Funcionamento sexual e ciclo-de-vida em mulheres portuguesas
Ao longo da vida cada mulher passa potencialmente por um conjunto de processos
que afectam o funcionamento sexual, nomeadamente as mudanças hormonais e
fisiológicas da puberdade, dos ciclos menstruais, da gravidez, do pós-parto, e
da menopausa. A existência de um companheiro, a idade do companheiro e o seu
funcionamento sexual, a duração do relacionamento, e os sentimentos da mulher
pelo companheiro são factores de relacionamento que afectam o funcionamento
sexual da mulher. A importância que a mulher dá à sexualidade e o nível de mal-
estar no caso da ocorrência de disfunção sexual podem também ser diferentes em
função da idade da mulher (Bancroft, Loftus, & Long, 2003).
Dado que tantas mudanças podem ter lugar na vida da mulher como consequência do
processo de envelhecimento, torna-se bastante difícil saber que factores
afectam que aspectos da função sexual e em que grau. As características de
designdo estudo, a diversidade das populações estudadas, as estratégias de
amostragem, o intervalo de idade estudado, e os critérios de inclusão são
exemplos de questões metodológicas que afectam os resultados finais dos estudos
e contribuem para os tornar pelo menos parcialmente inconclusivos quando são
feitas comparações inter-estudos (Hayes & Dennerstein, 2005).
Relativamente ao funcionamento sexual, Laumann, Paik e Rosen (1999), através de
uma amostra probabilística de 1749 mulheres norte-americanas dos 18 aos 59
anos, entrevistaram, com recurso a uma entrevista especialmente elaborada, as
mulheres sexualmente activas nos últimos 12 meses. Os dados obtidos
demonstraram que o interesse sexual e a capacidade de atingir orgasmo se
mantiveram estáveis, enquanto que a dor coital, a ausência de prazer no sexo, e
a ansiedade de desempenho sexual diminuíram com a idade. Os autores concluíram
que nas mulheres a prevalência de problemas sexuais tende a diminuir à medida
que a idade aumenta, excepto no caso da lubrificação. Também o nível
educacional se evidenciou como variável influente no funcionamento sexual, com
as mulheres de mais alto nível educacional a funcionarem sexualmente melhor. A
frequência de masturbação foi mais baixa nas cohorts mais nova e mais velha, e
mais alta na cohort de meia-idade. O número de mulheres a terem actividade
sexual com um companheiro atingiu um pico dos 25 aos 29 anos, declinando
gradualmente até aos 54 anos e depois declinando abruptamente até aos 59 anos.
Fugl-Meyer e Fugl-Meyer (2002) recorreram a uma amostra representativa de 1335
mulheres suecas entre os 18 e os 74 anos. O método de avaliação foi um
questionário desenvolvido pelos autores preenchido durante a entrevista,
referindo-se as perguntas ao funcionamento durante o último ano. Os dados
obtidos indicaram que o desejo sexual reduzido, as dificuldades de
lubrificação, a dispareunia e a insatisfação sexual aumentaram com a idade,
enquanto o orgasmo e o vaginismo não apresentaram qualquer relação com a idade.
Encontrou-se uma relação directa entre a diminuição do desejo e a maior duração
do relacionamento.
Avis, Stellato, Crawford, Johannes e Longcope (2002) utilizaram uma amostra de
427 mulheres norte-americanas pertencentes ao Massachusetts Women’s Health
Study II, as quais foram avaliadas através de questionário construído pelos
autores. Os dados revelaram que a frequência de sexo, a dispareunia, e a
satisfação sexual não estavam correlacionadas com a menopausa, apesar de as
mulheres menopausicas relatarem ter mais problemas de desejo sexual hipoactivo
e de perturbação de excitação.
Kadri, Alami e Tahiri (2000) utilizaram uma amostra estratificada e aleatória
de 728 mulheres marroquinas de Casablanca dos 20 aos 80 anos, as quais foram
avaliadas relativamente ao funcionamento sexual nos últimos 6 meses por
entrevista segundo os critérios DSM-IV. Os resultados indicaram que a
prevalência de desejo sexual hipoactivo diminuiu com a idade, enquanto a
aversão sexual, as dificuldades de orgasmo, as dificuldades de excitação
sexual, e a dispareunia não se alteraram com a idade.
Dennerstein, Randolph, Taffe, Dudley e Burguer (2002) elaboraram um estudo
longitudinal baseado numa amostra aleatória de 438 mulheres australianas dos 45
aos 55 anos avaliadas anualmente ao longo de 8 anos. Este estudo procurou
superar as limitações dos estudos transversais por ser longitudinal prospectivo
baseado na população geral, e ao utilizar o McCoy Female Sexuality
Questionnairecom análises hormonais simultâneas. Este designde estudo, em
conjunção com o tamanho grande da amostra que potencia a análise estatística,
permitiu controlar o nível de funcionamento sexual anterior e a idade,
separando claramente os seus efeitos dos efeitos da menopausa. Os resultados
evidenciaram que a percentagem de mulheres com disfunção sexual aumentou de 42%
para 88% na última avaliação. Na fase menopáusica houve um declínio
significativo na excitação sexual, no interesse sexual, e na frequência de
actividades sexuais, enquanto que houve um aumento significativo na secura
vaginal, na dispareunia, e no aumento dos problemas sexuais do companheiro. O
declínio do funcionamento sexual estava correlacionado com a diminuição do
estradiol, mas não dos androgénios. As autoras concluíram que se dá um declínio
dramático no funcionamento sexual feminino com a transição menopáusica natural.
