Literacia Familiar: Crenças de pais de crianças em idade pré-escolar e
características das práticas de literacia na família
Literacia Familiar - Crenças de pais de crianças em idade pré-escolar e
características das práticas de literacia na família
Patrícia Pacheco* e Lourdes Mata**
*ESE, Torres Novas / UIPCDE;
**ISPA - Instituto Universitário / UIPCDE
Correspondência
ABSTRACT
In this research we have two main aims: to understand and characterize the
parents' beliefs about literacy learning and about their role in this
process; to analyze the relationships between different beliefs and also
between beliefs and family literacy practices and literacy home environments.
In this study participated 198 parents of children attending the last year of
preschool. For data collection we used a questionnaire that included the
characterization of four different components: (1) family literacy practices,
(2) beliefs about literacy learning process, (3) beliefs about the role of
parents in literacy learning; (4) literacy environments. The results allowed us
to identify different frequencies for different kinds of literacy practices:
teaching and training practices were the most frequent, followed by
entertainment practices and, lastly, the day-to-day. In what concerns beliefs,
we found that parents value their role in various aspects (reading stories,
teaching practices and contextualized). A cluster analysis allowed the
identification of three groups of parents with different characteristics both
in literacy practices and in beliefs. We could not conclude on the existence of
a linear association between beliefs and practices because parents into
distinct groups had similar conceptions in certain aspects. However, each group
had some peculiarities that allowed us a deeper understanding of the
relationships between beliefs and family literacy practices. Regarding the
implications of this study, they are discussed concerning the school-family
partnership and the pre-school education literacy practices.
Key-words:Family literacy, Parents' beliefs, Pre-school.
INTRODUÇÃO
As investigações no âmbito da literacia familiar são unânimes ao considerarem o
meio familiar como um contexto relevante e que proporciona oportunidades à
criança de ter um contacto com artefactos de literacia (literacy artifacts),
observar actividades desenvolvidas por outros, explorar comportamentos de
literacia, envolver-se em actividades de prazer com a leitura e escrita com os
outros e beneficiar de estratégias de aprendizagem orientadas por outros
membros da família quando estão envolvidos em actividades de literacia
(DeBaryshe, Binder, & Buell, 2000; Mata 1999, 2006). As perspectivas da
literacia familiar reforçam a ideia de que práticas educativas das famílias não
ocorrem num vazio, mas estão imbuídas dos valores socioculturais da comunidade
de referência (Moreira & Ribeiro, 2009). Desta forma, parece ser relevante
compreender as características familiares e como estas podem influenciar as
crenças dos pais, as suas práticas e, consequentemente, o desenvolvimento da
literacia emergente.
Segundo Evans, Fox, Cremaso e McKinnon (2004) as crenças podem ser definidas
como ideias que são aceites e tomadas como verdadeiras pelos pais e que regulam
a interacção que estabelecem com os seus filhos. As crenças são construídas a
partir das histórias individuais e das normas culturais de cada uma das
famílias e manifestam-se nas características do meio familiar, nas práticas
parentais, nos comportamentos e na natureza das interacções (Lynch, Anderson,
Anderson, & Shapiro, 2006; Norman, 2007; Weigel, Martin, & Bennett,
2006). Neste sentido, as crenças sobre literacia referem-se às ideias que os
pais consideram verdadeiras sobre o que é literacia e sobre o conhecimento
literácito (Norman, 2007). Weigel et al. (2006) referem ainda que alguns pais
sentem que o seu papel pode ser importante e ter algum impacto no
desenvolvimento da literacia emergente dos filhos, enquanto outros pais não têm
o mesmo tipo de crença, subvalorizando o seu papel, atribuindo maior
responsabilidade à Escola.
Relativamente ao tipo de crenças, Evans et al. (2004) propõem duas
perspectivas: top-downe bottom-up. Na perspectiva top-downou construtivista é
incluída uma orientação para a aquisição da literacia e onde é realçado o
contexto da informação, decorrendo daí o conhecimento acerca do texto e das
estruturas linguísticas. É dada ênfase ao significado da informação. De forma
global, é uma perspectiva que envolve o uso das estruturas linguísticas, imagem
e conhecimento geral, aspectos importantes no desenvolvimento da literacia.
Na abordagem bottom-upé salientada a importância da eficiência e automatismo da
descodificação das palavras. É uma abordagem que enfatiza as competências
técnicas para a aprendizagem da literacia, tal como o conhecimento do alfabeto
e da cadeia fónica. Para os autores as crenças dos pais, quer numa ou noutra
abordagem, proporcionam diferentes tipos de ambientes de literacia às crianças
que, por sua vez, influenciarão o desenvolvimento das competências de literacia
(Evans et al., 2004).
No seguimento destas ideias, as investigações (e.g., Bingham, 2007; Debaryshe,
1995; Lynch et al., 2006; Norman, 2007; Phillips & Lonigan, 2009; Weigel et
al., 2006) têm apontado para uma relação entre as crenças dos pais, as práticas
e o ambiente de literacia familiar.
Crenças dos pais e práticas de literacia familiar
Debaryshe (1995) refere que mães com crenças facilitadoras, consonantes com a
perspectiva top-down, desenvolvem práticas educacionais que promovem nas
crianças experiências frequentes de leitura. São mães que durante a leitura
utilizam estratégias orientadas para a discussão com a criança. No seguimento
deste estudo, as investigações de Weigel et al. (2006) e Serpell, Sonnenschein,
Baker e Ganapathy (2002) reforçam a existência de estilos parentais
diferenciados. Um estilo parental, onde estão subjacentes crenças ditas
facilitadoras, em que os pais acreditam na importância do seu papel no
desenvolvimento da criança e, por isso, tendem a envolver o seu filho em
actividades ligadas à literacia e linguagem. Além disso, são pais que orientam
as suas práticas com base no entretenimento, cultivam mais os aspectos lúdicos
ligados à escrita e apresentam uma motivação intrínseca para a leitura. Parece
ainda existir um outro estilo parental, dito convencional (consonante com a
perspectiva bottom-up), em que os pais apresentam uma atitude menos positiva
acerca da leitura, não proporcionando uma atmosfera de interesse e entusiasmo
pela literacia, criando menos envolvimento nestas actividades.
No decorrer destas perspectivas (DeBaryshe, 1995; Serpell et al., 2002; Weigel
et al., 2006) têm surgido outros estudos (Bingham, 2007; Lynch et al., 2006;
Norman, 2007) que também evidenciam a relevância das crenças dos pais na
compreensão da literacia familiar. Os estudos de Bingham (2007) e de Norman
(2007) apontam para uma relação entre crenças, práticas de literacia familiar,
desenvolvimento da literacia emergente e competências inicias de leitura. Por
exemplo, Bingham (2007) refere que as crenças sobre o desenvolvimento das
crianças parecem estar positivamente relacionados com a qualidade do ambiente
de literacia familiar e com a qualidade das interacções nas situações de
leitura de histórias.
