O desenvolvimento da socialização e o papel da família
O desenvolvimento da socialização e o papel da família
Alice Murteira Morgado*; Maria da Luz Vale Dias*; Maria Paula Paixão*
*Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra
Correspondência
ABSTRACT
The present study analyses the family's role in children and adolescents'
socialization development, namely in what concerns the role of family structure
and parent-child relations. Hence, our aim was to verify, on the one hand, if
family structure alone would be a significant variable for the development of
social behaviours or if, on the other hand, parent-child relations would best
predict children's socialization. For that purpose, 182 children and
adolescents attending school from the 6th to the 9th grades were asked to
answer three self-report measures assessing sociodemographic aspects,
socialization variables, and parent-child relations. Overall, results allow us
to assume that, more than family structure by itself, it is the way family
members relate to each other that will influence the development of the
children's socialization. It is our belief that such conclusion may translate
into important and useful implications regarding the development of social
behaviours in childhood and adolescence, not only for families, but also for
all institutions and professionals that deal with family matters.
Key-words:Family, Parent-child relations, Socialization.
INTRODUÇÃO
Na investigação apresentada, procurámos analisar o papel de algumas variáveis
familiares no desenvolvimento da socialização. Deste modo, pretendeu-se
analisar, por um lado, o papel da estrutura familiar e, por outro, o papel das
relações pais-filhos nos comportamentos sociais de crianças e adolescentes. Tal
temática de estudo advém do reconhecimento das mudanças que se têm vindo a
verificar na sociedade e nas famílias, ou seja, o crescente número de divórcios
e, consequentemente, o aumento no número de novas formas de família. De facto,
são cada vez mais frequentes, na sequência de situações de divórcio, agregados
familiares que deixam de englobar os dois progenitores e os seus filhos,
passando os últimos a viver apenas com um progenitor (famílias monoparentais)
ou com um casal em que apenas um dos elementos é seu progenitor (famílias
reconstruídas).
Efectivamente, ao longo do tempo, o conceito de família tem vindo a sofrer
variadas e profundas alterações no que concerne aos seus valores, modelos e
funções (Pires, 2005) e, com estas, as experiências das crianças e adolescentes
são, inevitavelmente afectadas. No caso de Portugal, embora as famílias
tradicionais ainda se encontrem em maioria (75,2% dos adolescentes vivem com
ambos os progenitores), desde os anos 70 que se tem vindo a verificar um
aumento do número divórcios, bem como do número de nascimentos fora do
casamento (Taborda Simões, Vale Dias, Formosinho, & Fonseca, 2007). Tais
acontecimentos resultaram, assim, numa crescente quantidade de famílias
monoparentais, organizadas, sobretudo, em torno da mãe (10,6%), ou seja,
sistemas familiares em que o subsistema conjugal é inexistente. Ora, dentro
deste tipo de estrutura, um número significativo de famílias possui
dificuldades económicas e sociais, o que se reflecte numa importante
vulnerabilidade social deste grupo (no que concerne a questões como a nutrição,
saúde, actividades de lazer e educação). Para além do referido, um outro
fenómeno tem vindo a notar-se com mais frequência no nosso país, decorrente do
aumento dos divórcios. Referimo-nos ao surgimento de novas formas de famílias,
ou seja, as famílias reconstruídas (Taborda Simões, Vale Dias, Formosinho,
& Fonseca, 2007).
À luz dos dados apresentados podemos, então, reconhecer o surgimento de novos
desafios a enfrentar pelas famílias portuguesas, não só no que diz respeito a
aspectos sócio-económicos, mas também no que concerne às relações e aos papéis
que se estabelecem no seio dos novos núcleos familiares. Com efeito, "as
tarefas envolvidas na educação dos filhos são partilhadas não apenas pelos pais
biológicos, mas também pelos seus novos parceiros, e as crianças habitualmente
também adquirem novas relações de fraternidade originadas mais pela coabitação
do que estritamente pelos laços biológicos" (Taborda Simões, Vale Dias,
Formosinho, & Fonseca, 2007, p. 799). Deste modo, os adolescentes que vivem
nestas novas formas de família enfrentam a necessidade de abertura a uma
realidade distinta, assim como a novos laços e relações, confrontando-se, por
isso, com uma maior diversidade de papéis, normas familiares e culturas.
Considerando as mudanças que se vão verificando na sociedade e na família
portuguesas, será pertinente debruçarmo-nos sobre as especificidades
subjacentes às novas formas de família e às consequências, em termos
desenvolvimentais que decorrem da vivência numa estrutura familiar não
tradicional. Dado que as novas formas de família acima referidas (monoparentais
e famílias reconstruídas) têm como origem primordial situações de divórcio,
será precisamente a questão do divórcio a principal situação a analisar na
presente investigação.
O divórcio constitui uma "forma radical de transformação do sistema
familiar na sequência de uma situação de crise que a família não consegue
resolver [...] a situação de divórcio é uma sequência de acontecimentos que
implicam uma transição na vida dos pais e dos filhos num contexto de crise que
geralmente só estabilizará após 1-2 anos" (Menezes, 1990, p. 78). Assim,
por definição, tal situação irá exigir, da parte de todos os elementos
envolvidos, sobretudo no primeiro ou nos dois primeiros anos após o divórcio, a
capacidade de lidar com os desafios decorrentes das alterações profundas na sua
vida. Grych (2002, citado por Wong, McElwain, & Halberstadt, 2009, p. 453)
recorda-nos que "a relação conjugal é central no sistema familiar. Uma
relação conjugal comprometida e harmoniosa fornece aos pais um apoio que
fomenta uma parentalidade positiva, enquanto elevados níveis de conflito no
casamento, ambivalência e desinteresse afectam os recursos psicológicos e
emocionais dos pais e interferem com a sua capacidade para responder
adequadamente às emoções negativas dos seus filhos". Neste sentido,
"o problema não está no divórcio em si, mas no divórcio mal sucedido.
