Raciocínio deôntico em reclusos
O raciocínio com frases condicionais do tipo “Se p, então q” tornou-se
claramente o modo de investigação privilegiado para a compreensão do raciocínio
dedutivo. Tal deve-se também ao facto deste tipo de frase ser comum no discurso
do quotidiano (sendo também familiar para as crianças), bem como o de poderem
ter diferentes interpretações e expressarem conteúdos de natureza diferente.
Mas não é apenas à psicologia que esta pequena palavra (o “se”) tem
interessado, já antes tinha despertado o interesse dos lógicos, e também dos
linguistas, pelo que se compreende a afirmação de Johnson-Laird (2006, p. 296),
acerca do “if”, de que “Nenhuma outra palavra tão pequena gerou tantos livros”.
A presente investigação sobre raciocínio também irá recorrer a frases
condicionais, com particular interesse pelo conteúdo deôntico, para expressar
permissões e obrigações. Neste domínio, iremos distinguir ainda obrigações de
dois tipos, consoante sejam facilmente violáveis (e.g., “Se o jovem comprar
bebidas alcoólicas, então tem de ter completado 16 anos”), ou praticamente
impossíveis de violar (e.g., “Se o jovem votar, então tem de ter completado 18
anos”), na expectativa de que possam gerar diferentes interpretações por parte
dos participantes reclusos. Serão as práticas de violação da lei, que levam à
reclusão, fonte de conhecimentos capaz de modular ou de moderar o raciocínio
com condicionais deônticas?
Iremos também utilizar frases condicionais que geram diferentes interpretações
(condicional e capacitante), independentemente de serem de conteúdo deôntico ou
epistémico, e que são explicadas pela teoria dos modelos mentais como resultado
da modulação semântica (Johnson-Laird & Byrne, 2002; Quelhas & Johnson-
Laird, 2005; Quelhas, Johnson-Laird, & Juhos, 2010). Finalmente, será
também avaliado o nível de desenvolvimento moral (na amostra de reclusos e na
de não-reclusos), na expectativa de que esta medida possa distinguir os dois
grupos em estudo.
Assim, e para uma melhor compreensão do enquadramento teórico desta
investigação, iremos nesta introdução posicionar o estudo do raciocínio
condicional, de acordo com a teoria dos modelos mentais, bem como do raciocínio
deôntico, e finalmente o modo de avaliar o desenvolvimento do juízo moral.
Antes da descrição do método iremos ainda clarificar os objectivos e as
hipóteses em estudo.
Raciocínio condicional e modelos mentais
De acordo com a teoria dos modelos mentais (e.g., Johnson-Laird, 2006; Johnson-
Laird & Byrne, 2002), as frases condicionais básicas, i.e., o mais possível
independentes de pistas semânticas ou pragmáticas, e.g., “Se há um triângulo,
então há um quadrado”, tem um significado nuclear que admite três
possibilidades:
Cada linha representa uma possibilidade em que o antecedente (o triângulo) se
verifica ou não (quando não se verifica é precedido pelo sinal “¬”), bem
como o consequente (o quadrado). O que estas três possibilidades representam é
a ideia de que se há um triângulo há um quadrado, e se não há um triângulo pode
ou não haver um quadrado.
Mas, as condicionais do tipo “Se p, então q”, quando usadas no quotidiano,
raramente são neutras ou descontextualizadas, pelo que o significado das suas
orações, as suas ligações co-referenciais, e os conhecimentos sobre o contexto,
irão modular o significado nuclear das condicionais básicas (Johnson-Laird
& Byrne, 2002). Assim, prevê-se que haja diferentes conjuntos de
possibilidades consideradas congruentes com as diferentes frases condicionais
(embora idênticas do ponto de vista formal). Por exemplo, a frase “Se o animal
é um cavalo, então a fêmea é uma égua”, deverá ser interpretada como sendo
congruente com duas possibilidades apenas:
cavalo égua
¬cavalo ¬égua
uma que corresponde à situação em que se trata de um cavalo e a fêmea uma égua,
e outra possibilidade em que o animal não é um cavalo e a fêmea não é uma égua.
Note-se que a segunda possibilidade da interpretação da condicional básica
anteriormente descrita corresponderia, no presente exemplo, à situação:
(¬cavalo égua), quer dizer, teríamos um animal que não é um cavalo e cuja
fêmea é uma égua, situação que não é considerada possível dados os nossos
conhecimentos. Este é um dos efeitos da modulação, que consiste justamente em
bloquear a construção de certas possibilidades que fazem parte do significado
nuclear, dado que essas possibilidades vão contra os nossos conhecimentos.
Outro efeito da modulação é o de enriquecer os modelos com informação sobre
relações temporais, espaciais ou de causalidade. Por exemplo a frase “Se a
Teresa cair da bicicleta, então esfola o joelho”, a congruência da
possibilidade em que a Teresa cai e tem o joelho esfolado obriga a uma ordem
temporal (primeiro cai e depois esfola o joelho).
Johnson-Laird e Byrne (2002) distinguem dez tipos de interpretação das frases
condicionais, como resultado da modulação semântica e pragmática sobre o
significado básico, desde a interpretação condicional (equivalente ao que vimos
na condicional básica), passando pela interpretação bicondicional, como no
exemplo do cavalo, e outras interpretações que não são previstas nem explicadas
por nenhuma outra teoria, como é o caso da interpretação de relevância. Por
outro lado, Quelhas e Johnson-Laird (2005), e Quelhas Johnson-Laird e Juhos
(2010), têm fornecido evidência empírica sobre as consequências destas
diferentes interpretações no raciocínio condicional, mostrando que é possível
prever os padrões inferenciais com base nas diferentes interpretações. Já vimos
como a interpretação de uma frase condicional pode levar a considerar um
conjunto de possibilidades que é diferente consoante a interpretação. Vejamos
agora o que acontece no raciocínio, por exemplo, na inferência denominada
Negação do Antecedente, onde a premissa menor (a premissa maior é a própria
frase condicional) nega o antecedente da frase condicional, como por exemplo:
Se há um triângulo, então há um quadrado
Não há um triângulo
Portanto ………………………………….
Neste caso, é possível concluir que pode ou não haver um quadrado, dado que a
interpretação desta frase comporta duas possibilidades em que não há um
triângulo (ver acima), sendo que numa tem associado o quadrado e na outra não.
No entanto, para o exemplo “Se o animal é um cavalo então a fêmea é uma égua” a
interpretação só contempla uma possibilidade em que o animal não é um cavalo
(¬cavalo ¬égua). Deste modo prevê-se que haja um maior número de
inferências Negação do Antecedente (onde a conclusão é a negação do consequente
da frase condicional, i.e., o que vem depois do “então”) no segundo caso do que
no primeiro.
Até agora temos referido o conjunto completo de possibilidades congruentes com
determinada interpretação de uma frase condicional, mas será que o sujeito,
quando raciocina, considera todas essas possibilidades? Ou melhor, será que
essas possibilidades serão todas representadas mentalmente, constituindo os
modelos mentais que são o alicerce para o raciocínio? Múltiplas investigações
no âmbito da teoria dos modelos mentais têm apoiado a ideia de que os sujeitos
tendem a construir um modelo inicial de representação de uma frase, e só
mediante certas circunstâncias desenvolvem essa representação inicial (o que é
congruente com o princípio geral de economia cognitiva). Um corolário da teoria
dos modelos é que quanto mais modelos uma inferência requer, maior a sua
dificuldade, demora mais tempo e está mais sujeita a erros, podendo mesmo
ultrapassar a capacidade da memória de trabalho dos sujeitos (Guerreiro,
Quelhas, & García-Madruga, 2006).
