Auto-estima e narcisismo na adolescência: Relação com delinquência autorelatada
em contexto forense e escolar
Auto-estima e narcisismo na adolescência: Relação com delinquência autorelatada
em contexto forense e escolar
Pedro Pechorro*; Rita Silva**; João Marôco***; Carlos Poiares****; Rui Xavier
Vieira*
*Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa;
**Direcção-Geral de Reinserção Social;
***ISPA - Instituto Universitário;
****Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias
Correspondência
ABSTRACT
The purpose of the present study was to analyze the relative importance of the
self-esteem and narcissism constructs and to assess the association between
these constructs and self-reported criminal behavior. With a total of 760
youths of both sexes divided in a forensic sample (n=250) and a community
sample (n=510), comparisons were made with respect to the two constructs and a
multiple regression model was estimated having the self-reported delinquency as
the dependent variable. The results indicate that the forensic sample is
characterized as having low self-esteem and high narcissism when compared to
the community sample, that the correlation between the two constructs is almost
non-existing, and that narcissism is the variable that contributes the most to
the prediction of self-reported delinquency.
Key-words:Juvenile delinquency, Narcissism, Self-esteem.
Desde há muito que psicólogos, sociólogos e criminologistas consideram que a
auto-estima se correlaciona de forma importante com o comportamento anti-social
(Caldwell, Beutler, Ross, & Silver, 2006; Mason, 2001). É um pressuposto
amplamente difundido considerar que todas as pessoas têm a necessidade básica
de pensarem e sentirem bem acerca delas próprias, e que portanto a auto-estima
é um motivador fundamental e universal para o ser humano.
Uma das linhas de investigação da relação entre a auto-estima e os problemas de
comportamento anti-social está relacionada com o conceito de baixa auto-estima.
Nesta perspectiva considera-se que as crianças e jovens apresentam problemas de
comportamento e de agressão porque têm sentimentos negativos sobre elas
próprias que por sua vez as levam a passar ao acto e a considerarem que nada
têm a perder (Baumeister, Smart, & Boden, 1996; Bushman & Baumeister,
1998).
McCarthy e Hoge (1984) consideram que baixa auto-estima enfraquece os laços
sociais, a conformidade às normas sociais e leva a um aumento da delinquência,
além de produzir um feedbacknegativo nas pessoas que interagem com o jovem que
reforça ainda mais a queda da auto-estima. Boden, Fergusson e Horwood (2007)
investigaram a relação entre a auto-estima na adolescência e a delinquência
violenta e hostilidade futura, tendo concluído que baixos níveis de auto-estima
aos 15 anos estavam relacionados, embora de forma modesta, com maiores riscos
de delitos violentos e de hostilidade aos 18, 21 e 25 anos.
A baixa auto-estima pode levar o jovem a relacionar-se com outros jovens com
comportamentos anti-sociais dado que estes satisfazem as necessidades afectivas
em termos de amizade e de apoio afectivo. Barnow, Lucht e Freyberger (2005)
demonstraram como os adolescentes com baixa auto-estima são mais frequentemente
rejeitados pelos seus pares e como esta rejeição produz um ciclo vicioso que
provoca ainda mais baixa auto-estima. Tais experiencias negativas moldam as
atitudes do jovem face às outras pessoas duma forma que aumenta o comportamento
agressivo.
Existem evidências que demonstram que os jovens com baixa auto-estima tendem a
envolver-se em comportamentos anti-sociais com mais frequência e que a sua
auto-estima sai aumentada como consequência desse envolvimento anti-social.
Toch (1993) e Baumeister, Smart e Boden (1996) consideram que a violência serve
para que as pessoas com baixa auto-estima a elevem focando-se em vítimas mais
fracas ou desprotegidas como forma de reduzir as probabilidades de retaliação
(que iria baixar ainda mais a auto-estima).
A percepção que o sujeito tem da sua competência é um dos possíveis factores
associados à baixa auto-estima e aos problemas de comportamento. Kuther (2000)
evidenciou que os jovens que percepcionam ter níveis mais reduzidos de
competência a nível escolar e comportamental se envolvem mais frequentemente em
actividades de risco. Desta forma a competência relaciona-se com a auto-estima,
pelo menos em algumas áreas, como forma de compensação.