Para as crianças, o que de facto importa é o modo como os pais são capazes ou
não de gerir as dificuldades que se instalam no seu relacionamento antes e após
a separação" (Taborda Simões & Ataíde, 2001, p. 241). É importante,
porém, não perder de vista que numa situação de divórcio ou separação cada
criança ou adolescente reage de modo distinto, podendo, nuns casos, verificar-
se um impacto muito significativo no desenvolvimento sócio-emocional dos
filhos, enquanto noutros não existirão efeitos particularmente adversos
(Stadelmann, Perren, Groeben, & VonKlitzing, 2010).
Será relevante, portanto, entender se as mudanças na estrutura familiar poderão
ter implicações no desenvolvimento da socialização de crianças e adolescentes,
tornando-se, assim, igualmente importante compreender o papel de aspectos como
a qualidade das relações pais-filhos enquanto agentes mediadores do eventual
impacto destas mudanças estruturais no desenvolvimento dos filhos.
Assim, como quadro conceptual para compreender a infância e adolescência,
adoptámos uma perspectiva desenvolvimentista, considerando a importância de um
desenvolvimento inevitavelmente marcado por profundas e múltiplas
transformações, particularmente no que à adolescência se refere, e das
aquisições que caracterizam estas etapas do desenvolvimento humano (Taborda
Simões, 2002).
A partir da psicologia do desenvolvimento, é, então, seguida uma concepção de
socialização com pendor piagetiano, contemplando a noção de equilibração
enquanto mecanismo de adaptação ao meio, presente desde o início do
desenvolvimento dos sujeitos. Tal mecanismo, ao possibilitar uma regulação das
aquisições que se vão realizando ao longo do desenvolvimento, permite o acesso
a novas formas, cada vez mais complexas, de compreender e lidar com o ambiente
em que os sujeitos vivem. O desenvolvimento humano é, para Piaget, provocado
por acções que visam a redução do desequilíbrio entre o organismo e o meio
físico e social, culminando na construção de um novo equilíbrio, com novas
formas de organização da actividade cognitiva. Deste modo, o
"desenvolvimento da criança - e, portanto, a sua socialização, que
nele [desenvolvimento da criança] constitui um elemento essencial - [é
visto] como um processo activo de adaptação descontínua a formas mentais e
sociais cada vez mais complexas" (Dubar, 2002, p. 20).
Assim, é salientado o papel activo do sujeito nas suas interacções com o meio,
resultando estas em formas progressivamente mais elaboradas de viver e actuar
nos contextos sociais. Por outras palavras, as bases para o comportamento e
desenvolvimento dos indivíduos serão adquiridas através das relações entre os
sujeitos e os seus contextos, relações essas caracterizadas pela mutualidade de
influências (Damon & Lerner, 2008). De facto, "desde o seu
nascimento, a criança é imersa num banho sociocultural, cujo papel determinante
ninguém pode pôr em causa. O desenvolvimento realiza-se numa rede inextricável
de interacções no seio dos grupos nos quais a criança vive e que irão, com a
idade, aumentar, diversificar-se e complexificar-se. É difícil, senão
impossível, de perceber, em todos os domínios, as relações entre todos estes
aspectos da socialização da criança" (Bideaud, Houdé, & Pedinielli,
1996, p. 423).
Efectivamente, "a integração, no decorrer da existência, de experiências
variadas, devidamente interpretadas, num processo de construção progressiva,
explica as mudanças observadas com o tempo e as diferenças que se manifestam
entre indivíduos ou grupos. A importância do papel das instituições de
socialização neste processo é consensual" (Duno et al., 1987, Harter,
1983, Marsh, 1984, 1990, citados por Fontaine, Campos, & Musitu, 1992, p.
69). Ora, uma das referidas instituições é precisamente a família, pelo que se
assume a importância do reconhecimento do contributo das primeiras relações
humanas, particularmente no seio da família, para um funcionamento social
ajustado ao longo do desenvolvimento dos indivíduos, já que estas
"contribuem para a elaboração dos seus primeiros esquemas sócio-afectivos
dos quais resultam os protótipos das relações sociais" (Haro, 2000, p.
23). É por esse motivo que não poderão deixar de ser referidos os modelos de
vinculação (Ainsworth, 1989; Bowlby, 1980) e de aprendizagem social (Bandura,
1989) que cremos constituírem quadros conceptuais indispensáveis para
compreender a importância do papel da família no desenvolvimento sócio-afectivo
da criança e, mais tarde, do adolescente.
O modelo de Bowlby e Ainsworth centra-se na questão das relações de vinculação,
ou seja, as relações precoces estabelecidas entre o bebé e a(s) figura(s) de
vinculação (o cuidador primário, habitualmente, a mãe), através das quais o
primeiro irá satisfazer as suas necessidades físicas, mas também psicossociais.
