Isolamento social e sentimento de solidão em jovens adolescentes
Isolamento social e sentimento de solidão em jovens adolescentes
Débora Ferreira*; António J. Santos*; Olívia Ribeiro*; Miguel Freitas*; João V.
Correia*; Kenneth Rubin**
*U.I.P.C.D.E., ISPA - Instituto Universitário;
**Department of Human Development and Quantitative Methodology, University of
Maryland
Correspondência
ABSTRACT
Studies on peers' relationships highlight the importance of these for a
healthy development, especially in adolescence. As such social isolation
becomes a problem with renewed interest during adolescence. There are several
studies linking social withdrawal and internalizing problems, such as
loneliness. The present study aimed to verify the feelings of loneliness that
withdrawn and aggressive adolescents express. We were also interested in
examining if there is and how they manifest gender differences in feelings of
loneliness for isolated/aggressive and isolated/withdrawn adolescents. Nine
hundred adolescents participated in this study (446 females), aged between 12
and 15 years from two schools in Greater Lisbon. To achieve the goal we set
ourselves, we applied two questionnaires: the ECP (Extended Class Play) and RPQ
(Relational Provision Loneliness Questionnaire). Multivariate analysis of the
RPQ dimensions by Group (control, isolated/withdrawn and isolated/aggressive)
and Sex, reveled main effects for both factors. The results showed lower levels
of peer integration for isolated/withdrawn adolescents relative to the Control
Group. At the level of peer intimacy the isolated/withdrawn adolescents
considered having significantly lower intimacy when compared to the control
group. Gender differences were also found with girls considering themselves
significantly more intimate with their peers than boys.
Key-words:Adolescence, Loneliness, Social withdrawal.
RELAÇÕES DE PARES NA ADOLESCÊNCIA
No período da pré-adolescência regista-se um aumento significativo no número de
membros do grupo de pares e, também, um aumento da quantidade das interações
sociais entre os mesmos (Rubin, Bukowski, & Parker, 2006). Já em 1902,
Cooley referia a importância das relações entre pares, chamando a atenção para
o facto de estes serem possíveis colaboradores no processo de socialização da
criança. Mais tarde Piaget (1932), também defendeu que a exposição a exemplos
de conflitos no grupo de pares e a oportunidades de negociação social ajudam as
crianças na aquisição e no desenvolvimento de competências, como sejam, tomar
em consideração diferentes perspetivas, elaborar raciocínios de causa-efeito e
ter acesso à compreensão da moralidade (Rubin, Coplan, & Bowker, 2003). São
vários os estudos que demonstraram a associação entre a qualidade das relações
de pares e uma adaptação bem-sucedida em vários domínios podendo, por exemplo,
a qualidade da amizade ser promotora da confiança interpessoal (Luther &
McMahon, 1996; Renshaw & Brown, 1993).
Como tal, as amizades têm um papel de relevo no desenvolvimento afetivo,
cognitivo e social das crianças (Hartup, 1996; Veríssimo & Santos, 2008).
De acordo com Rubin e Mills (1988), as dificuldades de relação entre pares na
infância são muitas vezes apontadas como preditores de desajustamento
psicológico no futuro. Rubin (1982) realçou o facto de crianças que brincam
sozinhas e que interagem pouco frequentemente com os seus pares poderem estar
em risco de, no futuro, desenvolverem problemas a nível social e
sociocognitivo. Outros autores afirmam que o desenvolvimento de relações de
pares saudáveis poderá ser uma forma de prevenir problemas relacionados com
perturbações do comportamento (Rubin, Bukowski, & Parker, 2006). Há
evidências que apontam para o facto de uma criança que é sucessivamente
rejeitada ou ignorada pelos seus pares poder vir a desenvolver, por exemplo,
comportamentos de inibição social (Asendorpf, 1990). Deste modo, as relações
entre pares apresentam-se como um fator fundamental no desenvolvimento de
crianças e jovens e a ausência ou pouca frequência das mesmas pode ser vista
como um indicador de problemas com consequências a vários níveis e a curto e
longo-prazo.
