Percepção de Competência Parental: Exploração de domínio geral de competência e
domínios específicos de auto-eficácia, numa amostra de pais e mães portuguesas
INTRODUÇÃO
A parentalidade representa, muito provavelmente, o papel mais satisfatório
desempenhado pelo adulto, e ao mesmo tempo, o desafio mais exigente no seu
ciclo de vida adulta, dadas as demandas intelectuais, emocionais e físicas que
implica, tanto para as mães, como para os pais. No entanto, cada pai pode
vivenciar este papel de diversas formas, sentindo-se mais ou menos competente
no desempenho do mesmo (Meunier & Roskam, 2009).
A avaliação que os pais fazem sobre a sua parentalidade e a forma como estes
fazem críticas ao seu próprio desempenho pode ter um papel directo ou indirecto
no desenvolvimento das crianças (Colman & Karreker, 1997; Jones &
Prinz, 2005; Shumow & Lomax, 2002; Teti & Gelfand, 1991). Identificar
quais as cognições parentais mais suscetíveis de estarem relacionadas com um
bom ajustamento pessoal ao papel parental e às práticas parentais positivas
(Bornstein et al., 2003) é, ainda, um objectivo importante da investigação
actual, tanto pelas implicações no adulto, como no desenvolvimento da criança
(Okagaki & Bingham, 2005).
Na literatura sobre a parentalidade, diferentes construtos que se referem ao
sentimento de competência parental têm sido descritos, nomeadamente
agencyparental (Dumka, Stoerzinger, Jackson, & Roosa, 1996), locus-de-
controlo parental (Campis, Lyman, & Prentice-Dunn, 1986), competência
parental percebida (Ballenski & Cook, 1982), sentimento de competência
parental geral (Johnston & Mash, 1989) e crenças de auto-eficácia (Bandura,
1982), sendo, segundo Bornstein et al. (2003) esta diversidade devido ao facto
de o constructo sentimento de competência parental poder ser composto por
diferentes componente modelares: satisfação, investimento, autoeficácia,
balanço entre papéis da vida adulta.
De um modo geral, estas diferentes abordagens referem-se às expectativas e
crenças que o indivíduo tem acerca da sua capacidade para desempenhar o papel
parental de forma competente e eficaz (Teti & Gelfand, 1991). Considera-se
que um pai é eficaz quando é capaz de reconhecer as necessidades da criança e
satisfazê-las de modo adequado, na medida em que possui conhecimento para tal e
tem confiança nas suas competências para desempenhar essas tarefas (Bandura,
1982).
A capacidade para lidar com as exigências do papel parental, sem sentimentos de
frustração ou incompetência elevados (Junttila, Vauras, & Laakkonen, 2007)
é, também, um aspeto a considerar, o que tem levado alguns autores a ter em
conta dimensões como satisfação (Johnston & Mash, 1989) e/ou investimento/
interesse no papel parental (Ferreira, Veríssimo, Santos, Fernandes, &
Cardoso, 2011; Rogers & Matthews, 2004) ou controlo (Gilmore &
Cuskelly, 2008).
Autoeficácia Parental Percebida
Nas últimas década tem-se dado particular atenção aos aspectos do sentimento de
competência parental relacionados com as componentes de percepções de auto-
eficácia, e procurado estabelecer complementarmente como a capacidade percebida
pelos pais pode influenciar positivamente o comportamento e o desenvolvimento
dos seus filhos (Coleman & Karraker, 1997; Meunier & Roskam, 2009).
Alguns estudos longitudinais sugerem que a percepção de autoeficácia é
relativamente estável ao longo do tempo (Coleman & Karraker, 2003) e que as
mães revelam ter níveis de percepção de autoeficácia parental superiores aos
dos pais (Salonen et al., 2009). No entanto, de acordo com Bandura (1989), a
autoeficácia é dinâmica, podendo estar sujeita a modificação se os
determinantes da tarefa, da situação ou do processo de desenvolvimento
individual forem alterados.