Considera-se uma vinculação segura aquela que se baseia na confiança do bebé,
não só em relação à figura de vinculação, mas também em relação à sua própria
capacidade de obter o que necessita, ou seja, de explorar livremente o meio
circundante, sabendo que em caso de perigo existe uma base de segurança. Note-
se que este tipo de relações precoces possuem uma forte influência na
construção de expectativas sobre os outros, no desenvolvimento de estratégias
de copinge na representação do self, podendo orientar as crenças, sentimentos e
comportamentos do sujeito no futuro e noutras relações que este estabelecerá
fora do contexto familiar. Com efeito, as trocas emocionais associadas às
relações de vinculação na infância poderão ter um importante papel nos
comportamentos pró-sociais, visto que a atenção, cuidado, cooperação e
interacção social poderão ser generalizados da díade figura de vinculação-bebé
para diversas outras situações sociais futuras, com que a criança em
desenvolvimento se irá deparar (Zahn Waxler, 1991, citado por Saarni, Campos,
Camras, & Witherington, 2008).
A teoria da aprendizagem social, por sua vez, preconiza que a criança aprende
os comportamentos sociais através da observação e imitação de modelos, ou seja,
observando figuras de referência (modelos, normalmente os seus pais e, mais
tarde, o grupo de pares) e demonstrando as aprendizagens que realizou
desempenhando os comportamentos observados quando os modelos não estão
presentes. Note-se que subjacente a esta teoria não se encontra uma ideia de
passividade por parte da criança. Pelo contrário, esta adopta um papel activo
na sua aprendizagem dos comportamentos sociais pois é ela que escolhe os
modelos e os comportamentos a observar e imitar de acordo com as suas
percepções.
Tendo em consideração o quadro teórico apresentado, poder-se-á, então,
reflectir sobre a importância do papel da família na aprendizagem de
comportamentos sociais, aprendizagem, esta, que resulta de diversas interacções
importantes entre a criança e os elementos significativos presentes ao longo do
seu desenvolvimento. De facto, as estruturas cognitivas adquiridas através das
experiências de cuidado no seio da família têm uma assinalável influência nas
respostas emocionais e comportamentais da criança perante novas situações
sociais (Stadelmann, Perren, Groeben, & VonKlitzing, 2010). Neste sentido,
pretendemos analisar o papel exercido pelo tipo de estrutura familiar em que a
criança/adolescente vive, assim como a qualidade das relações pais
filhos no desenvolvimento da socialização, supondo, à partida, que mais do que
a composição do agregado familiar, seria a qualidade das relações entre os seus
elementos a variável mais determinante para compreender os comportamentos
sociais na infância e adolescência.
OBJECTIVOS
Partindo, como já mencionado, de uma perspectiva desenvolvimentista, olhamos a
adolescência como etapa específica do desenvolvimento humano, marcada por
importantes mudanças. Etapa, esta, em que a adaptação ao meio e o equilíbrio
dos sujeitos é alcançado através de múltiplas e profundas transformações
físicas, cognitivas, morais e sócio-afectivas, assim como no que à construção
da identidade diz respeito. É deste modo que, ao longo da adolescência, os
sujeitos vão adquirindo uma crescente autonomia a diversos níveis (Taborda
Simões, 2002). Por tal razão, uma reflexão em torno da adolescência afigura-se,
para nós, indissociável de dois aspectos: por um lado, do desenvolvimento da
socialização que nesta etapa do desenvolvimento assume um papel de particular
relevo; por outro, do papel da família "enquanto contexto de
desenvolvimento, [que] providencia um conjunto de relações sociais e de
experiências de aprendizagem que são determinantes no confronto com as
situações cada vez mais complexas e desafiantes da vida do adolescente"
(Menezes, 1990, p. 65). De facto, "do estudo da socialização podem advir
relevantes contributos, à medida que nos permite apreender as continuidades e
descontinuidades do processo de construção psicossocial do homem, da família, à
escola e ao trabalho" (Gomes, 2000, p. 189).
Os objectivos da presente investigação encontram-se, portanto, associados a
duas questões basilares: pretende-se averiguar a influência de diversos
factores associados à família no desenvolvimento da socialização na fase final
da infância e na adolescência, ao mesmo tempo que se procura compreender a
relação entre o desenvolvimento da socialização, a estrutura familiar e as
relações pais-filhos. Foram, assim, levantadas três hipóteses essenciais:
H1: A estrutura familiar em que os sujeitos vivem, por si só, não é uma
variável significativa para o desenvolvimento da socialização. H2: A estrutura
familiar em que os sujeitos vivem, por si só, é uma variável significativa para
compreender as relações pais-filhos. H3: A qualidade das relações pais-filhos
influencia o desenvolvimento da socialização.
METODOLOGIA
Participantes
Para a investigação apresentada, a recolha de dados foi realizada numa escola
básica do 2º e 3º ciclos da cidade de Coimbra, tratando-se esta de uma amostra
ocasional. A mesma é composta por 182 sujeitos, dos quais 46,2% são do sexo
masculino e 53,8% são do sexo feminino, com idades compreendidas entre os 10 e
os 19 anos (média=13 anos; d.p.=1,57). Na Tabela_1 é apresentada a distribuição
da amostra segundo o nível sócio-económico, ano de escolaridade e agregado
familiar.
Instrumentos
Para testar as hipóteses formuladas foram aplicados três questionários:
Questionário sócio-demográfico- Este instrumento, elaborado no âmbito da
presente investigação, contém 13 questões relativas à caracterização dos
sujeitos (sexo, idade, ano de escolaridade), da sua estrutura familiar (número
de irmãos, agregado familiar, etc.), área de residência (urbano/rural, região
geográfica) e nível sócio-económico (profissão dos pais, habilitações
literárias dos pais)1.