Mas então qual é a representação/modelo inicial de uma frase condicional? De
acordo com a teoria dos modelos será o modelo em que o antecedente e o
consequente se verificam, e são alguns princípios que conduzem a esta
representação inicial. Um deles é o princípio de verdade, de acordo com o qual
nós representamos o que é verdadeiro e não o que é falso (a não ser que alguma
pista pragmática faça realçar a impossibilidade, o que é falso, ou, no domínio
deôntico, o que é não permissível). Por exemplo, para a frase “Se há um
triângulo, então há um quadrado”, a possibilidade falsa (ou impossibilidade),
seria o caso em que há um triângulo e não há um quadrado , pelo que esta
contingência não fará parte da representação mental. Restam então três
possibilidades (ver acima), mas a teoria dos modelos assume que a representação
inicial assenta nos modelos em que o antecedente é satisfeito, pelo que, e no
caso da interpretação condicional acima referida, resta apenas um modelo em que
há um triângulo e um quadrado , ou, como referimos, em que o antecedente e o
consequente se verificam (para uma revisão da teoria dos modelos ver Johnson-
Laird, 2006). Uma questão que podemos colocar é a seguinte: será que tudo isto
se passa do mesmo modo quando o conteúdo das condicionais é do domínio do
deôntico?
Raciocínio deôntico
Uma frase deôntica pode ser formulada na forma condicional ou categórica, e o
seu conteúdo remete para os conceitos de permissão, obrigação, ou proibição,
referindo-se normalmente a regras sobre o que podemos, devemos ou não devemos
fazer. Em Psicologia, a maior parte da investigação sobre o raciocínio deôntico
foi feita em redor da tarefa de selecção de Wason (1966, ver e.g., Cheng &
Holyoak, 1985; Cosmides, 1989; e para uma revisão ver, e.g., Evans, Newstead,
& Byrne, 1993).
Fiddick (2004) tenta unir dois domínios de investigação, no que diz respeito ao
raciocínio deôntico: o do raciocínio cognitivo e o do raciocínio moral. Aponta
também algumas divergências, como o facto de a literatura no domínio do
raciocínio moral considerar a existência de diferentes domínios de regras:
regras morais, regras convencionais sociais, regras de prudência e regras
pessoais, e advogar que as pessoas pensam de diferente modo as diferentes
regras. Por outro lado, a literatura do raciocínio cognitivo considera que, e
apesar das diversas teorias existentes, as pessoas pensam do mesmo modo as
obrigações, permissões e proibições. Note-se que o autor se baseia, neste
último caso, na investigação dominante, que, como referimos, gira em redor da
tarefa de selecção. No entanto, é de assinalar uma excepção, no que respeita a
trabalhos mais recentes no âmbito da teoria dos modelos mentais (e.g.,
Bucciarelli & Johnson-Laird, 2005; Johnson-Laird & Byrne, 2002; Quelhas
& Byrne, 2003), que iremos aqui descrever um pouco, dada a importância das
condicionais deônticas no presente trabalho.
O antecedente de uma condicional deôntica refere-se a uma possibilidade
factual, enquanto que o consequente se refere a uma possibilidade deôntica
(Johnson-Laird & Byrne, 2002). A condicional “Se a enfermeira limpou o
sangue então teve de usar luvas de borracha” tem como modelos explícitos as
seguintes possibilidades verdadeiras:
Possibilidades factuais: Possibilidades deônticas:
sangue luvas
não-sangue luvas
não-sangue não-luvas
mas, a praxis da boa gestão das regras passa por saber não só o que é permitido
como também por saber o que não é permitido, pelo que este tipo de
conhecimentos deverão também fornecer o complemento dos modelos acima:
Possibilidades factuais: Possibilidades deônticas:
sangue não-luvas
Vemos assim uma das excepções ao princípio de verdade (segundo o qual
representamos o que é verdadeiro), dada a relevância pragmática da situação não
permissível. Segundo Quelhas e Byrne (2003), os sujeitos deverão ter como
modelos iniciais, os seguintes:
Possibilidades factuais: Possibilidades deônticas:
sangue luvas
Possibilidades factuais: Possibilidades deônticas:
sangue não-luvas
Com base nestes modelos as autoras propõem duas vias para a inferência MT, o
que faz prever uma superioridade destas inferências no domínio deôntico versuso
domínio epistémico, que é conforme os resultados encontrados. No caso das
condicionais no modo conjuntivo, como “Se a enfermeira tivesse limpo o sangue
então teria de ter usado luvas de borracha”, não é esperada a interpretação
contrafactual (o antecedente e o consequente são falsos) que habitualmente o
modo conjuntivo evoca, i.e., embora as pessoas possam pensar que o antecedente
é falso, não se detêm a pensar no consequente, pelo que as condicionais
deônticas deverão ter a mesma interpretação, independentemente de serem no modo
conjuntivo ou indicativo, ao contrário do que acontece com as condicionais
epistémicas, o que também é concordante com os resultados encontrados por
Quelhas e Byrne (2003, para uma revisão em particular do pensamento
contrafactual ver Byrne, 2005). Note-se que também Bucciarelli e Johnson-Laird
(2005) se interessaram em investigar o significado das frases deônticas, o modo
como esses significados são representados, e suas consequências para o
raciocínio, tendo também verificado que no caso das proibições (mas não nas
permissões e obrigações) os sujeitos tendem a pensar primeiro sobre o que é não
permissível.
Relativamente ao presente estudo, tínhamos como objectivo saber até que ponto
diferenças individuais poderiam moderar ou modular o raciocínio com
condicionais deônticas, para o que recorremos a uma amostra de sujeitos
reclusos, dado serem aqueles que reconhecidamente infringiram regras sociais
importantes, e que iremos comparar com uma amostra de não reclusos o mais
equivalente possível em termos de instrução, idade e género. Note-se que a
natureza pragmática do raciocínio tem sido mostrada sobretudo no domínio do
raciocínio deôntico, mas quase invariavelmente o faz recorrendo a manipulação
do material que é apresentado aos sujeitos. Por exemplo, Kilpatrick, Manketelow
e Over (2007), manipulando o poder inerente do agente que refere a regra,
verificam que quanto maior é o poder da fonte (e.g., regra enunciada pelo pai
vs.pelo irmão) maior a confiança dos sujeitos na ocorrência do consequente
(dado o antecedente). Por outro lado, Over, Manktelow e Hadjichristidis (2004)
estabelecem uma ponte com a literatura sobre julgamento e tomada de decisão,
para melhor compreender o discurso deôntico. Recorrem nomeadamente ao
julgamento que as pessoas fazem sobre os esperados custos e benefícios de
possíveis acções, mostrando que as preferências das pessoas têm um efeito
correspondente no julgamento que fazem sobre condicionais deônticas. Outro
trabalho recente, de Beller (2008), vem chamar a atenção para a necessidade de
distinguir entre a formulação específica de uma regra deôntica (e.g., sobre a
forma de uma frase condicional), e a representação mental da norma deôntica a
que a formulação se refere, argumentando que o raciocínio deôntico opera
essencialmente sobre a representação das normas sociais.
No presente estudo também se faz variar o material apresentado, nomeadamente
recorrendo a regras deônticas que são fácil e frequentemente violadas
versusoutras que dificilmente o são, e recorrendo a regras de permissão e de
obrigação, mas o interesse central está na exploração de diferenças individuais
(decorrentes de diferentes práticas no cumprimento de regras sociais/ legais)
no modo como os sujeitos raciocinam com condicionais deônticas. Essas
diferenças individuais deverão ter expressão no nível de desenvolvimento de
juízo moral, pelo que foi feita uma avaliação de todos os participantes nesse
domínio.
A avaliação do juízo moral
A avaliação da maturidade moral das pessoas depende sobretudo da perspectiva
teórica que a fundamenta. O juízo moral tem vindo a ser estudado pela
psicologia sobretudo a partir de uma perspectiva desenvolvimentista. A revisão
do modelo de raciocínio moral publicado por Piaget em 1932 (Piaget, 1978) foi o
ponto de partida das investigações de Kohlberg (1981, 1984). Piaget utilizou a
observação naturalista enquanto as crianças jogavam ao típico “jeu des billes”,
e alguns dos seus colaboradores replicaram os seus estudos através da
apresentação de cenários hipotéticos a crianças de diferentes idades, sobre a
obediência, a mentira, a responsabilidade ou o castigo. Kohlberg substituiu-os
por nove dilemas morais. Depois da apresentação dos dilemas era pedido aos
participantes que tomassem uma posição e justificassem os seus argumentos com
vista a esclarecer que tipo de raciocínios estariam na base das suas decisões,
i.e., as estruturas do raciocínio moral envolvidas no raciocínio, mais do que
os conteúdos do raciocínio per se.