Bancroft, Loftus e Scott Long (2003) recolheram uma amostra aleatória
estratificada de 987 mulheres norte-americanas dos 20 aos 65 anos, que foram
avaliadas por entrevista telefónica assistida por computador quanto ao seu
funcionamento sexual nas últimas 4 semanas. Cerca de 25% das mulheres relataram
ter mal-estar acentuado relativamente ao seu relacionamento sexual e/ou a
própria sexualidade. Apesar de os problemas sexuais tenderem a ser mais comuns
nas mulheres mais velhas, eram as mulheres mais novas que tinham mais
probabilidade de se sentirem incomodadas com a ocorrência desses problemas. A
falta de bem-estar emocional e os sentimentos negativos durante a actividade
sexual com o companheiro seriam determinantes mais importantes do mal-estar
sexual do que os aspectos mais fisiológicos da resposta sexual feminina.
Najman, Dunne, Boyle, Cook e Purdie (2003) fizeram um estudo com uma amostra
estratificada de 908 mulheres australianas dos 18 aos 59 anos através de
entrevista telefónica baseada na de Laumann, Paik e Rosen (1999) em que se
focou o funcionamento sexual nos últimos 12 meses. Os resultados indicaram que
a dor coital diminuiu com a idade, enquanto que os problemas de lubrificação e
a ausência de prazer sexual aumentaram com a idade. A capacidade de atingir o
orgasmo não se alterou com a idade.
Richters, Grulich, Visser, Smith e Rissel (2003) utilizaram numa amostra
aleatória de 9134 mulheres australianas dos 16 aos 59 anos, as quais foram
avaliadas por entrevista assistida por computador baseada na de Laumann et al.
(1999). Os dados obtidos relativos aos últimos 12 meses indicaram que a falta
de interesse sexual, a incapacidade de atingir o orgasmo, e a secura vaginal
aumentaram com a idade, enquanto a dor coital diminuiu com a idade. A falta de
prazer sexual, a ansiedade durante o sexo, e a rapidez em atingir o orgasmo não
se alteraram com a idade. A frequência de actividade sexual com um parceiro
sexual regular diminuiu a partir dos 30 anos, enquanto que a masturbação
aumentou e estabilizou entre os 20 e os 39 anos, declinando a partir daí. As
mulheres com um parceiro sexual regular tinham menos probabilidade de se
masturbar que as mulheres sem parceiro regular.
Nobre (2003) utilizou uma amostra de conveniência de 188 mulheres portuguesas
dos 18 aos 79 anos com uma idade média de 31 anos, avaliadas através de uma
versão parcialmente validada do Índice de Funcionamento Sexual Feminino. A sua
amostra era desproporcionadamente constituída por mulheres jovens (só 16
mulheres tinham mais de 50 anos) e por mulheres com escolaridade elevada (só 13
tinham habilitações inferiores ao 12º ano). Os dados permitiram evidenciar que
apenas a idade (e não o nível educacional) influenciou o funcionamento sexual,
nomeadamente a lubrificação, a satisfação sexual, a dor, e o próprio
funcionamento sexual geral.
Johnson, Phelps e Cottler (2004) utilizaram uma amostra aleatória de 1801
mulheres norte-americanas provenientes da área de St. Louis, as quais foram
entrevistadas quanto ao seu funcionamento sexual nos últimos meses usando a
Diagnostic Interview Schedule. Os resultados indicaram que o desejo sexual
inibido aumentou com a idade, enquanto que a dispareunia diminuiu com a idade.
O orgasmo inibido, o desejo sexual inibido e “outras disfunções” não se
alteraram com a idade.
Çayan, Akbay, Bozlu, Canpolat, Acar e Ulusoy (2004) utilizaram uma amostra de
conveniência de 179 mulheres turcas dos 18 aos 66 anos da área de Mersin, as
quais foram avaliadas através do Índice de Funcionamento Sexual Feminino. Os
dados, relativos ao funcionamento sexual nas últimas quatro semanas,
evidenciaram que a prevalência de disfunções sexuais femininas aumentou com a
idade, sendo que o baixo nível educacional, o desemprego, as doenças crónicas,
a multiparidade, e a menopausa foram considerados factores de risco importantes
na sua etiologia.
Abdo, Oliveira, Moreira e Fittipaldi (2004) utilizaram uma amostra de
conveniência de 1219 mulheres brasileiras com mais de 18 anos, tendo estas sido
avaliadas através de um questionário adaptado de Laumann et al. (1999). Os
resultados indicaram que a prevalência de disfunção sexual aumentou
significativamente com a idade e com o baixo nível educacional.
Ponholzer, Roehlich, Racz, Temml e Madersbacher (2005) utilizaram uma amostra
de conveniência de 703 mulheres austríacas dos 20 aos 80 anos que foram
avaliadas por questionário construído pelos autores. Os dados obtidos relativos
às últimas 4 semanas, revelaram que 22% queixaram-se de perturbação do desejo,
35% de perturbação da excitação, e 39% de perturbação do orgasmo, sendo que
todas estas perturbações estavam significativamente relacionadas com o aumento
da idade, o mesmo se passando com o declínio da frequência coital. Os
resultados indicaram também que a dor sexual era significativamente mais comum
em mulheres mais novas.