De acordo com a teoria da autoeficácia (Bandura, 1982), a aquisição de novas
competências é facilitada pela percepção de autoeficácia, destacando-se os pais
como mais competentes na disciplina e as mães como mais competentes no afeto e
cuidado instrumental, o que vai de encontro às crenças relativas às diferenças
entre géneros, que apontam para a mãe como mais carinhosa e o pai mais rígido
(Meunier & Roskam, 2009). Os pais com níveis mais baixos de escolaridade
são os que se sentem menos competentes a ensinar e a cuidar da criança mas, por
sua vez, têm maior controlo sobre as crenças nos resultados. Pais com três ou
mais filhos sentem-se menos competentes a brincar e os que têm apenas um filho
sentem-se mais competentes no afeto (Meunier & Roskam, 2009). Relativamente
à figura materna, existem estudos que indicam a associação entre uma elevada
percepção de autoeficácia e práticas parentais positivas, tais como a
capacidade de fornecer à criança um ambiente saudável e feliz, e a habilidade
para entender os sinais da criança.
Quando a percepção de autoeficácia é baixa surge associada a diversos
resultados negativos, como a depressão ou dificuldades externalizantes na
criança (Coleman & Karraker, 1997; Salonen et al., 2009; Teti &
Gelfand, 1991). Com base na sua revisão, Coleman e Karreker (1997) referem
ainda que a percepção de autoeficácia é baixa, e se encontra associada a
diferentes variáveis parentais, tais como, indisponibilidade psicológica,
comportamentos defensivos ou de controlo, afecto negativo, stress, e uma
elevada sensibilidade e evitamento face a situações em que as crianças
expressam comportamentos difíceis. Por outro lado, e relativamente ao pais,
alguns estudos encontraram uma associação positiva entre a percepção de
autoeficácia paterna e o envolvimento nos cuidados à criança (Jacobs &
Kelley, 2006; Juntilla et al., 2007; Tremblay & Pierce, 2011), bem como a
satisfação e autoestima dos pais (Meunier & Roskam, 2009).
Alguns estudos têm revelado que a percepção de autoeficácia paterna possui
preditores diferentes dos da materna (Sevigny & Loutzenhiser, 2009), sendo
mais influenciável por fatores externos, como as políticas, leis e valores de
cada país (Hofferth, 2003; Kiehl & White, 2003), assim como pelo tamanho e
funcionamento da família (Meunier & Roskam, 2009; Salonen et al., 2009). Os
pais são, também, influenciados pelas características da criança (e.g., idade)
(Salonen et al., 2009), assim como por variáveis intrínsecas a eles próprios
(Sevigny & Loutzenhiser, 2009). A idade dos pais, a educação e o estado
matrimonial não parecem influenciar a percepção de autoeficácia parental
(Meunier & Roskam, 2009; Salonen et al., 2009).
Um aspeto importante da investigação actual é o modo como a autoeficácia
percebida pelos pais é analisada. Existem três abordagens disponíveis na
literatura. A primeira, refere-se a tarefas específicas (Task-specific
approach) e foca as percepções que os pais têm acerca da sua competência
relativamente a eventos específicos da parentalidade, tais como mudar fraldas,
dar banho, deitar ou tratar de uma criança com febre (Ballenski & Cook
1982; Teti & Gelfand, 1991). A segunda abordagem reporta-se a domínios
específicos da parentalidade (Domain specific approach) e avalia a percepção
genérica de competência dos pais em áreas discretas da parentalidade, tais como
ensinar algo aos filhos, brincar, estabelecimento de limites, prestar cuidados
físicos, dar afecto e ter disponibilidade emocional, etc. (Coleman &
Karraker, 2003; Meunier & Roskam, 2009). A terceira abordagem, de domínio
geral do papel (Domain general approach) onde a auto-eficácia parental é vista
como uma forma conceptual distinta da percepções de auto-eficácia global dos
indivíduos e coloca o foco nas percepções de competência percebida dos pais
relativamente ao domínio da parentalidade como um todo (e.g., se o sujeito se
considera um bom modelo de pai para outros pais ' Ferreira et al., 2011;
Gilmore & Cuskelly, 2008; Johnston & Mash, 1989).
Domínio específico e Domínio geral da auto eficácia percebida
A literatura tem demonstrado moderada associação entre o domínio específico e
domínio geral de autoeficácia parental percebida (Coleman & Karraker, 2003;
Meunier & Roskam, 2009). Ambos os níveis de análise de autoeficácia
parental percebida pelos pais têm obtido associações significativas com
dimensões de funcionamento parental e ajustamento das crianças, tais como,
comportamento parental mais adequado e de suporte (Izzo, Weiss, Shanahan, &
Rodriguez-Brown, 2000), baixo stress e depressão (Gross, Conrad, Fogg, &
Wothke, 1994), ajustamento socio- emocional (Bohlin & Hagekull, 1987) e
sucesso académico (Ardelt & Eccles 2001).