O estudo de Norman (2007) vem desafiar a dicotomia das perspectivas top-down e
bottom-upe aponta para o facto de os pais apresentarem, de forma alternada,
crenças acerca da literacia que incluem elementos e estratégias de ambas as
perspectivas. A autora adianta como possível explicação que os pais acreditam
que a literacia não é aprendida de forma isolada, mas mediada através de várias
actividades. Segundo Norman (2007, p. 44) "specific literacy activities
may be defined by previous researchers as top-down or bottom-up perspectives,
but parents' beliefs may not be mutually exclusive. Further research is
needed to explore this possibility".
Um outro estudo de Phillips e Lonigan (2009), e na linha da investigação de
Norman (2007) refere alguma diversidade nos perfis dos pais no que diz respeito
à sua referência conceptual e às suas práticas. Assim, o referido estudo
realçou a existência de um grupo de pais designado "low-low" que
apresentava valores baixos e moderados em dois tipos processos, outside-in
(variáveis mais relacionadas com o livro e leitura partilhada de histórias) e
inside-out(variáveis mais relacionadas com o ensino). Um outro perfil de pais
designado de "high-high" que revelava valores elevados nos dois
tipos de processos referidos. Por último, verificou-se um grupo de pais
"low-high" com valores baixos a nível dos processos outside-in, mas
muito elevado a nível de variáveis mais tecnicistas (inside-out). Estes
resultados evidenciam, por exemplo, que a diversidade de práticas dos pais não
deve ser associada de forma linear a um tipo de crenças, mas sim a ideias que
se fundamentam em perspectivas conceptuais que se complementam.
Crenças dos pais e ambiente de literacia familiar
Segundo Kassow (2006) o ambiente de literacia familiar inclui não só as
actividades de literacia que envolvem pais e filhos, mas também a exposição e o
contacto com materiais ligados à leitura e escrita (e.g., livro) ou recursos
que facilitam e promovam esse contacto (e.g., computador). A diversidade e
acessibilidade desses materiais existentes em casa podem constituir um bom
indicador para caracterizar o(s) ambiente(s) familiar(es). Neste sentido, de
forma global, parece existir alguma consistência para que os pais com crenças
mais holísticas ou facilitadoras desenvolvam não só mais práticas de literacia
familiar, como iniciem a leitura mais cedo junto dos filhos, despendam mais
tempo a leitura e escrita e apresentem um ambiente mais rico em termos do
contacto com o livro (e.g., Bingham, 2007; DeBaryshe, 1995; Lynch et al., 2006;
Mata, 2006; Norman, 2007; Weigel et al., 2006). Por exemplo, DeBaryshe (1995)
encontrou uma associação entre mães com crenças facilitadoras, maior frequência
a nível da leitura junto dos filhos e um ambiente mais rico em termos do
contacto com o livro.
Com resultados semelhantes, Weigel et al. (2006) referem também que as mães com
crenças facilitadoras revelaram ter gosto em ler aos filhos, proporcionando
mais situações de observação de actividades de escrita, assim como mais tempo
dedicado à leitura. Este estudo constata ainda que as mães com crenças
convencionais parecem envolver-se menos com os filhos em actividades de
literacia e partilhar menos tempo de leitura de histórias. Os autores
acrescentam que a variabilidade do(s) ambiente(s) de literacia familiar poderá
ter a ver com as experiências educacionais mais positivas ou menos positivas
das mães, uma vez que as mães com crenças convencionais foram as que indicaram
ter experiências educacionais menos positivas, bem como a existência de
barreiras nas situações de partilha de histórias (e.g., pouco espaço em casa) e
poucas oportunidades de envolvimento com os filhos noutras actividades (e.g.,
cantar, desenhar, jogar jogos). Parece também ser consensual que os pais com
crenças mais holísticas entendem a leitura como uma situação de entretenimento,
cultivando o aspecto mais cultural e lúdico e que acreditam que as actividades
de literacia são importantes para desenvolver junto dos filhos, apresentam um
ambiente mais facilitador da acessibilidade e do contacto com o livro (e.g.,
DeBaryshe, 1995; Norman, 2007; Serpell et al., 2002; Weigel et al., 2006). Uma
outra variável relevante na caracterização do ambiente de literacia familiar, e
que constitui uma medida indirecta do contacto com o livro e das práticas
desenvolvidas pelos pais, é o conhecimento de literatura infantil (e.g., Mata,
2006; Norman, 2007; Sénéchal & LeFevre, 2002). Mata (2006) encontrou
associações significativas entre esta medida e as concepções dos pais, já que
pais com concepções mais funcionais/holísticas demonstravam mais conhecimentos
sobre a literatura para a infância. Por outro lado, também se identificaram
associações entre estes conhecimentos dos pais tanto com outros aspectos dos
ambientes de literacia familiar (e.g., quantidade de livros infantis, tempo e
frequência de leitura de histórias) como também com os conhecimentos emergentes
de literacia das crianças.
Face ao apresentado, sobressaem dois aspectos relevantes. Por um lado, a
importância das crenças dos pais e a forma como estas podem condicionar a sua
actuação e interacções estabelecidas com os filhos em torno da leitura e
escrita. Por outro lado, parece também transparecer destes resultados alguma
diversidade não só ao nível das crenças mas também na forma como se podem
articular entre si e até condicionar as práticas de literacia familiar. Ficam
em aberto algumas questões relativas à linearidade das relações entre crenças e
práticas, ou mesmo sobre a coerência das crenças que os pais desenvolvem sobre
o seu papel e a forma como concebem a aprendizagem da linguagem escrita. Serão
então estas questões que estão subjacentes à investigação que desenvolvemos. Na
realização deste trabalho tivemos então dois grandes objectivos principais:
Compreender e caracterizar as crenças dos pais sobre o Processo de Aprendizagem
da Linguagem Escrita e sobre o seu Papel nas interacções e actividades que
consideram importantes desenvolverem com os filhos; Analisar as relações entre
os vários tipos de crenças dos pais e também entre estas e as práticas e
ambientes de literacia familiar.
MÉTODO
Participantes
O estudo foi desenvolvido com 198 pais de crianças a frequentar o último ano do
pré-escolar. Os níveis de escolaridade destes pais variavam, embora 42,6%
tivessem uma licenciatura.
Instrumentos
Práticas de Literacia familiar- Para a caracterização das práticas de
literacia familiar tivemos como referência o instrumento de Mata e Pacheco
(2009). Este instrumento considera três tipos de actividades de leitura e de
escrita, partilhadas entre pais e filhos: práticas realizadas no Dia-a-Dia, que
englobam actividades que são desenvolvidas e integradas nas rotinas familiares;
práticas de Entretimento, que englobam actividades desenvolvidas nos momentos
de lazer e na ocupação dos tempos livres; práticas de Treino, que englobam
actividades direccionadas para o ensino e o treino de competências e
convenções.