Relativamente à satisfação sexual, Hawton, Gath e Day (1994), numa amostra
aleatória retirada da população geral constituída por 436 mulheres dos 35 aos
59 anos, analisaram diversas variáveis relativas à sexualidade entre as quais a
satisfação sexual. Não foi encontrada qualquer correlação entre a satisfação
sexual e a idade, ou entre a satisfação sexual e a classe social, mas foi
encontrada uma forte correlação entre o ajustamento marital e a satisfação
sexual.
Spira e Bajos (1994) utilizaram uma amostra de 11104 mulheres francesas dos 18
aos 69 anos, as quais entrevistaram através do telefone com uma entrevista
elaborada pelos autores, para avaliar a satisfação sexual. Os dados
demonstraram que a satisfação sexual diminuía com a idade.
Ventegodt (1998) a partir de uma amostra representativa de 2460 cidadãos
finlandeses dos 18 aos 88 anos dos quais 753 eram mulheres não encontrou
qualquer correlação entre a satisfação sexual e a idade.
Dunn, Croft e Hackett (2000), utilizando uma amostra aleatória de 1768 homens e
mulheres ingleses dos 18 aos 75 anos dos quais 782 eram mulheres, não
encontraram uma correlação significativa entre a idade e a satisfação sexual.
Foi encontrada uma forte correlação entre a satisfação e a maior frequência de
sexo, tendo sido também demonstrado que a insatisfação sexual tendia a ser mais
alta quando os sujeitos consideravam ter eles próprios problemas sexuais e a
ser ainda mais alta quando pensavam que o companheiro tinha um problema sexual.
Deeks e McCabe (2001), utilizando uma amostra de 304 mulheres entre os 35 e os
65 anos retirada da população geral, investigaram os efeitos da idade, da
menopausa, e do funcionamento sexual do companheiro no funcionamento sexual
dessas mulheres. Os resultados demonstraram que a satisfação sexual era melhor
prevista pela idade e pela menopausa. As mulheres mais novas tinham maior
probabilidade de estarem satisfeitas com o seu relacionamento sexual e tinham
também uma maior frequência de coito. As mulheres menopáusicas tinham mais
probabilidade de sofrerem de um problema sexual. A idade também era melhor
preditora de o companheiro sofrer de uma disfunção sexual, que por sua vez
teria efeito no funcionamento sexual da mulher menopáusica.
Hisasue et al. (2005), numa investigação efectuado com uma amostra de 5042
mulheres japonesas dos 17 aos 88 anos avaliadas através de um questionário
postal construído pelos autores, não encontraram qualquer correlação entre a
satisfação sexual e a idade, mas encontraram correlações estatísticas
significativas entre a satisfação sexual e preliminares, orgasmo, e frequência
de actividade sexual. Estes autores evidenciaram que, paradoxalmente, a
capacidade eréctil do companheiro não contribuía para a satisfação sexual da
mulher, apesar de contribuir para a frequência sexual.
Haavio-Manilla e Kontula (1997) procuraram preditores da satisfação sexual numa
amostra de 1718 mulheres e homens finlandeses dos 18 aos 74 anos. Recorrendo-se
à técnica estatística de path analysisos resultados demonstraram que nas
mulheres a satisfação sexual se correlacionava directamente com a idade jovem e
com o início precoce da vida sexual; indirectamente a satisfação sexual
correlacionava-se com uma educação liberal e não religiosa, escolaridade de
nível superior, assertividade sexual, sentimentos recíprocos de amor,
atribuição de importância à sexualidade, utilização de materiais sexuais, coito
frequente, técnicas sexuais versáteis, e obtenção frequente de orgasmo. Os
autores provaram ainda que a satisfação sexual global estava relacionada, em
níveis idênticos, quer com a satisfação sexual física quer com a emocional.
Este estudo finlandês demonstrou que a satisfação sexual aumentou grandemente
nos últimos vinte anos, principalmente entre as mulheres, apesar destas ainda
revelarem maior insatisfação sexual que os homens, argumentando os autores que
tal se deve ao começo tardio da vida sexual, a atitudes sexuais conservadoras,
à atribuição de menor importância à esfera sexual, à falta de assertividade
sexual e ao facto de não utilizarem técnicas sexuais dotadas de maior
plasticidade, aspectos que no seu conjunto as tornam mais inibidas sexualmente
que os homens.
Pechorro, Diniz e Vieira (2009) investigaram a relação da satisfação sexual com
o funcionamento sexual e com os comportamentos sexuais numa amostra de
conveniência de mulheres portuguesas. Os resultados obtidos demonstraram não
existir relação significativa entre a satisfação sexual e as fases do ciclo de
resposta sexual, mas demonstraram a existência duma relação significativa entre
a satisfação sexual e o comportamento sexual carícias e preliminares.
Da revisão de literatura dos estudos empíricos transversais sobre mulheres
podemos concluir que a maioria dos resultados destes evidencia um declínio no
funcionamento sexual e na frequência de actividades sexuais à medida que a
idade aumenta, sendo que tal declínio parece começar algures entre o final da
segunda e o final da terceira décadas de vida (e.g., Bancroft et al., 2003;
Kinsey, Pomeroy, Martin, & Gebhard, 1953; Rissel, Richters, Grulich,
Visser, & Smith, 2003). Os dados indicam que a frequência de coito diminui
progressivamente, enquanto que a masturbação aumenta e estabiliza durante a
meia-idade (e.g., Laumann et al., 1999). Existe uma tendência maioritária na
literatura que vai no sentido de que acontece um declínio progressivo no
desejo, na excitação, na lubrificação e no orgasmo (e.g., Richters et al.,
2003); relativamente à dor coital os resultados dos estudos não têm sido
consistentes (e.g., Kadri et al., 2000; Richters et al., 2003). Os estudos
transversais não estão isentos de críticas metodológicas, das quais salientamos
a dificuldade em separar o efeito geracional (ou de cohort) do efeito de idade
(e.g., Edwards & Booth, 1994; McCoy, 1998).
