Preditores da dependência nicotínica e do comportamento planeado para deixar de
fumar
Preditores da dependência nicotínica e do comportamento planeado para deixar de
fumar
Fernanda Afonso*e M. Graça Pereira*
*Escola de Psicologia, Universidade do Minho
Correspondência
ABSTRACT
This study analyzed the predictors of smoking dependence and study how tobacco
representations contribute to socio-cognitives variables in smoking cessation.
Participated in the study 224 smokers. Being younger, male, having a
respiratory disease, smoke more cigarettes per day, having a partner who
smokes, having less mental quality of life and more psychological morbidity
were predictors of higher nicotine dependence. On the other hand, the variables
that predicted intention were being older, less comprehensibility towards
smoking, more threatening emotional representations and having a nonsmoker
partner; attitudes towards behavior were predicted by less comprehensibility
towards smoking, more threatening cognitive representations and having a non-
smoker partner; being older, more threatening emotional and cognitive
representations and having a non-smoker partner predicted behavioral beliefs;
more threatening emotional representations and having a non-smoker partner
predicted subjective norms; less threatening cognitive representations and
having a non-smoker partner predicted perceived behavioral control; being
older, having a non-smoker partner, more threatening emotional representations
predicted normative/control beliefs. More threatening emotional and cognitive
representations and being male predicted coping/action planning. This study
emphasizes the importance of tobacco representations in quit smoking programs.
Key-words: Nicotine dependence, Theory of planned behavior, Tobacco
representations.
INTRODUÇÃO
O consumo de tabaco tem sido apontado como uma das principais causas de morte a
nível mundial (Ferreira-Borges & Filho, 2004). Os cigarros são elaborados
de forma a criar, e manter, uma dependência física entre os fumadores
(Henningfield et al., 2004 e como consequência, o tabagismo transforma-se num
comportamento viciante e não uma "escolha de estilo de vida"
(Fagerström & Balfour, 2006; Henningfield & Fant, 1999). O
comportamento tabágico é bem aceite, e é percebido, pela grande maioria dos
fumadores como um comportamento normal e inofensivo e com consequências para a
saúde, apenas, a longo prazo (Martinet & Bohadana, 2003). Fumar está
associado ao desenvolvimento de várias doenças crónicas, com consequências
graves para a saúde do indivíduo, contribuindo para uma pior qualidade de vida
(Efstratiadis, Kennard, Kelsey, & Michaels, 2008).
As representações associadas ao tabagismo têm um papel importante no
comportamento tabágico pois muitos fumadores não reconhecem ter um problema de
saúde, minimizando a importância da sua dependência, recusando a sua própria
vulnerabilidade ou evocando exemplos de pessoas conhecidas que adoeceram sem
nunca terem fumado (representações desajustadas acerca do problema) (Martinet
& Bohadana, 2003; Trigo, 2005). Afonso (2008) verificou, junto de
fumadores, mais representações negativas face às consequências do comportamento
tabágico, i.e., os fumadores continuavam a fumar, mesmo apresentando uma
perceção negativa das consequências e dos riscos associados a fumar. Trigo
(2005) refere um aspeto cognitivo designado de "duplo nó
psicológico", que se verifica em fumadores regulares, em que a
gratificação imediata pelo uso do cigarro é confrontada pela "escolha de
um prazer que provoca dependência mortal". Assim, apesar de o uso do
cigarro oferecer sensações de prazer e bem-estar, por outro lado existe a noção
dos seus malefícios reais.
Ter um parceiro que fuma pode levar a que o outro membro do casal também fume
ou deixar de fumar ao mesmo tempo que o outro (Park, Tudiver, Schultz, &
Campbell, 2004). Este facto pode ser considerado um risco acrescido para
continuar a fumar e falhar em tentativas para deixar de fumar. Assim, o apoio
do parceiro apresenta-se como fator importante no início da cessação tabágica,
bem como na sua manutenção, sendo um dos melhores preditores da abstinência
tabágica (Lawhon, Humfleet, Hall, Reus, & Muñoz, 2009). O ajustamento da
familiar vai depender das capacidades que a família tem em usar determinados
estratégias que o seu equilíbrio não seja afetado.
