Quando o cliente pensa que não sente e sente o que não pensa: Alexitimia e
psicoterapia
(Edward Organ Forster)
O conceito alexitimia tem sido amplamente estudado, sendo as características
que compõem o mesmo de extrema relevância no processo terapêutico. Ao longo
deste artigo refletimos acerca das vivências emocionais de pacientes com
características alexitímicas e quais as suas implicações para o processo
terapêutico. Pretende-se repensar a alexitimia em termos de processos
psicológicos específicos, de forma a melhorar a intervenção junto de pacientes
com este tipo de funcionamento.
ALEXITIMIA
Alexitimia etimologicamente significa "sem palavras para os
sentimentos" (Sifneos, 1973). Deriva do Grego e do Latim - Sem
("a") palavras ("lexus") para emoções
("thymus"). O termo foi inicialmente usado por Sifneos (1973) para
designar um grupo de características cognitivas e afectivas típicas de
pacientes com patologia somática. Apesar de ter sido um conceito inicialmente
ligado a este grupo de transtornos, tornou-se rapidamente evidente que a
alexitimia estava presente num largo espectro de perturbações, tais como:
perturbações alimentares (e.g., Bourke, Taylor, Parker, & Bagby, 1992;
Merino, Godas, & Pombo, 2002; Petterson, 2004), abuso e dependência de
substâncias (e.g., Gomez, Eizaguirre, & Aresti, 1997; Haviland, Hendryx,
Shaw, & Henry 1994; Speranza et al., 2004; Uzun, 2003), perturbações de
ansiedade e depressão (e.g., Wise, Mann, & Hill, 1990; Zeitlan &
McNally, 1993) e perturbação de pós-stress traumático (e.g., Hyer, Woods, &
Boudewyns, 1991; Krystal, 1979). A investigação sugere ainda uma relação entre
alexitimia e perturbações da personalidade, verificando-se uma associação com
as perturbações anti-sociais, narcísicas e borderline(Sifneos, 1973; Taylor,
2000; Zlotnick, Mattia, & Zimmerman, 2001).
Taylor, Bagby e Parker (1997), numa tentativa de reduzir o número de concepções
de alexitimia sugeridas na literatura, encontraram três factores centrais que
podem ser usados para a conceptualizar: (1) dificuldade em identificar
sentimentos e em distingui-los das sensações corporais da emoção; (2)
dificuldade em comunicar sentimentos e; (3) pensamento orientado para o
exterior. Estes factores resultam da análise efectuada aquando da elaboração de
um instrumento que permitisse avaliar o constructo - a escala de
alexitimia de Toronto. Os autores propõem que as características associadas ao
conceito de alexitimia reflectem défices ao nível do processamento cognitivo e
da regulação emocional. Esta ideia tem por base que as respostas emocionais e a
regulação emocional envolvem três sistemas interligados: neurofisiológico
(sistema nervoso autónomo e activação neuroendócrina), expressivo motor
(expressão facial, tom de voz) e cognitivo-experiencial (consciência subjectiva
e reportório verbal sobre estados emocionais) (Dodge & Garber, 1991).
Taylor (1994) criticou a posição que afirmava que os indivíduos com
funcionamento alexitímico não tinham qualquer experiência ou consciência
emocional, salientando o carácter biológico e inato das emoções. Inclusivamente
defende a re-conceptualização tanto da alexitimia, como de algumas perturbações
associadas às dificuldades de regulação emocional, como "perturbações da
regulação do afecto". Sugerindo ainda que as intervenções devam ser mais
focadas nas dificuldades de regulação do que nas suas consequências (Taylor et
al., 1997).
Já em 1984, Taylor alertara para que este constructo fosse visto como uma
condição comorbida e não como um traço das perturbações a que tem sido
associada. Mais recentemente Ogrodniczuk, Piper e Joyce (2005) referem a
importância de pensar na alexitimia não como uma perturbação psiquiátrica, mas
como uma característica psicológica do pensamento, sentimentos e processos
relacionados. Assim, estamos perante uma forma mais compreensiva de pensar a
alexitimia que permite com maior facilidade a sua gestão ao nível do processo
terapêutico e das tomadas de decisão clínica. Nesta linha de pensamento
sugerimos que se passe a usar a expressão "funcionamento
alexitímico" em detrimento de "alexitimia", uma vez que
amplia a noção de processo. Para uma melhor compreensão do fenómeno passamos a
uma breve reflexão sobre a etiologia do funcionamento alexitímico.
ETIOLOGIA DA ALEXITIMIA
Várias perspectivas têm sido apresentadas na tentativa de explicar a etiologia
da alexitimia: neurofisiológica (Bermond, Vorst, & Moormann, 2006),
aprendizagem social (Borens, Grosse-Schultze, Jaensch, & Kortemme, 1977),
desenvolvimentista (Nemiah, 1977), psicodinâmica (Krystal, 1979) e até genética
(Heiberg & Heiberg, 1977). O debate tem incluído questões relativas ao
facto de a alexitimia ser um traço estável de personalidade, um estado
flutuante, uma defesa do ego, ou um artefacto cultural (Bach, de Zwaan, Ackard,
Nutsinger, & Mitchell, 1994; Parker, Taylor, & Bagby, 1998; Wise, Mann,
& Epstein, 1991). Apesar de não haver um consenso quanto à sua etiologia,
vários factores parecem ser relevantes para esta resposta, quer como factores
etiológicos, quer como factores que afectam a vivência da alexitimia, como por
exemplo factores sociodemográficos (Parker, Keefer, Taylor, & Bagby, 2008;
Taylor, 1984).
