Interacção terapêutica em momentos de ambivalência: Um estudo exploratório de
um caso de insucesso
Interacção terapêutica em momentos de ambivalência: Um estudo exploratório de
um caso de insucesso
Miguel M. Gonçalves*; Joana Loura*; António P. Ribeiro*; Eugénia Ribeiro*;
Anita Santos**; Marlene Matos*
*Universidade do Minho, Braga
**Universidade do Minho, Braga, ISMAI, Maia
Correspondência
ABSTRACT
Change in psychotherapy occurs through the emergence and expansion of
exceptions to the client's problematic functioning. However, these
exceptions' potential to promote change may be aborted by the attenuation
of their meaning, when the client devaluates, trivializes or denies them. When
this process repeats itself throughout the therapeutic process, clients are
facing ambivalence, since there is a recurrent oscillation between two opposite
positions (innovation - return to the problematic functioning). The
present exploratory study aims at describing the therapeutic interaction within
moments in which ambivalence occurs in an unsuccessful case using the
Therapeutic Collaboration Coding System. Results suggest that ambivalence
emerges mainly as a response to an intervention in which the therapist
challenges clients usual (i.e., problematic) perspective. Moreover, results
suggest that the therapist tends to respond to client's ambivalence with
a new challenge intervention which is generally followed by ambivalence or even
invalidation from the client. Hence, when the therapist persists in challenging
the client there is usually an escalation in clients' discomfort,
expressed in the evolution of a ambivalence response towards an invalidation
response.
Key-words:Ambivalence, Single case study, Therapeutic collaboration,
Therapeutic failure.
Nos últimos 30 anos surgiu um movimento teórico na Psicologia que sugere que os
seres humanos dão significado à sua experiência através da construção de auto-
narrativas ou narrativas de vida. As auto-narrativas condensam significados
acerca de nós próprios, dos outros, do passado recente ou remoto, mas também do
futuro que antecipamos (Angus & McLeod, 2004; Gonçalves, Matos, &
Santos, 2009; Hermans, 1996; McAdams, 1993; White & Epston, 1990). Esta
concepção narrativa da significação humana tem também sido usada para dar
sentido à mudança em psicoterapia (Angus & McLeod, 2004; Hermans &
Hermans-Jansen, 1995; White, 2007; White & Epston, 1990). De acordo com
esta perspectiva, quando os clientes mudam não se limitam a reduzir os seus
sintomas, mas mudam também o modo como significam a sua realidade. Assim,
coloca-se a hipótese de que a mudança sintomática em psicoterapia é tanto mais
acentuada, quanto mais mudam as auto-narrativas dos clientes. De algum modo,
todos os terapeutas sabem que as histórias são importantes em psicoterapia,
dado que desde o começo da terapia os clientes contam histórias da sua vida aos
terapeutas. E quando tal não acontece, como por exemplo quando os clientes se
limitam a um discurso pobre, ou quando produzem um discurso descontextualizado
dos acontecimentos (e.g., abstracto), os terapeutas esforçam-se por suscitar a
memória auto
biográfica e facilitar a elaboração de narrativas de vida.
Partindo destes pressupostos, uma questão pertinente, do ponto de vista teórico
e clínico, é a de como mudam as auto-narrativas dos clientes em psicoterapia.
Dito de outra forma, quando os clientes se encontram aprisionados numa
narrativa de vida problemática (e.g., desvalorização pessoal), como ocorre a
transformação desta forma disfuncional de significação? Gonçalves e
colaboradores (e.g., Gonçalves et al., 2009; Gonçalves, Ribeiro, Mendes, Matos,
& Santos, 2011), partindo de uma perspectiva narrativa da mudança em
psicoterapia (e.g., White, 2007; White & Epston, 1990), sugerem que as
auto-narrativas problemáticas são transformadas através da emergência e
expansão de excepções.Dito de outro modo, o cliente envolve-se em novas formas
de agir, pensar, sentir ou relacionar-se que progressivamente desafiam o padrão
problemático prévio. Neste processo, à medida que o que é novo vai sendo
assimilado, as excepções transformam-se no novo padrão (i.e., nova auto-
narrativa).
Gonçalves e colaboradores (2009) designam estas excepções por momentos de
inovação(MIs). A investigação empírica prévia (Gonçalves et al., 2011) permitiu
discriminar cinco tipos de MIs: MIs de acção, de reflexão, de protesto, de
reconceptualização e de desempenho da mudança (ver Tabela_1).
Os MIs de acçãocorrespondem a comportamentos específicos que desafiam a
narrativa problemática, isto é, a pessoa faz algo que não é congruente com a
narrativa problemática. Os MIs de reflexãoenvolvem processos cognitivos que
indicam a compreensão de algo novo que contraria a narrativa problemática. Os
MIs de protestocorrespondem a um desafio, oposição ou crítica ao problema,
envolvendo algum tipo de confrontação ou recusa dos pressupostos da narrativa
problemática. Os MIs de reconceptualizaçãoenvolvem um processo meta-reflexivo,
em que o cliente contrasta o passado (antes da mudança) com o presente e
descreve o processo envolvido nessa transformação. Por fim, os MIs de
desempenho da mudançaocorrem quando os clientes mencionam novos objectivos,
experiências, projectos ou actividades em que aplicam novas competências
adquiridas durante o processo de mudança (Gonçalves et al., 2011).
