Programa de intervenção nas interacções pais-filhos “Desenvolver a Sorrir” -
Estudo exploratório
INTRODUÇÃO
Os cuidados parentais e a interacção pais-filhos nos primeiros meses de vida da
criança, especialmente no que se refere ao grau de sensibilidade e de
responsividade dos pais para com o bebé, são determinantes no processo de
vinculação e na promoção de um bom desenvolvimento emocional, intelectual e
comportamental da criança (Ainsworth, Blehar, Waters, & Wall, 1978; Jenning
& Connors, 1989).
Assim, se a intervenção na interacção precoce se constitui como pertinente ao
nível universal, a sua relevância da intervenção nesta fase, afigura-se como
urgente e essencial no que concerne às famílias consideradas “de risco”, dados
os factores de disfuncionalidade que as caracterizam. A este respeito refira-se
que a revisão de literatura aponta para que muitas crianças inseridas em
famílias de risco ficam sem qualquer estimulação/interacção durante longos
períodos de tempo, estando sujeitas a um nível de negligência física grave
(Brophy-Herb, Gibbons, Omar, & Schiffman, 1999), que frequentemente se deve
a desconhecimento dos adultos no que respeita às necessidades da criança, ou,
em alternativa, por indisponibilidade emocional dos mesmos (Sydsjo, Wadsby,
& Svedin, 2001).
Tendo em conta a necessidade de uma intervenção precoce, o Despacho Conjunto
nº891/99, de 19 de Outubro, que foi aprovado em Portugal, pelos Ministérios da
Educação, da Saúde, do Trabalho e da Solidariedade com o objectivo de
regulamentar este tipo de intervenção, assume uma importância indiscutível,
constituindo-se como um primeiro passo para uma intervenção mais eficaz a este
nível. No entanto, ainda que de acordo com o referido despacho, a intervenção
precoce tenha como destinatários “crianças até aos 6 anos de idade,
especialmente dos 0 aos 3, que apresentem deficiência ou risco de atraso grave
do desenvolvimento”, apenas 25% das crianças com dificuldades são referenciadas
para intervenção antes dos 3 anos de idade (Almeida, 2004).
Esta situação traduz o facto da intervenção precoce “de natureza preventiva e
habilitativa, no âmbito da educação, da saúde e da acção social”, conforme
descrita no Despacho Conjunto nº891/99, nem sempre se afigurar como uma
realidade, sendo um recurso apenas em situações de atraso de desenvolvimento
com níveis de gravidade bastante acentuados e enquadráveis somente nas áreas da
saúde e/ou da educação. De facto, ainda que um dos objectivos gerais do
Despacho referente à intervenção precoce seja o de “potenciar a melhoria das
interacções familiares”, estando este princípio também previsto na legislação
da protecção de menores (Decreto-Lei nº 12/2008), constata-se a inexistência de
programas estruturados e direccionados para a intervenção precoce ao nível das
interacções nas situações de mau trato e negligência em meio natural de vida
com crianças sinalizadas no Sistema de Protecção de Crianças. O trabalho das
instituições que intervêm em situações de mau trato e negligência de crianças
no Sistema de Protecção de Menores em Portugal é, na generalidade, efectuado
com recurso a estratégias de sensibilização dos pais, utilizadas de forma não
estruturada, sem suporte teórico ou empírico quanto à sua especificidade e
pertinência. As dificuldades de articulação entre os diferentes Ministérios e a
falta de um investimento político claro nesta área dificultam a evolução na
resposta dada pelos técnicos, verificando-se, como já antes se referiu, a
inexistência de programas de intervenção estruturados, assim como a falta de
formação específica dos técnicos para o efeito pretendido em termos da referida
legislação.
