A homofobia perspetivada à luz da abordagem da identidade social: Níveis de
autodefinição identitária e atitude em relação a pessoas homossexuais
Em 1972 foi publicado o livro de Weinberg Society and the Healthy Homosexual,
onde foi introduzido o conceito de homofobiae em 1973 a homossexualidade foi
removida do DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders). Estes
dois acontecimentos tiveram importantes consequências na despatologização da
homossexualidade e foram fundamentais para a investigação sobre as atitudes dos
heterossexuais em relação às pessoas homossexuais (Herek, 1994).
A homofobiafoi definida por Herek (2000) como uma atitude negativa direcionada
a uma pessoa resultante da sua orientação sexual e está, segundo Carneiro
(2009), ao serviço de um sistema ideológico heterossexista, que dificulta a
aceitação da diversidade sexual.
Inquéritos realizados ao longo dos anos 70 e 80 mostraram que as atitudes em
relação à homossexualidade se tornaram mais favoráveis (e.g., Yang, 1997),
assistindo-se a uma crescente aceitação relativamente aos direitos civis
fundamentais das pessoas homossexuais e também a uma crescente relutância em
tolerar discriminação baseada na orientação sexual das pessoas. No entanto, a
maioria das pessoas heterossexuais continuam a condenar moralmente a
homossexualidade e a rejeitar ou sentir-se pessoalmente desconfortáveis com
pessoas homossexuais (e.g., Herek, 1991). Ou, nas palavras de Matias (2007)
(...) Verificando-se actualmente uma maior abertura relativamente às pessoas
que se identificam como não sendo heterossexuais, podemos igualmente observar
tentativas constantes e sub-reptícias de questionar os avanços sociais
propostos por essa população, nomeadamente em questões de parentalidade ou de
reconhecimento por parte da sociedade quanto às suas relações íntimas.
Algumas investigações recentes continuam a fornecer dados acerca da existência
de discriminação baseada na orientação sexual. Lacerda, Pereira e Camino
(2002), constataram que três quartos de um total de 220 estudantes
universitários se mostraram preconceituosos em relação a pessoas homossexuais.
Pereira, Torres, Pereira e Falcão (2011), verificaram num estudo com 374
estudantes de teologia, que todos manifestaram preconceito relativamente a
pessoas homossexuais e Costa e Davies (2012), encontraram resultados similares
junto de uma amostra de 188 jovens do ensino secundário. Outros estudos que vão
no mesmo sentido são os de Herek (2007), em que 38% dos homens gay e 11 a 13%
das mulheres lésbicas e dos homens e mulheres bissexuais, reportaram terem sido
alvo de violência ou crimes de propriedade, decorrentes da sua orientação
sexual. E também os de Moreno e Bondenhausem (2001) que encontraram numa
amostra de estudantes de psicologia, que se definiam como igualitários, a
manifestação de preconceito naqueles que reportavam valência afetiva antigay
elevada, quando lhes era fornecida uma pista situacional aparentemente
legitimadora de avaliações negativas.
Outras investigações tentam perceber que variáveis predizem o preconceito
homofóbico. Assim, foi possível identificar um conjunto de variáveis
sociodemográficas e psicológicas que aparecem sistematicamente associadas à
atitude das pessoas heterossexuais em relação às pessoas homossexuais. A saber,
as pessoas com uma atitude negativa em relação a pessoas homossexuais: (1)
tendem a ter atitudes mais conservadoras face aos papéis de género (e.g., Gato
& Fontaine, 2011; Herek, 1991, 1994; Simon, 1998); (2) são do sexo
masculino (e.g., Seltzer, 1992, in Crawford, McLeod, Zamboni, & Jordan,
1999; Gato & Fontaine, 2011); (3) têm uma maior tendência para serem mais
religiosas e subscreverem ideologias morais mais conservadoras (e.g., Herek,
1991, 1994; Marsiglio, 1993, Seltzer, 1992, in Crawford et al., 1999; Simon,
1998), (4) são mais velhas e têm níveis de escolaridade mais baixos (e.g.,
Herek, 1991; Simon, 1998), e (5) são mais propensas a apresentarem valores
baixos de contato pessoal com pessoas homossexuais (e.g., Gato & Fontaine,
2011; Herek, 1991, 1994; Simon, 1998).
Gato e Fontaine (2011) identificaram numa amostra de 385 estudantes portugueses
do ensino superior (36% de homens e 64% de mulheres), um conjunto de correlatos
das atitudes negativas face à homossexualidade. Por exemplo, concluíram que 20%
da amostra reportou atitudes desfavoráveis em relação a pessoas homossexuais e
que algumas variáveis demográficas e valores sociais também lhe estão
associados. Entre estas, ser do sexo masculino, ter baixa familiaridade com
pessoas homossexuais, ou ter valores sociais de conservação e autopromoção (por
oposição a valores sociais de autotranscendência e de abertura à mudança), tem
associação direta com atitudes mais desfavoráveis.
Alguns indicadores da discriminação das pessoas homossexuais em Portugal
Na análise à situação em Portugal, centramo-nos, num primeiro momento, nos
dados provenientes de sondagens europeias, nas quais Portugal se inclui,
relativos especificamente a atitudes face a esta categoria social, e, de
seguida, em evoluções históricas, legais e políticas recentes que sustentam
mudanças sociais com potencial impacto relevante em vários domínios da vida das
pessoas LGBT.
Por exemplo, verifica-se pelos dados recentes do Eurobarómetro (2012), que os
portugueses, quando questionados acerca do nível de conforto que sentiriam se
uma pessoa gay, lésbica ou bissexual ocupasse o cargo político mais elevado no
seu país, reportaram um nível de conforto de 5.7 (escala de 1=totalmente
desconfortávela 10=totalmente confortável), contra uma média europeia de 6.6.
Adicionalmente, dos 8 grupos considerados (mulher, pessoa com incapacidade,
pessoa com uma religião não-maioritária, pessoa com orientação sexual gay,
lésbica ou bissexual, pessoa de etnia não-maioritária, pessoa com menos de 30
anos de idade, pessoa transgénero/transsexual e pessoa com mais de 75 anos de
idade), apenas manifestaram níveis de conforto inferiores (5.5) para pessoa
transgénero/transsexual. Por seu turno, na Europa os grupos que pontuaram mais
baixo foram pessoa transgénero/transexual, com 5.7 e pessoas acima dos 75 anos
de idade, com 5.4.
