Caso República e a retórica nos discursos políticos: Um estudo descritivo
Aos capitães-de-abril
INTRODUÇÃO
No presente trabalho procura-se abordar os discursos retóricos em torno de um
dos incidentes críticos no contexto revolucionário do pós 25 de Abril ' o Caso
República ' veiculados por duas formações políticas, o Partido Socialista e o
Partido Comunista Português.
Através da retórica política, ambos os partidos procuraram impor determinadas
significações (Bordieu, 1989) em torno de polaridades ideológicas (Van Dijk,
2006), decorrentes de duas visões sobre a natureza da legitimidade política:
uma legitimidade eleitoral reivindicada pelo PS, a partir das eleições para a
Assembleia Constituinte, e uma legitimidade revolucionária, assente no pacto
MFA ' Partidos, reivindicada pelo PCP. Através da análise da retórica política
utilizada pelas duas formações partidárias em questão, procura-se compreender
alguns processos de construção social da realidade política na época.
Enquadramento histórico, social e político do Caso República
As características contextuais do período revolucionário do pós 25 de Abril são
importantes para compreensão do caso em análise, e da retórica política em
torno do mesmo, assim como da construção social da realidade política da época
(Berger e Luckman, 1966/1973), dado que se trata de um período da história de
Portugal no qual se remeteram muitos dos comportamentos individuais e
coletivos a uma legitimidade excepcional, fora do quadro normativo '
legitimidade revolucionária (Babo-Lança, 2006, p. 135).
O regime ditatorial precedente teve implicações não só obviamente políticas,
mas também sociais e económicas. O fascismo assentou numa ideologia e estrutura
capitalista monopolista, que implicou a exploração de grande parte da classe
operária e trabalhadora (Rosas, 1994). A revolução e o fim do regime
simbolizaram, à esquerda, o fim da referida opressão. Em parte, devido a este
facto, e como refere Varela (2011, p. 125), termos como socialismo',
sociedade sem classes', revolução', democracia' faziam parte do léxico
propagandístico de todos os dirigentes políticos portugueses, do PPD ao PS, do
PCP à extrema-esquerda, léxico que perdura ainda hoje, por exemplo, na
designação do PPD-PSD: Portugal é o único país na Europa que tem um partido
liberal que se chama social-democrata (Varela, 2011, p. 125).
Como refere também aquela autora, e numa perspectiva histórica, os discursos,
os programas políticos, os documentos são relevantes pelo que dizem, também
pelo que não dizem, a que acrescentaremos a estas considerações que, para a
compreensão histórica do período revolucionário do pós 25 de Abril, será também
necessário entender o contexto e estratégias argumentativas em que o que é dito
ganha um significado preciso, com funções não só retóricas, mas com implicações
históricas, como sejam as dificuldades de entendimento entre as formações
políticas no espectro da esquerda portuguesa.
É certo que o contexto revolucionário do pós 25 de Abril, nomeadamente o
Período Revolucionário em Curso (PREC) (assim, então designado, o período
compreendido entre a tentativa de golpe de estado a 11 de Março até aos
acontecimentos 25 de Novembro de 1975) foi um conturbado período, seja de
agitação popular, como de instabilidade governativa, relativa a sucessivos
governos provisórios de base pluralista, com representantes de várias forças
políticas, cujos conflitos eram mediados pelo MFA, entretanto
institucionalizado com a criação do Conselho da Revolução, do qual emanaram,
aliás, políticas de atuação estratégica para o país (Medeiros Ferreira, 1994).
Tais conflitos, entre, por um lado, o PS e forças conotadas com o mesmo ou à
sua direita, e, por outro, o PCP e forças conotadas com o mesmo ou à sua
esquerda revelaram-se em tantos outros Incidentes Críticos da época (Medeiros
Ferreira, 1994).
Acontecimento histórico de primordial importância foi o golpe de extrema-
direita a 11 de Março de 1975. Para além das repercussões políticas (como a
institucionalização do MFA) ou político-económicas (como as nacionalizações na
Banca e nos Seguros), determinará um posicionamento argumentativo próprio do
PCP, relacionado com as suas prioridades políticas, e o seu entendimento de uma
nova fase da revolução (cf. Brito, 2010, p. 139).
Não serão apenas termos como Revolução ou Socialismo que adquirirão
sentidos diversos nos argumentários dos Partidos em questão, mas o próprio
termo Democracia. Se para o PS, a partir das eleições de 25 de Abril de 1975,
a Democracia corresponderia a uma democracia pluralista de base
parlamentar (Reis, 2005), para o PCP essa Democracia seria uma democracia
burguesa que não serve a Portugal (Cunhal, citado por Varela, 2011, p. 203).
É pois neste contexto, quer histórico, quer do ponto de vista do argumentário
político, que se pode compreender a Retórica política em torno de um dos
Incidentes Críticos que opôs, de novo, o PS ao PCP, no caso a propósito do
controlo dos meios de comunicação social, e que serviu de pretexto ao PS para a
sua saída do IV Governo provisório (cf, Soares in Avillez, 1996, p. 438).
O Caso República: Duas versões em confronto
Durante o salazarismo o jornal República simbolizava (juntamente com o
Diário de Lisboa), na imprensa legal, a resistência possível ao regime.
Segundo Mesquita (2005) o jornal chegou ao 25 de Abril (...) com o prestígio
de ter sido o único diário português que se assumia, explicitamente, como órgão
da oposição democrática (parágrafo 14).
De acordo com Soares (Avillez, 1996: 437) o República era uma voz
republicana e liberal, aberta a todas as correntes e matizes da oposição,
incluindo os próprios comunistas, sendo propriedade de acionistas socialistas.
De acordo com o próprio Soares (Avillez, 1996), após o 25 de Abril de 1974, os
novos estatutos do jornal vinculavam-no à sua vocação socialista, pluralista e
independente (Avillez, 1996, p. 437).
Mesquita (2005), ao proceder a um enquadramento do Caso República, e no
contexto mais amplo dos confrontos entre PS e PCP, refere que a partir de Junho
de 1974:
o mal-estar instalou-se na redacção, ainda em surdina, entre os
sectores afectos ao PS e ao PCP. Os jornalistas e outros
trabalhadores afectos ao PCP queixavam-se que o PS pretendia fazer
prevalecer uma orientação partidária, enquanto os socialistas
alegavam defender um órgão autónomo mas de tendência socialista
democrática.
Para Mesquita (2005) os comunistas (...) procuravam impor a sua concepção
censória de unidade antifascista, o que, naturalmente, colidia com qualquer
crítica (...) ao socialismo de modelo soviético (Mesquita, 2005, parágrafo
15). Segundo Soares (inAvillez 1996), na sequência dos acontecimentos do 1º de
Maio de 1975 (sobre os mesmos ver: Medeiros Ferreira, 1994; Soares, inAvillez,
1996) deu-se o último assalto comunista (Avillez, 1996, p. 437) ao controlo
dos meios de comunicação social (segundo Avillez, 1996, aqueles dominavam já o
Século', o Diário de Notícias' e o Diário Popular' e o República' seria
uma bandeira de resistência socialista ao PCP no âmbito da comunicação social
(Avillez, 1996, p. 437). Nas palavras de Soares (1996, inAvillez, 1996, p.
437):
Nas horas que se seguiram aos acontecimentos do 1º de Maio, deu-se o
último assalto comunista: os tipógrafos não só impediram os
redactores socialistas de estamparem a sua versão desses mesmos
acontecimentos, como publicaram uma edição em cujo cabeçalho figurava
Álvaro Belo Marques, homem muito conotado com os sectores
comunistas.
De acordo com Mesquita (2005), a deterioração das relações dentro do jornal
culminaram, a 19 de Maio de 1975, com a invasão do mesmo por um grupo de
trabalhadores que pretendiam alterar a orientação do jornal e pedir a demissão
da direção e redatores, que implicou o sequestro do diretor do jornal, Raul
Rego, e de jornalistas afetos ao PS.
O Caso República, aqui descrito muito sucintamente, para além de servir de
argumento ao PS para o abandono do IV Governo Provisório, teria uma ampla
cobertura internacional, e ainda de acordo com Soares (Avillez, 1996, p. 441)
foi a primeira grande campainha de alarme' tocada no exterior, anunciando que
a democracia portuguesa estava em perigo.
