Sobre o que se transporta: (Contra)Transferência(s)
No trabalho com funcionamentos narcísicos A. Green (1983) destaca o predomínio
de uma contratransferência onde o objecto é excluído do discurso do paciente,
deixando no analista um sentimento de isolamento, o que pode levar a reacções
por parte do analista de agressividade, raiva, aborrecimento, sono, sendo
fundamental analisar os sentimentos predominantes do paciente: orgulho, honra,
desonra, megalomania. Aqui, o analista será um espectador, ausente do sonho não
lhe resta outra função que ser o sono do sonhador.
Nos funcionamentos pré-genitais desenvolve-se predominantemente uma
transferência negativa, na qual as pulsões se processam num "para além do
princípio do prazer", o que remete para a compulsão à repetição. A
experiência de dor suscita o desinvestimento"desobjectalizante"
(Green, 1983), manifestando-se o desligamento, a angústia de desmoronamento.
Bion (1959) em "Ataque aos Vínculos", fala de um desastre primitivo
e de uma catástrofe permanente que não podem ser resolvidos. Quando as
experiências com o objecto materno são más, um violento desinvestimento pode
varrer a memória da experiência e, no lugar da satisfação alucinatória do
desejo, emergir uma realização alucinatória da dor(Kaswin-Bonnefond, 2000).
No registo neuróticotemperado, a transferência negativa resulta na neurose de
transferência. A interpretação dá acesso ao conteúdo latente recalcado, numa
"interpretação da primeira tópica" (Botella & Botella, 1983). A
frustração pulsional e narcísica do quadro analítico provoca um desligamento e
liberta uma quantidade de energia pulsional necessária para o trabalho
elaborativo. Mas, este desligamento e frustração podem transbordar o registo
económico e provocar um momento traumático que necessite de um outro tipo de
intervenção para a sua elaboração (Kaswin-Bonnefond, 2000). As questões que as
patologias mais arcaicas colocam na clínica, resultam em diferenças na
abordagem clínica das neuroses e numa maior atenção às dimensões precoces do
funcionamento.
Na clínica dos casos limitea transferência negativa exprime estados de não-
representação, onde a destrutividadecomporta o próprio aparelho psíquico.
Surgem mecanismos defensivos como a clivagem, o desmentido, a negação, a
desintrincação pulsional; domina a fragilidade das fronteiras mantendo-se um
laço negativo ao objecto. Para que o sujeito possa utilizar o objecto, ele tem
de o criar; se ele ataca o objecto no fantasma, este não pode ser destruído na
realidade, devendo manter a qualidade das suas respostas - dimensão
fundamental na posição do analista dos casos limite. O predomínio das forças
destrutivas fragiliza o aparelho psíquico, que fica menos capaz de
reinvestimento narcísico e objectal, ficando favorecido o desligamento. A
própria capacidade de pensar e de simbolizar é atacada. Projecções destrutivas
deixam instalar uma transferência do mesmo tipo, que se dirige ao objecto,
ficando uma potencialidade de intrincação pulsional intrapsíquica e uma
capacidade de diferenciação sujeito-objecto. Em certos momentos de indistinção
sujeito-objecto, a irrupção pulsional e afectiva transborda as capacidades de
representação do sujeito, solicitando contratransferencialmente as capacidades
de simbolização do analista, de forma a que seja possível a criação de um novo
sentido. Este processo de integração mútua de material inconsciente, que conduz
ao superar das resistências a que está associado, está estreitamente
relacionado e, não raras vezes, dependente do trabalho de figurabilidade
descrito anteriormente. Nos casos extremos de desinvestimento, a transferência
negativa percorre um longo e doloroso caminho para a constituição de uma outra
orientação dos processos a partir de novos traços, permitindo o reinvestimento
de um trabalho de representação, de novas capacidades de intrincação pulsional,
temperando o desligamento e abrindo novas perspectivas (Kaswin-Bonnefond,
2000).
É no intervalo entre o analista-sujeito e o analista função que se encontra a
condição sine qua nonpara que não apenas a transferência se possa desenvolver,
mas uma neurose transferência, ou mesmo, nos casos limite, uma agonia de
transferência.A contratransferência, e principalmente aquela que é acompanhada
de movimentos violentos, está frequentemente em contacto com as partes mais
arcaicas do analisando (Heenen-Wolff, 2006).
