Vinculação à mãe e ligação aos pares na adolescência: O papel mediador da auto-
estima
Vinculação à mãe e ligação aos pares na adolescência: O papel mediador da auto-
estima
M. Rocha*; C. P. Mota**; P. M. Matos***
**Bolseira de pós-doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (SFRH/
BPD/47876/2008), Investigadora do Centro de Estudos em Gestão e Economia,
Faculdade de Economia e Gestão da Universidade Católica Portuguesa, Centro
Regional do Porto;
**Investigadora do Centro de Psicologia da Universidade do Porto / Professora
Auxiliar na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro;
***Investigadora do Centro de Psicologia da Universidade do Porto / Professora
Auxiliar na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade
do Porto
Correspondência
ABSTRACT
According to attachment theory, the quality of relationships with parental
figures play a key role in the way young people perceive themselves and others,
contributing also to self-esteem development of to the relational ties built
with peers. The main purpose of this study is to evaluate the contribution of
the quality of attachment to mother in the prediction of the construction of
peers bonds, taking into account the hypothesis of the mediating role of self-
esteem, in a sample of 742 adolescents from both sexes, between 13 and 23 years
(M=17.09, SD=1.84), from intact and divorced families. The study used the
Attachment Questionnaire to the Father and Mother (Matos & Costa, 2004),
the Inventory of Parental and Peer Attachment (Armsden & Greenberg, 1987)
and also the Rosenberg's Self-Esteem Scale (Rosenberg, 1965). All
questionnaires presented appropriate psychometric qualities, with good internal
consistency and adequate fit indexes (1st order confirmatory factor analysis).
Results were obtained through structural equations methodology, and are
indicative of quality of attachment to the mother as direct and indirect
predictor of the quality of peers' relationships. In the model tested,
self-esteem is positively predicted by the mother's quality of emotional
bond, and negatively by inhibition of exploration and individuality and
separation anxiety. The results are also consistent with the mediating role of
self-esteem on the association between quality of attachment to mother and
attachment to peers.
Key-words:Adolescence, Attachment to mother, Mediation, Peers.
INTRODUÇÃO
Embora a literatura tenha vindo a assumir a importância de outras figuras
significativas para além da mãe, nomeadamente o pai e elementos da família
alargada, no desenvolvimento emocional das crianças, os dados da qualidade da
vinculação à mãe têm sido a fonte maior na formulação dos princípios básicos da
teoria da vinculação (vide, Ainsworth, 1969, 1989a,b; Bowlby, 1988, 1990,
1998). Hoje em dia continuam a ser realizados estudos no intuito de compreender
os efeitos do papel da mãe ao longo do desenvolvimento do sujeito enquanto
criança, adolescente e adulto. O presente estudo foca-se na adolescência, onde
se sucedem os estádios desenvolvimentais a partir dos quais é possível integrar
novos elementos significativos na vinculação. A imagem que os adolescentes
criam de si e dos outros, prende-se com a qualidade da vivência das relações
que estabelecem com as figuras significativas e em particular com a figura
cuidadora (normalmente a mãe), pelo que uma abordagem teórica centrada na
aquisição de um sentido de estima pessoal torna-se pertinente. A auto-estima
surge como uma variável associada ao desenvolvimento psicossocial dos jovens,
tornando-se particularmente relevante na adolescência, implicando, de acordo
com uma perspectiva ecológica, fortes associações no estabelecimento das
relações fora do âmbito parental, nomeadamente na relação com os pares.
A participação da qualidade de vinculação à mãe na construção da auto-estima
A abordagem da construção da auto-estima enquanto resultado (também) do
estabelecimento de relações de vinculação significativas, posteriormente
constituídas em modelos internos dinâmicos, não é nova (Bowlby, 1988). Deste
modo, a percepção pessoal do sujeito de si enquanto merecedor de cuidados e
amor e a forma como compreende a imagem dos outros (enquanto consistentes e
disponíveis na prestação de cuidados que prestam), tem mantido aberta uma linha
de investigação, aparentemente inesgotável (Griffin & Bartholomew, 1994a,b;
Mota, 2008; Peixoto, 2004; Rocha, 2008; Trzesniewski, Robins, Roberts, &
Caspi, 2004, entre outros).
Com Ainsworth (1969) enfatizou-se a importância da qualidade da relação criada
entre a figura materna e filhos, quer ao nível do desenvolvimento presente,
quer no futuro relacional dos sujeitos. Foi ainda com Mary Ainsworth que se
introduz o conceito de sensibilidade materna face aos sinais da criança de
procura de proximidade. A sensibilidade materna é descrita como complementar ao
comportamento de vinculação, nomeadamente a procura de apoio ou careseeking.
