Uma abordagem qualitativa às motivações positivas e negativas para a
parentalidade
INTRODUÇÃO
A diminuição da natalidade e o adiamento do nascimento do primeiro filho têm
sido tendências cada vez mais prevalentes nos países economicamente
desenvolvidos, incluindo Portugal (OCDE, 2011). O seu impacto na
sustentabilidade social e financeira e na capacidade reprodutiva dos casais
(Wijsen, 2002) têm evidenciado a importância de melhor compreender as decisões
reprodutivas contemporâneas. Estas têm sido essencialmente atribuídas às
mudanças sociais, económicas e culturais que se têm verificado nas últimas
décadas (OCDE, 2011). No entanto, esta abordagem tem apenas oferecido uma
compreensão parcelar (Langdridge, Sheeran, & Connolly, 2005),
negligenciando uma importante componente individual dos processos de tomada de
decisão reprodutiva (Wijsen, 2002).
Os modelos de decisão reprodutiva têm valorizado as percepções acerca dos
benefícios e custos de ter filhos (Fawcett, 1983; Hoffman & Hoffman, 1973),
designados de motivações positivas e negativas para a parentalidade (Miller,
1994). Estas disposições para percepcionar favorável e desfavoravelmente a
parentalidade e as suas consequências têm sido descritas como determinantes dos
desejos, intenções e comportamentos reprodutivos (Miller, 1995). Têm, contudo,
sido reconhecidas como complexas e sujeitas a variações socioculturais (Dyer,
2007). Em Portugal, são poucos os estudos acerca das motivações para a
parentalidade; somente algumas investigações se têm interessado pelos
significados (Martins, 2010) ou funções (Cunha, 2008) de um filho. Torna-se,
por isso, importante clarificar a forma como estas motivações se expressam no
contexto português actual. O seu conhecimento reveste-se de relevância clínica,
dada a sua influência nas trajectórias de (in)adaptação dos casais à gravidez e
parentalidade (Canavarro, 2001) ou a outros percursos reprodutivos, como a
infertilidade (Cassidy & Sintrovani, 2008).
Compreensão das motivações para a parentalidade
A compreensão das motivações para a parentalidade tem-se baseado em
investigações conduzidas em variados contextos, com recurso a metodologias
qualitativas e quantitativas diversificadas (Dyer, Mokoena, Maritz, & Van
der Spuy, 2008). Face à sua complexidade e à dificuldade em avaliar este
domínio (Dyer, 2007), poucos têm sido os estudos junto da população em geral
(e.g., Arnold et al., 1975; Langdridge et al., 2005; Miller, 1995). Grande
parte das investi gações tem envolvido amostras de conveniência, especialmente
estudantes universitários (e.g., Gormly, Gormly, & Weiss, 1987;
O'Laughlin & Anderson, 2001). Porém, a inconsistência dos seus
resultados tem conduzido os investigadores a privilegiar grupos clínicos que
enfrentam experiências reprodutivas específicas, como sobreviventes de cancro
(e.g., Shover, 2005) e casais inférteis (e.g., Cassidy & Sintrovani, 2008)
ou indivíduos que decidem voluntariamente não ter filhos (e.g., Park, 2005). A
natureza destas experiências tem facilitado a expressão das motivações para a
parentalidade que permanecem, muitas vezes, latentes na população em geral
(Dyer et al., 2008). No entanto, tem-se evidenciado a importância de uma
abordagem compreensiva das motivações positivas e negativas na população em
geral (Purewal & Van der Akker, 2007). Nesse sentido, a literatura tem
recomendado o recurso a outros informadores, que possibilitem um conhecimento
mais vasto destas motivações. Investigações recentes têm-se interessado pelas
percepções que os estudantes da área da saúde desenvolvem no contexto das suas
práticas profissionais; contudo, têm negligenciado a perspectiva dos
profissionais especializados na área da gravidez e da parentalidade (Fraser
& Hughes, 2009).
Não obstante a sua heterogeneidade e as suas limitações, as investigações
referidas têm apontado para uma vasta constelação de motivações positivas e
negativas. Globalmente, estas têm-se expresso em dimensões emocionais/
psicológicas, sociais/normativas, económicas/utilitárias e biológicas/físicas,
consistentes com as descrições dos modelos clássicos de decisão reprodutiva
(Fawcett, 1983).
Motivações positivas para a parentalidade
No que diz respeito às motivações positivas para a parentalidade, as dimensões
emocionais/ /psicológicas têm contemplado a relação de amor recíproco, única e
especial com a criança (Langdridge et al., 2005). Outros aspectos desta
relação, como a alegria e a felicidade (Cassidy & Sintrovani, 2008), o
orgulho e estimulação (Arnold et al., 1975), a possibilidade de cuidar, ensinar
(Miller, 1995) e reparar experiências com filhos anteriores (Siegel &
Schrimshaw, 2001) têm sido descritos. Estas dimensões têm ainda sido
relacionadas com o fortalecimento ou manutenção da relação conjugal e a
realização pessoal (Van Balen & Trimbos-Kemper, 1995). Os laços familiares,
como a companhia para outro filho (Bulatao, 1981), têm sido menos valorizados.