A partir da análise de diversas amostras de psicoterapia, com diferentes
modelos terapêuticos (e.g., Gonçalves, Mendes, Ribeiro, Angus, & Greenberg,
2010; Matos, Santos, Gonçalves, & Martins, 2009; Mendes, Ribeiro, Angus,
Greenberg, & Gonçalves, 2010), e tendo em conta o que emerge de comum na
evolução dos MIs ao longo do processo terapêutico, foi construído um modelo
heurístico de mudança em psicoterapia. De acordo com este modelo, nas primeiras
sessões ocorrem, essencialmente, MIs de acção e de reflexão, sendo estes os
primeiros indícios de que a mudança está a ocorrer. Subsequentemente, surgem
MIs de protesto, embora em alguns casos este tipo de MIs possa surgir logo
desde o começo da terapia. Estes MIs representam uma forte atitude de desafio
da narrativa problemática, que pode emergir sob o formato de crítica ou
expressão de assertividade e empowerment. Os MIs de reconceptualização emergem,
principalmente, a partir do meio do tratamento e articulam o selfpassado
(fortemente dominado pela narrativa problemática) com o selfpresente (que
contém mudanças significativas), explicitando ainda como foi possível esta
mudança. Enfatizámos anteriormente (e.g., Gonçalves & Ribeiro, 2012;
Gonçalves et al., 2009) que estes MIs colocam o cliente numa posição de autoria
da própria mudança. Depois da emergência dos primeiros MIs de
reconceptualização, novos MIs de acção, reflexão e protesto ocorrem, validando
deste modo as mudanças em curso. Os MIs de desempenho da mudança representam
uma expansão para o futuro da mudança que está a ocorrer (ver Figura_1)
(Gonçalves et al., 2009).
Um resultado claro da investigação empírica desenvolvida até ao momento é o de
que a mera presença de MIs não é suficiente para que a mudança ocorra. Nos
casos de insucesso, os MIs de acção, reflexão e protesto tendem a manter-se
dominantes até ao término do processo terapêutico e os MIs de
reconceptualização e desempenho da mudança têm uma presença muito reduzida, ou
não existem de todo (Gonçalves et al., 2010; Matos et al., 2009; Mendes et al.,
2010). Um outro estudo (Gonçalves, Ribeiro, Stiles, et al., 2011) sugere que,
para além das diferenças já referidas, nos casos de insucesso os MIs são
frequentemente alvo de processos de atenuação do seu potencial de mudança.
Estes processos podem envolver a trivialização, negação ou minimização do MI
por parte do cliente, verificando-se assim um abortamento do potencial inovador
do MI, em que depois da emergência do MI, o cliente volta a enfatizar o poder
da narrativa problemática na sua vida. Os clínicos conhecem bem este fenómeno,
presente, por exemplo, nas respostas contra-fóbicas dos ansiosos ou nos desejos
irrealistas de felicidade sem constrangimentos dos deprimidos (e.g.,
Watzlawick, Fisch, & Weakland, 1974). Sugerimos anteriormente (Gonçalves,
Ribeiro, Stiles, et al., 2011) que nos casos de insucesso os MIs poderiam
funcionar como uma espécie de válvula de escape para a opressão criada pela
auto-narrativa problemática, criando uma expectativa de mudança no cliente.
Contudo, logo que estes MIs emergem são atenuados, reduzindo-se assim a ameaça
provocada pela novidade (Gonçalves & Ribeiro, 2012; Ribeiro &
Gonçalves, 2010)1. Esta oscilação entre os MIs e a sua atenuação é obviamente
um processo de ambivalência. Arkovitz e Engle (2007) descrevem um processo
semelhante, designado por ambivalência resistente. Tal corresponde a
comportamentos, normalmente acompanhados por afecto negativo, em que o cliente
"(...) express some desire to change, believe that change will improve
their lives, believe that effective strategies are available, have adequate
information about executing those strategies, but nonetheless do not employ
them sufficiently for change" (p. 172) (ver Figura_2).
Sendo o processo de ambivalência face à emergência de novidade narrativa um
processo intrapessoal, quando ocorre no contexto terapêutico ele não está
desligado da qualidade do processo interactivo que se desenvolve entre o
terapeuta e o cliente. Assim, importa olhar para o processo de ambivalência no
contexto intersubjectivo em que o mesmo ocorre - a interacção
terapêutica. Ribeiro, Ribeiro, Gonçalves, Horvath e Stiles (2011) sugerem que
as respostas de ambivalência por parte dos clientes podem indicar que a
intervenção terapêutica excedeu a capacidade do cliente para integrar novidade,
que apesar de começar por validá-la, acabou por se proteger, invalidando
posteriormente a mesma intervenção.
O presente estudo procura responder a duas questões centrais: (1) de que modo
responde o terapeuta à emergência de ambivalência e; (2) de que modo esta
resposta dificulta ou, pelo contrário, facilita a resolução da ambivalência.
Recorremos ao Sistema de Codificação de Colaboração Terapêutica (SCCT; Ribeiro,
Ribeiro, Gonçalves, Horvath, & Stiles, in press) para analisar um caso de
insucesso de terapia narrativa (White & Epston, 1990), seleccionado de uma
amostra de um estudo anterior (Matos et al., 2009), que apresenta uma reduzida
presença de MIs e um elevado número de MIs com atenuação. O SCCT é uma
metodologia de análise qualitativa que permite micro-analisar a interacção
terapêutica, momento-a-momento. Ribeiro e colaboradores conceptualizam a
intervenção terapêutica como envolvendo duas componentes: compreensãoda
perspectiva adoptada pelo cliente num dado momento (podendo, pois, centrar-se
no problema ou num MI) e desafioda mesma. Este sistema de codificação atende,
ainda, à resposta do cliente, propondo três categorias: validação(quando o
cliente aceita a intervenção do terapeuta), invalidação(quando o cliente
rejeita a intervenção do terapeuta) e ambivalência(quando o cliente aceita a
intervenção, rejeitando-a posteriormente na mesma fala, ou vice-versa). O SCCT
permite, assim, perceber se na sequência de um MI seguido de atenuação, o
terapeuta responde com compreensãoou desafio, aferindo o impacto destas
intervenções, a partir da resposta do cliente (i.e., validação, invalidaçãoou
ambivalência).
