Violência nas relações íntimas ocasionais de uma amostra estudantil
b) identificar associações entre os vários tipos de violência recebidos e
sofridos, como também se existe uma associação entre vitimação e perpetração de
diferentes actos abusivos;
c) encontrar associações entre características sociodemográficas (e.g., género,
idade, grau académico, nível socioeconómico) e os vários tipos de violência
perpetrada ou recebida.
MÉTODO
Amostra e procedimentos
As universidades constituem o contexto de excelência para o estudo da violência
nas relações íntimas juvenis (Hickman, Jaycox, & Aronoff, 2004), não só
porque o "pico" da violência ocorre no início da idade adulta (por
volta dos 24 anos) (Paiva & Figueiredo, 2005), mas também porque este
contexto apresenta inúmeras vantagens para a prossecução de um estudo empírico
(e.g., facilidade na distribuição dos instrumentos de avaliação) (Straus,
2004). Urge, contudo, contemplar outros grupos etários dentro da população
juvenil. O estudo da violência nas relações íntimas de jovens mais novos, por
exemplo frequentando o ensino secundário tem sido, de certo modo, descurado,
apesar de a evidência empírica demonstrar também níveis elevados de violência
por parte destes estudantes (Connolly & Josephson, 2007).
A partir desta preocupação, a amostra deste projecto de investigação englobou
tanto alunos do ensino universitário, como do ensino secundário. Os dados do
ensino universitário foram recolhidos na Universidade do Minho, em aulas ou em
locais que reunissem diversos estudantes (e.g., biblioteca e salas de estudo) e
os referentes ao ensino secundário foram recolhidos em duas escolas do distrito
de Braga. Pelo tipo de acordo obtido com cada instituição escolar, numa destas
escolas os instrumentos foram administrados na sala de aula, enquanto na outra
se procedeu à sua adminis tração em espaços que aglomeram vários alunos (e.g.,
o bar, a sala do aluno, espaços exteriores).
O consentimento informado foi obtido individualmente junto dos alunos de maior
idade, bem como junto do Conselho Executivo de cada escola e dos professores
(no caso da recolha nas salas de aula), para os alunos do ensino secundário.
Somente cerca de 2% dos indivíduos se recusaram a colaborar no estudo. Todos os
questionários foram respondidos de forma anónima e confidencial. Foram
distribuídos durante o ano lectivo de 2007/2008, sendo a amostra constituída
por 600 participantes (cf. Tabela_1).
Instrumentos
O abuso nas relações afectivas ocasionais foi avaliado a partir de um
questionário de autorelato que incidia sobre a dimensão comportamental da
violência, ou seja, avaliava a frequência dos comportamentos violentos sofridos
e perpetrados pelo sujeito. Este instrumento foi adaptado a partir de um outro
questionário utilizado numa investigação sobre prevalência da violência
conjugal: IVC - Inventário de Violência Conjugal (Matos, Machado, &
Gonçalves, 2000), também já alvo de uma adaptação prévia para a identificação
da violência no contexto do namoro (Machado, Caridade, & Martins, 2009).
O IVC-4 (Antunes & Machado, 2007, adaptado de Matos, Machado, &
Gonçalves, 2000) avalia, assim, os comportamentos violentos nas relações
afectivas ocasionais. Para minimizar a subjectividade deste conceito, este
instrumento inclui no cabeçalho uma definição deste tipo de relacionamento:
"relação de curta duração que, embora implique um envolvimento físico e/
ou sexual, não envolve um comprometimento emocional entre os dois parceiros,
nem assume que haverá continuidade da relação. Na gíria dos jovens é denominada
por amizade colorida/caso amoroso/curtir/ flirt". De modo a contemplar os
três tipos de violência (física, emocional e sexual), este questionário inclui
vinte e uma questões sobre diversos comportamentos violentos potencialmente
ocorridos numa relação afectiva ocasional ao longo da vida dos sujeitos. Em
cada item, o participante responde em termos de perpetração e/ou vitimação.
Assim, tem a possibilidade de responder: "Nunca fiz a um parceiro(a)
ocasional" ou "Já fiz a um parceiro(a) ocasional" (para a
vitimação "Um meu parceiro(a) ocasional nunca me fez" ou "Um
meu parceiro(a) ocasional já me fez"), especificando, no caso de resposta
afirmativa, a frequência com que estes comportamentos ocorreram ("Uma
única vez" ou "Mais do que uma vez").