Os estudos longitudinais são escassos e têm focado principalmente o desejo, a
frequência de actividades sexuais, e a menopausa. Os dados evidenciam que na
generalidade das mulheres verifica-se a tendência para haver ou uma
estabilização ou um declínio do desejo (e.g., Hallstrom & Samuelsson,
1990), que no caso da frequência de actividades sexuais se verifica um
inequívoco declínio (e.g., Dennerstein, Randolph, Taffe, Dudley, & Burguer,
2002), e que a menopausa é um factor significativo no declínio do funcionamento
sexual (e.g., Dennerstein, Alexander, & Kotz, 2003). Estes estudos também
demonstraram a importância que os factores relacionados com o companheiro têm
relativamente às actividades sexuais e ao desejo (e.g., Hallstrom &
Samuelsson, 1990). Também os estudos longitudinais não estão isentos de
críticas metodológicas, das quais salientamos o facto de que as investigações
efectuadas muito raramente ultrapassam os dez anos, o que é pouco para detectar
grandes variações na sexualidade considerando o ciclo-de-vida humano.
Podemos concluir que a generalidade das recentes investigações e revisões de
literatura a nível internacional, salvo excepções pontuais, aponta para um
declínio geral do funcionamento sexual em função da idade e da menopausa, e
para uma elevada prevalência de problemas sexuais na população feminina.
Relativamente à investigação feita com mulheres portuguesas provenientes da
população geral (i.e., com amostra não-clínica), salientamos as efectuadas por
Nobre (2003) e por Monteiro Pereira et al. (2006).
Relativamente à satisfação sexual os resultados dos diversos estudos efectuados
variam dependendo da amostra estudada, do tipo de designdo estudo, e da
definição operacional de satisfação utilizada (Davis & Petretic-Jackson,
2000; Hayes & Dennerstein, 2005). Os estudos sobre satisfação sexual não
esclarecem de forma consistente a relação entre satisfação sexual e a idade,
dado que tanto existem evidências que apontam no sentido de que esta não se
altera com a idade (e.g., Dunn et al., 2000) como evidências de que esta
diminui com a idade (e.g., Deeks & McCabe, 2001).
A presente investigação tem diversos objectivos que assentam na pretensão de,
com recurso ao que é a realidade nacional das mulheres portuguesas, esclarecer
várias questões gerais de investigação relacionadas com o tópico da sexualidade
e ciclo-de-vida. Será que os comportamentos sexuais declinam uniformemente com
a idade? Será que o funcionamento sexual em geral e as várias dimensões que o
compõem declinam uniformemente com a idade? Será que a satisfação sexual
declina com a idade?
MÉTODO
Participantes
Na amostra comunitária obteve-se um total de 152 mulheres (N=152; leque
etário=26-70 anos; M=41 anos; desvio-padrão=12 anos) subdividido em vários
grupos. O Grupo 1 ficou com 66 mulheres (N=66; leque etário=26-35 anos; M=29
anos; desvio-padrão=3 anos), o Grupo 2 ficou com 44 mulheres (N=44; leque
etário=40-49 anos; M=43 anos; desvio-padrão=3 anos), e o Grupo 3 ficou com 42
mulheres (N=42; leque etário=54-70 anos; M=58 anos; desvio-padrão=4 anos).
Todas as mulheres eram caucasianas e residiam em meio urbano (distrito de
Lisboa), tendo sido seleccionadas através de um processo de amostragem por
conveniência.
Procedeu-se à análise descritiva de algumas variáveis descritas como
influenciando a sexualidade feminina (e.g., Laumann et al., 1999), nomeadamente
Posição Social, Religiosidade, Toma de anti-depressivos e presença de
Menopausa.
Relativamente à posição social (De Castro & Lima, citados por Diniz, 2001)
63.8% das mulheres ficaram colocadas na Posição Social II (classe média mais
instruída), seguidas de 20.4% colocadas na Posição Social III (classe média
menos instruída), de 11.9% colocadas na Posição Social IV (estrato operário e
rural), e de 3.9% colocadas na Posição Social I (classe superior). Quanto à
religiosidade, analisando a amostra total, registou-se uma maioria de 55.3% das
mulheres a considerarem-se religiosas não-praticantes, 27.6% religiosas
praticantes, e 17.1% das mulheres declararam não ser religiosas. No que diz
respeito à toma de anti-depressivos contabilizaram-se 12.5% das mulheres a
tomar anti-depressivos, e quanto à presença de Menopausa identificaram-se 28%
de mulheres em estado de menopausa ou peri-menopausa.
Instrumentos
Optou-se pelo Índice de Funcionamento Sexual Feminino (FSFI; Meston, 2003;
Pechorro, Diniz, Almeida, & Vieira, 2009a; Rosen et al., 2000) e pelo
Índice de Satisfação Sexual (ISS; Hudson, 1998, 2000; Hudson, Harrison, &
Crosscup, 1981; Pechorro, Diniz, Almeida, & Vieira, 2009b), devido a terem
sido validados em Portugal, às boas propriedades psicométricas que demonstram
possuir e à sua adequação aos propósitos da investigação. Foram adicionalmente
construídos um Questionário Demográfico, para descrever as características
sócio-demográficas da amostra, e um Questionário de Comportamentos Sexuais e de
Saúde em que se questionava se a participante era sexualmente activa, quais os
comportamentos sexuais praticados, a frequência com que esses comportamentos
eram praticados (escala Likert de 7 pontos) e o seu estado relativamente à
menopausa.