Para as práticas do Dia-a-Diao questionário contemplava 10 itens [e.g.,
Costumamlerrótulos de embalagens ou etiquetas com ou para o vosso filho(a)?],
para as de Entretimento9 itens [e.g., Costumamleras legendas dos filmes ou de
outros programas de TV com e para o seu filho(a)?] e para as de Treino também 9
itens [e.g., Costumamleras legendas dos filmes ou de outros programas de TV com
e para o seu filho(a)?]. No seu total o questionário ficou constituído por 28
questões em que os pais tinham que se posicionar numa escala de cinco pontos
(nunca/poucas vezes/algumas vezes/com frequência/com muita frequência). As
pontuações atribuídas variaram entre 0 e 4, e para cada dimensão calculou-se a
média dos itens que a constituíam. No que respeita as características
psicométricas analisámos a consistência interna para cada uma das dimensões
através do Alpha-Cronbach onde se obtiveram valores adequados (Dia-a-dia: .86;
Entretimento: .75; Treino: .91).
Crenças dos Pais- Com o intuito de caracterizar as crenças dos pais sobre
a aprendizagem da leitura e escrita elaborámos duas escalas integrando os
contributos das investigações de Bingham (2007) e Lynch et al. (2006). Assim,
organizámos uma escala para caracterizar as crenças dos pais sobre o Processo
de Aprendizagem da Leitura e Escritae outra para as crenças sobre a importância
do Papel dos Paisna aprendizagem da leitura e escrita.
O instrumento sobre as crenças dos pais relativas ao Processo de Aprendizagem
da Leitura e Escritaficou constituído por 17 afirmações que reenviavam para 3
tipos diferentes de crenças: (1) Aprend. Holísticas- 9 itens relacionados
com a valorização tanto das aprendizagens feitas antes do início do ensino
formal como de actividades diversificadas de utilização da linguagem escrita
(e.g., É importante que a criança contacte com diferentes suportes de escrita,
como por exemplo: revistas, jornais, livros de diversos assuntos, cartas.); (2)
Aprend. Tecnicistas-Práticas- 4 itens relacionados com actividades
estruturadas exclusivamente direccionadas para o ensino e treino de convenções
e competências (e.g., É necessário para a criança saber as letras do alfabeto e
dos seus sons antes de começar a escrever.); (3) Aprend. Tecnicistas-
Escola- 4 itens onde a escola é a principal promotora da aprendizagem da
leitura e escrita podendo assumir a exclusividade neste processo (e.g., As
crianças só estão preparadas para aprender a ler e escrever quando entram na
escola do 1º ciclo).
O instrumento relativo às crenças sobre a importância do Papel dos Paisna
aprendizagem da leitura e escrita continha 15 itens distribuídos por 3
dimensões distintas: (1) Papel-Práticas Holísticas- 5 itens que se
referiam à importância dos pais desenvolverem actividades diversificadas com os
filhos, mesmo antes de eles saberem ler e escrever (e.g. É importante que os
pais leiam e escrevam coisas diversificadas com os filhos.); (2) Papel-
Práticas-Leitura de Histórias- 5 itens que se relacionavam todos com a
importância dos pais lerem histórias e explorarem esses momentos (e.g., É
importante que os pais encorajem os filhos a ajuda-los a contar as histórias.);
(3) Papel-Práticas Ensino- 5 itens reenviando para a importância dos pais
desenvolverem actividades onde ensinem os filhos algumas das convenções da
escrita (e.g., É importante que os pais ajudem os filhos a saber o alfabeto.).
Para os dois instrumentos o processo de cotação era semelhante. Face a cada uma
das afirmações os pais tinham que manifestar o seu grau de concordância numa
escala de 6 pontos (desde o "Discordo Completamente" ao
"Concordo Completamente"). A cotação para cada item variava então
de 1 a 6 e para cada dimensão calculou-se a média dos itens que a constituíam.
Em relação às propriedades psicométricas, constatámos que os valores de
consistência interna foram bastante bons. No que se refere às crenças sobre o
Processo de Aprendizagem para a dimensão Aprend. Holísticao valor Alpha-
Cronbachfoi de .82, para a dimensão Aprend. Tecnicista-Práticasde .76, e para a
dimensão Aprend. Tecnicista-Escolade 0.72.
No que diz respeito às dimensões da escala da importância do Papel dos Pais, os
valores de consistência interna também foram satisfatórios obtendo-se os
seguintes valores de Alpha-Cronbach: Papel-Práticas Holísticas0.83, Papel-
Práticas Ensino0.86 e Papel-Leitura de histórias0.77.
RESULTADOS
Na apresentação dos resultados começamos com uma análise mais descritiva das
características dos participantes tanto no que se refere às práticas de
literacia familiar desenvolvidas, como quanto às suas crenças sobre a
aprendizagem da linguagem escrita e o papel dos pais nesse processo. Em seguida
apresentaremos alguns dados sobre as relações destas variáveis e a diversidade
das famílias nas suas concepções e práticas de literacia familiar.
Práticas de literacia familiar
A caracterização das práticas de literacia familiar contemplou três tipos de
actividades, Entreti mento, Treino e Dia-a-dia. Consoante a frequência de
ocorrência assinalada pelos pais a cada um dos itens, e que podia variar do
'Nunca' a 'Com Muita Frequência', a pontuação atribuída
variava entre 0 e 4, sendo o ponto médio da escala é o 2.
Tal como podemos observar pelo gráfico da Figura_1 as práticas de literacia
familiar referidas pelos pais, como mais regulares, são as práticas de Treino
(M=2.43) seguindo-se as práticas de Entretimentoe, por último, as práticas do
Dia-a-dia,ambas com valores abaixo do ponto médio, indicando uma frequência
relativamente reduzida.
Estas médias de frequência mostraram-se como significativamente diferentes
entre si (dia-a-dia/ /entretimento t(198)=-10,38, p<.001; dia-a-dia/treino t
(198)=-16.63, p<.001; entretimento/treino t(198)=-9,89, p<.001). Podemos então
afirmar que as actividades de ensino e Treino de compe tências da leitura e
escrita são mais frequentes, quando os pais interagem com os filhos em
situações com utilização de leitura ou da escrita. Com menor regularidade, os
pais utilizam com os seus filhos a leitura e escrita em situações mais lúdicas
e de lazer (Entretimento). Ainda com menos frequências as crianças são
envolvidas em ambiente familiar em actividades integradas nas rotinas
familiares do Dia-a-Dia.
