura materna.
Partindo da sua formação psicanalítica de base, foi capaz de integrar uma
releitura dos estudos de René Spitz sobre o hospitalismo, novos dados
proporcionados pelos trabalhos etológicos de Konrad Lorenz e de Harry Harlow
que tinham posto em relevo, respetivamente, o fenómeno do imprintinge o papel
do afeto como motivação primária, bem como as formulações emergentes da
Cibernética e da Teoria do Processamento da Informação, para produzir um
pensamento distinto e revolucionário (ver Bretherton, 1992; Van der Horst,
LeRoy, & Van der Veer, 2008; Van Dijken, Van der Veer, Van Ijzendoorn,
& Kuipers, 1998). A este propósito, é de notar, no entanto, a
despretensiosidade com que, no prefácio do 1º volume de Attachment & Loss,
Bowlby (1969/1982, p. 11), descreve o início do seu percurso: "In 1956
when this work was begun I had no conception of what I was undertaking. (...)
From a new view point a familiar landscape can sometimes look very
different."
É então, neste cruzamento idiomático, que a conceção de Modelos Internos
Dinâmicos vê a luz do dia, com as naturais confusões que seriam de esperar
desta fecunda, mas controversa, "união-estável" teórica.
Controvérsias, aliás, antecipadas e a priorijustificadas quando Bowlby (1973)
diz que os modelos ambientais e organicistas, que descreve como partes
integrantes e necessárias de um sofisticado sistema biológico de controlo, não
são outra coisa que o "mundo interno" da Psicanálise clássica,
descrito sob a alçada de uma nova terminologia teórica. Terminologia que Bowlby
(1973) assume como compatível com a Teoria Geral dos Sistemas, à qual vai
buscar o termo Modelo Interno Dinâmico (Craik, 1943), e que considera ser
extensamente mais vantajosa que a usualmente utilizada pela abordagem
psicanalítica, na medida em que permite uma maior precisão descritiva e
consequentemente, a construção de grelhas de leitura mais direcionadas para a
planificação e execução de estudos empíricos.
É esta posição, leal mas não submissa, de Bowlby relativamente à Psicanálise,
que o leva a abandonar conceitos que intuí potencialmente ambíguos por, ao
estarem em demasia centralizados no mundo interno do indivíduo, poderem
negligenciar o peso da realidade externa (ver Bretherton, 1992; Bretherton
& Munholland, 2008).
Em seu lugar, Bowlby (1973) propõe que as crianças desenvolvem dentro de si um,
ou mais, modelos operacionais representando as principais características do
mundo à sua volta e de si próprios como agentes ativos nesse mundo. Estes
modelos permitem-lhes prever com relativa precisão os comportamentos dos
parceiros de interação e, em função desta previsão, planear respostas imediatas
e de longo prazo. Assim, o que na teoria psicanalítica clássica é denominado um
bom objeto aparece reformulado, dentro deste quadro de referência, (e no nosso
entender, por vezes, de forma excessivamente simplista, sem atender à
complexidade das conceptualizações psicanalíticas abordadas) como um modelo
interno de vinculação segura, isto é, um modelo operacional de uma figura de
vinculação que é perspetivada como estando disponível para a interação, sendo
capaz de proporcionar ajuda e conforto em caso de necessidade. Analogamente,
maus objetos, aparecem reformulados como modelos internos de vinculações
predominantemente inseguras, ou seja, modelos operacionais de uma, ou mais,
figuras de vinculação a quem se atribuem características tais como
acessibilidade incerta, relutância em prestar ajuda e/ou reações hostis
prováveis (Bowlby, 1973).
No entanto Bowlby, deixa também patente que uma pergunta de suma importância,
que terá de ser respondida no futuro, será em que medida tais modelos
operacionais correspondem a produtos válidos da experiência real, chamemos-lhe
nós "versões-protótipo", ou antes a produtos potencialmente
distorcidos de tal experiência, chamemos-lhe "versões-espelho". Com
efeito, ao longo da sua obra tanto encontramos escritos que se aproximam mais
de uma formulação como de outra com Bowlby, numa manifesta "infidelidade
sem culpa", a recorrer às suas diferentes afinidades teóricas para
aprofundar o conceito.