Vários investigadores apontam a hipótese de que a alexitimia tem uma base
desenvolvimentista em estilos de vinculação e socialização desadequados e
inseguros (Lane & Schwartz, 1987; Taylor et al., 1997). Tendo em conta a
importância dada pelas teorias da vinculação à regulação do afecto, vários
estudos têm examinado esta relação (e.g., Scheidt et al., 1999; Troisi,
D'Argenio, Peracchio, & Petti, 2001). Por exemplo, Troisi et al.
(2001) observaram, numa amostra clínica usando a Escala de Alexitimia de
Toronto (TAS-20), que pacientes com estilo de vinculação preocupado ou evitante
eram os que apresentavam uma maior prevalência de alexitimia, 65% e 73%
respectivamente. Dos participantes com um estilo desligado, menos de metade
(36%) apresentavam valores para a presença de alexitimia. Os autores apontam
que estes dados sugerem um papel importante de factores precoces do
desenvolvimento na etiologia da alexitimia. Também o estudo de Pedrosa,
Scheidt, Hoeger e Nickel (2008) parece suportar esta hipótese, onde observaram
numa amostra de pacientes com patologia somatoforme, uma elevada prevalência de
vinculação insegura (88.2%) dos quais 22% de sujeitos apresentaram valores para
a TAS considerados clinicamente significativos. As análises de regressão
demonstraram a relação entre os estilos de vinculação inseguros e traços mais
marcados de alexitimia. Estudos mais recentes têm tentado compreender o papel
destas duas variáveis no desenvolvimento de determinadas perturbações, como a
Perturbação Borderline de Personalidade, onde a alexitimia parece apresentar um
papel de mediação entre os estilos de vinculação preocupado e evitante e o
desenvolvimento desse tipo de personalidade (e.g., Deborde et al., 2012).
As relações entre estilo de vinculação e funcionamento emocional na vida adulta
são ainda ilustradas pelo facto de as crianças a quem as necessidades e
expressão emocional são validadas tenderem a transformar-se em adultos mais
calmos e emocionalmente "inteligentes" (Gottman, 1997; Gottman,
Katz, & Hooven, 1997). Vários teóricos da emoção (e.g., Fridja, 2005;
Greenberg, 2002) referem que existem emoções inatas que são biologicamente
adaptativas e contribuem para a regulação das necessidades básicas para o
funcionamento humano e que cada uma dessas emoções está relacionada com uma
tendência de acção distinta ou com uma imediaticidade psicológica para agir de
modo a promover a sobrevivência e o bem-estar psicológico. Por exemplo,
relativamente à auto-protecção, a acção de fuga surge porque temos medo. Assim,
indivíduos com experiências precoces que não permitam ressonância emocional
estarão mais vulneráveis a desenvolver psicopatologia.
Esta teorização com base nas relações precoces parece, contudo, apresentar
limitações ao não dar resposta à perspectiva de uma alexitimia secundária.
Freyberger (1977) sugeriu a distinção entre alexitimia primária e secundária,
ao constatar que as características alexitímicas podem ocorrer no adulto após,
por exemplo, uma situação traumática ou como defesa relativamente ao
aparecimento de doenças cuja etiologia principal é a orgânica. Seria a
consequência de tensões insuportáveis associadas à vivência de experiências
traumáticas na vida adulta, como o diagnóstico de um cancro ou o terror vivido
pelas vítimas do holocausto. Assim, a alexitimia primária, com desenvolvimento
nas relações precoces, constituiria um factor de risco para o desenvolvimento
de psicopatologia e a alexitimia secundária um factor de protecção face ao
significado emocional e gravidade, por exemplo, de uma doença. Taylor (1994)
considera necessária mais investigação em torno desta distinção, uma vez que
aquilo que, em essência, define alexitimia parece estar presente em ambas as
definições. Existe inclusivamente uma certa confusão na própria literatura onde
podemos encontrar como definição de alexitimia primária, uma alexitimia que se
desenvolve na sequência de uma patologia orgânica e a secundária que se
desenvolve na sequência de um trauma (vivido quer na infância, quer na vida
adulta).
De relevar que nos parece desadequando considerar a alexitimia secundária como
forma de protecção. Ainda que possa ser transitoriamente adaptativa (evidente
no exemplo das vítimas do holocausto), poderá ter consequências semelhantes às
descritas no contexto de uma alexitimia considerada primária. Parecem existir
indicadores de que a alexitimia funciona como predisposição para desenvolver
determinado tipo de perturbações, dadas as dificuldades emocionais subjacentes,
mas a presença de outro tipo de perturbação parece também determinar um
funcionamento alexitímico. Estamos perante o que parece ser uma causalidade
circular e a resposta a esta questão poderia ajudar em termos de intervenção.