Esta sensibilidade por parte da figura de vinculação prende-se com a capacidade
de interpretar os sinais da criança, nem sempre claros, e com a consequente
resposta satisfatória às necessidades transmitidas (Claussen & Crittenden,
2000). Assim a sensibilidade materna surge como conceito chave da teoria da
vinculação na compreensão das diferenças ao nível da segurança durante o
primeiro ano de vida (Bakermans-Kranenburg, van IJzendoorn, & Juffer, 2003;
de Wolff & van IJzendoorn, 1997). É a partir desta associação entre
necessidades exibidas e provimento das mesmas, que o sujeito psicológico
desenvolve em cada relação significativa a certeza (ou não) de que aquela
figura estará disponível para o incentivar a fazer coisas diferentes ou novas
ajudando-o a conhecer-se melhor a si próprio. De outro modo, funcionará para o
sujeito enquanto base segura (Ainsworth, 1967; Trinke & Bartholomew, 1997).
Ao longo do ciclo de vida, os modelos internos dinâmicos vão sendo construídos,
reconstruídos e activados, apresentando-se como uma influência decisiva nas
escolhas pessoais realizadas. Na adolescência, a escolha dos pares ou do par
amoroso pode representar um reflexo disto mesmo, na medida em que parece
existir uma procura de elementos significativos de si nos outros
significativos, confirmando deste modo o modelo de segurança nas relações
pessoais (Holmes, 2001), e a construção de bases seguras noutros domínios
relacionais diversos dos dos pais.
Assim, é de todo pertinente abordar a adolescência sob o ponto de vista da
qualidade da relação "mãe-adolescente" e da base segura, tentando
compreender o modo como o próprio sistema de vinculação se vai desenvolvendo
ele também. Neste contexto, adolescentes seguros são caracterizados pela
possibilidade de se autonomizarem e avaliarem as suas relações com as figuras
parentais de forma afectuosa, discutindo eventuais desacordos num contexto
relacional caracterizado pela harmonia e pelo apoio. O adolescente seguro é
livre para explorar a sua autonomia no desacordo, sabendo que que os pais
manterão a relação, o que por seu turno se torna preditivo dos níveis de auto-
estima e de auto-eficácia percebidas (Allen, MacElhaney, Land, Kupermic, Moore,
O'Beeirne, & Kilmer, 2003). Esta perspectiva retrata uma visão
desenvolvi
mental, capaz de diferenciar dois pólos complementares: por um lado, a
necessidade de segurança emocional da criança e mais tarde do adolescente e,
por outro lado, a capacidade dos pais ou figuras prestadoras de cuidados para
estarem disponíveis e assegurarem o bem-estar dos seus filhos.
As associações positivas entre os domínios relacionais da vinculação aos pais e
aos pares, e destes com a auto-estima têm vindo a ser testados empiricamente de
forma robusta (Diener & Diener, 1995; Laible, Carlo, & Roesch, 2004;
Way & Robinson, 2003; Wilkinson, 2006; Wilkinson & Parry, 2004). A
internalização de modelos positivos dos prestadores de cuidados e a utilização
destes como base segura a partir da qual é possível explorar-se a si e ao mundo
parecem ser factores protectores da auto-estima pessoal, em específico na
adolescência. Os pressupostos teóricos em torno do desenvolvimento apoiam
justamente esta ideia, na medida em que a auto-estima tendencialmente decresce
durante a transição da infância para o início da adolescência; neste período,
os jovens estão expostos a um turbilhão de mudanças físicas, cognitivas e
sociais que contribuem decisivamente para o processo de formação da identidade
e do auto conceito (Fedman & Elliot, 1990).
De acordo com Pinheiro e Ferreira (2001), a percepção de aceitação da família
(particularmente dos pais) e dos amigos apresenta fortes associações com a
auto-estima. Por seu turno, uma percepção elevada quer de aceitação quer de
auto-estima parecem associar-se a uma vinculação segura, confirmando a hipótese
de que os modelos de vinculação podem ser significativos para a avaliação
global do self. Assim, verifica-se que um contexto relacional de segurança
estável constitui um recurso de aprendizagem, dando lugar posterior à
possibilidade da exploração do mundo exterior. Uma exploração em contexto
seguro auxilia o relacionamento com os "outros", fornecendo um
importante indicador de maturidade emocional (Dubois, Felner, Brand, Adan,
& Evans, 1992).
Contributo da vinculação à mãe para a construção dos contextos relacionais com
os pares
A investigação empírica tem vindo consistentemente a observar a qualidade de
vinculação aos pais enquanto um dos preditores da qualidade relacional com os
pares (Bartholomew & Horowitz, 1991; Benson, McWey, & Ross, 2006; Hazan
& Zeifman, 1994, 1999; Klohnen, Weller, Luo, & Choe, 2005; Mota, 2008;
Ryan, La Guardia, Solky-Butzel, Chirkov, & Kim, 2005). Em Portugal, estudos
recentes (e.g., Mota & Matos, 2009; Rocha, 2008) sublinham a importância da
qualidade dos laços emocionais construídos com os pais, em particular com a
mãe, no desenvolvimento da auto-estima. Uma percepção positiva de si parece
repercutir-se no bem-estar dos adolescentes, demonstrando maior disponibilidade
pessoal no estabelecimento de contactos com o contextos relacionais diversos
dos parental, nomeadamente com os pares (videtambém Booth & Amato, 2001).