Às considerações de Mesquita (2005) ou Soares (Avillez, 1996), contrapõem-se as
de Dil e Pina (1975) que se referem ao conflito como uma estratégia socialista:
conseguiu a cúpula do PS escamotear as origens da crise, no interior do
jornal, dirigindo contra outros aquilo que era acusada: o de ter transformado o
República', através de militantes na redacção, direcção e administração, num
seu órgão oficial (Dil & Pina, 1975: 25).
Um jornalista do Expresso (citado em Portugal Socialista de 23/5/1975: 15)
descreve o enquadramento geral que foi dado na opinião pública:
Há duas teses em conflito. A da posição da Redacção e da Direcção
que, em nome da independência do jornal e da liberdade de imprensa,
pretende que continue o mesmo corpo redactorial e a mesma direcção.
Outra tese é a de outros trabalhadores, que também em nome da
liberdade e independência não desejariam que a direcção continuasse.
CONSIDERAÇÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS SOBRE A ANÁLISE DE DISCURSO RETÓRICO
Perelman (1997), filósofo responsável pelo movimento dos estudos da Nova
Retórica, reivindica as bases de tal abordagem em Aristóteles. Aristóteles, no
seu Organon, distingue dois tipos de raciocínios: o raciocínio analítico, que
visa relacionar a verdade das premissas com a das conclusões; e o raciocínio
dialéctico, assente em premissas que são constituídas por opiniões geralmente
aceites, para fazerem aceitar outras teses que podem ser controversas, visando
a persuasão.
É ao raciocínio dialético que o discurso retórico está associado. Assim, por
exemplo, o domínio da argumentação política, filosófica, literária e inclusive
jurídica é do verosímil, do plausível, do provável, na medida em que (...)
escapa às certezas do calculo (Perelman & Olbrechts-Tyteca, 2006, p. 9).
Adotamos neste trabalho as perspetivas discursivas sobre a retórica em
Psicologia Social, seja da Psicologia Retórica de Billig (1991, 2012), da
Análise Crítica de Discurso de Van Dijk (2006), e da análise dos mecanismos de
construção de argumentação (Castro, 2002; Potter, 1996).
Também se tem em conta o modelo de análise proposto por Potter (1996), retomado
por Castro (2002), em alguns aspetos focado por Van Dijk (2006), que permite a
identificação de mecanismos retóricos inerentes ao discurso persuasivo: a
extremização de argumentos visando predispor uma audiência a uma ação, ou a sua
inversa, a minimização; a descrição de argumentos com recurso a dados factuais;
a argumentação por inoculação (pretender mostrar à audiência que se não há
interesse do sujeito no argumento que apresenta); o mecanismo de distanciamento
(assumir neutralidade e pretender que não se vai provar nada); a apresentação
de credenciais na argumentação (recurso a categorias de sujeitos com
conhecimentos particulares sobre o assunto, de forma a tornar a mensagem
credível).
MÉTODO
Período em análise: Maio a Julho de 1975.
Corpus de Análise: Imprensa escrita dos órgãos oficiais do PS (Portugal
Socialista) e do PCP (Avante)
Foram selecionadas 26 notícias, 13 de cada jornal, considerando-se como
critérios de seleção os seguintes: serem artigos de opinião sobre o caso;
corresponderem a discursos políticos sobre a situação no país e/ou sobre o
caso; ou corresponderem a notícias com conteúdo relevante para perceber o
enquadramento histórico, social e político em que ocorre o Caso República.
Procedimento
— Identificação e contraste entre argumentos apresentados por cada uma das
forças políticas.
— Reconstrução dos discursos, através da interligação entre os argumentos
(conteúdos) e respetivas funções retóricas.
— Identificação de mecanismos retóricos utilizados, com base na sistematização
de Potter (1996) e Castro (2002).
RESULTADOS
De seguida elencam-se todas as notícias selecionadas, seguidas de uma análise
individual a cada uma delas, procurando-se nesta análise identificar os
argumentos e recursos retóricos usados nos discursos.
Avante! (13 notícias analisadas)
22/5/75 ' A Revolução, as Eleições, os Partidos e a Economia
Neste artigo é feita uma análise política ao contexto pós eleitoral, que
antecede o acontecimento em análise. Nesse contexto são veiculados o que se
entende por um conjunto de argumentos e formatos retóricos, com vista a fazer
prevalecer a imagem de força revolucionária, face a resultados eleitorais pouco
favoráveis. A legitimidade eleitoral conquistada pelo PS é posta em confronto
com alguns argumentos, nomeadamente:
1) O Argumento da Conspiração (a reação e o eleitoralismo): A reacção tem
ainda muita força. A conspiração continua. Persistem as ameaças às liberdades.
Esta é forma como Cunhal descreve o período em que decorreram as eleições cujos
resultados não lhe foram favoráveis. Recorre à técnica retórica de inoculação
para suportar uma aparente mudança de atitude. O acto eleitoral é legítimo num
regime democrático em que não haja perigo de golpes reaccionários, mas para
Cunhal essa não é a vivência do país e portanto as eleições não podem ser
consideradas as eleições livres ansiadas pelo povo português. Cunhal expressa
a sua intenção de que um dia Portugal venha a conhecer as eleições livres e que
estas venham a constituir eixo fundamental da vida política e uma fonte
determinante de decisões. 2) Pluralismo: Novamente aqui a construção do
discurso em torno do argumento reação parece servir um outro propósito.
Deslegitimar um argumento consensual ' o pluralismo ' defendida por todos os
atores na esfera política, sem o pôr em causa. O discurso constrói a sua
argumentação invocando a atuação reacionária que alguns quadrantes da cena
política, e em coligação têm demonstrado, uma alusão ao PS que faz coro com a
reacção e com tudo quanto há de politicamente desclassificado na campanha
anticomunista. O seguinte extrato é ilustrativo da argumentação utilizada:
somos pois contrários a essa condenação global do papel dos partidos
que aqui e acolá se começa a esboçar. Mas essas tendências ganharão
rapidamente terreno, se a acção dos partidos não se inserir no
processo revolucionário (...) o sistema de coligação de partidos e
MFA poderá tornar-se inviável e outras soluções terão de ser
encontradas para assegurar a vitória da revolução e a marcha para o
socialismo.
A construção do discurso parece promover assim uma alteração na sua atitude
(explícita) a favor do pluralismo. Parece implícito que só é defendida enquanto
mantém a sua função de símbolo de democracia popular e nacional, ao serviço do
processo revolucionário. A construção é feita de forma dialética e
bipolarizada: se deixar de servir os interesses revolucionários significa que
a democracia está a ser posta em causa e portanto deixa de ser símbolo desta
para passar a ser sinónimo de voz da reacção e portanto outras soluções terão
de ser encontradas.
A sua defesa era tática ' fenómeno que pode ser interpretado à luz do que
Billig (1991, 2012) define como taking the side of the other. Ao assumir que
o sistema de coligação partidos e MFA poderá tornar-se inviável e outras
soluções terão de ser encontradas está-se a prevenir uma posição futura. O
argumento que hoje é defendido amanhã pode deixar de o ser, em nome do processo
revolucionário.
22/5/75 O Caso do Jornal «República»
Primeira notícia veiculada pelo Jornal Avante sobre o caso República. Aparece
na terceira página do jornal, sem grande destaque, no que sugere ser um recurso
retórico de minimização do acontecimento, em contraposição ao empolamento
político que o PS deu ao caso. A notícia descreve muito sucintamente os factos
ocorridos estendendo-se essencialmente numa contra argumentação à postura
pública do PS sobre o caso: com vista a garantirem a tradicional independência
do jornal, os trabalhadores da República exigiram a demissão do director e de
outros elementos responsáveis.
O República, reconhecido como independente pela luta antifascista vê agora a
sua independência ameaçada por uma orientação política. Através do argumento
retórico tradicional independência ameaçada o PCP procura legitimar a atuação
dos trabalhadores perante a opinião pública. Como é que o faz? Por um lado
constrói a sua argumentação enaltecendo a imagem destes trabalhadores, pilar
das liberdades em Portugal, que reivindicam a independência do jornal, pois
contribuíram para que grande parte dos jornais, a Rádio e a TV fossem
retiradas da influência dos monopólios e colocadas decididamente ao serviço do
processo revolucionário e da aliança Povo-MFA. Por outro lado invoca a
argumentação do PS sobre a liberdade ameaçada e confronta esse argumento com o
facto de o jornal ser gerido por membros do partido socialista, como é do
conhecimento geral:
(o) PS refere-se a si como defensor da liberdade... mas se eles
fazem parte da direcção do jornal e consideram que este é o único
independente... os restantes jornais não partidários, com
profissionais que defenderam os órgãos de informação em que trabalham
contra o domínio monopolista e deles têm feito bastiões da revolução
portuguesa como se classificam?