A nível internacional já se identificam vários programas de intervenção com
pais (e.g., Healthy Families América; Parents as Teachers; Comprehensive Child
Development Program; Early Head Start), salientando-se na análise efectuada por
Olds, Sadler, e Kitzman (2007) que os programas implementados em domicílio numa
fase precoce da interacção em famílias de risco, com o objectivo de intervir na
área da saúde, do desenvolvimento da criança e na auto-suficiência económica
dos pais da criança evidenciaram bons resultados.
No entanto, a mesma revisão de literatura refere algumas limitações, as quais
importa ter em conta na elaboração de novos programas. Entre as mais
importantes destacam-se as dificuldades em manter o envolvimento dos
progenitores nos programas (especialmente quando as mudanças pretendidas não
são sentidas como necessidades dos pais); dificuldades em alterar o padrão de
vinculação nas crianças; e poucas ou nenhumas alterações no meio ambiente que
os progenitores providenciavam à criança (Olds et al., 2007).
Tendo em conta a inexistência desta natureza a nível nacional, e considerada a
importância das interacções positivas na relação precoce pais-filhos para o
desenvolvimento da criança em contextos de risco, o trabalho desenvolvido teve
por objectivo desenvolver um programa de intervenção, nas interacções pais-
filhos com crianças entre os 0 e os 3 anos, teoricamente fundamentado que
contribua para a redução das limitações identificadas nos programas a nível
internacional, assim como iniciar o estudo da sua validação. O Programa,
aplicado no domicílio, é direccionado para famílias “de risco” sinalizadas no
Sistema de Protecção de Crianças e Jovens em Portugal, nas quais
sistematicamente se verifiquem acentuadas dificuldades ao nível das interacções
precoces (Calheiros, 2006; Lourenço, Rosário, & Zuzarte, 2006).
Apesar de não se considerar o programa de intervenção proposto de carácter
intensivo, os estudos que analisam os efeitos de Programas de interacção
precoce já existentes a nível Internacional, destacam os seus efeitos positivos
mesmo nas intervenções de carácter pontual (e.g., intervenção precoce com bebés
e famílias – Neonatal Behavioural Assessment Scale – NBAS (Eshel, Daelmans,
Cabral de Mello, & Martines, 2006). Estas intervenções revelam-se úteis na
demonstração das características dos recém-nascidos, assim como do
comportamento dos pais e/ou da criança, permitindo que os pais fiquem a
conhecer melhor as capacidades dos seus filhos, os percepcionem como capazes de
interacção e, subsequentemente, interajam com eles em conformidade (Britt &
Myers, 1994).
A INTERACÇÃO PRECOCE E O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA
A família é o principal contexto no qual as crianças exercitam competências que
vão adquirindo com o apoio dos adultos de referência, pelo que o
desenvolvimento da criança é influenciado por factores individuais da criança,
factores familiares e outros aspectos do meio (Belsky, 1980; Bronfenbrenner,
1977). Neste contexto, a relação pais-filhos constitui-se como o recurso
emocional e cognitivo que permite que a criança explore os ambientes sociais e
físicos, assumindo-se a interacção precoce como o veículo de satisfação das
necessidades dos recém-nascidos, sendo este processo bidireccional, pois é
construído com base nas necessidades básicas das crianças e nas respostas dos
pais às mesmas.
No entanto, importa ressaltar que, para que as interacções pais-filhos possam
ser bem sucedidas e englobem os contributos individuais de ambos os
intervenientes, algumas características são imprescindíveis, incluindo: (a) um
elevado grau de sintonia, em que o comportamento individual de ambos os
parceiros na díade é mutuamente interdependente; (b) o envolvimento mútuo, no
qual cada parceiro está disponível para, e responde ao outro. (c) as
características do parceiro adulto, incluindo a sua disponibilidade emocional;
a sensibilidade aos sinais emocionais do bebé e as respostas contingentes às
emoções e às cognições emergentes através da vocalização, do olhar e das acções
(McCollum, Ree, & Chen, 2000).