RESULTADOS
Todas as análises foram realizadas usando o SPSS para o Windows (versão 16). No
tratamento estatístico dos dados recorreu-se à estatística descritiva e aos
testes de associação e diferenças. Apesar de as variáveis referentes aos
valores totais e parciais de vitimação e perpetração serem intervalares, não
foi cumprido o critério da normalidade, implicando que a análise estatística
destes dados fosse realizada, quando necessário, através de testes não
paramétricos.
Caracterização da sub-amostra com envolvimentos afectivos ocasionais
Da amostra total de 600 sujeitos, 442 indivíduos, ou seja, 72.3% da amostra,
relataram já ter estado envolvidos em relações afectivas ocasionais. Apenas
estes sujeitos foram considerados para as análises estatísticas que
apresentaremos de seguida. Sendo assim, torna-se pertinente caracterizar esta
sub-amostra (cf. Tabela_1).
Os participantes do estudo tinham idades compreendidas entre os 14 e 39 anos,
sendo a média de idades de 18.6 anos (DP=3.06). A sua formação académica ia
desde o 10º ano até à frequência de Mestrado, situando-se a média nos 12.4 anos
escolares.
Os participantes da amostra admitiram já se ter envolvido entre 1 a 9 relações
afectivas ocasionais, apresentando uma média de 2.9 relações por sujeito. As
relações ocasionais tendem a durar cerca de um mês (13.3%) ou mesmo períodos
inferiores, até uma semana (7.7%). 6.8% dos participantes relataram que a
relação se manteve durante 6 meses, enquanto outros 5.7% se envolveram durante
apenas um dia. Somente uma pequena percentagem (1.1%) de sujeitos referiu ter
mantido esse relacionamento durante mais de 6 meses. Salienta-se, no entanto,
que apesar de algumas destas relações envolverem alguma extensão temporal,
continuam a ser percebidas pelos participantes como tendo uma natureza
ocasional, isto é, sem compromisso e vivida (mesmo quando dura algum tempo) de
forma intermitente.
Um número significativo de participantes que se envolveu numa relação ocasional
relatou que sentia atracção pelo parceiro(a) (18.8%), seguindo-se a paixão
(7.2%) e o amor (6.3%). Apenas 2% dos indivíduos admitiram não nutrir qualquer
sentimento pelo parceiro, enquanto 1.4% relataram sentimentos de amizade.
Prevalência da violência nas relações afectivas ocasionais
Os dados resultantes do IVC-4 (Antunes & Machado, 2007) revelam que 43.2%
dos sujeitos relataram ter cometido pelo menos um acto violento numa relação
afectiva ocasional ao longo da sua vida. Por sua vez, 37.3% dos indivíduos
referiram ter sido vítimas de pelo menos um acto abusivo durante uma relação
afectiva ocasional ocorrida em dada altura das suas vidas.
TABELA 2
Prevalência dos vários tipos de violência nas relações ocasionais
Violência n Frequência %
Perpetração Global Física 412 413 191 133 43.2 30.1
Emocional 417 121 27.4
Sexual 412 55 12.4
Vitimação Global Física 352 339 165 90 37.3 20.4
Emocional 349 102 23.1
Sexual 349 73 16.5
Prevalência da perpetração de violência
A violência física no contexto de uma relação ocasional foi relatada por 30.1%
dos indivíduos. Por sua vez, 27.4% dos sujeitos da amostra revelou ter já
perpetrado ao longo da sua vida pelo menos um acto emocionalmente violento em
relação a um parceiro ocasional. No que concerne à violência sexual, 12.4% dos
estudantes indicaram ter violentado sexualmente um seu parceiro ocasional. A
tabela_3 apresenta uma descrição detalhada dos diferentes comportamentos
violentos perpetrados pelos sujeitos da amostra e respectiva percentagem.
A tabela demonstra que os actos mais frequentes são insultar, difamar e
humilhar (17.9%), dar uma bofetada (15.8%), perseguir a outra pessoa (12.7%),
puxar os cabelos com força (10.2%), atirar com objectos (9.7%) e gritar ou
ameaçar para meter medo (8.4%).