28/5/75 ' O Povo está com o MFA o MFA está com o Povo
A presente notícia contém uma descrição crítica da mobilizaçãoorganizada pelo
PS após a invasão do Jornal República. Evoca a atuação do PS, descrita como
anticomunista e reacionária, para reforço do argumento conspirativo.
O exemplo do caso República surge para reforço do argumento conspirativo,
juntamente com a alusão a interesses internacionais cuja atuação sugere uma
estratégia coordenada contra a jovem democracia portuguesa:
Infelizmente em Portugal é o PS, dito de esquerda, que persiste em
manter erguido o pendão do anticomunismo. A forma como foi adulterado
e empolado o problema do jornal República, os ataques abertos ao MFA
e ao processo revolucionário português, (...) a rapidez com que foi
orquestrada a campanha contra Portugal democrático, por círculos da
social-democracia europeia e estranhamente por responsáveis da
política americana em defesa da liberdade ameaçada em Portugal, são
tudo factos que sugerem uma estratégia coordenada contra a jovem
democracia portuguesa.
A descrição feita, em tom de crítica pelo PCP, da atuação do PS é, aqui,
extrapolada para o caso República:
Entulhar os cérebros de propaganda tendenciosa para mascarar
objectivos políticos inconfessáveis; (...) utilizando fórmulas
ridículas para transformar a mentira torpe na verdade pura (...)
dirigentes políticos e ministros do governo provisório a dançarem e
cantarem sambinhas insultuosos contra ministros do mesmíssimo governo
(...) alaridos do anticomunismo delirante (...) o PCP, como partido,
nada pesou na decisão dos trabalhadores da República' de sanearem o
director e alguns redactores do jornal.
Há um enaltecimento da aliança povo-MFA, a qual aparece taticamente associada
ao processo revolucionário enquanto defensora dos interesses do povo e
contrária aos interesses anticomunistas:
A feroz campanha anticomunista vai mais longe ' procura atingir o
próprio processo revolucionário através do enfraquecimento, primeiro,
e da destruição, depois, do principal pilar e força determinante da
revolução portuguesa ' a aliança povo-MFA (...) o PCP não pretende
implantar a ditadura de um partido único e defende o pluralismo
partidário não só hoje mas também para amanhã, em estreita aliança
com o MFA.
28/5/75 ' Álvaro Cunhal no Couço
Novo reforço no seu discurso das divergências PCP-PS. Utiliza um discurso
dialético ao caracterizar a realidade política portuguesa através da existência
de dois movimentos que se contrapõem: força revolucionária, representada pela
aliança entre os dois componentes essenciais ao processo revolucionário (o
movimento popular e o MFA) e as forças reacionárias, que com tentativas
desesperadas, ambicionam dividir e quebrar essa aliança: ou continua a
coligação com socialistas e outros portugueses, mas esses partidos vão para
diante com o MFA e com outras forças revolucionárias para o socialismo, ou os
socialistas insistem em cortar o passo à revolução. Há, pois, um
posicionamento estratégico do PS do lado das forças reacionárias, que devem ser
combatidas. O discurso do PCP constrói-se como aliado do Povo, defensor dos
seus interesses, traduzindo-se essa aliança no argumento retórico da referida
aliança Povo-MFA.
Referindo-se às divergências entre PCP e PS, estas acontecem porque o PS não
quer que a revolução vá para a frente, porque o PS não quer o Socialismo em
Portugal. (...) Praticam um socialismo vigarista'.
No discurso de Cunhal há um incitamento à unidade popular em defesa da
revolução e contra a reação. É um discurso com características propagandistas,
com uma comunicação dicotomizada em forças da revolução vs.forças da reação:
Pela nossa parte, tudo faremos para evitar uma crise grave (...) o mal está em
que os outros não queiram. Fazem um discurso repetitivo com foco nos
comportamentos, de incitamento à unidade popular (entendida como uma componente
da aliança com o MFA) contra as forças reacionárias:
a revolução portuguesa não pode ser sacrificada, é necessário que
todo o povo se una em defesa da revolução e das suas conquistas, e
que as forças democráticas e populares, junto com as Forças Armadas,
garantam o prosseguimento da revolução portuguesa em direcção ao
socialismo.
28/05/75 ' Nota do PCP sobre a Situação Política
Neste artigo o caso República é usado como argumento para reforçar a teoria da
conspiração e justificar uma possível reversão de intencionalidade (inoculação)
face à coligação. O PCP posiciona-se como apologista da coligação com o PS, mas
em simultâneo refere que os comportamentos anti-comunistas demonstrados por
aquele partido põem em causa a coligação e, em consequência o processo
revolucionário.
A invocação de um PS divisionista parece reforçar por um lado a imagem de um PC
conciliador em nome da unidade do povo, pela qual tem lutado infatigavelmente
e por outro lado legitima-o na sua tomada de posição face à coligação: as
posições e atividades do PS podem porém conduzir à impossibilidade do Governo
de coligação e de todo o atual sistema de Poder.
5/6/75 ' Dois processos inconciliáveis
Os dois processos inconciliáveis correspondem ao Eleitoralismo (a que se terá
assistido nas eleições para a Assembleia Constituinte) e o processo
revolucionário ' ocorre uma construção destes dois argumentos como
inconciliáveis, num contexto em que PCP precisa persuadir o povo português a
manifestar-se publicamente a seu favor, face a um resultado eleitoral que o
remete para força política minoritária ' em contraponto com o PS cujos
resultados o elevam a força representativa maioritária do povo português. O
caso República serve como argumento de reforço da descredibilização dos
resultados eleitorais ao contribuir para reforço do argumento conspirativo que
serve, como se pode verificar pelo seguinte extrato da notícia:
O carácter inconciliável do eleitoralismo e do processo
revolucionário salta à vista do observador minimamente informado. O
eleitoralismo' é (...) um apêndice da demagogia da classe burguesa,
do seu falso democratismo (...) política que procura retirar do
resultado de um acto eleitoral recheado de factores muito
controversos, ainda mal analisado na sua estrutura interna, a força
para impor soluções à problemática nacional concreta e, em última
análise, para impôr todo um sistema de sociedade que não correspondem
nem à opção de facto expressa pelas massas populares nas eleições do
25 de Abril, nem à verdadeira correlação de forças sociais e
políticas do País.
12/6/75 ' Dinamizar a iniciativa das massas. Derrotar a reacção
Nesta notícia faz-se uma descrição do que se considera serem ofensivas contra o
processo revolucionário ' ocorrendo, de novo, um reforço do argumento da
conspiração.
A construção do discurso convoca a atuação dita reacionária para dar força e
legitimar a representação de um perigo eminente (conspirativo) que deve ser
travado com a mobilização das massas face ao caminho irreversível de
destruição do capitalismo:
milhares de trabalhadores deram uma resposta revolucionária às
manobras da reacção. A linha divisória entre as forças que estão
decididas a bater-se pela construção de uma sociedade a caminho do
socialismo e aquelas que intensificam esforços para tentar salvar o
capitalismo moribundo tornou-se mais nítida.
São referidas Ofensivas Internas e Externas à Revolução:
1) Ofensiva Interna:
há indícios de que preparam uma ofensiva em múltiplas frentes. Forças
heterogéneas com métodos e linguagens diferentes. Umas abertamente
reaccionárias, outras sob vestes democráticas conseguem enganar sectores pouco
esclarecidos da população e até confundir trabalhadores iludidos pelas suas
promessas de fidelidade à Revolução e ao socialismo.
2) Ofensiva externa:
As pressões externas (...) visam dar alento às combalidas forças do
capitalismo português e a intimidar e fazer recuar aquelas que as
combatem. As notas dominantes dessa campanha são um anticomunismo
virulento e a solidariedade calorosa a todas as iniciativas
divisionistas do Partido Socialista.
Perante estas duas ofensivas a revolução Portuguesa tem de encontrar as
respostas adequadas. E essas respostas cabem, no momento, ao movimento popular
de massas e ao MFA:
Desde o 25 de Abril que o processo tem avançado através de
sucessivas derrotas infligidas à reacção. Mas foi sempre ela quem
atacou primeiro, quem escolheu o momento e a forma do confronto. Hoje
estão criadas as condições para que a iniciativa mude de campo. Não
se deve oferecer às forças que conspiram contra a Revolução a
oportunidade de desencadear em grande estilo a ofensiva que preparam.