MÉTODO
Cliente
Maria (nome fictício) pertence a uma amostra de mulheres vítimas de violência
conjugal (Matos et al., 2009; cf. Santos, Gonçalves, & Matos, 2010, para
uma descrição detalhadas deste caso), tendo sido recomendada para terapia por
uma instituição de vítimas de crime. Era uma operária reformada com 47 anos de
idade que provinha de uma família de nível socioeconómico baixo. A mãe morreu
quando tinha 6 anos e o pai maltratou-a fisicamente durante a infância. A
cliente encontrava-se casada há 20 anos, tendo dois filhos rapazes, de 10 e de
16 anos. A cliente não mantinha uma boa relação com o filho mais velho, o que a
levava a sentir-se "má mãe". O marido de Maria, Luís, estava
fisicamente debilitado, mas desde os primeiros anos do casamento tinha-
a violentado sexual e psicologicamente. Este caso foi considerado um insucesso
dado que o sofrimento psicológico, avaliado através do BSI (Brief Symptom
Inventory, Derogatis, 1993; versão Portuguesa de Canavarro, 2007), se manteve
elevado ao longo do tratamento. Para além disso, não houve mudanças
significativas no padrão de vitimação.
Terapeuta e a terapia
A Maria foi atendida por uma terapeuta, Mestre em Psicologia, especialidade em
Psicologia da Justiça, que se encontrava a frequentar o Doutoramento em
Psicologia, especialidade em Psicologia da Justiça, e tinha cinco anos de
experiência em psicoterapia com mulheres vítimas de violência. A Maria
frequentou terapia individual durante 15 sessões (sendo as 4 primeiras semanais
e as restantes quinzenais) e e uma de follow-upapós 6 meses, disponibilizadas
gratuitamente num serviço de atendimento universitário. O tipo de terapia
utilizada foi desenvolvido a partir do modelo narrativo de White e Epston
(1990), tendo as sessões psicoterapêuticas sido supervisionadas, para facilitar
a adesão aos princípios da terapia narrativa (Matos et al., 2009). O referido
modelo envolve (cf. Gonçalves, 2008; White, 2007) a externalização do problema
(o que implica convidar o cliente a imaginar os problemas como sendo algo
separado de si mesmo), a identificação e questionamento dos pressupostos
culturais e sociais que suportam o abuso conjugal; a identificação e expansão
de resultados únicos (equivalente ao que acima designamos por MIs), com o
objectivo de criar novidade face ao problema previamente externalizado; e a
consolidação da narrativa alternativa através da validação social, tornando a
mudança mais visível e alicerçada.
Medidas
Sistema de Codificação dos Momentos de Inovação.O Sistema de Codificação dos
Momentos de Inovação(SCMI; Gonçalves, Ribeiro, Mendes, et al., 2011) é um
método qualitativo de análise de dados aplicável a estudos que pretendem
compreender o processo de mudança, por recurso ao conceito de MI. Aplica-se ao
discurso terapêutico gravado em vídeo/áudio ou através da transcrição das
sessões (Gonçalves, Ribeiro, Mendes, et al., 2011).
O SCMI exige que a codificação seja realizada por dois juízes que tenham
previamente sido treinados no sistema de codificação. No fim deste processo de
treino, que dura várias semanas e implica a codificação de sessões
terapêuticas, a fidelidade dos juízes é estabelecida através do Kappa de Cohen.
Quando este é superior a .75, o juiz é considerado apto para codificar novos
materiais de investigação. De seguida, os codificadores familiarizam-se com os
dados que irão analisar, através da leitura, visualização/audição do material.
Posteriormente, os juízes definem consensualmente as dimensões da narrativa
problemática para cada caso específico (e.g., desvalorização pessoal, reduzida
assertividade), o mais próximo possível do discurso do cliente. Esta definição
da narrativa problemática vai permitir identificar posteriormente os MIs por
contraste (e.g., momentos em que o cliente recusa a auto-desvalorização ou é
assertivo).
Após esta análise, é possível calcular a saliência dos MIs da sessão, que
corresponde à propor ção de palavras que cada MI ocupa em relação ao total de
palavras da sessão. Em cada sessão, é calculada a saliência dos cinco tipos de
MIs, assim como a saliência total dos MIs, através da soma das saliências dos
cinco tipos de MI para aquela sessão. Finalmente, a saliência do caso em
análise é obtida pela média das saliências de todas as sessões (Gonçalves,
Ribeiro, Mendes, et al., 2011).
Uma vez que o material é codificado independentemente, permite o cálculo da
fidelidade. A fidelidade da saliência global é calculada através da percentagem
de acordo, enquanto a fidelidade em relação aos cinco tipos de MIs é calculada
através do Kappa de Cohen. De notar que a codificação independente de cada
sessão é seguida de uma reunião para avaliar a fidelidade do procedimento de
codificação e as diferenças na codificação, que são resolvidas por consenso e
sujeitas a um processo de auditoria (Ribeiro, Ribeiro, & Gonçalves, 2010).