A este propósito, Peter Fonagy e Mary Target (2007) reconhecem ter sido
largamente sustentado pelos psicanalísticas mais ortodoxos de então que existia
"algo de errado" com a Teoria da Vinculação com os seus principais
detratores a escudarem-se no argumento de que, ao escolher debruçar-se sobre
constructos teóricos empiricamente testáveis (i.e., comportamento observável,
em detrimento dos impulsos e das fantasias inconscientes), esta nova formulação
teórica reduzia drasticamente o poder explicativo potencial das observações
psicanalíticas. Efetivamente, é hoje abertamente reconhecido que a Psicanálise
mostrou inicialmente uma ostensiva relutância em apreender muitas das ideias,
então revolucionárias (e que seguramente lhe teriam sido, desde logo, muito
úteis), introduzidas pela Teoria do Vinculação. No entanto, não poderá também
ser negado que, em algumas das críticas endereçadas por Bowlby ao pensamento
psicanalítico, é discernível uma visão excessivamente simplificada e
reducionista dos pressupostos teóricos que lhe estão subjacentes, com Bowlby,
por vezes, a não parecer ter em conta, quer a complexidade deste universo
epistémico, quer o elevado ecletismo teórico presente nas diversas correntes
psicanalíticas então existentes (ver Fonagy & Target, 2007).
MID: "VERSÕES-PROTÓTIPO" E "VERSÕES-ESPELHO"
A formulação do MID enquanto "versões-protótipo" é reforçada
quando, influenciado pelo pensamento de Jean Piaget (e.g., Piaget, 1937/1954),
Bowlby (1969/1982) faz uso de uma linguagem mais próxima da Teoria Cibernética
e da Teoria do Controlo dos Sistemas para dizer quais as condições necessárias
que asseguram a viabilidade dos mesmos. De acordo com esta formulação, a
construção dos MID é necessariamente baseada nos dados da realidade de que a
criança dispõe naquele momento. Contudo, para que possam ser utilizados em
situações novas, ao longo do desenvolvimento, os MID terão de ser ampliados em
função das crescentes capacidades imaginativas e de extrapolação do pensamento
infantil, de modo a poderem cobrir de forma relevante não apenas dados da
experiência concreta, mas também da experiência potencial. Finalmente, qualquer
modelo, tanto se aplicável à experiência real, como à experiência latente ou
virtual, terá de ser testado relativamente à sua consistência interna, sendo
tanto mais adequado quanto, por um lado, mais acuradas forem as suas predições
e, por outro, mais extensa a lista de situações em que pode ser aplicado.
Ao sugerir que os MID são regularmente sujeitos a teste por confrontação direta
com novas experiências, sendo avaliados quanto à sua consistência interna e
acuracidade da sua capacidade preditiva, Bowlby parece concebê-los como
predominantemente acessíveis à consciência, modificáveis com o tempo e
explícitos, ou seja, bastante mais sofisticados do que poderíamos antever tendo
por base outros dos seus escritos.
Por seu turno, a formulação dos MID enquanto "versões-espelho" está
claramente enraizada na linhagem psicodinâmica, em particular na que inclui as
Teorias da Relação de Objeto (ver Fonagy & Target, 2007). Efetivamente, o
parentesco teórico é evidente quando Bowlby (1969/1982, 1973, 1980, 1988)
descreve os contributos dos MID para a organização do sistema defensivo e para
a manutenção de modelos mal-adaptativos, discutindo as implicações que estes
aspetos têm para a saúde mental do indivíduo. Nesta conceptualização os MID são
construídos a partir das leituras interpretativas que, com a ajuda dos seus
esquemas percetivo-afetivos infantis, a criança pequena faz das interações
quotidianas que mantém com os principais cuidadores, emergindo prematuramente
sob a forma de modelos pré-linguísticos. Modelos pré-linguísticos que, apesar
de influenciarem extensamente o comportamento do indivíduo, são hipotetizados
como sendo largamente inacessíveis a uma reflexão consciente, podendo ser
comparáveis a um retrato atualizado do inconsciente dinâmico freudiano (ver
Thompson, 2008a).