Essa ofensiva pode ser morta no berço, pode ser impedida mediante a
acção consequente e revolucionária das duas componentes do processo
(...) O MFA tem cumprido o seu papel na dinamização e reforço da
aliança. Mas o movimento popular das massas, no contexto da luta de
classes em curso, tem um amplo campo de acção a ocupar. ... é preciso
que a mobilização popular se aprofunde (...) que se estruture
eficazmente em moldes revolucionários.
12/6/75 ' Álvaro Cunhal em Montemor
O PCP utiliza o seu passado de luta antifascista como argumento retórico
(mecanismo de apresentação de credenciais). Em defesa de uma liberdade, que o
partido entende ser acusado de querer usurpar, o passado credibiliza-o enquanto
defensor máximo desse direito democrático fundamental. O passado é invocado
com a função de credibilizar o PCP enquanto defensor das liberdades do povo
português:
Hoje em Portugal há muita gente que gostaria de fazer esquecer o
passado... o Povo não esquece nem esquecerá o que significou quase
meio século de fascismo. Não esquece porque mantendo bem viva essa
lembrança, mais força e mais determinação o inspirará na luta para
que esse passado não volte. Tem particular significado lembrarmos o
tempo do fascismo porque a luta pela liberdade não terminou. No tempo
do fascismo lutava-se por alcançá-la. Hoje lutamos por defendê-la e
consolidá-la. O Partido Comunista luta para que o novo Portugal que
construímos tenha duas características essenciais: Amplas liberdades
para todos os cidadãos e profundas transformações económicas e
sociais abrindo caminho ao socialismo. No tempo do fascismo o Partido
Comunista lutou nas mais difíceis condições pelas liberdades e pelos
direitos democráticos fundamentais: a liberdade de expressão do
pensamento, a liberdade de Imprensa, a liberdade da formação e
actividade de partidos políticos, a liberdade de reunião e de
manifestação, a liberdade da formação de sindicatos pelos
trabalhadores, o direito à greve. No tempo do fascismo ninguém mais
do que os comunistas lutou pelas liberdades e direitos dos cidadãos.
Como se pode verificar de seguida, ocorre a construção de um discurso
invocando, de novo, a atuação divisionista do PS para, em contraponto, veicular
a imagem de um PCP conciliador e coeso em torno dos interesses do povo
português:
actualmente fala-se muito de querelas de partidos. Esta expressão é
inexacta e deforma a realidade. A questão é outra. A querela não é
entre partidos. É sim entre partidos que se colocam contra o processo
revolucionário e as forças (partidos ou não) que estão pelo processo
revolucionário. Entre estas últimas forças conta-se o PCP e por isso
é um dos alvos principais dos ataques reaccionários, conservadores e
oportunistas. Que fazer nesta situação? (...) a direcção do Partido
Socialista continua a sua campanha anticomunista, (...) por esse
facto vamos nós (...) incitar por sua vez os trabalhadores a fazer
uma guerra santa contra os socialistas? (...) nós não seguimos nem
seguiremos uma tal política. (...) Os nossos inimigos principais são
a reacção, são os grandes capitalistas, são os grandes agrários (...)
nesse combate, estamos sempre dispostos a unirmo-nos fraternalmente
(...) pequeno proprietário comunista e socialista, mesmos interesses,
mesmas dificuldades, mesmos inimigos. Podem e devem unir-se na luta
(...) Nós, os comunistas, não vamos estar à espera que outros
partidos da coligação governamental cessem actividades divisionistas
e anticomunistas (...) Nós os comunistas não somos animados por um
cego sectarismo, nem por ambições pessoais ou de grupo (...)
Defendemos acima de tudo os interesses do povo português.
19/6/75 ' Duas Concepções de Jornalismo
É dada uma imagem da imprensa soviética como solidária não só com o processo
revolucionário, mas também com o período de luta que o país travou contra a
ditadura, face a uma imprensa internacional que é descrita como capitalista e
burguesa, que no tempo da ditadura não contestou esse regime e vem agora
defender uma liberdade e democracia talhada para a defesa de interesses
alheios ao povo:
A imprensa dos países socialistas, em particular a imprensa
soviética tem-se distinguido pela objectividade e seriedade com que
se tem referido à evolução da situação política no nosso país.
Mostraram coerência ao defenderem a batalha empreendida contra o
regime fascista, mesmo antes do 25 de Abril, não como a imprensa do
mundo capitalista que das raras vezes que se referia ao nosso país
falava de estabilidade e segurança (possivelmente a referir-se àquela
sentida pelas multinacionais aqui instaladas) (...) A imprensa
burguesa é pródiga nos insultos e insinuações contra o processo
revolucionário no nosso país. Revela uma sensibilidade
incomparavelmente mais acentuada para com a sorte de uma liberdade e
de uma democracia talhada para a defesa dos interesses alheios aos do
povo português (...) bem nossas conhecidas e que sem dúvida alguma
(nisso podemos considerar-nos de acordo) sofrem um perigo de morte no
nosso país. Preferimos a liberdade e a democracia para o povo
português.
26/6/75 ' O Plano de Acção Política do MFA e o Processo Revolucionário
Neste artigo a construção do discurso faz-se invocando a atuação do partido em
confronto e luta, para justificar uma mudança de posição relativa à prática do
pluralismo, conceito consensualmente defendido como estratégia de atuação no
pós-revolução. Desta forma viabilizam um conteúdo polémico, a de que o
pluralismo já não serve os interesses dos portugueses, enquanto ocorrerem
atuações divisionistas e reacionárias:
O PCP sempre defendeu (...) que estava disposto a cooperar com todos
os partidos democráticos, verdadeiramente interessados no processo
revolucionário (...) A política irracional de alguns partidos da
coligação está quase a comprometer a via pluralista para o socialismo
(...) Apesar desses ataques e calúnias (...) o PCP considera ainda
possível a cooperação entre os partidos. (...) É a actuação
objectivamente antiunitária de alguns partidos que está, de facto, a
comprometer a via pluripartidarista para o socialismo.
Nesta sequência, o caso República constrói-se no discurso como manobra
divisionista em contraponto ao pluralismo socialista. O PCP defende o
pluralismo, outrem, comprometem-no com manobras antiunitárias:
A forma como o caso República está a ser utilizado (...) não serve
de forma alguma a causa do pluralismo socialista. É uma coisa por
demais sabida que o caso República se insere na luta dos
trabalhadores pela liberdade de informação e que o PCP não tem a
mínima interferência no conflito (...) É uma calúnia a acusação de
assalto aos meios de informação. Agora a publicação de um documento
falso como emanado do Partido Comunista da União Soviética com ordens
para açaimar a imprensa não comunista é mais uma obstaculização à
viabilidade prática do pluralismo socialista.
Neste discurso há uma tentativa por um lado de legitimar a atuação dos
trabalhadores em nome da liberdade de imprensa e de se demarcar do conflito '
veiculando a mensagem de que esta é uma manobra do PS que juntamente com a
publicação de um documento alegadamente falso reforça a inviabilidade prática
do pluralismo socialista.
26/6/75 ' Folhetim da República para Francês Ler
O estilo irónico, em jeito de novela policial, com que é relatada a atuação da
equipa do República, ao publicar um documento alegadamente falso que implica o
PCP, parece vir reforçar, de novo mais uma vez, o argumento da conspiração das
forças reacionárias: Não seria suposto um jornal, com o passado de resistência
como o República, a fazer campanha contra uma força política revolucionária.
Isto só existe porque o PS retratado na equipa do República se tornou
reacionário. A visão supostamente pluralista e democrática do República traduz-
se numa visão anti comunista, o que é o mesmo que dizer anti democrática e anti
socialista (reacionária):
Um diário que se diz independente mas na realidade é de direita,
reaccionário ' Le Quotidien de Paris' ' publicou um suplemento de 4
páginas da República. Linguagem, estilo e linha política igualzinha
ao Jornal do Caso República. Documento secreto de cinco pontos que
deliciou os apreciadores de novelas. O documento, como é tradicional
nesses romances, foi elaborado em Moscovo em gabinetes secretíssimos.