Prevalência da vitimação
Contrariamente ao que ocorre quanto à perpetração, a vitimação emocional surge
como o tipo de violência mais sofrido nas relações ocasionais, já que 23.1% dos
sujeitos relatou ter sido vítima de pelo menos um acto desta natureza ao longo
das relações ocasionais em que esteve envolvido. Por sua vez, 20.4% dos
indivíduos relataram ter sido vítimas de pelo menos um comportamento
fisicamente violento por parte de um parceiro ocasional. A vitimação sexual foi
revelada por 16.5% dos estudantes. A tabela_4 apresenta, de forma mais
detalhada, os diferentes tipos de violência recebida e a percentagem de
sujeitos que os sofreu.
TABELA 4
Descrição dos actos de violência sofridos
Um parceiro Um parceiro Um parceiro
ocasional ocasional já ocasional já me
me fez, fez,
nunca me fez uma única vezmais do que uma
vez
Vitimação N % N % N %
Violência física
Puxar cabelos com força 320 72.4 18 4.1 20 4.5
Dar uma bofetada 323 73.1 22 5 14 3.2
Apertar o pescoço 337 76.2 12 2.7 9 2
Ameaçar com armas 353 79.9 9 2 3 .7
Dar um murro 345 78.1 12 2.7 7 1.6
Atirar com objectos 332 75.1 20 4.5 8 1.8
Dar uma sova 351 79.4 6 1.4 4 .9
Dar pontapés ou cabeçadas 343 77.6 9 2 10 2.3
Dar empurrões violentos 332 75.1 12 2.7 9 2
Bater com a cabeça contra a parede 341 77.1 10 2.3 2 .5
Causar ferimentos que não precisaram
de
assistência médica 337 76.2 4 .9 7 1.6
Causar ferimentos que precisaram de
assistência médica 345 78.1 4 .9 1 .2
Violência emocional
Insultar, difamar e humilhar 294 66.5 36 8.1 27 6.1
Perseguir a outra pessoa 323 73.1 14 3.2 20 4.5
Gritar ou ameaçar, para meter medo 322 72.9 24 5.4 10 2.3
Violência sexual
Forçar a realizar o acto sexual sem 339 76.7 7 1.6 4 .9
preservativo
Forçar a outra pessoa a manter
relações
sexuais contra a sua vontade 340 76.9 12 2.7 3 .7
Fazer com que o outro consuma
substâncias
para conseguir actos sexuais 346 78.3 6 1.4 10 2.3
Forçar beijos, carícias ou toques 310 70.1 33 7.5 13 2.9
íntimos
Forçar a prática de actos sexuais 339 76.7 10 2.3 4 .9
indesejados
Outros actos 142 32.1 2 .5
Através da tabela, podemos constatar que entre os actos mais frequentemente
relatados destaca-se o ter sido insultado, difamado e humilhado (14.2%). De
seguida, os actos: forçar beijos, carícias e toques íntimos (10.4%), puxar os
cabelos com força (8.6%), dar uma bofetada (8.2%) e gritar ou ameaçar para
meter medo (7.7%) foram os mais relatados pelas vítimas.
Associação entre diferentes formas de violência
Associação entre as várias formas de perpetração de violência
Existe uma associação estatisticamente significativa entre as várias formas de
violência praticadas pelos participantes. Esta associação verifica-se entre a
perpetração física e a perpetração emocional [χ2(1)=72.093; p<.001],
constatando-se que 31.5% dos sujeitos relata ter perpetrado simultaneamente
comportamentos física e emocionalmente violentos. Quando a violência física foi
associada com a violência sexual, encontra-se também uma associação
estatisticamente significativa [χ2(1)=34.577; p<.001], verificando-se que 12.8%
da população adoptou actos físicos e sexualmente abusivos contra um parceiro
ocasional. Ocorre também uma associação estatisticamente significativa entre a
perpetração emocional e a perpetração sexual [χ2(1)=44.694; p<.001], sendo que
13.1% dos indivíduos relataram ter perpetrado ambos tipos de violência no
contexto de uma relação afectiva ocasional.
Associação entre as várias formas de vitimação
Existe, igualmente, uma associação estatisticamente significativa entre as
várias formas de vitimação. Não só se encontra uma associação significativa
entre a vitimação física e a vitimação emocional [χ2(1)=67.958; p<.001], como
também entre a vitimação física e a vitimação sexual [χ2(1)=33.788; p<.001].
Deste modo, 27.6% da população da amostra referiu ter sido vítima tanto de
violência física, como emocional por um parceiro ocasional, enquanto 19.8%
relatou ter sofrido tanto violência física, como sexual num relacionamento
íntimo. Por último, regista-se, igualmente, uma associação significativa entre
a violência emocional e a violência sexual [χ2(1)=55.146; p<.001], verificando-
se que 19% dos indivíduos relatou ter sofrido ambos tipos de violência numa
relação ocasional.
