O isolamento existencial e a psicopatologia
“O isolamento existencial é um vale de solidão a que se chega de
vária formas. A confrontação com a morte e com a liberdade leva
inevitavelmente o indivíduo para esse vale” (Yalom, 1980, p. 356).
O isolamento é referido com frequência na psicoterapia pois os pacientes
queixam-se da sua dificuldade de relacionamento com outras pessoas e de
isolamento face ao seu meio envolvente.
Neste artigo discute-se a abordagem de Irvim D. Yalom ao isolamento e a sua
descrição compreensiva das psicopatologias associadas assim como as vantagens
terapêuticas desta abordagem. Como veremos, a descrição compreensiva não é uma
outra forma de classificação psicopatológica nem a tipificação de
comportamentos considerados patológicos, mas sim a compreensão de modos de
estar na vida que se concretizam em cada indivíduo de forma específica e que
requerem uma abordagem específica. Yalom (1980, p. 353) considera três tipos de
isolamento:
O isolamento interpessoal, ou solidão, que resulta da sentida falta de
comunicação com outros. Pode resultar de causas objectivas, como residência ou
permanência prolongada em localidades ou locais isolados por razões de
interioridade, dificuldade de acessos ou doença (frequente nas pessoas idosas),
ou causas subjectivas, como estilos de personalidade em que se procura o
isolamento (esquizóide, narcisista) ou em que se é afastado pelos outros
(personalidades com tendências explorativas ou julgadora dos outros). A
evolução da sociedade tem resultado no definhamento de instituições promotoras
de intimidade, como os bairros residenciais, o trabalho próximo da residência,
as lojas e sociedades de bairro, a igreja e assistência de saúde locais, etc.,
em favor do deslocamento para as grandes cidades de massas populacionais e onde
se praticam estilos de vida isolacionistas em resultado de habitação afastada
dos locais de trabalho e longas horas de comutação diária, definhamento de
instituições de bairro, grandes superfícies comerciais, departamentos oficiais
centralizados. De facto, é nas grandes cidades e seus grandes subúrbios onde a
concentração de pessoas se eleva a níveis nunca antes atingido, que as pessoas
praticam estilos de vida mais isolacionistas, com escassos hábitos sociais,
padrões sociais transmitidos pela televisão e pela sociedade de consumo.
Acresce o número crescente de lares monoparentais e de pessoas vivendo sozinhas
desde uma fase ainda longe da terceira idade.
O isolamento intrapessoal, que resulta de perturbação do indivíduo num processo
em que evita os seus próprios sentimentos e desejos, aceitando deveres e
obrigações exteriores como suas, desprezando o seu próprio julgamento e
barrando a sua liberdade e potencial. Aqui a perturbação resulta de
experiências vividas como repressoras e condicionadoras, desde o início da sua
vida.
A estes dois tipos de isolamento, reconhecidos por todos os modelos teóricos
psicoterapêuticos, Yalom acrescenta um outro que, embora estreitamente
relacionado com os anteriores, tem um carácter completamente diferente. O
isolamento existencialresulta do facto de estarmos no mundo e dele fazermos
parte, numa inter-relação intersubjectiva constante com os outros, mas sendo
indivíduos completamente separados. Apesar de nos construirmos na relação com
os outros e permanecermos indissociáveis no mundo que partilhamos, nascemos
completamente isolados, vivemos sem nunca conhecer completamente o mundo e os
outros e morremos num acto único, individual, solitário. Somos o resultado das
nossas escolhas e a partir desta facticidade que nos caracteriza, seremos o que
escolhermos, no quadro das possibilidades disponíveis. A escolha é, também, um
acto pessoal, isolado.
Yalom coloca o isolamento existencial ao nível ontológico, na medida em que é
inerente ao facto de existir e se manifesta de forma específica (ôntica) em
cada indivíduo. Há uma estranheza dos indivíduos entre si, que nunca se chegam
a conhecer completamente, por maior intimidade que se estabeleça.
Kierkegaard (1838, p. 200), nas suas reflexões sobre o existir, refere o
lamento de uma sua personagem:
“como cheguei aqui a este mundo? Porque não fui perguntado acerca
disso, porque não fui informado das regras e regulamentos, mas apenas
atirado como se eu tivesse sido comprado por um mercador de escravos?
Como fui envolvido nesta grande missão chamada actualidade? Porque
tenho de ser envolvido? Não posso escolher? E, se sou obrigado a
envolver-me, onde está quem manda – eu tenho algo a dizer sobre isto.
Não há quem mande? A quem me queixo?”
O MÉTODO FENOMENOLÓGICO E A INTERSUBJECTIVIDADE
“o analista deve aproximar-se ao paciente de forma fenomenológica;
isto é, deve entrar no mundo experiencial do cliente e escutar o
fenómeno desse mundo sem pressuposições que distorcem a compreensão”
(Yalom, 1980, p. 17).
Husserl (1927) usou a noção de intencionalidade da consciência para fundar um
método de investigação que se distingue do método das ciências naturais em que
predomina o estudo dos efeitos e suas causas. A consciência, segundo Husserl, é
intencional, refere-se a algo externo à consciência, acessível ao indivíduo
através de funções mentais como a memória ou a imaginação, ou pelas funções do
seu corpo ao mundo externo dos objectos e dos outros indivíduos, com os quais
comunica e valida as suas experiências, atribuindo-lhes significado
intersubjectivo. Uma psicologia pura, que não desdenha das conclusões das
ciências naturais, mas que existe como ciência independente, seria possível.