Colby e Kohlberg (1987) seguiram longitudinalmente cerca de três quartos dos
rapazes inicialmente estudados, e depois de múltiplas revisões introduzidas aos
dilemas e ao protocolo da entrevista de juízo moral, revolucionaram a
literatura neste domínio. Por um lado, verificaram que as crianças raciocinam
de um modo consistente de acordo com determinadas estruturas de raciocínio,
independentemente dos conteúdos poderem ser diferentes, e por outro lado,
identificaram seis estádios de desenvolvimento moral que ocorreriam de acordo
com uma sequência invariável (Kohlberg, 1984). O raciocínio moral é para este
autor construtivista, resultado do desenvolvimento (cognitivo) do juízo moral.
Estes seis estádios organizar-se-iam como partes de um todo que se vai
transformado ao longo do desenvolvimento, tornando-se obsoletos à medida que as
novas estruturas vão tomando o seu lugar. Na Tabela 1, vemos uma breve
descrição de cada um dos estádios definidos por Kohlberg, depois das
reformulações de que a sua teoria foi alvo, nomeadamente no que se refere à
eliminação do estádio 6 (cf. Colby & Kohlberg, 1987).
TABELA 1
Níveis e estádios de raciocínio moral segundo Kohlberg (1984)
Um dos aspectos que marcou a popularidade desta abordagem cognitiva do juízo
moral deveu-se à existência de metodologias de avaliação que, depois de
sucessivas reformulações, têm permitido uma operacionalização deste conceito
(Palmer, 2003). Existem fundamentalmente dois tipos de medida do juízo moral:
os instrumentos de produção e os de reconhecimento. No primeiro caso são usados
dilemas morais que servem de ponto de partida para a produção de justificações
morais que representam processos de raciocínio de acordo com as hipóteses
kohlberguianas. No caso das medidas de reconhecimento, os mesmos dilemas morais
são apresentados, mas desta vez é pedido às pessoas que avaliem a importância
de uma lista de afirmações padronizadas para cada estádio de raciocínio moral.
No que se refere às medidas de produção são de referir a entrevista de juízo
moral (Colby & Kohlberg, 1987), a medida de reflexão sócio-moral (Gibbs,
Widaman, & Colby, 1982) e a versão simplificada do mesmo instrumento:
“Sociomoral Reflection Measure-Short Form” (v. Gibbs, Basinger, & Fuller,
1992). No que se refere às medidas de reconhecimento, o instrumento mais
estudado é o Teste de Definir Valores Morais (DIT).
O teste de definir valores morais de Rest (1979; Rest, Thoma, & Edwards,
1997; Rest, Narvaez, Bebeau, & Thoma 1999) foi desenvolvido em resposta à
complexidade do “teste de Harvard”, como também é conhecida a entrevista de
juízo moral. Ambos pressupõem que o juízo moral evolui de acordo com critérios
desenvolvimentistas (Lourenço & César, 1991), mas, e apesar de as duas se
destinarem à avaliação do raciocínio moral, fazem-no sob pontos de vista
diferentes. Em primeiro lugar, trata-se de metodologias com um formato
diferente. Ao contrário do que se passa com a metodologia de Kohlberg, em que
existe uma tarefa de produção verbal e espontânea, o DIT é uma tarefa de
reconhecimento, compreensão e preferência (Lourenço, 2002). Começa por se
apresentar às pessoas um dilema moral, num total de seis. Três desses dilemas
são directamente importados de Kohlberg: Dilema de Henrique e da mulher doente;
do médico e a morte misericordiosa e o do criminoso evadido da prisão. Em
termos de conteúdo, os outros três referem-se a temas tão diversos como a
ocupação de instalações por estudantes que lutam por uma causa “justa”;
questões ligadas ao racismo, retratando a situação de um patrão que se recusa a
dar trabalho a um empregado competente, mas de etnia diferente da sua; e um
último que aborda a questão da liberdade de imprensa reivindicada por
estudantes universitários após a publicação de um artigo.
Depois de ser pedido aos indivíduos para se posicionarem relativamente à
questão fundamental abordada no dilema, i.e., se deveria ou não assaltar a
farmácia para salvar a mulher, no caso do dilema de Henrique; denunciar ou não
um prisioneiro evadido depois de anos de socialização, ou dar uma dose letal a
uma doente em estado terminal, etc., segue-se a tarefa de avaliação, em que é
pedido aos indivíduos que avaliem um conjunto de doze afirmações morais. Os
participantes deverão avaliar cada uma das afirmações de acordo com a
importância que lhe atribuem: Muita, Bastante, Alguma, Pouca ou Nenhuma, em
relação à tomada de posição que para si lhes pareça mais justa.
Cada afirmação corresponde a tomadas de posição frequentes de um determinado
estádio de desenvolvimento moral (i.e., 2, 3, 4, 5 ou 6), havendo por vezes
frases sem sentido, ou sem grande relação com o problema em causa cujo papel
discutiremos no capítulo do Método. Em seguida transcrevemos as doze afirmações
para o dilema de Henrique que apresentámos atrás na descrição dos estádios de
raciocínio moral (adaptado do original português por Lourenço & César,
1991):
1) Deve-se ter em conta se as leis devem ou não ser cumpridas
(afirmação de estádio 4).
2) Deve-se ter em conta se não é natural que um marido se preocupe
com a sua mulher, a ponto de roubar (estádio 3).
3) Deve-se ter em conta se o Henrique está disposto a roubar para
ajudar a sua mulher, correndo o risco de ser atingido a tiro, ou ir
para a cadeia (estádio 2).
4) Deve-se ter em conta se o Henrique é um profissional de luta
livre, ou tem contactos com profissionais da luta livre (afirmação
sem relação ao problema em causa).
5) Deve-se ter em conta se o Henrique está a roubar para si ou
para ajudar outra pessoa (estádio 4).
6) Deve-se ter em conta se os direitos do farmacêutico em relação
à sua invenção devem ser respeitados (estádio 4).
7) Deve-se ter em conta se a essência de viver é mais abarcante
que a terminação de morrer, social ou individualmente (afirmação sem
sentido).
8) Deve-se ter em contar quais os valores que devem estar na base
da conduta das pessoas na sua relação com os outros (estádio 6).
9) Deve-se ter em conta se vai ser permitido ao farmacêutico ficar
protegido por uma lei indigna que apenas defende os ricos (frase
orientada para a ordem estabelecida na história).
10) Deve-se ter em conta se neste caso a lei está a impedir o
direito mais elementar de qualquer cidadão (estádio 5).
11) Deve-se ter em conta se o farmacêutico merece ser roubado por
ser tão avarento e cruel (estádio 3).
12) Deve-se ter em conta se o roubo, neste caso, traria ou não um
bem maior para toda a sociedade (estádio 5).
Terminada a avaliação nos termos em que a descrevemos, é pedido aos
participantes que seleccionem as quatro afirmações que considerem mais
importantes. A partir desta descrição torna-se portanto evidente que o DIT é
uma tarefa de reconhecimento, compreensão e preferência.
O DIT permite o cálculo de diversos índices quantitativos relacionados com o
raciocínio moral. De todos, aquele que, de acordo com Lourenço (2002), se tem
relevado a medida de raciocínio moral empiricamente mais válida é o Índice P.