Relativamente ao contributo do adulto, são várias as propostas apresentadas na
literatura relativamente às dimensões a ter em conta no estabelecimento de uma
interacção pais-filhos de qualidade (Anders, Halpern, & Hua, 1992; Birch,
1990; Oppenheim, Nir, Warren, & Emde, 1997; Rozin, 1990), dando-se destaque
aqui somente àquelas que sustentam a construção do programa apresentado.
Solomon e George (1999) referem quatro variáveis de interacção
interdependentes, que promovem uma vinculação segura na criança: a
sensibilidade (definida como a reacção imediata e apropriada aos sinais do
bebé), a aceitação, a cooperação e a disponibilidade psicológica.
A responsividade do adulto é outro conceito importante para um “cuidar
saudável”, sendo conceptualizada através de três passos processuais,
nomeadamente: (a) a observação – o adulto observa os sinais da criança,
incluindo os movimentos e as vocalizações; (b) a interpretação – interpreta
esses sinais de forma correcta (e.g., percebe que um bebé irritado, está
cansado) e (c) a acção – reage de forma rápida, consistente e eficaz para
responder à necessidade da criança (Eshel et al., 2006).
Para além da responsividade, as estratégias de restrição e/ou castigo
utilizadas pelo adulto também influenciam a qualidade da interacção e
determinam os estilos parentais. A este respeito importa salientar que em
famílias identificadas como multiproblemáticas, os pais controlam os
comportamentos dos seus filhos bebés, revelando menor tendência para recorrer a
estratégias de gestão de comportamento caracterizadas como “controlo-e-
orientação” (Belsky, Woodworth, & Crnic, 1996). As referidas estratégias
afiguram-se assim como um aspecto essencial a ser trabalhado dado que as
crianças destas famílias, por sua vez, desafiam mais frequentemente os pais e é
experienciada uma maior escalada de afectos negativos nestas situações de
controlo parental.
A experiência precoce de interacção social, na presença de um adulto
sintonizado com a criança e sensível às micro-alterações das emoções e dos
comportamentos, é imprescindível para o desenvolvimento da capacidade
simbólica, da empatia, da ressonância emocional e da auto regulação (Dekovic
& Janssens, 1992; Dishion, 1990; Feldman, 2007; Hart, DeWolfe, Wozniak,
& Burts, 1992; Mize & Pettit, 1997). Os parâmetros da sintonia criam um
processo de ligação inter-pessoal e familiar especifico a cada díade, mas
permitem, em simultâneo, uma margem de imprevisibilidade onde a criatividade e
a variabilidade possibilitam o desenvolvimento autónomo do relacionamento
social (Feldman, 2007) preparando as bases para a posterior capacidade da
criança para estabelecer relações gratificantes com os pares e relações de
intimidade ao longo da sua vida.
No entanto, a interacção não influencia apenas o desenvolvimento sócio-
emocional da criança, constituindo-se como importante para outras áreas de
desenvolvimento, como a área de desenvolvimento cognitivo. A este respeito,
importa referir que, segundo Vygotsky (1978), o desenvolvimento das crianças
ocorre na “zona de desenvolvimento proximal”, que representa a diferença entre
o nível de desenvolvimento actual da criança (capacidade de resolver problemas
sozinha) e o nível de potencial de desenvolvimento (capacidade de resolver
problemas com a orientação do adulto, visto serem capacidades que estão na fase
de maturação mas que ainda não estão na fase de serem utilizadas pela criança
sem o apoio do meio). Para além disso, as crianças são participantes activas do
ponto de vista social através da observação, da prática, do apoio do adulto e
da vivência de actividades partilhadas (Rogoff, 1990), aspectos integrantes da
interacção, sendo os progenitores as figuras mais importantes nesta interacção
e na sua vida. Eles servem de modelo e de “guias” na selecção das estratégias
eficazes para a resolução de problemas (Rogoff, 1990). Assim, os pais (e as
mães em particular) trabalham dentro da “zona de desenvolvimento proximal”,
ajustando a informação que dão à criança para que esta consiga resolver tarefas
simples, em função do seu nível de desenvolvimento e do grau de apoio que
necessita.