Como? Através da reflexão sobre aquilo a que se referem os fenómenos da
consciência, ou seja, a sua intenção. Esta reflexão não é automática porque
quando estamos conscientemente envolvidos numa actividade focamos na coisa
específica, em pensamentos, valores, objectivos ou meios envolvidos mas não na
experiência psíquica como tal e a que eles se referem. Só a reflexão os revela.
Através da reflexão, em vez de simplesmente perceber a existência desses
pensamentos, valores, objectivos ou meios envolvidos somos capazes de tomar
consciência deles como aparecem à consciência, como fenómeno. Além disso, a
reflexão deve ser feita em atitude de suspensão de crenças anteriores, do
próprio mundo objectivo, para que apenas a descrição dos conteúdos (o quêna
experiência) e dos significados (os comose viveu a experiência) seja tida em
conta e objecto de reflexão imaginativa procurando encontrar o que caracteriza
(a essência) a experiência subjectiva do indivíduo específico que experiencia,
a sua visão subjectiva do mundo, não o mundo objectivo.
A vida psíquica fica assim acessível através da própria experiência e da
experiência de outros, estabelecendo a diferença entre nós e os outros e
caracterizando a vida na comunidade.
Para Yalom cada indivíduo é o resultado da sua história. O seu estudo requer,
não instrumentos estandardizados, como se todos os indivíduos habitassem o
mesmo mundo objectivo, mas sim a consideração da sua situação biográfica e das
expectativas individuais, nas suas especificidades, no seu mundo próprio e
único. E estranha as abordagens que, procurando precisar e classificar os
indivíduos, em pouco ajudam a sua condição. Prefere, em vez de uma abordagem
classificativa, relevar a centralidade da relação entre o terapeuta e o
paciente.
Também Spinelli (2007, p. 59) afirma que essa é uma relação em que o cliente se
revela e “traz” material para análise, sendo o encontro terapêutico um
“microcosmo” em que se expressa em segurança e confidencialidade a visão do
mundo do paciente, as suas possibilidades e limitações, permitindo a
clarificação dessa visão do mundo que existe também no “macrocosmo” das
relações da sua vida.
O TEMPO E O AQUI-E-AGORA
O modo como nos relacionamos com o tempo revela a nossa visão do mundo numa
perspectiva temporal (Spinelli, 2007, p. 41). Apreendemos a nossa existência no
tempo e, por isso, o tempo está no nosso ser. O tempo é o processo em curso da
experiência vivida, pelo que não existe fora da noção do ser. Na experiência
individual, o tempo não pode ser visto como uma linha contínua independente do
ser, uma série de “agoras” entre o nascimento e a morte, mas sim um contínuo
balançar entre o passado, presente e futuro. A experiência do mundo, das coisas
e seres, é sempre parcelar e mediada pela estrutura interpretativa sedimentada
que constitui a visão do mundo individual. Como nos construímos na inter-
relação com o mundo, estamos permanentemente em construção e a nossa visão do
mundo evolui, por um lado pela sucessão de experiências, por outro, conforme a
estrutura mediadora da nossa visão do mundo que por sua vez também evolui.
Nesta interpretação constante, criam-se as condições para olharmos para
acontecimentos passados com outra abordagem (interpretação) diferente. Quando
falamos de passado referimo-nos ao passado tal como lembrado, interpretado e
não historicamente fixo. Visto assim, o passado torna-se “plástico”, flexível e
aberto a reavaliação ou recriação dependente da actual disposição do indivíduo.
Assim, o passado não só nunca é completamente apreendido, como não é
correctamente interpretado, como não é fixo. O passado existe no presente, o
que se recorda reflecte e valida a actual visão do mundo. Trata-se de um
passado tal como actualmente vivido. A visão do mundo actual é validada pelo
passado (tal como actualmente vivido) e valida as perspectivas de futuro.
As implicações desta análise são de extrema importância para a psicopatologia e
psicoterapia. A análise fenomenológica procura, por interpretações a níveis
cada vez mais aprofundados das experiências actuais, clarificar a visão do
mundo actual do paciente. A escavação do passado, a procura do que realmente
aconteceu, dos instintos reprimidos ou da socialização e aculturação
acontecidas, não tem sentido para a fenomenologia. O que tem sentido é a
interpretação que a visão do mundo actual faz sobre o passado.
“O aqui e agora são a maior fonte de poder na terapia [...], refere-
se aos acontecimentos imediatos na hora terapêutica, ao que acontece
aqui (neste escritório, nesta ‘relação’, no entre nós). [...] É
basicamente uma aproximação não histórica de desenfatizar (não nega a
importância) o passado histórico do cliente ou a sua vida exterior.
[...] Os problemas interpessoais do paciente irão manifestar-se no
aqui-e-agora da relação terapêutica” (Yalom, 2001, pp. 46-48).