Nas palavras dos seus autores, este índice (em que “P” está para princípios)
representa “a importância relativa que um indivíduo confere às considerações
morais orientadas por princípios, na tomada de decisões acerca de dilemas
morais (Rest, 1979, p. 5.2. do manual). Numa revisão mais recente, Rest,
Narvaez, Bebeau e Thoma (1999) propõem uma nova “significação” para o Índice P,
ao nível da moralidade pós-convencional. De acordo com Lourenço (2002), esta
diferença não encontra grande tradução em termos práticos uma vez que o índice
é calculado da mesma forma, i.e., reflecte o número de vezes que o indivíduo
ordena como mais importantes afirmações de estádio 5 e 6. Quanto maior for o
número de vezes que isso acontecer, maior é o índice P – que pode variar entre
0-57 (em termos de pontuações brutas) e entre 0-95 em termos de percentagem,
sendo raras as pontuações acima de 60. Lourenço e César (1991) testaram uma
adaptação portuguesa do DIT, tendo obtido resultados consistentes com os de
Rest (1979, 1986a,b), o que, de acordo com os autores deste estudo, apesar da
amostra utilizada não ser representativa, torna-se viável utilizá-la para fins
de investigação.
Outro índice introduzido mais tardiamente foi o Índice U (em que “U” está para
‘utilizer’) e refere-se ao “grau de correspondência entre a ordenação das
afirmações tidas como mais importantes, e a acção advogada no dilema” (Rest et
al., 1999, p. 105), i.e., a correspondência entre a tomada de posição do
participante relativamente àquilo que deveria ser o comportamento do
protagonista, e a classificação que faz de cada uma das doze afirmações. O
cálculo deste índice vai ao encontro de uma discussão polémica na literatura do
raciocínio moral – a relação entre a acção moral e o raciocínio moral, que já
tivemos oportunidade de abordar anteriormente.
Acentuamos a terminar a descrição desta metodologia, as diferenças entre o DIT
e a Entrevista de Juízo Moral. Ao contrário do que se passa com o sistema de
Kohlberg, em que o resultado da avaliação do juízo moral é dado em termos de um
estádio dominante ou de dois estádios de desenvolvimento adjacentes, a partir
da descrição que apresentámos, o índice P é uma variável contínua (de
“maturidade” moral como refere Lourenço, em 2002) e o que está fundamentalmente
em causa é saber em que medida uma pessoa manifesta determinados tipos de
organização de pensamento moral (Rest, 1979).
As diferenças que descrevemos em termos de formato têm ainda reflexos nos
níveis de juízo moral obtidos. Nesse sentido, pelo facto de não ser pedido no
DIT que as pessoas produzam ou justifiquem as suas respostas aos dilemas
morais, e apesar de haver uma correlação de .5 entre as duas metodologias
(Rest, 1986a), os resultados neste teste são inflacionados relativamente à
Entrevista de Juízo Moral – razão pela qual, ao nível da metodologia de Harvard
(v. Colby & Kohlberg, 1987), se renunciou ao estádio 6. O mesmo não
acontece com o DIT, onde afirmações deste estádio poderão contribuir para o
cálculo do índice P. Será com base neste instrumento que avaliaremos o juízo
moral dos participantes na parte empírica do nosso estudo. No capítulo que se
segue apresentaremos os seus objectivos e hipóteses, com base no enquadramento
teórico que aqui termina.
Objectivos e hipóteses em estudo
A nossa investigação tem um duplo objectivo, que é o de mostrar os efeitos de
modulação semântica e efeitos de modulação pragmática na interpretação de
frases condicionais deônticas, e suas consequências no raciocínio condicional.
No que diz respeito à modulação semântica, a nossa hipótese é de que o conjunto
de possibilidades que os sujeitos avaliam como possíveis/permissíveis irá ser
diferente de acordo com o tipo de interpretação (Condicional ou Capacitante)
que as frases induzem, e conforme se pode observar na Tabela 2.
TABELA_2
Possibilidades compatíveis com os três tipos de interpretações das frases
condicionais utilizadas com a forma gramatical: Se A então C
Dado o conjunto diferente de possibilidades nas duas interpretações, uma das
consequências esperadas é de que os padrões inferenciais também serão
diferentes. Concretamente, é de esperar um maior número de inferências Modus
Ponens (MP) e Modus Tollens (MT) na interpretação Condicional, e um maior
número de inferências Negação do Antecedente (NA) e Afirmação do Consequente
(AC) na interpretação Capacitante.
Note-se que este tipo de efeitos de modulação semântica tem sido já
demonstrados noutros estudos (Johnson-Laird & Byrne, 2002; Quelhas &
Johnson-Laird, 2005; Quelhas, Johnson-Laird, & Juhos, 2010), ao contrário
dos efeitos de modulação pragmática que iremos explorar no presente estudo.
Será que, o facto de se estar privado da liberdade por se ter infringido um
preceito deôntico produz algum efeito em termos de modelos mentais salientes,
acerca do que é permissível ou não permissível? E, será que o facto de se estar
privado da liberdade por se ter infringido um preceito deôntico se traduz numa
diferença em termos de nível de juízo moral?
Ao nível da tarefa de juízo moral, esperam-se diferenças entre indivíduos
reclusos e não reclusos relativamente ao índice P, i.e., diferenças em termos
da importância relativa que as pessoas conferem às considerações morais
orientadas por princípios, na tomada de decisão acerca de dilemas morais.
Assim, esperamos que os indivíduos reclusos obtenham pontuações no Índice P
mais baixas, que os participantes que não tenham tido qualquer experiência de
reclusão prisional.
Outra questão que iremos explorar, e que tanto quanto sabemos não foi até ao
presente investigada, é se perante condicionais deônticas que remetem para
obrigações, o facto de se tratar de obrigações que no quotidiano são facilmente
violáveis (e.g., “Se o jovem comprar bebidas alcoólicas, então tem de ter
completado 16 anos”), ou, se tratar de obrigações dificilmente violáveis (v.
“Se o jovem votar, então tem de ter completado 18 anos”), irá influenciar o
conjunto de possibilidades consideradas como permissíveis e não permissíveis.
Assim, esperamos que a forma como os indivíduos avaliam determinadas
possibilidades das frases de conteúdo deôntico, seja moderada pelo seu nível de
juízo moral. Concretamente, os indivíduos com pontuações inferiores no índice
P, aceitarão a violação das permissões, bem como das obrigações, em maior
frequência, do que os participantes com pontuações mais elevadas em termos de
juízo moral. Esperamos ainda que a associação entre a medida de juízo moral e a
aceitação da possibilidade correspondente à violação da condicional deôntica,
será mais evidente no caso das obrigações invioláveis, do que nas obrigações
violáveis.
MÉTODO
Participantes
Seleccionámos uma amostra composta por 60 indivíduos adultos de ambos os sexos.
Para facilitar o emparelhamento, i.e., a fim de homogeneizar características
como sexo, idade e habilitações literárias, seleccionámos os indivíduos da
população não reclusa a partir das características dos indivíduos reclusos. Os
indivíduos não reclusos eram, na sua totalidade, alunos de um estabelecimento
de ensino do Ensino Recorrente do centro de Lisboa em regime pós-laboral: 15
homens com uma idade média de 25,9 anos e desvio-padrão de 5,9 anos, e 15
mulheres, com uma média de 24,6 anos de idade e um desvio-padrão de 5,5 anos.
Os participantes recluídos num estabelecimento prisional feminino da região de
Lisboa tinham uma média de 31,4 anos de idade e um desvio-padrão 8,3 anos. Os
indivíduos detidos num estabelecimento prisional masculino tinham, em média,
29,9 anos de idade e um desvio-padrão 5,5 anos. Nenhum dos participantes foi
treinado em lógica formal e todos participaram de forma voluntária. Os
participantes não reclusos não tinham tido até à data da recolha de dados
qualquer experiência de reclusão prisional.
Tarefas
Tarefa de aferição de interpretação
Utilizou-se uma tarefa de aferição de interpretação com o objectivo de se
estudar o modo como as pessoas interpretam determinado tipo de frases
condicionais. Esta consistia em apresentar aos participantes frases
condicionais deônticas do tipo: “Se o jovem conduzir, então tem de ter carta de
condução”, pedindo-se aos indivíduos em seguida para, a partir dessas frases,
avaliarem como “permissível” ou “não permissível” cada uma das quatro
contingências de uma frase condicional, isto é, as possibilidades de combinar o
antecedente com o consequente.