Ainda que, em essência, a alexitimia primária e secundária possam constituir
fenómenos equivalentes, a forma como se compreende a pessoa e a forma mais
adequada de intervir podem não o ser.
A própria perspectiva genética aponta a importância de factores ambientais no
desenvolvimento de um funcionamento alexitímico. A hipótese de uma relação
entre alexitimia e genética, parece ser corroborada ao se encontrarem menos
diferenças entre gémeos monozigóticos do que entre dizigóticos (Heiberg &
Heiberg, 1977). Estudos mais recentes (Jørgensen, Zachariae, Skytthe, &
Kyvik, 2007; Picardi et al., 2011) validam igualmente o contributo genético
para as diferenças individuais no funcionamento alexitímico, considerando
também a importância de factores ambientais.
Apesar do constructo ser aceite tanto como constituindo uma perturbação de
défice afectivo, como um traço de personalidade normalmente distribuído na
população Parker, Keefer, Taylor e Bagby (2008) tentaram compreender se o
constructo de alexitimia significava um tipo de pessoa qualitativamente
diferente dos outros, ou um traço de personalidade que varia quantitativamente
na população. Os resultados das análises taxométricas para examinar a estrutura
latente da alexitimia sugerem uma estrutura dimensional. Os autores sugerem que
uma consequência importante destes resultados prende-se com a avaliação no
contexto psicoterapêutico. Assim, para começar, a avaliação deve ser feita com
medidas que considerem a alexitimia uma variável contínua e a sua leitura deve
ser feita numa perspectiva dimensional em vez de categorial. Isto também tem
impacto na avaliação da própria mudança ao longo da terapia, que se deve focar
mais nas alterações significativas nos scores de alexitimia, numa perpectiva de
grau, e não tanto em alterações de "alexitímico" para "não
alexitímico" (Parker, Keefer, Taylor, & Bagby, 2008). Estes dados, em
conjugação com os resultados referidos anteriormente dos estudos de genética
(e.g., Jørgensen et al., 2007), apontam para a possibilidade de vários dos
factores envolvidos na etiologia da alexitimia: a exposição a acontecimentos
traumáticos, a qualidade das relações de vinculação na infância e factores
hereditários. Assim, a compreensão do constructo aumenta ao considerarse um
modelo de múltiplos factores.
Apesar deste importante avanço na explicação da sua etiologia, pouco tem sido
feito ao nível da investigação sobre o processo terapêutico. Várias têm sido as
dificuldades apontadas do ponto de vista terapêutico relativas aos pacientes
com funcionamento alexitímico, nomeadamente, o não serem passíveis de ser
analisados (Krystal, 1979), terem resultados mais fracos em terapia (e.g.,
Leweke, Bausch, Leichsenring, Walter, & Stingl, 2009; McCallum, Piper,
Ogrodniczuk, & Joyce, 2003) e ainda, apresentarem sintomas residuais após
terapia (e.g., Ogrodniczuk, Piper, & Joyce, 2004). Neste sentido parece de
extrema relevância ser capaz de aceder a este tipo de funcionamento e
compreender a experiência subjectiva destes pacientes. Mas como se pode avaliar
a alexitimia?
AVALIAÇÃO DA ALEXITIMIA
Ao longo dos anos foram feitas várias tentativas de criar medidas de avaliação
de alexitimia. Na sua maioria são auto ou hetero relatos, como: o Questionário
de Psicossomática do Hospital Beth Israel(Sifneos, 1973); o Questionário de
Alexitimia de Resposta Provocada (Krystal, Giller, & Ciccheti, 1986); a
Escala de Personalidade de Schalling-Sifneos(Apfel & Sifneos, 1979) que foi
o primeiro instrumento de auto avaliação a ser desenvolvido; a escala de
alexitimia do MMPI(Kleiger & Kinsman, 1980); a Escala de Alexitimia de
Toronto (última versão - TAS-20; Bagby, Parker, & Taylor, 1994); ou o
Questionário de alexitimia Bermond-Vorst(Bermond, Vorst, Vingerhoets, &
Gerritsen, 1999) no qual a alexitimia é dividida em 4 subgrupos. Alguns
investigadores fazem também uso de testes projectivos como o Teste de
Apercepção Temática e o Rorschach para avaliar a presença de alexitimia, apesar
do suporte empírico que valida a sua utilização ser insuficiente.
Este é um tema que tem gerado alguma discussão e controvérsia. O uso de auto
relatos com pacientes alexitímicos tem sido bastante criticado, uma vez que se
considera que, dada a própria natureza do constructo, os respondentes com
alexitimia poderão ter dificuldade em aceder ao seu mundo interno. Dadas as
recentes recomendações para se considerar a alexitimia como uma variável
contínua (Parker, Keefer, Taylor, & Bagby, 2008), algumas das medidas
anteriores não serão adequadas para a sua avaliação. Existe ainda a
problemática da elevada correlação entre o constructo e a depressão, e a
variância que pode ser partilhada por ambas na explicação dos resultados (e.g.,
Hintikka, Honkalampi, Lehtonen, & Viinamaki, 2001).