As dimensões sociais/normativas têm sido relacionadas com o cumprimento de
expectativas sociais e familiares ou de preceitos morais e religiosos
(Pezeshki, Zeighami, & Miller, 2005); têm ainda contemplado a afirmação do
estatuto social/identidade de adulto, a continuidade familiar, imortalidade e
preservação da espécie (Cassidy & Sintrovani, 2008; Van Balen &
Trimbos-Kemper, 1995). A força de trabalho como forma de ajuda ao sustento
económico da família e o apoio na velhice têm caracterizado as dimensões
económicas/utilitárias (Miller, 1995).
As dimensões biológicas/físicas têm sido relacionadas com a concretização de um
instinto ou "apelo" do relógio biológico (Inborn & Van Balen,
2002) e a afirmação da sua fertilidade (Shover 2005) ou masculinidade/
feminilidade (Newton, Hearn, Yuzpe, & Houle, 1992). O desejo de viver a
gravidez e o parto (Miller, 1995) e os laços biológicos (Miller, Millstein,
& Pasta, 2008) têm sido igualmente contemplados.
Motivações negativas para a parentalidade
No que refere às motivações negativas, as dimensões emocionais/psicológicas têm
sido associadas aos constrangimentos para a autonomia pessoal e conjugal,
estilos de vida e carreira profissional (Carmichael & Whittaker, 2007;
Langdridge et al., 2005; O'Laughlin & Anderson, 2001). As exigências
dos cuidados parentais, as responsabilidades e preocupações com a criança
(Arnold et al., 1975; Langdridge et al., 2005; Miller, 1995), a imaturidade
(Gerson, Berman, & Morris, 1991) ou a inexistência de qualidades adequadas
ser pai/mãe (Carmichael & Whittaker, 2007) têm ainda sido contempladas.
Problemáticas familiares, como o desgaste com o papel de cuidador assumido com
outros familiares, o receio da transgeracionalidade de problemas de saúde
familiares ou de perpetuar experiências relacionais vividas com os pais, têm
sido menos descritas (Connidis & McMullin, 1996; Shover, 2005).
As dimensões sociais/normativas têm contemplado preocupações demográficas
(sobrepopu
lação) e a responsabilidade social face ao estado actual do mundo (Pezeshki,
Zeighami, & Miller, 2005). As restrições e despesas financeiras com a
criança têm caracterizado as dimensões económicas/utilitárias (Arnold et al.,
1975; Park, 2005).
Por fim, as dimensões biológicas/físicas têm sido relacionadas com as
alterações negativas na imagem corporal feminina (Arnold et al., 1975), os
desconfortos físicos da gravidez e do parto (Miller, 1995) e a inexistência de
instinto parental (Park, 2005).
Variabilidade na frequência das motivações para a parentalidade
Esta constelação de motivações positivas e negativas tem sido descrita com mais
ou menos frequência, em função do contexto socioeconómico e cultural (Arnold et
al., 1975; Inborn & Van Balen, 2002), do género, da idade e da paridade
(Gerson et al., 1991; Gormly et al., 1987; O'Laughlin & Anderson,
2001).
As motivações positivas têm sido mais valorizadas (Arnold et al., 1975; Bell,
Bancroft, & Phillip, 1985), especialmente nas suas dimensões emocionais/
psicológicas. Estas dimensões têm sido descritas de forma universal,
independentemente do género e da paridade (Inborn & Van Balen, 2002);
exceptuam-se a reparação de experiências (Siegel & Schrimshaw, 2001) e a
com panhia para outro filho (Bulatao, 1981) que têm sido referidas pelos casais
que já têm filhos. As dimensões sociais/normativas e económicas/utilitárias têm
sido valorizadas nos países em desenvolvimento (Arnold et al., 1975; Inborn
& Van Balen, 2002). A afirmação do estatuto social/identidade de adulto tem
assumido especial expressão entre os mais jovens que ainda não foram pais,
especialmente as mulheres (Gormly et al., 1987; Van Balen, 2005). As
expectativas sociais e os preceitos religiosos, a ajuda ao sustento e o apoio
na velhice têm sido valorizados nos meios desfavorecidos e com forte orientação
religiosa (Van Rooij, Van Balen, & Hermanns, 2007). As dimensões
biológicas/físicas têm sido destacadas pelos indivíduos que enfrentam desafios
reprodutivos (Miller et al., 2008; Shover, 2005).
Ao nível das motivações negativas, as dimensões emocionais/psicológicas têm
sido valorizadas nos países economicamente desenvolvidos (Arnold et al., 1975;
Miller, 1995). Os constrangi mentos pessoais e conjugais, a imaturidade e a
inexistência de qualidades adequadas para ser pai/mãe têm-se evidenciado entre
os mais jovens, especialmente nas mulheres que ainda não foram mãe e que,
frequentemente, não tencionam ter filhos no futuro (Carmichael & Whittaker,
2007; Langdridge et al., 2005; O'Laughlin & Anderson, 2001). As
exigências dos cuidados parentais têm assumido especial expressão nas mulheres,
tornando-se mais significativas à medida que aumenta o número de filhos
(Bulatao, 1981). As dimensões sociais/normativas, económicas/ /utilitárias e
biológicas/físicas têm assumido maior expressão nos países em vias de
desenvolvi mento e nos meios economicamente desfavorecidos (Arnold et al. 1975;
Pezeshki et al., 2005); as restrições financeiras têm igualmente sido mais
valorizadas pelos homens (Arnold et al., 1975; O'Laughlin & Anderson,
2001).