A outra linha de investigação está relacionada com níveis altos de auto-estima,
que é tida por alguns autores (e.g., Taylor, 1989; Taylor & Brown 1988)
como sendo adaptativa e desejável. Todavia, outros autores como Baumeister,
Smart e Boden (1996) encontraram evidências empíricas no sentido oposto, em que
a alta auto-estima está associada a comportamentos agressivos e à passagem ao
acto com desrespeito pelos direitos das outras pessoas. Traços como a visão
grandiosa do próprio, a necessidade de ser visto de forma positiva e a
protecção contra ameaças à auto-imagem caracterizam as pessoas com alta auto-
estima. As pessoas que se vêem como superiores podem considerar que têm mais
direitos que os outros. Podem também considerar que os actos violentos, que
geralmente envolvem algum tipo de risco, não terão consequências para elas
- o que as faz ainda mais prontamente correr riscos.
Kaplan (1980) evidenciou que jovens que se relacionavam com grupos de
delinquentes ou gangues passavam a ter uma auto-estima mais alta, possivelmente
porque se comparavam com estes grupos e não com a generalidade dos grupos da
comunidade. Brendgen, Vitaro e Bukowski (1998) verificaram que os adolescentes
com baixa auto-estima tendiam a adoptar atitudes positivas face aos
comportamentos delinquentes e a associar-se a jovens com comportamentos
desviantes.
Baumeister, Smart e Boden (1996) consideram que se uma pessoa tem o seu auto-
conceito como correcto, mas recebe um feedback contrário à sua auto-imagem
positiva, então a sua autoestima é ameaçada; e quanto mais ideal é a sua auto-
imagem mais exposta está a avaliações desfavoráveis dos outros. Tal pode
provocar reacções agressivas e hostis de forma a evitar ter de redefinir o
auto-conceito de maneira desfavorável. Kernis, Grannemann e Barclay (1989)
sugerem que as pessoas com alta auto-estima instável (que varia conforme as
situações) têm uma maior tendência para reagir com hostilidade e raiva porque
possivelmente têm muito a perder e são mais vulneráveis a um ataque à auto-
estima.
Tal conceptualização levanta a questão pertinente de ser realmente a alta auto-
estima que está relacionada com o comportamento anti-social, ou, se em vez
dela, não será o conceito de narcisismo que melhor explica a relação. A baixa
auto-estima e o narcisismo podem ser constructos distintos, e não pólos
extremos do mesmo espectro. Rosenberg (1989) defende que a auto-estima se
refere ao facto de o individuo se considerar ou não adequado, i.e., uma pessoa
de valor, e não se se considera superior aos outros. Assim, um sujeito pode ter
auto-estima alta sem ser narcísico de uma forma patológica que o defende contra
sentimentos de insegurança. Rosenberg considerava também que a auto-estima
seria superior no sexo masculino, especialmente no período da adolescência.
Todavia, a natureza da relação entre os constructos de auto-estima e de
narcisismo permanece em aberto. Têm sido propostas diversas conceptualizações:
o narcisismo enquanto forma exagerada de alta auto-estima, o narcisismo como
uma faceta específica da auto-estima, o narcisismo enquanto forma altamente
instável de auto-estima, o narcisismo como necessidade de a pessoa se sentir
superior aos outros ou o narcisismo como defesa contra sentimentos
inconscientes de inadequação ou inferioridade (Donnellan, Trzesniewski, Robins,
Moffitt, & Caspi, 2005).
Barry, Frick e Killian (2003) procuraram investigar a relação da auto-estima e
do narcisismo com os problemas de comportamento em crianças, tendo concluído
que são constructos independentes que mantêm, cada um deles, associações únicas
com os problemas de comportamento. No seu estudo concluíram que era o
narcisismo que especificamente predizia as características mal-adaptativas,
tendo a auto-estima basicamente um efeito moderador: as crianças com níveis
altos de narcisismo e baixa auto-estima eram as que demonstravam a maior
quantidade de sintomas de problemas de comportamento. Barry, Grafeman, Adler e
Pickard (2007) encontraram resultados na mesma linha, defendendo que apenas o
narcisismo estava significativamente relacionado com a delinquência e a
agressão, e que a baixa auto-estima apenas se correlacionava indirectamente com
a delinquência mediante o controlo do efeito do narcisismo.