Para colmatar estas limitações alguns investigadores aconselham a combinação da
TAS com outras medidas ou tarefas que avaliem a capacidade de identificar e
expressar emoções (e.g., Kooiman, Bolk, Rooijmans, & Trijsburg, 2004). Têm
sido também desenvolvidas medidas alternativas aos auto-relatos como a Escala
de Observação de Alexitimia (OAS; Haviland, Warren, & Riggs, 2000) e a
Entrevista Estruturada de Alexitimia de Toronto (TSIA; Bagby, Taylor, Parker,
& Dickens, 2006). Lane e Schwartz (1987) sugeriram também a utilização do
instrumento que desenvolveram para avaliação dos níveis de consciência
emocional - a escala de avaliação de níveis de consciência emocional
(LEAS; Lane, Quinlan, Schwartz, Walker, & Zeitlin, 1990) como uma possível
medida de alexitimia. Esta medida sugere cinco níveis contínuos de consciência
emocional, desde apenas descrições de sensações corporais indiferenciadas até à
capacidade de identificar e diferenciar de entre vários estados emocionais
subtis. Os níveis são avaliados através do desempenho verbal de pequenas
narrativas projectivas. Lane e Schwartz (1987) classificam a alexitimia no
final deste contínuo, onde as emoções são experienciadas como sensações,
tendências para a acção ou estados emocionais pouco diferenciados.
Um outro aspecto relevante da existência de todas estas medidas refere-se à sua
adaptação para outros países e manutenção da validade do constructo. A título
de exemplo, referimos a TAS-20, que apesar de ter mantido a estrutura factorial
de três factores da medida original com bons resultados para a população
portuguesa (ver Prazeres, Parker, & Taylor, 2000), o mesmo não aconteceu na
versão Francesa, onde só conseguiram validar dois factores (ver Loas, Otmani,
Verrier, Fremaux, & Marchand, 1996). Assim, aquando da escolha da medida a
usar para avaliar este constructo é importante ter em atenção os aspectos
anteriormente referidos.
ALEXITIMIA E PROCESSO TERAPÊUTICO
Apesar dos vários estudos que demonstram a existência de uma elevada
prevalência de pacientes com funcionamento alexitímico na população clínica
- superior a 32.7% em pacientes psiquiátricos de ambulatório, cerca de
47.3% em pacientes internados (Todarello, Taylor, Parker, & Fanelli, 1995;
Wise et al., 1990) e acima dos 60% em pacientes com pós stress traumático
(Zeitlan & McNally, 1993) - muitas vezes esta dimensão não é tida em
conta na intervenção psicoterapêutica. Ogrodniczuk (2007) chamou recentemente a
atenção para a questão de que, ao longo dos anos, a investigação sobre este
constructo se centrou mais na etiologia, descurando a investigação relativa a
formas de intervir em contexto terapêutico.
McCallum et al. (2003), estudaram a alexitimia como variável predictora do
resultado terapêutico. Neste estudo, os pacientes foram submetidos
aleatoriamente a um modelo de terapia interpretativa ou de apoio em contexto
individual ou em grupo. No modelo de terapia interpretativa o terapeuta focava-
se na exploração de emoções desconfortáveis, interpretação de conflitos
inconscientes, uso da transferência como mecanismo terapêutico, e enfatizava o
papel do paciente no desenvolvimento e resolução dos seus problemas. No modelo
de terapia de apoio o terapeuta focava-se na capacidade do paciente em lidar
com a actual situação problemática, como guia e conselheiro, usando estratégias
de resolução de problemas, atribuindo responsabilidade às circunstâncias
externas e sem um ênfase na exploração do afecto. Os resultados mostram que
níveis elevados de alexitimia, especialmente a dificuldade em comunicar
sentimentos e o pensamento orientado para o exterior, estão associados a piores
resultados terapêuticos, não se verificando uma diferença significativa no
formato grupo nos dois modelos de terapia. Os pacientes do grupo de controlo
- não-alexitímicos - beneficiaram igualmente das quatro formas de
terapia. A dificuldade em descrever sentimentos parece estar inversamente
associada com a melhoria nos sintomas gerais e insatisfação com a vida; e o
pensamento orientado para o exterior parece estar inversamente associado com as
melhorias nos três indicadores de resultado - sintomas gerais, sintomas
de luto, e objectivos pessoais a atingir. No formato de terapia individual
observase que no modelo de terapia de suporte a dificuldade em descrever
sentimentos está inversamente relacionada com as melhorias nos sintomas gerais.
Dados que os autores tentam explicar referindo que a incapacidade para
transmitir a natureza experiencial dos seus problemas pode prejudicar o
paciente com funcionamento alexitímico na comunicação eficaz das suas
dificuldades. O terapeuta pode ser confrontado com queixas vagas, tornando
difícil estabelecer um plano de intervenção. Esta dificuldade na comunicação
eficaz parece estar também na base de dificuldades relacionais e interpessoais.