A analogia encontrada é a de uma capacidade física adquirida através da
repetição da experiência como, por exemplo, conduzir ou andar de bicicleta
(Bowlby, 1980). Analogamente, também os componentes cognitivos e processuais
associados às experiências precoces de vinculação tenderiam, em virtude das
sobre-aprendizagens quotidianas, a enraizar-se no funcionamento do Eu, passando
a operar de modo automático, não sujeito a controlo consciente. Embora este
automatismo tenha a vantagem adaptativa de permitir a economia de esforços,
tornando as ações mais rápidas, a desvantagem complementar deriva,
precisamente, do facto de, por não serem facilmente acessíveis a um
processamento consciente, estes componentes serem difíceis de alterar. Deste
modo, se, por qualquer que seja a razão, os MID se mostrarem inadequados,
poderão estar reunidas as condições para a emergência de configurações
psicopatológicas.
MID E PSICOPATOLOGIA: OU QUANDO OS ESPELHOS SE DISTORCEM
Debrucemo-nos agora sobre a tese defendida por Bowlby (1969/1982) de que na
etiologia de muitas manifestações psicopatológicas estaria presente uma
inadequação dos MID face à realidade presente, ou utilizando a metáfora
previamente criada, quando as "versões-espelho" refletem imagens
excessivamente deformadas da realidade. Deformações e inadequações que podem
ser de vários tipos, podendo um modelo deixar de ser útil por ficar
parcialmente, ou completamente, desatualizado, ou por estar atravessado por
inconsistências.
Apoiando-se na distinção entre sistemas de memória feita por Tulving (1972),
Bowlby (1980) defende que o armazenamento das memórias que a criança organiza
das vivências com as figuras de vinculação, e do seu próprio papel nestas
vivências, possui uma dupla natureza: recordações de comportamentos
particulares, relativos a eventos discretos, tendem a ser armazenados na
memória episódica, ao passo que as generalizações sobre os cuidadores em
interação com o self(e vice-versa), que constituem a base dos MID, tendem a ser
armazenados na memória semântica de forma analógica, proposicional ou mista.
Dada esta pluralidade de armazenamentos possíveis, bem como a multiplicidade de
fontes que podem estar na base da construção de uma dada memória (a título de
exemplo, o que foi vivido; o que, no momento, foi dito à criança ou
secretamente ouvido por esta; o que, posteriormente, foi lembrado, ou proibido
de lembrar...) estão reunidas as condições para a emergência de conflitos, uma
vez que nem sempre haverá congruência entre o que é armazenado a nível
semântico e a nível episódico.
Abrindo um parêntesis neste ponto, não podemos deixar de fazer referência ao
facto de Bowlby adotar uma posição notoriamente restritiva neste campo,
deixando abertamente de lado, neste enunciar de possibilidades, todo um
universo epistémico relativo aos processos simbólicos internos. Pensamos que
esta posição restritiva de Bowlby (1980, 1988) é compreensível no contexto
epistémico de então, confrontado com uma Psicanálise clássica que, a favor de
um endeusamento da ideia de fantasia, teimava, lamentavelmente, em abster-se de
prestar atenção à experiência real dos indivíduos (Fonagy & Target, 2007).
No entanto, saudamos os esforços que outros autores (ver Bretherton, 1995;
Bretherton & Munholland, 2008; George & Solomon, 2008) têm vindo a
fazer no sentido de tornar possível a integração destas duas visões, na nossa
opinião, complementares.
Bowlby (1988) hipotetiza que o crescimento de uma minoria de crianças possa ser
persistentemente atravessado por incongruências deste tipo, o que as torna mais
suscetíveis de adoecer mentalmente. A este respeito, dá como exemplo as
situações em que as memórias de experiências traumáticas muito precoces,
nomeadamente, assédio sexual, violação, ou assistir à morte de um dos
progenitores, ficam armazenadas, de forma analógica, no sistema de memória
episódica, não sendo compatíveis com as representações conscientes que, com
base no que os pais ou outros adultos lhe disseram e/ou omitiram, sobre estas
mesmas experiências, a criança organizará posteriormente e que ficarão
armazenadas como proposições gerais no sistema de memória semântica (ver
Bretherton & Munholland, 2008).