A qualidade de vida, física e mental, aparece relacionada com o tabaco no
sentido de quem consome mais tabaco, e apresente dependências da nicotina,
apresenta uma pior qualidade de vida quando comparado com indivíduos que não
fumam (Sarna, Bialous, Cooley, Jun, & Feskanich, 2008). Por sua vez,
fumadores com sintomas depressivos fumam para aliviar os seus sintomas
(Rondina, Botelho, & Gorayeb 2002) sendo a morbilidade psicológica um
preditor do consumo tabágico (Patton et al., 1996).
As variáveis sócio-cognitivas abordadas neste estudo estão incluídas na Teoria
do Comportamento Planeado (TCP) (Ajzen, 1985) em que os seus construtos (normas
subjetivas, atitudes e controlo comportamental percebido) têm na sua base
crenças acerca de um dado comportamento e a intenção de realizar esse mesmo
comportamento resulta das crenças que o indivíduo possui (Ajzen, 1991). As
crenças são um elemento central na TCP e são consideradas bases sólidas a nível
cognitivo e afetivo para a construção das atitudes, normas subjetivas e
controlo comportamental percebido. A TCP considera que o comportamento humano é
influenciado por três tipos de crenças: crenças comportamentais, crenças
normativas e crenças de controlo (Ajzen, 2002). Deste modo, pode-se dizer que
quanto mais favoráveis forem as atitudes e as normas subjetivas em relação a um
comportamento, e quanto maior for a perceção de controlo desse comportamento,
mais forte será a intenção da pessoa para realizar esse comportamento (Ajzen,
1991). Além destes construtos o determinante proximal mais relevante para o
comportamento é a intenção, que resulta da combinação das medidas objetivas:
atitudes face ao comportamento, normas subjetivas e controlo percebido. Por sua
vez, as atitudes mais fortes, por oposição às fracas, têm uma maior
probabilidade de predizer as intenções (Fila & Smith, 2006). Contudo,
segundo a TCP o controlo percebido pode ter um efeito direto no comportamento
sem necessidade da mediação das intenções, assumindo um papel mais determinante
na mudança comportamental (Fila & Smith, 2006; Ogden, 2004). Pelo
contrário, os indivíduos que crêem não ter recursos ou oportunidades para
realizar um determinado comportamento têm menor probabilidade de formar
intenções independentemente de manterem atitudes favoráveis e acreditarem que
os outros significativos aprovariam a realização desse comportamento. No caso
de um fumador decidir deixar de fumar e considerar esse comportamento como
muito benéfico para a sua saúde (atitude) e a família apoiar esta decisão como
sendo muito adequada disponibilizando-se para ajudar (norma subjetiva) pode, no
entanto, verificar-se uma fraca perceção, por parte do fumador, da sua
competência para o conseguir realizar porque a cessação tabágica implica
mudanças no seus hábitos (perceção de controlo do comportamento). Por este
motivo o fumador poderá apresentar uma fraca intenção para deixar de fumar. O
planeamento,considerado como uma variável bastante relevante no processo de
mudança de comportamentos, surge para que haja uma "ponte" entre as
intenções e a realização do comportamento (Sniehotta, Schwarzer, Sholz, &
Schüz, 2005). O planeamento da ação refere-se a colocar em prática estratégias
para a mudança; enquanto o planeamento do copingse refere à antecipação dos
fatores envolvidos na mudança (Sniehotta et al., 2005). Assim, após o indivíduo
ter a intenção para a mudança, que se caracteriza por um estádio motivacional,
passará a um estado de ação/volição onde se encontram processos relacionados
com o planeamento de copinge ação. É possível que alguns projetos pessoais
considerados como difíceis de concretizar, e.g., deixar de fumar, possam
beneficiar de uma organização de estratégias de coping (coping planning) e
protejam o indivíduo na implementação das suas intenções (action planning) (Van
Osch, Lechner, Reubsaet, Wigger, & de Vries, 2008).