Resultados disponíveis na literatura especializada demonstram maior validade
preditiva quando a autoeficácia é medida em relação a domínios específicos da
parentalidade (e.g., brincadeira, disciplina) do que quando é medida a
autoeficácia parental de forma geral (Coleman & Karraker, 1997, 2003;
Meunier & Roskam, 2009; Sanders & Woolly 2005), de acordo com a
hipótese teórica de Bandura (1989). No estudo de Coleman e Karraker (2003), 68
mães preencheram o questionário da autoeficácia parental de domínio geral e de
domínio específico e, em laboratório, os comportamentos maternos e da criança
foram observados durante episódios de interação. Muito embora o domínio geral e
específico de crenças acerca da auto-eficácia parental não se encontrasse
associados com a competência parental observada em situação de laboratório, os
resultados revelaram associações significativas entre crenças de domínio
específico e outras seis variáveis: Evitamento da mãe, afeto dirigido à mãe,
condescendência, entusiasmo, e negatividade.
Os resultados disponíveis na literatura parecem indicar que crianças de mães
com níveis mais elevados de autoeficácia apresentaram índices de
desenvolvimento superiores e interagem de modo mais positivo, apresentando
menos comportamentos negativos. Contudo, a abordagem dominante tem sido o uso
das medidas gerais (e.g., Johnston & Mash, 1989), o que poderá dever- se ao
facto de as medidas específicas serem ainda raras, comparativamente às medidas
gerais.
Torna-se necessário aprofundar a compreensão dos processos subjacentes às
percepções de autoeficácia geral e específica, bem como compreender associações
com características indivi- duais, contextuais e sociodemográficas, resultados
no âmbito da parentalidade e desenvolvimento das crianças. Por outro lado, a
grande maioria dos estudos tem-se focado em amostras constituídas por mães. No
estudo recente de Meunier e Roskam (2009), os autores compararam pais com mães
utilizando uma medida de domínio específico e, consistentemente com os
estereótipos, as mães revelaram-se mais competentes que os pais. Os pais
percepcionaram-se mais competentes no domínio da disciplina e as mães nos
domínios de cuidados instrumentais e disponibilidade e suporte emocional e
valorização.
Considerando que a promoção do sentimento de competência parental tem sido um
dos focos mais salientes dos programas de formação/educação parental (e.g.,
Peterson, Tremblay, Ewigman, & Saldana, 2003; Sofronoff & Farbotko,
2002), é fundamental compreender as associações entre as percepções de auto-
eficácia parentais de domínio geral e específico, quer para as mães, quer para
os pais. Neste sentido, o presente estudo constitui-se como um contributo para
este inquérito.
MÉTODO
Participantes
Participaram 198 famílias bi-parentais. 75.1% destes pais estão casados (75.1%)
ou em união de facto (24.9%). As mães tinham idades compreendidas entre 19 e 47
anos (M=33.91; DP=9.32) e os pais entre 21 e 62 anos (M=35.43; DP=4.72). As
mães tinham em média 12.68 (DP=3.77) de escolaridade e os pais 10.84 (DP=3.6).
Em 159 (80,7%) famílias ambos os pais trabalham, em 32 (16,2%) famílias só um
dos pais está empregado e em 6 (3%) famílias ambos os pais estão desempregados.
As mães trabalhavam em média 38.57 (DP=7.59) horas semanais e os pais 41.03
(DP=9.80). As crianças tinham entre 18 e 61 meses (M=42.54; DP=9.32); 84 são
raparigas e 114 rapazes. Destas, 112 têm irmãos. As crianças frequentam
creches/jardins-de-infância do ensino público e privado (onde passam em média
8.25 horas; DP=1.34), pertencentes ao distrito de Lisboa e Santarém. As
famílias foram recrutadas através da creche/jardim-de-infância das crianças.
Instrumentos/Procedimento
Após as autorizações necessárias de escolas e pais, os questionários foram
entregues pelas educadoras das salas frequentadas pelas crianças às mães e aos
pais em momentos distintos, contrabalançando-se a ordem de entrega: 50%
primeiro às mães e 50% primeiro aos pais.
Ficha de identificação e caracterização sociodemográfica (Veríssimo, s.d.)
Foi preenchida pelas mães e pretendia recolher informação relativa a dados como
a idade, as habilitações literárias, o estado civil, o trabalho dos pais, nº de
irmãos das crianças, respectivas idades e sexo, e o tipo escola das crianças.