Assistimos também na atualidade à emergência de um conjunto de evoluções legais
relativas aos direitos civis das minorias sexuais. Os casais homossexuais
passaram, em 2001, a estarem também incluídos na Lei das Uniões de Facto, em
2004 foi a aprovada a inclusão da orientação sexual no Princípio da Igualdade
(artigo 13) da Constituição Portuguesa e, através da lei 9/2010, foi aprovada
da possibilidade do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo.
Depois de traçado um panorama geral a respeito do preconceito homofóbico,
passamos a apresentar em traços gerais, o enquadramento teórico que
utilizaremos nesta investigação, para analisarmos a atitude face a pessoas
homossexuais.
Abordagem da identidade social e preconceito
A categorização é um processo cognitivo global fundamental, que possibilita o
agrupamento dos objetos de acordo com características comuns, permitindo um
acesso mais fácil às informações relevantes acerca dessas categoria (e.g.,
Herek, 1998). O processo de categorização engloba também a categorização
social, ou seja, a categorização dos seres humanos.
A categorização social tem implicações diretas sobre o self, na medida em que
implica a auto- categorização do indivíduo, que se percebe a si mesmo como
membro de uma categoria social, com cujos membros compartilha uma identidade
social comum (e.g., Hogg & Abrams, 1988), definindo as relações categóricas
entre o selfe os outros, sejam estes membros do endogrupo, ou membros do
exogrupo (e.g., Hogg & Abrams, 1988).
Tajfel (1959, in Brown, 1995) apontou duas consequências cognitivas da
categorização: (1) diferenças pré-existentes entre as categorias serão
acentuadas e (2) diferenças pré-existentes dentro das categorias serão
atenuadas ' o chamado processo de acentuação percetiva(Tajfel & Wilkes,
1963).
De acordo com a abordagem da identidade social (Tajfel, 1978; Tajfel &
Turner, 1986; Turner, 1975), a acentuação percetiva e viés endogrupal são
fundamentais para a formação dos estereótipos (e.g., Oakes, Haslam, &
Turner, 1994), que são definidos como generalizações sobre as pessoas baseadas
na sua pertença categorial (Hogg & Abrams, 1988, p. 65). De acordo com
esta abordagem, os estereótipos e preconceitos são o resultado de um processo
psicológico adaptativo e racional, que serve funções sociais fundamentais e,
nomeadamente, propósitos grupais específicos (e.g., Tajfel, 1981), sendo a
busca de uma identidade social positiva a base do preconceito e da
discriminação intergrupal.
Estereotipar e discriminar são comportamentos de natureza essencialmente
social, dado que derivam de processos que, embora sejam cognitivos, têm por
base relações intra e intergrupais, e são definíveis, de acordo com Tajfel e
Turner (1986), num continuumque varia entre o comportamento interpessoal e o
comportamento intergrupal.
A teoria da auto-categorização (Turner, Hogg, Oakes, Reicher, & Wetherell,
1987) deriva da teoria da identidade social, e assenta nesta distinção entre o
comportamento interpessoal e intergrupal, e da possibilidade de uma distinção
paralela entre a identidade pessoal e a identidade social (Turner, 1978, 1982,
in Turner & Reynolds, 2004).
Dependendo do nível de identidade saliente num determinado momento, o
comportamento é qualitativamente diferente (e.g., Hogg & Abrams, 1988) e à
medida que passamos de uma definição individual do selfpara uma definição do
selfem termos de identidade social, o comportamento grupal emerge (e.g., Turner
& Reynolds, 2004).
Identidade e homofobia. Quando os indivíduos se encontram num contexto que
torna saliente as suas pertenças grupais, passam a manifestar atitudes e
comportamentos de natureza grupal, que servem o propósito fundamental de
contribuírem para uma identidade social positiva. Segundo a teoria da
autocategorização, esta identidade grupal pode ser ameaçada pela falta de
clareza das fronteiras entre o endogrupo e o exogrupo, ou seja, pela redução da
distintividade intergrupal. A distintividade intergrupal é definida a partir do
estabelecimento de relevantes critérios diferenciadores entre os grupos.
Assim, em relação ao critério da identidade sexual, as pessoas homossexuais são
um grupo de comparação relevante para as pessoas heterossexuais e podem, por
definição, ser percebidos pelo grupo heterossexual dominante, como uma ameaça à
distintividade intergrupal, uma vez que violam as expectativas indexadas aos
papéis tradicionais de género.
O preconceito homofóbico dirigido às pessoas homossexuais, por parte das
pessoas heterossexuais, ao permitir aumentar a clareza das fronteiras grupais
(nós por oposição a eles), assegura a distintividade intergrupal,
contribuindo para fomentar a positividade da identidade social dos membros do
grupo heterossexual dominante.
Contributo desta investigação
Nesta investigação ambicionamos materializar objetivos de duas ordens. Por um
lado, e à semelhança de estudos anteriores, procuramos analisar o papel de um
conjunto de variáveis sociodemográficas nas atitudes manifestadas em relação a
pessoas homossexuais aproveitando para confirmar ou infirmar resultados de
estudos anteriores com preditores da homofobia (e.g., Costa, Pereira, Oliveira,
& Nogueira, 2010; Gato & Fontaine, 2011; Herek, 1991, 1994; Marsiglio,
1993, Seltzer, 1992, in Crawford et al., 1999; Simon, 1998).
Por outro lado, e como objetivo central, baseando-nos nos pressupostos teóricos
apresentados, pretendemos analisar a possível existência de uma relação entre
os níveis de auto-definição pessoal e social e as atitudes manifestadas em
relação a pessoas homossexuais. Concretamente, entre estes pressupostos,
referimo-nos àqueles decorrentes da abordagem da identidade social, que apontam
os processos identitários subjacentes às relações entre categorias sociais
enquanto fatores fundamentais para compreender a emergência do preconceito e da
discriminação, independentemente do alvo dos mesmos.