Quanto ao poder preditivo, a TCP tem sido aplicada a diversos comportamentos,
relacionados com a saúde, entre os quais, a cessação tabágica (Côté, Godin
& Gagué, 2004; Moan & Rise, 2005) e o consumo de tabaco (Hill,
Boudreau, Amyot, Déry, & Godin, 1997). Num estudo efetuado por Armitage e
Conner (2001), em que participaram fumadores em fase de cessação tabágica,
verificou-se que os fumadores pensavam no que teriam que fazer para o conseguir
(atitudes face ao comportamento), estando conscientes de quem aprovaria, ou não
a sua decisão (normas subjetivas). Trafimow et al. (2004) e French et al.
(2005) evidenciaram a importância de questões de índole afetiva face a questões
de índole cognitiva no que respeita à intenção para deixar de fumar. Estes
investigadores verificaram que quando se trata de aumentar a motivação para
deixar de fumar pode ser importante para o indivíduo concentrar-se mais nos
aspetos afetivos (motivação para deixar de fumar), em vez de se concentrar
apenas nos aspetos relacionados com as consequências/benefícios em deixar de
fumar. Um estudo de Rise, Kovac, Kraft e Moan (2008) avaliou a adequação da TCP
no que diz respeito aos preditores envolvidos na intenção da cessação tabágica,
bem como o poder preditivo em relação ao número de cigarros consumidos, planos
de ação, comportamentos passados e a interação entre a intenção e outros
preditores. Foram avaliados, longitudinalmente, 103 estudantes universitários
fumadores. Os resultados mostraram que as atitudes e normas evidenciaram-se
como os melhores preditores na intenção da cessação tabágica. Também se
verificou uma correlação significativa entre o controlo percebido e a intenção
em deixar de fumar. Este estudo ressaltou a importância das atitudes e normas
subjetivas como importantes na motivação para deixar de fumar, bem como no
papel dos componentes de autorregulação nos comportamentos aditivos. Hagimoto,
Nakamura, Morita, Masui e Oshima (2010) elaboraram um estudo com o objetivo de
analisar a percentagem de japoneses, numa amostra constituída por 1358
fumadores adultos, que efetuaram tentativas bem-sucedidas para deixar de fumar
no período de 1 ano, bem como identificar os preditores envolvidos na cessação
tabágica. Os resultados evidenciaram que 23% dos indivíduos revelaram, pelo
menos, uma tentativa para deixar de fumar no último ano; dos que efetuaram
tentativas, 25.6% conseguiram estar em abstinência 1 semana, e 13.5% referem
ter estado 6 meses em abstinência. Os preditores associados ao sucesso das
tentativas para deixar de fumar foram: ser fumador não diário, ter motivação
elevada para deixar de fumar e ter efetuado tentativas prévias para deixar de
fumar. Uma alta dependência à nicotina apresentava-se como um mau preditor da
abstinência.
A literatura mostra-nos uma relação da TCP com as intervenções na cessação
tabágica cujas se concentram em vários processos autorregulatórios,
nomeadamente, em reforçar, ou alterar, a motivação dos fumadores. Deixar de
fumar pode ser considerado um comportamento planeado dado que o processo está
relacionado com uma decisão racional e com a implementação de processos
autorregulatórios (Kovac, Rise, & Moan, 2010). De acordo com a TCP (Ajzen,
1991), o determinante mais relevante na mudança de comportamento do indivíduo é
a intenção. A intenção relaciona-se com a motivação para atingir o
comportamento e é determinada por três construtos: atitudes (positivas ou
negativas) face ao comportamento; normas subjetivas (quem aprova ou desaprova);
perceção do controlo (perceção se o comportamento é exequível ou não). No
entanto, é frequente os indivíduos falharem as suas intenções porque a
motivação pode não ser suficiente para assegurar determinado comportamento, em
especial se este for complexo (Sheeran, Milne, Webb, & Gollwitzer, 2005), e
se nos referirmos a comportamentos aditivos, tais como deixar de fumar, muitas
tentativas resultam em fracasso (Piasecki, Fiore, McCarthy, & Baker, 2002).