O SER E A ANSIEDADE EXISTENCIAL
Yalom refere frequentemente Martin Heidegger e a sua obra Being and Time, em
que descreve como o seu Da-sein, o ser representativo e exemplar do ser humano,
que lhe é instrumental na investigação filosófica do que é existir (ou ser),
encontra dois modos de existência: o modo do dia-a-dia em que Da-sein vive em
função do mundo e dos outros, em que se envolve em múltiplas actividades e não
reflecte sobre a sua existência e sobre as suas potencialidades (modo de vida
inautêntico) e o modo em que Da-sein reflecte e observa-se a si próprio,
percebe que a sua existência é precária, que morrerá um dia e que agora tem
opções que toma com total liberdade e responsabilidade (no quadro daquilo que
é, da sua facticidade). Neste modo, a ansiedade é evidente e decorre dessa
confrontação. É uma ansiedade que decorre do existir e da falta de um sentido
oferecido pela mera existência, é inevitável. Mas pode ser diminuída, se
compreendidas e aceites as condições existenciais, se a consciência da
inevitabilidade da morte é equilibrada com uma vida escolhida dentro do leque
das opções acessíveis assumindo a responsabilidade pela sua própria existência
e dando-lhe assim sentido, apesar do fim inevitável. Este modo de reflexão pode
aproximar o indivíduo da exploração máxima das suas potencialidades, fazê-lo
mais autêntico, com um sentido de vida por si produzido. Caindo novamente no
seu dia-a-dia, afastando de si a reflexão sobre a sua existência e absorvendo-
se na vivência do dia-a-dia, se houve uma maior aceitação da ansiedade
existencial, isso permite ao indivíduo uma vida mais equilibrada.
Da-sein vacila entre a autenticidade e a inautenticidade. Para Heidegger,
procurar ser autêntico assume uma importância de prioridade, apesar da
inevitabilidade de se viver a maior parte do tempo em inautenticidade. Yalom
concorda com esta posição e afirma que “a ansiedade é o combustível da
psicoterapia”. É ela que leva ao confronto com os dados da existência, que abre
caminho à autenticidade, que possibilita que “caindo” no dia-a-dia a adequação
prevaleça sobre a perturbação.
O paciente pode usar os seus momentos de reflexão para ser mais autêntico.
Yalom defende, em absoluto respeito pelo cliente e de uma forma não directiva
que o terapeuta deve promover essa evolução.
OS EXISTENCIAIS, O CONFRONTO E A PSICOPATOLOGIA
Para Yalom, a psicoterapia existencial é dinâmica no mesmo sentido atribuído
por Freud, no sentido de “força”. Segundo Yalom, a maior contribuição de Freud
para a compreensão do ser humano é o seu modelo em que assume haver forças em
conflito no indivíduo e em que os pensamentos, emoções e comportamento, tanto o
adaptado como o psicopatológico, são resultado dessas forças em conflito, que
existem em vários níveis de atenção e sendo alguns totalmente inconscientes.
No entanto, a psicoterapia existencial baseia-se numa visão radicalmente
diferente das forças específicas, dos motivos e medos que interagem no
indivíduo, assim como o inconsciente desempenha um papel completamente
diferente. Se, para Freud, os instintos e o ambiente reprimem e enquadram o
indivíduo, para os neo-freudeanos, os instintos são minimizados a favor da
socialização e da aculturação das qualidades inatas individuais. Para estes, a
necessidade de segurança, de aceitação e aprovação, a interacção com adultos
significantes, determinam o carácter e a estrutura da personalidade; a criança
curiosa quer exclusiva posse dos adultos amados e percorre fases de conflito
entre crescimento e segurança.
A posição existencialista revela um tipo de conflito diferente: não um conflito
com instintos que são reprimidos, nem um conflito com adultos significantes,
mas sim um conflito que decorre da confrontação do indivíduo com os dados ou
condições da existência. As vivências passadas ou presentes valem pela
experiência no aqui e agora e no quadro do confronto com esses dados ou
condições de existir que caracterizam o ser. Yalom descreve na sua obra
Existential Psychotherapy (1980) quatro importantes e extremos assuntos: a
morte própria, a liberdade, o isolamento existencial e a falta de sentido.
Estes assuntos são, como vimos atrás, as condições existenciais ou os
existenciais com que Da-sein se confronta no seu modo existencial, quando, por
reflectir profundamente, se afasta do seu dia-a-dia de absorção em tarefas e
com os outros, e se interroga sobre a sua existência.
O confronto com os existenciais é feito pelo Da-sein, de forma solitária. Por
isso, Yalom atribui ao isolamento em que a confrontação é feita, um carácter
também ontológico, de característica do ser, não deixando de reconhecer o
carácter inter-relacional e intersubjectivo da construção do indivíduo. Mas, no
momento da confrontação ele está só, os outros são irrelevantes.
“Quando o indivíduo se afasta da absorção no mundo e os objectos se
despem de sentido, o indivíduo experimenta a ansiedade no confronto
com a solidão, a falta de misericórdia, o nada” (Yalom, 1980, p.
360).
“Os seres do mundo circundante deixam de ser relevantes. O mundo no
qual existo esvaziou-se de significado e o mundo assim revelado só
pode libertar seres sem significado” (Heidegger, 1926, p. 315).
De facto, para Yalom, é do resultado do confronto com os existenciais que
resulta a qualidade do inter-relacionamento com os outros, a qualidade da
construção do indivíduo, quando este está envolvido no dia-a-dia. E a tese de
Yalom é que esse resultado é obtido de uma forma solitária.