Associação entre a perpetração e a vitimação das várias formas de violência
Quando associada a perpetração global com a vitimação global, encontra-se uma
forte associação entre ambas as variáveis [χ2(1)=1.635; p<.001], verificando-se
que 45.9% dos sujeitos da amostra referiu ter experienciado ambas as situações
num relacionamento ocasional.
Numa análise mais detalhada, verifica-se uma associação estatisticamente
significativa entre a perpetração e a vitimação física [χ2(1)=1.239; p<.001],
observando-se, igualmente, uma associação estatisticamente significativa entre
a perpetração e a vitimação emocional [χ2(1)=1.673; p<.001]. Deste modo, 29.1%
dos sujeitos revelou envolvimento na violência física, quer enquanto vítima,
quer enquanto ofensor; por outro lado, 28.3% dos participantes reportaram tanto
ter cometido, como ter sofrido violência emocional numa relação ocasional. Por
fim, verifica-se uma associação estatisticamente significativa entre a
perpetração e vitimação sexual [χ2(1)=1.153; p<.001], tendo 19.4% da amostra
relatado ter cometido mas também sofrido este tipo de abuso.
Diferenças nos comportamentos violentos em função de variáveis socio-
demográficas
Género
Não foram encontradas associações significativas entre género e perpetração [χ2
(1)=2.653; n.s.] ou vitimação geral [χ2(1)=3.616; n.s.]. Porém, na análise
específica dos vários tipos de violência, encontraram-se associações
significativas entre o género e a vitimação física [χ2(1)=16.621; p<.001],
perpetração emocional [χ2(1)=4.036; p<.05] e a perpetração sexual [χ2
(1)=13.001; p<.001]. Os rapazes tendem a relatar mais frequentemente vitimação
física (66.3%), perpetração emocional (58.3%) e perpetração sexual (74.1%),
comparativamente com as raparigas. Em oposição, não encontramos associação
entre género e perpetração de violência física [χ2(1)=.457; n.s.], nem entre
género e vitimação emocional [χ2(1)=2.167; n.s.] ou vitimação sexual [χ2
(1)=.066; n.s.].
Idade
Quando comparamos perpetradores e não perpetradores, encontram-se diferenças
etárias significativas (Z=-2.898; p<.01), o mesmo sucedendo ao nível da
vitimação (Z=-2.580; p<.05), sendo que tanto ofensores como vítimas se inserem
em grupos etários mais novos. Numa análise mais pormenorizada, encontram-se
diferenças etárias ao nível da vitimação física (Z=-2.315; p<.05) e também da
perpetração física (Z=-4.215; p<.001): quanto mais novos são os sujeitos, maior
tendência apresentam para perpetrar e ser vítimas de actos fisicamente
violentos. Contudo, não há diferenças etárias ao nível da perpetração (Z=-
1.095; n.s.) e vitimação (Z=-1.126; n.s.) emocional, nem no que concerne à
perpetração (Z=-.016; n.s.) e vitimação sexual (Z=-1.352; n.s.).
Ano escolar
Quando comparamos perpetradores com não perpetradores, verificamos que os
perpetradores tendem a frequentar anos escolares inferiores (Z=-5.580; p<.001),
o mesmo sucedendo ao nível da vitimação (Z=-4.216; p<.001). Quando analisada
especificamente a violência física, constatamse diferenças no mesmo sentido,
com os perpetradores da violência a integrarem anos escolares inferiores (Z=-
6.782; p<.001). No mesmo sentido, as vítimas de violência física (Z=-3.790;
p<.001), também prevalecem entre os alunos menos escolarizados. No que se
refere à violência emocional, verificam-se diferenças significativas no mesmo
sentido, ao nível da perpetração (Z=3.767; p<.001) e vitimação (Z=-2.838;
p<.01). Finalmente, embora não existam diferenças de ano escolar entre
perpetradores e não perpetradores de violência sexual (Z=-1.543; n.s.), essas
diferenças estão presentes ao nível da vitimação (Z=-2.310; p<.05), também no
sentido já descrito.