Assim, sustentados no quadro conceptual da abordagem da identidade social
(Tajfel & Turner, 1986; Turner et al., 1987) e dos estudos empíricos
anteriormente apresentados, delineámos o seguinte conjunto de hipóteses: as
participantes do sexo feminino apresentarão atitudes mais favoráveis e menor
rejeição à proximidade com pessoas homossexuais, do que os participantes do
sexo masculino (hipótese 1); os participantes com níveis de escolaridade mais
elevados apresentarão atitudes mais favoráveis e menor rejeição à proximidade
com pessoas homossexuais, do que os participantes com níveis de escolaridade
mais baixos (hipótese 2); os participantes mais jovens apresentarão atitudes
mais favoráveis e menor rejeição à proximidade com pessoas homossexuais, do que
os participantes mais velhos (hipótese 3); quanto maior o contato interpessoal
com pessoas homossexuais (hipótese 4), quanto mais liberal a ideologia moral
(hipótese 5) e menos tradicionais as crenças de papéis de género (hipótese 6),
mais favorável será a atitude em relação às pessoas homossexuais e menor será a
rejeição à proximidade com pessoas homossexuais.
Como vimos discutindo, a teoria da identidade social preconiza que a emergência
de comportamentos discriminatórios tem origem na necessidade de garantir uma
identidade social positiva, que pode ser assegurada através de estratégias que
maximizem uma distintividade intergrupal favorável ao endogrupo, como sejam a
manifestação de atitudes desfavoráveis relativamente a exogrupos relevantes.
Por seu turno, a teoria da autocategorização propõe que o comportamento do
indivíduo é contextualmente dependente: um contexto que torne saliente uma
definição em termos de identidade social desencadeia comportamentos baseados em
pertenças grupais. Nesta linha de ideias, prevemos que a interação entre o
nível de autodefinição mais valorizado e o contexto de focalização determine o
posicionamento face às pessoas homossexuais. Concretamente, prevemos que será
entre os participantes que valorizem mais o nível social de autodefinição e
simultaneamente estejam focalizados neste mesmo nível de autodefinição, que se
verificarão as atitudes menos favoráveis em relação às pessoas homossexuais e
maior rejeição à proximidade com pessoas homossexuais (hipótese 7).
MÉTODO
Participantes
Participaram no estudo 184 adultos portugueses (123 mulheres), com idades
compreendidas entre os 17 e os 71 anos (M=27.43, DP=13.35) e com escolaridade
entre os quatro e os 24 anos (M=12.46, DP=2.83), que foram aleatoriamente
distribuídos pelas quatro condições (efetivos entre n=11 e n=21, para o sexo
masculino; entre n=24 e n=39, para o sexo feminino), estando equitativamente
distribuídos em função de Sexo, de Idade e de Escolaridade, maior c2(3,
N=184)=1.44, ns.
Procedimento
Solicitamos a estudantes de psicologia que respondessem a um questionário e que
pedissem a uma ou duas pessoas dos seus conhecimentos, que o fizessem também. O
questionário foi-lhes descrito como um inquérito de opinião, no âmbito de um
estudo que fazia parte de uma investigação ao abrigo do programa doutoral em
psicologia. Foram também informados que do carácter voluntário da sua
colaboração e garantido o anonimato e confidencialidade das suas respostas.
Na primeira página do questionário era feito um enquadramento geral do estudo,
bem como fornecida uma instrução relativa ao procedimento de resposta a adotar.
Efetuamos uma manipulação, da qual resultaram duas condições experimentais. O
fator Focalizaçãofoi manipulado por meio do tipo de instrução e perguntas a que
os participantes tiveram de responder, existindo duas condições: Focalização na
Identidade Pessoale Focalização na Identidade Social.Na condição Focalização na
Identidade Pessoalos participantes tiveram de (1) assinalar, de entre um
conjunto de características pessoais, aquelas que consideravam possuir; (2)
escrever outras características que consideravam possuir mas que não estavam
listadas na questão anterior; (3) de todas as características assinaladas ou
evocadas anteriormente, indicar as três que consideravam que melhor os definiam
e, finalmente, (4) selecionar a característica mais importante de todas, e
avaliá-la através de quatro medidas. Na condição Focalização na Identidade
Socialos participantes realizaram a mesma sequência de tarefas, mas neste caso
estas eram relativas a pertenças grupais.
Medidas Dependentes
Características Sociodemográficas. Pedimos aos participantes que reportassem o
seu sexo, idade e anos de escolaridade.
Valor Atribuído aos Níveis Pessoal e Social da Identidade.Medido por um
conjunto de 18 itens focalizados na valorização da identidade pessoal e social
(PSIS ' Personal and Social Identity Scale; Monteiro, Ribeiro, & Serôdio,
2009), com uma escala de resposta de 9 pontos (de 1=discordo totalmentea
9=concordo totalmente). Estes itens foram submetidos a uma Análise em
Componentes Principais (ACP), com rotação varimax, que extraiu duas
componentes: Valorização da Identidade Pessoal (IP), com oito itens (item com
saturação mais baixa de .60) e um a de.73 e Valorização da Identidade Social
(IS), com oito itens (item com saturação mais baixa de .47) e um a de .85
(KMO=.79, Teste de Esfericidade de Bartlettc2 120, N=184=943.13, p<.001;
variância total explicada de 43.39%, respetivamente de 17.74% para IP, e 25.65%
para IS).
Crenças morais e de papéis de género. As crenças morais foram medidas pelos
oito itens da Moral Traditionalism Scale (adaptada a partir de Conover &
Feldman, 1985, in Knight, 1999). As crenças de orientação dos papéis de género
foram avaliadas utilizando 12 itens revistos e adaptados (do conjunto inicial
total de 24 itens originalmente utilizados por Tomeh, 1978). Todas estas
medidas em escalas de 9 pontos (1=discordo totalmente a 9=concordo totalmente).
Os itens das duas escalas foram submetidos a uma ACP, com rotação varimax, que
extraiu para os itens das crenças morais duas componentes: Moral Liberal, com
quatro itens (item com saturação mais baixa de .72) e um a de .75 e Moral
Tradicional, com quatro itens (item com saturação mais baixa de .72) e um a de
.73 (KMO=.72, Teste de Esfericidade de Bartlett c2 28, N=184=361.84, p<.001,
variância explicada de 57.70%, respetivamente de 32.80% para Moral Liberal, e
24.90% para Moral Conservadora,).