RETRAIMENTO SOCIAL
Dada a evidência da importância fundamental das interações sociais,
principalmente no período da pré-adolescência e adolescência, o retraimento
social torna-se num aspeto que poderá ser preocupante a nível do
desenvolvimento e, como tal, com interesse e relevância para a investigação
(Cooley, 1902; Hartup, 1996; Verissímo & Santos, 2008). Apesar da sua
importância, este problema foi durante muito tempo negligenciado uma vez que se
manifesta através de um comportamento sem nenhuma exuberância. As crianças
socialmente isoladas podem ser percebidas como crianças que se entretêm
sozinhas, que são aparentemente calmas, sendo que estas características não
levantam qualquer preocupação, quer a pais, quer a professores, fazendo até com
que passem despercebidas (Rubin & Burgess, 2002; Rubin & Coplan, 2004).
Só a partir da década de 80 é que o conceito de retraimento social começou a
ser estudado e tem vindo a assumir uma importância cada vez maior na
investigação (Rubin & Coplan, 2004). Devido a este facto, muitos autores
falam do retraimento social utilizando diferentes terminologias, sem fazer
distinção entre elas, como sejam isolamento social, evitamento social, timidez
e inibição para se referirem ao mesmo conceito (Rubin & Coplan, 2004;
Coplan & Rubin, 2007). Sintetizando, o termo retraimento social passivo é
utilizado no contexto das relações de pares para se referir a uma retirada
passiva do sujeito do seu grupo de pares. Neste caso, o retraimento e o défice
de interação são o resultado de opções do próprio sujeito (Rubin & Coplan,
2004). Pode estar relacionado com comportamentos de timidez, hipersensibilidade
ou ansiedade, sendo um tipo de isolamento que se encontra associado a fatores
internos (Coplan & Rubin, 2007; Oh, Rubin, Bowker, Booth-LaForce, Rose-
Krasnor, & Laursen, 2008; Rubin & Mills, 1988; Rubin, Bukowsky, &
Parker, 2006).
Por outro lado, o isolamento social ativo ilustra o que sucede quando os
sujeitos se isolam do seu grupo de pares como consequência de comportamentos de
rejeição e de vitimização por parte dos outros. Neste caso, o sujeito não se
isola ele próprio mas é isolado pelo seu grupo de pares.
Os autores que têm estudado este tipo de retraimento consideram-no associado a
fatores externos tais como, a agressividade, a impulsividade ou a imaturidade a
nível social. Estas características, que desagradam ao grupo de pares, fazem
com que o mesmo se afaste do sujeito que exibe esses comportamentos (Rubin
& Mills, 1988; Rubin, Bukowsky, & Parker, 2006). Rubin e Coplan (2004)
descrevem este tipo de retraimento social como um défice de interação com os
outros, causado por fatores externos ao próprio sujeito.
Fox, Henderson, Marshall, Nichols e Ghera (2005) avançaram com a hipótese de
que o retraimento social poderá ser uma consequência da inibição comportamental
e que a retirada social poderá ser o fator promotor da rejeição de pares. Por
outro lado, a rejeição por parte dos pares poderá resultar no incremento do
comportamento de isolamento ou inibição, contribuindo para um movimento
cíclico. Índices de retraimento social nos primeiros anos parecem predizer a
continuação deste retraimento durante toda a infância (Hymel, Rubin, Rowden,
& LeMare, 1990).
Assim, o retraimento social pode ser o resultado de diferentes razões, pessoais
e interpessoais, entre as quais o medo, a ansiedade social, a agressividade e
até a preferência pela solidão (Rubin, Coplan, & Bowker, 2006). Rubin e
Coplan (2004) chegam mesmo a caracterizar o retraimento social como um
"chapéu de chuva", isto é, um termo que poderá incluir pelo menos
duas causas para as crianças se retraírem. Uma delas pode ser porque os jovens
se retraiam por medo ou ansiedade social, apesar do seu desejo de interação,
enquanto que outra pode ter a ver com o facto de os jovens preferirem estar
sozinhos (insociabilidade ou desinteresse social). O retraimento social,
juntamente com o comportamento agressivo, têm sido considerados como duas das
maiores formas de distúrbios na relação de pares e aquelas que são mais
estudadas (Rubin & Mills, 1988).