Visto que a criança só beneficia de actividades cognitivas conjuntas quando
essas actividades são dirigidas para o seu “nível de potencial de
desenvolvimento”, de forma a avançar o seu “nível de desenvolvimento actual”, a
natureza interactiva da instrução que ocorre dentro da “zona de proximidade”
constitui-se como essencial. Este conceito é conhecido como “scaffolding”
(Rogoff, 2003) e inclui a provisão de regulação, orientação e feedbackpor parte
do adulto durante a tarefa que a criança tenta executar. Uma vez que em idades
precoces quer o conteúdo, quer a estrutura da tarefa são essencialmente
fornecidos pelos adultos, a competência da criança, apesar de ser influenciada
pela sua capacidade inicial, é sobretudo resultado das práticas, instruções e
comportamentos instrutivos dos cuidadores principais. Assim, as mudanças
progressivas no “scaffolding”, são utilizadas pelos adultos na interacção com
os filhos para desenvolver uma variedade de capacidades das crianças, incluindo
as capacidades de resolução de problemas, o desenvolvimento da memória, as
referências discursivas e as capacidades de comunicação, inerentes ao processo
de desenvolvimento (Peterson & McCabe, 1994).
No entanto, não são somente as dimensões de uma interacção de qualidade que
devem ser analisadas nos programas de intervenção parental. Com efeito, tendo
em conta a dificuldade da adesão dos pais aos programas de intervenção,
referida repetidamente na literatura (e.g., McCollum et al., 2000; Olds, 1997)
afigura-se como pertinente analisar factores que têm sido descritos como
importantes para uma intervenção que pretenda melhorar a qualidade da
interacção pais-filhos. Destacam-se os seguintes objectivos, referidos por
Bromwich (1990) dado que podem diminuir a resistência dos pais: (a) apoiar a
autoconfiança parental, identificando e reconhecendo as potencialidades e
capacidades dos mesmos, numa abordagem de resolução de problemas, (b) avaliar a
percepção que o adulto tem de si e da criança, (c) promover a sensibilidade dos
pais nas suas observações da criança, (d) estimular o interesse por actividades
lúdicas com a criança através de estratégias como a modelagem e a
experimentação, (e) apoiar a comunicação recíproca pais-filhos, (f) identificar
fontes de apoio e de stress, (g) desenvolver uma relação com ambos os
progenitores, se tal for possível, (h) apoiar a interacção positiva da criança
ou do adulto com outros elementos da fratria, visto que a intervenção poderá
ter um impacto negativo na relação do cuidador com as outras crianças (i) e
aliviar a sobrecarga do adulto de referência, com sugestões e estratégias que
facilitem as rotinas familiares.
PROGRAMA “DESENVOLVER A SORRIR”
OBJECTIVOS E ESTRATÉGIAS DO PROGRAMA
Foi com base nos aspectos referidos como essenciais nos modelos teóricos de
intervenção precoce – a sensibilidade, a responsividade, a proximidade afectiva
e o conhecimento parental, que o Programa “Desenvolver a Sorrir” foi
construído, organizando-se em três vectores:
1) Uma vez que as intervenções direccionadas para os pais e criança em
simultâneo parecerem ser mais eficazes do que aquelas que focam apenas um dos
elementos da díade, e que os “participantes” se mantêm juntos para além do
tempo da intervenção (Bromwich, 1990), podendo continuar a influenciar-se
mutuamente e a dar sequência à intervenção já efectuada, o Programa
“Desenvolver a Sorrir” foi sistematizado de forma a possibilitar: (1) o aumento
de tempo de interacção estimulante entre pais e filhos; e, (2) a promoção da
aproximação na díade, através de interacções pais-filhos de qualidade.