Objectivos
Face às limitações da investigação existente e à escassez de investigações
nacionais, torna-se importante desenvolver estudos que proporcionem uma
abordagem compreensiva às motivações positivas e negativas para a parentalidade
(Purewal & Van den Akker, 2007), no contexto sociocultural português
actual. A dificuldade em avaliar este domínio na população em geral (Dyer,
2007) tem evidenciado a necessidade de considerar outros informadores que
possibilitem melhor compreender as motivações para a parentalidade.
Investigações mais recentes têm apontado o potencial contributo dos
profissionais especializados (Fraser & Hughes, 2009), na medida em que
interagem com casais oriundos de diversos contextos socioeconómicos e
culturais.
Neste contexto, o presente estudo exploratório teve como principal objectivo
conhecer as motivações para a parentalidade numa amostra portuguesa de
profissionais e participantes da população em geral. De forma específica, este
estudo procurou (1) descrever as motivações positivas e negativas para a
parentalidade, nas suas diferentes dimensões e (2) identificar a frequência com
que estas motivações são expressas.
MÉTODO
Participantes
A amostra foi constituída por 24 participantes, com idades compreendidas entre
os 22 e os 62 anos (M=34.74, DP=10.09), na sua maioria do sexo feminino (75%),
casados/unidos de facto (75%), com formação superior (95.8%) e nível
socioeconómico médio (66.7%) (de acordo com a classificação de Simões, 1994).
Os participantes foram recrutados entre os profissionais e utentes da
Maternidade Doutor Daniel de Matos dos Hospitais da Universidade de Coimbra
(HUC) e por convite a participantes da população em geral.
Os utentes/participantes da população em geral foram divididos em três grupos
focais, em função do seu género e paridade (G1, G2 e G3). Com efeito, a
literatura tem evidenciado que as motivações para a parentalidade variam em
função do género e da paridade (Gormly et al., 1987; O'Laughlin &
Anderson, 2001), especialmente as motivações negativas que têm sido descritas
como mais difíceis de avaliar (Purewal & Van den Akker, 2007). A
homogeneidade dos grupos nestas variáveis foi, assim, considerada uma condição
facilitadora da interacção dos participantes (Morgan, 1996). Foi ainda
constituído um grupo focal de profissionais (G4), de modo a possibilitar uma
compreensão mais vasta das motivações para a parentalidade (Fraser &
Hughes, 2009).
O G1 (n=5) foi composto por duas mulheres grávidas, uma mulher com uma filha
recém-nascida e duas mulheres sem filhos que não tencionavam ser mães no
momento; com idades compreendidas entre os 22 e os 35 anos (M=28.20, DP=2.13),
todas as participantes tinham formação superior e apresentavam um nível
socioeconómico médio, sendo, na sua maioria, solteiras (60%). O G2 (n=6)
incluiu dois homens à espera do primeiro filho, dois homens com filhos recém-
nascidos e dois homens sem filhos que não tencionavam ser pais no momento; com
idades compreendidas entre os 28 e os 35 anos (M=30.60, DP=2.97), a maioria dos
participantes era casado/unido de facto (83.3%), tinha formação superior
(83.3%) e apresentava um nível socioeconómico médio (50%). O G3 (n=5) foi
constituído por cinco mulheres com filhos em idade pré-escolar e escolar; com
idades compreendidas entre os 30 e os 41 anos (M=35, DP=4.53), todas as
participantes eram casadas/unidas de facto e tinham formação superior,
apresentando, na sua maioria, um nível socioeconómico elevado (80%). O G4 (n=8)
incluiu três psicólogas, duas enfermeiras, uma assistente social, uma médica
obstetra e uma educadora de infância; com idades compreendidas entre os 22 e os
62 anos (M=41.25, DP=14.11), todas as participantes tinham formação superior,
sendo, na sua maioria, casadas/unidas de facto (75%) e apresentando um nível
socioeconómico médio (87.5%).
Procedimentos
O presente estudo enquadra-se num projecto de investigação mais vasto,
intitulado "Transição para a parentalidade em idade materna avançada:
Adaptação individual, conjugal e cuidados parentais", aprovado pela
Comissão de Ética dos HUC.
A recolha de dados foi realizada através de quatro grupos focais. O recurso a
grupos focais tem-se afirmado como uma metodologia privilegiada para a
investigação aprofundada das motivações dos grupos (Krueger & Casey, 2009),
coadunando-se com os objectivos deste estudo exploratório. O seu ambiente de
interacção propício à discussão e reflexão tem sido considerado especialmente
vantajoso para a exploração de temáticas complexas (Morgan, 1996), como as
motivações para a parentalidade.