É nos momentos em que o indivíduo se afasta do mundo do dia-a-dia, pela
profunda reflexão, que essas condições da existência lhe vêm à consciência. Em
momentos de solidão, silêncio, disponibilidade, em que o indivíduo se liberta
das tarefas e distracções do dia-a-dia, pode-se confrontar com a precariedade
da existência, e essas condições podem tornar-se claras.
As experiências de transição no ciclo de vida, principalmente quando se torna
evidente a impossibilidade da vida ser uma espiral continuamente crescente, e a
existência de fases de decadência e morte, propiciam esses momentos. Do
resultado desse confronto surge equilíbrio ou perturbação.
Os existenciais raramente vêm à discussão no encontro psicoterapêutico. Se bem
que um psicoterapeuta bem sintonizado com o paciente possa entender como este
se relaciona com aqueles, forçar a sua discussão não contribui para o
crescimento do paciente. Após alguma troca de impressões porventura
interessante, o paciente encaminhar-se-ia para uma conclusão de “bem... é assim
a vida...”. De facto, essa discussão não versava sobre a situação concreta do
paciente, sobre a sua própria experiência; não servia para o paciente perceber
o modo como interpreta o seu estar no mundo, a sua visão do mundo, e as
sedimentações interpretativas que a estruturam e também a sua abertura a novas
interpretações (Spinelli, 2005, pp. 67-74).
A terapia passa-se ao nível pessoal, ôntico, sempre condicionada e, porventura,
iluminada pelo nível das características do ser, o ontológico. É a investigação
fenomenológica da experiência actual do paciente, do que aparece à consciência,
na relação terapêutica, que esclarece o paciente sobre si, sobre as
sedimentações estruturais da sua visão do mundo e lhe proporciona pô-las em
causa e talvez mudá-las. O que não significa que o paciente não reflicta, em
ocasiões especiais, sobre os “dados” da sua existência.
Vejamos então a descrição psicopatológica de Yalom à luz desta análise dos
existenciais, com destaque para o isolamento existencial e o seu relacionamento
com os restantes.
A MORTE PRÓPRIA
“A morte é um facto da vida” (Yalom, 1980, p. 38).
A consciência do inevitável fim traz ao indivíduo ansiedade. É a consciência de
que se tornará nada (um nada sobre o qual nada se pode fazer). Citando
Kierkegaard, Yalom explica que a ansiedade procura tornar-se medo, trocando o
nada por alguma coisa, para que o indivíduo possa montar defesas contra essa
coisa. E é na confrontação com esse facto da vida, nos momentos de reflexão
profunda que o indivíduo o pode ou não aceitar. Apesar de nunca eliminar a
ansiedade, esse confronto pode diminuí-la, permitindo ao indivíduo reorientar a
sua vida, dando-lhe sentido. O carácter físico da morte destrói o indivíduo,
mas é a ideia da morte que o salva. É então a focalização concreta da ansiedade
resultante de confrontação menos autêntica do facto da vida que é a morte, a
transformação em medo de algo, que explica as manifestações clínicas e a
patologia da morte.
A negação do facto futuro da própria morte (da minha morte) pode aparecer no
paciente como crença na especialidade e inviolabilidade de si próprio. O
conhecimento de doença fatal e sua negação durante um período. O heroísmo
compulsivo como prova própria de invencibilidade. O suicídio como forma de
perdurar na consciência dos outros, após descrédito nessa invencibilidade. O
narcisismo, como forma de se sentir especial, utilizando os outros como se
fossem seus devedores. O vício do trabalho, o consumo de tempo em tarefas para
não se confrontar com momentos de reflexão, de relacionamentos ou de procura de
sentido, o planeamento do futuro, não como desenvolvimento pessoal, mas como
sucessão de atingimentos para coleccionar no passado. Nas ocorrências do ciclo
de vida em que o indivíduo se apercebe da inversão da espiral crescente (meia-
idade, perda de emprego, reforma, doenças na fase de amadurecimento, etc.),
podem-se iniciar perturbações relacionadas com estados depressivos ou
hipocondríacos. Actividades em que tenta reforçar a sua imagem de poder e ou
vitalidade, como a actividade sexual acrescida e predatória, contribuem para o
alívio da ansiedade ante a perspectiva da morte.
Outra forma de lidar com a ansiedade da morte, ou quando a crença na
especialidade falha, é o salvador último, uma entidade sobrenatural que nos
salvará após a morte ou alguém com poder para evitar a morte ou um acto ou uma
causa que nos manterá para sempre na consciência dos outros. O médico em caso
de doença grave. Um outro indivíduo de quem se dependa como fornecedor de
sentido de vida, medo de perder o outro amado, passividade, dependência, auto-
imolação (masoquismo), recusa de aceitar a idade adulta, depressão e colapso do
sistema de valores.
Para Yalom, a ansiedade decorrente do confronto com a inevitabilidade da morte
própria é a principal origem de perturbações. É na perspectiva da morte que a
liberdade, o isolamento e o sentido (ou a sua falta) se compreendem.