Donnellan, Trzesniewski, Robins, Moffitt e Caspi (2005) exploraram a relação
entre a autoestima global e problemas de externalização como agressão,
comportamento anti-social e delinquência. Utilizando metodologias transversais
e longitudinais com avaliação multi-método em grupos de crianças norte-
americanas e neo-zelandesas, concluíram que auto-estima e narcisismo são
constructos distintos (correlacionando-se de forma fraca) que têm efeitos
independentes nos problemas de externalização. Os autores demonstraram que
existe uma relação robusta entre a baixa auto-estima e os problemas de
comportamento quando se controlavam as variáveis moderadoras. O narcisismo, por
sua vez, também teria o seu efeito específico nos problemas de comportamento.
Podemos concluir que, embora os estudos empíricos mais recentes demonstrem
haver independência entre os constructos de auto-estima e narcisismo (Lochman,
Powell, Boxmeyer, Young, & Baden, 2010), continua a não existir consenso
quanto à relação entre auto-estima e comportamentos anti-sociais. Apesar disso,
muitos programas de prevenção e intervenção em delinquência juvenil baseiam-se
na premissa de que a baixa auto-estima é um factor de risco nos comportamentos
anti-sociais e consideram fundamental para o seu sucesso o reforço da
autoestima nos jovens (Eastman, 2004; Wooldredge, Harman, Latessa, &
Holmes, 1994).
O objectivo principal da presente investigação consiste em analisar a
importância relativa dos constructos de auto-estima e de narcisismo na
comparação entre o grupo forense e o grupo escolar (contraste), verificar que
associação existirá entre esses constructos e investigar a importância de cada
um deles na predição dos comportamentos delinquentes auto-relatados pelos
jovens.
MÉTODO
Participantes
O grupo total final ficou constituído por 760 participantes (leque etário=12-
20; Média=15.92 anos; desvio-padrão=1.48 anos), sendo que desse total 250
participantes (leque etário=13-20; Média=15.81 anos; desvio-padrão=1.32 anos)
foram provenientes dos Centros Educativos do Ministério da Justiça e
constituíram o grupo forense, e 510 participantes (leque etário=12-20;
Média=15.95 anos; Desvio-padrão=1.55 anos) foram provenientes de
estabelecimentos públicos de ensino da grande Lisboa e constituíram o grupo
escolar (ver Tabela_1).
Os participantes do sexo masculino foram mais numerosos (71.4%) que os do sexo
feminino (28.6%). Relativamente à etnicidade, 59.6% eram brancos, 24.2% eram
negros, 13.4% eram mulatos, 1.8% eram ciganos e 0.9% pertenciam a outras
etnias. Relativamente à nacionalidade, 79.9% eram portugueses, 16.2% eram
nacionais de países africanos, 1.2% eram nacionais de países europeus e 2.8%
tinham outras nacionalidades (e.g., Brasil). No que diz respeito à proveniência
Rural versusUrbano, a maioria (98.8%) eram provenientes de zonas urbanas/semi-
urbanas.
Medidas
A Escala de Auto-Estima de Rosenberg (Rosenberg Self-Esteem Scale- RSES;
Rosenberg, 1979, 1989) foi desenvolvida a partir das pontuações de 5024
participantes de ambos os sexos, incluindo estudantes universitários e pessoas
adultas provenientes de meios sociais diferentes e grupos étnicos
diversificados. Originalmente concebida como escala Guttman, a RSES também pode
ser cotada simplesmente somando os itens tipo Likertde 4 pontos (Discordo
fortemente=0, Discordo=1, Concordo=2, Concordo fortemente=3), após se ter feito
a reversão dos itens indicados (nomeadamente os itens 2, 5, 6, 8, 9). A
pontuação na escala varia entre 0 e 30, sendo que pontuações elevadas na escala
indicam auto-estima elevada e vice-versa. Na presente investigação utilizou-se
uma validação portuguesa (Pechorro, Marôco, Poiares, & Vieira, no prelo a)
com uma consistência interna por Alfa de Cronbach de .79.