Com uma duração de cerca de uma hora e meia, os quatro grupos focais foram
conduzidos na biblioteca da Maternidade Doutor Daniel de Matos dos HUC, uma
sala livre de interferências sonoras, com condições propícias à interacção dos
participantes. Foram moderados por um psicólogo clínico especializado na área
da gravidez e parentalidade, com o apoio de um assistente, com a mesma
formação, responsável pela gravação áudio e pelo registo de aspectos não-
verbais, no decorrer da discussão.
Os participantes foram recebidos à entrada da maternidade, pelo moderador e
encaminhados para a biblioteca da maternidade. Após a apresentação dos
responsáveis pela condução dos grupos focais, o moderador procedeu a uma breve
introdução acerca do tema em discussão, explicitando a natureza e os objectivos
do estudo. Antes de iniciar a discussão, foram garantidos a confiden cialidade
das respostas e obtido o consentimento informado dos participantes.
Clarificados os aspectos éticos, o moderador solicitou aos participantes se
apresentassem, indicando o seu nome, de modo a criar um ambiente favorável à
interacção. De seguida, o moderador iniciou a discussão, com base no guião de
entrevista semi-estruturada, desenvolvido para o efeito (cf. Instrumentos). No
final da discussão, o moderador solicitou o preenchimento de uma ficha de dados
sociodemográficos aos participantes.
Instrumentos
Além da ficha de dados sociodemográficos, foi desenvolvido um guião de
entrevista semi-estruturada, que foi discutido por seis psicólogos
especializados na área da gravidez e parentalidade. Este guião iniciou-se com
uma questão geral acerca das motivações positivas para a parentalidade
("O que pensam que leva as pessoas a desejarem ter filhos?"). Foram
subse quentemente formuladas questões específicas de modo a explorar cada uma
das dimensões emocionais/psicológicas, sociais/normativas, económicas/
utilitárias e biológicas/físicas ("Pensam que as pessoas podem desejar
ter filhos por questões afectivas ou psicológicas/sociais/económicas/
biológicas?") das motivações positivas para a parentalidade. Uma
estruturação semelhante foi utilizada para examinar as motivações negativas
para a parentalidade ("O que pensam que leva as pessoas a não desejarem
ter filhos?") e cada uma das suas dimensões ("Pensam que as pessoas
podem não desejar ter filhos por questões afectivas ou psicológicas/sociais/
económicas/físicas?"). Por fim, foi dada aos participantes a
possibilidade de fazerem comentários finais a respeito das questões debatidas,
caso não tivessem tido essa oportunidade no decorrer da sessão.
Análise de dados
A análise de dados fundamentou-se num processo contínuo de recolha, redução,
apresentação e verificação de dados (Huberman & Miles, 1994). Num primeiro
momento, transcrevemos textual e integralmente (verbatim) os registos áudio dos
grupos focais; as transcrições foram verificadas quanto à sua adequação para o
tratamento de dados (Bloomberg & Volpe, 2008). Com auxílio do software QSR
NVivo 8, procedemos à análise de conteúdo das transcrições, assumindo o tema
como unidade de codificação (Bardin, 2004). De facto, a análise de conteúdo tem
sido recomen dada para a análise de dados provenientes de grupos focais
(Krueger & Casey, 2009), coadunando-se com os objectivos do presente estudo
exploratório. Num primeiro momento, criámos as categorias superiores relativas
às motivações positivas e negativas para a parentalidade e às suas dimensões
emocionais/psicológicas, sociais/normativas, económicas/utilitárias e
biológicas/físicas, com base no guião de entrevista semi-estruturada. De
seguida, foram codifi cadas todas as unidades de sentido, de modo a identificar
subcategorias emergentes (e.g., relação com a criança; expectativas sociais;
apoio ao sustento; instinto biológico; exigências da parentali dade; alterações
corporais negativas) que foram posteriormente analisadas e relacionadas. Os
princípios da mútua exclusi vidade, exaustividade, relevância e objectividade
das categorias foram considerados (Bardin, 2004). Após uma primeira
codificação, os dados foram sistematicamente revistos e discutidos com outro
codificador independente; com auxílio do software QSR NVivo 8, calculámos as
percentagens de acordo inter-observador e os coeficientes Kappa de Cohen, de
modo a avaliar o acordo entre os codificadores (Bloomberg & Volpe, 2008).
Averiguámos ainda a frequência e extensão das respostas dos participantes, em
conformidade com as recomendações de Krueger e Casey (2009); com auxílio do
software QSR NVivo 8, calculámos o número total de referências, o número de
referências por cada categoria/subcategoria e o número de participantes que
mencionou cada categoria/subcategoria, em cada grupo e no conjunto dos grupos.
RESULTADOS
Descrição das motivações para a parentalidade1
A Figura_1 sumaria as motivações positivas e negativas para a parentalidade,
descritas pelos participantes da amostra.