Assim, dada a gravidade do consumo de tabaco ao nível da saúde, é importante
promover a cessação tabágica. Deixar de fumar é um processo complexo, que pode
ser precedido por várias tentativas, acompanhadas de avanços e retrocessos
(DiClemente, Prochaska, & Gibertini, 1985). No processo da desabituação
tabágica o conhecimento dos fatores psicológicos associados ao consumo tabágico
são importantes para intervir junto do fumador (Echer, 2006) e assim proceder a
um planeamento bem estruturado para que a cessação tabágica seja bem-sucedida.
A TCP aqui apresentada, bem como o instrumento que é utilizado (Questionário do
Comportamento Planeado para Deixar de Fumar (QCP-DF) surge como uma tentativa
útil na avaliação dos preditores envolvidos na mudança do comportamento
tabágico.
Desta forma o presente trabalho teve por objetivo conhecer quais os preditores
da dependência tabágica e analisar de que modo as representações do tabaco
contribuem para as variáveis sócio
cognitivas para deixar de fumar.
MÉTODO
Procedimento
Os participantes foram recolhidos num hospital central, numa empresa privada e
numa universidade do Norte de Portugal. Em cada local foram apresentados os
objetivos do estudo. A participação foi voluntária sendo o consentimento
precedido de informação sobre o âmbito e finalidade do estudo. O preenchimento
dos instrumentos efetuou-se num momento único. Os critérios de inclusão para a
amostra foram: ser maior de 18 anos e ser fumador diário.
Participantes
Para este estudo foram selecionados 224 fumadores diários (52.7% sexo
masculino, 47.3% sexo feminino). Da amostra 52.7% eram do sexo masculino, 47.3%
do sexo feminino, a idade variou entre os 18 e 58 anos com uma média de 28.58
(D.P.=8.69). 49.1% eram solteiros, 61.6% tinham o 12º ano de escolaridade e
54.5% provinha de meio urbano. No que diz respeito às variáveis clínicas 78.1%
apresentou uma dependência leve (Teste de Dependência de Fagerström), 76.8%
fumava há mais de 3 anos, com um consumo diário entre 0-10 cigarros (77.2%) e a
idade mais frequente para começar a fumar situou-se entre 14 e os 18 anos.
37.9% dos fumadores nunca efetuou qualquer tentativa para deixar de fumar e
21.9% efetuou, pelo menos, 1 tentativa para deixar de fumar mas sem sucesso,
sendo que o tempo máximo de abstinência foi de 6 meses a 1 anos (22.3%). Dos
inquiridos apenas 1.3% efetuou tratamento com TSN (terapias substituintes de
nicotina). De referir que 94.7% não referiu doenças relacionadas com o tabaco e
56.7% dos fumadores tinha um parceiro/a que não fumava.
Instrumentos
Questionário Sociodemográfico(Pereira & Afonso, 2009) teve o objetivo de
recolher informações para caracterizar os sujeitos da amostra ao nível
demográfico e clínico: estado civil, sexo, habilitações literárias, tipo e
quantidade de cigarros consumidos, tentativas para deixar de fumar.
Brief Illness Perception Questionnaire (Brief-IPQ)(Broadbent, Petrie, Main,
& Weinman, 2006; versão portuguesa de Figueiras et al., 2010). Este
instrumento é constituído por nove itens que permitem avaliar as representações
emocionais e cognitivas da doença. O B-IPQ utiliza uma escala likert em que
todos os itens, com exceção da questão 9, relativa à Causa, são respondidos
numa escala de 0 a 10. Os itens organizam-se em: Consequências(item 1), Duração
(item 2), Controlo Pessoal(item 3), Controlo do Tratamento(item 4) Identidade
(item 5), Preocupação(item 6), Compreensão(item 7), Resposta Emocional(item 8)
e Causas da doença (item 9). Segundo os autores originais cinco dos itens
avaliam as Representações Cognitivas de doença (Consequências, Duração,
Controlo Pessoal, Controlo do Tratamentoe Identidade); dois dos itens avaliam
as Representações Emocionais (Preocupaçãoe Emoções) e um item avalia a
Compreensão da doença. Ao nível da fidelidade foram elaborados estudos de
coeficientes de correlação. De referir que no questionário se substituiu o
termo "doença" por "consumo tabágico" para efeitos da
investigação. Os itens 3, 4 e 7 são invertidos. Um valor elevado em cada item
representa maior intensidade no tipo de crença avaliada.