O Dispositivo de Despiste de Processo Anti-social (Antisocial Process Screening
Device- APSD; Frick & Hare, 2001; Muñoz & Frick, 2007) é uma
medida psicométrica multi-dimensional projectada para avaliar traços
psicopáticos em crianças e adolescentes. Originalmente chamado Psychopathy
Screening Device (PSD), foi modelado a partir da Psychopathy Checklist -
Revised (PCL-R; Hare, 2003) com a colaboração do próprio Hare, tendo por base
grupos clínicas e comunitárias. O APSD é composto por 20 itens tipo Likert de 3
pontos (Nunca=0, Algumas vezes=1, Frequentemente=2), sendo que pontuações mais
altas significam a elevação da presença dos traços em questão. Na presente
investigação utilizou-se a dimensão Narcisismo da validação portuguesa da
versão de auto-resposta (Pechorro, Marôco, Poiares, & Vieira, no prelo b)
com uma consistência interna por Alfa de Cronbach de .68.
A Escala de Delinquência Auto-reportada Adaptada (Adapted Self-reported
Delinquency Scale- ASDS; Carroll, Durkin, Houghton & Hattie, 1996) é
uma medida de auto-resposta constituída por 38 itens tipo Likert de 3 pontos
(Nunca=0, Algumas vezes=1, Frequentemente=2). A ASDS mede o envolvimento dos
adolescentes em diversas actividades ilegais e anti-sociais. A pontuação total
é obtida somando os itens, sendo que pontuações mais elevadas significam
frequência mais elevada de actividade criminal. As pontuações obtidas nesta
escala têm sido utilizadas como um índice de actividade criminal, inclusive
para obtenção de valores de incidência e de prevalência. Na presente
investigação utilizou-se uma validação portuguesa composta por 35 itens
(Pechorro, 2011) com uma consistência interna por Alfa de Cronbach de .96.
Adicionalmente foi construído um questionário sócio-demográfico para descrever
as características sócio-demográficas dos participantes e analisar o efeito
moderador dessas variáveis.
Este questionário incluiu questões como a idade, nacionalidade, grupo étnico,
sexo, proveniência rural versusurbana, anos de escolaridade completados, nível
sócio-económico dos pais e estado civil dos pais.
Procedimentos
O leque etário para participação dos jovens na investigação foi previamente
fixado entre os 12 anos e os 20 anos dado ser esse o intervalo etário abrangido
pela Lei Tutelar-Educativa no sistema judicial português. Cada questionário
aplicado era precedido por um termo de consentimento informado, em que era dado
conhecimento do carácter voluntário e confidencial de participação no estudo.
A recolha dos questionários em meio forense decorreu individualmente após se
ter obtido autorização por parte da Direcção-Geral de Reinserção Social (DGRS),
Ministério da Justiça. Foram feitas aplicações em todos os Centros Educativos
existentes a nível nacional. Nem todos os jovens concordaram ou puderam
participar, sendo que a não participação incluiu motivos como recusa em
participar, impossibilidade de participar devido a não entendimento da língua
portuguesa e impossibilidade de participar devido a questões de segurança. A
taxa de participação foi de cerca de 90%. Todos os questionários dos jovens que
participaram foram considerados válidos.
A recolha dos questionários em meio escolar decorreu após se ter obtido
autorização por parte da Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento
Curricular (DGIDC), Ministério da Educação. Foram aleatoriamente seleccionadas
doze escolas básicas/secundárias da região da grande Lisboa, das quais quatro
concordaram em participar. Os motivos da não participação incluíram ausência
sistemática de resposta ao pedido de colaboração efectuado pelo investigador,
alegadas questões relativas à organização interna das escolas que
impossibilitaram a colaboração, além de recusa em colaborar devido ao conteúdo
forense do questionário. As escolas que aceitaram participar solicitaram que a
participação de cada aluno fosse previamente autorizada através de um termo de
consentimento assinado pelo encarregado de educação. No final, foram excluídos
cerca de 13% dos participantes devido a estarem fora do intervalo etário
estabelecido ou a motivos como terem entregado questionários não preenchidos,
incompletos ou ilegíveis.