Sistema de Codificação do Retorno ao Problema.O processo de atenuação dos MIs
previamente descrito pode ser identificado empiricamente através da presença de
Marcadores de Retorno ao Problema(MRP). Estes marcadores emergem logo a seguir
a um MI e sugerem que o MI foi desvalorizado, trivializado ou negado pelo
cliente. Se, por exemplo, o cliente refere "Eu sinto-me muito mais capaz
de lidar com as dificuldades (MI), mas na verdade não acredito que consiga
mudar", o masindica que o cliente de algum modo negou o MI previamente
elaborado, corres pondendo a última parte da frase a um MRP. A codificação dos
MRP exige a codificação prévia com o SCMI, de modo a que os MIs estejam
claramente identificados. Assim, a tarefa do juiz é somente decidir se cada MI
apresenta ou não um MRP.
Da mesma forma que o SCMI, a codificação dos MRP exige dois juízes treinados,
que codificam os materiais de modo independente. O processo de treino é análogo
ao atrás descrito para o SCMI. Do mesmo modo, a fidelidade (do juiz e de cada
caso) é calculada através do Kappa de Cohen. Importa clarificar que a
codificação independente de cada sessão é seguida de uma reunião para avaliar a
fidelidade do procedimento de codificação e as diferenças na codificação, que
são resolvidas por consenso e sujeitas a um processo de auditoria.
Sistema de Codificação da Colaboração Terapêutica.O Sistema de Codificação de
Colabora ção Terapêutica(SCCT; Ribeiro, Ribeiro, & Gonçalves, 2010;
Ribeiro, Ribeiro, et al., 2011) resulta da aplicação da noção de Zona de
Desenvol vimento Proximal2 de Vygotsky (1978) à co-construção da mudança em
psicoterapia (cf. Leiman & Stiles, 2001, para uma primeira aplicação deste
conceito à psicoterapia). A zona de desenvol vimento proximal terapêutica(ZPD-
T) é definida como o intervalo entre o nível de desenvolvi mento actual do
cliente (i.e., a sua perspectiva habitual acerca da realidade) e o seu nível de
desenvolvimento potencial, definido como a possibilidade de transformar esta
perspectiva em colaboração com o terapeuta. Os autores concebem a mudança em
psicoterapia como ocorrendo ao longo deste continuumdesenvolvimental. À medida
que as mudanças vão ocorrendo, a ZDP-T evolui, na medida em que o que antes se
situava no nível potencial se situa agora no nível actual, i.e., as novidades
outrora desafiadoras são acomodadas (Ribeiro, Ribeiro, et al., 2011; ver Figura
3).
O SCCT (Ribeiro, Ribeiro, & Gonçalves, 2010) é um método qualitativo de
análise da colaboração terapêutica a partir de transcrições. A codificação de
cada sessão com o SCCT deve ser realizada por dois juízes independentes, sem
qualquer conhecimento sobre o resultado do caso (sucesso ou insucesso). A
codificação independente de cada sessão é seguida de uma reunião para avaliar a
fidelidade do procedimento de codificação (Kappa de Cohen) e as diferenças na
codificação, que são resolvidas por consenso e sujeitas a um processo de
auditoria (Ribeiro, Ribeiro, & Gonçalves, 2010).
A unidade de análise do SCCT corresponde a cada fala do cliente ou do
terapeuta. O investigador deve avaliar a presença de um marcador de (a)
compreensão(e.g., reflexão, confirmação) ou de (b) desafio(e.g., confrontação,
interpretação) em cada fala do terapeuta (ver Tabela_2):
a) Na compreensão, o terapeuta procura perceber e explorar a
perspectiva do cliente (pode ser centrada na narrativa problemática
ou num MI).
b) No desafio, o terapeuta tenta reconstruir com o cliente formas
alternativas e mais adaptativas de funcionamento, desafiando, para
isso, a perspectiva habitual do cliente (Ribeiro, Ribeiro, &
Gonçalves, 2010).
Para a resposta do cliente, o investigador tem que avaliar, em cada fala,
marcadores de validação, de invalidaçãoou de ambivalência(ver Tabela_3):
a) A validaçãoverifica-se quando o cliente aceita a intervenção do
terapeuta, o que indica que ambos se encontram na ZDP-T. Se o cliente
confirmar ou der informação, significa que está a responder com
segurança. Se o cliente reformular a sua perspectiva ou a expandir,
significa que está a responder com risco tolerável, uma vez que não
só valida a intervenção do terapeuta, como acrescenta ou elabora um
MI. A resposta de validação pode significar que o cliente e o
terapeuta estão no mesmo nível da ZDP-T ou que um deles está num
nível à frente do outro, mas ambos estão dentro da ZDP-T.
b) A invalidaçãoverifica-se quando o cliente não concorda com a
intervenção do terapeuta, transmitindo-o de forma mais ou menos
directa. Isto é, pode fazê-lo dizendo "Não concordo" ou
adoptando um discurso vago ou circunstancial, entre outras
possibilidades. Caso o cliente tenha invalidado a intervenção do
terapeuta, o codificador tem de analisar se o cliente respondeu com
desinteresseou risco intolerável. A resposta de desinteresseocorre
quando o terapeuta trabalha atrás da ZDP-T, uma vez que o cliente
demonstra que a abordagem do terapeuta acerca de um assunto é
redundante, podendo demonstrar-se aborrecido e desinteressado. A
resposta de risco intolerávelà intervenção terapêutica ocorre quando
as significações partilhadas pelo terapeuta ultrapassam a ZDP-T e
atingem uma zona onde o cliente terá tendência a resistir à novidade
para manter a sua coerência interna (Ribeiro, Ribeiro, &
Gonçalves, 2010) (ver Tabela_2).