E para os itens das crenças relativas aos papéis de género outras duas
componentes: Igualdade- Partilha, com sete itens (item com saturação mais baixa
de .62) e um a de .86 e Família-Trabalho, com três itens (item com saturação
mais baixa de .53) e um a de .39 (correlação média é de r=.173; com esta
correlação média e oito itens o valor de a seria de .63). Foram retirados os
itens No casamento, a responsabilidade do marido para com a esposa e filhos é
mais do que económica., por ser o único a saturar um dos fatores e O homem
não deve esperar que a sua família se ajuste às exigências colocadas pela sua
profissão., por saturar em dois fatores (KMO=.85, Teste de Esfericidade de
Bartlettc2 45, N=184=564.32, p<.001, variância explicada de 52.47%,
respetivamente de 40.12% para Igualdade-Partilha, e 12.35%, para Família-
Trabalho,).
Familiaridade com pessoas homossexuais.Esta medida era composta pelos seguintes
sete itens: Na minha vizinhança (atual ou anteriores) há (havia) pessoas
homossexuais.'; Tenho (tive) colegas de trabalho que são homossexuais.';
Tenho (tive) colegas de escola que são homossexuais.'; Tenho (tive) amigos
que são homossexuais.'; Tenho (tive) colegas de desporto/hobbiesque são
homossexuais.'; Conheço (conheci) pessoas que são homossexuais.'; e No meu
dia-a-dia interajo com pessoas que são homossexuais.' (quatro participantes não
responderam a nenhuma destas medidas). Nos primeiros 6 itens foi utilizada uma
escala Não/Sim e, no último, uma escala de 9 pontos (0=Nuncaa 8=Muitas
vezes). Com os seis primeiros itens foi criada uma medida-soma das respostas
afirmativas (KR20=.70), variável, portanto, entre 0 e 6.
Atitude em relação a pessoas homossexuais. A atitude em relação a pessoas
homossexuais foi avaliada em nove itens: Seria melhor para os homossexuais se,
em relação à sexualidade, adotassem os valores dos heterossexuais., A
homossexualidade fragiliza a nossa cultura e costumes., Os homossexuais
contribuem para a diversidade., Os homossexuais devem sentir- se livres para
interagir socialmente com as outras pessoas., Devíamos tratar os homossexuais
como iguais., Os casais homossexuais devem sentir-se igualmente livres para
manifestarem publicamente os seus afetos, assim como os casais
heterossexuais., A presença de pessoas com orientação sexual homossexual
enriquece as dinâmicas das relações entre as pessoas., O problema dos
homossexuais irem para uma boa vizinhança é que eles vão-lhe dando,
gradualmente, uma atmosfera tipicamente homossexual. e De modo a manter uma
boa vizinhança é melhor evitar que aí vivam homossexuais.. A escala de
resposta tinha 9 pontos (1=discordo totalmentea 9=concordo totalmente).
A ACP, com rotação varimax, extraiu duas componentes: Atitude Favorável, com
cinco itens (item com saturação mais baixa de .68) e um a de .87 e Atitude
Desfavorável, com quatro itens (item com saturação mais baixa de .55) e um a de
.76 (KMO=.86, Teste de Esfericidade de Bartlettc2 36, N=184=865.03, p<.001,
variância explicada de 65.35%, respetivamente de 50.46% para Atitude Favorável,
e 14.89% para Atitude Desfavorável,).
Rejeição à proximidade com pessoas homossexuais.Avaliada através de 10 itens
(anteriormente validados por Pereira, Monteiro, & Camino, 2009): Ter no
seu trabalho uma pessoa homossexual., Receber em sua casa um casal
homossexual., Ter amigos que sejam homossexuais assumidos., Ver casais
homossexuais a namorar., Ter um(a) filho(a) homossexual., Saber que um
familiar próximo é homossexual, Ter um(a) professor(a) homossexual.,
Conversar com homossexuais., Se um(a) filho(a) seu (sua) tivesse amizades
com homossexuais. e Morar com homossexuais assumidos.. Todos estes itens com
uma escala de resposta de 9 pontos (1=Muitíssimo constrangido, 9=Nada
constrangido). Estes itens foram submetidos a uma ACP, com rotação varimax, que
extraiu duas componentes: Proximidade Distante, com seis itens (item com
saturação mais baixa de .75) e um a de .96 e Proximidade Íntima , com quatro
itens (item com saturação mais baixa de .69) e um a de .91 (KMO=.92, Teste de
Esfericidade de Bartlettc2 45, N=184=1988.96, p<.001, variância explicada de
81.68%, respetivamente de 73.53% para Proximidade Distante, e 8.16% para
Proximidade Íntima,).
Para todas as variáveis dependentes reportadas criamos medidas correspondentes
à média dos itens correspondentes. A única exceção foi a medida Grau de
Familiaridade com Homossexuais.
Plano do estudo
Utilizamos um plano quasi-experimental intersujeitos 2 (Nível de Autodefinição
da Identidade mais Valorizado: Pessoal vs. Social) x 2 (Focalização: Identidade
Pessoal vs. Identidade Social).
RESULTADOS
Atitude em Relação a Pessoas Homossexuais em Função de Sexo, Nível de
Escolaridade e Grupo Etário
Para efetuar análises em função das variáveis sociodemográficas, criámos dois
grupos etários, jovens (=23 anos) com 122 participantes (M=19.12, DP=1.28) e
adultos (=24 anos) com 62 participantes (M=43.77, DP=11.03) e 2 grupos quanto à
escolaridade, com 62 participantes no grupo dos menos escolarizados (=12 anos;
M=9.79, DP=2.66) e 122 no grupo dos mais escolarizados (=13 anos; M=13.81,
DP=1.76). Verificámos efeitos de Sexo, Nível de Escolaridade e Grupo Etário em
todas as medidas de preconceito.
Tal como previsto, as mulheres reportaram uma atitude mais favorável em relação
às pessoas homossexuais, do que os homens, tanto para Atitude Favorável
(M=7.27, DP=1.44 vs. M=5.84, DP=1.58, t182=-6.18, p<.001), como para Atitude
Desfavorável (M=2.52, DP=1.35 vs. M=3.93, DP=1.65, t100.54=5.75, p<.001). No
mesmo sentido, as mulheres revelaram menor rejeição à proximidade com pessoas
homossexuais do que os homens, tanto na Proximidade Distante (M=7.96, DP=1.51
vs. M=6.09, DP=2.26, t87.34=-5.85, p<.00) como na Proximidade Íntima (M=6.38,
DP=2.12 vs. M=4.89, DP=2.43, t182=-4.30, p<.001).