Nível de ensino
Existem associações significativas entre nível de ensino e vitimação [χ2
(1)=18.310; p<.001], assim como perpetração de violência [χ2(1)=26.118;
p<.001]. Os estudantes do ensino secundário experienciam (62%), bem como
utilizam (66.5%), mais comportamentos violentos, comparativamente com os
estudantes do ensino universitário. Especificamente, encontram-se estas
associações ao nível da perpetração [χ2(1)=36.733; p<.001] e da vitimação
física [χ2(1)=16.637; p<.001], sendo a violência física mais comummente
relatada pelos jovens do ensino secundário (74.6% - perpetração / 67%
- vitimação), comparativamente com os do ensino universitário (25.4%
- perpetração / 33% - vitimação). De igual modo, os estudantes do
ensino secundário prevalecem no relato da perpetração da violência emocional
[χ2(1)=13.081; p<.001] - 65.8% -, assim como da vitimação emocional
[χ2(1)=8.188; p<.01] - 60.4%. Não encontrámos, contudo, associações entre
nível de ensino e violência sexual, nem termos da perpetração [χ2(1)=3.401;
n.s.] nem de vitimação [χ2(1)=3.078; n.s.].
Nível socioeconómico
Não se verificam diferenças significativas quanto ao estatuto socioeconómico,
ao nível da perpetração (Z=-.083; n.s.) e da vitimação (Z=-1.333; n.s.) global.
Numa análise mais específica, verifica-se que os ofensores (Z=-.368; n.s.) e
vítimas (Z=-.082; n.s.) não se diferenciam, ao nível da condição
socioeconómica, dos sujeitos que relataram nunca ter recorrido, nem sofrido
violência física no contexto de uma relação ocasional. O mesmo sucede quando
considerada a violência emocional, ao nível da perpetração (Z=-.416; n.s.) e da
vitimação (Z=-1.292; n.s.). Por fim, quando analisada a violência sexual,
também não há diferenças socioeconómicas entre perpetradores e não
perpetradores (Z=-.364; n.s.), nem entre vítimas e não vítimas (Z=-.684; n.s.).
Diferenças nos comportamentos violentos em função de variáveis relacionais
Duração da relação
Quando comparamos a duração da relação amorosa relatada por perpetradores e não
perpetradores não se encontram diferenças estatisticamente significativas
(Z=.875; n.s.). O mesmo sucede em termos da vitimação (Z=-.870; n.s.). Numa
análise mais detalhada das diversas formas de violência, obtiveram-se
resultados semelhantes. Não há diferenças significativas na duração das
relações em que é relatada perpetração física, quando comparadas com aquelas
onde tal não é reportado (Z=-.356; n.s.), o mesmo acontecendo ao nível da
vitimação física (Z=-1.227; n.s.), da perpetração emocional (Z=-.252; n.s.), da
vitimação emocional (Z=-.339; n.s.), da perpetração sexual (Z=-1.473; n.s.) e
da vitimação sexual (Z=-.928; n.s.).
Número de relações afectivas ocasionais
Perpetradores e não perpetradores apresentam diferenças muito significativas ao
nível da quantidade de relações afectivas ocasionais em que se envolveram (Z=-
3.909; p<.001), o mesmo acontecendo ao nível da vitimação (Z=-2.674; p<.01),
sendo este número de envolvimentos superior tanto nos ofensores como nas
vítimas. O número de relações mantidas diferencia também vítimas físicas de não
vítimas físicas (Z=-2.254; p<.05), o mesmo sucedendo ao nível da perpetração
física (Z=-3.402; p<.01). Registam-se também diferenças significativas na
quantidade de relações ocasionais mantidas por ofensores emocionais quando
comparados com não ofensores (Z=-3.657; p<.001) e por vítimas comparadas com
não vítimas emocionais (Z=-2.907; p<.01). As diferenças ocorrem no mesmo
sentido, quando analisada a violência sexual, quer ao nível da perpetração (Z=-
2.101; p<.05) quer da vitimação (Z=-2.136; p<.05).
Envolvimento emocional na relação
Finalmente, analisamos a associação entre perpetração/vitimação e o sentimento
descrito pelos jovens em relação ao seu parceiro ocasional (amor vs. atracção).