A República divulga-o porque caiu nas mãos de jornalistas europeus,
devido a uma fuga de informações. É a iniciativas patrióticas,
voltadas para a heróica defesa da democracia e do socialismo, contra
as ditaduras e especialmente contra o comunismo que a equipa de
jornalistas democráticos dirigida pelo dr. Raul Rego se entrega
alegremente nestas semanas de descanso. Na visão pluralista e
democrática da República os comunistas são já olhados como inimigos
(...) Até onde irá a equipa da República na sua escalada
antidemocrática e anti-socialista?
3/7/75 ' Álvaro Cunhal no Campo Pequeno
O discurso inicia com uma invocação de valores a defender pela causa
revolucionária:
às pessoas que se interrogam é necessário dizer que as forças da
democracia e do socialismo (...) estão em condições de cortar o passo
à reacção e encaminhar Portugal para os elevados objectivos da
revolução portuguesa: liberdade, democracia, independência, paz e
socialismo.
Feita esta clarificação dos objetivos das forças democráticas e dos valores
do Partido, o mesmo reforça esta posição invocando a atuação das forças
reacionárias (tal como expresso no trecho noticioso atrás) onde se incluem
certos partidos que gritando que certas liberdades estão ameaçadas
efetivamente e na prática as põem em perigo. Faz uma importante articulação
entre a ameaça às liberdades e a ameaça representada pela democracia burguesa
e o capitalismo, que se não deseja em Portugal, muito antes pelo contrário:
em Portugal não haverá uma democracia burguesa de tipo ocidental. As
forças reaccionárias deformaram grosseiramente esta afirmação
gritando: Os comunistas dizem não querer as liberdades'.
As democracias burguesas têm dois traços fundamentais: neles existe liberdades,
ainda que muito condicionadas, mas existe também o poder económico e mesmo o
poder político dos monopólios (...) Nós os comunistas portugueses queremos as
liberdades. O que não queremos são os monopólios e os agrários. E não apenas
nós. Todas as forças revolucionárias (...) Se atacam a revolução portuguesa não
é porque em Portugal estejam ameaçadas as liberdades, mas porque está ameaçado
o capitalismo.
O PCP constrói o discurso invocando factos do seu passado que legitimam uma
imagem deste Partido enquanto defensor de liberdades, face a um conjunto de
forças reacionárias cujo interesse é lutar para defender o que realmente está
ameaçado, o capitalismo (como denota o extrato anterior). Desta forma legitima
a atuação dos trabalhadores do República, embora no seu discurso se procure
demarcar do conflito:
O PCP, como sempre tem insistido, luta por um regime em que existam
as mais amplas liberdades incluindo a liberdade de imprensa, a
liberdade de formação e actividade dos partidos políticos, a
liberdade religiosa. Não se trata de declarações formais. Factos ' 28
Setembro, 11 de Março, PCP à frente da classe operária e das massas
populares em cooperação com outras formações progressistas e em
estreita aliança com o MFA fez frente à ofensiva reaccionária e
mostrou de cada vez a sua dedicação na luta em defesa das liberdades
(...) Certas forças políticas portuguesas e a reacção internacional
fazem grande alarido em torno do caso República querendo mostrar que
ele significa precisamente a liquidação das liberdades. No quadro da
revolução portuguesa a luta dos trabalhadores da República não só tem
na sua base um conflito de trabalho, como se insere na luta dos
trabalhadores portugueses, não contra a liberdade mas precisamente
pela liberdade de imprensa. Foram fundamentalmente as lutas dos
trabalhadores que levaram à liquidação do controle dos grandes órgãos
de informação pelos grupos monopolistas e à conquista do direito a
uma informação livre. O PCP não teve qualquer intervenção na luta dos
trabalhadores do República como o PS tão bem sabe, apesar de que
espalha pelo mundo que o caso República é uma tentativa do PCP para
apossar do que falsamente dizem ser o último órgão livre da imprensa
portuguesa! O PCP considera que a luta dos trabalhadores poderia em
alguns aspectos ter sido mais bem orientada (...) Se não fosse a
especulação que o PS fez, já há muito o caso República estaria
resolvido. Por isso pode perguntar-se porque tem a administração da
República criado tantas dificuldades à resolução do problema? Para
gritar que as liberdades estão ameaçadas?
10/7/75 ' Combater o Anticomunismo é lutar pela Revolução!
A argumentação constrói-se, de novo, com base na tese da conspiração ' o
Anticomunismo:
Cabe tudo nele: a reacção tradicional, a ultra-esquerda pseudo
revolucionária e a legião confusa de adeptos da social democracia.
Não estão de acordo entre si (...) Um pólo de convergência congrega
os elementos que constituem essa estranhíssima aliança (...) ' o
anticomunismo!
É feito um reforço desse argumento conspirativo invocando factos recentes que
puseram em causa a atuação do PCP, nos quais se inclui o caso República:
Tudo lhes serve para fabricarem o anticomunismo. O 1º de Maio, a
unicidade sindical, a ocupação de uma Rádio, o conflito interno do
República' (...) A propósito do caso República' foi desencadeada
contra o nosso Partido uma intensa campanha de calúnias. Fomos
gratuitamente responsabilizados por um conflito ao qual éramos
completamente estranhos. Mas nas ruas, em manifestações de carácter
contra-revolucionário, o alvo das críticas da reacção e dos grupelhos
verbalistas de uma ultra-esquerda delirante, fomos novamente nós,
comunistas.
Portugal Socialista ' (13 notícias analisadas)
21/05/75 ' Miséria das Interrogações
A notícia em questão inicia-se com a seguinte declaração: Conhecendo nós a
ânsia mobilizadora do PC no sentido da total ocupação dos meios de
informação...
O contexto argumentativo inclui, como contraponto, uma crítica feita por
Eduardo Prado Coelho, (in A Capital, 12 de Maio de 1975), acusado de porta-
voz do PCP nas considerações que tece sobre o PS: se o curso da revolução
portuguesa tomar aspectos negativos sejam eles quais forem, não deixaremos de
considerar os dirigentes do PS como os principais responsáveis dessa evolução.
O jornalista do Portugal Socialista faz uma articulação com este discurso de
Eduardo Prado Coelho ao qual se contrapõe: assim, à afirmação de Eduardo Prado
Coelho que remete para uma responsabilização abstrata e futura do PS face aos
aspectos negativos, sejam eles quais forem, o jornalista do Portugal
Socialista contrapõe com uma descrição de vários aspetos negativos já
presentes na sociedade portuguesa, pelos quais responsabiliza o PCP,
nomeadamente o que define como monolitismo, falta de imaginação, paternalismo
vigilante do PC, incapacidade de transformar a sociedade portuguesa numa
sociedade livre, a sua impotência em descobrir meios de organização social sem
recorrer à repressão.
Denuncia a estratégia de bipolarização de Eduardo Prado Coelho em termos de
revolução ou reação e fascismo ou via progressista. O citado jornalista de
Portugal Socialista descreve-a da seguinte forma:
Estas manobras simplórias apresentam uma dupla velhacaria: nunca
demonstram carácter necessário de bipolarização; nunca explicitam o
subentendido que transportam, subentendido que pretende inculcar nos
espíritos a ideia de que só' o PC é via progressista'.
21/05/75 ' Uma informação independente, objectiva e não partidária
Há uma acusação de falta de independência de três jornais diários, acusados de
serem veículos de propaganda do PCP. Neste sentido procura-se reforçar a
acusação de que alguns meios de comunicação social, pelo controlo que o PCP tem
sobre eles, não exercem, enquanto órgãos de informação financiados pelo Estado,
a qualidade de serviço público a que estão obrigados:
O Partido Socialista tem, até agora, dado provas da maior paciência
relativamente à utilização dos financiamentos estaduais aos jornais
O Século', Diário de Notícias e Diário de Lisboa' (...) Acontece,
porém, que o Partido Socialista não pode ignorar a forma como são
despendidos os dinheiros públicos entregues aos citados órgãos de
informação.
Incentiva, pois, à indignação dos leitores ao referir financiamentos públicos .
Denuncia aqueles órgãos de informação, financiados com dinheiros públicos,
manterem a propaganda quotidiana de um partido que representa 13 por cento do
povo português e de serem veículos ideológicos da propaganda do PCP, como o
confirma a sistemática campanha anti-socialista por eles desencadeados.