A LIBERDADE E A RESPONSABILIDADE
“a liberdade do indivíduo para criar a sua própria vida [...] para
desejar, escolher, agir e, mais que tudo importante para a
psicoterapia, de mudar” (Yalom, 1980, p. 216).
Yalom (1980, pp. 216-218) diz que se refere à “liberdade do indivíduo para
criar a sua própria vida [...] para desejar, escolher, agir” e à
responsabilidade no sentido de Sartre enquanto autoria: estar consciente da
responsabilidade é estar consciente de criar o seu próprio eu, destino, as
dificuldades da vida, sentimentos e, se for esse o caso, o próprio sofrimento.
O indivíduo responde à ansiedade decorrente da responsabilidade básica que
temos por existir, conforme faz com a da morte: procura alívio, evita situações
em que seja confrontado com a sua responsabilidade.
A evitação da escolha através de comportamentos compulsivos e com conhecimento
das consequências; a atribuição da responsabilidade a outros; a vitimização; o
comportamento descontrolado, em vez de usar a sua liberdade para influenciar o
curso dos acontecimentos; a falta de autonomia e a procura de um salvador no
sentido atrás exposto.
A FALTA DE SENTIDO
“Qual o sentido da vida? Qual o sentido da minha vida? Porque
vivemos? Porque estamos neste mundo? Para que vivemos? Porque
viveremos? Se vamos morrer, se nada continua, que sentido tem o que
quer que seja?” (Yalom, 1980, p. 419).
“Procuramos sentido mas o mundo é contingente. Como pode um ser que
precisa de sentido, encontrar sentido num universo que não o tem?”
(Yalom, 1980, p. 423).
Há um sentido cósmico em que um desígnio exterior e superior ao indivíduo dá
uma explicação ao sentido terrestre, pessoal. Algo referente a um Deus. Quem o
aceita com mais facilidade pode encontrar um sentido terrestre, um caminho a
seguir, se bem que não individual. Mas quem não o aceita precisa então de algo
que o substitua.
E todos os sistemas teológicos ou ateístas ocidentais concordam em que é bom
estar imerso na corrente da vida.
Assim, a auto-transcendência através do altruísmo ou da dedicação a uma causa,
o hedonismo através da criatividade, da apreciação intensa da vida e do seu
prazer, da realização plena do seu potencial, são formas de encontrar sentido.
E a aceitação do ciclo da vida pode levar à escolha de um conjunto dessas
actividades, de acordo com as características de cada idade. Caso contrário,
perturbações como o vazio, o aborrecimento, a apatia, sem causas aparentes,
podem resultar em procura de sentido através de alcoolismo, droga, depressão,
obsessão, delinquência, crescimento do apetite sexual, aventureirismo (procura
de causas dramáticas e importantes) ou o niilismo (descrédito na procura de
sentido por outros).
O ISOLAMENTO EXISTENCIAL E A SUA PSICOPATOLOGIA
Yalom (1980, p. 373) refere que usamos “caminhos enviesados” para lidar no dia-
a-dia com a ansiedade e encontrar segurança; quando falhamos no desenvolvimento
de força interior, no sentido de valia pessoal e firme identidade e não
resolvemos com reflexão e aceitação da condição existencial e dos dados dessa
existência.
Também Heidegger refere que quando Da-sein regressa ao modo do dia-a-dia e se
envolve nas tarefas rotineiras e com os outros, a forma pura de ansiedade
existencial é rara, mas manifesta-se fisiologicamente:
“com a dominância do ter caído [no mundo do dia a dia] e do estar em
público, a ‘verdadeira’ ansiedade é rara. Muitas vezes a ansiedade é
condicionada de forma ‘fisiológica’. Este facto é um problema
ontológico na sua facticidade, não só a respeito das suas causas
ônticas e modo de desenvolvimento. O dano fisiológico da ansiedade é
possível só porque Da-sein está ansioso no mais íntimo do seu ser”
(Heidegger, 1926, p. 177).
A ansiedade existencial está no Da-sein, se bem que escondida pelo modo público
(não privado, não de reflexão profunda):
“A raridade fáctica do fenómeno da ansiedade, contudo, não lhe retira
a sua propensão para assumir uma função metodológica, em princípio,
para a análise existencial. Pelo contrário, a raridade do fenómeno é
uma indicação do facto de que Da-sein, o qual continua escondido de
si próprio na sua autenticidade por causa do modo de ser público
interpretado pelos outros, pode ser revelado no seu sentido
primordial na sua ligação fundamental” (Heidegger, 1926, p. 178).
Assim, o papel da ansiedade é individualizar o Da-sein, separá-lo dos outros e
permitir-lhe a reflexão. A ansiedade torna evidente a inautenticidade da vida e
cria condições para a reflexão sobre a autenticidade. Ambas são possibilidades
do indivíduo com uma dinâmica resultante da ansiedade.
O caminho de compreensão psicopatológica e psicoterapêutica do isolamento
existencial de Yalom fica assim definido: as vivências perturbadas do paciente
resultam de um confronto inautêntico com os dados da existência. O isolamento
existencial, enquanto individualização solitária intransponível existe, assim
como os restantes dados da existência. O confronto inautêntico com cada um
reforça o isolamento. As possibilidades do indivíduo foram limitadas e ele não
aceitou suficientemente a sua condição existencial. Então, no mundo do dia-a-
dia, ele irá viver de uma forma mais perturbada, mais inautêntico porque as
suas possibilidades foram por ele mesmo limitadas. Irá utilizar estratégias
para fugir e esconder de si próprio a ansiedade existencial e a qualidade da
sua relação com os outros será marcada por esta necessidade.