RETRAIMENTO SOCIAL EM FUNÇÃO DO SEX
O
Os estudos de Rubin, Bukowski e Parker (2006) mostram que os comportamentos
agressivos são mais aceitáveis nos rapazes do que nas raparigas enquanto que a
timidez é vista como mais admissível nas raparigas do que nos rapazes. Neste
sentido, importa realçar o facto de que os rapazes socialmente isolados
experienciam, a longo prazo, uma maior exclusão, quando comparados com as
raparigas, dada a menor aceitação deste comportamento nos rapazes. Há ainda
estudos que evidenciam que o retraimento social é um fator de maior risco e com
mais consequências negativas para os rapazes do que para as raparigas (Caspi,
Elder, & Bem, 1988; Morison & Masten, 1991). Coplan, Gavinski-Molina,
Lagacé-Séguin e Wichmann (2001) também verificaram que o retraimento social
está associado ao desajustamento social quer nas raparigas, quer nos rapazes,
embora nos rapazes o desajustamento fosse superior.
EFEITOS DO RETRAIMENTO SOCIAL
Alguns estudos reportaram a existência de uma associação estatisticamente
significativa entre o retraimento social, a depressão e a solidão (Gullone,
King, & Ollendick, 2006; Rubin & Mills, 1988). Hymel et al. (1990)
encontraram associações significativas entre os níveis de solidão e os índices
de retraimento social, mas não verificaram estas associações quando
relacionaram os níveis de solidão com o comportamento agressivo. Parkhurst e
Asher (1992) constataram, num estudo com uma população de adolescentes, que
aqueles que foram classificados como rejeitadossubmissos apresentavam níveis
elevados de solidão mas não mostravam níveis de elevada agressividade ou
disrupção. No entanto, os que foram considerados como rejeitados-agressivos
apresentavam elevados níveis de agressividade e baixos níveis de solidão. Hymel
et al. (1990) verificaram que as crianças que eram vistas pelos seus pares como
socialmente impopulares e sensíveis-isoladas (Sensitive-Isolated) também
apresentavam níveis de solidão mais elevados e avaliavam-se, a si próprias,
como socialmente incompetentes.
OBJETIVO PRINCIPAL DO ESTUDO
A presente investigação tem como objetivo central compreender melhor a
problemática do retraimento social em termos das suas consequências negativas
ligadas a problemas internalizados, como seja a solidão, fazendo a distinção
entre jovens retraídos socialmente e retraídos agressivos. A par deste
objetivo, também se considerou pertinente investigar se existiam e como se
manifestavam as diferenças de sexo, relativamente ao sentimento de solidão nos
adolescentes retraídos socialmente e retraídos agressivos.
METODOLOGIA
Participantes
A presente amostra é constituída por 900 jovens adolescentes (446 do sexo
feminino) com uma média de idades de 13 anos (M=12,95 anos; D.P.=1,61),
pertencentes ao 7º, 8º e 9º anos de escolaridade de duas escolas públicas da
área da grande Lisboa. A taxa de consentimento dos encarregados de educação e
dos próprios jovens foi superior a noventa por cento. Os dados relativos ao
nível sócio-cultural dos participantes indicam um nível de escolaridade médio,
em que a maioria dos pais possui o ensino secundário completo e poucos têm
frequência de curso universitário. Os sujeitos que participaram neste estudo
fazem parte de uma amostra de dimensão superior que se insere no âmbito de um
projeto financiado pela FCT (PTDC/PSIPDE/098257/2008).
Instrumentos
Extended Class Play (ECP).A avaliação do retraimento social foi feita através
da versão portuguesa do E.C.P. (Correia, Santos, Freitas, Rosado, & Rubin,
in press; Rubin, Wojslawowicz, Burgess, Rose-Krasnor, & Booth-LaForce,
2006). Este instrumento permite identificar a reputação social dos jovens em
cinco dimensões: Agressividade, com 7 itens para identificação de compor
tamentos agressivos (exemplo: "Perde o controlo ou exalta-se
facilmente"); Retirada Social/ /Timidezcom 4 itens que pretendem
distinguir os sujeitos que são activamente isolados/rejeitados daqueles que são
tímidos (exemplo: "Fala pouco, fala baixo"); Vitimização/
Exclusãocom 8 itens para identificar os adolescentes que são vitimizados e/ou
ativamente colocados de parte pelo grupo de pares (exemplo: "É
frequentemente ofendido/insultado"); Comportamentos Pró-Sociais/ /
Sociabilidade, com 6 itens que abordam os comportamentos pró-sociais (exemplo:
"Ajuda os outros quando eles precisam") e a Popularidade/
Sociabilidade, com 5 itens que caracterizam os adolescentes sociáveis e com
popularidade entre os colegas (exemplo: "Prefere estar com os outros do
que sozinho").