Procedimentos
Recrutaram-se os sujeitos constituintes da nossa amostra comunitária de
validação em instituições de ensino superior (alunas do Instituto Superior de
Psicologia Aplicada, Universidade Internacional da Terceira Idade, e
Universidade de Lisboa para a Terceira Idade) e em hospitais (funcionárias do
Hospital de Santa Maria e Hospital Pulido Valente). Sempre que possível
utilizou-se preferencialmente o método de aplicação em grupo com recurso a urna
para manter a confidencialidade. Adicionalmente foram utilizados Informantes
Privilegiados (IP), geralmente psicólogas às quais foram previamente explicados
os procedimentos de aplicação, que nos seus contextos profissionais aplicaram
os questionários com recurso à metodologia preferencial acima referida.
Foram disponibilizados 368 questionários, dos quais foram devolvidos 276
questionários (incluindo bem preenchidos e mal preenchidos), tendo sido obtida
uma taxa de resposta de 75%. O número de questionários bem preenchidos foi de
244 (incluindo mulheres sexualmente inactivas e mulheres sexualmente activas),
186 dos quais foram considerados como potencialmente utilizáveis por as
mulheres relatarem terem sido sexualmente activas com os seus companheiros.
Após a recolha procedeu-se à selecção dos questionários que cumpriam os
critérios mais específicos desta investigação, nomeadamente estar incluída num
dos grupos etários pré-definidos (Grupo 1=26-35 anos, Grupo 2=40-49 anos, Grupo
3=54-70 anos), ser casada/viver em união de facto e ser caucasiana. Foi
intencionalmente deixado um hiato de 4 anos entre os intervalos dos grupos
etários de forma a que os efeitos da idade pudessem ser mais fortemente
evidenciados; optou-se por fixar o critério de estar casada/viver em união de
facto dado que algumas mulheres referirem ser sexualmente inactivas devido a
falta de companheiro (não por opção pessoal), e fixar o critério de ser
caucasiana dada a esmagadora maioria das mulheres constituintes da amostra
pertencerem a esse grupo (98.7%).
No Grupo 1 e no Grupo 2 foram incluídas somente mulheres pré-menopausicas
(algumas mulheres precocemente menopausicas devido a causas médicas foram
excluídas do Grupo 2), enquanto que no Grupo 3 foram incluídas somente mulheres
peri-menopausicas e pós-menopausicas, das quais 38.1% (n=16) faziam terapia de
substituição hormonal.
Os dados foram inseridos e tratados no SPSS 14.0 for Windows. Não houve
necessidade de tratar valores omissos dado que apenas foram seleccionados os
sujeitos que responderam totalmente às escalas. Para as escalas, multiplicámos
os resultados obtidos nos itens (os negativamente conotados foram inversamente
cotados) pela carga factorial na respectiva dimensão e calculámos a média
destas notas para cada dimensão. As hipóteses foram testadas depois de tratados
os outliers por grupo, conforme o método sugerido por Tabachnick e Fidell
(2000).
RESULTADOS
Relativamente aos comportamentos sexuais podemos observar na Tabela 1 a
frequência dos diversos comportamentos por amostra total. De salientar que os
0% de mulheres que indicaram ter tido Sexo vaginal nenhuma vez são devidos a um
dos critérios de inclusão nesta investigação ser precisamente a obrigatoriedade
de o terem tido. De salientar também que o comportamento Sexo anal é o menos
frequentemente assinalado (nenhuma mulher o assinalou de Uma vez por Semana a
Mais de uma vez por dia).
TABELA 1
Frequência de comportamentos sexuais por amostra total
Na Tabela 2 podemos observar a frequência dos diversos comportamentos sexuais
por grupos etários.
TABELA 2
Frequência de comportamentos sexuais por grupos etários
Seguidamente foi utilizado o teste de U-Mann-Whitney para fazer comparações
entre os grupos quanto aos comportamentos sexuais. Não se analisou o
comportamento sexual Sexo anal por se considerar não haver variabilidade
suficiente nos grupos para o fazer. A análise estatística com U-Mann-Whitney
para os grupos 1 e 2 (vd. Tabela 3) indicou não haver efeitos estatisticamente
significativos para os comportamentos sexuais Beijar, Fantasia, Masturbação
mútua, Carícias e preliminares, e Sexo oral. Apenas para o comportamento sexual
Masturbação sozinha se verificou um resultado estatisticamente significativo
relativo ao efeito do grupo sobre essa variável (U=1090; p<.05) favorável ao
grupo 2, e para o comportamento sexual Sexo vaginal se verificou um resultado
marginalmente significativo relativo ao efeito do grupo sobre essa variável
(U=1079; p=.072) favorável ao grupo 1.
TABELA 3
Comportamentos sexuais:U-Mann-Whitneypara comparações entre os grupos 1 e 2
A análise estatística para os grupos 1 e 3 (vd. Tabela 4) indicou haverem
efeitos estatisticamente significativos para os comportamentos sexuais Beijar
(U=646.5; p<.001) favorável ao grupo 1, Fantasia (U=342; p<.001) favorável ao
grupo 1, Masturbação mútua (U=677; p<.01) favorável ao grupo 1, Carícias e
preliminares (U=423.5; p<.001) favorável ao grupo 1, Sexo oral (U=685.5; p<.01)
favorável ao grupo 1, e Sexo vaginal (U=362.5; p<.001) favorável ao grupo 1.