Questionário Sobre as Relações Pais-Filhos- A adaptação portuguesa do
Questionnaire des Relations Parents-Enfants(QRPE, Bastin & Delrez, 1976), é
da autoria de Vaz Serra (1987). Trata-se de um questionário de auto-resposta
que visa analisar o modo como os adolescentes e adultos percebem as suas
relações com os pais. É constituído por 63 questões, cuja resposta poderá ser
"Verdadeiro", "Não sei" e "Não Verdadeiro".
A cotação permite obter quatro tipos de dados: uma nota geral sobre a atmosfera
familiar (dividida em dois factores: Comunhão de ideias e sentimentos e
Consistência/Inconsistência), uma nota relativa às relações com o pai (dividida
em sete factores: Tolerância/Dominância, Aceitação/Rejeição, Apreciativa/
Inferiorizante, Autonomia/Sobrepro tecção, Não conflituosa/conflituosa,
Confiança/Desconfiança e Pai educador/Pai não educador), uma sobre as relações
com a mãe (dividida, também, em sete factores: Tolerância/Dominância,
Aceitação/Rejeição, Apreciativa/Inferiorizante, Consistência/Inconsistência,
Confiança/Descon fiança, Não conflituosa/conflituosa e Mãe educadora/Mãe não
educadora) e uma nota global, reflectindo a soma de todos os factores
mencionados2.
Bateria de Socialização (BAS-3)- A Bateria de Socialização (BAS-3), é da
autoria de Silva, Martorell e Clemente (1985), tendo sido adaptada para a
população portuguesa por Ferreira e Rocha (2004). Este instrumento consiste num
questionário de auto-resposta que procura medir dimensões relacionadas com o
comportamento social de crianças e adolescentes, em particular, no que concerne
às relações sociais entre pares. No total é composto por 75 itens, cujas
respostas poderão ser "Sim" ou "Não". Os seus
resultados permitem obter dados relativos a cinco dimensões sociais. A dimensão
"Consideração pelos outros" (Co) diz respeito à preocupação em
relação aos outros, em especial pelos que têm problemas, sofrem rejeição ou são
ignorados, estando, de algum modo, associada aos conceitos de altruísmo e
empatia emocional. A dimensão "Auto-controlo nas relações sociais"
(Ac), poderá ser entendida segundo dois pólos: um em que existe cumprimento e
aceitação das normas sociais e regras que facilitam a convivência e o respeito
mútuo, e outro caracterizado por comportamentos agressivos ou impositivos. Por
outras palavras, é uma dimensão fortemente associada a questões de ajustamento
social. A dimensão "Isolamento social" (Is) permite detectar um
afastamento, passivo ou activo, em relação aos outros. A dimensão
"Ansiedade social/Timidez" (At) identifica manifestações de
ansiedade social passíveis de se relacionarem com a timidez. Finalmente, a
dimensão "Liderança" (Li), avalia aspectos como a ascendência,
popularidade, iniciativa, auto-confiança e disponibilidade para ajudar os
outros. É possível, ainda, obter uma medida da "Sinceridade" (S).
Procedimentos
Depois de seleccionada a amostra e de obtidas as autorizações da direcção da
escola e dos Encarregados de Educação para a participação dos sujeitos na
investigação, as aplicações dos instrumentos acima referidos foram realizadas
colectivamente, em contexto de sala de aula, tendo sido garantido o anonimato
de todas as respostas. Tais condições de administração possibilitaram o
controlo das condições de preenchimento dos instrumentos, nomeadamente a
homogeneidade de condições de resposta e a privacidade das mesmas.
Para análise de dados, recorremos ao teste de Levene (homogeneidade das
variâncias) e ao teste t de studentde diferença de médias para amostras
independentes, considerando um nível de significância de 0,05, para um
intervalo de confiança de 95%, para averiguar a relação entre a variável
"Estrutura Familiar" (categorizada em dois níveis: "Agregado
Familiar Tradicional" e "Agregado Familiar Não Tradicional"3)
e as diferentes variáveis de socialização (Co, Ac, Is, At e Li), bem como para
verificar a relação entre a variável "Estrutura Familiar" e as
variáveis relativas às relações pais-filhos ("Nota Total QRPE",
"Nota Total Pai", "Nota Total Mãe" e "Nota Total
Questões Gerais"). Por sua vez, para averiguar a influência das relações
pais-filhos (tomando como variáveis independentes as diversas dimensões que
compõem esta variável) nas variáveis de socialização (variáveis dependentes),
foi realizada uma análise de regressão. Esta análise foi complementada, a
posteriori, por uma análise semelhante, mas considerando como preditores os
factores específicos de cada uma das variáveis das relações pais-filhos
("Nota Total QRPE", "Nota Total Pai", "Nota Total
Mãe" e "Nota Total Questões Gerais"). Por outras palavras,
sempre que se encontraram resultados significativos entre uma variável das
relações pais-filhos e uma variável de socialização, procedeu-se a uma análise
mais profunda para esclarecer o papel de cada factor específico da variável
independente na predição da variável dependente.
RESULTADOS
Com base nas análises realizadas, os resultados obtidos possibilitaram a
obtenção de dados de interesse e revelo para a reflexão sobre o papel das
variáveis familiares no desenvolvimento dos comportamentos sociais na infância
e adolescência.
A primeira hipótese foi confirmada, verificando-se assim que, isoladamente, a
variável "Estrutura Familiar" não basta para explicar o
desenvolvimento da socialização. O teste t de Studentpara amostras
independentes não revelou, portanto, resultados significativos na análise da
relação entre o agregado familiar e as diversas variáveis de socialização, à
excepção da variável "Isolamento social" (t=-1,99; p=,048). Apenas
nesta dimensão foram encontradas diferenças significativas entre os dois grupos
comparados (Agregado Familiar Tradicional e Agregado Familiar Não Tradicional),
sendo o valor da média superior no grupo "Não tradicional" (2,61)
em relação ao grupo "Tradicional" (1,82).