Não encontrámos associações entre esta variável e a perpetração [χ2(1)=.800;
n.s.], nem entre aquela e a vitimação [χ2(1)=.008; n.s.]. Não há também
associações entre o nível de envolvimento emocional e a perpetração física [χ2
(1)=1.013; n.s.], embora a vitimação física surja associada ao envolvimento
emocional na relação [χ2(1)=4.606; p<.05]. Assim, 70% das vítimas afirmaram ter
sentido paixão pelo companheiro, enquanto 30% apontaram o amor como o
sentimento dominante na relação. Por sua vez, não se encontram associações
significativas entre envolvimento emocional e perpetração de abuso emocional
[χ2(1)=2.030; n.s.] ou vitimação emocional [χ2(1)=.852; n.s.]. O mesmo sucede
quando analisada a violência sexual, ao nível da perpetração [χ2(1)=1.817;
n.s.] e da vitimação [χ2(1)=.207; n.s.].
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Este estudo permite, antes de mais, salientar o quão frequentes são as relações
afectivas ocasionais entre os jovens, já que 72.3% dos participantes da amostra
relatou já se ter envolvido neste tipo de relacionamentos. Estes dados replicam
os do estudo de Manning, Giordano e Longmore (2006), que referem que mais de
metade dos jovens (64%) já se envolveu numa relação afectiva ocasional.
Em segundo lugar, os nossos resultados alertam para a relevância do problema da
violência nas relações de intimidade juvenil. Os índices significativos de
violência encontrados neste estudo, quer ao nível da perpetração (43.2% dos
estudantes perpetrou pelo menos um acto abusivo contra um parceiro(a)
ocasional, 30.1% de natureza física), quer ao nível da vitimação (37.3% foram
alvo de violência, 20.4% de agressão física) corroboram os dados de outros
estudos nacionais de prevalência (e.g., Machado, Caridade, & Martins,
2009), ainda que tais estudos se remetam à análise das relações de intimidade
juvenil em geral e não existam outros estudos específicos sobre as relações
ocasionais. Salientamos, no entanto, que os níveis de violência por nós
encontrados nas relações ocasionais excedem bastante os identificados neste
outro estudo de alcance mais geral (30.6% de perpetração, 18.1% de natureza
física e 25.4% de vitimação, 13.4% de natureza física). Estes dados são, a
nosso ver, bastante preocupantes e indiciam a necessidade de estudar melhor o
fenómeno da violência no contexto das relações ocasionais, bem como os factores
específicos que potenciam a mesma nestes contextos (e.g., falta de envolvimento
afectivo, ausência de expectativas de continuidade da relação, discrepâncias
entre o nível de envolvimento e expectativas dos parceiros, comunicação pobre).
Por outro lado, ainda que seja o tipo de violência menos prevalente nas
relações ocasionais, a violência sexual nestes envolvimentos atinge também
níveis elevados (perpetração - 12.4%; vitimação - 16.5%), bastante
superiores aos encontrados num estudo exploratório sobre a violência sexual em
jovens universitários que abrangia diferentes tipos de relacionamentos (Martins
& Machado, no prelo - 11% de vitimação e 3.9% de perpetração). A
literatura corrobora que este tipo de violência tende a ocorrer em relações
afectivas ocasionais (Flack, Daubman, Caron, Asadorian, D'Aureli,
Gigliotti, Hall, Kiser, et al., 2007; Muehlenhard & Linton, 1987), uma vez
que a própria falta de conhecimento e envolvimento dos parceiros dificulta a
sua comunicação sobre os limites do envolvimento físico e sexual mutuamente
desejados e potencia erros de interpretação sobre as intenções do outro.
Em síntese, quer quanto aos níveis de agressão, quer quanto aos seus tipos, os
dados sobre a violência nos relacionamentos ocasionais reforçam a preocupação
que deve existir com a questão da violência na intimidade juvenil e sugerem que
as relações ocasionais poderão conter factores que contribuem para um risco
acrescido da mesma.
Por outro lado, à semelhança do verificado no namoro, em Portugal e em vários
estudos interna cionais (e.g., Gidycz, Warkentin, & Orchowski, 2007;
Lavoie, Hébert, Tremblay, Vitaro, Vézina, & McDuff, 2002), as diferentes
formas de violência tendem a estar relacionadas entre si, assim como tendem a
estar associados os estatutos de perpetrador e vítima. Esta associação parece
sugerir (ainda que não permita comprovar) um padrão de bi-direccionalidade na
agressão, em que o mesmo indivíduo simultaneamente agride e é agredido. Também
num estudo levado a cabo por Gray e Foshee (1997, citados por Cyr, McDuff,
& Wright, 2006) os índices de violência mútua se situavam entre os 45% e os
72%, conferindo credibilidade à hipótese de a violência ser bidireccional
(Harned, 2002). Sendo assim, os dados encontrados no presente estudo permitem
estabelecer uma analogia com um dos padrões de violência descritos por Johnson
e Ferraro (2000), mais concretamente o tipo common couple violence. Porém,
torna-se necessário ressalvar que não é possível certificar esta
correspondência, já que não se consegue discriminar, no nosso estudo, a pessoa
que reage em auto-defesa daquela que iniciou a violência, tendo sido ambas
codificadas como agressoras.