Ao explorarmos as relações entre estes tipos de práticas pudemos constatar
sempre associações positivas e significativas variando entre .45 e .58. Este
parece-nos ser um indicador de que práticas de leitura e escrita de Treino, são
desenvolvidas em paralelo a práticas mais lúdicas ou utilitárias do quotidiano
destas famílias.
Crenças dos pais sobre o processo de aprendizagem da leitura e da escrita
Os resultados sobre as crenças dos pais relativas ao Processo de Aprendizagem
da linguagem escrita serão apresentados considerando as três dimensões que o
constituem. Tal como referimos anteriormente este instrumento permite
identificar dois grandes tipos de crenças: Holísticas e Tecnicistas. Por outro
lado, dentro das crenças Tecnicista diferenciavam-se as relacionadas com
práticas e actividades de ensino (Aprend. Tecnicistas-Práticas) e as
relacionadas com a responsabilidade da escola no processo de aprendizagem da
criança (Aprend. Tecnicistas-Escola).
Relativamente à caracterização das crenças dos pais podemos constatar pela
análise dos dados da Tabela_1, valores muito diferenciados para os vários tipos
considerados. Claramente a média para a dimensão Aprend. Holística(M=5.35)
indica que os pais se identificaram bastante com as afirmações referentes a
este tipo de abordagem para a aprendizagem (o valor máximo era de 6). As
afirmações referiam-se a actividades de leitura e escrita integradas em
situações funcionais e lúdicas, e também associadas à valorização das
utilizações informais da leitura e da escrita.
Seguidamente, com uma média mais baixa (M=3.67), ligeiramente acima do ponto
médio da escala (3.5), surgem as crenças Aprend. Tecnicistas-Práticas, onde são
incluídos itens que remetem para a importância de estratégias mais formais de
ensino da leitura e escrita, como o copiar as letras, saber as letras do
alfabeto.
Por último, com uma média mais baixa (M=2.12) surgem as crenças Tecnicista-
Escola, crenças que dão à escola um papel de responsabilidade exclusiva e de
contexto primordial da aprendizagem da leitura e escrita, não valorizando nem
incentivando outro tipo de abordagens. Estatisticamente foram confirmadas as
diferenças entre estas médias, realçando a vertente mais Holísticacomo
dominante, nas concepções dos pais sobre o processo de aprendizagem da leitura
e da escrita [Aprend. Holística/Aprend. Tecnicista-Práticas t(191)=15.73
p<.001; Aprend. Holísticas/Aprend. Tecnicistas-Escola t(191)=33.68, p<.001,
Aprend. Tecnicistas-Práticas/Aprend. Tecnicistas-Escola t(191)=16.14, p<.001].
Crenças dos pais sobre o seu papel na aprendizagem da leitura e da escrita
Novamente para a caracterização das crenças dos pais sobre o seu Papel no apoio
aos filhos em actividades de leitura e de escrita, o instrumento utilizado
permite identificar dois grandes tipos de crenças: as de Papel-Ensinomuito
associadas ao papel dos pais em actividades de ensino das convenções e treino
das perícias, e as Holísticas associadas ao papel que os pais podem desempenhar
em actividades mais funcionais e lúdicas. Dentro das crenças Holísticas o
instrumento permite caracterizar duas vertentes. Por um lado, a importância do
seu papel como modelos e também como mediadores na utilização da linguagem
escrita em actividades contextualizadas (Papel-Práticas Holísticas); por outro
lado, o seu papel na leitura de histórias e na dinamização desses momentos
(Papel-Leitura de Histórias). Como podemos constatar pela leitura da Tabela_2,
em todas as dimensões a média está acima do valor médio (3.5), realçando uma
posição clara, assumindo que é papel dos pais desenvolver acções e proporcionar
oportunidades nestas diferentes áreas.
Podemos verificar ainda que são as dimensões que remetem para crenças de papel
globalmente Holísticasquer no que se refere a diversas actividades (Práticas
Holísticas) quer à Leitura de históriasque apresentam médias mais elevadas,
próximas do valor máximo (6). Embora surja com uma média inferior (Papel-
Práticas Ensino, M=4,81), não é de desvalorizar o facto de estes pais acharem
que também devem ensinar e treinar, de forma mais estruturada, alguns dos
aspectos mais formais da linguagem escrita (e.g., identificação e escrita de
letras). Nas comparações destas médias, à semelhança do verificado para as
análises anteriores, todas elas se mostraram significativamente diferentes
(Papel-Práticas Holísticas/Papel-Leitura de Histórias t(194)=-9,12, p<.001;
Papel-Leitura de Histórias/Papel-Práticas Ensino t(197)=-12.57, p<.001; Papel-
Práticas Holísticas/Papel-Práticas Ensino t(197)=-6.29, p<.001). Estas
diferenças apontam então no sentido, de que apesar de todos os valores serem
elevados, estes pais atribuem prioridades diferentes à sua actuação nas
actividades e oportunidades de exploração da literacia que podem e devem
proporcionar aos seus filhos.
Ao analisarmos as relações entre as concepções de Papel e as relativas ao
Processo de Aprendi zagem pudemos constatar alguma coerência, como se pode
observar nos valores da Tabela_3.
Quando os pais têm concepções mais Holísticas sobre o processo de aprendizagem
da linguagem escrita, têm tendência para considerarem o seu papel importante no
desenvolvimento de todo o tipo de práticas, inclusivamente as de ensino e
treino (Papel-Práticas Ensino), apesar de, neste caso, a correlação ser mais
fraca. Por outro lado, quanto mais acreditam que a aprendizagem é
responsabilidade da escola, maior a tendência para atribuírem menos importância
ao seu papel. No que se refere às concepções Tecnicistas-Práticassobre a
aprendizagem da linguagem escrita, estas surgiram significativamente
relacionadas com a importância atribuída pelos pais ao seu papel no
desenvolvimento das actividades de treino e ensino (Papel-Práticas Ensino).
Práticas de Literacia e Crenças dos Pais
Os dados relativos às crenças apontam para alguma diversidade dos pais, onde
parece não existir uma clivagem clara entre concepções mais holísticas por um
lado e tecnicistas por outro. Esta diversidade também transparece ao nível das
práticas que os pais referem desenvolver, parecendo coexistir práticas de
literacia, com o envolvimento dos filhos, claramente diferenciadas. Com o
intuito de explorar melhor estes aspectos e compreender eventuais relações
entre práticas de literacia familiar e concepções dos pais utilizámos uma
análise de clusterstendo em conta as variáveis parentais (crenças aprendizagem,
crenças papel e práticas de literacia). Dessa análise resultaram três
clusterscujas características passaremos a apresentar quer no que se refere às
práticas desenvolvidas quer às suas crenças e também a alguns indicadores dos
ambientes de literacia.