Questionário do Comportamento Planeado para Deixar de Fumar (QCP-DF)(Ajzen,
2002; Versão de Investigação de Pereira & Afonso, submetido). Este
questionário foi desenvolvido para os objectivos do presente estudo com base
nas diretrizes propostas por Ajzen (2002) e por Francis et al. (2004) para a
elaboração de questionários sob a orientação teórica da TCP. A versão adaptada
é constituída por 7 subescalas que se organizam em: Planeamento do Coping e
Ação (9 itens: 11a, 11b, 11c, 11d, 12a, 12b, 12c, 12d e 12e) com um valor de
alfa de .91 (esta subescala constitui-se pelos itens que, originalmente,
caracterizavam o Planeamento do Coping e o Planeamento da Ação); Crenças de
Comportamento (6 itens: 4a, 4b, 4c, 4d, 5a, 5b, 5c e 5d) com um alfa de .87
(foram retirados 2 itens, 4e e 5e, dado o seu índice de saturação estar abaixo
de .30); Atitudes face ao Comportamento (4 itens: 3a, 3b, 3c e 3d) com um valor
de alfa de .91; Controlo Comportamental Percebido (5 itens: 8a, 8b, 8c e 8d)
com um valor de alfa de .81, Normas Subjetivas (4 itens: 6a, 6c, 6d e 6e) com
um valor de alfa de .68; Crenças Normativas/Controlo (7 itens: 7c, 9b, 9c, 9d,
10a, 10b e 10c) com um valor de alfa de .75 (foram retirados 4 itens, 7a, 7b,
9a e 10d dado o seu índice de saturação estar abaixo de .30) e Intenção (1
item: item 2) (Pereira & Afonso, submetido). Um resultado elevado no
questionário indica mais intenção, mais planeamento do coping/ação, mais
crenças de comportamento, mais atitudes face ao comportamento, mais normas
subjetivas, mais crenças normativas/controlo e mais controlo comportamental
percebido.
Teste de Dependência da Nicotina de Fagerström(Heatherton, Kozlowski, Frecker,
& Fagerstrom, 1991; Versão Portuguesa de Ferreira, Quintal, Lopes, &
Taveira, 2009). Para o presente estudo foi utilizada a versão de 6 itens com
vista a avaliar o grau presente de dependência de nicotina nos fumadores. O
valor de alfa, na nossa amostra foi de .62 e em estudos anteriores, outros
investigadores encontraram valores entre .50 e .70. Os autores da versão
original não apresentaram alfa. Apesar do valor do alfa ser baixo optou-se por
manter esta variável no teste de hipóteses dado este instrumento ser o mais
citado na literatura na avaliação da dependência nicotínica e o valor de alfa
encontrado ser semelhante a outros estudos em que foi validado noutras
amostras. Um resultado elevado indica maior dependência tabágica.
Análise de dados
Com o objetivo de averiguar os preditores da dependência da nicotina bem como
os preditores do Comportamento Planeado para Deixar de Fumar, foram efetuadas
regressões lineares hierárquicas (método enter).
RESULTADOS
Preditores de dependência da nicotina
Os resultados mostraram que, ao nível das variáveis socio-demográficas, ter
menos idade, ser do sexo masculino, ter doença respiratória, fumar mais
cigarros por dia e ter um parceiro que fuma foram preditores da dependência
tabágica. Ao nível das variáveis psicológicas destacaram-se ter menos qualidade
de vida mental e mais morbilidade psicológica (Quadro_1).