Frase-exemplo:
Leia com atenção a frase seguinte:
Se o estafeta viajou de mota, então usou um capacete.
A partir desta frase é possível imaginar quatro situações, tal como encontra
mais abaixo. O que lhe pedimos é que avalie cada uma dessas situações,
indicando se se trata de uma situação Permissível ou Não permissível, ou seja,
se é uma situação permitida, ou não, pela frase que leu em cima.
O estafeta não viajou de mota e usou um capacete.
Permissível < Não Permissível <
O estafeta não viajou de mota e não usou um capacete.
Permissível < Não Permissível <
O estafeta viajou de mota e usou um capacete.
Permissível < Não Permissível <
O estafeta viajou de mota e não usou um capacete.
Permissível < Não Permissível <
Indique a sua resposta com uma cruz no quadrado correspondente.
Ao virar esta página, vai começar realmente a sua tarefa. Verifique sempre que
respondeu às quatro situações antes de passar à página seguinte.
A tarefa era composta por 8 frases (v. Anexo_A), apresentadas em folhas
separadas. Utilizámos frases com quatro conteúdos diferentes (v. duas frases
para cada tipo de conteúdo): Duas obrigações violáveis (cf. definição proposta
no capítulo dos Objectivos e Hipóteses de Investigação); duas obrigações não-
violáveis e duas permissões. A fim de criarmos um termo de comparação entre
condicionais deônticas e condicionais não deônticas, recorremos a duas frases
de tipo epistémico. No caso das frases epistémicas, foi pedido aos
participantes para avaliar as contingências das frases condicionais como
“possíveis” ou “impossíveis”. No que se refere aos tipos de interpretação,
utilizámos duas, de acordo com os 10 tipos de interpretação sistematizados por
Johnson-Laird e Byrne (2002): as frases epistémicase as obrigações (violáveis e
invioláveis)correspondiam à interpretação Condicional(congruente com as
possibilidades: a c; ¬a c; ¬a ¬c, cf. Tabela_2), ou seja, frases em
que o antecedente é suficiente para o consequente, e o consequente necessário
para o antecedente. Já para as permissões, utilizámos frases correspondentes ao
tipo de interpretação Capacitante(a c; a ¬c; ¬a ¬c), onde o
antecedente é necessário para o consequente.
Para evitar um eventual enviesamento provocado pela ordem de apresentação das
quatro possibilidades, recorremos a duas ordens diferentes: Contrabalanceámos a
ordem de apresentação das formas de combinar o antecedente com o consequente
(i.e., ora: a c; a ¬c; ¬a c; ¬a ¬c, ora: ¬a c; ¬a
¬c; a c; a ¬c).
Os diferentes tipos de frase foram apresentados aos participantes de forma
aleatória. Para isso, utilizámos um programa de computador que, através do
algoritmo “simple random sample”, nos permitiu efectuar uma apresentação
aleatória das oito frases.
Tarefa de inferência
Utilizámos uma tarefa de raciocínio condicional com as quatro inferências:
Modus Tollens (MT); Modus Ponens (MP); Afirmação do Consequente (AC); e Negação
do Antecedente (NA). Esta consistiu na apresentação de um enunciado
condicional, por exemplo: “se o estafeta viajou de mota, então usou um
capacete”, seguido de uma premissa categórica que nega ou afirma o antecedente
(v. Negação do Antecedente e Modus Ponens, respectivamente), ou, por uma
premissa que nega ou afirma o consequente (v. Negação do Consequente e Modus
Tollens, respectivamente). Em seguida vemos a frase-exemplo apresentada aos
participantes (exemplo retirado de um estudo de Quelhas & Byrne, 2003).
Leia com atenção as duas frases seguintes:
Se o estafeta viajou de mota, então usou um capacete.
O estafeta viajou de mota.
Portanto...
A partir destas duas frases pedimos que escolha uma conclusão. O que é que se
pode concluir em sua opinião? Dê a sua resposta assinalando com uma cruz a
frase que considera a opção correcta.
Usou um capacete. <
Não usou um capacete. <
Não posso concluir nada.<
Quando virar a página vai começar realmente a sua tarefa. Se tiver alguma
dúvida, por favor coloque-a ao experimentador.
Dado que, para cada uma das oito frases (v. anexo A), havia quatro problemas
(i.e., MP, MT, NA, e AC), apresentámos um total de 32 problemas. A apresentação
dos quatro problemas dentro de cada frase foi feita de forma aleatória, bem
como a disposição das frases dos quatro conteúdos diferentes (v. obrigações
violáveis, obrigações não-violáveis, permissões e epistémicas). No que se
refere à ordem de apresentação das opções dadas ao participante, esta foi
parcialmente contrabalanceda. Em todas as frases apresentadas, a última opção
que era dada a escolher era “não posso concluir nada”, optando nós por
contrabalancear as duas outras opções (i.e., negação ou afirmação do
antecedente ou, por outro lado, negação ou afirmação do consequente). Concluída
esta segunda tarefa, era apresentada a tarefa de juízo moral.
Teste de definir valores morais (DIT)
No que se refere grosso modoà avaliação do juízo moral, a tarefa desenvolvida
por Kohlberg (1981, 1984) tornou-se um ponto de referência nesta área de
investigação. Consiste na apresentação de um conjunto de nove dilemas
hipotéticos, seguidos de uma série de questões a que o participante deverá
responder. Contudo, devido à complexidade desta metodologia, quer em termos de
codificação, quer em termos da sua aplicação, James Rest e seus colaboradores
(Rest, 1979, 1986a,b; Rest, Thoma, & Edwards, 1997) desenvolveram uma
alternativa que viesse dar conta destas limitações (Lourenço, 2002). O Teste de
Definir Valores Moraisfoi a resposta encontrada (que, abreviado do seu título
em inglês, Defining Issues Test, é vulgarmente designado por DIT). O DIT possui
uma codificação previamente programada e foi adaptado para a língua portuguesa
por Lourenço e César (1991). À semelhança da metodologia proposta por Kohlberg,
o DIT foi concebido para estudar o nível de desenvolvimento moral dos
indivíduos, porém, este instrumento avalia-o sob uma perspectiva diferente.
O participante no DIT é confrontado com um exercício de reconhecimento,
compreensão e preferência, em relação a determinadas considerações morais
(Lourenço, 2002).
A metodologia de Rest comporta três partes. Depois de serem confrontadas com um
de seis dilemas morais, como apresentamos em anexo (cf. Anexo_B
), é pedido às pessoas para se posicionarem relativamente ao dilema, de uma
forma mais geral, e para avaliarem a importância de determinadas frases de
conteúdo moral. Depois de avaliar o grau de importância para cada uma das doze
afirmações, associadas por sua vez a cada um dos seis dilemas, é pedido ao
participante que seleccione as quatro mais importantes, ordenando-as de forma
decrescente segundo a sua importância.
No que se refere à cotação, o avaliador atribui-lhes um determinado índice de
desenvolvimento moral, designado por Índice P. Trata-se no fundo de um índice
numérico relacionado com a importância que se atribui à moralidade orientada
por princípios (i.e., ao nível de desenvolvimento moral mais evoluído de acordo
com o teste de definir valores morais).
Procedimento
Todos os participantes realizaram as tarefas em sessões individuais. A recolha
foi feita pelo mesmo investigador numa sala fornecida pela direcção do
estabelecimento prisional com o conhecimento e autorização prévia da Direcção
Geral dos Serviços Prisionais. No caso da amostra de indivíduos não reclusos, a
recolha foi feita numa sala calma no interior das instalações do
estabelecimento de ensino que manteve as suas características – tal como se
passou nos dois estabelecimentos prisionais. Todas as tarefas foram precedidas
de instruções-chave às quais nos referimos anteriormente. O anonimato e a
confidencialidade dos dados recolhidos foram igualmente assegurados aos
participantes através de indicações específicas para esse efeito.