Apenas para o comportamento sexual Masturbação sozinha se verificou não haver
efeitos estatisticamente significativos relativo ao efeito do grupo sobre essa
variável.
TABELA 4
Comportamentos sexuais:U-Mann-Whitneypara comparações entre os grupos 1 e 3
A análise estatística para os grupos 2 e 3 (vd. Tabela 5) indicou haverem
efeitos estatisticamente significativos para os comportamentos sexuais Beijar
(U=478.5; p<.05) favorável ao grupo 2, Fantasia (U=299; p<.001) favorável ao
grupo 2, Carícias e preliminares (U=328.5; p<.001) favorável ao grupo 2, e Sexo
vaginal (U=284.5; p<.001) favorável ao grupo 2, e efeitos marginalmente
significativos para os comportamentos sexuais Masturbação mútua (U=477; p=.052)
favorável ao grupo 2 e Sexo oral (U=499; p=.094) favorável ao grupo 2. Apenas
para o comportamento sexual Masturbação sozinha se verificou não haver efeitos
estatisticamente significativos relativo ao efeito do grupo sobre essa
variável.
TABELA 5
Comportamentos sexuais:U-Mann-Whitneypara comparações entre os grupos 2 e 3
Como se pode verificar na Figura 1, é patente que um declínio acentuado da
maioria dos comportamentos sexuais acontece no grupo 3. De salientar que o
comportamento sexual masturbação sozinha teve o valor de mediana igual a zero
em todos os grupos, apesar de se terem encontrado diferenças estatisticamente
significativas entre os grupos (como foi referido acima).
FIGURA 1
Comportamentos sexuais medianos por grupo etário
Para analisar o funcionamento sexual pretendeu-se utilizar a estatística
MANOVA. Todavia, o teste de Levene de igualdade de variâncias de erro indicou
valores inaceitáveis para as variáveis Desejo-Excitação [F(2,149)=12.72;
p<.001], Lubrificação [F(2,149)=28.25; p<.001], Dor [F(2,149)=89.65; p<.001], e
FSFI total [F(2,149)=10.60; p<.001]; indicou também valores aceitáveis para as
variáveis Orgasmo [F(2,149)=2.85; p=.061] e Satisfação [F(2,149)= .01; p=.989].
Devido a tal optou-se por utilizar nas variáveis Orgasmo e Satisfação a MANOVA.
Nas variáveis Desejo-Excitação, Lubrificação, Dor, e FSFI total optou-se pelo
teste de U-Mann-Whitney.
A análise estatística com MANOVA (vd. Tabela 6) indicou existirem efeitos
estatisticamente significativos entre os grupos nas variáveis Orgasmo [F
(2,152)=3.47; p<.05; eta2=.05; poder=.64] e Satisfação [F(2,152)=6.77; p<.01;
eta2=.08; poder=.91].
TABELA 6
Orgasmo e Satisfação: Manova para comparações entre o grupo 1, o grupo 2 e o
grupo 3
Seguidamente fizeram-se as comparações post-hoc por Bonferroni (vd. Tabela 7).
Nas comparações entre os grupos 1 e 2 não se encontraram efeitos
estatisticamente significativos na variável Orgasmo nem na variável Satisfação.
TABELA 7
Orgasmo e Satisfação: Bonferroni para comparações entre o grupo 1 e o grupo 2
Nas comparações entre os grupos 1 e 3 (vd. Tabela 8) encontraram-se efeitos
estatisticamente significativos para a variável Satisfação (p<.01) e efeitos
marginalmente significativos para a variável Orgasmo (p=.064), ambos favoráveis
ao grupo 1.
TABELA 8
Orgasmo e Satisfação: Bonferroni para comparações entre o grupo 1 e o grupo 3
Nas comparações entre os grupos 2 e 3 (vd. Tabela 9) encontraram-se efeitos
estatisticamente significativos para a variável Satisfação (p<.05) e efeitos
marginalmente significativos para a variável Orgasmo (p=.064), ambos favoráveis
ao grupo 2.
TABELA 9
Orgasmo e Satisfação: Bonferroni para comparações entre o grupo 2 e o grupo 3
A análise estatística com U-Mann-Whitney para os grupos 1 e 2 (vd. Tabela 10)
indicou haver um efeito estatisticamente significativo para a variável Desejo-
Excitação (U=1082; p<.05), favorável ao grupo 1, e não haverem efeitos
estatisticamente significativos para as variáveis Lubrificação, Dor e FSFI
total.
TABELA 10
FSFI e suas dimensões: Teste de U-Mann-Whitney para comparações entre o grupo 1
e o grupo 2
Para os grupos 1 e 3 (vd. Tabela 11) indicou haverem efeitos estatisticamente
significativos para as variáveis Desejo-Excitação (U=667.5; p<.001),
Lubrificação (U=851; p<.001), Dor (U=966; p<.01) e FSFI total (U=780.5;
p<.001), todas favoráveis ao grupo 1.
TABELA 11
FSFI e suas dimensões: Teste de U-Mann-Whitney para comparações entre o grupo 1
e o grupo 3
Para os grupos 2 e 3 (vd. Tabela 12) indicou haverem efeitos estatisticamente
significativos para as variáveis Desejo-Excitação (U=617; p<.01), Lubrificação
(U=594; p<.01), Dor (U=701; p<.05) e FSFI total (U=563.5; p<.01), todas
favoráveis ao grupo 2.