Em consonância com esta ideia, Bowlby (1973) chama a atenção para o facto de
muitos pacientes com perturbações graves de carácter emocional que procuram
terapia parecerem debater--se com a existência de MID, relativa ou totalmente
inconscientes, desenvolvidos precocemente em linhas muito primitivas. Apesar de
terem sido defensivamente excluídos, os MID primordiais continuam a ter uma
influência preponderante no modo como o indivíduo perceciona os eventos,
condicionando largamente os seus comportamentos e emoções. Há, deste modo, uma
grande probabilidade de que, em situações emocionalmente desafiantes, estes
possam entrar em conflito com outros modelos contemporaneamente, ou
posteriormente, construídos e que podem ser radicalmente diferentes, ou mesmo
incompatíveis. Modelos, estes sim, acessíveis à consciência e que o indivíduo
toma, erradamente, por dominantes.
PROCESSOS DEFENSIVOS: DESATIVAÇÃO, DESCONEXÃO COGNITIVAE SEGREGAÇÃO DE SISTEMAS
PRINCIPAIS
Em concordância com a sua formação psicanalítica de base e, paralelamente,
incentivado pelos trabalhos dos psicólogos cognitivistas Norman e Dixon, Bowlby
(1988) atribui claramente aos processos não conscientes um papel central na
vida mental, defendendo uma visão do aparelho mental como sendo capaz de
suprimir do processamento consciente, de forma seletiva e sem que a pessoa
disso tenha qualquer perceção, determinada classe de informações.
Na continuidade deste pensamento, Bowlby (1988) apoia-se no conceito de
exclusão defensiva, enquanto mecanismo que previne que os indivíduos tomem
consciência de eventos ou pensamentos que, se aceites como verdadeiros, seriam
intoleráveis e potencialmente desorganizadores para o seu equilíbrio psíquico.
Bowlby avança que, se a ativação temporária desta exclusão defensiva tem um
carácter benéfico, permitindo ao indivíduo manter a sua integridade
psicológica, a sua manutenção rígida ao longo de um extenso período temporal,
poderá tornar-se seriamente não adaptativa.
Nos escritos de Bowlby (1969/1982, 1973, 1980, 1988) podem ser encontradas
referência a três possíveis manifestações do mecanismo de exclusão defensiva,
que variam no grau de gravidade: desativação, desconexão cognitiva e segregação
de sistemas principais. No entanto, estas referências são feitas sem grande
sistematização, nem aprofundamento, exceção feita para o capítulo 4 do Volume
III de Attachment and Loss, no qual, como o próprio nome indica -
"An information processing approach to defence"- há um pé em
duas margens.
Apesar de estes conceitos se aproximarem dos conceitos psicanalíticos (por
exemplo, a falar de desativação refere que este conceito é apenas uma outra
forma de descrever o mecanismo defensivo da supressão) também aqui Bowlby
(1988) optou por recorrer a termos menos imbuídos de "mundo
interno", chamando, mais uma vez, a atenção para a importância da
experiência real.
O termo desativação foi proposto para especificar uma consequência da exclusão
defensiva relacionada com a minimização na consciência de informação
relacionada com as experiências de vinculação. Informação que, quando sujeita a
processamento consciente no passado, fez com que os indivíduos experimentassem
um sofrimento severo, sendo hipotetizadas, na etiologia deste processo
defensivo histórias interativas precoces nas quais as manifestações do sistema
de vinculação da criança foram sistematicamente ignoradas, ridicularizadas,
rejeitadas ou mesmo punidas pelos cuidadores. Se feita em larga escala, avança
Bowlby, a minimização de informação poderá levar a uma desativação do próprio
sistema de vinculação com consequentes falhas na manifestação de comportamentos
de procura de proximidade ao adulto e de solicitação de cuidados em contextos
situacionais em que estes seriam de esperar (ver Marvin & Britner, 2008).