c) A ambivalênciaverifica-se quando o cliente dá uma resposta que
inclui simultaneamente marcadores de validaçãoe invalidação. Este
tipo de resposta sinaliza que a intervenção do terapeuta se encontra
no limite da ZDP-T. Como se pode ver na Figura_3, este sistema
pressupõe a existência de duas formas distintas de ambivalência, uma
que corresponde ao processo de atenuação de MIs, atrás descrito, e
uma outra em que o processo oposto ocorre, isto é, o cliente começa
por se centrar no problema e depois acaba por elaborar um MI. Neste
estudo, analisamos unicamente o primeiro tipo de ambivalência que
indica que a intervenção do terapeuta está no limite da tolerância do
cliente para integrar novidade.
A partir desta codificação, é possível dividir a sessão em diferentes tipos de
interacção terapêutica: dentro da ZPD-T (em que o cliente valida a intervenção
do terapeuta), fora da ZPD-T (em que o cliente invalida a intervenção do
terapeuta) ou no limite da ZPD-T (em que o cliente demonstra ambivalência) (ver
Anexo_1 para exemplos de intervenções do terapeuta e de respostas do cliente).
Procedimentos dos estudos anteriores
Codificação dos MIs com os SCMI.Este caso foi previamente codificado com o SCMI
(ver Anexo_2) no estudo de Matos et al. (2009). Descrevemos aqui parte desse
procedimento e remetemos o leitor para a descrição original do estudo para
obtenção de mais detalhes. Dois codificadores independentes visualizaram as
gravações do presente caso e definiram, consensual
mente, as dimensões da narrativa problemática da Maria. Na Tabela_4 encontra-se
a definição dos problemas e exemplos de MIs apresentados pela Maria ao longo
das sessões.
Seguidamente, os MIs presentes nas transcrições das sessões da Maria (excepto
as sessões 8 e 9 que, devido a problemas técnicos na gravação, não foram
transcritas) foram identificados de forma independente e sequencial, por dois
juízes treinados no SCMI. O juiz A não conhecia o resultado terapêutico e
codificou todas as sessões. O juiz B apenas codificou 30% das sessões (sessões
1, 4, 8, 12,15e a de follow-up), para efeito de cálculo da fidelidade inter-
juízes. A percen
tagem de acordo na saliência total dos MIs foi de 80%. A fidelidade
relativamente à distinção dos diferentes tipos de MIs, calculado pelo Kappa de
Cohen foi elevada (.81), pelo que a análise foi baseada na codificação do juiz
A.
Identificação dos MIs com MRP durante as sessões.Num segundo estudo (Gonçalves,
Ribeiro, Stiles, et al., 2011), foram identificados os MRP na amostra de que
faz parte este caso. Remetemos de novo o leitor para este estudo para obtenção
de todos os detalhes deste procedimento e aqui limitamo-nos a sumariar os
aspectos mais importantes. A codificação dos RPM foi, à semelhança da
codificação dos MIs, realizada independente e sequencialmente por dois
codificadores treinados, de acordo com o Manual do Sistema de Codificação de
Marcadores de Retorno ao Problema(Gonçalves, Ribeiro, Santos, Gonçalves, &
Conde, 2009). Neste caso, contudo, os dois juízes codificaram 100% da amostra
(i.e., ambos analisaram os 114 MIs previamente identificados). Após a
codificação de cada sessão, os juízes reuniram-se, no sentido de verificar as
diferenças na sua codificação (que eram resolvidas por consenso) e de calcular
o acordo inter-juízes. A fidelidade na identificação dos MRP, avaliado através
do Kappa de Cohen, foi de .93. A identificação dos MRP, realizada no estudo
prévio, permite no actual estudo identificar as fases de ambivalência.
Procedimentos do presente estudo
Selecção das fases de ambivalência.Consideramos que as fases de ambivalência se
iniciam com a intervenção prévia da terapeuta à emergência de um MIs com MRP e
terminam com uma mudança de tópico. Para tal, seguimos as linhas de orientação
propostas por Angus, Levitt e Hardtke (1999), que definem que uma mudança de
tópico ocorre quando o assunto das falas anteriores muda durante a sessão. Tal
pode implicar uma mudança de domínio(introdução de um assunto com conteúdo
diferente do anterior) ou uma mudança de faceta(elaboração mais detalhada de
diferentes aspectos de uma área de conteúdo mais geral). Assim, dois juízes
começaram por ler todas as interacções terapeuta-cliente. Em seguida, foi
identificado em conjunto sequencial mente o tópico do episódio de MI com MRP
que dá início à fase de ambivalência, onde era definido um tópico para o MI e
respectivo retorno (e.g., desejo/incapacidade de sair de casa). Finalmente, foi
acordado onde devia acabar a fase de ambivalência pela mudança de tópico.
Micro-análise das fases de ambivalência.Para micro-analisar as fases de
ambivalência, recorremos ao SCCT (Ribeiro, Ribeiro, & Gonçalves, 2010),
codificando as intervenções da terapeuta durante cada fase de ambivalência e as
respostas da cliente. A codificação das fases de ambivalência também foi
realizada sequencialmente e de forma independente por dois juízes previamente
treinados no SCCT.