Também os participantes mais escolarizados reportaram atitudes
significativamente mais favoráveis em relação a pessoas homossexuais, do que os
participantes menos escolarizados, tanto para Atitude Favorável (M=5.60,
DP=1.51 vs. M=7.40, DP=1.33, t182=-8.29, p<.001), como para Atitude
Desfavorável (M=4.20, DP=1.46 vs. M=2.38, DP=1.28, t182=8.70, p<.001).
Reportaram, igualmente, uma rejeição à proximidade com pessoas homossexuais
significativamente inferior à dos participantes menos escolarizados, tanto para
Proximidade Distante (M=6.18, DP=2.25 vs. M=7.93, DP=1.54, t91,00=-5.51,
p<.001), como para Proximidade Íntima (M=4.74, DP=2.28 vs. M=6.47, DP=2.14,
t182=-5.07, p<.001).
Finalmente, verificamos que os participantes jovens reportaram atitudes mais
favoráveis em relação a pessoas homossexuais, do que os participantes adultos,
tanto para Atitude Favorável (M=7.23, DP=1.58 vs. M=5.95, DP=1.38, t182=5.39,
p<.001), como para Atitude Desfavorável (M=2.58, DP=1.44 vs. M=3.80, DP=1.58,
t182=-5.26, p<.001) e também uma rejeição à proximidade com pessoas
homossexuais inferior à dos adultos, tanto para Proximidade Distante (M=7.71,
DP=1.86 vs. M=6.60, DP=2.05, t182=3.70, p<.001), como para Proximidade Íntima
(M=6.45, DP=2.25 vs. M=4.78, DP=2.08, t182=4.89, p<.001)
Obviamente, este resultado também seria expectável atendendo à relação entre as
variáveis idade e escolaridade dos participantes. Estes resultados no seu
conjunto deram suporte às hipóteses 1, 2 e 3 e foram de encontro a resultados
de investigação precedente (e.g., Costa, Pereira, Oliveira, & Nogueira,
2010; Gato & Fontaine, 2011; Herek, 1991; Seltzer, 1992, in Crawford et
al., 1999; Simon, 1998).
Atitude em Relação a Pessoas Homossexuais em Função de Familiaridade e Grau de
Contacto com Homossexuais
A hipótese 4 recebeu amplo suporte empírico. Por um lado, verificamos
correlações significativas entre as duas medidas de familiaridade com pessoas
homossexuais e as medidas de atitudes. Os valores de correlação variam entre o
mínimo de r(N=180)=.29, p<.001, entre Atitude Favorável e Grau de Familiaridade
com Pessoas Homossexuais, e o máximo de r(N=184)=-.43, p<.001, entre Atitude
Desfavorável e Grau de Contacto Diário com Pessoas Homossexuais. As duas
medidas de familiaridade também tiveram correlação positiva com as duas medidas
de rejeição à proximidade com pessoas homossexuais. Estas correlações variaram
entre o mínimo de r(N=180)=.30, p<.001, entre Rejeição à Proximidade Íntima e
Grau de Familiaridade com Pessoas Homossexuais e o máximo de r(N=184)=.42,
p<.001, entre Rejeição à Proximidade Distante e Grau de Contacto Diário com
Pessoas Homossexuais. Ou seja, em linha com a nossa predição, quanto maior a
familiaridade dos participantes com pessoas homossexuais mais favorável foi a
sua atitude e menor a sua rejeição à proximidade com pessoas homossexuais.
Estes resultados deram suporte à ideia de que as atitudes em relação a pessoas
homossexuais foram influenciadas pelo nível de contato interpessoal com esta
categoria social, tal como preconizado em investigações anteriores (e.g.,
Costa, Pereira, Oliveira, & Nogueira, 2010; Gato & Fontaine, 2011;
Herek, 1991, 1994; Simon, 1998).
Atitude em Relação a Pessoas Homossexuais em Função de Crenças Morais e de
Papéis de Género
Tal como esperado, constatámos que posicionamentos morais mais liberais
estiveram associados a (1) atitudes mais favoráveis tanto na medida Atitude
Favorável, r(N=184)=.42, p<.001, como na medida Atitude Desfavorável, r
(N=184)=-.41, p<.001, e (2) a menor rejeição à proximidade tanto na Rejeição à
Proximidade Distante, r(N=184)=.48, p<.001, como na Rejeição à Proximidade
Íntima, r(N=184)=.41, p<.001.No mesmo sentido, posicionamentos morais mais
conservadores estiveram associados a posicionamentos mais negativos nas mesmas
medidas. Os valores de correlação correspondentes foram r(N=184)=-.38, p<.001,
entre Moral Conservadora e Atitude Favorável, r(N=184)=. 54, p<.001, entre
Moral Conservadora e Atitude Desfavorável, r(N=184)=-.32, p<.001, entre Moral
Conservadora e Rejeição à Proximidade Distante e r(N=184)=-.27, p<.001, entre
Moral Conservadora e Rejeição à Proximidade Íntima.
Os resultados nas dimensões dos papéis de género foram também consistentes com
as nossas predições. Constatámos que quanto mais os participantes concordaram
com a dimensão Igualdade- Partilha (e, portanto, mais liberais os seus
posicionamentos face aos papéis de género), mais favoráveis foram as suas
atitudes em relação a pessoas homossexuais [r(N=184)=.49, p<.001 e r
(N=184)=-.47, p<.001, com Atitude Favorável e com Atitude Desfavorável,
respetivamente] e menor foi a sua rejeição à proximidade com pessoas
homossexuais [r(N=184)=.49, p<.001 e r(N=184)=.35, p<.001, com Proximidade
Distante e com Proximidade Íntima, respetivamente].
Uma vez mais, este conjunto de resultados, suportou empiricamente as hipóteses
5 e 6 e esteve em linha com resultados de estudos anteriores nos quais se
verificou que posicionamentos menos conservadores estão associados a atitudes
mais favoráveis em relação a pessoas homossexuais (e.g., Gato & Fontaine,
2011; Herek, 1991, 1994; Simon, 1998).