Preditores do comportamento planeado para deixar de fumar
Ter mais idade, menor compreensão, representações emocionais mais ameaçadoras e
parceiro não fumar revelaram-se preditores da intenção. Por sua vez, menor
compreensão, representações cognitivas mais ameaçadoras e parceiro não fumar
previram as atitudes face ao comportamento deixar de fumar. Mais idade,
representações emocionais e cognitivas mais ameaçadoras e parceiro não fumar
previram as crenças de comportamento em relação a deixar de fumar. As
representações emocionais mais ameaçadoras e o parceiro não fumar previram as
normas subjetivas. As representações cognitivas menos ameaçadoras e parceiro
não fumar previram o controlo comportamental percebido. Mais idade, parceiro
não fumar e representações emocionais mais ameaçadoras previram as crenças
normativas/controlo. Finalmente, as representações emocionais e cognitivas mais
ameaçadoras, bem como ser do sexo masculino,foram os preditores do planeamento
do coping/ação (Quadro_2).
DISCUSSÃO
No que respeita aos preditores do consumo do tabaco, os resultados mostraram
que ter menos idade, ser do sexo masculino, ter doença respiratória, fumar mais
cigarros por dia e ter um parceiro que fuma são preditores da dependência
tabágica. Ao nível das variáveis psicológicas destacamse ter menos qualidade de
vida mental e mais morbilidade psicológica.
A literatura mostra que a idade é um preditor importante do consumo de tabaco
pois quando se começa a fumar em idades precoces pode haver uma maior evolução
para a dependência em idades mais tardias (Groman & Fagerstrom, 2003).
Assim, começar a fumar mais cedo pode ser preditor de mais dependência tabágica
em idades posteriores. Estudos revelam que dos 75% dos adolescentes que
experimentam o tabaco, cerca de 60% têm forte probabilidade de evoluir para um
consumo diário, e 20 a 30% tornam-se dependentes, tornando assim a cessação
tabágica mais difícil (Center for Disease Control and Prevention, CDCP, 2000).
Ser do sexo masculino mostra ser um preditor de maior dependência tabágica o
que vai ao encontro da literatura (Hyland et al., 2004). Ter um parceiro que
fuma, pode predizer mais dependência tabágica, i.e., pessoas que fumam tendem a
casar-se com fumadores, fumar o equivalente ao cônjuge e mesmo deixar de fumar
ao mesmo tempo que o outro (Park et al., 2004). Assim, ter um parceiro que fuma
é um risco acrescido para continuar a fumar e falhar em tentativas para deixar
de fumar (Homish & Leonard, 2005), i.e., o parceiro fumar pode não
providenciar o apoio necessário para deixar de fumar (Coppoteli & Orleans,
1985). Caponnetto e Polosa (2008) também identificaram alguns preditores da
dependência tabágica: ser do sexo masculino, mais idade e viver em conjunto,
trabalhar/viver com fumadores e existência de comorbilidade psicológica/
psiquiátrica (depressão, ansiedade). Ao nível das variáveis psicológicas
individuais destacaram-se menos qualidade de vida mental e mais morbilidade
psicológica. No que se refere à qualidade de vida mental, os resultados vão ao
encontro da literatura indicando que os fumadores com mais sintomas
relacionados com a morbilidade psicológica (e.g., mais stresspsicológico ou
ansiedade) tendem a ser mais dependentes da nicotina, consumindo mais tabaco e
como tal apresentam uma pior qualidade de vida quando comparados com fumadores
da população geral (Salin-Pascual, Alcocer-Castillejos, & Alejo-Galarza,
2003). A literatura evidencia, também, que à medida que aumenta a duração do
consumo, os níveis de dependência e a saúde mental agravam-se (Salin-Pascual et
al., 2003). Também se verifica neste estudo que mais morbilidade psicológica é
preditora de mais dependência nicotínica. Estes resultados vão ao encontro da
literatura que refere e existência de comorbilidade associada ao consumo
tabágico evidenciando que fumadores com sintomas depressivos podem fumar para
aliviar os seus sintomas (Rondina et al., 2002). Patton et al. (1996)
encontraram na depressão um preditor para o consumo de tabaco juntamente com a
ansiedade. Segundo Ismail, Sloggett, e Stavola (2000), indivíduos com mais
morbilidade psicológica têm mais baixa autoestima, são pessimistas e tornam-se
negligentes relativamente à sua saúde, adotando comportamentos de risco, como é
o caso de fumar.