Considerando os resultados obtidos, e no sentido de procurar compreender mais
pormenorizadamente o efeito do agregado familiar na variável "Isolamento
social", procedeu-se a uma regressão linear (Tabela_3). Esta análise
revelou que, apesar de significativa, apenas cerca de 2% da variância é
explicada pela variável independente (R2=,02; p=,048).~
A segunda hipótese colocada, relativa à existência de diferenças na qualidade
das relações paisfilhos consoante o agregado familiar, foi refutada, já que não
foram obtidos resultados estatisticamente significativos no teste t de
studentpara amostras independentes. Assim, não é possível assumir o efeito de
diferentes agregados familiares nas relações entre pais e filhos.
Na análise de regressão linear múltipla das dimensões das relações pais-filhos
nas diversas dimensões da socialização, a maioria dos modelos testados revelou-
se significativa. Tal permite corroborar a terceira hipótese colocada, ou seja,
que a qualidade das relações familiares constitui uma variável preditora do
desenvolvimento da socialização. Como já mencionado, foram utilizadas, como
variáveis independentes, as quatro notas totais obtidas no QRPE, tendo sido
excluída deste grupo a variável "Nota Total QRPE", uma vez que
apresentava uma elevada colinearidade com as demais, facto expectável, visto
que esta dimensão consiste no somatório das restantes.
Como se pode verificar, através da consulta da Tabela_5, os modelos de
regressão testados permitem-nos assumir que as relações pais-filhos são, de um
modo geral, preditores da sociali zação, em particular das variáveis
"Consideração pelos outros" (R2=,11; p=,000), "Auto-controlo
nas relações sociais" (R2=,18; p=,000) e "Isolamento social"
(R2=12; p=,000). No caso da variável "Liderança", o modelo de
regressão não foi significativo (p=,27) e na variável "Ansiedade social/
Timidez", embora o modelo seja significativo (p=,02), nenhuma das
variáveis das relações pais-filhos surge como seu preditor significativo. Por
outras palavras, as relações pais-filhos poderão ser consideradas preditores de
três das cinco variáveis da socialização analisadas. Note-se que as diferentes
dimensões são explicadas por diferentes variáveis das relações pais-filhos.
Efectivamente, a "Nota Total Pai" apresenta-se como preditor da
variável "Consideração pelos outros" (t=2,73; p=,007), a
"Nota Total Mãe" surge como preditor do "Auto-controlo nas
relações sociais" (t=2,63; p=,009), enquanto a variável "Nota Total
Questões Gerais" é preditor da dimensão "Isolamento social"
(t=-22; p=,030).
Considerando os resultados obtidos, optou-se por realizar uma nova análise de
regressão mais exaustiva, de modo a verificar quais os factores específicos que
predizem cada uma das variáveis de socialização explicadas pelas relações com o
pai, com a mãe ou pela atmosfera familiar. Assim, como se poderá consultar na
Tabela_6, verificou-se que, das dimensões relativas às relações com o pai,
foram a "Aceitação/Rejeição" (t=4,94; p=,000) e a "Confiança/
Desconfiança" (t=-2,28; p=,024) as que contribuíram significativamente
para explicar 19,7% da variância no factor de socialização "Consideração
pelos outros" (R2=,20; p=,000). No que concerne ao "Auto-controlo
nas relações sociais", explicado pelas relações com a mãe, foram as
dimensões "Tolerância/ /Dominância" (t=4,19; p=,000),
"Aceitação/Rejeição" (t=2,53; p=,012) e "Consistência/ /
Inconsistência" (t=3,05; p=,003) as que explicaram 22,9% da variância
(R2=,23; p=,000). Por fim, no que concerne ao "Isolamento Social",
explicado pela "Nota Total Questões Gerais", os resultados obtidos
apontam para o facto de ambas as dimensões deste factor, "Comunhão de
ideias e sentimentos" (t=-2,83; p=,005) e "Consistência/
Inconsistência" (t=-2,53; p=,012), serem preditores da referida dimensão
(R2=,09; p=,000).
DISCUSSÃO
Antes de nos debruçarmos mais particularmente sobre a discussão dos resultados
obtidos, importa destacar que, de um modo geral, estes vão no sentido dos já
encontrados em anteriores investigações realizadas nesta área, permitindo
corroborar duas das três hipóteses colocadas.
Relativamente à primeira hipótese colocada, a investigação permitiu confirmar o
facto de, por si só, a estrutura familiar não ser suficiente para explicar o
desenvolvimento da socialização. Tal resultado possibilita, assim, concluir que
a qualidade da socialização dos filhos não dependerá exclusivamente do agregado
familiar em que vivem, ou seja, o facto de ter pais separados/divorciados não
implica necessariamente problemas do ponto de vista da socialização, nem o
facto de viver com ambos os pais significa a ausência de dificuldades nesta
área. Todavia, e considerando as diferenças significativas verificadas entre os
dois grupos na dimensão "Isolamento social" (embora em ambos os
grupos os resultados alcançados estejam dentro da média), importará reflectir
sobre a razão que justifica a tendência para um maior afastamento, passivo ou
activo em relação aos outros, em sujeitos oriundos de agregados familiares não
tradicionais, em comparação com os que vivem em agregados familiares
tradicionais. Ora, tendo em conta que nenhuma outra dimensão de socialização
apresentou tal comportamento, e considerando que a variável "Estrutura
Familiar" explica apenas 2% da variância, poderemos, eventualmente,
atribuir estes resultados à conjugação da variável "Estrutura
Familiar" com outras, como, por exemplo, a atmosfera familiar, visto que
se verificou na análise de regressão que a variável "Nota Total Questões
Gerais" se apresentou como preditor da dimensão "Isolamento
social", explicando 12% da variância. Para além desta poderemos especular
sobre o efeito de outras dimensões não analisadas no presente estudo, como, por
exemplo, o nível sócio-económico dos sujeitos, o número de irmãos ou a sua
posição na fratria.