No que concerne ao impacto das diferentes variáveis sociodemográficas
consideradas, o género parece ter influência na violência física, emocional e
sexual, com os rapazes a relatarem mais ser alvo de vitimação física, ao mesmo
tempo que relatam mais perpetração de violência emocional e sexual. Estes dados
sugerem, assim, um padrão de maior ambiguidade do que os dos estudos levados a
cabo por Paiva e Figueiredo (2005) e Machado, Caridade e Martins (2009) que
associavam claramente níveis superiores de perpetração às raparigas. No que
concerne, contudo, especificamente à violência sexual, os dados do nosso estudo
são congruentes com a investigação empírica internacional (e.g.,
O'Sullivan, Byers, & Finkelman, 1998) e nacional (Martins &
Machado, no prelo; Paiva & Figueiredo, 2005), que atribui maior perpetração
sexual aos rapazes. Alguns autores (Flack et al., 2007; Muehlenhard &
Linton, 1987) afirmam, aliás, que este tipo de violência tende a ser frequente
nas relações ocasionais precisamente devido a disparidades de género existentes
nestes relacionamentos, que surgem, desde logo, quanto ao nível de intimidade
física desejado (Flack et al., 2007), usualmente maior pelos rapazes.
Subjacente a este facto estarão as diferenças de socialização entre rapazes e
raparigas em matéria de sexualidade, nomeadamente o duplo padrão sexual e o
facto de, apesar de se envolverem em relações ocasionais, este tipo de relação
ser menos bem vista e aceite entre as raparigas (Daubman & Schatten, 2005,
citados por ibidem).
Tal como constataram Stets e Pirog-Good (2002, citados por Cyr, McDuff, &
Wright, 2006) - mas ao contrário do que encontraram Machado, Caridade e
Martins (2009) - a idade, ano escolar e grau de formação encontram-se
negativamente associadas à vitimação e perpetração de violência. Do nosso ponto
de vista, tal poderá acontecer porque os adolescentes evidenciam uma menor
maturação relacional e, consequentemente, uma menor capacidade de negociação de
conflitos e resolução de problemas, o que favorece a violência.
No que concerne à influência do nível socioeconómico, os resultados por nós
encontrados reproduzem os de alguns estudos nacionais (Machado, Caridade, &
Martins, 2009) e internacionais (e.g., Cyr, McDuff, & Wright, 2006;
Flisher, Myer, Mèrais, Lombard & Reddy, 2007; O'Keefe, 1997), no
sentido da falta de impacto desta variável, pelo menos no que diz respeito às
relações juvenis (já que no contexto conjugal vários estudos - e.g.,
Machado, Gonçalves, Matos, & Dias, 2007 - indicam a maior prevalência
da violência nos sectores sociais mais desfavorecidos).
Quando passamos destas variáveis sociodemográficas para a análise de factores
mais especificamente relacionais, não verificamos impacto significativo da
duração da relação quanto à ocorrência de violência. Embora esta associação
tenha sido encontrada noutras investigações (e.g., Gagné, Lavoie, & Hébert,
2005; Harned, 2002; Marcus & Swett, 2002), salientamos a natureza
específica das ligações afectivas estudadas neste trabalho, na sua maioria de
muito curta duração quando comparadas com as relações de namoro analisadas
naqueles estudos.
Não encontrámos também um impacto significativo do sentimento relatado face ao
parceiro ocasional, excepto para a paixão associada à vitimação física. Este é
um resultado que merece mais exploração, na medida em que existem autores
(Neufeld, McNamara, & Ertl, 1999) que, num estudo sobre a violência no
namoro, concluíram que o comprometimento emocional contribuía para o aumento de
violência. No entanto, mais uma vez, a especificidade destas relações pode
explicar estes resultados, já que - independentemente do sentimento
verbalizado aquando do inquérito - o grau de compromisso e envolvimento
dos participantes é, em princípio, menor do que o presente nas relações de
namoro. Daí, eventualmente, o seu menor impacto em termos de violência.