Pelo contrário, o indivíduo que se confrontou com os dados da existência e na
medida em que conseguiu aceitar a fragilidade da existência e a sua morte
inevitável, que percebeu as suas opções (no quadro da sua facticidade, em
termos de possibilidades), que encontrou sentido para dar a essa existência,
apesar de frágil, é um indivíduo mais adaptado ao mundo em que vive, sendo a
sua relação com os outros marcada por ser liberta de necessidade. Ele está mais
preparado para dar sem esperar receber, porque a sua recompensa é retirada do
enriquecimento pessoal da vivência.
No entanto, por mais adaptação existencial que o indivíduo consiga nunca está
completamente liberto do isolamento e da ansiedade, que são dados existenciais.
Vive com eles porque são características ontológicas do ser.
A confusão entre o isolamento existencial e o intrapessoal leva, por vezes, a
que se tente resolver ou curar o primeiro. Tal não é possível. O que é possível
é reconhecer e aceitar tal circunstância como parte da existência.
Da-sein tem de usar o mundo (e os outros que nele estão) para sobreviver como
ser humano. Um confronto deficiente potencia patologicamente essa necessidade
de uso.
Os “caminhos enviesados” são, em primeiro lugar,
“na maioria relacionais, onde o indivíduo não cuida do outro, antes
procura usá-lo para uma função. O terror, a consciência directa do
isolamento existencial e a defesa psíquica que se elabora para
aliviar a ansiedade são inconscientes. O indivíduo só sabe que não
pode estar só, que precisa de algo de outros, que ele próprio não é
capaz de obter, e que, o que quer que se faça, correm sempre mal os
seus relacionamentos” (Yalom, 1980, p. 374).
E em segundo lugar,
“Através do sacrifício da individualidade, imergindo num outro
indivíduo, numa causa ou numa perseguição. É um duplo desespero
porque começando num desespero existencial, continua noutro desespero
de que não se tem consciência porque se sacrificou a consciência de
si próprio” (Yalom, 1980, p. 374).
EU-OUTRO E EU-COISA
Para explicar como o isolamento existencial não confrontado se pode manifestar
no indivíduo e na sua inter-relação com os seus semelhantes, Yalom recorre a
Martin Buber (1970, p. 69) e às suas noções de Eu-Outro (I-Thou), de Eu-Coisa
(I-It), e de amor com ou sem necessidade.
Se noutros modelos psicoterapêuticos, as noções de necessidade de segurança,
ligação, validação pessoal, satisfação ou desejo, ou poder são importantes,
Yalom propõe que se olhem as relações do ponto de vista de como elas aliviam o
isolamento existencial.
Refere-se, assim, a uma psicopatologia das inter-relações humanas, cujo ponto
de partida deve ser o que uma relação pode aspirar a ser: uma relação livre de
necessidade.
Ser capaz de reconhecer as características da sua existência e de nos virarmos
para o amor aos outros é, segundo Yalom (1980, p. 363), a forma de evitar ficar
submerso pelo medo “ante o abismo da solidão”, ou seja, de evitar de nos
atirarmos aos outros para não nos “afogarmos no mar da existência”, mas sim
indo ao encontro deles. Nessa “submersão” usamos os outros como utensílios, com
instrumentos de fuga à solidão. O outro, usado como coisa, com uma função, não
como um outro eu. Sob a consciência de um secreto terror, negamos o isolamento,
construímos relações que nos “fornecem um produto” (poder, fusão, protecção,
grandiosidade ou adoração).
A relação deve ser recíproca. Esta relação (Eu-Outro) envolve uma completa
experiência do outro. Difere da empatia porque é mais que um Eu tentando
relacionar-se com Outro. Não há Eu enquanto tal, mas apenas o Eu-Outro. E este
Eu é diferente do Eu na relação Eu-Coisa. É um Eu inter-relacional, um Eu que
aparece e é moldado no contexto da relação, um Eu profundamente influenciado
pelo Outro.
“Se alguém se relaciona de uma forma verdadeira com outro, deve
verdadeiramente ouvir o outro; afastar estereótipos e antecipações do
outro e deixar-se moldar pela resposta do outro [...] Para
relacionar-se com o outro de uma forma livre de necessidade, o
indivíduo deve transcender-se a si próprio” (Yalom, 1980, p. 365).
Yalom refere Abraham Maslow (1968, p. 21) e a sua dicotomia dos indivíduos
orientados para o crescimento ou para o défice. Os orientados para o
crescimento são mais auto-suficientes, menos dependentes do meio para reforço
ou gratificação, menos ansiosos por honras, prestígios e recompensas e podem,
por vezes, sentir-se invadidos por outros preferindo períodos de privacidade
com a qual lidam bem. Não se relacionam com outros como fornecedores, mas como
seres humanos.
AMOR LIVRE DE NECESSIDADE
Investigando a natureza do amor livre de necessidade, Yalom (1980, p. 370)
afirma que o amor não nos afasta da separação uma vez que esta é um dado da
existência que pode ser confrontado, mas nunca eliminado. Em vez disso, o amor
é a melhor forma de lidar com a dor da separação.