No que se refere às práticas de literacia familiar com envolvimento dos filhos,
a caracterização para os 3 clustersestá apresentada no gráfico da Figura_2. Uma
leitura global dos dados permite-nos constatar diferenças entre os grupos para
os vários tipos de práticas, sendo estas confirmadas estatisticamente pelo
teste Kruskal-Wallis[Dia-a-dia: χ2(2, n=159)=267.7, p<.001; Entretimento: χ2(2,
n=159)=74.7, p<.001); Treino: χ2(2, n=159)=55.5, p<.001].
Uma análise comparativa dos perfis dos grupos permite-nos verificar que para os
pais incluídos nos clusters1 e 3 estes perfis são muito semelhantes
evidenciando baixa frequência de práticas do Dia-a-Dia e de Entretimento.
Contudo, diferenciam-se nas práticas de Treino já que os pais do cluster1
desenvolvem significativamente mais práticas deste tipo, em ambiente familiar
com os seus filhos (p<0.001). Por outro lado, os pais integrados no cluster2,
diferenciam-se significativamente (p<0.001) dos pais dos outros dois
clusterspor desenvolverem com mais frequência actividades de qualquer um dos
três tipos. Com base nestas características optámos por denominar o cluster1
por Práticas de Treinouma vez que estas são as únicas actividades desenvolvidas
por estes pais com os seus filhos com alguma regularidade. Quanto ao cluster2,
uma vez que os pais que o integram são os que em média desenvolvem mais
frequentemente qualquer tipo de práticas, denominámos por Altas Práticas.Por
último o cluster3, onde todos os tipos de práticas surgem com pouca frequência,
será o de Baixas Práticas.
A comparação das crenças dos pais destes três grupos encontra-se apresentada no
gráfico da Figura_3. Nesse gráfico estão apresentados os seus perfis relativos
aos dois tipos de crenças analisadas neste estudo: Crenças sobre a Aprendizagem
e Crenças sobre o Papel dos pais.
A análise da diferenciação dos perfis mostrou-se globalmente significativa não
só para crenças sobre a Aprendizagem nas suas três vertentes [Aprend.
Holística: χ2(2, n=194)=26.79, p<.001; Aprend. Tecnicista-Práticas: χ2(2,
n=191)=6.61, p<.05; Aprend. Tecnicista-Escola: χ2(2, n=191)=25.7, p<.001] como
também para as várias vertentes das crenças de Papel [Papel-Práticas
Holísticas: χ2(2, n=195)=19.7, p<.001; Papel-Leitura Histórias:χ2(2,
n=195)=24.3, p<.001; Papel Práticas Ensino:χ2(2, n=195)=32.5, p<.001].
Os clusters1 e 2 (PráticasTreino e Altas Práticas) apresentam perfis muito
semelhantes diferenciando-se somente nas suas concepções tecnicistas quer sobre
a Aprendizagem quer sobre o Papel dos pais no Ensino (p<0.001). Coerentemente
os pais do grupo Práticas Treinoapresentam concepções mais tecnicistas do que
os pais do grupo Altas Práticas. O cluster 3 (Baixas Práticas) é o que
apresenta o perfil mais diferenciado pois nas concepções sobre a aprendizagem é
o que tem crenças menos Holísticas (p<0.001) e o que atribui um papel mais
exclusivo à Escola neste processo (p<0.001). Por outro lado evidencia valores
significativamente mais baixos do que os outros, sobre o Papel dos Pais no
envolvimento dos seus filhos nas várias actividades consideradas (p<0.001). De
notar que para os pais do cluster 3(Baixas Práticas), são consistentes as suas
crenças sobre o Papel dos Pais e sobre o Papel da Escola na aprendizagem, e a
forma como referem envolver os seus filhos em actividades de literacia em casa.
Uma vez que consideram elevado o papel exclusivo da Escola, atribuem menos
importância à participação dos pais e também desenvolvem menos actividades de
leitura e escrita. O grupo das Altas Práticas, que refere desenvolver com mais
frequência todo o tipo de práticas, atribui bastante importância ao papel dos
pais nas várias vertentes, embora um pouco menos na do Ensino. Coerentemente é
este grupo que atribui menos responsabilidade exclusiva à escola para a
aprendizagem. Surgem no seio deste grupo as concepções mais holísticas sobre a
aprendizagem da linguagem escrita.
Ambientes de Literacia
Para além da caracterização das práticas de literacia familiar e das concepções
dos pais dos três clustersprocurámos também verificar se as particularidades de
cada um destes grupos estariam associadas a eventuais diferenças noutros
aspectos dos ambientes de literacia na família: idade de início de actividades
partilhadas de leitura e de escrita; tempo utilizado nessas actividades;
quantidade de livros existentes em casa.
Em relação à idade de início de leitura e da escritaverificámos, num primeiro
momento, que existem diferenças entre os três grupos de pais tanto na idade de
início da leitura [χ2(2, n=197)=11.5, p<.003] como na da escrita [χ2(2,
n=196)=15.5, p<.001]. São os pais do grupo Altas Práticas(cluster 2)que iniciam
mais cedo actividades partilhadas com os seus filhos, diferenciando-se
significativamente na idade da leitura do grupo de Práticas de Treino(p=0.005)
e na de escrita do grupo de Baixas Práticas(p<0.001).
No que diz respeito ao tempo dedicado à leitura e escritajunto dos filhos os
três grupos de pais também diferem significativamente neste indicador [Tempo
leitura, χ2(2, n=196)=18.079, p<.001; Tempo escrita, χ2(2, n=195)=40.282,
p<.001). Os pais do grupo Altas Práticasdiferencia-se significativamente dos
outros dois grupos disponibilizando mais tempo de leitura e de escrita com os
seus filhos (p<.01). De assinalar que não foram significativas as diferenças de
tempo de leitura nem de escrita entre os grupos Baixas Práticase Práticas de
Treino,embora os pais do grupo Práticas de Treinoreferissem disponibilizar mais
tempo com os seus filhos a ler e escrever.
Para a quantidade de livros existentes em casa constatámos existirem diferenças
significativas entre os três grupos na quantidade de livros infantis [χ2(2,
n=198)=9.982, p=.007] e na quantidade de livros para adultos [χ2(2,
n=197)=11.220, p=.004]. Novamente os pais do grupo Altas Práticasreferem
possuir mais livros que os outros dois grupos de pais sendo essas diferenças na
quantidade estatisticamente significativa na comparação com qualquer um desses
grupos (p<0.05).