Os dados relativos aos questionários considerados válidos foram inseridos em
SPSS v18 e posteriormente tratados em SPSS v19 (IBM SPSS, 2010). Após a
inserção dos dados ter sido feita foram aleatoriamente seleccionados 10% dos
questionários inseridos, de forma a avaliar a qualidade de inserção dos mesmos.
A qualidade foi considerada muito boa dado que praticamente não foram
detectados erros de inserção.
Relativamente às comparações entre grupos, previamente foi efectuada Manova.
Sempre que possível utilizaram-se técnicas paramétricas quando se estava
perante uma distribuição normal (assimetria e curtose entre -2 e 2) e
homogeneidade de variâncias. Quando não havia distribuição normal optou-se
pelas técnicas não paramétricas, nomeadamente o teste Ude Mann-Whitney. Foram
também calculados o tamanho do efeito e a potência do teste (Marôco, 2010). No
que diz respeito às correlações bivariadas utilizou-se a correlação de Pearson
quando a distribuição era considerada normal (assimetria e curtose entre -2 e
2). Utilizou-se também regressão múltipla.
RESULTADOS
Na fase inicial do tratamento de dados foram analisadas as variáveis
moderadoras incluídas no questionário sócio-demográfico. Os resultados
demonstraram que o grupo forense continha menos participantes do sexo feminino
(χ2=5.484, p≤.001), menos participantes de etnia/raça branca (χ2=38.776,
p≤.001), menos participantes de proveniência urbana (χ2=18.580, p≤.001), menos
anos de escolaridade completos (F=1194.506, p≤.001), mais progenitores com
baixo nível sócio-económico (U=33514, p≤.001) e mais progenitores divorciados
ou falecidos (χ2=127.898, p≤.001). Não foram encontradas diferenças
estatisticamente significativas entre o grupo forense e o grupo escolar
relativamente à idade dos participantes ou à sua nacionalidade.
A MANOVA efectuada, que incluiu todas as variáveis dependentes do estudo,
revelou não haver interacção estatisticamente significativa entre os factores
Grupo Forense/Escolar e Sexo (ver Tabela_2), permitindo assim prosseguir com
recurso a comparações individuais (Garcia-Marques, 1997; Marôco, 2010). Na
interacção entre factores a dimensão do efeito por Eta parcial ao quadrado
(ηp2) foi de .04 e a potência foi de .527 (Marôco, 2010).
Na comparação do grupo masculino dos grupos forense e escolar quanto à
pontuação na Escala de Auto-estima de Rosenberg (RSES) foram encontradas
diferenças estatisticamente significativas. O Eta parcial ao quadrado (ηp2) foi
de .073 e a potência foi 1 (ver Tabela_3). Na comparação do grupo masculino
forense e escolar quanto à dimensão Narcisismo do APSD foram encontradas
diferenças estatisticamente significativas. O tamanho do efeito rfoi de -.120 e
a potência de .729 (ver Tabela_3).
Na comparação do grupo feminino forense e escolar quanto à pontuação na RSES
não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas. O ηp2foi de
.007 e a potência .238 (ver Tabela_4). Na comparação do grupo feminino forense
e escolar quanto à dimensão Narcisismo do APSD foram encontradas diferenças
estatisticamente significativas. O ηp2foi de .026 e a potência de .657 (ver
Tabela_4).
Na comparação dos grupos masculino e feminino quanto à pontuação na RSES, não
foram encontradas diferenças estatisticamente significativas. O ηp2foi de .001
e a potência .068 (ver Tabela_5). Na comparação dos grupos masculino e feminino
forense quanto à dimensão Narcisismo do APSD, não foram encontradas diferenças
estatisticamente significativas. O ηp2foi de .002 e a potência de .107 (ver
Tabela_5).