Referem que o efeito não se ter feito sentir no mesmo modelo em contexto de
grupo, se pode dever às interações serem mais diversas (mais elementos) e poder
haver exploração emocional promovida pelo grupo, mesmo no modelo de terapia de
suporte. Para além disto, verificaram-se três efeitos para o formato individual
independentemente do modelo: a dificuldade em identificar sentimentos e
distingui-los de sensações corporais está inversamente associado a melhorias
nos sintomas gerais e no ajustamento social, e o pensamento orientado para o
exterior está inversamente associado ao ajustamento social. Destes dados
verificamos que os diferentes componentes do funcionamento alexitímico parecem
ter um papel importante no resultado terapêutico.
Ogrodniczuk et al. (2005) observaram que em pacientes alexitímicos, a reacção
do terapeuta ao paciente medeia, parcialmente, as dificuldades em comunicar
sentimentos e o pensamento orientado para o exterior nos sintomas gerais e nos
objectivos a atingir. Ou seja, pacientes com alexitimia podem apresentar
resultados terapêuticos inferiores em parte porque os seus terapeutas os
percepcionam como tendo menos qualidades, sendo menos compatíveis ou como menos
significativos enquanto membros do grupo (em terapia de grupo). Os autores
hipotetizam que os terapeutas possam, ainda que não intencionalmente, expressar
estes sentimentos, podendo afectar a experiência do paciente em terapia,
contribuindo assim para resultados inferiores.
Também os resultados de Hesse e Floyd (2011) em população não clínica, parecem
corroborar a presença de dificuldades relacionais em pessoas com funcionamento
alexitímico. Neste estudo experimental pessoas com níveis baixos ou elevados em
alexitimia viam-se envolvidos numa interacção de 10 minutos com um desconhecido
do sexo oposto. Os participantes não alexitímicos foram percepcionados como
mais atraentes tanto ao nível físico, social, como ao nível do desempenho da
tarefa. Os autores salientam que a ligação entre alexitimia e atracção social
foi totalmente mediada pela mensagem relacional de intimidade, dando força ao
seu argumento de que a alexitimia provoca um défice comunicacional que causa
dificuldades relacionais.
Existe igualmente evidência de que a presença de características alexitímicas é
predictora de sintomas residuais após a terapia (e.g., Ogrodniczuk, Piper,
& Joyce, 2004). Isto parece ir ao encontro da proposta de Taylor et al.
(1997), que referem o risco do foco da terapia ser nas consequências das
dificuldades emocionais, mais do que na origem dessas dificuldades. Ogrodniczuk
(2007) salienta a importância de identificar formas de comunicação terapêutica
que reduzam efectivamente as características alexitímicas, de forma à
psicoterapia ser uma resposta mais eficaz para estes pacientes. Nesse sentido,
Taylor (2000) sugere que o recurso a psicoterapias que envolvam técnicas
específicas para aumentar a consciência emocional e que tomem em consideração o
integrar de elementos simbólicos de esquemas emocionais podem ser benéficas na
redução das características alexitímicas.
SOLUÇÕES PSICOTERAPÊUTICAS, PROCESSOS EMOCIONAIS E NECESSIDADES
Tendo em consideração as limitações apontadas anteriormente, quer ao nível das
competências emocionais, quer em termos relacionais, e tendo em conta as
recomendações de Taylor (2000), podemos afirmar que os modelos que promovam a
exploração e consciência emocionais num contexto de segurança, confiança e
valorização do outro podem apresentar-se como uma solução adequada ao
desenvolvimento das competências emocionais e relacionais em défice num
funcionamento alexitímico. Vários modelos/técnicas já existentes parecem ir ao
encontro desta necessidade, salientamos: a focagem (Gendlin, 1978); a escrita
expressiva (Pennebaker & Chung, 2007); a mentalização (Allen & Fonagy,
2006); a terapia comportamental dialética (Linehan, 1993); ou o modelo de
terapia focada nas emoções (Elliott, Watson, Goldman, & Greenberg, 2004;
Greenberg, Rice, & Elliott, 1993).
Existiram tentativas de desenvolver tratamentos específicos para reduzir a
alexitimia, como o Tratamento para a Redução da Alexitimia (Levant, Halter,
Hayden, & Williams, 2009), que consiste numa intervenção breve, em grupo,
de 6 sessões psicoeducativas, onde os participantes são guiados na execução de
exercícios que promovem a consciência da experiência emocional e interpretação
e gestão das suas emoções. Apesar do estudo piloto ter demonstrado uma
diminuição significativa do grau de alexitimia no grupo alvo da intervenção
(Levant, Halter, Hayden, & Williams, 2009), a grande limitação deste
modelo, para além da sua curta duração face aquilo que consideramos ser as
necessidades de um paciente com este tipo de funcionamento, prende-se com ser
um tratamento dirigido a homens, como base no conceito de alexitimia masculina
normativa (Levant, 1992). Este conceito emergiu da ideia de que a socialização
masculina é deficitária na expressão emocional, sendo muitas vezes os rapazes
desencorajados de expressar e atender às suas emoções. Contudo, apesar que o
modelo partir de um pressuposto correcto, limita pela sua especificidade de
género. Poderá, ainda assim, ser um ponto de partida para a intervenção com
pacientes alexitímicos do sexo masculino.