A hipótese acerca da possibilidade de existirem diferenças entre as médias
obtidas na qualidade das relações pais-filhos consoante o agregado familiar foi
refutada, não sendo possível assumir um efeito desta variável no modo como os
elementos que constituem a família se relacionam. Em consonância com este
resultado, diversos autores confirmaram já a existência de poucas diferenças
entre filhos de famílias tradicionais e filhos de famílias não tradicionais,
considerando mais relevante a consideração das relações que se verificam no
seio da família do que a estrutura familiar propriamente dita (McHale et al.,
2003, Patterson 2006, Stevens, Golombok, Beveridge, & Avon, 2002,
Stevenson, & Black, 1988, citados por Berenbaum, Martin, & Ruble,
2008). De facto, parece que "o traumatismo do divórcio vem menos do facto
de ter pais separados que de ter pais em conflito" (Bastard et al., 1996,
citados por Taborda-Simões & Ataíde, 2001, p. 241). Este resultado acaba
por reforçar a hipótese anterior (já confirmada), pois, dado que as relações
paisfilhos não se distinguem consoante a composição do agregado familiar,
podemos assumir que nem de uma forma indirecta a socialização poderá ser
explicada pela estrutura familiar.
No que concerne à terceira e última hipótese colocada, relativa ao papel das
relações pais-filhos no desenvolvimento da socialização, verificou-se que, de
facto, a qualidade das relações familiares constitui, por si só, uma variável
preditora do desenvolvimento da socialização, uma vez que, três das cinco
dimensões de socialização testadas ("Consideração pelos outros",
"Auto-controlo nas relações sociais" e "Isolamento
social") foram explicadas pelas diferentes dimensões do QRPE ("Nota
Total Questões Gerais", "Nota Total Pai" e "Nota Total
Mãe"). Acerca destes resultados, emergem dois aspectos que convém
sublinhar.
Em primeiro lugar, é de destacar o facto de diferentes dimensões das relações
pais-filhos explicarem diferentes dimensões de socialização. Com efeito, a
relação com o pai, em particular no que se refere à aceitação e ao grau de
confiança existente na relação, surge como preditor da dimensão relativa à
sensibilidade social, preocupação com os outros, altruísmo e empatia emocional
("Consideração pelos outros"). Assim, quanto maior a aceitação
existente na relação com o pai, maior a consideração pelos outros.
Inversamente, no que concerne à dimensão "Confiança/Desconfiança",
o resultado obtido apresenta se contrário ao que seria expectável, ou seja,
quanto menor o valor obtido nesta dimensão, mais elevada será a consideração
pelos outros. Tal resultado poderá, porém, dever se à natureza relativamente
ambígua da única questão que avalia o referido aspecto: "o meu pai
tratava me como a um homenzinho/mulherzinha". No caso da relação com a
mãe, esta parece explicar a dimensão relativa ao respeito pelas normas sociais,
potenciadoras de uma convivência baseada no respeito mútuo, ou seja,
"Auto-controlo nas relações sociais", sobretudo nos aspectos
particulares do grau de tolerância ou dominância, do nível de aceitação/
rejeição e da consistência ou inconsistência relativamente à disciplina
exercida. Assim, verificou-se que, quanto mais elevadas as dimensões referidas,
mais elevado será o auto-controlo dos filhos nas relações sociais. Por fim, a
atmosfera familiar surge como variável explicativa do "Isolamento
social", sendo que ambas as dimensões deste factor do QRPE
("Comunhão de ideias e sentimentos" e "Consistência/
Inconsistência") contribuem para explicar esta dimensão de socialização,
ou seja, quanto maior a percepção de harmonia e bem-estar no seio da família e
quanto maior a consistência revelada pelos dois progenitores, menor será a
tendência para um afastamento em relação aos outros por parte dos filhos.
Verifica-se, portanto, um efeito diferenciado dos vários aspectos familiares
nas diferentes dimensões do comportamento social dos sujeitos, confirmando-se
que "diferentes membros da família - mãe, pai, filhos - se
influenciam mutuamente" (Minuchin, 2002, citado por Parke & Brueil,
2008, p. 96) e que "a natureza das relações interpessoais, no contexto
familiar, é um factor importante no desenvolvimento da criança, ainda que, a
estrutura familiar não seja a de uma família nuclear" (Schaffer, 1990,
citado por Pires, 2005). De destacar, ainda, o facto de, em todas as dimensões
de socialização explicadas pelas relações com o pai ou pelas relações com a
mãe, surgir sempre como preditor o factor "Aceitação/Rejeição"
(quer como factor paterno, quer como factor materno), pelo que os aspectos
relacionais relativos a uma boa comunicação, empatia e colaboração entre pais e
filhos, parecem assumir uma particular relevância para um comportamento social
mais ajustado, sobretudo no que diz respeito à empatia emocional, altruísmo,
cuidado com os outros e à aceitação de normas sociais e regras promotoras do
respeito mútuo. Efectivamente, "a experiência de aceitação parental
incentivará na criança uma orientação para o futuro positiva e auto-confiante,
baseada na crença de controle pessoal e permitindo um adiamento mais amplo das
gratificações" (Trommsdorff, 1986, citado por Borges, 1997, p. 53).