Sentimento de Competência Parental
A Escala de Sentimento de Competência Parental (Ferreira et al., 2011) é uma
adaptação para a língua portuguesa da Parenting Sense of Competence Scale
(Johnston & Mash, 1989). Assumindo uma forma de questionário de 17 itens, a
ESCP permite avaliar a percepção geral de competência parental, enquanto
domínio geral, e é composta por três subescalas: (1) Eficácia (composta por 7
itens), que indica o grau em que cada pai se sente competente/capaz de resolver
os problemas da criança (e.g., Se há alguém que consegue perceber quando algo
não está bem com o meu filho(a), sou eu.); (2) Satisfação (composta por 5
itens), que indica o grau em que cada pai se sente frustrado, ansioso e pouco
motivado no seu papel pai (e.g., Ser pai faz-me sentir tenso e ansioso.); e
(3) Interesse (composta por 3 itens), que indica o interesse dos progenitores
na tarefa da parentalidade (e.g., Se ser pai de uma criança fosse um pouco
mais interessante, eu estaria motivado para desempenhar melhor esse papel.).
Oito itens são invertidos (1, 6, 7, 10, 11, 13,15, 17). Com base nos resultados
obtidos por Johnston e Mash (1989) e Ferreira et al. (2011), os itens 8 e 17
foram retirados das análises por não cumprirem o critério de fiabilidade
individual. Os pais indicam o seu nível de concordância com as afirmações numa
escala de 6 pontos (1-concordo fortemente; 6-discordo fortemente). Análises de
consistência interna das subescalas através do coeficiente de alfa-
Cronbachrevelaram fiabilidade moderada e forte, respectivamente para as
subescalas de satisfação (.74) e eficácia parental (.94). A subescala de
interesse parental foi excluída das análises sucessivas por não ter obtido
valores de consistência interna aceitáveis (.53).
Perceção de Autoeficácia das Tarefas Parentais
A Escala de Percepção de Eficácia das Tarefas Parentais (PETP) é uma adaptação
para a língua portuguesa da escala original The Self-efficacy for Parenting
Tasks Índex ' Toddler Scale(Coleman & Karraker, 2003). Avalia a perceção
que o pai/mãe tem da sua eficácia em 7 domínios específicos ' delineados por
Zeanah e colaboradores (1997) e originalmente propostos por Emde (1989) ' que
se encontram conceptualmente relacionados com o desenvolvimento da criança, no
que diz respeito a dimensões de cuidados relacionais e de socialização nas
vivências familiares. Na versão original, a escala PETP é constituída por 53
itens organizados em sete dimensões: (1) a Disponibilidade emocional, composta
por sete itens que analisam a perceção que os pais têm da prontidão e
facilidade para atenderem às necessidades afectivas dos filhos (e.g., Quando o
meu filho(a) precisa de mim, tenho facilidade em deixar de lado o que estiver a
fazer.) e cuja consistência interna, computada por coeficiente de a-Cronbach,
foi de .67; (2) a Ternura, valorizar a criança e capacidade de responder
empaticamente composta por oito itens que analisam a perceção dos pais acerca
do reconhecimento, valorização e crença dos filhos nas suas capacidades para
responderem de forma empática às suas necessidades (e.g., O meu filho(a) sabe
que eu compreendo quando os seus sentimentos são magoados.) e com um a-
Cronbachde .71; (3) a Proteção, constituída por sete itens que analisam a
percepção de dificuldade por parte dos pais nas tomadas de decisão,
nomeadamente nas questões de segurança da criança, (e.g., Eu tenho dificuldade
em determinar o que é e o que não é seguro para o meu filho(a) fazer),
apresentando um a-Cronbachde .53 (.63 com remoção do item 16); (4) a Disciplina
e definição de limites, composta por sete itens, que avalia o modo como os pais
percecionam a sua capacidade e facilidade em disciplinar e estabelecer limites
aos filhos (e.g., É relativamente fácil para mim estabelecer limites ao meu
filho), e com um a-Cronbach .81; (5) a Brincadeira, composta por sete itens,
que avalia a percepção de facilidade e envolvimento dos pais em actividades de
brincar com os filhos (e.g., Consigo sempre pensar em alguma coisa para brincar
com o meu filho(a), a-Cronbach.92; (6) a dimensão Ensinar, constituída por nove
itens que avalia a percepção de facilidade e envolvimento dos pais em
actividades de ensinar (e.g., Acredito que o meu filho(a) aprende muito como
resultado do meu esforço em lhe mostrar diversas coisas.), com um a-Cronbachde
.73; e, por fim, (7) a dimensão Cuidado instrumental e criação de estruturas e
rotinas, constituída por oito itens que avalia a percepção acerca das
capacidades para implementarem estruturas e rotinas de cuidado e funcionamento
para os filhos (e.g., Eu tenho sido capaz de estabelecer uma rotina diária com
o meu filho que parece confortável para ambos), apresentando um a-Cronbachde
.46 (.60 com remoção de item 51).