Atitude em Relação a Pessoas Homossexuais em Função da Valorização dos Níveis
de Autodefinição da Identidade e da Focalização nos Níveis de Autodefinição
A hipótese final implicava a interação entre o nível de autodefinição da
identidade mais valorizado e o contexto de focalização, na manifestação da
atitude relativamente a pessoas homossexuais. Concretamente, prevíamos que
seriam os participantes que, simultaneamente, valorizassem mais o nível social
de autodefinição e que estivessem focalizados nesse mesmo nível no contexto de
julgamento, aqueles que apresentariam atitudes menos favoráveis em relação a
pessoas homossexuais.
Para testarmos esta hipótese criámos duas novas variáveis, que designamos de
Valorização Diferenciada IP e Valorização Diferenciada IS. Valorização
Diferenciada IP foi criada a partir do valor da mediana da variável IP
(Md=6.50), resultando na criação de dois grupos, os que valorizaram o nível de
autodefinição pessoal abaixo da mediana (1=IP<6.50) e os que o valorizaram
acima desse valor (2=IP=6.50). De forma similar, Valorização Diferenciada IS
foi criada a partir do valor da mediana da variável IS (Md=6.13), resultando na
criação de dois grupos, os que valorizaram o nível de autodefinição social
abaixo da mediana (1=IS<6.13) e os que o valorizaram acima desse valor
(2=IS=6.13).
Efetuámos ANOVAs entrando os fatores Valorização Diferenciada IP, Valorização
Diferenciada IS e Focalização, através das várias medidas de preconceito. Estas
análises revelaram a interação de segunda ordem requerida pela nossa hipótese
apenas nas medidas Atitude Desfavorável, F(1,176)=10.46, p=.001, h2=.056 (e
ainda a interação Focalização x Valorização Diferenciada IP, F1,176=4.36,
p=.038, h2=.024) e Proximidade Distante, F(1,176)=5.03, p=.026, h2=.028 (nenhum
outro efeito ou interação significativa, maior F1,176=2.39, ns). Nas restantes
medidas de preconceito as ANOVAs não revelaram efeitos significativos. A
decomposição pelo fator
Valorização Diferenciada IS não revelou o padrão previsto na nossa hipótese
(não foi encontrado qualquer efeito ou interação significativa nos
participantes que valorizaram IS acima da mediana. Maior F1,84=2.89, ns, para
fator Valorização Diferenciada IP, na medida Atitude Desfavorável). No Quadro_1
apresentamos os padrões de resultados relativos a estas duas medidas.
Decompondo a interação de segunda ordem na Atitude Desfavorável em função do
fator Focalização, verificamos uma interação Valorização Diferenciada IP vs.
Valorização Diferenciada IS, F(1,86)=11.68, p=.001, h2=.12, na condição de
Focalização IP. O mesmo não se verificou na condição Focalização IS, F(1,
90)=1.83, ns. Aquela interação mostrou que entre os participantes focalizados
em IP, e que valorizaram IP acima da mediana, os que, simultaneamente,
valorizaram IS abaixo da mediana reportaram atitudes mais desfavoráveis
(M=3.80), do que aqueles que valorizaram IS acima da mediana (M=2.32), F
(1,43)=12.36, p=.001. Já entre os participantes focalizados em IP, mas que
valorizaram IP abaixo da mediana (baixo IP), este efeito não foi significativo
(F1,43=1.70, ns).
A mesma decomposição da interação de segunda ordem na medida Proximidade
Distante revelou aquela mesma interação na condição de Focalização IP, F
(1,86)=7.29, p=.008, h2=.078. Também neste caso, o mesmo não se verificou na
condição Focalização IS, F(1,90)<1. O padrão de resultados foi consistente com
o que acima reportámos, neste caso, entre aqueles mesmos participantes (i.e.,
focalizados em IP e que valorizaram IP acima da mediana), os que valorizaram IS
abaixo da mediana reportaram maior rejeição à proximidade distante (M=6.32), do
que os que valorizaram IS acima da mediana (M=7.83), F(1,43)=5.60, p=.023. Uma
vez mais, entre os participantes focalizados em IP, mas que valorizaram IP
abaixo da mediana, este efeito não foi significativo (F1,43=1.87, ns).
No conjunto, estes dois resultados, não foram consistentes com a nossa
predição, e revelaram um padrão que não prevíramos: verificaram-se atitudes
mais desfavoráveis em relação a pessoas homossexuais entre os participantes que
valorizaram mais fortemente IP (e pouco IS) e que foram focalizados neste nível
de auto-definição.
De seguida fizemos análises de variância em função das variáveis
sociodemográficas Sexo, Nível de Escolaridade e Grupo Etário. Devido ao efetivo
insuficiente para efetuar análises de variância entrando os três fatores, estas
foram realizadas entrando um fator de cada vez.
Nas análises efetuadas com o fator Sexo não foram encontrados quaisquer efeitos
significativos. Nas análises com o fator Nível de Escolaridade verificámos uma
interação Nível de Escolaridade x Focalização, na medida Proximidade Distante,
F(1,180)=3.94, p=.049, h2=.021.
Decompondo esta interação encontrada em função do fator Focalização, constatou-
se que os participantes menos escolarizados, independentemente de estarem
focalizados em IP ou IS, reportaram maior rejeição à proximidade, do que os
participantes mais escolarizados nas mesmas condições (M=6.57, DP=2.37 vs.
M=7.78, DP=1.63, F1, 88=8.23, p=.005, h2=.086, para menos escolarizados e mais
escolarizados focalizados em IP e M=5.74, DP=2.06 vs. M=8.07, DP=1.47, F1,
92=39.04, p<.001, h2=.298, para menos escolarizados e mais escolarizados
focalizados em IS).
Finalmente as análises com Grupo Etário revelaram duas interações Grupo Etário
x Focalização, uma na medida Proximidade Distante, F(1,180)=6.22, p=.014,
h2=.033 e outra na medida Proximidade Intima, F(1, 180)=4.95, p=.027, h2=.027.