Um segundo aspecto de referência prende-se com as variáveis não explicadas
pelas relações pais-filhos: a "Ansiedade Social/Timidez" e a
"Liderança". Note-se, a este propósito, que ambas partilham a
característica de se reportarem à participação dos sujeitos em grupos sociais
extrafamiliares, como é o caso do grupo de pares, ou do contexto escolar. De
facto, "as relações interpessoais extra-familiares contribuem
significativamente para a competência individual e relacional na infância e na
adolescência" (Collins, Maccoby, Steinberg, Hetherington, &
Bornstein, 2000, citados por Collins & Steinberg, 2008, p. 551). Além
disso, se "o comportamento social é muitas vezes moldado pelas
disposições dos indivíduos envolvidos nas interacções […], reciprocamente, as
relações sociais também poderão ter um efeito profundo na personalidade"
(Jensen-Campbell, Knack, & Rex-Lear, 2009, p. 506). Assim, estas duas
dimensões encontramse, também, associadas a características individuais de
cariz disposicional. Neste sentido, estudos estatísticos realizados no âmbito
da construção da BAS-3 (Silva, Martorell, & Clemente, 1985) revelaram a
existência de uma correlação significativa elevada entre a dimensão
"Ansiedade social/Timidez" e a escala de Neuroticismo do EPQ-J
(Eysenck & Eysenck, 1981), e uma correlação negativa ligeira entre a mesma
dimensão e a escala de Extroversão, tendo-se também identificado uma correlação
positiva entre a dimensão "Liderança" e a escala de Extroversão do
EPQ-J.
CONCLUSÕES
É inequívoco que "as famílias são continuamente confrontadas por
desafios, mudanças e oportunidades" e que as "diversas mudanças na
sociedade têm produzido alterações nas relações familiares" (Parke, &
Buriel, 2008, p. 113). Por tal motivo, o estudo das questões estruturais e
relacionais no seio das novas formas de famílias assume uma importância
crescente e assinalável, já que possibilita uma compreensão mais clara das
implicações dos novos desafios colocados às famílias ao longo do
desenvolvimento dos seus filhos. Através desta investigação é, então, possível
retirar algumas conclusões de interesse, quer a nível teórico, quer do ponto de
vista prático.
Em primeiro lugar, foi possível verificar, na amostra estudada, que a estrutura
familiar, por si só, não basta para compreender o modo como se desenvolvem os
comportamentos sociais das crianças e adolescentes. O facto de se viver no seio
de uma família tradicional não constitui, por isso, um factor protector para o
desenvolvimento da socialização, nem a vivência num agregado familiar não
tradicional representa um factor de risco. Não foram, também, encontradas
diferenças significativas entre sujeitos de agregados familiares tradicionais e
não tradicionais no que concerne à qualidade das relações pais-filhos,
indicando, novamente, que, mais do que aspectos estruturais são os aspectos
relacionais que efectivamente contribuem para um funcionamento ajustado dos
sujeitos e das suas famílias.
Confirmou-se, portanto, que será a qualidade das relações pais-filhos que
explica uma parte do desenvolvimento da socialização, sendo que diferentes
componentes relacionais no seio da família (relação com o pai, relação com a
mãe, atmosfera familiar em geral) explicam diferentes dimensões da
socialização, ficando de parte, contudo, as referentes à participação em grupos
extra-familiares e fortemente associadas a traços de personalidade (ansiedade
social/timidez e liderança). Destacase, assim, o papel fundamental das relações
entre pais e filhos no ajustamento social dos filhos, sobretudo em aspectos
relativos à sua empatia emocional, altruísmo, cuidado com os outros e à
aceitação de normas sociais e regras promotoras do respeito mútuo.
Tais conclusões vão ao encontro das já adiantadas por diversos autores (Ahrons,
2007; Hetherington, Cox, & Cox, 1982; Kelly, 2007; Schneider, 1993;
Stadelmann, Perren, Groeben, & VonKlitzing, 2010; Taborda Simões, &
Ataíde, 2001), ou seja, independentemente das características da estrutura
familiar, é o modo como os elementos se relacionam, no seio da família, que irá
influir no desenvolvimento dos filhos e, neste caso em particular, no
desenvolvimento dos comportamentos sociais.
Tais resultados poderão contribuir para a desmistificação de diversas ideias
comummente aceites por grande parte dos elementos em contacto com crianças e
adolescentes (tais como a família, o grupo de pares, a escola, entidades
recreativas, etc.), promovendo uma compreensão mais alargada do papel da
família no desenvolvimento dos comportamentos sociais dos seus filhos.
Efectivamente, "o reconhecimento da família como parceira de outras
instituições, tais como os pares, escolas, media, instituições religiosas e
políticas governamentais que, no seu todo, influenciam o desenvolvimento da
criança, tem expandido significativamente a nossa visão do papel da família no
processo de socialização e sugere que a família - directa ou
indirectamente - poderá ter um impacto maior nos resultados da criança do
que anteriormente se poderia pensar" (Parke & Buriel, 2008, p. 128).