O estudo original foi realizado com 68 mães e as correlações entre as
subescalas variaram entre r=.26 e r=.71. Em relação à computação de valores
globais da escala, não foram retirados itens porque os autores verificaram que
a eliminação de itens particulares não afetava significativamente a
consistência interna da escala completa (a-Cronbach.91). Os itens são
respondidos pelos pais numa escala de Likertde seis pontos, variando entre
Discordo Totalmente e Concordo Totalmente.
Na versão portuguesa da escala de Percepção de Eficácia das Tarefas Parentais,
seguindo as indicações dos autores da escala, optou-se por usar a versão
reduzida da mesma, retirando-se os itens correspondentes às dimensões da
Proteção e do Cuidado instrumental e criação de estruturas e rotinas, visto que
na versão original as suas consistências internas eram fracas e sujeitas a
futura reconfiguração (Coleman & Karraker, 2003). Análises de consistência
interna revelaram os seguintes coeficientes de Alfa de Cronbach para as
subescalas em estudo: (1) Disponibilidade emocional ' a-Cronbach .67; (2)
Ternura, valorizar a criança e capacidade de responder empaticamente ' a-
Cronbach .75 (a-Cronbach .56 depois de eliminado o itens 21, correspondendo ao
item 13 na versão original); (3) Disciplina e definição de limites ' a-Cronbach
.70 (a-Cronbach .65 depois de eliminado o itens 10, corres- pondendo ao item 28
na versão original); (4) Brincadeira ' a-Cronbach .74 (a-Cronbach .70 depois de
eliminados os itens 5 e 27, correspondendo, respetivamente, aos itens 35 e 34
na versão original); (5) Ensinar ' a-Cronbach .73 (a-Cronbach .68 depois de
eliminado o item 11, correspondendo ao item 43 na versão original). Para
valores globais da escala o a-Cronbach é de .88.
RESULTADOS
Valores descritivos do Sentimento de Competência Parental e da Eficácia das
Tarefas Parentais
Na Tabela_1 pode observar-se os valores médios e os desvios padrões globais e
por género parental para as medidas de competência geral da parentalidade e de
autoperceção de eficácia em domínios específicos.
Com exceção das médias de sentimento geral de satisfação parental (M=4.72,
DP=.83) e da percepção de autoeficácia no domínio específico das tarefas
disciplinares e estabelecimento de limites (M=4.58, DP=.71), os pais apresentam
médias inferiores quando comparados com os valores médios das mães. De igual
modo, as mães obtêm valores médios mais elevados, ora na computação dos valores
globais da escala PETP (M=4.88, DP=.44), ora na subescala eficácia da ESCP
(M=4.88, DP=.44), respectivamente, percepção de autoeficácia em domínios
específicos da parentalidade e sentimento geral de eficácia parental.
Relação entre os dados sócio demográficos e os valores de Sentimento de
Competência Parental e da Eficácia das Tarefas Parentais
A idade das mães encontra-se relacionada fraca e negativamente com os seguintes
domínios espe- cíficos de autoperceção de eficácia: ternura, valorização e
responsividade empática (r(196)=-.222, p=.002); disponibilidade emocional (r
(196)=-.189, p=.008); e brincar (r(196)=-.269, p=.000). De igual modo, a idade
das mães revela associações fracas e negativas com autoperceção de eficácia dos
pais nos mesmos domínios específicos: ternura, valorização e responsividade
empática (r(196)=-.252, p=.000); disponibilidade emocional (r(196)=-.208,
p=.004); e brincar (r(196)=-.253, p=.000).
As habilitações literárias das mães mostram uma associação fraca e negativa com
o sentimento geral de eficácia parental da parentalidade (r(194)=-.211,
p=.003). Inversamente, constata-se uma relação positiva e moderada com a
autopercepção de eficácia no domínio específico ensinar (r(193)=-.313, p=.000).