Na clínica actual dá-se um "corpo-a-corpo" psíquico, surgindo os
agires, as identificações projectivas, os movimentos paradoxais. Pacientes
limite, ou momentos limite de uma cura, abrem tantas ocasiões de contacto
directo com o inconsciente do analista, que o conduz a aperceber-se do seu
vivido interno, que potenciam modificações na sua escuta, e na sua forma de
interpretar. É com os pacientes com quem a cura pela palavra se revela
insuficiente que a contratransferência é mais solicitada, numa comunicação que
se situa para além das palavras.
A contratransferência pode abrir-se sobre um campo desconhecido. A expressão
mais íntima de subjectividade encontra sentido através do ressentido que
provoca no outro, inscrevendo o andamento processual do infraverbal ao verbal,
do intersubjectivo ao intrasubjectivo, da simbolização primária à simbolização
secundária (Llopis-Salvan, 2006).
A tarefa do analista, que assume a análise de um psicótico, é intensamente
afectada pela contratransferência e pode revelar-se impossível, se as roupas de
cor de ódio do próprio analista não forem discerníveis e conscientes. A
simultaneidade de amor e ódio aparece na análise de psicóticos, o que pode
exigir do analista mais do que ele pode dar. Pode ser inevitável que sejam
atribuídos sentimentos brutais ao analista, sendo necessário que ele esteja
consciente e prevenido, pois terá que tolerar que o coloquem nesse lugar. Mais
do que em qualquer outra situação, o analista deve saber reconhecer na sua mala
as roupas de ódio, e poder pensando, vesti-las, já que esse ódio não deve ser
negado. O ódio que é legítimo nesse contexto, deve ser percebido e mantido num
lugar à parte, para ser utilizado numa futura interpretação. O analista deve
estar preparado para suportar a tensão, sem esperar que o paciente saiba alguma
coisa sobre o que ele está a fazer. Para o conseguir fazer, deve ter facilidade
em reconhecer o seu medo e o seu ódio. Encontrando-se na mesma posição da mãe
de um bebé recém-nascido ou ainda não nascido. O ódio do analista fica
geralmente latente, podendo continuar assim. Mas na análise de psicóticos o
analista encontrase numa pressão muito maior para manter este ódio latente, e
só o pode fazer se tiver plena consciência do mesmo (Winnicott, 1947).
No trabalho com psicóticos é raro as interpretações serem ouvidas enquanto tal,
como elementos simbólicos e não como coisas reais, pois nestes funcionamentos o
acesso à posição depressiva é difícil. No predomínio de mecanismos defensivos
como a clivagem, a identificação projectiva, as interpretações facilmente são
escutadas de uma forma persecutória.
UMA OUTRA MALA, UM OUTRO PRISMA PARA OLHAR: (CONTRA)TRANSFERÊNCIA(S) NAS
INSTITUIÇÕES
Já a problemática narcísica e de identidade dos utentes em instituições,
levanta características particulares do funcionamento psíquico, que passa pela
não integração de elementos psíquicos que deixam os sujeitos na compulsão à
repetiçãosob a ameaça de um retorno, desorganizando na mente aquilo que esta
não consegue simbolizar e desta forma integrar nas cadeias de representação.
Uma das reacções da mente é evacuar aquilo que não consegue suportar. A pessoa
que recebe estas evacuações/projecções patológicas, experimenta esses aspectos
do próprio que não são representáveis. Aquilo que o paciente não é capaz de
sentir ou ver nele próprio faz os outros sentir ou ver. O que não pode ser
representado e possuído na mente vai ser agido fora, nas e através das relações
com os outros, na esperança de que venha a ser ligado e posteriormente
simbolizado. Os outros vão reagir, por vezes numa reacção simétrica de
violência, de retirada, de exclusão. Só se os outros reflectiremé que o sujeito
se dará conta da sua acção (Pestalozzi, Frisch, Hinshelwood, & Houzel,
1998).