Deste modo, será de grande relevância salientar, junto dos progenitores que
estejam a ponderar uma situação de divórcio/separação ou que já se encontrem
divorciados/separados, que uma nova estrutura familiar não implica a
deterioração das relações pais-filhos nem tampouco limitações no
desenvolvimento do comportamento social dos filhos. Efectivamente, o mais
relevante é o modo como o casal lida com as alterações na vida e na estrutura
familiar, procurando ao máximo evitar elevados níveis de conflitualidade,
antes, durante e após o divórcio, já que, muitas vezes, é o conflito parental,
e não as mudanças devidas a um divórcio, o principal responsável pela
deterioração das relações pais-filhos (Grych & Fincham, 1990). Para um
desenvolvimento ajustado dos comportamentos sociais dos filhos, mais do que a
coabitação, importa o estabelecimento de boas relações entre os vários
elementos da família e, sobretudo, entre os progenitores e a criança/
adolescente. Efectivamente, "o divórcio é muitas vezes uma alternativa
melhor em relação à manutenção de uma família intacta mas com elevados níveis
de stress e infeliz" (Dacey & Travers, 2002, pp. 311-312).
Será, portanto, benéfico que instâncias que lidam com as famílias reforcem a
importância da colaboração e do estabelecimento de relações com o mínimo de
conflitualidade, em nome da preservação de boas relações entre pais e filhos e
de um desenvolvimento social ajustado dos últimos. Neste sentido, "as
intervenções devem estar vocacionadas para ensinar aos pais métodos para, de
uma forma construtiva, resolverem os seus conflitos" (Kim, Jackson,
Conrad, & Hunter, 2008, p. 748). Acresce, ainda, a importância de reforçar
que o agregado familiar da criança ou do adolescente não deverá ser motivo para
assumir à partida uma limitação ou uma vantagem do ponto de vista do
desenvolvimento dos comportamentos sociais. Deve-se, portanto, evitar a ideia
de que, por ter pais divorciados/separados, uma criança ou adolescente terá um
funcionamento menos ajustado em situações sociais ou que terá uma relação
deteriorada com os seus progenitores.
São de apontar, todavia, algumas limitações a esta investigação. Em primeiro
lugar, destacamse as relativas à amostra utilizada, ou seja, o facto de a
amostra ser de natureza ocasional, o que constitui uma incerteza quanto à
possibilidade de generalização dos resultados para a população em geral. Note-
se, neste âmbito, que apesar de ocasional, as análises descritivas efectuadas
revelam que a amostra reflecte, em parte, as características da população
portuguesa, em particular no que diz respeito ao sexo (masculino=46,2%;
feminino=53,8%), nível sócio-económico (baixo=29,1%; médio=44,0%;
elevado=26,9%) e tipo de agregado familiar (tradicional=76,4%; não
tradicional=23,6%). Não obstante, e apesar de parecer ilustrar a realidade
portuguesa (Taborda Simões, Vale Dias, Formosinho, & Fonseca, 2007), a
amostra revela um desequilíbrio acentuado entre a quantidade de sujeitos que
viviam em agregados familiares tradicionais e não tradicionais, não permitindo
comparações entre dois grupos com um número semelhante de sujeitos, como seria
desejável.
No que concerne às variáveis analisadas, são de destacar alguns aspectos que
poderão ser aprofundados em investigações futuras, já que diversas variáveis
recolhidas não foram objecto de análise na sua interacção com as dimensões que
foram alvo de investigação. Referimo-nos, especificamente, a factores como o
género, a idade, o número de irmãos, o nível sócio-económico e o tempo
decorrido após o divórcio, que poderiam contribuir para uma compreensão
complementar, mais completa e detalhada dos resultados obtidos.
Poder-se-á também apontar uma limitação relativa à natureza dos resultados
obtidos, uma vez que estes foram obtidos exclusivamente através da recolha de
questionários de auto-resposta, ou seja, constituem uma avaliação subjectiva
dos sujeitos em relação a si próprios.
Seria, por isso, interessante, replicar este estudo com uma amostra mais
extensa e equilibrada em termos da quantidade de sujeitos que compõem cada
grupo, procedendo à análise das diferenças entre os vários subsistemas
familiares não tradicionais existentes, averiguando se existem diferenças nas
variáveis estudadas, entre agregados familiares monoparentais, reconstruídos e
outros tipos de estrutura. Seria também relevante considerar algumas variáveis
que ficaram por explorar, de forma a entender se, e de que modo, dimensões como
o género, a idade, o tempo decorrido após o divórcio, o número de irmãos e a
posição dos sujeitos na fratria contribuiriam para explicar e compreender
melhor os resultados encontrados nesta investigação. Poderia revelar-se
igualmente proveitosa a aplicação de outras metodologias de avaliação das
variáveis em estudo, para além dos questionários de auto-resposta utilizados,
recorrendo, por exemplo, à observação directa e à análise da percepção dos
pais, dos educadores/professores e dos irmãos, quer através de questionários,
quer através de entrevistas.
Finalmente, e no sentido de realizar um estudo mais exaustivo, poder-se-ia
recorrer à análise dos diferentes subsistemas relacionais no seio da família,
uma vez que, "a relação conjugal, a relação mãe-filho e a relação pai-
filho requerem análises distintas" (Parke et al., 2001, citados por Parke
& Buriel, 2008, p. 96) que poderiam promover uma compreensão mais completa
dos aspectos estruturais e relacionais que contribuem para o desenvolvimento
dos comportamentos sociais dos filhos, quer nos agregados familiares
tradicionais, quer nos agregados familiares não tradicionais. Seria, portanto,
interessante analisar o impacto de mais variáveis nos fenómenos apresentados,
em particular, o papel das relações entre cônjuges, relações entre irmãos,
redes sociais de suporte, estilos parentais, rendimento escolar e
características individuais.