Em relação aos preditores sociodemográficos das variáveis sócio-cognitivas para
deixar de fumar, ter mais idade foi preditor de mais intenção, mais crenças
normativas/controlo e mais crenças de comportamento. Assim, ser mais velho
pressupões ter uma perceção do que os outros consideram que fumar é prejudicial
e que deixar de fumar era o mais adequado (Ajzen, 2002). Ser do sexo masculino
foi preditor de mais planeamento do coping/ação indicando que seriam os homens
que estariam a planear deixar de fumar. Também se verificou que ter um parceiro
não fumador foi preditor de mais intenção para deixar de fumar, mais atitudes,
mais crenças de comportamento, mais normas subjetivas, mais controlo
comportamental percebido e mais crenças normativas/controlo. De acordo com a
literatura a presença de um parceiro não fumador pode ser uma fonte de
motivação e incentivo para o fumador deixar de fumar (Thomas et al., 2009). O
apoio do parceiro apresenta-se como fator importante na mudança do
comportamento tabágico sendo um dos melhores preditores da abstinência tabágica
(Lawhon et al., 2009). A literatura mostra que, se este parceiro for fumador
pode indicar mais dependência tabágica e mais dificuldade na cessação tabágica,
logo o contrário é congruente com os nossos resultados (Homish & Leonard,
2005; Park et al., 2004). Assim, podemos considerar que ter um parceiro que não
fuma se revelou como importante no comportamento planeado para deixar de fumar.
Em relação às representações face ao tabaco, os preditores da intenção foram:
menos compreensão face ao consumo do tabaco e representações emocionais mais
ameaçadoras. Estes resultados indicam que os fumadores mesmo compreendendo
menos porque fumam revelam estar preocupados e afetados por fumarem. Estes
resultados podem indicar que os fumadores, mesmo que não compreendam porque
fumam, ou o que está relacionado com o seu hábito de fumar, sentem-se
incomodados por fumarem e como tal podem apresentar intenção para deixar de
fumar (Afonso, 2008).
Em relação às atitudes, os preditores foram ter menos compreensão e
representações cognitivas do tabaco mais ameaçadoras. Segundo a literatura, as
atitudes mais fortes têm uma maior probabilidade de predizer a mudança (Fila
& Smith, 2006) podendo indicar que os fumadores, na nossa amostra,
apresentaram atitudes mais fortes para deixar de fumar, i.e., mesmo não
compreendendo porque fumavam, os fumadores tinham a perceção da ameaça do
consumo tabágico para a sua saúde, podendo ser um incentivo à atitude de
mudança de comportamento. No que respeita aos preditores das crenças de
comportamento destacam-se as representações emocionais e cognitivas mais
ameaçadoras. Estes resultados indicam que os fumadores consideraram que tinham
menos controlo pessoal sobre fumar, que o tratamento para deixar de fumar não
era eficaz, apresentavam sintomas relacionados com o consumo do tabaco,
sentiam-se preocupados e mais afetados emocionalmente com o facto de fumarem. A
literatura mostra que as crenças comportamentais referem-se aos resultados
prováveis da realização de determinado comportamento (Ajzen, 2002). Assim,
pelas representações apresentadas, os fumadores da nossa amostra podem estar
mais motivados para deixar de fumar.