As habilitações literárias das mães estão fraca e negativamente associadas à
sua autopercepção de eficácia do pai no domínio específico brincar (r
(193)=-.153, p=.034) e ao sentimento geral de eficácia parental do pai (r
(194)=-.178, p=.013).
No que diz respeito à variável emprego, as mães que trabalham mostram valores
médios de auto percepção significativamente mais eficazes nos domínios
específicos da disciplina e estabelecimento de limites (t(193)=3,03, p<.001,
M=4.54) e ensinar (t(193)=2,83, p<.001, M=4.93). As mães que trabalham também
apresentam valores médios de satisfação geral na parentalidade
significativamente superiores (t(194)=2,01, p<.046, M=4.66).
A idade dos pais está fraca e negativamente associada à autopercepção no
domínio específico ternura, valorização e responsividade empática (r
(196)=-.176, p=.014). A idade do pai correlaciona-se, adicionalmente, de forma
negativa e fraca com a autopercepção de eficácia das mães nos domínios
específicos da parentalidade disponibilidade emocional (r(196)=-.154, p=.031) e
brincar (r(196)=-.157, p=.028).
As habilitações literárias dos pais estão associadas fraca e positivamente com
o sentimento geral de satisfação parental (r(194)=.208, p=.004) e com o domínio
específico de disciplina e estabelecimento de limites (r(196)=.170, p=.018). O
número de horas de trabalho semanal do pai revela-se associado fraca e
negativamente com a auto-percepção do pai de eficácia no domínio específico
ensinar (r(138)=-.177, p=.038) e com o sentimento geral de satisfação parental
das mães (r(139)=-.172, p=.043).
A idade das crianças encontra-se associada fraca e negativamente com a
percepção de autoeficácia das mães em tarefas de ensinar (r(152)=-.172,
p=.034). Os filhos primogénitos tendem a distinguir significativamente o
sentimento de autoeficácia nos domínios específicos de brincar (t(177)=2.33,
p<.005) e disponibilidade emocional (t(177)=2.03, p<.005), apresentando as
mães, respectivamente em ambos os domínio, valores médios mais elevados para os
primeiros filhos (M=4.94; M=4.95).
Diferenças entre o pai e a mãe ao nível do sentimento geral de eficácia
parental
O t-studentrevelou diferenças significativas entre pais e mães no que diz
respeito ao sentimento geral de eficácia parental (t(392)=2.67, p<.001), com as
mães a obterem médias superiores. A mesma tendência pode ser observada, nas
diferenças significativas obtidas entre os dois géneros, para os domínios
específicos de ternura, valorização e responsividade empática (t(390)=3.88,
p<.001) e disponibilidade emocional (t(390)=1.97, p<.005) (ver Tabela_1 para
consultar médias).
Associação entre o Sentimento de Competência Parental e da Eficácia das Tarefas
Parentais
Na Tabela_2 podem ver-se as associações entre todas as variáveis em estudo da
ESCP e PETP. As variáveis da ESCP, sentimento geral de satisfação parental e
sentimento geral de eficácia parental encontram-se fraca ou moderadamente
associadas com as variáveis computadas para a escala PETP. O sentimento geral
de satisfação parental apresenta a sua maior associação positiva com o domínio
específico disciplina e estabelecimento de limites (r(391)=.51, p<.000), ao
passo que a associação mais fraca é com a variável de domínio específico
ternura, valorização e responsividade empática, (r(391)=.23, p<.000). O
sentimento geral de eficácia parental tem a sua correlação mais forte com a
variável de domínio específico ternura, valorização e responsividade empática
(r(391)=.51, p<.000), e mais fraca com a variável de auto-percepção de eficácia
no domínio específico Ensinar (r(391)=.32, p<.000).
Adicionalmente, o sentimento geral de eficácia parental encontra-se associado
positiva e moderadamente com o valor global obtido na escala PETP (r(391)=.52,
p<.000).
Todas as subescalas de autopercepção de eficácia de domínio específico
apresentam associações positivas e elevadas com os valores globais da escala
PETP. Entre si, as subescalas de autopercepção de eficácia de domínio
específico encontram-se associadas positivamente. As correlações mais fracas
observadas são entre a ternura, valorização e responsividade empática e a
disciplina e estabelecimento de limites (r(391)=.37, p<.000), e entre o brincar
e a disciplina e estabelecimento de limites (r(391)=.36, p<.000). A
disponibilidade emocional está associada forte e positivamente com todas as
subescalas que compõem a escala PETP, com exceção da correlação moderada que
apresenta com a disciplina e estabelecimento de limites (r(391)=.43, p<.000).