Motivações positivas para a parentalidade
Dimensões emocionais/psicológicas
A relação com a criançafoi especialmente valorizada pelo G3, que a descreveu
como uma relação recíproca de amor, única e especial:
Nas motivações para ter filhos, a parte afectiva é importante. É a
possibilidade de gostar muito de alguém e ser recíproco, receber
também. Não pode haver nada superior a isto, nem o "Amo-
te" do marido. É um amor incondicional (Laura, 36 anos, mãe de
dois filhos).
Além disso, os vários grupos referiram a reparação de experiências vividas com
filhos anteriores, em casos de doença crónica ou morte. Valorizaram ainda a
construção de um vínculo afectivo, que se distingue de outras relações
afectivas:
Outra motivação para ter filhos é ter uma companhia, ter alguém que
faz parte da nossa vida para sempre, que não está sujeito a laços que
se desfazem como os de outras relações (Alice, 35 anos, grávida do
primeiro filho).
Os G1 e G3 descreveram também a possibilidade de cuidar, educar e ensinar uma
criança, orientando o seu percurso desenvolvimental e ajudando-a a crescer.
A relação conjugalfoi especialmente valorizada pelo G4. A parentalidade foi
descrita como uma forma de fortalecimento conjugal, de ter um fruto do amor e
da união do casal, um projecto comum e um elo de ligação/proximidade:
Para os casais, ter um filho é uma forma de proximidade. É uma forma
de os unir, de os tornar mais íntimos e próximos. Quase como que um
fruto do seu casamento e da sua união (Sandra, 26 anos, psicóloga).
Este fortalecimento conjugal foi igualmente entendido como uma oportunidade de
crescimento conjugal, um salto desenvolvimental que possibilita a evolução do
casal para um patamar superior de maturidade. A parentalidade foi ainda
considerada como uma forma de manter a relação conjugal e evitar a desagregação
do casal; os vários grupos evidenciaram, contudo, o seu cepti cismo em relação
aos benefícios desta motivação para a parentalidade para a díade conjugal.
Os laços familiaresforam especialmente descritos pelo G3, como uma forma de
fortalecer o espírito familiar e de unir as várias gerações da família
alargada:
Não é só propriamente ter um filho ou ter um neto, é o tipo de coesão
em termos de família, as pessoas estarem juntas. Pode ser um factor
de coesão e aproximação da família alargada (Carlos, 35 anos, à
espera do primeiro filho).
Os participantes apontaram ainda a possibilidade de proporcionar uma companhia
a outro(s) filho(s), promovendo o seu desenvolvimento psicossocial.
A realização pessoalfoi descrita como a consecução de um projecto de vida ou
objectivo pessoal ou o preenchimento de um papel desejado; poucos participantes
referiram a afirmação pessoal em relação aos seus pais ou a reparação de
experiências negativas vividas na sua infância.
Dimensões sociais/normativas
O cumprimento de expectativas sociaisfoi especialmente valorizado pelo G2 e G4.
Descre veram as normas socioculturais que enquadram a parentalidade como uma
fase normativa do ciclo de vida e a pressão familiar explícita ou implícita:
Acho que ser pai é uma coisa normal, natural. Faz parte do ciclo de
vida. E depois, eu noto, que os meus pais e os meus sogros estão
constantemente a dizer que já está na altura. Acho que aí, há também
um pouco a expectativa, ou a pressão (Tomás, 28 anos, sem filhos).
O cumprimento de preceitos religiososfoi um tema gerador de opiniões
divergentes, especialmente debatido pelo G2 e G4. Foi descrito como uma
motivação cada vez menos frequente, com expressão numa minoria de casais,
oriundos de contextos socioculturais mais tradicionais. O seu valor enquanto
motivação genuína foi, contudo, questionado no contexto actual; o G4 realçou a
instrumentalização da religião como forma de justificar a desresponsabilização
em relação ao planeamento familiar.
A afirmação do estatuto social/identidade de adultofoi especialmente discutida
pelo G4. A parentalidade foi, assim, caracterizada como uma consecução
socialmente valorizada que facilita o reconhecimento do casal enquanto família,
a afirmação da identidade de adulto e a independência em relação à família de
origem. Esta motivação foi descrita como específica dos casais mais jovens e
oriundos de meios socioeconómicos mais desfavorecidos, associando-se
frequentemente a dificuldades de adaptação à transição para a parentalidade:
No caso da afirmação da identidade de adulto, estamos a falar de mães
novas, de crianças que têm outras crianças e, muitas vezes, têm um
relacionamento com outra pessoa que também é uma criança.
Inicialmente a maternidade é uma forma de sair de casa, dos pais
aceitarem a relação. E depois, quando chegam a casa com o bebé, a
realidade instala-se. Há uma série de responsabi lidades que têm de
assumir e para as quais não estão preparadas (Andreia, 52 anos,
enfermeira).
A continuidadefoi especialmente valorizada pelo G4, que a descreveu como uma
forma de preservação da espécie, de assegurar a descendência da família e a
transmissão das heranças familiares. Os restantes grupos valorizaram
essencialmente a continuidade dos valores, afectos e interacções familiares:
Ter um filho é a possibilidade de dar continuação a um padrão de
relações familiares, um ciclo de interacções nos quais crescemos e
que achamos que é um bom modelo para poder passar a outra pessoa que
esperamos poder ajudar a crescer bem. Mas não tanto no sentido de
preser vação da espécie ou de dar continuidade ao nome, eu acho que é
dar continuidade às emoções e aos valores que nos unem enquanto
família (Alice, 35 anos, grávida do primeiro filho).