Contrapõe-se, pois, a tal propaganda e manipulação partidária, a
reivindicação da independência e objetividade: O Partido Socialista exige,
portanto, que todos os Órgãos de Comunicação Social financiados pelo Estado
assegurem informação independente, objetiva e não-partidária, surgindo assim o
PS como arauto de tal Independência e Objetividade na área da Comunicação
Social
21/05/75 ' Um Atentado à Liberdade de Informação
O artigo refere-se aos acontecimentos em torno de O República, e associa a
luta pela liberdade de informação da redação da República à luta do Povo
Português pela democracia e pelo socialismo:
A indignação que se sentia durante a tarde de segunda-feira, à
medida que o povo de Lisboa tomava consciência da escalada contra a
liberdade de Imprensa que se estava a verificar na República',
manifestou-se claramente toda a noite (...) A consciência de que a
luta pela liberdade de Informação da redacção da República' está
ligada à luta do Povo Português pela democracia e pelo socialismo,
fez com que nada demovesse os manifestantes.
Associa um argumento consensual ' luta do Povo pela democracia ' a um argumento
novo ' luta da redação pela liberdade de informação. É invocado o discurso da
liberdade de imprensa num contexto democrático para legitimar a mobilização '
há uma generalização dos argumentos em causa.
Recorre-se a mecanismo retórico de extremização dos factos: Nem a presença de
destacamentos de forças militares e militarizadas, nem a chuva que caía, nem a
presença de militares e de chaimites' modificaram a determinação dos
populares.
21/05/75 ' O Caso República em comunicados
Veicula mensagem de jornalistas impedidos de livremente exercer a sua
actividade e de uma comissão de trabalhadores que ultrapassando os poderes
para que foi constituída (dialogar com a direcção e a administração) procura
promover a demissão da direcção e da chefia da redacção — há, pois, um
enfoque no binómio Liberdade ameaçada vs.usurpação do poder por parte dos
trabalhadores.
São realçadas as credenciais de Raul Rego, incontestável figura do resistente
e lutador antifascista que acaba de ser eleito à Assembleia Constituinte e a
quem o 25 de Abril tanto deve.
Há um apelo ao apoio dos populares incitando-os a manifestarem-se à porta do
jornal, em nome da liberdade de expressão: Só os seus leitores, que tantas
provas têm dado da sua solidariedade connosco, nos poderão ajudar, por forma a
restituir à República', a liberdade de expressão que tão arduamente
conquistou. Assiste-se à construção do argumento com vista a predispor para a
audiência à ação, tendo por base um símbolo da Liberdade de Expressão tão
arduamente conquistada.
21/05/75 ' Socialistas sim, cães-policias, não!
Reação a uma referida declaração de Cunhal de 19/5/75 (O Século): direcção
socialista atiça os seus militantes contra o PCP.
O jornalista subentende nesta mensagem uma acusação ofensiva por parte de
Cunhal. Segundo o mesmo jornalista: Perante esta firmação, declaramos que nós,
militantes do PS, não somos atiçados por ninguém, porque somos seres humanos e
não cães adestrados pelo dono que seguem as ordens do partido sem questionar.
O jornalista na sua resposta utiliza aqui os mecanismos retóricos da Inoculação
e da Confissão:
Nós militantes do PS, podemos não começámos a hostilizar o PCP, foi
o PCP que nos hostilizou, na sua ânsia totalitária de amordaçar a
Nação. Nós, militantes do PS, podemos provar que por diversas vezes
nos insurgimos contra o Anticomunismo', tempo em que a palavra
Comunismo' era usada para amedrontar o Povo português. Nós,
militantes do PS, só podemos ser acusados de não aceitar o despotismo
de Cunhal.
23/05/75 ' O Partido Socialista perante o povo português ' Conferência de
Imprensa
Mário Soares é citado nesta conferência de imprensa, declarando: [...] o caso
da República' simboliza para nós o problema da liberdade de informação e
implicitamente da liberdade em Portugal.
É feito o enquadramento justificativo da realização da conferência: análise do
MFA aos acontecimentos do 1º Maio ' realce do facto do PS não ter sido
consultado nessa análise; atividades do partido socialista e sua integração no
processo revolucionário; o Caso República como atentado à liberdade de
informação.
Há um enfoque da responsabilidade do PS para com o povo português que o elegeu
como partido maioritário à assembleia Constituinte:
Como é sabido, houve dois milhões e trezentos mil portugueses que
votaram no Partido Socialista e confiaram nele. Soares destaca o
facto de após os resultados favoráveis ao partido, mesmo assim não
ter levantado o problema da modificação do elenco governamental:
Como sabem (...) nós não pusemos o problema da modificação do elenco
governamental, e não pusemos porque nós temos por hábito honrar os
nossos compromissos. Há um Pacto que assinámos com o MFA, e ao qual
somos fiéis.
Com este argumento procura reforçar a imagem PS de digna de confiança, fiel aos
seus compromissos, em oposição ao PCP, cujas atitudes que desvirtuam
práticas democráticas: naturalmente não podíamos admitir que (depois do Povo
português se ter pronunciado de maneira tão expressiva e eloquente) a Imprensa
e os outros meios de Comunicação Social continuassem a ser manipulados ao
serviço de um só partido
Soares coloca o problema da questão do Caso República como central no
panorama político:
relativamente a uma questão fundamental, que é a questão concernente
aos órgãos da Informação ' o pluralismo não está a ser respeitado '
isso, para nós, é uma questão vital, sendo o caso República' apenas
uma ilustração do referido problema na nível dos meios de
comunicação.
Refere a campanha anti-socialista com insinuações caluniosas (...) acerca do
pseudo e falso empenhamento dos dirigentes do Partido Socialista no 11 de
Março e às críticas à democracia por parte do PCP: as críticas que se fazem
às eleições (...) como expressão da maioria silenciosa. São ainda as críticas
que se fazem à democracia europeia, para se acabar nas críticas à democracia
pura e simplesmente. Desta forma procura aclarar os argumentos utilizados pelo
PCP relativo à forma de Democracia preferida pelo partido socialista e seus
aliados. Procura desconstruir o argumento não comunista, logo reaccionário,
promovido, no seu entender, pelo PCP, recorrendo ao cenário de antes do 25 de
Abril de 1974 em quem não era fascista era comunista e ia para a cadeia e
referindo, em seguida, caminhar perigosamente para situação inversa: quem não
é comunista (...) é reaccionário ou inimigo do processo revolucionário!.
Relativamente à natureza do socialismo que o PS pretende (Que socialismo
pretendemos para o nosso país?), reforça a fidelidade ao pacto com o MFA e
defende um socialismo pluralista para Portugal: o socialismo para o qual
caminhamos é um socialismo que respeita as liberdades, é um socialismo
pluralista Mas o mesmo socialismo não está desligado da democracia
representativa:
Ora nós entendemos que se o Povo Português se exprimiu nas eleições
(...) a favor claramente, pela opção socialista (...) também se
exprimiu, de uma maneira igualmente clara, a favor de um certo tipo
de socialismo e esse socialismo é o socialismo que respeita o
pluralismo e as liberdades. O povo Português não quer (...) não
aceita (...) uma ditadura comunista em Portugal ou uma democracia
tipo democracia popular.
23/05/75 ' Carta ao Conselho de Revolução
Carta de Manuel alegre em resposta a uma descrição dita tendenciosa do Diário
de Notícias em relação aos acontecimentos de 19 Maio (manifestação frente às
instalações do jornal República), que, no entender de Alegre teve o objetivo
de criar divisões entre o MFA.
A função desta notícia parece ser a de demonstrar e reforçar o facto de a
imprensa portuguesa estar a ser controlada e a manipular o povo, bem como de
novo colocar em evidência uma campanha anti-socialista (argumento
Conspirativo):
O relato publicado (...) é um exemplo flagrante de manipulação da
opinião pública, comparável à que neste país existiu durante 48 anos
(...) Há nesse relato intenção deliberada de deturpar a verdade, com
o objectivo de criar divisões entre o MFA e o Partido Socialista
(...) O relato (...) manifestamente tendencioso, revelador de um
espirito sectário e anti-socialista, caracteriza atualmente quase
todos os órgãos de informação (...) Não deixa de ser curioso que
militantes e resistentes antifascistas, socialistas por convicção
(...) continuem a ser caluniados pelos mesmos órgãos que os
caluniavam antes do 25 de Abril (...) os militantes do Partido
Socialista já não têm, praticamente, acesso à imprensa.