Apesar da tentativa de criação de um modelo específico para tratamento da
alexitimia, uma vez que tem sido defendido que a mesma deve ser vista não como
uma perturbação psiquiátrica, mas como uma característica psicológica do
pensamento, sentimentos e processos relacionados (Ogrodniczuk, Piper, &
Joyce, 2005) parece mais relevante compreender dos inúmeros modelos
psicoterapêuticos existentes, quais os que seriam mais adequados para a
intervenção de pacientes com um funcionamento alexitímico. Devemos ter ainda em
consideração que os pacientes não procuram ajuda queixando-se especificamente
de alexitimia, mas antes de depressão, ansiedade, queixas relacionais, entre
outras.
Por exemplo, o tratamento com base na mentalização (Fonagy & Bateman, 2006)
pretende promover a mentalização, ou seja, a capacidade para compreender o
comportamento do próprio e dos outros através da atribuição de estados mentais.
A mentalização pode ser vista como uma forma de actividade mental imaginativa,
a qual permite perceber e interpretar o comportamento humano em termos de
estados mentais intencionais como, necessidades, desejos ou sentimentos. Dada a
associação entre alexitimia e este constructo (e.g., Moriguchi et al., 2006) um
modelo terapêutico com objectivo de aumentar a mentalização poderá trazer
benefícios na redução de um funcionamento alexitímico. Um outro modelo
relevante poderá ser a focagem (Gendlin, 1964), que consiste no processo de
experienciação emocional do paciente, que é guiado de forma a discriminar a
sensação corporalmente associada a uma situação ou problema. A experienciação é
essencialmente uma interacção entre sentimento e símbolos (palavras, eventos) e
não se deve questionar se o cliente experiencia, mas como ele experiencia. Dada
a dificuldade em identificar sentimentos e em distingui-los das sensações
corporais da emoção de pacientes alexitímicos este modelo parece trazer
benefícios para uma intervenção com melhores resultados. O modelo de Terapia
Focada nas Emoções (TFE; Elliott, Watson, Goldman, & Greenberg, 2004;
Greenberg, Rice, & Elliott, 1993) também tem uma forte componente
experiencial e pretende ajudar os pacientes a aceder às suas emoções em
condições terapêuticas de segurança e aceitação (Rogers, 1961, 1975), condições
que facilitam o processamento emocional, que fornecerá informação útil para o
processo terapêutico (Greenberg, 2002; Greenberg & Paivio, 1997).
Dos modelos referidos, ainda que todos possam ter um contributo relevante na
diminuição dos níveis de alexitimia, este parece-nos dos mais completos face às
dificuldades que têm sido descritas na literatura em psicoterapia com pacientes
com níveis elevados de alexitimia. Tem ainda a vantagem de ser um modelo
bastante investigado, e estar comprovada a sua eficácia. Neste modelo o
terapeuta identifica marcadores relativos a dificuldades de processamento
emocional que guiam a tomada de decisão clínica. A título de exemplo,
apresentamos o marcador modos de envolvimento (modes of engagement)que podem
ser experienciais ou não experienciais. Pacientes alexitímicos provavelmente
irão demonstrar um modo de envolvimento não experiencial, ou seja, usando
apenas uma componente do esquema emocional, excluíndo os outros (i.e.
situacionalperceptivo; conceptual-simbólico, ou fisiológico). Assim, o sujeito
não realiza um processamento emocional completo. Na presença deste marcador o
terapeuta deverá, num contexto de segurança e confiança, ajudar o paciente a
atender a todos os componentes emocionais, antes de passar para tarefas mais
complexas (para aprofundar o modelo ver e.g., Elliott et al., 2004). Um
princípio chave para quem trabalha com emoções em psicoterapia, consiste no
facto de as emoções permitirem aceder a desejos ou necessidades, que por sua
vez são fonte de acção. Ou seja, a cada sentimento subjaz uma necessidade e a
cada necessidade subjaz uma tendência de acção (Greenberg & Paivio, 1997).
Segundo Greenberg (2002), ao trabalharmos com emoções é necessário distinguir
entre quatro formas de resposta emocional - experiências emocionais
primárias adaptativas e desadaptativas, emoções secundárias e emoções
instrumentais. As emoções primárias são estados básicos que não são redutíveis
a outra emoção. São a reacção inicial, directa, mais básica a uma situação,
como, por exemplo, sentir-se triste por uma perda ou zangado por ter sido
privado de algo que necessitava. As emoções primárias adaptativas facilitam o
acesso a informação que permite orientação para a resolução de problemas. Por
exemplo, em alguns estados depressivos, aceder à zanga saudável face à
injustiça que está subjacente ao sentimento de impotência promove adaptação,
assim como aceder à vergonha e tristeza por uma perda de autoestima que tem
subjacente zanga pode promover auto-cuidado em vez de auto-destruição. As
emoções primárias desadaptativas são respostas que foram adaptativas no
passado, desenvolvidas, por exemplo, como uma estratégia de sobrevivência face
ao medo da rejeição, negligência ou humilhação na infância (e.g., Greenberg,
2002) que se tornaram desadaptativas a posteriori. As emoções secundárias, por
seu turno, são respostas relativas a processos internos mais primários e podem
ter uma função defensiva face aos mesmos, como por exemplo sentir-se zangado
por ter perdido um ente querido (e.g., Greenberg, 2002). Por fim, as emoções
instrumentais visam obter algo de outra pessoa. São expressas porque se
aprendeu que dessa forma as pessoas reagem como se pretende. São emoções que
podem ser conscientes ou espontâneas, com o propósito de se alcançar
determinada meta. São estilos emocionais, mais do que reacções momentâneas
(e.g., Greenberg, 2002).