Este instrumento foi adaptado para Portugal e sujeito a uma Análise Fatorial
Confirmatória, tendo-se concluído que o modelo de seis fatores apresenta uma
boa qualidade de ajustamento global e local, bem como fiabilidade compósita e
validade fatorial (Correia, Santos, Freitas, Rosado, & Rubin, in press). Os
valores de alpha de Cronbachpara a presente amostra são todos elevados,
variando entre 0.79 e 0.83, o que indica uma elevada consistência interna para
todas as dimensões.
Neste instrumento é pedido aos adolescentes para imaginarem que são
realizadores de cinema e vão fazer um filme para o qual deverão escolher, entre
os seus colegas de turma, aqueles que melhor desempenhariam diversos papéis de
valência positiva e negativa. Para o efeito, é fornecida a cada sujeito uma
listagem de todos os seus colegas e clarificado que, apesar de só poderem
nomear um rapaz e uma rapariga para cada papel, a mesma pessoa pode ser
escolhida para mais do que um papel.
Apenas as nomeações entre sujeitos do mesmo sexo são consideradas, de modo a
evitar possíveis enviesamentos por estereótipos de sexo (Zeller et al., 2003).
Os valores obtidos para os itens são estandardizados para o sexo e turma
- para ajustar o número de nomeações recebidas ao número de nomeadores
- e depois somados para cada uma das 6 dimensões avaliadas
(agressividade, retirada social, comportamento pró-social, sociabilidade,
vitimização e exclusão).
Relational Provision Loneliness Questionnaire (RPQ).A avaliação do sentimento
de solidão foi feita através do R.P.Q. (Relational Provision Loneliness
Questionnaire) (Hayden, 1989; Terrell-Deutsch, 1999). Trata-se de um
questionário de auto-avaliação que mede o sentimento de solidão através da
exploração das relações com a família e com os pares, levando em consideração
dois aspetos da satisfação social (a integração no grupo e a intimidade
pessoal), vivenciados em dois contextos distintos (o grupo de pares e a
família). Foi desenvolvido com base na Teoria das Necessidades Sociais
(Terrell-Deutsch, 1999) e faz a distinção entre solidão emocional e solidão
social.
O questionário é constituído por 34 itens, respondidos numa escala de likertde
5 pontos (1=nunca; 5=sempre), que se repartem por 4 sub-escalas: a Integração
no grupo de pares(exemplo: "Sinto que faço parte de um grupo de amigos
que faz as coisas em conjunto"), Intimidade pessoal com pares(exemplo:
"Tenho alguém da minha idade que me compreende perfeitamente"),
Integração na Família(exemplo: "Sinto que as pessoas da minha família
querem estar comigo") e a Intimidade Pessoal na família(exemplo:
"Tenho alguém na minha família que se interessa verdadeiramente por me
ouvir falar dos meus sentimentos e pensamentos íntimos"). O instrumento
foi adaptado para Portugal e sujeito a uma Análise Fatorial Confirmatória,
tendo-se concluído que o modelo de 4 fatores apresenta uma boa qualidade de
ajustamento global e local, bem como fiabilidade compósita e validade
fatorial.Para a presente amostra os alfas de Cronbachobtidos foram: Integração
com os Pares=0.86, Intimidade com os Pares=0.88 Integração com a Família=0.90,
Intimidade com a Família=0.91.
RESULTADOS
Classificação dos adolescentes retraídos e agressivos
Identificaram-se os adolescentes que foram incluídos no Grupo Isolados-
Retraídos, no Grupo Isolados-Agressivos e no Grupo de Controlo com base nas
nomeações obtidas com o ECP, seguindo o procedimento e critérios anteriormente
utilizados na literatura (Burgess, Wojslawowicz, Rubin, Rose-Krasnor, &
Booth-LaForce, 2006; Ladd & Burgess, 1999). Os adolescentes Isolados-
Retraídos foram aqueles que obtiveram valores situados nos 33% superiores da
dimensão Timidez/Retirada Social e com os valores na dimensão Agressividade
abaixo da mediana. O grupo de adolescentes Isolados-Agressivos foi selecionado
através dos valores situados nos 33% superiores da dimensão Timidez/Retirada
Social e da Agressividade, que corresponde aproximadamente a um desvio-padrão
acima da média. O grupo de controlo foi composto por adolescentes cujos valores
de Agressividade e Timidez/Retirada se encontram ambos abaixo das respetivas
medianas. Da amostra inicial de 900 sujeitos foi possível retirar 180
adolescentes com perfil de Isolados-Retraídos, 104 com o perfil de Isolados-
Agressivos e um grupo de controlo de 149 adolescentes, ficando a amostra
reduzida a 433 participantes. No total, 50,6% são do sexo feminino.