Dimensões económicas/utilitárias
No que se refere à ajuda ao sustento económico da família, a percepção dos
filhos como força de trabalho foi relegada para o passado. Contudo, uma nova
forma de ajuda foi geradora de posições marcadamente divergentes. O G4
descreveu a obtenção de subsídios sociais como uma motivação cada vez mais
presente no discurso dos casais mais carenciados:
A obtenção de subsídios até é verbalizada pelas pessoas. Quer em
termos de subsídios decorrentes da maternidade, como outros subsídios
eventuais, a que as pessoas têm direito e têm por base o agregado
familiar (Inês, 49 anos, assistente social).
No entanto, os restantes grupos consideraram os apoios do sistema social
português como insuficientes para se constituírem como uma motivação para ter
filhos.
O apoio futurona velhice e para outro filho doente foi um tema pouco
consensual, especial mente debatido pelo G2. Foi, por um lado, descrito como
uma motivação específica de determi nadas configurações familiares (por
exemplo, famílias monoparentais). A sua pertinência foi, por outro lado,
desvalorizada no contexto social actual e a sua discussão foi caracterizada por
um marcado conflito de valores:
Até chegar a esse, há tantos pensamentos egoístas que se têm
primeiro. Pensar na criança como um apoio futuro é uma forma cruel de
condicionar uma pessoa passados uns anos (José, 30 anos, à espera do
primeiro filho).
Dimensões biológicas/físicas
A concretização de um instinto biológicofoi descrita por todos os grupos como
uma necessidade básica, não racional e essencialmente feminina:
Por enquanto não sinto necessidade de ter filhos, ao contrário da
minha mulher, que quase todos os dias me diz que quer ter um filho.
Penso que, da parte das mulheres, deve haver ali um instinto, ou
qualquer coisa em termos biológicos, para a maternidade que pode
criar mais motivação nas mulheres do que nos homens (Tomás, 28 anos,
sem filhos).
A afirmação da fertilidadee feminilidade/masculinidadefoi referida pelos vários
grupos, à excepção do G2. Esta motivação foi, contudo, descrita como
especialmente relevante para os casais que enfrentam dificuldades reprodutivas.
A pressão do relógio biológicona capacidade reprodutiva feminina foi descrita
pelos vários grupos, à excepção do G2. Foi considerada especialmente importante
para as mulheres com forte investimento na carreira profissional:
Existem motivações específicas para as mulheres que têm uma vida
profissional muito activa. Quando começam a chegar a um determinado
patamar de idade, começam a pensar que têm uma data marcada para ter
filhos: "Eu quero ter filhos porque sei que o meu prazo de
validade está a terminar" (Sandra, 26 anos, psicóloga).
Motivações negativas para a parentalidade
Dimensões emocionais/psicológicas
As exigências da parentalidadeforam valorizadas pelo G3, que as relacionou com
o cansaço físico e emocional decorrente dos cuidados a uma criança pequena:
O meu primeiro filho deixava-me louca: não conseguia dormir, mamava
de hora e meia em hora em meia, passava a vida com cólicas. Foi
horrível. Noites e noites sem dormir, é extenuante. Estas exigências
podem ser um motivo para não ter filhos para alguns casais
(Margarida, 42 anos, mãe de cinco filhos).
O G3 valorizou ainda as responsabilidades e preocupações constantes com a
criança. Consi derou, contudo, que a consciência destas exigências se
desenvolve com a experiência de parenta lidade, sendo essencialmente femininas.
Consequentemente descreveram-nas como determinantes do momento do nascimento do
primeiro filho e do número de filhos que os casais decidem ter mais do que da
decisão de ter ou não filhos.
Os constrangimentos conjugaisforam menos valorizados pelos vários grupos. Foram
relacio nados com a perda de autonomia para o casal e com o desgaste relacional
decorrente das exigências da parentalidade:
Existem muitas pessoas que não querem ter filhos porque pensam que
vão perder tempo e autonomia enquanto casal e até mesmo que o casal
se pode desagregar (Alice, 35 anos, grávida do primeiro filho).
Ao nível dos problemas familiares, os vários grupos valorizaram os receios de
transgeracio nalidade de problemas de saúde familiares ou de ter outro filho
doente/portador de deficiência. O G3 descreveu ainda questões relacionais, como
o desgaste com o papel de cuidador assumido com outros familiares (e.g., pais,
irmãos ou sobrinhos) ou o receio de reproduzir modelos parentais negativos
vividos na infância.
Os constrangimentos pessoaisforam descritos pelos vários grupos. Evidenciaram
as restrições para a autonomia pessoal, estilos de vida (viagens, lazer, vida
social) e carreira profissional, especialmente no caso feminino:
Existem muitas motivações para não se ter um filho, por exemplo, a
dificuldade em se abdicar de uma série de coisas que já se
conquistaram. A possibilidade de viajar ou de ter um determinado
estilo de vida, que, com uma criança muda (Alice, 35 anos, grávida do
primeiro filho).