Estudos longitudinais revelam ainda que os adolescentes que funcionam com
modelos internos dinâmicos seguros são mais populares no grupo de pares, têm um
maior número de amigos que os adolescentes inseguros, demonstrando ainda maior
disponibilidade para novos relacionamentos (Lieberman, Doyle, & Markiewicz,
1999). A relação com os pais e a forma como os adolescentes integram esta
relação no seu hardwarerelacional, cria modelos internos capazes de favorecer
uma procura do adolescente em direcção aos pares, apoiando a ideia da
transferência da vinculação dos pais para os pares (e.g., Hazan & Shaver,
1994; Hazan & Zeifman, 1994; Trinke & Bartholomew, 1997; Weiss, 1991)
ou de alargamento da rede de vinculação para cumprimento de funções de
vinculação (Friedlmeier & Granqvist, 2006; Rocha, 2008). Ao longo da
adolescência vão surgindo novas figuras na rede relacional, estas,
potencialmente significativas no preenchimento de necessidades afectivas.
Falámos essencialmente dos pares amigos e do par amoroso. As relações de
qualidade com os pares criam nos adolescentes sentimentos de procura de
proximidade, relações essas que desempenham um papel importante no
desenvolvimento pessoal e social do adolescente. Em alguns casos esta
proximidade traduz-se em procura de apoio, conforto e partilha íntima que se
caracteriza pela reciprocidade, podendo estas relações vir a ser percebidas
como relações de vinculação (Meeus, Osterwegel, & Vollebergh, 2002;
Nickerson & Nagle, 2005). Não se percepciona quer teórica, quer
empiricamente um carácter de concorrência da qualidade das figuras parentais
com a dos pares significativos, pelo contrário advoga-se que ambos os tipos de
figuras têm papéis específicos que sugerem complementaridade no preenchimento
das necessidades dos sujeitos. É claramente um pressuposto da teoria de
vinculação que os modelos iniciais vão suportando a construção das lentes
emocionais e cognitivas com as quais é possível percepcionar o selfe os outros;
que neste percurso desenvolvimental existem processos de rigidificação, quer
pela repetição das condições da segurança da própria relação, quer pela atenção
dirigida, que influenciam a experiência emocional dos contextos relacionais
além dos parentais. Mas é também claro que a introdução de contextos
alternativos de segurança pode providenciar as condições para a revisão dos
modelos internos dinâmicos, potenciando a plasticidade necessária à
adaptabilidade pessoal (para revisão consulte-se Rocha, 2008).
Assim, partindo da concepção que o desenvolvimento dos jovens é pautado pela
qualidade da ligação aos pares, e atendendo a que qualidade da vinculação
parental parece ser essencial para o desenvolvimento psicossocial dos
adolescentes (Mota, 2008), assume-se a relevância de testar a existência de
variáveis mediadoras nesta associação. Assim o testar do papel mediador da
autoestima pode ajudar a compreender o processo de associação entre qualidade
da relação com a mãe e a qualidade relacional com os pares.
ESTUDO EMPÍRICO
Objectivos e hipóteses
De acordo com o modelo conceptual da auto-estima enquanto sub-produto da
vinculação aos pais, e dos estudos que verificam associações consistentes entre
a qualidade de vinculação aos pais e a vinculação aos pares, pretende-se
observar os efeitos da vinculação à mãe na auto-estima e na relação com os
pares, numa amostra de adolescentes portugueses. A partir deste enquadramento,
é também esperado que a auto-estima desempenhe um papel mediador entre a
qualidade relacional de ambos os contextos. São esperadas mediações de carácter
parcial, já que se considera que embora a auto-estima seja fruto (também) da
vinculação aos pais, a auto-estima constitui-se como preditor per sedas
relações com os pares.
MÉTODO
Participantes
O estudo é composto por 742 adolescentes a frequentar o ensino secundário (Mano
escolar=10.34; DP=1.4), com idades compreendidas entre os 13 e os 23 anos
(M=17.09; DP=1.8), 389 do género feminino (52.4%) e 353 (47.6%) do género
masculino. Do total dos participantes, 647 (87.3%) provêm de famílias intactas
e 94 (12.7%) de famílias divorciadas. A idade do pai varia entre os 32 e os 76
anos (M=46.23; DP=5.9), a idade da mãe varia entre os 34 e os 58 anos (M=43.54;
DP=4.8) com uma escolaridade compreendida entre o analfabetismo e o ensino
superior (para pai e mãe, respectivamente, 42.7%/ 45.5% - do 1º ao 4º ano
do 1º ciclo; 14.9%/14.8% - 5º e 6º ano do 2º ciclo; 33.7%/31% -
7ºao 12º ano do 3º ciclo; 0.4%/0.4% têm frequência universitária; 4.4%/5.1% têm
cursos superiores e 0.1%/0.1% são analfabetos).