23/05/75 ' Se cedêssemos a Liberdade de Expressão estaria definitivamente
ameaçada no nosso País ' Disseram os Jornalistas em Conferência de Imprensa
O Caso República é visto pelos jornalistas (jornalistas de O República),
nesta Conferência de Imprensa como um conflito político: A situação de
conflito político verificada na República' (...) resulta de uma acção de um
grupo de trabalhadores no sentido de controlar o jornal, não apenas
administrativamente, mas também na sua orientação e conteúdo. O acontecimento
é descrito como uma usurpação de poder ilegítima por uma pseudominoria:
Esse grupo pretendeu criar uma situação de facto, a partir de uma
pseudominoria. E digo pseudo porque temos elementos que nos permitem
afirmar que houve trabalhadores que assinaram um papel em branco,
depois de lhes dizerem que as assinaturas se destinavam a um fim
completamente diferente ' procura-se, assim descredibilizar este
grupo descrevendo a forma como conseguiram obter assinaturas.
Identificam-se os jornalistas como defensores da liberdade de expressão e do
direito à Informação, com recurso nomeadamente ao mecanismo de apresentação de
credenciais na luta antifascista e pela liberdade de informação: António
Marcelino Mesquita, o mais velho redactor da República' e prisioneiro durante
14 anos no Tarrafal faz então um breve historial da vida da República' (...) A
nossa luta principal deve ser pela liberdade de expressão e pelo direito à
Informação
23/05/75 ' Manter a democracia em Portugal
Conflito ideológico é o que destaca o jornalista desta notícia, a propósito das
palavras do então Ministro da Comunicação Social sobre o Caso República:
Conflito ideológico, eis como o ministro (...) com clareza classificou o Caso
república'. Isto para defender que este caso concerne à democracia pluralista
' Os democratas empenham-se na luta pelo pluralismo na Informação — que
ultrapassa o foro das lutas partidárias: Deslocar o Caso República'
unicamente para o campo das lutas partidárias é profundamente errado (...)
primordialmente é um caso de todo o Povo Português; num discurso para
mobilizar para a causa, não são só os socialistas, mas todos os portugueses
democratas.
O jornalista usa os mecanismos de Inoculação e de Recurso à Apresentação de
Credenciais para deslegitimar o PCP, aqui abertamente evocado:
quando (...) pretendem o saneamento do lutador antifascista Raul
Rego, estão objectivamente (...) a defender as forças
antissocialistas (...) o PCP (...) sabemos que tem feito tudo para
decapitar o Partido Socialista.
O mecanismo da extremização é usado ao comparar a defesa pela independência do
República com a defesa do processo revolucionário em que os socialistas
estão particularmente empenhados, (e) a defesa da independência nacional.
29/05/75 ' A luta pela informação
A Luta pela Informação' é o título da referida notícia sobre um Comício
promovido pelos profissionais da informação do Partido Socialista
Apesar do uso do mecanismo da Confissão ' A luta pela informação objectiva e
crítica do povo português mobilizou milhares de socialistas ' há também uma
retórica, com recurso aos mecanismos de apresentação de credenciais e
inoculação,com apelo a uma luta que se pretende não ser só do PS: fala-vos um
jornalista sem filiação partidária, que se orgulha de um passado de luta pelo
direito à Informação. O reforço da imparcialidade e apartidarismo, com recurso
ao mecanismo de descrição de argumentos com dados factuais, é recorrente na
notícia: De sublinhar (a presença no comício de) dois profissionais
competentes e corajosos, já no tempo do fascismo, e sem filiação partidária,
terem usado da palavra nesta luta comum a todos os profissionais da informação
verdadeiramente progressistas. Esta frase denota igualmente a generalização do
problema apontado para uma esfera além dos partidos e que diz respeito a toda a
classe jornalística.
Os mecanismos de inoculação e apresentação de credenciais são usados de forma
recorrente: Quando Raul Rego (...) me convidou para assumir a Direcção do
Diário de Notícias', eu entendi que o convite não era ao socialista, mas ao
antifascista que sempre fui.
nós, jornalistas, dissemos-lhes (...) que não se saneia um homem
como Raul Rego (...) que foi três vezes preso pela PIDE. Não se
saneia um homem que foi esbofeteado pela PIDE (...) não se saneia um
homem cujos actos foram sempre coerentes com os actos de um grande
lutador antifascista.
A referência, de novo, à falta de independência de outros órgãos de informação
nacionalizados, é repetida:
o dinheiro começa a sair dos cofres da fazenda (...) pergunto se o
povo tem que pagar pela propaganda de um partido (...) para termos
uma informação deste género o melhor é acabar com os jornais, criar
uma Informação única (...) é fácil, basta fazer como se fez com a
legalização da Intersindical.
A anterior acusação de que se trata de um conflito político é reiterada: O
caso República' não é um conflito de trabalho (...) O problema da República'
é um caso político, é mais uma tomada de assalto a um órgão de informação.
De novo, também, é denunciada uma alegada estratégia do PCP em torno da
bipolarização Revolução vs.Reacção:
quando não se tem argumentos para convencer os trabalhadores (que
efectivamente lutam contra a instauração de uma ditadura neste País)
são eles imediatamente chamados de reaccionários; Não admira pois
que a Imprensa (...) seja como o próprio ministro da Comunicação
social ressaltou (...) pouco crítica' (...) Mas pergunta-se: quantos
se atrevem a criticar sob pena de ser apelidado de divisionista',
reaccionário' ou contra-revolucionário'?.
O enfoque sobre o argumento da falta de Liberdade de expressão é também de
novo repetido, associado por vezes ao argumento Conspirativo, ou com recurso à
apresentação de credenciais: a liberdade de expressão de pensamento é uma das
manifestações da própria liberdade e condição fundamental da democracia;
Aquilo a que se assiste presentemente na generalidade dos jornais portugueses é
a monopolização da informação por determinado partido e seus satélites, o que
representa um regresso à Censura; Os agentes desta cabala (...) que têm como
fim último roubar ao Povo português o direito à Informação que lhe foi
restituído em 25 de Abril; interesses de minorias, ocultas sob uma capa
supostamente revolucionária, pretendem silenciar as vozes livres deste país;
Será possível (...) que se leve tão longe o assalto à informação? Que se
queira calar a voz da República' (que resistiu a Salazar e (...) Caetano?).
A tónica na legitimidade eleitoral é colocada em relevo por Jaime Gama, num
aparente contraponto ao argumento do eleitoralismo apresentado pelo PCP:
como se só houvesse eleições verdadeiramente livres quando
acontecesse o impossível, isto é, quando o Partido Comunista tivesse
100 por cento dos votos (...) É à Assembleia Constituinte, é à
assembleia eleita pelo Povo Português que cumpre decidir qual é o
regime das suas liberdades públicas.
4/6/75 ' A atitude do Partido Comunista compromete a segurança da Europa
A presente notícia relata contactos de Soares com líderes políticos europeus,
seja de outros Partidos Socialistas, seja com os Partidos Comunistas Espanhol e
Italiano.
A validação das posições do PS por estes dois últimos partidos é clara: o
dirigente do PCE (Espanhol) mantém muito melhores relações com os socialistas
portugueses do que com os partidários de Cunhal. Declarou-nos também que
considerava deplorável a suspensão do jornal República'; A simpatia activa
dos comunistas espanhóis e também dos comunistas italianos satisfaz
naturalmente Mário Soares.
As alegadas intenções do PCP, em promover uma alegada Democracia popular
são patenteadas versus uma Democracia Política defendida pelo PS:
aparentemente (...) eles (PCP) pretendem expulsar-nos do Governo a
fim de nele se manterem sós, ou com os militares incitando estes
últimos a aceitar uma opção de democracia popular. Trata-se de uma
forma não viável em Portugal (...) Nós queremos salvar e manter a
democracia política. Álvaro Cunhal diz o contrário. Ele afirma que o
eleitoralismo está em contradição com o processo revolucionário.
Caminhamos para a democracia popular ou para a democracia política?
O conflito na República é de novo referenciado como um conflito político, que
põe em causa o pluralismo no sector da Informação:
Pedimos que o pluralismo seja assegurado a todos os níveis do
aparelho de Estado e, em particular, na Informação (...) Pedimos no
que diz respeito ao caso República que a Lei de Imprensa seja
aplicada (...) que prevê que o director da publicação seja escolhido
pela empresa, de acordo com o Conselho de Redacção. (...) o conflito
é político.