São estas patologias que, pela sua especificidade, colocam grandes questões ao
terapeuta num contexto institucional. O trabalho com estes pacientes não se
restringe ao settingterapêutico, espalhando-se/expandindo-se no espaço da
instituição. Numa relação terapêutica, tal como em instituições de cuidados, a
função de ecoar ou de reflectir é um ponto salientado por diferentes autores. A
transferência não pode ser vista como um modo simples de deslocamento psíquico
que deixa os protagonistas nos seus lugares, tratando-se de algo mais
disruptivo, que inverte identi dades e funções nas interacções psíquicas.
Aquilo que é transferido foi activamente evacuado, o que reverte a passividade
do trauma num processo activo, através do qual o sujeito procura lidar com algo
que não encontrou uma forma simbólica na mente, e assim permaneceu traumático.
Aquilo que é transferido não é, nem representado, nem reprimido, é agido nas
relações. Receber sem retaliar, sobreviver às evacuações sem retiradas ou
rupturas nas relações, é a função da equipa, procurando transformar afectos e
experiências insuportáveis para o paciente em boas oportuni dades, para os
pacientes representarem para eles próprios o que foi sofrido por eles e
originou a clivagem. Usando a sua contratransferência, a equipa pode perceber o
valor subjectivo da experi ência e promover um re-experimentar criativo. O
setting compreende toda a instituição. O "thirdness"(relação
triádica entre o símbolo, o objecto e a interpretação deste) emerge no espaço
do grupo e da instituição.
Em pacientes com perturbações psicóticas e limite as particularidades do
enquadramento da clínica oferecem vantagens: ficam mais protegidos pelas
condições da clínica; podem procurar novas soluções, lidando simultaneamente
com a sua perturbação na relação transferêncial (Streeck, 1998). O tratamento
destes pacientes é mais difícil, tendo em conta que apresentam um tipo de
comunicação predominantemente não verbal e inter relacional da sua doença. A
dinâmica da sua perturbação não emerge nas fantasias, associações ou sonhos,
não é expressa simbolicamente. Na expressão de uma transferência primitiva,
estes pacientes procuram forçar o outro a assumir um papel particular, tendo a
realidade psíquica um lugar fora do self. A equipa tem frequentemente
dificuldade em manter a sua neutralidade e distância. Desenvolvem uma linguagem
da manipula ção e do acting out.
Uma questão clínica igualmente fundamental, e com a qual nos deparamos nos
vários contextos institucionais em que desenvolvemos a nossa prática clínica, é
a dos processos transferenciais, nomeadamente a noção de transferência para o
setting ou instituição, levantando-se a questão da contratransferência
institucionalpara com os seus utentes com perturbações de identidade e do
narcisismo. A função de ecoar, espelhar e reflectir da instituição nos cuidados
psíquicos coloca-se, bem como a sua função em "gerar-símbolos". O
que quer que seja transferido para o setting institucional pertence à história
da relação do sujeito com a simbolização, dos seus sucessos e vicissitudes, das
particularidades de construção e de desconstrução e traumas (J. Pestalozzi e
col., 1998).
A instituição aparece igualmente enquanto produto da contratransferência da
equipa técnica. As suas reacções são respostas à repetição destes materiais não
simbolizados. A função contratransferencial da instituiçãocompreende a
transformação do que se passa na transferência dos utentes, procurando tratar o
que procura ser novamente jogado ali, extraindo o seu significado, permitindo a
sua integração. Um modelo para simbolizaré o "continente geral",
que respeita o todo da estrutura da instituição.
Uma questão a atender é o tipo de ligação estabelecida entre a terapia e a
instituição e como esta ligação é trabalhada.A divisão/clivagem da
transferência é uma característica destas psico terapias institucionais,
tornando-se necessário considerar estes diferentes níveis e compo nentes ao
tentar compreender o processo terapêutico, requerendo igualmente um trabalho
colectivo e contínuo daquilo que é actuado em diferentes pontos da vida
institucional.
ARRUMAR E PARTIR DE NOVO. REFLEXÕES...
Com este trabalho procurámos levantar algumas questões associadas à prática
clínica em Psicoterapia Psicanalítica, salientando fenómenos comuns ao
estabelecimento de qualquer relação e como tal, paradigmáticos na relação
terapêutica. Referimo-nos às (Contra)Transferência(s).