Existe um amor maduro que é uma união na condição de preservar a integridade do
outro. Paradoxalmente dois seres tornam-se um e ainda assim continuam dois. O
indivíduo é amado porque ama e precisa do outro porque o ama. No amor imaturo o
indivíduo ama porque é amado, ama porque precisa do outro.
Yalom aponta assim um conjunto de características do amor livre de necessidade:
– Cuidar do outro de forma consciente sem necessidade de uso ou
troca ou avaliação externa.
– Experimentar o outro de forma completa e não apenas a parte de
que retira utilidade. Prolongar-se através do outro reconhecendo que
ele constitui também um mundo.
– Cuidar activamente do seu crescimento. Amor maduro é amar, não é
ser amado.
– Cuidar é uma forma de estar no mundo; não é dirigido a uma pessoa
em particular.
– O amor maduro entrega a nossa riqueza, não as nossas
necessidades. O amor recebido no passado é a origem da força; o amor
dado agora é o resultado da força.
– Cuidar é recíproco na medida em que ao cuidar do outro ficamos
nós próprios mais vivos.
– O amor maduro tem recompensas. O indivíduo altera-se, enriquece-
se, enche-se, a solidão existencial é atenuada. As recompensas vêm,
mas não podem ser pedidas.
Van Deurzen (2002, p. 57) explica de outra forma:
“um certo modo de ser e de se relacionar com os outros cria um mundo
dentro de si e à sua volta, que, em retorno, recria mais do mesmo em
resposta. Não é que imaginemos que os outros têm qualidades que nós
temos. Pela forma de relacionar e de sermos quem somos, levamos essas
qualidades para os outros”.
EXISTIR AOS OLHOS DOS OUTROS
No indivíduo perturbado pelo isolamento, a presença dos outros é necessária
para tornar a realidade real: “Só existo se pensam em mim”.
O suicídio pode ser uma forma de permanecer lembrado por outros, um acto
mágico, em que não há a ideia de morte pois se continua a viver na consciência
de outros.
“Na pesquisa do amor, o indivíduo neurótico foge do forte e
reconhecido sentimento de isolamento, do vazio no centro do seu ser.
Ao ser escolhido e valorizado [por outros] o indivíduo afirma-se no
seu ser. O puro sentimento de ser, de ‘Eu sou’, de ser a origem de
coisas, é demasiado assustador no seu isolamento; por isso, ele nega
a individualidade e recusa acreditar que existe na medida em que é
objecto da consciência de outro. Esta solução está destinada ao
fracasso de várias formas. A relação falha geralmente porque o outro
se cansa de afirmar a existência do indivíduo. Além disso, o outro
nunca se sente completamente reconhecido e envolvido porque o
indivíduo se relaciona só com uma parte – a parte que lhe serve para
afirmar a sua própria existência. A solução falha porque o outro
sente que é apenas provisório até o indivíduo arranjar melhor: se uma
pessoa não se consegue afirmar, então, continuamente, precisa de
afirmação através de outros. O indivíduo distrai-se permanentemente
de enfrentar o isolamento fundamental [...] O indivíduo que precisa
da afirmação dos outros para viver tem de evitar estar sozinho”
(Yalom, 1980, p. 376).
Ele precisa de “matar o tempo” escolhendo actividades que o ocupem, ou
escapando do presente para o passado de lembranças, ou fugindo com a imaginação
para um futuro de projectos maravilhosos.
Frequentemente os indivíduos se agregam, procurando usar os outros como
“equipamento” de forma a fugir ao isolamento. Yalom refere que muitos divórcios
tiveram essa origem: “o problema de não ser amado é na maior parte dos casos um
problema de não amar” (Yalom, 1980, p. 377).
A fusão com os outrosé um conceito psicopatológico relacionado com o isolamento
existencial. Somos indivíduos. Reconhecer isso leva-nos ao isolamento e para
lidar com o isolamento procuramos formas de negação. “Não estou sozinho, sou
parte de outros” leva o indivíduo à dependência de outros, a abandonar as suas
necessidades e procurar o que agrada aos outros para fazê-los querê-lo. Acima
de tudo evitam conflitos com outros. Preferem a fusão e a segurança à
individualização. A fusão com um poderoso pode ter uma valia acrescentada.
A fusão elimina o isolamento eliminando a consciência de si próprio. Como
Kierkegaard (1849, p. 34) afirmou: “Cada incremento de consciência e na
proporção desse aumento, a intensidade do desespero aumenta: quanto mais
consciência, mais intenso o desespero”.
Existe um paralelo entre a ansiedade pelo isolamento existencial e a morte: no
primeiro procura-se uma fusão noutro próximo, no segundo uma fusão no “salvador
último”.
Yalom refere o transvestido como sendo uma forma de, na competição por uma
mulher com outro homem, o indivíduo foge vestindo-se como mulher, até ao ponto
em que a sua ansiedade castradora, aumentada pela auto-infligida castração,
possibilita alívio sexual. Ele aproxima-se do sexo feminino, que teme, vestindo
as suas roupas e assumindo os seus comportamentos típicos. A sua ansiedade
aumenta quando se apercebe que “não está lá nem cá”.