DISCUSSÃO
O sentimento de competência parental e as percepções de auto-eficácia em
domínios específicos têm sido considerados na literatura sobre cognições
parentais como um correlato dos comportamentos parentais, provavelmente com o
estabelecimento de estratégias parentais e ambientes relacionais e educativos
de qualidade que maximizam o desenvolvimento das crianças (Bornstein et al.,
2003; Bugental & Johnston, 2000; Coleman & Karraker, 2003; Jones &
Prinz 2005; Meunier & Roskam, 2009; Okagaki & Bingham, 2005; Teti &
Gelfand, 1991).
No presente estudo, explorámos dois constructos relevantes no âmbito das
percepções de competência parental, sentimento de competência parental face ao
papel global da parentalidade (Johnston & Mash, 1989) e as percepções de
auto-eficácia em domínios específicos da parentalidade (Coleman & Karraker,
2003; Meunier & Roskam, 2009), procurando estudar diferenças entre pais e
mães e discernir efeitos possíveis face a características demográficas dos
pais, mães e crianças, como preditores das cognições da parentalidade.
De forma geral, os resultados obtidos no nosso estudo, estão em linha com
outros reportados na literatura especializada, contudo revelam especificidades
na nossa amostra que permitam equacionar singularidades, em particular face aos
preditores sociodemográficos da auto-eficácia, o que levanta questões relativas
aos factores de contexto e culturais da parentalidade. As mães auto
percepcionam-se significativamente mais competentes que os pais no sentimento
geral de eficácia parental como reportado em estudos anteriores (e.g., Gilmore
& Cuskelly, 2008; Salonen et al., 2009) e os domínios específicos de
ternura, valorização e responsividade empática e disponibilidade emocional de
acordo com os dados reportados por Meunier e Roskam (2009). Contudo,
contrariamente ao estudo realizado por Meunier e Roskam (2009), na nossa
amostra os pais não se revelaram significativamente mais eficazes na disciplina
do que as mães, nem como seria de esperar não se revelaram significativamente
mais satisfeitos no papel global da parentalidade, muito embora se possa
observar essa tendência.
Relativamente à idade dos pais, as mães mais velhas tendem significativamente a
percepcionar-se como menos eficazes em domínios de cuidados face a necessidades
afectivas das crianças (disponibilidade emocional e ternura, valorização e
responsividade empática), e no domínio específico de brincar. O mesmo efeito se
observa para os pais no que diz respeito ao domínio específico de ternura,
valorização e responsividade empática, pais mais velhos, percepcionam-se como
menos eficazes. Estes resultados contrariam evidência produzida noutros
estudos, que não encontraram relação entre a perceção de autoeficácia parental
e a idade dos pais (Meunier & Roskam, 2009; Salonen et al., 2009).
Curiosamente, obtivemos resultados significativos, ainda não reportados na
literatura, quanto à associação da idade de um pai nas perceções de auto
eficácia do outro. Quanto mais velhas as mães são, menor percepção de eficácia
os pais têm (disponibilidade emocional e ternura, valorização e responsividade
empática) e quanto mais velhos os pais são, menor sentimento de eficácia as
mães revelam face ao domínio de disponibilidade emocional. Estes resultados não
corroboram os encontrados por Jacobs e Kelley (2006), que encontram relações
positivas significantes entre a perceção de autoeficácia dos pais. Salientamos
no entanto que os efeitos correlacionais observados são fracos, e que podemos
estar apenas perante associações espúrias de sobreposição, uma vez que podem
ser devido ao facto de os casais parentais tenderem a ter idades aproximadas, e
por essa via se observar esta associação, uma vez que a idade dos pais está
negativamente associada com as auto-percepções nos mesmos domínios.
No que diz respeito às habilitações literárias, as mães com mais estudos
revelaram percepcionar- se menos eficazes no domínio geral da parentalidade, ao
passo que no domínio específico de ensinar consideram-se mais eficazes. Por sua
vez, os pais com mais anos de escolaridade apresentam maior satisfação parental
global e percecionam-se como mais eficazes no domínio de disciplina
estabelecimento de limites. Novamente, encontramos associações nas percepções
de um pai para as do outro, em relação às habilitações literárias. A maior
escolaridade das mães está associada à menor percepção de eficácia dos pais no
papel parental como um todo e no domínio de brincar.