Principiámos por apresentar uma perspectiva histórica da leitura destes
fenómenos que, come çaram por ser encarados como obstáculos num processo
terapêutico e progressivamente foram sendo considerados como instrumentos
fundamentais para a compreensão do indivíduo em psicoterapia. Posteriormente,
expusemos algumas teorias e perspectivas que, no nosso entender, descrevem de
forma mais completa e mais próxima da realidade o modo como os fenómenos
(contra)transferênciais surgem no settingpsicoterapêutico. De facto, a
transferência e a contratransferência não são fenó menos que ocorrem à vez,
pertencentes ao paciente e ao psicoterapeuta respectivamente. Antes surgem
continuamente, em simultâneo, podendo ser compreendidos enquanto elementos de
uma matriz de quatro entradas, entre os sistemas consciente e inconsciente de
paciente e terapeuta. É através desta matriz que é possível a compreensão do
indivíduo. Esta afirmação é tanto mais verda deira quanto mais precoce é a
perturbação no desenvolvimento. Afirmação igualmente verdadeira na neurose,
onde a transferência serve de cenário para a dramatização do conflito, é na
relação com o psicoterapeuta que se ensaia a dinâmica relacional do conflito
psíquico que não tendo sido resolvido no passado, pode agora no presente ser
reescrito. Para que tal aconteça a contratrans ferência é uma peça fundamental,
uma vez que é através do que é colocado no psicoterapeuta que este cenário pode
ser lido, no sentido do sujeito poder ter acesso ao que até ai não tinha sido
possível.
É aqui que terminam as possibilidades de um trabalho conjunto, e começam as
infinitas desco bertas de um trabalho individual, sempre novo, sempre de novo a
cada Outro com que nos deparamos.
DESARRUMAR DE NOVO… PONTOS DE PARTIDA PARA NOVAS REFLEXÕES
Segundo Pontalis (1999) não se pode falar em verdade da contratransferência.
Coisa obscura, esta colocada aqui na conclusão deste trabalho. Voltamos no
final a outro princípio socrático: "só sei que nada sei". Apesar de
não podermos falar da contratransferência, "... Podemos com tacto torná-
la sensível. O termo de tacto evocará aqui menos uma discreta circunspecção que
a sensibi lidade a uma superfície, lisa ou rugosa, porosa ou blindada, ao grão
de uma pele que se acaricia ou arrepia. Indicará a bipartição do fora e do
dentro, em meu entender determinante naquilo de que nos podemos aperceber de
uma posiçãocontratransferêncial" (p. 245). Tacto que poderá encontrar
malas blindadas ou porosas, lisas ou rugosas, abertas ou estanques.
Quanto às diferenças entre uma Psicoterapia Psicanalítica e uma Psicanálise, a
questão também se mantém. Certamente que a transferência e a
contratransferência não são exclusivas da Psica nálise. As Psicoterapias
Psicanalíticas captam esses fenómenos colocando-os num outro campo feito de um
outro tempo e espaço, no qual estes conceitos se apresentam no face a face, ou
no corpo a corpo da relação Eu-Outro, da relação a estabelecer e da relação
estabelecida em cada elemento da díade. Alterações no settingtrazem mudanças na
expressão e manejo destes fenómenos como pensamos ter ficado bem descrito no
aporte dado pelos autores que referem os trabalhos em instituições, onde
patologias com características particulares, espalham e espelham na relação
alargada com diferentes técnicos e em diferentes settings, as suas modalidades
relacionais específicas, na esperança de que uma síntese/integração possa
acontecer.
As discussões em torno das diferenças entre Psicanálise e Psicoterapia
Psicanalítica são antigas e controversas, senão vejamos. Desde logo fica claro,
e aqui parece ser consensual, que os factores extrínsecos, o setting, não são
suficientes para a distinção entre uma e outra mas, são de certa forma factores
extrínsecos que provocaram o debate.
Wallerstein (2001) refere que se vive "num contínuo de abordagens
técnicas", com intervenções diferentes, com interpretações que vão até às
mais abertamente centradas no apoio e propostas com a maior flexibilidade,
levando em conta as exigências clínicas momentaneamente instáveis do
paciente" (p. 109).