A Legitimidade Eleitoral do regime político, e do próprio PS (ganhador das
eleições à Constituinte) é relevada: Acumulam-se graves problemas. Não podemos
permanecer no governo de uma maneira teórica.; Somos o partido mais forte do
país e não estamos realmente associados às grandes decisões políticas. Não
reclamamos de modo algum uma remodelação governamental, mas não podemos aceitar
a priori ser vítimas de uma constante discriminação.
4/6/75 ' Karl Marx Contra-Revolucionário
A Liberdade de Imprensa, com uso de uma voz credível (Karl Marx) para veicular
o ponto de vista do jornalista (mecanismo retórico de apresentação de
credenciais), é a tónica da notícia:
Na ausência da liberdade de imprensa, todas as outras liberdades não
passam de miragens' (...) À liberdade de imprensa que Marx assim
defendia, pretendem os totalitaristas luso-moscovitas contrapor o
monolitismo, que educa as massas e as prepara para a gloriosa batalha
do comunismo, tal como o pastor encaminha as ovelhas do redil para o
aprisco, onde as ordenhará (...) O pluralismo cria ou desenvolve no
seu seio a contra-revolução? Citamos ainda Marx: A verdadeira
censura, aquela cujas raízes mergulham na própria essência da
liberdade de imprensa é a Crítica.
9/7/75 Para reflexão: A Liberdade Revolucionária (artigo de Edgar Morin)
Um artigo do sociólogo Edgar Morin publicado no jornal Nouvelle Observateur é
traduzido no Portugal Socialista de 9/7/75. O recurso ao mecanismo de
apresentação de credenciais, tendo em conta o estatuto e percurso de esquerda
deste intelectual francês, é notório. Morin é citado num contexto em que é
realizada a construção do argumento da liberdade de imprensa por contraponto
ao argumento da clivagem revolução versus reacção:
Muitos daqueles para quem a liberdade de imprensa, em relação a um
regime fascista ou reacionário, constitui um bem absoluto e uma
exigência progressista, consideram esta mesma liberdade, quando se
inicia um processo considerado revolucionário, como um bem acessório
e um perigo reacionário (...) todo o protesto contra um atentado à
liberdade de Imprensa, tal como toda a defesa da República', aparece
necessariamente como uma contra-revolucionária.
DISCUSSÃO
Seguidamente, apresenta-se uma síntese dos principais Mecanismos de Retórica
sobre o Caso República, maioritariamente utilizados por cada um dos Partidos:
PCP ' Recurso ao mecanismo retórico da minimização relativamente ao Caso
República. Bipolarização da realidade social e política, construindo com essa
bipolarização a imagem de um PS divisionista e reacionário, contrapondo a essa
imagem a de um PCP unificador das massas, vanguarda da revolução. Há também o
recurso ao mecanismo de distanciamento face ao caso República, servindo-se
desse argumento para invocar clima de violência e perigo na continuidade do
processo revolucionário.
Os conteúdos das notícias veiculadas são maioritariamente uma contra
argumentação face às acusações por parte do PS. É recorrente nos discursos o
binómio revolução vs.Reação. O recurso ao mecanismo de apresentação de
credenciais de um Partido que lutou pela liberdade no decurso do fascismo, é
também patente.
PS ' Recurso ao mecanismo retórico de extremização dos factos O PS intitula-se
o Partido defensor da liberdade ameaçada ' defendem a liberdade de imprensa e
servem-se da retórica para uma extrapolação táctica dessa liberdade para o meio
político e social, servindo-se para tal do Caso República.
Utiliza frequentemente o recurso a credenciais para credibilizar as opiniões.
Procura fazer aderir o povo para as suas teses fazendo alusão aos currículos de
alguns dos seus militantes ou simpatizantes. Não tem a credibilidade do PCP
enquanto partido, pelos anos de luta clandestina, procurando por isso utilizar
a credibilidade de individualidades militantes e simpatizantes do partido,
reforçada pelo passado ativo contra o regime fascista.
Especificamente em relação ao caso República vemos aqui uma diferenciação
clara nos mecanismos retóricos de Minimização vs.Extremização utilizados por
cada um dos Partidos. O PCP nas situações (poucas face ao PS) em que se
pronunciou sobre o caso usou de uma forma geral a estratégia da minimização,
não se pronunciando tanto sobre o caso em si, mas sim sobre a atitude do PS
face aos acontecimentos. Procurou usar a postura do PS para confirmar a sua
tese de aliado de uma fação reacionária. O recurso à minimização e ao
distanciamento reforça o facto alegado de não envolvimento no caso, e de
aproveitamento político do mesmo por parte do PS. O mecanismo da extremização
na exposição do caso, por parte do PS, parece ter por objetivo incitar à ação a
audiência. O PS procura usar o acontecimento para reforçar o argumento de:
Os discursos veiculados nos dois jornais analisados traduzem a tomada de
posição de cada força política, particularizada no caso República e extrapolada
pelos dois grupos políticos em confronto, para o contexto de controvérsia
político-ideológica do país.
No discurso socialista a tónica dilemática coloca-se entre a defesa da
liberdade, conquistada na revolução de Abril, de um pluralismo construído como
liberdade de opinião, de representatividade das diversas correntes de
pensamento socialista em prol de um socialismo em liberdade, face a uma visão
única e limitadora da liberdade de expressão das diversas correntes do
pensamento socialista, alegadamente defendida pelo PCP. No quadro abaixo
apresentamos as polaridades ideológicas que se realçam no discurso veiculado no
Portugal Socialista:
No discurso comunista a tónica dilemática coloca-se entre ser revolucionário e
defender práticas revolucionárias, ou ser reacionário e defender uma liberdade
de expressão que basicamente significa a expressão de interesses capitalistas
ou burgueses, alheios aos interesses do povo português.
No quadro a seguir apresentamos as polaridades ideológicas veiculadas no
Avante:
Além das funções epistémica e persuasivas, em termos retóricos, estas
dicotomias são exploradas por ambos os partidos também para extremar posições e
manter coesos os grupos a que pertencem (Bar-Tal, 2000).
Procura-se, agora, concluir o trabalho através de uma análise dos momentos em
que os discursos das duas formações políticas se veiculam como Maioritário
vs.Minoritário e fornecer uma possível interpretação com base no pressuposto de
Billig (1991, 2012) de que defender-se um determinada posição, é sempre uma
oposição a uma opinião ou atitude contrária.
O PCP, nos seus discursos, constrói-se maioritário evocando a Aliança Povo-MFA,
bem como a legitimidade revolucionária assente no pacto do MFA com os Partidos.
Fá-lo em contraponto às ações da reação ' o que ressalta pela recorrência ao
Argumento Conspirativo (ameaças contra-revolucionárias) no discurso do PCP '
e ao fenómeno do eleitoralismo, todo um processo que, no entender deste
Partido, ocorreu nas eleições à Assembleia Constituinte, associado a um falso
democratismo da classe burguesa, e inconciliável com o processo
revolucionário.
Credibilizado por longos anos de clandestinidade e de luta pelas liberdades,
reconhecidamente a principal oposição ao regime fascista, cria também a ideia
de uma força coesa e forte, vanguarda, no processo revolucionário, da classe
trabalhadora.
O discurso do PCP, na forma como se coloca ao lado de uma maioria
revolucionária, procura, simultaneamente, veicular a imagem de uma minoria
reacionária (conspirativa e anti-comunista) associada ao Partido Socialista, o
qual surge como força Divisionista naquele processo, e que é necessário
combater, dado que aquela minoria reacionária poderia pôr em causa as
liberdades conquistadas com o 25 de Abril.
O discurso do PS constrói-se, por seu lado, maioritário num momento em que se
pretende opor, firme e claramente, ao avanço do PCP (no caso, em análise, na
suposta tomada de controlo dos Órgãos de Comunicação Social, particularizada no
caso República). Recorre, este caso, ao argumento da legitimidade eleitoral,
fruto dos resultados das eleições à Assembleia Constituinte, alertando para uma
possível ditadura.
Altera para minoritário, quando se refere à falta de influência no governo
provisório (na participação nas decisões políticas de tal Governo), para
evidenciar o peso que o PCP exerce, apesar dos resultados eleitorais.
Ao contrário do PCP que minimiza o Caso República e adota um certo
distanciamento, o PS, quando se debruça sobre o caso, convoca o oponente para o
discurso. Tal evocação funciona como contraste para a posição do Partido
Socialista, servindo, sobretudo, para argumentar contra a escalada
totalitarista da atuação do PCP.