Finalmente, os nossos dados corroboram os estudos que afirmam que a conduta
violenta nas relações de intimidade tende a aumentar conforme o número de
relacionamentos mantidos (cf. Cyr, McDuff, & Wright, 2006;
Neufeld,McNamara, & Ertl, 1999; O'Keefe, 1997). Uma hipótese
explicativa para este dado poderá ser o facto de o envolvimento mais frequente
em relações ocasionais poder levar o sujeito a desvalorizá-las no plano
emocional, percepcionando-as como ligações puramente físicas e sexuais, sendo
que este desinvestimento emocional pode facilitar o envolvimento em
comportamentos violentos. No entanto, O'Keefe (1997) aconselha prudência
na interpretação destes dados, uma vez que este resultado pode decorrer
simplesmente das oportunidades para a violência, ou seja, quanto mais parceiros
teve um indivíduo, mais probabilidades teve de enfrentar conflitos nessas
relações e mais oportunidades teve para perpetrar ou sofrer violência.
O presente estudo apresenta várias limitações, entre as quais se destacam as
questões metodológicas. Em primeiro lugar, esta foi uma amostra de
conveniência, limitada a uma Universidade e duas escolas secundárias, de uma
região específica do país. O alargamento desta amostra é, pois, fundamental, se
pretendermos confirmar os resultados e algumas hipóteses explicativas dos
mesmos aqui avançadas.
Paralelamente, este estudo enfrenta as limitações típicas das investigações
feitas através de instrumentos de auto-relato, muito particularmente a
impossibilidade de recolher informações mais detalhadas sobre o incidente
(e.g., quem iniciou a interacção abusiva, grau de força aplicada, danos
causados, intencionalidade). Este instrumento não permitia, também, discriminar
em quantas relações ocasionais ocorreu o comportamento abusivo.
Finalmente, o facto de a recolha dos dados ter sido efectuada,
maioritariamente, em contextos que reuniam vários jovens apresenta aspectos
potencialmente negativos: a veracidade do seu relato pode ter ficado
comprometida quando o jovem se encontrava acompanhado, apesar dos esforços
desenvolvidos para minimizar este efeito.
CONCLUSÃO
No cômputo geral, este estudo demonstra que o fenómeno da violência nas
relações íntimas juvenis se alarga a outros relacionamentos, que não apenas o
contexto do namoro. Segundo alguns autores, as relações afectivas ocasionais
estão, de certo modo, a substituir essas relações íntimas tradicionais
(Manning, Giordano, & Logmore, 2006), o que parece, em certa medida, ser
sugerido pelo nosso estudo, já que a maioria dos jovens está envolvido ou já se
envolveu num relacionamento ocasional (72.3%). Dada a frequência destes
relacionamentos, torna-se fundamental estudar a prevalência da violência nesta
nova realidade relacional, algo, contudo, que ainda foi muito pouco explorado
pela investigação na área.
Este estudo sugere, ainda, que as relações ocasionais podem ser contextos de
particular risco para a violência, se aceitarmos que os níveis de prevalência
encontrados são superiores aos verificados nas relações de namoro. Quais são as
especificidades das relações ocasionais que contribuem para essa
vulnerabilidade? O que se modifica nos processos de transição entre as relações
ocasionais e o namoro? Serão os programas de prevenção da violência concebidos
no contexto das relações de namoro também eficazes para diminuir a agressão
nestes contextos relacionais mais fluidos e instáveis?
Uma vez que as relações afectivas ocasionais constituem uma área de
investigação recente na comunidade científica, é pertinente avançar com
propostas de investigação que esclareçam estas e outras questões. Do nosso
ponto de vista, os resultados encontrados neste estudo exploratório sugerem que
este fenómeno deve continuar a ser estudado, em duas vertentes: por um lado,
surge a necessidade de avaliar a prevalência da violência nas relações
ocasionais através de estudos representativos alargados ao contexto nacional;
por outro, torna-se necessário compreender a fenomenologia da violência nestas
novas formas de intimidade juvenil. Ou seja, seria relevante conhecer os
significados atribuídos pelos jovens às relações ocasionais e à violência que
nelas ocorre, conhecer os contextos em que estas relações predominam e perceber
as dinâmicas relacionais que as caracterizam e que facilitam a violência.