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
A caracterização das práticas de literacia permitiu realçar alguma diversidade
nas interacções dos pais com os filhos em torno da literacia. Como pudemos
constatar, os pais desenvolvem mais práticas de treino/ensino ou práticas
formais que se sustentam em critérios mais convencionais e tecnicistas da
linguagem escrita e que já tinham também sido identificadas em outras
investigações (e.g., Hanney & Hill, 2004; Norman, 2007; Sénéchal &
LeFevre, 2002; Sénéchal, LeFevre, Smith-Chant, & Colton, 2001). Entre estas
práticas, os pais salientam, sobretudo as ligadas ao nome da criança e as
relacionadas com o conhecimento e identificação das letras (e.g., dizer nome
das letras, escrever letras). Parece assim que, tal como afirmam Haney e Hill
(2004) os pais se sentem familiarizados e à vontade com as actividades que a
aprendizagem das letras e portanto tendem a desenvolvê-las com mais
regularidade.
À semelhança do verificado em outras investigações (e.g., Kassow, 2006; Korat,
Klein, & Segal-Drori, 2007; Mata, 2006; Sénéchal & Young, 2008) também
constatámos que nestas famílias se desenvolviam com regularidade práticas
lúdicas e de entretenimento, destacando-se entre estas a actividade de leitura
de histórias. A importância das histórias e o papel da família nesta actividade
tem sido amplamente documentados na literatura considerando-se que pode ter um
impacto importante no processo de desenvolvimento e aprendizagem da literacia
(e.g., Kassow, 2006; Korat et al., 2007; Mata, 2006; Reese, Sparks & Leyva,
2010; Sénéchal & Young, 2008).
Um outro tipo de práticas de literacia, menos abordado na literatura, também
foi identificado como fazendo parte da literacia destas famílias, não ocorrendo
tão frequentemente como os mencionados anteriormente. Embora na sua globalidade
estas famílias referissem integrar menos os seus filhos em situações de leitura
e escrita enquadradas nas suas rotinas diárias (dia-a-dia), isso acontece com
alguma regularidade em várias famílias e em actividades diversificadas como o
ler receitas, as listas de compras ou a leitura de rótulos de embalagens. No
entanto, parece-nos importante realçar que a pouca regularidade de actividades
ligadas ao quotidiano aponta no sentido de que o envolvimento das crianças se
faz pouco em actividades utilitárias e funcionais, podendo não facilitar a
compreensão dos objectivos e funcionalidade da linguagem escrita. Ora esta
compreensão tem sido apontada por muitos autores como um aspecto importante no
desempenho e na facilitação da aprendizagem da leitura e da escrita (e.g.,
Alves Martins, 1994, 1996; Chauveau & Rogovas-Chauveau, 2001).
Por último, parece-nos que é de realçar a importância de se caracterizarem os
diferentes tipos de práticas, pois só assim se consegue ter uma compreensão
mais alargada da literacia nas famílias e compreender eventuais dificuldades na
sua implementação. A utilização de uma medida única de práticas poderia anular
a compreensão da diversidade e das particularidades de cada um destes tipos de
práticas. Esta diferenciação poderá também ser importante pois permite analisar
o papel diferenciado que cada tipo de práticas poderá ter na facilitação do
processo de descoberta e apropriação da linguagem escrita por parte das
crianças tal como alguns estudos têm procurado realçar (Hood, Conlon, &
Andrews, 2008; Mata & Pacheco, 2009; Sénèchal, 2006).
As crenças dos pais foram analisadas em duas vertentes, aprendizagem da
linguagem escrita e papel dos pais. A necessidade de uma análise separada de
várias vertentes associadas às crenças, já tinha sido realçada por Bingham
(2007) quando alertou para o facto de que muitos dos instrumentos usados
incluíam aspectos muito diferenciados como a auto-eficácia, ideias sobre
práticas de literacia, atitudes, processo de aprendizagem, papel dos pais e dos
professores, etc. Mantendo esta multiplicidade de aspectos num instrumento, sem
os analisar em separado não permitiria compreender como as crenças dos pais
estão relacionadas com os comportamentos e as práticas que desenvolvem
(Bingham, 2007). Por outro lado, alguns trabalhos no âmbito do envolvimento
parental na escolaridade dos filhos têm mostrado que as concepções de papel são
importantes para a compreensão do tipo e formas de envolvimento dos pais
(Green, Walker, Hoover-Dempsey, & Sandler, 2007; Pedro, 2010). Assim, a
análise que fizemos separando duas vertentes de crenças sobre a literacia
(aprendizagem e papel dos pais) mostrou-se importante e evidenciou a
complementaridade destas variáveis e a sua importância para uma compreensão
abrangente da literacia familiar.
No que se refere às crenças sobre a aprendizagem da leitura e escrita, os
resultados evidenciaram, à semelhança do estudo de Lynch et al. (2006) que os
pais revelavam predominante mente ideias holísticas sobre a aprendizagem da
leitura e escrita, valorizando abordagens assentes em actividades
contextualizadas e funcionais. Contudo, o facto de não utilizarmos uma medida
única de concepções, mas várias dimensões diferentes, permitiu-nos analisar em
simultâneo também a vertente mais tecnicista das suas concepções. Assim,
constatámos que actividades mais mecanicistas, somente direccionadas para o
treino (Aprend. Tecnicista-Práticas) foram globalmente consideradas como menos
importantes por parte destes pais, embora seja evidente a sua valorização. De
certa forma, parece-nos que os resultados vão ao encontro de algumas
investigações que já apontavam para o facto de poderem coexistir nas concepções
dos pais os dois tipos de crenças, incluindo elementos de uma perspectiva top-
down(Aprend. Holísticas) e outros de uma perspectiva bottom-up(Aprend.
Tecnicistas) (e.g., DeBaryshe et al., 2000; Norman, 2007). Assim, os pais
parecem percepcionar o desenvolvimento da literacia não de modo isolado nem
extremado, mas na complementaridade das dimensões referidas. Segundo DeBaryshe
et al. (2000, p. 129) "most parents held eclectic views on early literacy
instruction... thus, parents endorse what many reading educators see as optimal
practice - the simultaneous focus on top-down and bottom-up
strategies". De realçar também que os pais não valorizaram a vertente que
considerava que a aprendizagem da leitura e escrita deveria ser feita
exclusivamente na escola, com actividades específicas deste contexto (Aprend.
Tecnicistas-Escola). Estes dados relativos às crenças sobre a aprendizagem são
coerentes com os das crenças de papel, uma vez que os pais, de um modo geral
consideram que é seu papel e responsabilidade, envolver os filhos em diversas
actividades e situações de leitura e escrita. Os nossos resultados mostraram
que os pais valorizaram bastante o seu papel tanto na leitura de histórias aos
filhos (Papel-Leitura de Histórias) como no envolvi mento dos filhos em
actividades de literacia integradas nas suas vidas e funcionais (Papel-Práticas
Holísticas). Por último, embora com menor importância, estes pais consideraram
seu papel ensinarem os filhos de um modo mais estruturado e até formal (Papel-
Práticas Ensino). O facto de valorizarem o seu papel nestas três áreas
distintas poderá ser importante pois Bingham (2007) realça que as relações das
crenças com as práticas são específicas a cada domínio e não são generalizáveis
entre domínios. Assim, ao conhecerem-se as diferentes crenças, poder-se-á
compreender melhor a actuação dos pais e eventualmente até as razões de maior
ou menor frequência de determinadas actividades e a presença ou ausência de
características específicas dos ambientes de literacia familiar.