Foi efectuada uma análise de regressão múltipla para determinar a importância
das variáveis auto-estima e narcisismo na predição da delinquência auto-
relatada (ver Tabela_6). Utilizou-se a Tolerância e o VIF para comprovar a
inexistência de multicolinearidade. A correlação entre as variáveis
independentes auto-estima e narcisismo foi de r=-.025, p=.488.
DISCUSSÃO
Relativamente à comparação do grupo masculino quanto à auto-estima verificou-se
o grupo forense obteve valores significativamente mais baixos que o grupo
escolar, indiciando uma auto-estima mais baixa. Já quanto ao narcisismo o grupo
forense obteve valores significativamente mais altos, indicando um maior nível
de narcisismo. Esta caracterização do grupo masculino forense como tendo auto-
estima mais baixa e narcisismo mais alto é concordante com os resultados
recentemente obtidos por Barry, Frick e Killian (2003) e por Barry, Grafeman,
Adler e Pickard (2007).
No que diz respeito à comparação do grupo feminino forense e escolar quanto à
auto-estima não se encontraram valores estatisticamente significativos. Tal
pode ter-se ficado a dever à baixa potência do teste nesta comparação. Já
quanto ao narcisismo foram encontradas diferenças estatisticamente
significativas favoráveis ao grupo forense que obteve valores mais altos nesta
variável; a potência neste caso foi também maior. A caracterização do grupo
feminino forense também é, pelo menos em parte, concordante com os resultados
de Barry, Frick e Killian (2003) e Barry, Grafeman, Adler e Pickard (2007).
Na comparação entre os grupos masculino e feminino forense não foram
encontradas diferenças estatisticamente significativas relativamente à auto-
estima e ao narcisismo. Pelo menos no que diz respeito à auto-estima seria de
esperar que os rapazes tivessem obtido valores mais elevados (Kling, Hyde,
Showers, & Buswell, 1999; Rosenberg, 1989), todavia também pode ser o caso
de que as características forenses tenham desempenhado um papel na ausência de
diferenças. Não se pode deixar de salientar a baixa potência de teste na
comparação destas duas variáveis. É possível que tal seja um artefacto causado
pelo pequeno tamanho do grupo forense feminino (n=29), sendo que para haver um
maior um maior grau de certeza quanto à não rejeição da hipótese nula o ideal
seria repetir as comparações recorrendo a uma amostragem maior, apesar da
conhecida enorme dificuldade em conseguir este tipo de participantes.
No modelo de regressão múltipla efectuado a combinação das variáveis predizia
significativamente a delinquência auto-relatada [F(2,757)=78.139; p≤.001] com
ambas as variáveis a contribuírem de forma estatisticamente significativa para
a predição. O valor do R2foi de .17, o que indica que 17% da variância da
delinquência auto-relatada foi explicada pelo modelo, sendo que tal corresponde
a uma dimensão de efeito média (Marôco, 2010). Os pesos de β sugerem que a
variável narcisismo [β=.391; t(757)=11.823; p≤.001] é a que mais contribui para
predizer a delinquência auto-relatada, apesar da variável auto-estima [β=-.133;
t(757)=-4.021; p≤.001] também ter alguma contribuição, embora consideravelmente
menor.
Tais dados parecem novamente corroborar os resultados obtidos por Barry, Frick
e Killian (2003) e por Barry, Grafeman, Adler e Pickard (2007) quanto ao papel
preponderante do narcisismo relativamente aos comportamentos anti-sociais e ao
papel menor atribuído à auto-estima. Não foram encontradas evidências que
apoiem os dados de Donnellan, Trzesniewski, Robins, Moffitt e Caspi (2005) no
que concerne à existência de uma relação robusta entre baixa auto-estima e
problemas de comportamento anti-social. Todavia, os nossos dados sustentam as
conclusões a que chegaram todos os autores acima referidos relativamente aos
constructos de auto-estima e de narcisismo serem conceptualmente independentes,
dada a correlação muito fraca que encontramos entre eles.