E Yalom vê o sadismo e o masoquismo como formas de fusão, complementares. A
diferença entre um e outro é entre fundido e fundidor. São diferentes soluções
para o mesmo problema.
O sexopode ser uma potente forma de negação de ansiedade relativa tanto à morte
própria, como às possibilidades da vida ou à falta de sentido.
Igualmente o sexo compulsivo é uma resposta comum à consciência de isolamento.
“É uma força em si próprio que parece maior que a própria vida. [...]
O sexo compulsivo quebra todas as regras de verdadeiro carinho. O
indivíduo usa o outro como equipamento. Usa, relaciona-se, apenas com
uma parte do outro. Relacionar-se desta forma significa que o
indivíduo forma a relação, e quanto mais depressa melhor, para ter
sexo – em vez da situação oposta em que o sexo é uma manifestação e
facilitação de uma relação mais profunda” (Yalom, 1980, p. 383).
Um fetichista (só se conhecem casos de homens) relaciona-se não com uma mulher,
mas com um objecto que lhe pertence. Mesmo que faça sexo com uma mulher, não se
relacionando com o seu espírito, também será fetichista mesmo que usando o seu
corpo. Não há nesse caso, de facto, relacionamento autêntico consigo e com os
outros.
A utilização do outro como elevador social, como forma de aprender e crescer na
vida social, procurando a proximidade que atinge esses fins e evitando uma
relação profunda que compromete, é outra forma de resposta à ansiedade do
isolamento.
CONCLUSÃO
O aprofundamento do isolamento interpessoal e intrapessoal na sociedade
moderna, com a diminuição de referências sociais facilitadoras de
desenvolvimento pessoal como ser social e como indivíduo com projecto próprio,
é uma preocupação frequentemente expressa na obra de Yalom.
A insuficiência de ambientes estáveis ao crescimento do indivíduo, a
padronização do ser para os outros e o relevar do indivíduo individualista e
narcisista, tornam especialmente difícil a sociedade moderna, com múltiplos e
mais intensos focos de ansiedade na vida do dia-a-dia e menores oportunidades
de reflexão e saudável confrontação com os dados da existência.
Esta abordagem psicoterapêutica insere-se bem na sociedade moderna que
Heidegger (1959) refere calcular em vez de pensar, em que o primado da técnica
distancia o indivíduo da sua necessária reflexão. Esta distância aumenta sem
dúvida o isolamento individual no dia-a-dia. Neste processo calculista que
prescreve ao indivíduo a sua realização através de uma individualização pelo
consumo e um projecto de adaptação dos comportamentos individuais às exigências
de uma sociedade de produção e consumo (Boltanski, 2005), a racionalidade é
imposta em todos os aspectos da vida aumentando a dificuldade em encontrar
sentido pessoal e a intimidade promovida é a de utilização do outro. Acresce
que o “ponto de colocação dos indivíduos na estrutura social não é indiferente.
Nos níveis mais baixos, quer culturais, quer económicos, as possibilidades de
escolha estão forte e objectivamente limitadas” (Teixeira, 2006).
A intervenção psicoterapêutica existencial procurará ajudar o paciente a
clarificar, para si próprio, a sua visão do mundo e a forma como confronta, na
especificidade da sua individualidade, da sua situação biográfica e das suas
perspectivas, as características da existência.
A exploração da situação existencial é feita através da exploração concreta da
experiência consciente do paciente e não da discussão filosófica das condições
da existência do ser humano. É a forma concreta de como a existência nele se
manifesta que constitui a clarificação, a compreensão fenomenológica de si
próprio e do seu mundo inter-relacional.
A visão do mundo do paciente é válida enquanto sua e o processo
psicoterapêutico visa clarificá-la, verificar como o mundo é para o paciente.
Além disso, um paciente que progressivamente aceita que a sua visão do mundo é
apenas a sua, abre-se a aceitar que outros tenham as suas visões do mundo, com
múltiplos aspectos diferentes, em resultado de experiências biográficas e
projectos de vida diferentes.
A possibilidade de coexistirem várias visões do mesmo mundo pode progredir no
sentido de o paciente aceitar outras possibilidades de, ele próprio, ver o
mundo, abrindo-se um horizonte de possibilidades e graus de liberdade antes não
considerado. Este horizonte contém possibilidades de escolhas, muitas vezes
mutuamente exclusivas, cuja escolha na situação existencial presente o paciente
fará com uma responsabilidade correspondente ao grau de clarificação atingido.
A abordagem existencial procura que o indivíduo clarifique os seus significados
em vez de aceitar os que lhe são oferecidos. Tal não leva necessariamente ao
afastamento ou à desilusão com a sociedade, mas a uma participação mais activa
na medida em que cada indivíduo se enriquece nas inter-relações, em que assume
responsabilidades sobre a sua situação existencial (necessidade do trabalho, da
família, dos inter-relacionamentos) procurando os ajustamentos possíveis entre
o trabalho e a vida pessoal, ganhando significado de vida e autenticidade e
desta forma reduzindo a sua ansiedade e ficando mais disponível para se dedicar
mais ao que mais lhe significa.
Neste processo, o paciente pode aprender a reflectir sobre si e sobre o
contexto, procurando melhores adaptações, o que é fonte de mudança com
significado.