A preparação emocionale a imaturidade foram valorizadas pelos G1 e G2: Eu penso
que uma outra motivação para não ter filhos pode estar associada ao facto de
não se sentir preparado para a parentalidade. Eu tenho 28 anos e ainda não me
sinto preparado. Quer em termos psicológicos, ao nível da maturidade, quer em
termos das tarefas que vou ter de desempenhar (Tomás, 28 anos, sem filhos).
Dimensões sociais/normativas
Os vários grupos debateram apenas a responsabilidade socialde ter um filho face
aos problemas sociais (e.g., violência, trajectórias desviantes) e ambientais
(e.g., poluição, catástrofes naturais) actuais. Todavia, este tema não reuniu
consenso; a maioria dos participantes dos vários grupos considerou-o uma
justificação socialmente aceitável para a decisão de não ter filhos, ao invés
de uma motivação genuína.
Dimensões económicas/utilitárias
Os vários grupos, especialmente o G2, mencionaram as restrições e despesas
financeirasdecorrentes da educação e prestação de cuidados a uma criança. No
entanto, os participantes consideraram que estas restrições não determinam a
decisão de ter ou não filhos mas o número de filhos que os casais decidem ter.
Dimensões biológicas/físicas
O medo de sofrer complicações físicasna gravidez e no parto foi exclusivamente
descrito pelo G4.
Um dos motivos pelos quais as pessoas podem decidir não engravidar tem a ver
com o medo da gravidez e do parto, que se relaciona com questões estruturais da
personalidade, com a necessidade de controlo (Maria, 30 anos, psicóloga).
As alterações negativas no peso, forma e imagem corporal femininaforam
referidas pelos vários grupos, à excepção do G2:
Há outras motivações que já não são tão frequentes, mas que ainda
existem, como o medo das alterações corporais que a gravidez vai
trazer à mulher, o medo de desfiguramento (Sandra, 26 anos,
psicóloga).
Frequência das motivações para a parentalidade
O Quadro_1 sumaria a frequência e a extensão das categorias e subcategorias de
motivações para a parentalidade, em cada grupo e no conjunto dos grupos, as
suas respectivas percentagens de acordo inter-observadores e coeficientes Kappa
de Cohen.
DISCUSSÃO
O presente estudo teve como objectivo conhecer as motivações para a
parentalidade numa amostra portuguesa. De modo geral, os nossos resultados
foram consistentes com a investigação existente, quanto ao seu conteúdo e
frequência. No entanto, parecem apontar para algumas especi ficidades
merecedoras de reflexão.
Ao nível do conteúdo, os profissionais contribuíram para uma compreensão mais
vasta das motivações para a parentalidade. Neste grupo, a afirmação do estatuto
social/identidade de adulto foi considerada específica da gravidez na
adolescência, associando-se frequentemente a dificuldades de adaptação. A
instrumentalização da religião foi apontada como uma forma de
desresponsabilização em relação ao planeamento familiar, nos contextos
culturais tradicionais. O medo da gravidez/parto foi descrito com uma motivação
característica de mulheres com padrões de funcionamento psicoló gico
específicos. Por fim, o apoio ao sustento da família foi relacionado com a
obtenção de subsídios sociais nos casais oriundos de meios economicamente
desfavorecidos, enquanto a força de trabalho foi relegada para o passado. Esta
nova forma de apoio não tem sido descrita na literatura, podendo reflectir as
alterações na legislação nacional que tem favorecido as famílias numerosas e
com baixos rendimentos na atribuição de subsídios sociais (Instituto de
Segurança Social, 2008).
A descrição dos laços familiares e do apoio futuro foi igualmente caracterizada
por algumas especificidades, que não têm sido mencionadas na literatura. Os
laços familiares não se relacionaram apenas com a companhia para outro filho;
contemplaram ainda a coesão geracional e a gratificação que a criança
proporciona à família alargada, consistentemente com os estudos nacionais
acerca dos significados (Martins, 2010) e funções (Cunha, 2008) de um filho. Do
mesmo modo, o apoio futuro não se restringiu ao apoio na velhice, tendo-se
igualmente relacionado com o apoio futuro para um filho doente. A ambivalência
expressa pelos participantes em relação a esta forma de apoio futuro tem
igualmente sido igualmente observada em amostras de pais de crianças portadoras
de deficiência (Kimura, Yamasaki, Mochikozi, & Omiya, 2010).