TABELA 12
FSFI e suas dimensões: Teste de U-Mann-Whitney para comparações entre o grupo 2
e o grupo 3
Como se pode verificar na Figura 2, acontece um declínio acentuado do
funcionamento sexual no grupo 3 (o que foi estatisticamente comprovado acima).
FIGURA 2
Funcionamento sexual médio por grupo etário
Para a satisfação sexual pretendeu-se utilizar a MANOVA, sendo a variável
antecedente o grupo. Todavia, o teste de Levene de igualdade de variâncias de
erro (vd. Tabela 29) indicou valores inaceitáveis para a variável ISS [F
(2,149)=10.24; p<.001]. Devido a tal, optou-se por utilizar na variável ISS o
teste de U-Mann-Whitney.
A análise estatística com U-Mann-Whitney (vd. Tabela 13) para os grupos 1 e 2
indicou haver um efeito marginalmente significativo para a variável ISS
(U=1138; p=.055), favorável ao grupo 2.
TABELA 13
ISS: Teste de U-Mann-Whitney para comparações entre o grupo 1 e o grupo 2
Para os grupos 1 e 3 (vd. Tabela 14) indicou haver um efeito estatisticamente
significativo para a variável ISS (U=686.5; p<.001), favorável ao grupo 3.
TABELA 14
ISS: Teste de U-Mann-Whitney para comparações entre o grupo 1 e o grupo 3
Para os grupos 2 e 3 (vd. Tabela 15) indicou haver um efeito estatisticamente
significativo para a variável ISS (U=662; p<.05), favorável ao grupo 3.
TABELA 15
ISS: Teste de U-Mann-Whitney para comparações entre o grupo 2 e o grupo 3
Como se pode verificar na Figura 3, aconteceu um aumento progressivo da
insatisfação sexual (no ISS o aumento da pontuação é indicador de aumento da
insatisfação sexual) com a idade, sendo mais acentuada no grupo 3.
FIGURA 3
Satisfação sexual média por grupo etário
DISCUSSÃO
Relativamente aos comportamentos sexuais e à influência da variável idade
nestes, estudos prévios (e.g., James, citado por Edwards & Booth, 1994;
Kinsey, Pomeroy, Martin, & Gebhard, 1953) deixaram antever um declínio
progressivo do coito e da generalidade dos comportamentos sexuais à medida que
a idade vai avançando (excepto para o comportamento Masturbação sozinha que se
constata aumentar na meia-idade; Laumann et al., 1999).
Os resultados por nós obtidos para os grupos 1 e 2 evidenciaram uma ausência de
diferenças entre os dois grupos para a generalidade dos comportamentos sexuais
(nomeadamente Beijar, Fantasia, Masturbação mútua, Carícias e preliminares,
Sexo oral), dado que apenas na Masturbação sozinha se obteve um resultado
estatisticamente significativo, favorável ao grupo 2, e que no Sexo vaginal se
obteve um resultado marginalmente significativo, favorável ao grupo 1. Os
resultados obtidos para os grupos 2 e 3 evidenciaram a existência de diferenças
entre os dois grupos para a generalidade dos comportamentos sexuais (excepto
Masturbação sozinha), dado que para os comportamentos Beijar, Fantasia,
Carícias e preliminares, e Sexo vaginal se obtiveram resultados
estatisticamente significativos, favoráveis ao grupo 2, e que para os
comportamentos Masturbação mútua e Sexo oral obtiveram-se resultados
marginalmente significativos, favoráveis ao grupo 2. Os resultados obtidos para
os grupos 1 e 3 confirmaram a existência de diferenças estatisticamente
significativas entre os dois grupos para todos os comportamentos sexuais
(excepto para a Masturbação sozinha).
A análise dos resultados levou-nos à rejeição da hipótese nula de que não
existem diferenças estatisticamente significativas relativamente a todos os
comportamentos sexuais analisados, nomeadamente Beijar, Fantasia sexual,
Masturbação sozinha, Masturbação mútua, Carícias e preliminares, Sexo oral e
Sexo vaginal.
Podemos concluir que para a generalidade dos comportamentos sexuais
(nomeadamente Beijar, Fantasia, Masturbação mútua, Carícias e preliminares,
Sexo oral) ocorreu um declínio apenas na transição da meia-idade (grupo 2) para
a velhice (grupo 3). No caso do comportamento Sexo vaginal verificou-se a
tendência a haver uma diminuição subtil (marginalmente significativa) da
juventude (grupo 1) para a meia-idade (grupo 2), e uma diminuição mais evidente
da meia-idade (grupo 2) para a velhice (grupo 3). No caso do comportamento
Masturbação sozinha, pelo contrário, aconteceu um aumento evidente da juventude
(grupo 1) para a meia-idade (grupo 2), seguido de uma estabilização da meia-
idade (grupo 2) para a velhice (grupo 3). Os resultados obtidos relativos a
estes dois últimos comportamentos sexuais parecem pois confirmar os dados de
Kinsey et al. (1953) e parcialmente os de Laumann et al. (1999).
Devemos salientar que os comportamentos sexuais Carícias e preliminares, Sexo
oral e Sexo vaginal são os que demonstraram possuir maior variabilidade de
frequência e importância teórica, pelos que os resultados obtidos para os
restantes devem ser interpretados com a devida precaução.