Integração no Grupo de Pares
Para comparar mais do que uma variável dependente e controlar de forma mais
eficaz os erros de tipo I e tipo II optou-se por realizar uma MANOVA. Os
resultados da análise multivariada 3 (grupo) x 2 (sexo) revelaram efeitos
principais multivariados para o sexo [F(4,424)=14.65, p<.001, λde Wilk=.88,
ε2parcial=0.12] e para o grupo [F(8,848)=2.38, p<.02, λ de Wilk=.96,
ε2parcial=0.02], assim como um efeito de interação sexo*grupo [F(8,848)=2.52,
p<.02, λde Wilk=.95, ε2parcial=0.02].
Estes resultados (ver Figura_1) evidenciam a existência de diferenças
significativas na integração com o grupo de pares em função do fator grupo [F
(2,427)=5.56, p<.005, ε2parcial=0.03] e o teste post-hoc de TukeyHSD revelou
que os jovens do grupo de controlo possuem níveis significa tivamente
superiores de integração (p<.005) por comparação com o grupo de isolados-
retraídos.
Intimidade Pessoal com os Pares
Relativamente à dimensão 'intimidade pessoal com os pares', em
função do fator grupo, também se verificou (ver Figura_2) um efeito
significativo [F(2,427)=5.58, p<.005, ε2parcial=0.03] e o teste post-hoc de
TukeyHSD mostrou níveis significativamente inferiores de intimidade com os
pares (p<.005) nos jovens isolados-retraídos por comparação com os do grupo de
controlo. Quanto aos efeitos do fator sexo, verificou-se que as raparigas se
consideram significativamente mais íntimas com os seus pares do que os rapazes
[F(1,427)=24.32, p<.005, ε2parcial=0.05].
Integração na Família
Os resultados apontam para um efeito significativo para a interação Grupo*Sexo
[F(2,427)=5.76, p<.005, ε2parcial=0.03]. Constatou-se ainda que as raparigas se
consideram significativamente menos integradas na família do que os rapazes [F
(1,427)=5.85, p<.02, ε2parcial=0.01]. Contudo, dada a existência de um efeito
de interação Sexo*Grupo para esta variável, foram realizadas análises
univariadas separadamente para cada um dos níveis do Grupo. Estas análises
apenas revelaram um efeito principal simples do Sexo para o grupo dos jovens
isolados/agressivos, com as raparigas a apresentarem valores significativamente
inferiores aos dos rapazes na dimensão 'integração na família' [F
(1,102)=11.02, p<.005, ε2parcial=0.10].
Intimidade com a Família
Finalmente, ao nível da intimidade com a família (ver Figura_4), constatou-se
uma tendência de resposta que aponta para valores mais altos de intimidade com
a família nos rapazes [F(1,427)=2.99, p<.06, ε2parcial=0.01] do que nas
raparigas.
DISCUSSÃO
As relações entre pares têm-se constituído como fundamentais no desenvolvimento
de crianças e jovens, assumindo um papel de relevo, não só no domínio social
mas também afetivo e cognitivo (Hartup, 1996; Verissímo & Santos, 2008).
Podem ser promotoras, ou não, de um desenvolvimento harmonioso e têm sido
apontadas como preditoras de ajustamento social e psicológico (Rubin &
Mills, 1988). As interações sociais assumem uma importância fundamental no
desenvolvimento, principalmente no período da pré-adolescência e adolescência,
tornando-se o isolamento social num aspeto que poderá ser passível de risco e,
portanto, com interesse e relevância para a investigação (Cooley, 1902; Hartup,
1996; Verissímo & Santos, 2008).
Sumarizando os resultados obtidos, é de realçar que os adolescentes isolados-
retraídos foram aqueles que obtiveram valores mais baixos na integração e na
intimidade com os pares, o que é indicador de um maior sentimento de solidão.