Para Bowlby (1980), o termo desconexão cognitiva define uma situação de
apartamento entre as respostas comportamentais e afetivas do indivíduo e as
variáveis contextuais e/ou interpessoais, de carácter ansiogéno, que estiveram
na sua origem (numa aproximação ao mecanismo de defesa psicanalítico de
deslocamento). Quando tal acontece, o indivíduo tende a confundir a natureza
das situações indutoras de mal-estar justificando as suas respostas
comportamentais e afetivas com base em atribuições que, embora
descontextualizadas, ou erróneas, são menos ameaçadoras para a sua integridade
psicológica. Constituem exemplos destas atribuições o redireccionamento de
afetos negativos para alvos diferentes daqueles que os suscitaram, assim como o
focar-se excessivamente nas suas próprias reações e sentimentos, atribuindo-
lhes uma etiologia exclusivamente interna (por exemplo, sintomas
hipocondríacos, ou características temperamentais) que não tem em conta
variáveis contextuais significativas.
Bowlby (1973) avança que, nas situações mais graves, poderemos assistir
inclusivamente à segregação de sistemas principais, mecanismo mais próximo dos
conceitos psicanalíticos de clivagem e de dissociação (ver Bretherton &
Munholland, 2008). No processo de segregação de sistemas principais coexistem
na personalidade dos indivíduos múltiplos selves, cognitivamente dissociados,
tendo cada um deles o seu próprio armazém de memória, o mesmo é dizer, acesso a
diferentes MID. Bowlby (1973) acrescenta que, embora os distintos selves possam
alternar na consciência, geralmente um deles tende a ser dominante, estando o
outro, com os seus respetivos modelos internos, num estado de desativação
parcial ou completa.
INFLUÊNCIA DOS PROCESSOS DEFENSIVOS NO SISTEMA BIO-COMPORTAMENTAL DE PRESTAÇÃO
DE CUIDADOS
Retomando a ideia defendida por Bowlby (1973) de que as defesas contribuem para
a manutenção da estabilidade representacional, Carol George e Judith Solomon
(2008) têm vindo a prestar atenção às possíveis manifestações do mecanismo de
exclusão defensiva na idade adulta, especificamente no contexto da ativação do
sistema comportamental de prestação de cuidados. De acordo com as autoras, a
flexibilidade representacional (definida enquanto capacidade para diferenciar
sinais e eventos associados a sistemas comportamentais potencialmente
competitivos que podem incluir objetivos simultâneos incompatíveis) é uma
condição essencial para a manutenção do que consideram ser, no adulto, a
homeostasia do sistema de prestação de cuidados, constituindo um dos pontos-
chave para que o cuidador possa otimizar a sua sensitividade e responsividade
face à criança. Diferenciação que passa pela marcação de fronteiras claras
entre sistemas comportamentais e suas interseções, incluindo a necessidade de
proteger e cuidar dos descendentes (sistema de prestação de cuidados), de
procurar proteção e conforto de outros quando necessário (sistema de
vinculação), de desenvolver amizades e relações sociais (sistema afiliativo),
de manter atividade sexual (sistema sexual) e de conhecer novos contextos e
situações (sistema exploratório).
De acordo com George e Solomon (2008), quando os processos defensivos distorcem
ou excluem informação e afetos em larga escala, a flexibilidade
representacional pode ficar comprometida, o que impossibilitará os pais de
detetar, diferenciar e integrar adequadamente os sinais associados aos vários
sistemas, com especial confusão a ser possível entre os sistemas complementares
de prestação de cuidados e de vinculação. As autoras acrescentam que, tanto a
desativação, como a desconexão cognitiva representam formas menos graves de
exclusão defensiva que servem para proteger a organização defensiva dos
indivíduos. Ao invés, no caso da segregação de sistemas principais, a
manutenção da estabilidade representacional só pode ser mantida se memórias
dolorosas e/ou ameaçadoras e respetivos afetos, forem banidos da consciência,
criando uma situação na qual o indivíduo não é capaz de processar de forma
consciente eventos traumáticos associados ao vinculação. Estes elementos
tenderão, no entanto, a atuar nos bastidores deixando a organização defensiva
do indivíduo suscetível de colapso (i.e., confusão representacional) se
confrontada com novas situações que ativem intensamente o sistema de
vinculação, podendo, consequentemente, ser discerníveis nas suas ações graves
situações de sobreposição comportamental. Sobreposições, essas, que poderão
contribuir para a emergência de padrões interativos caracterizados pela
inversão de papéis entre o adulto e a criança e, nos casos mais extremos, pelo
menos em certa parte, para situações inter-geracionais de assédio sexual.