O experimentador questionou o participante sobre eventuais dúvidas, e uma vez
esclarecidas as instruções gerais, deu-se início à recolha dos dados. A tarefa
foi apresentada em cadernos A5, no caso das duas primeiras tarefas, e num
caderno A4, para o teste de definir valores morais. Nesses cadernos repetiam-se
as instruções dadas oralmente pelo investigador e as instruções específicas
para cada tarefa. Com base no manual do teste de definir valores morais,
eliminámos os protolocos que não observavam os requisitos de fidelidade que
teremos oportunidade de apresentar no capítulo seguinte. Em primeiro lugar, foi
apresentada a tarefa de aferição de interpretação das frases condicionais,
seguida da tarefa com inferências condicionais e, a terminar, a tarefa de juízo
moral. Cada participante demorou aproximadamente uma hora para completar as
três tarefas.
RESULTADOS
No que se refere à forma como organizámos o presente capítulo, optámos por
apresentar os resultados com base nos objectivos e hipóteses definidas
anteriormente.
Tarefa de aferição da interpretação: Condicional e capacitante
A primeira hipótese em estudo referia-se, como vimos, à forma como os
indivíduos interpretam as possibilidades congruentes com cada tipo de frases
condicionais (do tipo “Se a, então c”) utilizadas: interpretação Condicional
(“a c”; “¬a c” e “¬a ¬c”) e interpretação Capacitante (“a c”, “a
¬c” e “¬a ¬c), sendo a possibilidade que não seria congruente na
interpretação Condicional: “a ¬c”; e na Capacitante: “¬a c”.
Nas tabelas que se seguem
1
, vemos a percentagem de aceitação das quatro contingências (“a c”; “¬a c”;
“a ¬c” e “¬a ¬c”) para cada uma das frases estudadas nos
participantes reclusos (Tabela 3) e não reclusos (Tabela 4). Recordamos que as
frases de conteúdo epistémico e as obrigações violáveis e não violáveis
correspondem ao tipo de interpretação Condicional, e as permissões ao tipo de
interpretação Capacitante.
TABELA 3
Percentagem de aceitação das quatro possibilidades como permissíveis/possíveis,
e respectivo tipo de interpretação: Condicional e Capacitante, nos
participantes reclusos
TABELA 4
Percentagem de aceitação das quatro possibilidades como permissíveis/possíveis
e respectivo tipo de interpretação: Condicional e Capacitante, nos
participantes não reclusos
A partir das Tabelas 3 e 4 apercebemo-nos que, de um modo geral, se registam
diferenças na forma como os participantes avaliam algumas das contingências,
com excepção para as contingências “a c” e “¬a ¬c”, registando-se, na
maior parte das frases estudadas, valores na ordem dos 100%, que é de resto,
congruente com as hipóteses que avançámos. A contingência “a c” é congruente
com os dois tipos de interpretação, e de acordo com os nossos resultados não
existem diferenças (χ2F=11,103; p=.134, n=60) na forma como esta contingência é
aceite pelos participantes nos dois tipos de interpretação. Resultados
semelhantes obtivemos na contingência “¬a ¬ c” (χ2F=6,364; p=.498,
n=60).
No que se refere às duas outras possibilidades, i.e., “a ¬c” e “¬a c”,
não esperávamos o mesmo padrão de resultados para as frases do tipo de
interpretação Capacitante e Condicional. As percentagens de aceitação mais
elevadas na contingência “a ¬c” foram registadas nas frases de
interpretação Capacitante. Também congruente com as nossas hipóteses foi o
padrão de resultados, no caso da contingência “¬a c”, onde encontrámos
diferenças altamente significativas (χ2F=281,644; p<.001, n=60) na
superioridade de aceitação desta possibilidade na interpretação Condicional
vs.na interpretação Capacitante.
Relativamente à contingência “¬a c” verificámos que existem diferenças
altamente significativas (χ2F=146,342; p=.001, n=60) entre a aceitação desta
contingência como possível ou permissível. Registam-se ainda diferenças
(χ2F=208,115; p=.001, n=60) entre a aceitação desta contingência como
permissível, quando estão em causa obrigações (interpretação Condicional) e
permissões (interpretação Capacitante). Por fim, no que se refere à
contingência “a ¬c”, verificámos que, de uma forma mais geral, existem
diferenças significativas (χ2F=177,235; p=.001, n=60) na forma como esta é
avaliada pelos indivíduos, quando estão em causa frases de interpretação
Condicional (i.e., obrigações e epistémicas) e de interpretação Capacitante
(i.e., permissões). À semelhança do que se passou na contingência anterior,
explorando estes resultados novamente através do teste de Friedman, verificámos
que existem diferenças (χ2F=78,349; p=.001, n=60) quanto à forma como esta
contingência é aceite, quando estão em causa frases epistémicas (interpretação
Condicional) e permissões (v. interpretação Capacitante) e, no mesmo sentido,
verificou-se a existência de diferenças altamente significativas (χ2F=137,832;
p<.001, n=60) entre a aceitação desta contingência, no caso das obrigações
(i.e., interpretação Condicional) vs. permissões (i.e., interpretação
Capacitante).
Em resumo, a partir dos resultados, registaram-se os efeitos de modulação
semântica previstos pela teoria dos modelos mentais para as frases de tipo
condicional e capacitante, i.e., os participantes avaliam como possíveis (no
caso das epistémicas) e permissíveis (no caso das deônticas) as possibilidades
congruentes para cada tipo de interpretação.
Tarefa de inferência
Tal como se passou na tarefa anterior, levantámos hipóteses específicas
relativamente ao padrão inferencial dos participantes nas quatro inferências
(v. Modus Ponens, Modus Tollens, Afirmação do Consequente, Negação do
Antecedente). Começaremos a nossa análise pelos desempenhos dos participantes
na tarefa de raciocínio a partir das percentagens com que cada inferência foi
aceite nos dois tipos de interpretação, conforme pode ser visto nas Tabelas 5 e
6
2
.
TABELA 5
Percentagem de aceitação das quatro inferências e respectivos tipos de
interpretação: Condicional e Capacitante, nos participantes reclusos
TABELA 6
Percentagem de aceitação das quatro inferências e respectivos tipos de
interpretação: Condicional e Capacitante, nos participantes não reclusos
A partir das Tabelas 5 e 6, evidenciam-se diferenças ao nível da aceitação das
quatro inferências, de acordo com o tipo de interpretação. Tendo em conta os
resultados dos 60 participantes (i.e., sem analisar os resultados de cada sub-
amostra individualmente) e recorrendo ao teste de Wilcoxon, estudámos a forma
como cada tipo de inferência foi aceite nos dois tipos de frases estudadas
(i.e., Condicional e Capacitante). A escolha deste teste não paramétrico ficou
a dever-se ao nível de mensuração ordinal das variáveis em estudo (Bryman &
Cramer, 2003; Maroco & Bispo, 2003; Siegel, 1956).
No que se refere à inferência Modus Tollenspodemos, a partir dos nossos
resultados afirmar que, tal como previmos, esta ocorre com mais frequência
quando estamos perante frases de tipo de interpretação Condicional, do que
quando a frase corresponde ao tipo de interpretação Capacitante. No que se
refere à inferência Modus Ponens, encontrámos diferenças significativas entre a
aceitação desta inferência, quando estão em causa frases de tipo de
interpretação Condicional, comparativamente a frases de tipo de interpretação
Capacitante. No que se refere à inferência Afirmação do Consequente,
encontrámos em regra geral, um padrão de resultados congruentes com as nossas
hipóteses. Esperávamos níveis de aceitação desta frequência superiores em
frases de tipo de interpretação Capacitante e corroborámos parcialmente essa
hipótese.
Na inferência Negação do Antecedente(NA), obtivemos uma diferença altamente
significativa entre a aceitação desta inferência nas frases de tipo de
interpretação Capacitante, comparativa mente às frases de interpretação
Condicional (independentemente de se tratarem de frases de conteúdo epistémico
ou de conteúdo ligado a obrigações violáveis e invioláveis) – com estatísticas
de teste a variarem entre U=-3.225; p=.001, n=60 e U=-5.085; p<.001, n=60.