Instrumentos
Todos os instrumentos foram sujeitos a análise das propriedades psicométricas,
nomeadamente, análise da consistência interna (alfa de Cronbach acima de .70) e
análise factorial confirmatória de primeira ordem (AFC). AAFC apresentou
índices de ajustamento aceitáveis, segundo os valores de corte preconizados
para estas análises (videBollen, 1986; MacCallum, Widaman, Preacher, &
Hong, 1999; Yuan, 2005), quer de CFI (acima de .90), quer de SRMR e RMSEA (de
valor inferior ou igual a .08).
Questionário de Vinculação ao Pai e à Mãe - QVPM(Matos & Costa,
2001). É um questionário constituído na sua forma revista por 30 itens que
traduzem afirmações sobre as relações familiares. Procura avaliar as
representações de vinculação dos adolescentes e jovens adultos aos pais,
focalizando três dimensões: a Qualidade do laço emocional (QLE, 10 itens), a
Ansiedade de separação (AS, 10 itens)e, por último, a Inibição da exploração e
individualidade (IEI, 10 itens). O formato da resposta implica uma escala tipo
Likertde seis pontos, que é realizada para o pai e mãe respectivamente. No
presente estudo utilizaram-se apenas os dados relativos à qualidade da
vinculação com mãe. Os Alfas de Cronbachpara a presente amostra apresentam-se
em seguida: IEI=.79; QLE=.90; AS=.82. As análises factoriais confirmatórias de
primeira ordem apresentam índices de ajustamento adequados aos dados para a
versão da vinculação à mãe (CFI=.969, SRMR=.053, RMSEA=.075).
Inventory of Peer and Parental Attachment - IPPA(Armsden & Greenberg,
1987, adaptação de Ferreira & Costa, 1998, cit. in Ferreira, 1998). É um
questionário de auto-relato que tem como objectivo avaliar a qualidade das
relações de vinculação com os pais e com pares em adolescentes e jovens
adultos. Neste estudo, utilizou-se apenas a versão pares, sendo esta
constituída por 25 itens distribuídos ao longo de 3 dimensões: Confiança (CON
de 10 itens); Comunicação (COM de 8 itens); e Alienação (ALI de 7 itens). O
formato de resposta é de tipo Likertem 6 pontos. Os Alfas de Cronbachpara a
presente amostra foram de: CON=.80; COM=.82 e ALI=.71. A análise factorial
confirmatória apresentou índices de ajustamento adequados para o modelo
(CFI=.963, SRMR=.034, RMSEA=.084).
Rosenberg's Self-Esteem Scale(Rosenberg, 1965, adaptação de Rocha &
Matos, 2003, cit. in Rocha, 2008). Trata-se de uma escala constituída por 10
itens que visam avaliar a auto-estima global, mediante uma escala de tipo
Likertem 6 pontos. O Alfa de Cronbach para a presente amostra é de .85. A
análise factorial confirmatória apresenta índices de ajustamento adequados
(CFI=.976, SRMR=.054, RMSEA=.057).
Foi ainda utilizada uma ficha demográfica, onde se incluíram informações sócio-
demográficas acerca dos adolescentes, mas também dados de identificação
familiar, nomeadamente idade, profissão, escolaridade e estado civil das
figuras parentais.
Procedimento
Tratando-se de um estudo transversal, a recolha dos dados foi realizada num só
momento em escolas secundárias da região norte e centro de Portugal. Esta
amostra é uma amostra mista já que composta por elementos recrutados quer numa
área urbana quer numa outra mais interior ou rural. A aplicação teve lugar em
tempo lectivo, sendo apoiada pela equipa de investigação. Aquando da
administração foram apresentados os objectivos gerais do estudo, pelo que,
tratando-se de uma administração colectiva, foram dadas instruções
estandardizadas de esclarecimento no que diz respeito ao preenchimento dos
questionários de auto-relato, realçando em todo momento o carácter sigiloso da
informação inerente aos questionários, assim como a índole voluntária da
participação no estudo. A ordem dos questionários foi invertida aleatoriamente,
no intuito de prevenir efeitos de contaminação de resposta por ordem de
preenchimento.
Estratégia de análise de dados
Os dados foram analisados de acordo com a metodologia da modelagem de equações
estruturais - SEM, com recurso ao programa estatístico EQS (6.1.). Esta
análise permite a interpretação de resultados tendo em conta a inclusão de
várias dimensões numa mesma equação estrutural, compondo relações de
causalidade e interdependência entre as variáveis, decompondo os efeitos totais
em efeitos directos e indirectos e testando os índices de ajustamento no modelo
global (Shipley, 1999). Tratando-se de uma técnica confirmatória, mais do que
exploratória, pretendeu-se determinar a validade do modelo teórico construído
especificamente para este estudo.
O modelo inicial teve em conta todas as relações possíveis entre as variáveis,
i.e., as variáveis exógenas que definem a qualidade de vinculação à mãe como
preditoras quer da auto-estima, quer das três dimensões da qualidade relacional
com os pares. Do mesmo modo, a auto-estima era também preditora, em
concomitância com a equação anterior, das dimensões da vinculação aos pares.