Após a codificação de cada sessão com o SCCT, os juízes reuniram-se para
verificar diferenças na codificação. Quando havia desacordos, os episódios eram
definidos por consenso. Cada versão do consenso foi revista por um auditor
externo, também co-autor do SCCT, que se reuniu com o par de juízes para
discutir e dar feedbackacerca da mesma. Procedeu-se também à verificação da
fidelidade do SCCT, através do cálculo do Kappa de Cohenpara a intervenção da
terapeuta e para a resposta da cliente. A média dos valores do Kappa de Cohené
de .95, quer para as intervenções da terapeuta, quer para as respostas da
cliente.
Análise do padrão da interacção terapeuta-cliente ao longo das fases de
ambivalência.No sentido de analisarmos o padrão de interacção terapeuta-cliente
durante as sessões, recorremos ao State Space Grids(SSG; Lewis, Lamey, &
Douglas 1999; Lewis, Zimmerman, Hollenstein, & Lamey, 2004), um método de
análise de dados utilizado na psicologia do desenvolvimento e que já foi usado
para análise processual de sessões terapêuticas (e.g., Ribeiro, Bento, Salgado,
Stiles, & Gonçalves, 2011). O SSG permite estudar duas sequências temporais
sincronizadas de variáveis categoriais ou ordinais (Lewis et al., 1999, 2004),
necessárias para representar um sistema dinâmico com um número limitado de
estados possíveis. O estado de um sistema num determinado momento é definido
pela posição das duas variáveis. O número total de estados possíveis do sistema
designa-se de state space, que é representado por uma matriz onde as categorias
das variáveis são representadas no eixo xe no eixo y. Assim, cada célula na
matriz corresponde a um estado possível do sistema. Para produzirmos SSGs para
as fases de ambivalência encontradas em cada sessão, recorremos ao GridWare, um
softwaredesenvolvido por Lamey, Hollenstein, Lewis e Granic (2004), que permite
representar as interacções dinâmicas entre cliente e terapeuta. Para cada
grelha, correspondente a cada sessão de terapia, foram introduzidas três
variáveis. Duas delas eram categoriais e correspondem à intervenção da
terapeuta, colocada no eixo y, e à resposta da cliente, colocada no eixo x.
Assim, um estado no presente estudo corresponde a um episódio definido pelo
SCCT. A terceira variável é contínua, correspondendo ao número de palavras de
cada interacção terapêutica no contexto das fases de ambivalência por nós
codificada e é representada pelo tamanho dos pontos presentes em cada célula
(ver Figura_4). O ponto sem preenchimento representa a primeira interacção, que
no presente estudo se encontrava sempre numa célula em que a resposta da
cliente tenha sido ambivalente. Esses pontos são ligados por linhas com setas,
que representam a evolução do diálogo terapêutico (Lewis et al., 1999).
Apesar de ser possível verificar uma grande quantidade de estados, os sistemas
ocupam normalmente apenas um número limitado, num dado intervalo temporal. Os
sistemas tendem a persistir e estabilizar em certos estados, designados
atractorese que no presente estudo corres pondem às interacções terapêuticas do
SCCT mais estáveis e salientes em cada fase de ambiva lência (Lamey et al.,
2004). Para identificarmos os atractores, recorremos ao método winnowing(Lewis
et al., 1999), que define o atractor como uma célula ou grupo de células
responsáveis por 80% da heterogeneidade da grelha. A heterogeneidade é
calculada, em primeiro lugar, para cada célula visitada (i.e., na qual exista
um ou mais eventos) com a fórmula [d2/(D/n)], em que dcorresponde ao número de
palavras da célula, Dao total de palavras na grelha, e nao número de células
visitadas na grelha. Seguidamente, calcula-se o valor total da grelha com a
fórmula [nΣ(c)/n], em que cequivale ao valor de heterogeneidade de cada célula,
e nao número de células visitadas. Este processo é repetido, começando a
análise sempre a retirar o valor da célula com menor duração de toda a grelha.
Esta análise termina quando o valor da heterogeneidade é igual ou menor a 20%,
o que significa que as células que persistiram correspondem aos atractores.
RESULTADOS
Resultados dos estudos anteriores
Saliência dos MIs nas sessões da Maria.Sumariamos, de seguida, os resultados da
emergência dos MIs (cf. resultados completos em Matos, Santos, Gonçalves, &
Martins, 2009). A análise da média da saliência dos MIs permitiu verificar que
os MIs de Protesto (2,9%) e de Reflexão (1,7%) foram os que apresentaram maior
saliência. Corresponderam também aos MIs presentes desde a primeira sessão, com
uma tendência crescente ao longo da terapia. Os MIs de Reconceptualização
(0,21%), Acção (0,14%) e Desempenho da Mudança (0,11%) foram os menos
frequentes. O primeiro tipo ocorreu apenas na sessão 13 e na de follow-up,
enquanto os últimos emergiram somente na de follow-up. Este padrão de
emergência de MIs é típico do insucesso terapêutico, em que a saliência global
é reduzida (nesta amostra o valor médio do insucesso é 5,38 (DP=1,79), o que
contrasta com um valor médio de 10,76 (DP=4,84) no sucesso) e os MIs de
reconceptualização e de desempenho da mudança estão quase ausentes.
MIs com Marcadores de Retorno ao Problema (RPM).De seguida, sumariamos os
resultados do retorno ao problema (cf. Gonçalves, Ribeiro, Stiles, et al.,
2011, para uma análise mais completa dos resultados). Dos 114 MIs
identificados, 68 foram codificados com MRP, o que significa que em mais de
metade dos MIs existe uma atenuação dos mesmos através do retorno ao problema.