Verifica-se ainda uma interação Grupo Etário x Valorização Diferenciada IS na
medida Atitude Favorável, F(1,180)=4.51, p=.035, h2=.024. Nos Quadros 2 e 3
estão sumarizados os resultados destas análises.
Como apresentado no Quadro_2, a decomposição da interação Grupo Etário x
Focalização, na medida Proximidade Distante, em função de Focalização revelou
que os participantes adultos focalizados em IS reportaram maior rejeição à
proximidade distante (M=6.11), do que os participantes jovens focalizados em IS
(M=7.95), F(1,92)=21.96, p<.001, h2=.193. O mesmo não se verificou na condição
Focalização IP, F(1,88)<1.
Decompondo esta mesma interação pelo fator Grupo Etário, constatou-se que nos
participantes adultos, os que foram focalizados em IS reportaram uma rejeição à
proximidade distante marginalmente superior (M=6.11), aos que foram focalizados
em IP (M=7.10), F(1,60)=3.74, p=.058, h2=.059. Entre os participantes jovens
este efeito não foi significativo (F1,120=2.20, ns).
No que concerne à medida Proximidade Íntima, decompondo a interação Grupo
Etário x Focalização em função deste último fator encontrou-se um padrão
similar ao verificado na Proximidade Distante. Neste caso verificou-se que
entre os participantes focalizados em IS, os adultos reportaram maior rejeição
à proximidade íntima (M=4.39), do que os jovens (M=6.80), F(1,92)=30.19,
p<.001, h2=.247. Na condição em que os participantes foram focalizados em IP,
não se verificou este efeito de Grupo Etário, F(1,88)=3.05, ns.
Por outro lado, decompondo, em alternativa, esta mesma interação em função de
Grupo Etário, verificou-se que entre os participantes jovens, aqueles que foram
focalizados em IS, reportaram uma rejeição à proximidade íntima marginalmente
menor (M=6.80), do que os que foram focalizados em IP (M=6.08), F(1,120)=3.23,
p=.075, h2=.026. Entre os participantes adultos este efeito não foi
significativo, F(1,60)=2.25, ns.
Analisando o Quadro_3, constatámos que, de forma consistente com o resultado
anterior, quando decompusemos a interação Grupo Etário x Valorização
Diferenciada IS na medida Atitude Favorável, em função do fator Grupo Etário,
verificámos que os jovens que valorizaram IS acima da mediana reportaram uma
atitude mais favorável (M=7.52), do que os jovens que valorizaram IS abaixo da
mediana (M=6.90), F(1,120)=4.97, p=.028, h2=.04. Entre o grupo dos adultos o
efeito de Valorização Diferenciada IS não foi significativo, F(1,60)=1.13, ns.
Alternativamente, a decomposição desta interação em função de Valorização
Diferenciada IS, revelou que entre os participantes que valorizaram IS abaixo
da mediana, os jovens reportaram atitudes mais favoráveis (M=6.90) do que os
adultos (M=6.10), F1,94=6.16, p=.015, h2=.06, verificando-se o mesmo padrão
entre os participantes que valorizaram IS acima da mediana, sendo a diferença
entre os jovens (M=7.52) e adultos (M=5.72) simplesmente mais acentuada
(F1,86=26.86, p<.001, h2=.24).
Uma vez que nas análises efetuadas com as variáveis demográficas cada fator foi
analisado separadamente, os resultados encontrados nestas análises apenas
poderiam fornecer apoio parcial à última hipótese em estudo. De facto, entre os
resultados obtidos o único que parcialmente suportou esta hipótese foi aquele
reportado entre os participantes adultos. Em linha com a teoria da
autocategorização, na condição em que este grupo de participantes foi
focalizado nas suas pertenças grupais (um contexto Focalização em IS),
verificou-se maior rejeição à proximidade. Os demais resultados, que serão
discutidos em pormenor adiante, embora relevantes, não deram suporte empírico à
hipótese enunciada.
DISCUSSÃO
As análises nas medidas de preconceito, em função, quer de variáveis
sociodemográficas (sexo, nível de escolaridade, idade), quer de variáveis
psicossociais (posicionamentos morais, de papéis de género e familiaridade com
homossexuais) revelaram padrões consistentes com a investigação neste domínio.
Os resultados estão em linha com evidência prévia, nomeadamente ao verificar-se
que atitudes mais favoráveis em relação a pessoas homossexuais estão mais
associadas ao sexo feminino (e.g., Costa, Pereira, Oliveira, & Nogueira,
2010; Gato & Fontaine, 2011; Seltzer, 1992, in Crawford et al., 1999), à
menor idade e a níveis de escolaridade mais elevados (e.g., Herek, 1991; Simon,
1998), bem como a graus de familiaridade mais elevados com pessoas homossexuais
(e.g., Costa, Pereira, Oliveira, & Nogueira, 2010; Gato & Fontaine,
2011; Herek, 1991, 1994; Simon, 1998) e a posicionamentos morais e de papéis de
género menos tradicionais (e.g., Gato & Fontaine, 2011; Herek, 1991, 1994;
Marsiglio, 1993, Seltzer, 1992, in Crawford, McLeod, Zamboni, & Jordan,
1999; Simon, 1998). Este conjunto de resultados permitiram sustentar as nossas
primeiras seis hipóteses em estudo.
A hipótese 7 configurou a principal inovação neste estudo, no domínio das
atitudes em relação a pessoas homossexuais, ao testar a existência de relação
entre níveis contrastantes de autodefinição da identidade e o preconceito.
Nomeadamente, o potencial efeito de uma valorização diferenciada dos níveis de
autodefinição, bem como a saliência contextual desses níveis de autodefinição
na manifestação de comportamentos discriminatórios.
No entanto, o conjunto dos resultados que testaram esta última hipótese, não
forneceu evidências claras e inequívocas que a possam sustentar.