Foram testados os efeitos indirectos/mediadores da auto-estima analisando a
decomposição dos efeitos do modelo através dos valores dos testes zpara as
variáveis relevantes com uma probabilidade acoplada de 95%. Em análises
adicionais, utilizou-se o teste de Wald a posteriori, verificando do prejuízo
da retirada de parâmetros não significativos para o valor do Qui-quadrado.
Assim, no modelo final apenas são considerados os parâmetros resultantes desta
operação.
O método utilizado nas análises foi o de máxima verosimilhança, tendo sido
previamente testada a normalidade das distribuições das variáveis utilizadas,
recorrendo à análise dos gráficos de normalidade (Q-Q Plot), desta feita com
recurso ao programa SPSS (versão 15). Esta análise verificou uma contiguidade
considerável, tendo em conta o carácter psicológico das variáveis em análise.
O modelo final apresentou índices de ajustamento dentro dos valores críticos
aconselhados, a referir CFI acima de .90, assim como os índices de SRMR e RMSEA
com valores abaixo de .08 (videByrne, 2006). A magnitude dos valores observados
para o modelo final serão apresentados enquanto valores beta estandardizados,
embora sejam avançados os valores z, erro padrão e beta não estandardizados
(totais e indirectos) de modo a caracterizar a decomposição de efeitos.
RESULTADOS
Tendo em conta a estratégia de análise de dados descrita anteriormente, foi
testada a significância dos caminhos do modelo total (videFigura_1). Após a
testagem do modelo inicial [χ2=441.810(132), p=.000; CFI=.954; SRMR=.042;
RMSEA=.057] e, a respectiva análise da comparação de Wald para a retirada dos
parâmetros não significativos que não faziam variar significativamente o valor
do Qui-quadrado [χ2=5.262(3), p=.153], surge um modelo incluso1, onde foram
mantidas todas as dimensões latentes, porém onde foram retirados os parâmetros
βCOM.IEI(z=-1.674, EP=.063, p>.05; χ2=3.269, p=.071), βCOM.QLE(z=-.446,
EP=.132, p>.05; χ2=.199, p=.656) e, βALI.ASD(z=-579, EP=.072, p>.05; χ2=1.755,
p=.185).
No modelo final são apresentados os caminhos directos significativos no que
respeita à equação de medida (videFigura_2). Os índices de ajustamento
encontram-se adequados aos dados recolhidos [χ2=447.074(135), p=.000; CFI=.953;
SRMR=.045; RMSEA=.056]. É a partir deste modelo que foi analisada a
decomposição de efeitos. Assim, os resultados directos (valores beta
estandardizados) indicam que as três dimensões da vinculação à mãe se
constituíram como preditoras significativas da Auto-estima, no sentido
aguardado teoricamente. Deste modo, quer a Inibição da exploração e da
individualidade, quer a Ansiedade de separação predizem de forma fraca e
negativa a Auto-estima (β=-.24 e β=-.26, respectivamente), enquanto que o
preditor mais robusto (moderado e positivo) da Auto-estima é a Qualidade do
laço emocional na relação com a mãe (β=.41). Por outro lado, verifica-se que a
Auto-estima é um preditora directa, no sentido aguardado pela literatura, das
dimensões que avaliam a qualidade relacional com os pares, i.e., de forma fraca
e positiva no que respeita à Comunicação (β=.15) e à Confiança (β=.23), de modo
fraco a moderado e, negativamente, na Alienação com os pares (β=-.30).
Uma nota apenas para os resultados correlacionais, que se encontram dentro do
que também é teoricamente esperado, pese embora com um valor para a associação
entre a Confiança e a Comunicação cujo valor é indiciador de
multicolinariedade, porém, que se coaduna quer com os estudos iniciais de
Armsden e Greenberg (1987), onde o valor r de Pearson era bastante elevado
entre estes mesmos constructos (r=.76). De qualquer forma os testes t
efectuados para uma mesma amostra, indicaram que as dimensões tinham médias
significativamente diversas uma da outra [MCOM.=4.68, DP=.761, t(741)=167.40,
p=.000; MCON.=4.84, DP=.727, t(741)=181.53, p=.000], indicando que não se
estaria a avaliar um constructo similar. De resto, não existe o inconveniente
do erro eventual do modelo, já que não se trata de variáveis independentes mas
das variáveis exógenas finais.
Quanto aos efeitos directos da qualidade da vinculação à mãe nas dimensões da
qualidade relacional com os pares, estes aconteceram de forma significativa por
parte da Inibição da exploração e individualidade na Confiança e na Alienação,
de acordo com o esperado com valores entre o fraco a moderado e de sinal
contrário (respectivamente, βCON.IEI= -.09 e βALI.IEI=.13). A Qualidade do laço
emocional prediz, embora de modo fraco, directa e significativamente, quer a
Confiança (βCON.QLE=.12), quer a Alienação (βALI.QLE=-.21). Por último, a
Ansiedade de separação prediz fraca, e curiosamente positivamente, quer a
Alienação (βALI.ASD=.26), quer a Comunicação (βCOM.ASD=.18). Assim, cedo se
levantou a hipótese de que se estava perante um efeito de supressão na equação,
desde logo porque os resultados eram indiciadores de que quanto maior a
Ansiedade de separação na relação com a mãe, maior seria o grau de Comunicação
com os amigos, o que não se enquadra de a priori, na teoria da vinculação.