Estes resultados são concordantes com os obtidos por outros investigadores
(Hymel et al., 1990; Rubin & Mills, 1988; Rubin, Hymel, & Mills, 1989)
que também encontraram uma associação entre o retraimento social e problemas de
internalização, nomeadamente, o sentimento de solidão. Hymel et al. (1990), no
entanto, não verificaram estas associações quando relacionaram os níveis de
solidão com o comportamento agressivo.
Por outro lado, e considerando o sentimento de integração na família, também
foram as raparigas com perfil isolado-agressivo que mostraram sentir-se menos
integradas na sua família, comparativamente com as que tinham um perfil
isolado-retraído. Estes resultados podem ser compreendidos através dos
resultados obtidos noutras investigações. Existe investigação que revela que o
retraimento social é mais aceitável nas raparigas do que nos rapazes (Rubin,
Coplan, & Bowker, 2009). Existem também evidências que apontam para o facto
do retraimento social nos rapazes resultar em níveis de maior desajustamento do
que no caso das raparigas (Coplan et al., 2001). Os estudos de Caspi, Elder e
Bem (1988) e de Morison e Masten (1991) também indicam que os rapazes retraídos
sofrem de maiores consequências negativas do que as raparigas, que se traduzem
em dificuldades ligadas a perturbações internalizadas, concretamente no
sentimento de solidão. Caspi, Elder e Bem (1988) vão mais além e avaliam as
consequências a longo prazo, do comportamento tímido, continuando a verificar-
se maiores consequências nos rapazes tímidos, que acabam por iniciar relações
românticas, ter filhos e estabelecer carreiras mais tarde, quando comparados
com os rapazes do grupo de controlo. Já entre as raparigas tímidas e não-
tímidas estas diferenças não se verificaram.
Concomitantemente a estes aspetos, os trabalhos de Rubin, Bukowski e Parker
(2006) também contribuem para compreender os resultados presentes, ao
demonstrarem que a agressividade é um comportamento mais aceitável nos rapazes
do que nas raparigas. No seu conjunto, todas estas investigações são
consistentes com os nossos resultados, que apontam para o facto dos rapazes com
perfil isolado-agressivo se sentirem mais integrados na sua família do que os
que têm um perfil isolado-retraído.
Resta ainda considerar as diferenças obtidas na dimensão da intimidade com os
pares em função do sexo. As raparigas, de todos os grupos (retraídos,
agressivos e controlo), obtiveram valores na intimidade com os seus pares
significativamente superiores aos dos rapazes. Estas diferenças podem ser
compreendidas pelo que já foi dito anteriormente, relativamente ao facto de os
rapazes sofrerem mais consequências negativas, quando são socialmente
retraídos. Podem também estar relacionadas com o facto das raparigas, regra
geral, cultivarem mais as relações a um nível íntimo, em díades ou tríades,
enquanto os rapazes se organizam em grupos maiores, interagindo entre si nesses
grandes grupos, não sendo tão usual privarem em díades ou tríades (Rose &
Smith, 2009). Salientamos o facto de serem os adolescentes com perfil isolado-
retraído a apresentarem os valores mais baixos na dimensão intimidade com os
pares.
É ainda importante destacar que os jovens identificados como isolados-
agressivos apresentam níveis de Intimidade com Pares e Integração de Pares mais
elevados que os isolados-retraídos e que não diferem significativamente do
grupo de controlo. Este resultado parece apontar para o facto dos adolescentes
isolados-agressivos se sentirem mais incluídos socialmente (no grupo de pares e
na família) e, portanto, menos solitários, quando comparados com os
adolescentes isoladosretraídos.
De um modo geral, os nossos resultados vão ao encontro do descrito na revisão
de literatura, sugerindo que o retraimento passivo tem como consequência mais
provável a internalização de problemas, como a depressão (Rubin & Mills,
1988). Já o isolamento ativo, associado a comportamentos de agressividade e
impulsividade (Rubin & Mills, 1988; Rubin, Bukowski, & Parker, 2006),
poderá ter outras consequências. Em estudos futuros, é necessário desenvolver
planos longitudinais que permitam uma melhor clarificação e compreensão da
dimensão dos efeitos do retraimento social, não só a curto prazo como também a
médio e longo prazo.