Ao nível da frequência, as motivações negativas foram mais referidas que as
positivas nas dimen sões emocionais/psicológicas e foram mencionadas por um
número aproximadamente equivalente de participantes. Estes resultados não são
consistentes com a literatura, que tem apontado para um padrão inverso (Arnold
et al., 1975; Bell et al., 1985). A compreensão das decisões reprodutivas
contemporâneas parece, assim, exigir uma abordagem compreensiva que não se
restrinja aos condicionantes contextuais e contemple um nível de análise
individual (Wijsen, 2002). Com efeito, o crescente investimento das mulheres
portuguesas na carreira profissional e a sua forte respon sabilidade nos
cuidados parentais (OCDE, 2011) parece traduzir-se ao nível dos
constrangimentos pessoais e das exigências parentais que estas percepcionam. Os
constrangimentos conjugais assumiram-se como uma excepção a este padrão
inverso. A frequência e extensão desta sub categoria não são consistentes com a
literatura (Carmichael & Whittaker, 2007). Sugerimos que a sua consciência
pode desenvolver-se com a experiência de parentalidade, atendendo à reorgani
zação que esta implica na área conjugal (Cowan & Cowan, 1988) e à
frequência e extensão desta subcategoria no grupo de mães. Todavia, a
proeminência de partici pantes de sexo feminino, com formação superior e nível
socioeconómico médio/elevado e o contributo do grupo de mães ao nível do número
de unidades analisadas podem ter condicionado os resultados obtidos nas
dimensões emocionais/psicológicas das motivações negativas.
As dimensões emocionais/psicológicas e sociais/normativas das motivações
positivas não se diferenciaram, de forma clara, quanto à sua frequência e
extensão. Estes resultados não são consistentes com a literatura, que tem
evidenciado a preponderância das dimensões emocionais/ /psicológicas (Inborn
& Van Balen, 2002). Estes resultados podem eventualmente reflectir a
persistência de valores tradicionais em relação à parentalidade no contexto
sociocultural português; todavia, a divergência de perspectivas que
caracterizou a discussão das dimensões sociais/norma tivas (e.g., preceitos
religiosos) pode ter influenciado a frequência e extensão desta categoria.
As diferenças de género não se expressaram somente ao nível das motivações
negativas (Arnold et al., 1975; Bulatao, 1981) mas igualmente das positivas. A
relação com a criança e a realização pessoal afirmaram-se como motivações
essencialmente femininas, que parecem desenvolver-se com a maternidade,
atendendo à sua frequência e extensão no grupo de mães. As expectativas sociais
foram especialmente valorizadas pelos homens que descreveram o instinto
biológico como fundamentalmente feminino. Estes resultados parecem evidenciar
um maior desejo e centralidade da maternidade para a identidade/realização
feminina (Dyer et al., 2008); podem, contudo, ter sido influenciados pelas
dinâmicas do grupo de mães e pela inexistência de um grupo de pais com filhos
em idade pré-escolar e escolar na nossa amostra.
Não obstante o seu contributo para a compreensão das motivações para a
parentalidade, este estudo não se encontra isento de limitações. Além de
reduzida, a amostra de conveniência foi maioritariamente constituída por
mulheres casadas/unidas de facto, com formação superior e nível socioeconómico
médio/elevado. Estas características sociodemográficas podem ter condicionado
os resultados obtidos. Os profissionais contribuíram para uma compreensão mais
vasta das motiva ções para a parentalidade. No entanto, as limitações da
amostra não possibilitam a generalização dos resultados a outras amostras e
contextos. Em termos metodológicos, a dimensão dos Grupos 1 e 3 (n=5) foi
restringida pela disponibilidade dos participantes, tendo-se revelado inferior
ao recomendado - 6 a 10 participantes (Krueger & Casey, 2009). A
familiaridade do moderador com parte dos participantes e de alguns
participantes entre si pode ter influenciado as dinâmicas de grupo, no sentido
da inibição ou desejabilidade das respostas (Morgan, 1996). Do mesmo modo, a
moderação da discussão (i.e., exploração de cada uma das dimensões das motiva
ções positivas e negativas) e o contexto em que esta decorreu podem ter
influenciado os resultados obtidos. A análise de conteúdo com indicação da
frequência e extensão de respostas (Krueger & Casey, 2009) não possibilitou
uma apreciação aprofundada das dinâmicas e interacções de grupos, cuja
relevância tem sido evidenciada na análise de dados provenientes de grupos
focais (Kitzinger, 1994); os resultados relativos à frequência e extensão das
categorias/subcategorias devem, por isso, ser cautelosamente interpretados. Por
último, não foi considerada a triangulação com outros métodos (e.g.,
instrumentos de avaliação), que possibilitaria averiguar a convergência dos
resul tados (Bloomberg & Volpe, 2008).
Torna-se importante desenvolver estudos qualitativos que ultrapassem estas
limitações amostrais e metodológicas. Estes estudos poderão contribuir para o
desenvolvimento de instrumentos de auto-resposta que permitam avaliar as
motivações para a parentalidade. Com efeito, a sua avaliação assume especial
relevância, no sentido de melhor compreender as decisões reprodutivas
contemporâneas e de promover decisões reprodutivas informadas (Langdridge et
al., 2005). A sua influência nas trajectórias de (in)adaptação a diferentes
percursos reprodutivos (Canavarro, 2001; Cassidy & Sintrovani, 2008) parece
reforçar a importância da sua avaliação, com vista à optimização das práticas
clínicas. Embora exploratórios, os nossos resultados parecem sensibilizar os
profissionais de saúde para a relevância de atender às motivações femininas,
especialmente na presença de dificuldades emocionais.