Os preditores das normas subjetivas foram ter representações emocionais do
tabaco mais ameaçadoras. Segundo a literatura, as normas subjetivas espelham a
perceção da pressão/influência que os indivíduos podem sentir para executar o
comportamento (e.g. a minha família pensa que eu devo/não devo deixar de fumar)
(Ajzen, 1991). Assim, se os fumadores do nosso estudo estiverem mais
preocupados porque fumam e se sentirem mais afetados, estes poderão ser aspetos
importantes de influência no consumo de tabaco. Como preditores do controlo
comportamental percebido destacaram-se representações cognitivas menos
ameaçadoras. A literatura mostra que o controlo comportamental percebido pode
ter um efeito direto no comportamento sem necessidade da mediação das intenções
(Fila & Smith, 2006; Ogden, 2004). Na nossa amostra, os fumadores que têm
menor perceção dos perigos do tabaco para a saúde, podem crer que têm recursos
adequados para deixar de fumar, o que poderá influenciar de forma negativa a
cessação tabágica. Como preditores das crenças normativas/controlo destacaram-
se representações emocionais mais ameaçadoras. A literatura mostra que as
crenças de controlo e as crenças normativas, são importantes para deixar de
fumar dado que para o fumador, a perceção dos recursos que tem, bem como o que
outros pensam acerca de deixar de fumar, são aspetos importantes na mudança
(Ajzen, 2002). Assim, se os fumadores estiverem mais preocupados por fumar, e
mais afetados emocionalmente, é natural que estes aspetos influenciem as suas
crenças em relação ao tabaco. Os preditores do planeamento do coping/ação foram
ter representações emocionais e cognitivas do tabaco mais ameaçadoras. Neste
estudo, o facto de o fumador ter a perceção que fumar afeta a sua vida, que
fuma há muito tempo, que tem pouco controlo sobre fumar e que o tratamento para
deixar de fumar não é eficaz, ter sintomas relacionados com o consumo de
tabaco, estar preocupado, e afetado emocionalmente, por fumar podem ser
indicadores de planear ao que fazer, e como fazer, para deixar de fumar. A
literatura mostra o planeamento como uma variável relevante entre as intenções
e a realização do comportamento (Sniehotta et al., 2005). Os resultados do
nosso estudo vão ao encontro da literatura em que, num processo de mudança de
comportamento, se encontram processos relacionados com o planeamento de copinge
ação. Ao planear, os fumadores têm mais probabilidade de agir de acordo com as
suas intenções, podendo antecipar obstáculos e implementar o comportamento mais
rapidamente (Gollwitzer, 1999). Este processo cognitivo permite que aspetos
internos, ou externos, se tornem mais explícitos para o fumador pelo facto de
existir uma antecipação prévia e uma representação mental (Sniehotta, Scholz,
& Schwarzer, 2006). Ao nível da cessação tabágica, o planeamento da ação
dependerá do nível da motivação e intenção para deixar de fumar (Armitage &
Arden, 2008). Assim, deixar de fumar pode mostrar-se mais eficaz se estiver
associado a um plano de ação onde estejam presentes estratégias para a mudança
(planeamento da ação) e a antecipação dos fatores envolvidos que poderão ser
obstáculo à mudança (planeamento do coping)(Sniehotta et al., 2005).
LIMITAÇÕES
O facto de a amostra ser de conveniência, recolhida apenas na zona norte de
Portugal limita a generalização dos resultados. A aplicação de medidas de
autorrelato é também uma limitação, bem como o facto de algumas subescalas do
Questionário do Comportamento Planeado para Deixar de Fumar não poderem ter
sido utilizadas. Investigações futuras devem comtemplar outras variáveis como a
autoeficácia ou o locus de controlo em relação ao comportamento planeado para
deixar de fumar.
CONCLUSÃO
Os resultados obtidos sublinham a importância dos preditores da dependência
nicotínica, em particular, ser mais novo, ser do sexo masculino, ter um
parceiro que fuma, ter doença respiratória e fumar mais cigarros por dia, bem
como, ter menos qualidade de vida mental e mais morbilidade psicológica. Em
relação aos preditores das variáveis sócio-cognitivas do comportamento planeado
para deixar de fumar, sublinha-se ter mais idade, ser do sexo masculino, ter um
parceiro que não fuma, bem como ter representações cognitivas e emocionais mais
ameaçadoras e menos compreensão do tabaco. Este estudo aponta para a
importância da inclusão dos processos cognitivos e emocionais, envolvidos na
motivação e planeamento na cessação tabágica. As variáveis socio-demográficas e
psicológicas também se mostraram importantes no comportamento planeado para
deixar de fumar.