Relativamente à influência da variável idade no funcionamento sexual os estudos
prévios indicaram maioritariamente uma tendência para um declínio progressivo
no desejo, na excitação, na lubrificação, e no orgasmo (e.g., Kadri et al.,
2000; Richters et al., 2003). Previamente procedeu-se ao teste de homogeneidade
das variáveis antecedentes consideradas importantes, nomeadamente Posição
social, Religiosidade, e Toma de anti-depressivos. Os dados revelaram a
inexistência de homogeneidade quanto a essas variáveis ao longo dos três
grupos, que têm sido teoricamente e empiricamente associadas a um pior
funcionamento sexual (e.g., Kaplan, 1974; Laumann et al., 1999; Masters &
Johnson, 1966).
Relativamente ao funcionamento sexual, os resultados obtidos para os grupos 1 e
2 evidenciaram uma ausência de diferenças para a generalidade das dimensões e
para a escala total, excepto para a dimensão mista Desejo-Excitação
relativamente à qual se encontraram diferenças estatisticamente significativas
favoráveis às mulheres jovens (grupo 1). Os resultados obtidos para os grupos 2
e 3 evidenciaram a existência de diferenças estatisticamente significativas
para generalidade das dimensões e da escala total, devendo-se salientar que
para a dimensão Orgasmo foi marginalmente significativa. As diferenças
encontradas foram favoráveis às mulheres de meia-idade (grupo 2). Os resultados
obtidos para os grupos 1 e 3 confirmaram a existência de diferenças
estatisticamente significativas para generalidade das dimensões e da escala
total, devendo-se salientar que para a dimensão Orgasmo foi marginalmente
significativa. As diferenças encontradas foram favoráveis às mulheres jovens
(grupo 1).
A interpretação dos resultados considerando os três grupos levou-nos à rejeição
da hipótese nula de que não existiriam diferenças estatisticamente
significativas quanto aos grupos para as variáveis Desejo-Excitação,
Lubrificação, Orgasmo, Satisfação, Dor, e FSFI total.
Podemos concluir que para o funcionamento sexual geral (escala total) e para a
generalidade das dimensões (nomeadamente Lubrificação, Orgasmo, Satisfação, e
Dor) ocorreu um declínio apenas na transição da meia-idade (grupo 2) para a
velhice (grupo 3), embora na dimensão Orgasmo esse declínio seja subtil
(marginalmente significativo) indicando que poderá ser a dimensão melhor
preservada. No caso da dimensão mista Desejo-Excitação verificou-se a tendência
a haver uma diminuição progressiva da juventude (grupo 1) para a meia-idade
(grupo 2) e desta última para a velhice (grupo 3). Não se verificou a tendência
para a dispareunia diminuir com a idade (e.g., Avis, Stellato, Crawford,
Johannes, & Longcope, 2002; Laumann et al., 1999), encontrando-se pelo
contrário um aumento. De salientar que o declínio coincidente com o grupo 3
afectou o funcionamento sexual como um todo.
Os resultados obtidos confirmaram a tendência para que haja um declínio do
funcionamento sexual em geral relacionado com a idade. Todavia esse declínio
não ocorreu maioritariamente da forma progressiva e uniforme que era esperada.
Em vez disso encontrámos um declínio abrupto que coincidiu com a conjugação de
um conjunto de variáveis associadas à disfuncionalidade sexual, nomeadamente:
velhice, baixa posição social, maior religiosidade, maior toma de anti-
depressivos, e menopausa (o grupo 3 inclui apenas mulheres peri-menopausicas e
pós-menopausicas).
Apesar do nosso estudo ser transversal e não ter sido projectado para separar
inequivocamente o efeito da idade do efeito da menopausa, o que é facto é que
uma recente revisão de literatura efectuada tendo por base a população geral
(Dennerstein, Alexander, & Kotz, 2003) concluiu que a menopausa está
associada a um declínio dramático no funcionamento sexual feminino, e que a sua
importância não deverá de forma alguma ser minimizada.
Relativamente à influência na satisfação sexual da variável idade os estudos
prévios não esclarecem de forma consistente a relação entre satisfação sexual e
a idade, dado que tanto existem evidências que apontam no sentido de que esta
não se altera com a idade (e.g., Dunn et al., 2000) como evidências de que esta
diminui com a idade (e.g., Deeks & McCabe, 2001).
Os resultados obtidos para os grupos 1 e 2 indicaram a existência de diferenças
marginalmente significativas favoráveis ao grupo 2. Os resultados para os
grupos 2 e 3 indicaram a existência de diferenças significativas favoráveis ao
grupo 3. Os resultados para os grupos 1 e 3 confirmaram a existência de
diferenças significativas favoráveis ao grupo 3.
A interpretação dos resultados considerando os três grupos levou-nos a concluir
pela rejeição da hipótese nula de não existiriam diferenças estatisticamente
significativas quanto aos grupos relativamente à insatisfação sexual.
Verificou-se pois no caso da satisfação sexual haver uma diminuição subtil
(marginalmente significativa) da juventude (grupo 1) para a meia-idade (grupo
2) e uma diminuição mais evidente da meia-idade (grupo 2) para a velhice (grupo
3). O declínio foi, portanto, progressivamente aumentando à medida que a idade
aumentava, embora tenha declinado mais acentuadamente da meia-idade (grupo 2)
para a velhice (grupo 3). Provavelmente tal estará relacionado com variáveis da
relação com o companheiro que não foram controladas neste estudo, mas são já
relativamente conhecidas (e.g., Bancroft et al., 2003; Jayne, citada por Davis
& Petretic-Jackson, 2000), e parcialmente com o próprio declínio do
funcionamento sexual.