As respostas encontram-se na análise da decomposição de efeitos (videFigura
3.), verificando-se, a existência de um efeito indirecto, de sinal contrário ao
relatado anteriormente, i.e., negativo, embora fraco, porém significativo entre
Ansiedade de separação e Comunicação, mediado pela Auto-estima [βCOM.ASD
(zTOT.=3.342, EP=.034, p<.05, βNON.=.114; zIND.=-2.306, EP=.014, p<.05,
βNON.=-.032)].
Iniciou-se então o procedimento de retirada das dimensões da equação,
faseadamente, de modo a verificar qual o supressor da associação. A análise
indicou a existência de uma associação positiva e baixa entre Ansiedade de
separação e Auto-estima em termos de coeficiente de validade (r=.07, p>.05),
enquanto que o valor estandardizado da regressão desta associação é negativo e
significativo (β=-.26, p>.05).
A variável Qualidade do laço emocional tem, por seu turno, uma associação
significativa e positiva com a Auto-estima, quer no valor do coeficiente de
validade, quer no valor estandardizado da regressão (respectivamente, r=.14,
p<.05 e β=.41, p<.05). O valor da correlação entre QLE e ASD é elevado
(rQLE.ASD.=.77). Esta é por isso uma situação que configura uma supressão de
rede, ou sobreposta (cross-over) por parte de QLE (videChen & Krauss, 2004;
Conger, 1974; Horst, 1941; MacKinnon, Fairchild, & Fritz, 2007; Maassen
& Bakker, 2001; Paulhos, Robins, Trzesniewski, & Tracy, 2004; Tzelgov
& Henik, 1991). Estes valores, por seu turno, fazem com que os valores beta
estandardizados, directos e indirectos da variável preditora (ASD) na variável
critério Comunicação aos pares sejam, pelo anteriormente referido, de sinal
divergente, por outras palavras, apresentando-se no modelo enquanto mediação
inconsistente (MacKinnon e colabora dores, 2007). Será então uma situação em
que a variância irrelevante de ASD que explica a Comunicação é removida, por
acção do supressor em rede QLE, revelando a verdadeira eficácia do preditor no
critério.
A decomposição de efeitos encontrou ainda efeitos mediados através da Auto-
estima, (i) da Ansiedade de separação na Alienação (positivo e baixo) [βALI.ASD
(zTOT.=3.666, EP=.077, p<.05, βNON.=.282; zIND.=2.813, EP=.023, p<.05,
βNON.=.065)], (ii) da Qualidade do laço emocional na Alienação (negativos e
baixo) e, (iii) na Confiança (positivo e baixo) [respectivamente (zTOT.=-3.094,
EP=.199, p<.05, βNON.=-.369; zIND.=-3.314, EP=.038, p<.05, βNON.=-.137) e
(zTOT.=4.337, EP=.048, p<.05, βNON.=.206; zIND.=3.358, EP=.027, p<.05,
βNON.=.092)] e, finalmente (iv), da Inibição da exploração e da individualidade
na Alienação (positivo e baixo) [βALI.IEI(z=3.122, EP=.059, p<.05, βNON.=.184;
zIND.=3.314, EP=.019, p<.05, βNON.=.064)].
Ainda a propósito da decomposição de efeitos, referem-se ainda os efeitos
indirectos (simples), negativo e baixo da Ansiedade de separação na Confiança
aos pares (zIND.=-2.670, EP=.016, p<.05, βNON.=-.044) e, do efeito, igualmente
negativo e baixo da Inibição da exploração e individualidade na Comunicação
(zIND.=-2.737, EP=.012, p<.05, βNON.=-.032); finalmente, da existência de um
efeito indirecto, positivo e baixo, da Qualidade do laço emocional na
Comunicação aos pares (zIND.=2.742, EP= .025, p<.05, βNON.=.068).
DISCUSSÃO
Os resultados confirmaram as hipóteses levantadas acerca do valor preditivo das
dimensões da qualidade de vinculação à mãe, quer na Auto-estima, quer na
qualidade relacional com os pares enquanto dimensões de Comunicação, Confiança
e Alienação. Confirmaram-se ainda as hipóteses quer da auto-estima enquanto
preditor das três dimensões da qualidade da relação com os pares, quer ainda da
sua qualidade mediadora na associação entre ambos os contextos relacionais,
pese embora com retirada de alguns dos caminhos directos preditos na hipótese
inicial.
Destes resultados parece concluir-se que a imagem global que os adolescentes
criam de si mesmos pode ter um importante contributo da qualidade da relação de
vinculação que constroem com a mãe. Assim, funcionamentos pessoais marcados por
Inibição da exploração e individua li dade e pela percepção de uma autonomia
deficitária no processo de separação, podem dificultar o processo de
desenvolvimento psicossocial dos jovens pela diminuição da Auto-estima. Ao
contrário, a Qualidade do laço emocional evidencia um efeito positivo e
moderado no desenvol vimento da auto-estima, reforçando a ideia de que na
adolescência o "detachment"é apenas aparente, mantendo-se a ligação
com a mãe uma fonte relevante de segurança para os jovens.