Modulação pragmática e a tarefa de juízo moral
Uma das hipóteses nucleares da presente investigação relaciona-se com o estudo
do nível de juízo moral dos participantes, com o objectivo de perceber se os
resultados das duas tarefas a que nos referimos até agora (i.e., tarefa de
aferição de interpretação e tarefa de raciocínio) são moderados por esta
variável (nos termos em que nos referimos no capítulo das hipóteses). Em
seguida apresentamos os principais resultados obtidos neste âmbito.
Com base na nossa amostra, e tendo em conta os critérios de fidelidade que
descrevemos atrás, a percentagem de protocolos eliminados foi de 18%, valor
que, em nosso entender, está de acordo com os valores de 15% referidos pelo
autor do instrumento (Rest, 1986a,b), e pelo estudo que serviu de adaptação do
DIT à população portuguesa (Lourenço & César, 1991) – com índices também na
ordem de 15%. Na Tabela 7 vemos os resultados obtidos na tarefa de juízo moral,
para os dois grupos de participantes.
TABELA 7
Resultados dos dois grupos de participantes na tarefa de juízo moral
A partir de uma abordagem descritiva dos nossos resultados vemos que os
indivíduos não reclusos apresentam um Índice P ligeiramente superior (31.9) ao
dos indivíduos reclusos (29.9). Isto significa que, para as amostras estudadas,
os indivíduos não reclusos orientam a avaliação de cada uma das afirmações que
lhe são dadas a avaliar, de forma mais próxima a princípios éticos universais,
comparativamente ao grupo de reclusos.
A fim de se estudar até que ponto esta diferença é ou não significativa, e
depois de verificarmos os pressupostos da normalidade da distribuição da
variável (K-S=.092 p>.200) e a respectiva homogeneidade das variâncias (F=.015
p=.903), recorremos ao teste T-student. Os resultados mostram-nos que não
existem diferenças significativas entre os resultados obtidos por estes dois
grupos de participantes [t(60)=-.578; p=.566], ou seja, as duas amostras
recolhidas pertencem, estatisticamente, a uma só população.
Não sendo possível distinguir os dois grupos de indivíduos em termos do nível
de juízo moral, não deixámos de testar as hipóteses aventadas especificamente
para cada grupo de participantes, ou seja, fomos ao encontro dos nossos
objectivos de investigação no sentido de perceber de que forma os indivíduos
avaliavam, ao nível da tarefa da interpretação das frases, a violação das
frases condicionais de conteúdo deôntico (i.e., as obrigações violáveis e
invioláveis, e as permissões).
Para o efeito recorremos ao teste de Cochran para explorar os dados de acordo
com os objectivos que definimos inicialmente. Trata-se de uma extensão do teste
de Friedman, mais indicado para variáveis com nível de mensuração nominal, como
era o caso da tarefa de interpretação, e sobretudo para comparações em que
existem menos variáveis em análise (cf. Bryman & Cramer, 2003; Maroco &
Bispo, 2003; Siegel, 1956).
Uma das hipóteses que avançámos especificamente para os grupo de indivíduos
reclusos (os participantes que, segundo avançámos nas nossas hipóteses,
obteriam pontuações mais baixas no Índice P), relaciona-se com a forma como
esperávamos que este grupo avaliasse a violação das obrigações, i.e., a
contingência “a ¬c” (e.g., “O jovem conduz e não tem carta de condução).
Esperámos que esta contingência fosse aceite com maior frequência pelos
participantes reclusos do que pelos não reclusos. Relativamente às obrigações
violáveis, não encontrámos diferenças nos dois grupos estudados, quanto à forma
como aceitavam esta contingência (Q=1.000; p=.317, n=30). O mesmo se pode dizer
para as obrigações invioláveis, em que não se registaram igualmente quaisquer
diferenças entre os participantes reclusos e os não reclusos (Q=1.000; p=.317,
n=30).
Tal como se passava nas obrigações, avançámos igualmente com previsões em
relação ao modo como os dois grupos de indivíduos avaliavam a violação da
permissão, i.e., a contingência “¬a c” (e.g., O senhor não é médico e passa
receitas). Assim como se passou nas obrigações, esperámos que os participantes
reclusos avaliassem como possível a possibilidade correspondente à violação da
permissão com maior expressão do que os indivíduos não reclusos.
A partir dos resultados obtidos podemos dizer que existem diferenças
relativamente à forma como os indivíduos reclusos avaliam a violação da
permissão: “Se a senhora está grávida, então pode pagar na caixa exclusiva para
grávidas”, quando comparados com os participantes não reclusos (Q=4.555;
p=.035, n=30). Porém, não podemos dizer o mesmo em relação à outra permissão
estudada: “Se o senhor for médico, então pode passar receitas”, em que se
registaram diferenças, relativamente à forma como os indivíduos aceitam a
possibilidade correspondente à violação (Q=.067; p=.796, n=30).
DISCUSSÃO GERAL
De um modo geral podemos dizer que os resultados deste estudo corroboram os
efeitos da modulação semântica já anteriormente encontrados (Quelhas &
Johnson-Laird, 2005; Quelhas, Johnson-Laird, & Juhos, 2010) ao nível da
interpretação das frases condicionais e subsequente raciocínio com as mesmas
frases. Como se pode verificar, o significado básico de uma frase condicional
(que corresponde à interpretação aqui designada como Condicional) sofre
alterações mediante frases de diferentes conteúdos, o que leva a que o conjunto
das possibilidades consideradas congruentes com a frase condicional apresentada
seja diferente. Tal facto, observado na tarefa de aferição da interpretação das
frases, permite prever diferentes padrões inferenciais, dado que o conjunto de
representações mentais (modelos mentais) não é o mesmo para as diferentes
frases condicionais, e dado que, de acordo com a teoria dos modelos mentais, as
inferências são feitas com base nos modelos mentais que os sujeitos representam
sobre o significado da informação fornecida.
Por outro lado, não foi possível distinguir os participantes (i.e., reclusos e
não reclusos) em termos do seu nível de juízo moral. O que motivou a utilização
desta medida foi a sua exploração como forma de operacionalizar os
conhecimentos específicos acerca daquilo que é permitido e proibido, e o juízo
que se opera acerca de determinados preceitos deônticos – a “meta-ética”, na
expressão de Lourenço (2002). Vimos que, em termos estatísticos, o grupo de
indivíduos reclusos e não reclusos pertencem a uma só população.
Uma das críticas recorrentes dos estudos do juízo moral de acordo com o modelo
de Lawrence Kohlberg (Colby & Kohlberg, 1987; Kohlberg, 1984), e segundo
Heidbrink (1991), refere-se à validade do instrumento. A entrevista de juízo
moral foi desenvolvida com o objectivo de operacionalizar o modelo
kohlberguiano do desenvolvimento do juízo moral. Emler, Renwick e Malone
(1983), por exemplo consideram que este instrumento serve apenas para aferir a
atitude social relativamente a determinados assuntos, ou a sua ideologia
política – ambas com a função de facilitar o processo de adaptação social. Para
Emler et al.(1983), se o raciocínio moral fosse uma competência, nesse caso não
seria possível simular um nível de juízo moral superior ao que as pessoas
efectivamente possuem.
Nesta linha da correspondência entre o raciocínio moral e a acção moral têm
sido conduzidos dezenas de estudos que procuram associações entre o nível de
juízo moral e a delinquência. Na meta-análise conduzida por Stams, Brugman,
Dekovic, Rosmalen, van der Laan e Gibbs (2006), pontuações mais baixas em
tarefas de juízo moral (entre as quais na tarefa que utilizámos), estão
associadas à delinquência juvenil. No entanto, antes disso, Valliant, Gauthier,
Pottier e Kosmyna (2000) não puderam concluir o mesmo. Dividiram um conjunto de
54 pessoas reclusas em quatro sub-grupos, de acordo com o crime cometido (esses
sub-grupos incluíam desde violadores, pessoas envolvidas em crimes de incesto,
pedófilos e indivíduos que participaram em crimes de delito comum).