Esta quantidade de MIs com MRP durante as sessões é análoga ao verificado nos
casos de insucesso previamente analisados (M=42.00; DP=21.76).
Resultados do presente estudo
Características gerais das fases de ambivalência.Nas sessões do presente caso,
foram identificadas 25 fases de ambivalência, isto é, fases que começam numa
intervenção da terapeuta à qual se segue um MI com retorno ao problema3. Em
cada uma das fases de ambivalência, ocorreram em média 20 interacções entre
cliente e terapeuta, sendo que no mínimo ocorreram duas interacções e no máximo
58 interacções. A saliência de cada uma dessas fases por sessão variou entre
0.7% e 90.5%, sendo a média em cada fase de ambivalência de 22.4% da sessão
(DP=21.70) (Figura_5).
No que concerne o início das fases de ambivalência, verificámos que em 23 dos
25 episódios4 este ocorre no contexto de uma intervenção de desafioda terapeuta
(os restantes dois ocorreram no seguimento de uma compreensão centrada na
novidade). Deste modo, a terapeuta encontra-se nestes 25 episódios mais próximo
do nível de desenvolvimento potencial, enquanto a cliente está mais próxima do
actual.
Resposta da terapeuta à ambivalência.Para perceber como lida a terapeuta com a
emergência de ambivalência e qual o impacto das suas intervenções, analisámos a
interacção terapêutica subsequente à primeira interacção das fases de
ambivalência (ver Figura_6). Verificou-se que em 19 das 25 fases de
ambivalência, a intervenção terapêutica subsequente à primeira interacção foi o
desafio.Em 14 das 19 intervenções de desafio, este foi seguido de uma resposta
de risco intolerável, o que indica que a intervenção da terapeuta se situava
fora ZDP-T. Em apenas 4 dos 25 episódios a terapeuta encontrava-se no mesmo
nível da cliente na ZDP-T (ver Figura_7), com interacções de compreensão
centrada no problema-segurança.
Interacções terapêuticas no final das fases de ambivalência.Verificámos que em
20 das 25 fases de ambivalência, na última interacção terapêutica a terapeuta
encontrava-se à frente da cliente na ZDP-T (13 interacções de desafio-risco
intolerável, 5 de desafio-ambivalênciae 2 de desafiosegurança), e apenas em
cinco destas ambas se encontravam dentro do mesmo nível na ZDP-T (ver Figura
8).
Atractores na interacção terapêutica.As interacções terapêuticas do SCCT
identificadas nas fases de ambivalência que se afiguram como os mais centrais,
estáveis e salientes correspondem, no presente estudo, aos atractores,
calculados através do SSG (ver as grelhas do SSG com os atractores
identificados em cada sessão no Anexo_2). Se considerarmos todos os atractores
encontrados durante as fases de ambivalência presentes nas sessões da Maria,
verificou-se que a maior concentração de atractores (69%) correspondia a
interacções terapêuticas em que a terapeuta se situava à frente da cliente na
ZDP-T (i.e., desafio-segurança, desafio-ambivalênciae desafiorisco
intolerável). Somente em 26% dos atractores a terapeuta e a cliente se
encontravam no mesmo nível na ZDP-T (i.e., compreensão do problema-segurança,
compreensão da novidadesegurança, desafio-risco tolerável). Finalmente, apenas
em 5% dos atractores a terapeuta se encontrava atrás da cliente na ZDP-T (i.e.,
compreensão da novidade-risco tolerável, compreensão do problema-risco
tolerável) (ver Tabela_5).
DISCUSSÃO
O caso da Maria caracteriza-se por uma baixa saliência de MIs e por uma elevada
frequência de MRPs, o que vai de encontro aos resultados habitualmente obtidos
com casos de insucesso (Gonçalves, Ribeiro, Stiles, et al., 2011). Isto
significa que a Maria está fortemente ambivalente em relação à mudança: suscita
novidades ao seu padrão de funcionamento habitual (MIs), mas regressa ao
funcionamento habitual logo de seguida, provavelmente quando se apercebe das
implicações das novidades na sua vida.
Um dos resultados mais interessantes deste caso é o facto das fases de
ambivalência começarem com uma intervenção de desafiopor parte da terapeuta. Os
resultados sugerem ainda que a interacção terapêutica que mais frequentemente
se segue à emergência de ambivalência é o desafio, com subsequente
invalidaçãopor parte da cliente. Temos, assim, em mais de metade dos episódios,
uma transição de desafio-ambivalênciapara desafio-risco intolerável; o que
sugere que a permanência do desafio aumenta a discrepância na ZPD-T entre a
terapeuta (mais próximo do desenvolvimento potencial) e a cliente (mais próxima
do desenvolvimento actual), com subsequente aumento de mal-estar na cliente.
Finalmente, a postura de desafio da terapeuta manifesta-se mesmo na finalização
das fases de ambivalência, emergindo mais uma vez desafioao qual a cliente
responde de novo com invalidação. Ou seja, aparentemente a díade encontra-se
rigidificada em duas posições extremas, o desafio do lado da terapeuta e a
ambivalência e a invalidação da parte da cliente. Este posicionamento de ambos
é patente na análise dos atractores.
É claro que várias interpretações podem ser formuladas para estes resultados,
dependendo do modo como é hipotetizada a causalidade. Podemos sugerir que é o
facto de a terapeuta se colocar sistematicamente numa posição de desafio que
gera o aumento da invalidação por parte da cliente e que se a terapeuta tivesse
sido mais empática e compreensiva a ambivalência teria sido mais reduzida.