No que diz respeito à variável emprego, as mães que trabalham, percepcionam-se
mais eficazes nos domínios de ensinar e disciplina e estabelecimento de limites
e os pais que trabalham mais horas percepcionam-se menos eficazes no domínio
específico de ensinar. Por sua vez, as mães sentem-se menos satisfeitas com o
papel da parentalidade quando os pais trabalham mais horas.
Estes resultados, para além de contrariarem a ideia linear de que pais com mais
escolaridade se sentem mais eficazes, sugerem processos de interacção entre as
variáveis mais complexos do que aqueles descritos na literatura (e.g., Meunier
& Roskam, 2009). Novos estudos, com amostras maiores e mais diversificadas,
poderão procurar esclarecer melhor estes processos.
Face às características das crianças, os nossos resultados mostram que as mães
percepcionam-se como menos eficazes com o aumento da idade dos filhos, o que
pode ser explicado por as tarefas educativas assumirem gradualmente
características mais escolares, a transferência destas competências para outras
figuras de referência e o progressivo acréscimo de autonomia. Por outro lado,
as mães realizam juízos mais positivos quanto à sua eficácia nos domínios de
disponibilidade emocional e brincar com filhos primogénitos, resultado que
parece, em parte, ir de encontro a resultados obtidos por Meunier e Roskam
(2009) relativamente a pais de famílias com menos filhos, e pode revelar o
efeito de um maior investimento e atenção dos pais nas tarefas da parentalidade
durante a primeira gravidez e filho.
No nosso estudo, ambas as escalas utilizadas revelaram valores de consistência
interna que suportam a possibilidade de uso futuro em estudos fundamentais
sobre percepções de competência parental, geral e de domínios específicos,
desenvolvimento, avaliação de eficácia de programas de parentalidade, bem como,
para fins de observação em contextos clínicos da parentalidade e ajustamento
infantil.
Efectivamente, as associações positivas moderadas e fortes encontradas entre
ambas as escalas, oferecem boas indicações quanto à solução factorial proposta
num estudo anterior para a ESCP (Ferreira et al., 2011), e reforçam a validade
interna e discriminante de ambas as escalas (ESCP e PETP), sugerindo também,
que parece ser valida a estratégia dominante na literatura de se considerar
importante o estudo de ambos os construtos de percepção de auto-eficácia geral
da parentalidade e percepção de auto-eficácia em domínios específicos da
parentalidade (Coleman & Karraker, 2003; Meunier & Roskam, 2009) para
se esclarecer os processos cognitivos subjacentes ao sentimento de competência
parental.
Por exemplo, o facto de na nossa amostra a satisfação global com a
parentalidade se encontrar mais fortemente associada (positiva e moderada) com
a percepção de auto-eficácia nos domínios específicos disciplina e
estabelecimento de limites e ensinar, face aos restantes domínios específicos,
pode sugerir a hipótese de que as percepções de eficácia dos pais nestes
domínios específicos possam ser mais determinantes para o seu sentimento geral
de satisfação/gratificação com o seu papel parental. Igualmente, o sentimento
de eficácia global na parentalidade encontra-se mais fortemente correlacionado
(positiva e moderada) com as percepções de auto-eficácia dos pais nos domínios
específicos referentes à esfera emocional (disponibilidade emocional e ternura,
valorização e responsividade empática). Dito de outra forma, estes resultados
permitem-nos considerar a hipótese de existir um processo cognitivo subjacente
à construção de apreciações globais da competência na parentalidade com base
nas percepções de auto-eficácia em domínios específicos. Os pais que se
percecionam mais eficazes em lidar com a exigências disciplinares e do ensino
sentem-se mais satisfeitos no papel parental, ao passo que as percepções de
eficácia nos cuidados face às necessidade afectivas e emocionais dos filhos,
têm maior peso em promover o sentimento de eficácia global no desempenho do
papel parental. Estas associações são evidência que suporta a proposta teórica
sugerida por Bornstein et al (2003) de conceber o sentimento de competência
parental como um conjunto modelar de cognições parentais, contudo as hipóteses
por nós sugeridas requerem investigação futura, levando em linha de conta não
só variáveis socio-demograficas como, por exemplo, o envolvimento parental
(Monteiro et al., 2010) efectivo nas tarefas.