Os estudos que associam a qualidade de vinculação aos pais com a qualidade
relacional com os pares na adolescência apoiam os resultados obtidos
relativamente às associações encontradas entre a qualidade da vinculação à mãe
e a qualidade de vinculação aos pares (e.g., Nickerson & Nagle, 2005). A
Inibição da exploração e individualidade apresenta um efeito directo e
negativo, embora baixo, sobre a Confiança e um efeito directo positivo na
Alienação. Talvez porque os adolescentes que percebem condicionamentos ao
desenvolvimento da sua individualidade na relação com a mãe constroem,
potencialmente, imagens internas dos outros enquanto não disponíveis ou
inconsistentes na sua prestação de cuidados. Consequentemente, este padrão
relacional na relação com a mãe pode enviesar os relacionamentos com pares,
pautando-os de emoções de alienação e consequentemente de menor confiança na
relação. Por seu turno, a Qualidade do laço emocional tem um efeito directo e
positivo na Confiança e negativo na Alienação. Por último, constatou-se que a
dimensão de Ansiedade de separação tem um efeito directo e positivo nas
dimensões de Alienação e Comunicação, este último resultado, que debateremos em
detalhe. Nesta medida, adolescentes que apresentam dificuldades ao nível do
processo de separação emocional à mãe, parecem procurar maior apoio no grupo de
pares, especialmente no que diz respeito a procura de partilha e reciprocidade
(Nickerson & Nagle, 2005; Rocha, 2008). Todavia quando a ansiedade assume
contornos mais elevados, o afastamento face ao grupo de pares pode desenvolver-
se (Black, 2002). Esta questão deve ser entendida tendo em conta níveis de
ansiedade de separação elevados que ultrapassam o limiar de ansiedade
necessária e saudável no processo natural de separação-individuação das
crianças e jovens. Assim, uma elevada ansiedade de separação remete para níveis
de vinculação ansiosa (desenvolvida por sujeitos nos quadrantes preocupados e
amedrontados, na concepção prototípica de vinculação de Bartholomew (1990;
Bartholomew & Horowitz, 1991) aumentando os valores de Alienação na relação
com os pares.
Os efeitos da Auto-estima nas dimensões utilizadas na avaliação da qualidade
relacional aos pares, foram, como seria de esperar, positivos, quer na
Comunicação, quer na Confiança e negativos relativamente à Alienação. O papel
da Auto-estima apresenta-se assim como uma dimensão que claramente potencia ou
dificulta o desenvolvimento de relações seguras com os pares. Num período
desenvolvimental onde o factor grupo se constituiu como contexto de vida
primordial, as construções pessoais de si como merecedor de cuidados e dos
outros enquanto bases e portos seguros confiáveis, influenciam sem qualquer
dúvida a abordagem relacional dos elementos do bando, os pares.
Valerá a pena discutir, com alguma minúcia, os resultados referentes à
propriedade supressora da Qualidade do laço emocional relativamente à
associação entre a Ansiedade de separação e Auto-estima. De facto, a
estatística permitiu observar o que está subjacente em termos teóricos, de
outro modo, uma Qualidade de laço emocional implica de facto uma Ansiedade de
separação, já que a operacionalização do laço em termos comportamentais se
observa quer no grau de ansiedade nas situações de activação do sistema, quer
no recurso a base e porto seguros que da figura o sujeito pessoal realiza. Por
isso mesmo o modelo integra a forte associação entre ambos os constructos.
Sendo a Auto-estima uma variável que teoricamente se associa à qualidade de
vinculação aos pais, desde logo pela imagem internalizada que o sujeito faz de
si, mas com certeza da comparação de si que faz com os outros (Bowlby, 1988;
Mota, 2008; Rice & Delwo, 2002; Rocha, 2008; Trzesnieeswski e
colaboradores, 2004), aguardava-se que o seu papel fosse mediador, isto é, que
parte da variância das dimensões da qualidade de vinculação à mãe que explicam
a qualidade de vinculação aos pares, seria explicada pela intervenção da Auto-
estima. Na predição da Auto-estima, a Qualidade do laço emocional e a Ansiedade
de separação à mãe, introduzidas enquanto variáveis controladas, permitem
observar que quanto mais elevada a primeira, maior robusta e positiva a Auto-
estima, porém, quanto maior a associação entre ambos os preditores, maior a
possibilidade de que a Auto-estima sofra uma influência negativa por parte da
Ansiedade de separação, já que, se com níveis elevados, poderá funcionar, não
como forma adaptativa do sistema de vinculação, mas sim enquanto
"oponente" à criação de uma saudável imagem de si enquanto
merecedor(a) de cuidados e carinho. Note-se contudo, que quando os efeitos dos
preditores não se encontram controlados, as associações com a Auto-estima são
ambas positivas e de magnitude baixa (sem significância no caso da AS). Testa-
se assim empiricamente a necessidade de introduzir ambas as variáveis neste
tipo de modelos.