Segundo Kernberg (2001, pp. 28-29) os objectivos e as modalidades de tratamento
variam: "o objectivo da psicanálise é uma mudança estrutural fundamental,
a integração do conflito inconsciente reprimido ou dissociado do ego
consciente. Na psicoterapia psicanalítica ou expressiva, o objectivo é uma
reorganização parcial da estrutura psíquica no contexto de uma mudança
sintomática significativa", a diferença está portanto mais situada na
técnica. A inter pretação é usada, mas a clarificação e a confrontação têm um
espaço mais amplo do que na Psicanálise, bem como as interpretações no
"aqui e agora" mais do que no "lá e então". Mas esta
diferenciação, "não pode ser estabelecida por uma única sessão
particular, mas somente através da avaliação do tratamento no transcorrer do
tempo" (2001, p. 37).
Se a Transferência e a Contra-Transferência são movimentos, (re)sentidos a que
estamos submetidos no encontro analítico/psicoterapêutico, de que forma é que o
tacto a estes movimentos se altera quando estamos face-a-face com o Outro uma,
duas vezes por semana, ou quando a poltrona é substituída pelo divã num
encontro a um ritmo de três, quatro vezes por semana? De que forma as malas se
abrem ou fecham num e noutro contexto? Como respira a díade quando a percepção
visual se impõe ou se obscurece? O que será que muda? Que diferenças naquilo
que descobrimos quando nos vemos olhos nos olhos, ou quando Um se estende sobre
a escuta do Outro?
Mais polémico, Bollas (2001) pergunta se "podemos falar seriamente das
diferenças entre psicoterapia e psicanálise (…) A maioria das formações em
psicoterapia psicanalítica, nos diferentes países, são de facto formações
psicanalíticas (p. 285). Já Pontalis diz ser "radicalmente contra o
projecto de dar uma formação específica àqueles que se encaminham à
psicoterapia dita de inspiração psicanalítica, como se fosse uma coisa mais
simples". Pensa mesmo que "só a psicanálise pode
"inspirar" tratamentos que a reivindicam. Onde podemos encontrá-la,
essa psicanálise, em sua eficácia e em seus limites? No próprio processo de
análise e nas supervisões. É aí o "laboratório central"(1999, pp.
376-375).
No nosso entender, a intervenção terapêutica de inspiração psicanalítica
(Psicanálise, Psico terapia Psicanalítica ou mesmo Apoios psicoterapêuticos de
inspiração psicanalítica) deve ser vista num contínuo, na medida em que o
terapeuta, em qualquer das modalidades que utiliza tem em consideração os
modelos psicanalíticos que o enquadram na sua intervenção. As diferenças que se
verificam estão de facto nas condições existentes que obrigam a alterações e
adaptações da técnica psicanalítica conforme o contexto em que se desenvolvem.
O tempo e espaço que o terapeuta dispõe, a frequência com que está com o
paciente, a capacidade de insightdo paciente, o tipo de estrutura
psicopatológica que o domina, o que o leva a procurar ajuda, a resolução de um
conflito específico ou um conhecimento mais aprofundado sobre si próprio, são
variáveis que consideramos que marcam a opção de escolha de um processo
terapêutico. Esta escolha não nos parece que deva ser vista segundo uma
hierarquia de processo, mas antes como correspondendo a uma riqueza de
possibilidades de intervenções em que uma se adequa melhor à situação em causa
do que as outras. Parece-nos que para os processos terapêuticos psicanalíticos
puderem ser aplicáveis na sociedade actual, e tendo em consideração os desafios
que ela levanta, torna-se fundamental uma flexibilização nas abordagens
técnicas de inspiração psicanalítica e, nesse sentido, as Psicoterapias
Psicanalíticas porque não estão rigidamente definidas poderão com mais
facilidade possibilitar a evolução das técnicas actuais para o desenvolvimento
ou a criação de novas práticas, mais adaptáveis e eficazes às condições do
mundo contemporâneo.
Pensamos ser possível afirmar que ficamos depois deste trabalho a cinco, no
cruzamento de diferentes malas e tralhas, mais sensíveis a estes fenómenos, que
apurámos o tacto, de forma a que nos seja possível ressentir e significar o
encontro terapêutico: a procura de um sentido, de uma voz, a descoberta da
nossa mala. Cada um, cada mão, cada mala. O que transportamos…