Nas análises com a amostra global não foi possível encontrar evidência que
sustentasse a nossa hipótese. De facto, encontrámos um padrão de resultados
oposto ao que esperávamos. Nem a valorização do nível social de autodefinição,
nem a focalização neste nível de auto-definição contribuiu para a manifestação
de posicionamentos mais desfavoráveis em relação a pessoas homossexuais. Pelo
contrário, entre os participantes que valorizaram mais fortemente o nível
pessoal de autodefinição e que foram focalizados neste nível de autodefinição,
a valorização simultânea do nível social de autodefinição conduziu à
manifestação, quer de uma atitude menos desfavorável, quer de menor rejeição à
proximidade distante. Isto é, a valorização das pertenças grupais, contribuiu
para um posicionamento mais favorável em relação a pessoas homossexuais, o que
não seria de esperar, no quadro conceptual que enunciámos. De facto, o que
verificámos foi que a valorização mais forte do nível pessoal da identidade em
conjunção com a focalização contextual neste mesmo nível de autodefinição,
conduziu à manifestação de atitudes mais desfavoráveis e de maior rejeição à
proximidade distante.
Os resultados destas análises globais, quando articulados com os resultados das
análises parciais, fornecem resultados que, embora não tenham sido
conceptualmente previstos são, em nosso entender, relevantes na análise das
atitudes dirigidas à categoria social dos homossexuais em particular mas,
porventura, também nas atitudes em geral face a grupos alvo de discriminação
social.
Em primeiro lugar, quando a uma forte valorização do nível pessoal de
autodefinição se conjugou um contexto que focalizou os participantes nessa
identidade pessoal, assistiu-se à emergência de atitudes de diferenciação
negativa em relação a pessoas homossexuais.
Na identidade pessoal, o foco encontra-se na diferenciação entre o selfe os
outros, e a identidade é definida a partir das características que diferenciam
o indivíduo dos outros indivíduos. Daí que, quando o sujeito valoriza mais
fortemente a dimensão pessoal da sua identidade, qualquer outro que apresente
uma ou mais características não partilhadas com ele, poderá ser alvo de
apreciações mais desfavoráveis, na tentativa de preservação do selfe da sua
individualidade. Em função dos objetivos do presente estudo recorremos a um
grupo social particular ' as pessoas homossexuais. Para se testar a hipótese de
que as atitudes discriminatórias que verificámos resultam de um processo de
individualização, seria necessário acrescentar no estudo um, ou mais alvos
pertencentes a outras categorias sociais. Se o mesmo padrão de resultados
ocorresse, tal evidência sustentaria esta interpretação.
Em segundo lugar, alguns resultados parecem fornecer evidências acerca de uma
mudança de atitudes, no que concerne à interiorização de uma norma social de
não-discriminação das pessoas homossexuais. Por um lado, os participantes
adultos focalizados na dimensão social da sua identidade manifestaram maior
rejeição à proximidade, do que os participantes jovens nas mesmas condições e
também do que os adultos focalizados na dimensão pessoal da sua identidade. Por
outro lado, entre os jovens, tanto a valorização do nível social de
autodefinição, como a focalização neste nível de autodefinição, conduziu à
manifestação de atitudes mais favoráveis e menor rejeição à proximidade, do que
a valorização do nível pessoal de autodefinição ou a focalização neste nível de
autodefinição. Isto é, enquanto os jovens quando focalizados na dimensão social
da sua identidade reportaram atitudes mais favoráveis, do que os jovens
focalizados na dimensão pessoal da sua identidade, com os adultos passou-se o
oposto.
A interpretação conjunta destes resultados permite, em nosso entender, sugerir
que quando os adultos, cuja socialização ocorreu em parte num contexto social
onde não era saliente a norma de não-discriminação, são confrontados com um
contexto que torna saliente as suas pertenças grupais, adotam os comportamentos
de diferenciação positiva preconizados pela abordagem da identidade social,
derrogando os membros deste exogrupo relevante. Já entre os jovens, cujo
processo de socialização ocorreu mais provavelmente num contexto social onde a
norma de não-discriminação esteve saliente, a evocação de um contexto que os
focaliza nas suas pertenças grupais, não conduz à manifestação de diferenciação
positiva face à categoria social dos homossexuais. Porventura, porque o
critério diferenciador ' a orientação sexual ' é menos aceite socialmente para
elicitar tais atitudes discriminatórias. Isto não quer necessariamente dizer
que os jovens não sejam sensíveis a um contexto que torne saliente as suas
pertenças sociais. Para se poder aferir se se trata de uma mudança de atitude
em relação a uma categoria social em particular, ou se se trata de uma mudança
de atitude em relação à discriminação, seria necessário realizar outras
investigações, no sentido de verificar se o padrão de resultados aqui
encontrado se replica relativamente a membros de outras categorias sociais, com
critérios de diferenciação (ainda) socialmente vigentes.
Finalizamos referindo algumas limitações, bem como alguns contributos e pistas
para investigações futuras. Uma limitação inerente a este estudo prende-se com
o desconhecimento acerca da orientação sexual dos participantes. No entanto, e
tendo em conta que (1) se estima em 10% a percentagem de pessoas homossexuais
na população (estimativa que, em Portugal, não foi ainda confirmada por nenhum
estudo; cf. Savin-Williams, 2006 e Bagley & Tremblay, 1998, para estudos
sobre prevalência da homossexualidade) e que (2) seriam de esperar respostas
mais favoráveis e menos estereotipadas de participantes homossexuais, pode-se
dizer com alguma segurança, que esta limitação não invalida, por si mesma, as
conclusões aqui extraídas.
É também importante exercer prudência ao nível da generalização dos resultados
por dois motivos: (1) embora a amostra inclua participantes de idade e
escolaridade variada e de ambos os sexos, foi utilizada uma amostragem de
conveniência e, (2) apenas se verificaram resultados significativos nas
análises que testam o efeito moderador de variáveis sociodemográficas.
Este estudo contribuiu para identificar numa amostra portuguesa mais
representativa (ainda existem poucos estudos feitos em Portugal e muita
investigação anterior, quer nacional, quer internacional, utilizou
maioritariamente amostras constituídas por jovens altamente escolarizados) a
relação estabelecida entre algumas variáveis sociodemográficas e psicossociais
e as atitudes em relação a pessoas homossexuais.
Finalmente, parece-nos que o principal contributo deste estudo se situa na
análise entre as possíveis conexões entre os níveis de autodefinição da
identidade e as atitudes dirigidas a pessoas homossexuais, concretamente,
perceber de que forma a definição de identidade do indivíduo opera ao nível das
suas atitudes e qual o impacto que os contextos podem ter na manifestação de
comportamentos discriminatórios.