Podemos assim especular sobre o que teria acontecido se a terapeuta tivesse
respondido com compreensão. Ribeiro, Ribeiro, et al. (2011) sugerem que face à
ambivalência a resposta correcta é o aumento da compreensão empática, mas até
ao momento não há estudos empíricos que comprovem que esta estratégia é a mais
produtiva. Esta possibilidade interpretativa vai de encontro ao conceito de
responsividade, tal como é proposto por Stiles, Honos-Webb e Surko (1998). De
acordo com Stiles, responsividade significa que o terapeuta ajusta as suas
intervenções às necessidades evidentes do cliente. No presente caso, a resposta
de invalidação da cliente poderia ser uma pista para a terapeuta de que a
cliente necessita de maior compreensão, antes de produzir novidade. Também os
modelos experienciais e centrados nas emoções (e.g., Elliott,Watson, Goldman,
& Greenberg, 2004; Greenberg, Rice, & Elliot, 1993) reforçam esta
necessidade de a empatia ser a condição central que organiza todo o processo
terapêutico. Desta perspectiva podemos especular que a terapeuta no presente
estudo sacrifica a empatia ao esforço de desafio, produzindo assim invalidação
na cliente e dificultando a mudança.
Uma leitura alternativa a estas propostas é de natureza interaccional. Ou seja,
podemos especular que a interacção terapêutica é fruto de um padrão
interaccional em que terapeuta e cliente são co-responsáveis. Neste sentido,
apesar de obviamente o terapeuta ter mais poder na relação terapêutica
(Guilfoyle, 2003), não tem o poder de mudar o cliente contra a sua vontade.
Como sugere Bohart (2000), o cliente é a dimensão mais vital da mudança em
psicoterapia. O cliente é activo no processo de mudança e pode usar a terapia
para mudar ou não. A cliente pode ter convidado a terapeuta a partir de pistas
subtis a ser desafiadora, apesar de responder com ambivalência ou invalidação.
Deste ponto de vista, o que externamente pode parecer como uma falha na
empatia, internamente, do ponto de vista dos participantes, pode ser visto como
uma reacção empática. Dito de outro modo, é possível que esta cliente só
estivesse preparada para a ambivalência, e não para a resolver produzindo
mudanças mais profundas na sua vida. Assim, face à não mudança da cliente a
terapeuta procura suscitar novidade através do desafio e, deste ponto de vista,
sugerimos que se a terapeuta tivesse suscitado mais compreensão a cliente
poderia ter suscitado ainda menos MIs, considerando o processo terapêutico
desinteressante. Importa ter em conta que esta cliente avaliou, no fim do
tratamento, a terapia como positiva e não desistiu do processo terapêutico,
apesar de este caso ter sido categorizado como um insucesso terapêutico. Com o
presente plano de investigação não é possível inferir qual é a interpretação
mais correta para estes dados. De qualquer modo, o nosso esforço é descritivo e
parece evidente, a partir destes dados, que o desafio da terapeuta é
sistematicamente invalidado pela cliente. Que impacto futuro este desafio
poderia ter tido, se, o caso tivesse tido mais continuidade é difícil de saber,
dado que temos somente 16 sessões e é possível que a Maria necessitasse de um
processo terapêutico mais intensivo. Sugerimos em estudos anteriores (e.g.,
Gonçalves, Ribeiro, Stiles, et al., 2011), congruentemente com diversos modelos
desenvolvi mentais da mudança em psicoterapia (Proachaska & DiClemente,
1982; Stiles et al., 1990), que uma das dimensões mais características do
insucesso terapêutico é um menor grau de preparação para a mudança. Esta menor
preparação para a mudança pode explicar, pelo menos parcialmente, a emergência
sistemática da ambivalência.
O tipo de plano de investigação aqui apresentado não permite determinar qual
destas hipóteses é a mais adequada, ou até se outras hipóteses deverão ser
consideradas. Estudos futuros, com planos experimentais de estudo de caso
(Kazdin, 1992), poderão analisar em tempo real as interacções terapêuticas e
fazer variar a resposta do terapeuta à ambivalência, procurando assim
determinar qual é, e em que circunstâncias, a resposta mais adequada do
terapeuta aos episódios em que o cliente reage com ambivalência.
LIMITAÇÕES
Algumas limitações do presente estudo prendem-se com o facto de termos
recorrido a um estudo de caso que, apesar dos benefícios anteriormente
descritos para a investigação processual, faz com que as conclusões sejam
limitadas ao presente caso e que a generalização se afigure restrita. O facto
de nunca ter sido realizado outro estudo com a mesma metodologia impede também
que possamos fazer comparações, pelo que não sabemos se os resultados
encontrados neste estudo irão ser verificados noutros casos de insucesso de
terapia narrativa ou de outras abordagens terapêuticas. Como não estudamos
nenhum caso de sucesso, uma vez que estes têm habitualmente uma frequência
reduzida de MIs com MRP, torna-se inviável realizar qualquer comparação entre o
sucesso e o insucesso terapêutico e perceber como pode ser ultrapassada a
ambivalência.
O facto de termos tido conhecimento prévio de que o caso era de insucesso pode
ter influenciado a codificação, apesar de esse aspecto poder ser minorado pelo
elevado acordo inter-juízes. Este conjunto de limitações leva-nos a sugerir que
os resultados desta investigação devem ser interpretados com alguma precaução.