Porém, este fenómeno transportou um outro. As associações entre a Ansiedade de
separação e a Comunicação na relação com os pares amigos evidenciavam um efeito
directo positivo, contudo, um efeito mediado pela Auto-estima, desta feita
negativo. A presença de uma qualidade inconsistente da mediação é contudo
suportada pelos dados bibliográficos. De facto, o que parece estar a acontecer
é que o valor negativo, que acontece pelo somatório dos produtos entre os
parâmetros da Auto-estima e AS e da primeira com a Comunicação, aparece como um
revisordo valor da variância da AS que de facto explica a Comunicação com os
pares. Em termos teóricos, os resultados são indicadores de uma associação
entre a vinculação aos pais e a vinculação aos pares (Black, 2002; Carlivati,
2001, 2003; Margolese, Markiewicz, & Doyle, 2005). Deste modo, é uma
Ansiedade de separação baixa que parece influenciar significativamente a
qualidade da Comunicação aos pares amigos, sendo desvendada a verdadeira
magnitude da influência positiva da AS na variável critério da relação com os
pares. A leitura teórica é por isso realizada com base na premissa de que
quanto mais elevada a AS, menor o sentido pessoal de valência, e assim sendo,
mantendo os níveis de Ansiedade e separação na relação com a mãe a um nível
baixo embora significativo, maior a possibilidade de que o sujeito psicológico
aborde com segurança o contexto relacional com os pares, no que respeita à
qualidade e extensão da comunicação.
Além destes efeitos mais complexos, a Auto-estima parece ainda mediar
parcialmente as associações entre, (i) Inibição da exploração e individualidade
e os critérios Confiança e Alienação, (ii) Qualidade do laço emocional e os
critérios Confiança e Alienação e, (iii) Ansiedade de separação e Alienação.
Parece-nos importante referir a importância de cada preditor dos valores da
qualidade relacional com pares nesta equação, i.e., dado que as mediações
encontradas são parciais, a retirada ou do mediador ou do preditor não se
adequa à realidade dos dados. De outro modo ainda, no contexto desenvolvimental
da adolescência (e nos que lhe sobrevêm, cremos) quer a vinculação à mãe, quer
a Auto-estima têm o seu próprio papel não sendo possível dissociar uma ou outra
dos modelos pessoais de desenvolvimento. De acordo com os nossos resultados
estão os de Huntsinger e Luecken (2004), sugerindo que a auto-estima pode
funcionar enquanto mediador entre a qualidade da vinculação aos pais e os
comportamentos saudáveis dos jovens, e de Rocha (2008) que observou este efeito
mediador quer na associação qualidade de vinculação ao pai, quer à mãe e
qualidade relacional com os pares.
Limitações e pistas para futuras investigações
Embora os resultados obtidos neste estudo tenham trazido um contributo, que
cremos relevante para futuras investigações, o seu desenho transversal não
permite o acesso à compreensão de processos psicológicos que lhe estão
subjacentes, o que se constitui numa óbvia limitação.
No entanto, de novo foram encontrados resultados que permitem confirmar a
consistência na associação entre a qualidade de vinculação aos pais, neste caso
à mãe, e a vinculação aos pares, contribuindo para o alargamento teórico da
vinculação na adolescência. Mais ainda, a observação teórica da Auto-estima
enquanto variável que se desenvolve face à relação parental e por sua vez é
também ela capaz de influenciar a qualidade das relações com os pares, alarga o
campo de pesquisa da auto-estima sob o ponto de vista da vinculação.
Uma das questões aberta com este trabalho, e que deverá ser explorada em
futuros trabalhos, é da réplica dos interessantes resultados acerca da
supressão e da mediação inconsistente. Além de permitir retirar ilações
interessantíssimas acerca da necessidade de integrar nos estudos as dimensões
ou variáveis que teoricamente devem aparecer conjuntamente como preditoras, sob
pena do mascarar dos reais efeitos dos preditores sobre os critérios, permite
ainda defender a análise cuidada da decomposição de efeitos como forma de
compreensão do real, tantas vezes descurada nos estudos empíricos porque de
algum modo desvalorizada (videKenny, 2008; MacKinnon, Krull, & Lockwood,
2000; MacKinnon et al., 2007; Maassen & Bakker, 2001; Paulhos et al.,
2004).
Por último, uma réplica deste estudo com os dados relativos ao pai resultaria
numa imagem mais completa das associações entre vinculação a pais e pares e
auto-estima. A figura paterna é na teoria da vinculação, muitas vezes
"esquecida" (Rocha, 2008). Seria impossível testar num modelo as
associações entre ambos os contextos relacionais com pais e as restantes
variáveis preditoras e critério, já que as questões da multicolineriedade e da
parcimónia se colocam (Hair, Anderson, Tatham, & Black, 1998), no entanto,
em futuros estudos esta será uma análise que se pretende efectuar.