No caso do funcionamento alexitímico, encontrando-se o processamento emocional
deteriorado, encontram-se igualmente limitadas aquilo que consideramos ser as
funções psicológicas das emoções e, consequentemente, a capacidade de regular a
satisfação de necessidades psicológicas vitais (Vasco, 2009a,b), nomeadamente:
(1) a função orientadorano mundo - tanto em termos físicos, como
psicológicos e interpessoais; (2) a função de comunicaçãocom nós próprios e com
os outros - apercebermo-nos mais integralmente do que se passa connosco e
comunicá-lo aos outros; (3) a função preventiva- quando não nos
entristecemos acabamos por nos deprimir; quando não nos permitimos ter medo,
acabamos por entrar em pânico; quando não nos permitimos zangar tornamo-nos
violentos; (4) a função de sinalização e de preparação para a acção-
implica todas as outras: sinalização do grau de regulação da satisfação de
necessidades e de acções necessárias para essa mesma regulação.
A atenção e a clareza emocionais, consideradas duas dimensões da consciência
emocional, parecem estar fortemente associadas à forma como as pessoas
processam as suas necessidades (Dizén, Berenbaum, & Kerns, 2005). De
acrescentar que o mais importante não parecer ser uma elevada activação
emocional em sessão, que poderá ter apenas efeitos catárticos momentâneos, mas
a produtividade associada a essa mesma activação emocional (Greenberg, Auszra,
& Herrmann, 2007). Os autores defendem que para uma resposta emocional ser
produtiva tem que ser primária; experienciada no presente, implicando que o
significado subjacente seja activado; esteja suficientemente regulada e não
invada o paciente; que este não se sinta uma vítima da emoção e esteja motivado
para estar em contacto com a mesma e finalmente para ser produtiva a emoção
deve estar relacionada com um tema terapêutico relevante. Pacientes com bons e
maus resultados em terapia podem ser diferenciados pela produtividade da sua
expressão emocional em níveis mais e menos elevados de activação emocional e
uma elevada activação emocional por si só não permite discriminar entre grupos
(Greenberg, Auszra, & Herrmann, 2007). Ao pensarmos no constructo
alexitimia antecipamos que não haverá à partida grande produtividade emocional,
na medida em que existem dificuldades ao nível da identificação das emoções e
existem dificuldades ao nível da regulação e da expressão emocionais.
Para além dos aspectos anteriormente descritos, os pacientes que melhoram em
psicoterapia parecem evoluir na expressão de acontecimentos externos de uma
forma desligada para uma focalização nos sentimentos internos descritos de
forma detalhada e associada entre si, acedendo assim às emoções necessárias à
promoção de tendências de acção propensas à resolução de problemas (Greenberg,
2002; Rogers, 1959). Consequentemente, para haver mudança em psicoterapia, os
pacientes não podem limitar-se a falar de uma forma intelectualizada acerca de
si e dos seus sentimentos, risco inerente quando se trabalha com pacientes com
funcionamento alexitímico. É necessário experienciar sobre aquilo que é dito e
usar os sentimentos para identificar e resolver problemas. Estes aspectos
parecem-nos particularmente relevantes tendo em conta que uma das
características do funcionamento alexitímico é o pensamento orientado para o
exterior, que faz com que para além da dificuldade em identificar e comunicar
sentimentos, exista ainda este foco no exterior, que dificulta a exploração da
vida interna do cliente. Coloca-se ainda a questão de saber se esta orientação
do pensamento dita as dificuldades em identificar e comunicar emoções, ou se é
uma consequência dessas na medida em que será demasiado difícil olhar para
dentro por não se conseguir dar significado ao mundo interno ou por ser
excessivamente ameaçador.
Para além desta componente experiencial do processo terapêutico, e tendo em
conta as dificuldades relacionais mencionadas anteriormente, é de extrema
relevância a relação terapêutica. Watson, Goldman e Greenberg (2007), referem
que os casos com melhores resultados terapêuticos parecem estar tanto
associados a relações terapêuticas de qualidade desde o início do processo como
à capacidade do paciente estar atento e processar a informação emocional. De
forma geral, o que distinguiu os pacientes com bom resultado terapêutico dos
com fraco resultado foram diferentes estádios de desenvolvimento relativamente
ao seu nível de regulação do afecto, estádio de mudança, a formulação de uma
narrativa coerente e a capacidade de reflectirem sobre si próprios (para um
desenvolvimento do tema ver e.g., Watson, Goldman, & Greenberg, 2007).