Constituíram um grupo de controlo, e aplicaram aos participantes um conjunto de
testes psicométricos que incluíam um teste de inteligência não-verbal, o teste
de definir valores morais, entre outros. Os resultados evidenciaram que os
violadores e os abusadores de crianças atingiram pontuações elevadas no teste
definir valores morais. De acordo com os referidos autores, os seus resultados
reenviam-nos para a ideia de que as pessoas que cometem estes crimes conservam
“intactas” as suas capacidades de entender questões de natureza moral, ainda
que na sua prática, ignorem determinados valores sociais. Este estudo, como
outros de resto o têm feito (e.g., O’Kane, Fawcett, & Blackburn, 1996),
questiona no fundo a validade do instrumento que utilizámos para medir o nível
de desenvolvimento moral dos participantes, e pode ajudar-nos a perceber os
motivos pelos quais não encontrámos diferenças entre os nossos grupos de
participantes.
No entanto, o que nos parece importante reter é que, no caso do nosso estudo,
além de termos verificado que os nossos participantes constituíam apenas um
grupo, no que se refere ao nível de juízo moral, os resultados na tarefa de
aferição da interpretação das frases condicionais mostram-nos que os indivíduos
também não se distinguem no que se refere à forma como avaliam as violações das
condicionais ligadas a permissões e obrigações. Dito de outro modo,
independentemente da tarefa de juízo moral ter ou não sido uma alternativa
viável à operacionalização das diferentes experiências de vida dos nossos
participantes, os indivíduos reclusos e não reclusos avaliam as frases
condicionais deônticas de forma semelhante.
A somar a estes argumentos da literatura mais recente sobre o teste de definir
valores morais, que vão no sentido de pôr em causa a validade da própria
metodologia, não nos parece ainda de ignorar ocorrência de um possível efeito
de desejabilidade social. Este fenómeno, amplamente discutido na psicologia
social, consiste basicamente no viés que tem lugar quando os participantes de
um determinado estudo respondem, não de acordo com o seu verdadeiro
entendimento acerca do que lhes é perguntado, mas sim de acordo com aquilo que
esperam que o experimentador pretende ouvir (e.g., Vala & Monteiro, 2002).
O teste de definir valores morais prevê, pela forma como está construído, que
este efeito ocorra, definindo para isso critérios de controlo interno. No
entanto, ainda que apenas tenhamos incluído na nossa amostra os indivíduos que
reuniam estes critérios, como outros testes de fidelidade interna, e que ainda
assim tenhamos assegurado o anonimato, o facto da recolha dos dados ter sido
feita de forma individual, poderá não ter impedido que o viés da desejabilidade
social estivesse presente. Hains (1984) corroborou esta dimensão, ao pedir a
dois grupos de participantes (delinquentes e não-delinquentes) que primeiro
respondessem à tarefa de juízo moral no seu papel e depois, imaginando-se como
polícias. Neste último cenário obtiveram pontuações superiores. Isto levou
Krebs e Denton (2005) a referir-se à componente utilitária associada ao juízo
moral. De acordo com estes autores, o raciocínio moral assume acima de tudo um
valor situacional, havendo nesse sentido contextos que em é esperado que as
pessoas se comportem de acordo com mais ou menos avançados relativamente ao
modelo de Kohlberg, i.e., se ser bem sucedido no mundo dos negócios é guiado
pelo estádio 2 (orientação para a recompensa), não se podendo dizer o mesmo de
um casamento, por exemplo, cuja orientação é claramente baseado na
reciprocidade (estádio 3).
Outro aspecto que merece ser levado em consideração em futuras investigações,
prende-se com o desfasamento que pode ter havido entre a abordagem aos
conhecimentos envolvidos na avaliação que se pedia aos indivíduos acerca do que
é permitido ou proibido na tarefa de aferição da interpretação, e as
solicitações da tarefa de juízo moral. No primeiro caso, tratava-se de uma
avaliação simples acerca do que é permissível ou não permissível, em
determinadas circunstâncias mais quotidianas (i.e., regras que regulam a
entrada num casino, o consumo de bebidas alcoólicas, etc.), enquanto no segundo
se pedia aos indivíduos para se posicionarem diante de situações sociais que os
obrigavam a reflectir sobre uma tomada de posição justa, de acordo com o seu
sistema de valores. Talvez fosse pertinente explorar-se futuramente outras
metodologias que se centrem mais sobre os conhecimentos envolvidos nos
materiais verbais utilizados de forma mais concreta, na tarefa de aferição da
interpretação, e não sobre aspectos metacognitivos para os quais esses
conhecimentos reenviam.
No que se refere a outro objectivo exploratório do nosso estudo – a procura de
diferenças entre dois tipos de obrigações (violáveis e não violáveis), os
resultados que obtivemos não foram conclusivos. Partindo do corolário da teoria
dos modelos mentais, de acordo com o qual, as pessoas representam os seus
conhecimentos sob a forma de modelos explícitos, o objectivo consistia em
perceber se as pessoas, nas condicionais violáveis representavam o que era
proibido com maior “saliência”. Esperávamos que, a partir das experiências de
vida de cada grupo de participantes, houvesse diferenças na avaliação destes
dois tipos de obrigações. De facto, também aqui não obtivemos diferenças.
Estes resultados obrigam-nos a levantar um determinado conjunto de hipóteses
alternativas. Em primeiro lugar, somos levados a repensar os critérios que nos
levaram à escolha das frases. Em investigações futuras, parece-nos pertinente
que a escolha de frases de cada uma das categorias (v. violáveis e não
violáveis), tenha em conta critérios como o da “violabilidade”. As frases que
utilizámos dentro de cada categoria, i.e., obrigações violáveis e obrigações
não violáveis, talvez não fossem equivalentes sob ponto de vista da
“violabilidade”, a saber: com que segurança se pode afirmar que a regra
violável de conduzir com menos de 18 anos é mais fácil de violar do que comprar
bebidas com menos de 16 anos? Ou, dentro das condicionais invioláveis, jogar no
casino com menos de 18 anos é mais facilmente violável que votar com menos de
18 anos? Nesse sentido, propomos que, em estudos futuros, a escolha das
obrigações tenha em conta este aspecto, pedindo-se, por exemplo, ao nível de um
pré-teste, que as pessoas que avaliem o índice de violabilidade das frases,
para depois se operar uma triagem prévia.
Por outro lado, consideramos igualmente importante, que as condicionais
deônticas se inscrevam de uma forma mais representativa naquilo que são as
representações da generalidade dos indivíduos estudados. Uma pessoa condenada
por mais de cinco anos, por ter cometido um homicídio involuntário não terá
seguramente a mesma representação da violação de determinados preceitos
deônticos que outra pessoa que se encontra a aguardar julgamento em prisão
preventiva por furto agravado ou tráfico de estupefacientes. No futuro, talvez
fosse pertinente efectuar um levantamento daquilo que, para cada grupo de
participantes, representa efectivamente, a violação de um preceito deôntico.
Consideramos importante acrescentar que, tendo em conta esta fonte de
variabilidade, numa fase preliminar da preparação deste estudo, conjecturámos a
possibilidade de escolher os indivíduos reclusos, de acordo com o tipo de
ilícito cometido, mas isso veio a revelar-se insustentável em termos
logísticos. Com o objectivo de controlarmos os níveis de escolaridade dos
participantes reclusos, tivemos de nos circunscrever aos indivíduos voluntários
com o nível igual ou superior ao 9.º ano de escolaridade. Ora, dada a escassez
de pessoas que reunissem estes pré-requisitos, nos dois estabelecimentos
prisionais em que tivemos autorização para trabalhar, tivemos que nos sujeitar
ao baixo número de pessoas que reuniam tais condições, independentemente do
motivo que as tinha conduzido ao sistema prisional.