Ao procurarmos analisar as relações entre crenças sobre a aprendizagem e
crenças de papel pudemos constatar associações positivas e significativas entre
as crenças de aprendizagem holísticas e as três vertentes de crenças sobre o
papel dos pais. Assim, quanto mais os pais acreditavam numa abordagem funcional
e lúdica da aprendizagem (Aprend. Holísticas) mais consideravam ser seu papel
desenvolver actividades de leitura de histórias (Papel-Histórias), práticas
contextualizadas e funcionais (Papel-Holísticas) e até mesmo práticas de ensino
e treino (Papel-Ensino), embora neste caso a associação fosse mais fraca. Este
facto parece evidenciar uma responsabilidade pessoal na integração dos filhos
em actividades diversificadas em casa, com múltiplas funções e mobilizando
diferentes estratégias para a sua execução. De realçar a semelhança entre estas
associações e as características apontadas por Weigel et al. (2006) das mães
com crenças chamadas de facilitadoras. Para os autores, estas eram mães que por
um lado acreditavam que as crianças poderiam aprender através de diferentes
actividades incluindo a leitura de livros; por outro lado acreditavam no seu
papel em proporcionar oportunidades de aprendizagem e em ensinar os seus
filhos. Embora Weigel et al. (2006) não tenham considerado diferentes tipos de
crenças, os indicadores que referem na descrição dos dois grupos de mães
identificados no seu estudo claramente reenviam para aspectos relacionados quer
com crenças sobre a aprendizagem e quer com crenças de papel.
No nosso estudo verificámos ainda que os pais quanto mais acreditam que a
aprendizagem é da responsabilidade da escola (Aprend. Tecnicistas-Escola),
maior a tendência para atribuírem menos importância ao seu papel, reflectindo-
se isso em associações significativas negativas com as três vertentes de
crenças sobre o papel dos pais. Estes dados corroboram também uma das
conclusões do estudo de Weigel et al. (2006) onde as mães que apresentavam um
estilo parental mais convencional, orientado para o ensino, tendiam a atribuir
um papel primordial à escola, acreditando que pouco podiam fazer para
contribuir para a aprendizagem dos filhos e relatando dificuldades para o
fazerem.
Considerando em simultâneo as variáveis relativas às práticas de literacia
familiar e às crenças dos pais, a análise de clustersefectuada permitiu-nos
compreender de modo mais aprofundado as relações entre estas variáveis. Desta
análise pudemos isolar três grupos de pais, com algumas particularidades
relativamente às práticas de literacia familiar e às suas concepções sobre a
aprendizagem da literacia e o seu papel e responsabilidade nesse processo. No
que se refere às práticas de literacia familiar estes três clustersapresentavam
características distintas e com algum paralelismo com os grupos identificados
por Phillips e Lonigan (2009), apesar de estes autores terem utilizado
instrumentos claramente diferentes dos nossos. Assim, o grupo Altas Práticas
(cluster2) que no nosso caso desenvolvia com mais frequência actividades do
dia-a-dia, de entretimento e de treino, pode ser considerado semelhante ao que
os autores denominaram de 'high-high' onde se integravam pais que
se focavam quer em actividades de ensino quer em leitura e partilha de
actividades de literacia (Phillips & Lonigan, 2009). O grupo que
denominámos de Práticas de Treino (cluster 1) também apresenta algum
paralelismo com o que os autores referiram como 'low-high' e que se
centravam mais em actividades de ensino e menos em práticas integradas. Por fim
o nosso grupo Baixas Práticas (cluster3) semelhante ao 'low-low' de
Phillips e Lonigam (2009) e que, em ambos os estudos, desenvolviam menos
qualquer tipo de abordagem, directa ou indirecta, à literacia, quer na sua
forma mais integrada ou centrada no treino e ensino. Também Mata e Pacheco
(2009), utilizando uma metodologia diferente, identificaram três grupos com
características semelhantes aos referidos anteriormente, no que se refere às
práticas. Contudo, nesse estudo as autoras procuraram identificar eventuais
relações entre as práticas e as competências emergentes de literacia das
crianças. Constataram que as crianças, cujos pais integravam o grupo que
desenvolvia mais práticas dos vários tipos, se diferenciavam positivamente das
outras em vários indicadores de apropriação da linguagem escrita, realçando-se
assim a importância das práticas de literacia familiar no desenvolvimento da
literacia emergente das crianças, e a necessidade de se proceder à sua análise
considerando os diferentes tipos.
Para uma melhor compreensão sobre o que leva os pais a desenvolverem mais um ou
outro tipo de actividades de literacia com os seus filhos, procedemos à análise
das suas concepções. Esta análise permitiu-nos uma compreensão mais abrangente
das características dos pais integrados em cada um dos três
clustersidentificados neste estudo. O primeiro aspecto a realçar parece-nos
ser, que, apesar de algumas diferenças significativas entre os grupos, não
parece existir uma associação linear entre crenças e práticas. Por exemplo, os
pais do grupo de Práticas de Treino para além de possuírem elevadas crenças
tecnicistas, também possuem altas crenças holísticas quer sobre a aprendizagem
quer sobre o seu papel. Um fenómeno semelhante se verifica com os pais de Altas
Práticas que possuem elevadas concepções holísticas, mas também tecnicistas.
Estes dados parecem assim apontar para o facto que Norman (2007) já tinha
alertado, de as crenças dos pais não terem que ser necessariamente de um tipo
ou de outro e poderem coexistir crenças que reenviam para actividades e
processos com características distintas.
Apesar de se verificar esta coexistência não podemos afirmar que entre os três
grupos se verificou homogeneidade quanto às suas crenças. Claramente o grupo de
Baixas Práticas (cluster3) valoriza menos o papel dos pais nas várias vertentes
das práticas, tanto de histórias, como holísticas ou mesmo de ensino.