Pacientes que estão conscientes dos seus sentimentos e que são capazes de os
diferenciar respondem mais rapidamente à terapia do que pacientes que têm que
desenvolver essas competências. Clientes que estejam mais motivados para a
mudança estarão mais permeáveis às questões do terapeuta do que pacientes que
questionam o valor da terapia. Alguns pacientes têm mais facilidade em se
focarem em si próprios e desenvolverem narrativas coerentes, enquanto outros
necessitam de desenvolver estas competências de um modo que possibilite fazerem
um bom uso das intervenções terapêuticas. Colocadas estas diferenças parece
importante pensar em formas de intervir que sejam mais úteis para os pacientes
com maior dificuldade de atingir resultados terapêuticos satisfatórios, como é
o caso de pacientes com níveis elevados de alexitimia.
Numa pespectiva metateórica, considerando o processo terapêutico como uma
sequência de sete fases relativas a objectivos terapêuticos estratégicos de
carácter tendencialmente sequencial, como é expresso no modelo integrativo de
Complementaridade Paradigmática(para um desenvolvimento do modelo ver, por
exemplo, Vasco, 2006) entendemos que, no caso dos pacientes alexitímicos, mais
tempo, atenção e cuidado devem ser consagrados à implementação dos objectivos
estratégicos das fases iniciais do processo ou seja, fases 1 e 2. Nomeadamente:
(1) estabelecimento, monitorização, manutenção e reparação da aliança
terapêutica, particularmente no tocante aos aspectos de segurança e confiança,
bem como a motivação do paciente; e (2) aumento da consciência e experiência do
self, particularmente no tocante ao processamento emocional. Estas duas fases
sugerem objectivos estratégicos que vão ao encontro das necessidades
subjacentes ao trabalho com pacientes com funcionamento alexitímico. Por um
lado, a ênfase na construção da relação terapêutica e manutenção da sua
qualidade e na reparação de rupturas e atenção a ciclos interpessoas
disfuncionais (Safran & Muran, 2000). Por outro, um trabalho emocional que
permita lidar com as dificuldades em identificar e comunicar sentimentos
subjacente ao próprio funcionamento alexitímico. Estes aspectos em confluência
com o que foi anteriormente referido parecem de primordial relevância na
intervenção com pacientes com um funcionamento alexitímico.
REFLEXÕES E PERSPECTIVAS FUTURAS
Apesar do número significativo de estudos relativos ao conceito de alexitimia,
pouco se tem estudado sobre as variáveis relevantes e formas de intervenção
para o sucesso terapêutico. De uma forma geral aponta-se para a necessidade de
se ter em conta o nível de funcionamento alexitímico no contexto
psicoterapêutico. Se considerarmos que as mudanças mais duradouras se dão a um
nível cognitivo-emocional, abordagens de apoio ou aconselhamento sem esta
componente de exploração e desenvolvimento de competências emocionais poderão
não ter impacto ao nível da mudança mais consistente, levando a sintomas
residuais e recaídas.
Intervenções com o objectivo de aumentar a consciência da experiência e
promover a representação mental das emoções podem permitir melhores resultados
em processos terapêuticos com pacientes com funcionamento alexitímico. Neste
artigo salientamos a Terapia Focada nas Emoções (Elliott et al., 2004;
Greenberg et al., 1993) pela sua componente relacional e processoexperiencial,
mas outros modelos e técnicas poderão ser úteis. Destacamos ainda as
dificuldades ao nível da aliança terapêutica, que devem ser tidas em
consideração desde o início da terapia (Horvath & Greenberg, 1989; Horvath
& Symonds, 1991; Safran & Muran, 2000). Terapeutas que não tenham em
conta a presença de características alexitímicas poderão ter maior risco de
impasses, insucesso e desistências.
Assim, sugerimos que seja tomado em consideração o grau de alexitimia do
paciente desde o início do processo, permitindo um foco apropriado de
intervenção. Mais importante do que usar instrumentos formais para esta
avaliação, como por exemplo a TAS-20 (Toronto Alexithymia Scale;Taylor, Ryan,
& Bagby, 1992; adaptação para a população portuguesa por Prazeres, 1996;
Prazeres, Parker, & Taylor, 2000), poderá ser ter alguma sensibilidade para
indicadores relacionais e emocionais que possam sugerir a presença de
alexitimia. A reflexão sobre estes aspectos e a hipótese da presença de um
funcionamento alexitímico pode ajudar a lidar com as dificuldades inerentes e
evitar reacções terapêuticas adversas a este tipo de funcionamento.
Relativamente a investigação, será relevante o desenvolvimento de estudos
longitudinais, com recurso a metodologias qualitativas e de natureza
exploratória, que permitam avaliar em pormenor a influência da alexitimia no
processo terapêutico. A identificação de marcadores presentes em pacientes
alexitímicos e não presentes em pacientes não alexitímicos é de extrema
relevância para auxiliar os terapeutas na sua identificação. Assim, sublinha-se
a necessidade de mais estudos que esclareçam as dificuldades inerentes ao
processo terapêutico com pacientes alexitímicos. Tornase premente o
desenvolvimento de um modelo mais compreensível do ponto de vista clínico,
focado nos processos subjacentes a um funcionamento alexitímico, quer em termos
emocionais, quer em termos relacionais. Para concluir sugerimos considerar a
presença de um funcionamento alexitímico aquando da conceptualização do caso de
forma a minimizar as dificuldades no contexto clínico.