ESPECIFICIDADE VERSUSINTEGRAÇÃO
Outra importante discussão, ainda em aberto, prende-se com a especificidade
relacional e contextual dos modelos representacionais construídos (ver
Bretherton, 1992; Bretherton & Munholland, 2008; Solomon & George,
2008). Mais concretamente, importa clarificar se, ao longo do desenvolvimento a
criança organiza um modelo interno dinâmico geral, suscetível de integrar os
diferentes contributos das experiências chave vividas com os principais
cuidadores, ou ainda vários modelos independentes, individualmente associados a
padrões interativos específicos. Padrão interativos que, naturalmente, poderão
estabelecer-se durante a infância, mas em contextos de prestação de cuidados
extra-familiares (ver Veríssimo, Duarte, Monteiro, Santos, & Meneses,
2003), ou apenas durante a idade adulta, no contexto da relação de casal (ver
Treboux, Crowell, & Waters, 2004).
Por outro lado, aceitando a hipótese de que a criança organiza um modelo
interno global que serve de base à estruturação de estratégias gerais de
relacionamento que, progressivamente, se tornam propriedade da própria criança,
outra questão essencial será saber se a integração dos diferentes contributos
das experiências chave vividas com as figuras de vinculação predominantes,
tende a ocorrer de forma paralela (i.e., relações com diferentes figuras têm
peso semelhante) ou hierárquica (i.e., peso da relação com figura materna, por
exemplo, faz-se sentir com maior intensidade, influenciando a qualidade do
vinculação da criança a outros prestadores de cuidados).
A este respeito, no que respeita à primeira infância, os resultados das meta-
análises realizadas são conflitivos (ver Fox, Kimmerly, & Schafer, 1991;
van IJzendoorn & De Wolff, 1997). Contudo, são de destacar estudos recentes
(e.g., Grossmann et al., 2002; Monteiro, Veríssimo, Vaughn, Santos, & Bost,
2008, ver Monteiro & Veríssimo, 2010) que dão suporte empírico à tese da
especificidade da organização dos comportamentos de base segura a criança face
às duas figuras parentais. Por outro lado, se bem que ainda escassos, estudos
envolvendo medidas representacionais (e.g., König, Gloger-Tippelt, &
Zweyer, 2007) têm também vindo a fortalecer a suposição de Bowlby de que o
processo de integração de experiências distintas numa única, razoavelmente
coerente, representação global pode ser mais complexo quando a criança
estabelece relações de qualidade muito distinta com os diferentes cuidadores.
CONCLUSÃO
Em síntese, do exposto, pensamos ficar claro porque razão uma das maiores e
mais antigas (ver Hinde, 1988) críticas ao conceito de MID é o facto de este
ser utilizado de forma muito ampla, constituindo nas palavras de Belsky e
Cassidy (1994) um atraente, mas inoperativo, catch-all, post hoc explanation.
Reforça-se, assim, a necessidade de mais trabalhos empíricos neste âmbito,
alicerçados numa sólida reflexão teórica, uma vez que, sem este trabalho
prévio, apenas guiados pela ideia geral, excessivamente simplista, que relações
de vinculação seguras estão indiscriminadamente associadas a correlatos
psicológicos (e, naturalmente, desenvolvimentais) mais positivos (ver Thompson,
2008a,b; Waters, Corcoran, & Anafarta, 2005), o conceito corre o perigo de
se transformar num generalista e, como tal, pouco relevante "guarda-chuva
conceptual" que serve para explicar todas e quaisquer implicações
desenvolvimentais da Teoria do Vinculação.