Coerentemente este grupo de pais é o que atribui mais responsabilidade
exclusiva à escola (Aprend. Tecnicista Escola) no processo de aprendizagem da
linguagem escrita. Os pais dos grupos Altas Práticas e Práticas Treino,
apresentam concepções muito semelhantes sobre a aprendizagem e sobre o seu
papel, diferenciando-se somente em dois parâmetros. Os pais do grupo Práticas
de Treino valorizam mais o seu Papel no Ensino e consideram mais importantes as
abordagens tecnicistas (Aprend. Tecnicista Práticas) no processo de
aprendizagem. De realçar que, apesar desta maior valorização, isto não
significa que os outros pais desvalorizem estes aspectos. Estas
particularidades nas associações entre os diferentes tipos de crenças e as
práticas de literacia são importantes e permitem uma compreensão mais
aprofundada e complementar à de outros trabalhos (DeBaryshe, 1995; Lynch et
al., 2006; Weigel et al., 2006) que já tinham apontado para algumas relações
entre crenças e práticas. Através de uma análise de diferentes tipos e
vertentes de crenças, conseguimos diferenciar padrões que nos permitiram uma
melhor compreensão do que os pais pensam sobre o seu papel na aprendizagem da
literacia e sobre o que fazem com os seus filhos.
Contudo, para além das actividades concretas, existem outros indicadores dos
ambientes de literacia que são importantes, pois poderão reflectir a riqueza
dos mesmos, e dar informações adicionais sobre as características dos ambientes
familiares. Por outro lado poderão estar associados às crenças, tal como
Phillips e Lonigan (2009, p. 166) realçam ao afirmar "caregiver beliefs,
stylistic characteristics, and motivations for their own behavioral choices
related to how they structure the home literacy environment". Tomámos
então como indicadores do ambiente de literacia, a idade de início de
actividades de leitura e escrita partilhadas com os filhos, o tempo despendido
nessas actividades e a quantidade de livros existentes em casa e fomos analisar
se os três clustersse diferenciavam. De referir que os pais de Altas Práticas
se diferenciaram significativamente dos outros, não só por iniciarem mais
precocemente, como por usarem mais tempo e possuírem mais livros. A importância
destes dados pode ser sustentada, entre outros aspectos, pelos trabalhos sobre
leitura de histórias pois, estes indicadores, em grande parte, são medidas
indirectas do contacto com o livro e com as histórias. Por exemplo, a
quantidade de livros infantis existentes em casa tem sido considerado como um
indicador possível não só para caracterizar o ambiente de literacia familiar,
mas importante para perceber a relação com as práticas desenvolvidas pelos pais
(e.g., Hood et al., 2008; Mata, 2004; Sénéchal & LeFévre, 2002). Neste
sentido, o Livro parece constituir um recurso e mediador relevante, sobretudo,
para os pais que apresentam um perfil de Altas Práticas. Estes resultados vêm
então confirmar uma tendência já verificada antes, de que os pais do grupo de
Altas Práticas, parecem envolver os filhos mais frequentemente em actividades
de entretimento, nomeadamente a leitura de histórias. Esta actividade tem sido
considerada como uma experiência de literacia informal que promove o
desenvolvimento da literacia emergente, desenvolvimento da linguagem e as
competências iniciais de leitura, atitudes (e.g., Mata, 2006; Saracho, 2000;
Sénéchal & Young, 2008). A leitura de histórias poderá assim, ter um
impacto em diferentes aspectos quer de âmbito mais cognitivo e aprendizagem
quer de âmbito mais afectivo e que se prende com componentes mais
motivacionais. Assim, mais uma vez a compreensão quer das práticas dos pais
quer das suas crenças, poderá permitir a facilitação deste processo
proporcionando oportunidades de ajustamento das suas crenças e expectativas e
gradualmente conduzindo a uma diversificação de estratégias e actividades
desenvolvidas em ambiente familiar e que reflictam as vivências das famílias.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Sobre os contributos deste estudo salientamos o facto de os nossos resultados
realçarem a importâncias das variáveis parentais e as suas relações. Parece-nos
importante continuar a considerar as crenças e as práticas dos pais para melhor
compreender a literacia familiar, uma vez que as práticas de literacia se
fundamentam nas ideias implícitas que os pais têm sobre a leitura e escrita.
Tal como Lynch et al.(2006, p. 2) afirmam "parents' beliefs may
shed light on the types of literacy activities parents engage in with their
pre-school age children, and hence our knowledge about the literacy young
children bring to school".
Outro contributo do nosso estudo, relativo à caracterização das crenças dos
pais sobre a aprendizagem da leitura e escrita, prende-se com a elaboração de
instrumentos que nos permitiram complexificar a sua análise ao considerarmos de
forma diferenciada tantos as crenças sobre a aprendizagem da leitura e escrita
como sobre a importância do papel dos pais neste processo de aprendizagem.
Parece-nos que esta foi uma mais-valia, pois a clarificação do que os pais
pensam ser o seu papel poderá ajudar na escolha de estratégias e acções mais
adequadas de modo a potenciar a sua participação.
Contudo a caracterização quer das práticas quer das crenças através da
utilização de questionários e medidas de auto-relato, como é usualmente feita,
poderá não permitir uma visão muito clara do que se faz pois este tipo de
instrumentos além de serem muito sensíveis a respostas no sentido da
desejabilidade social não permitem uma observação directa do que se passa na
realidade. Desta forma, será importante, em estudos futuros, usar em paralelo
outro tipo de instrumentos que permitam caracterizar a realidade das famílias
(e.g., observação directa do ambiente familiar, das interacções entre pais e
filhos; recolhas com outros intervenientes).
No que diz respeito às implicações deste estudo, parece-nos pertinente realçar
a sua importância no âmbito da parceria escola/família e nas práticas
pedagógicas desenvolvidas nos jardins de infância.
Sobre a relevância da colaboração entre Escola-Família, Lynch (2007) realça não
só a importância dos educadores conhecerem as práticas de literacia familiar
como também as crenças dos pais, de modo a poderem usar estratégias e acções
sustentadas nas características específicas dos seus ambientes culturais e
sociais e se tornarem mais eficazes na sua acção. Neste sentido, a comunicação
entre pais e educadores torna-se um factor muito importante na aquisição e
desenvolvimento da literacia das crianças pois é uma via fundamental para se
conseguir estabelecer uma ligação entre a literacia familiar e o trabalho
desenvolvido na escola. Segundo Bingham (2007) os pais devem ser percepcionados
pela escola como parceiros da educação e os professores deveriam criar uma
relação com os pais de forma a dar continuidade e promover o desenvolvimento da
literacia das crianças. Sobre este aspecto, Mata (2010) refere que o desafio
que se coloca aos técnicos passa por incluir a participação e colaboração dos
pais de uma forma integrada, valorizando as práticas de literacia familiar
reais e promovendo a intencionalidade dos pais na exploração, em conjunto com
os filhos, dessas práticas.
A compreensão das formas de pensar e de fazer das famílias permitirá a
valorização e respeito pela(s) literacia(s) familiar(es), bem como pelas
especificidades de cada família no processo de utilização da linguagem escrita.
Deste modo, as intervenções poderão centrar-se nas forças de cada família e não
na uniformização de práticas de literacia, que muitas vezes não fazem sentido
ou introduzem desconforto nas interacções dos pais com os filhos em torno da
literacia.