2) Tendo em conta a bidireccionalidade do processo de interacção, o Programa
centrou-se, por um lado, na promoção da resposta da criança aos comportamentos
dos pais e na estimulação de uma maior clareza dos sinais enviados pelo bebé e,
por outro, no aumento da atenção e na interpretação dos sinais do bebé por
parte dos pais e na promoção da qualidade das respostas dos mesmos às
solicitações da criança, tanto nas verbalizações como na demonstração de
afectos.
3) Finalmente, dada a importância da “aproximação” dos pais ao nível de
desenvolvimento actual da criança, este programa não só utiliza estratégias de
modelagem e estratégias educativas activas para a promoção do conhecimento
parental sobre os comportamentos normais e adaptativos da faixa etária na qual
o(a) filho(a) se encontra, como a sensibilização destes para a implementação de
estratégias de promoção do desenvolvimento cognitivo da criança através da
diversificação das experiências de estimulação diária da criança (variedade de
estímulos e de materiais lúdicos adequados para o desenvolvimento dos filhos),
e ainda da organização do meio físico e da implementação de rotinas do bebé.
Acrescenta-se que, para além dos 3 vectores acima referidos, o Programa
“Desenvolver a Sorrir” foi construído com o objectivo de facilitar o
envolvimento dos pais e, consequentemente, diminuir as resistências que são
referidas de forma sistemática no que concerne à adesão aos programas de
intervenção precoce já existentes a nível internacional (Olds et al., 2007).
Para este efeito, na elaboração das sessões recorreu-se à personificação da
criança, como estratégia de recurso para promover e manter a motivação e o
envolvimento dos pais relativamente à intervenção. Para além disso, a
valorização do papel parental e a auto estima dos pais foram aspectos
priorizados tanto na construção do programa como na aplicação do mesmo.
O Programa, aplicado em contexto de domicílio, é composto por sete sessões (uma
sessão introdutória e seis sessões específicas), as quais transmitem aos pais
“segredos” na “voz” da criança, relativamente ao desenvolvimento e à interacção
positiva, de acordo com a estrutura descrita no Quadro 1.
QUADRO_1
Planeamento e objectivos específicos das sessões do programa
A sessão introdutória do programa serve para apresentar os objectivos do
programa aos pais e para se combinarem aspectos funcionais da sua aplicação.
Nesta sessão são ainda abordadas questões de desenvolvimento geral da criança,
tendo em conta a sua faixa etária. Cada uma das restantes seis sessões aborda
dois segredos com aspectos relacionados e interdependentes, sendo através
destas sessões que a criança “diz” aos pais o que lhe está a acontecer em
termos do seu desenvolvimento, fornecendo-lhes estratégias sobre a forma mais
adequada de interagir com ela. Os 12 segredos que constituem o conteúdo das
sessões abordam aspectos considerados relevantes na literatura para a promoção
de uma interacção precoce de qualidade, incluindo as estratégias de uma
interacção positiva, a comunicação bidireccional entre a díade, aspectos
valorizados num meio estimulante e organizado, a importância do envolvimento e
das regras para a criança, bem como estratégias para a promoção do seu
desenvolvimento cognitivo e sócio-emocional. Cada uma das seis sessões é
apresentada, por um técnico, em 3 fases: (1) Início – reflexão sobre as
actividades da sessão anterior; (2) Corpo da sessão – são apresentados e
discutidos os conteúdos da sessão, em forma de leitura, como se fosse a própria
criança a partilhar os seus pensamentos e sentimentos com o cuidador; (3)
Experimentação – são apresentadas actividades para serem executadas com a
criança, de modo a colocar em prática as estratégias de interacção positiva
abordadas no momento anterior da sessão, constituindo-se como um veículo de
experimentação dos aspectos abordados. Estas actividades, propostas pela
criança, através da voz do adulto que aplica o Programa, são efectuadas ainda
na presença do técnico, de forma a possibilitar a modelagem ou a sensibilização
dos adultos relativamente às reacções e comportamentos da criança. As propostas
de actividades a desenvolver em cada faixa etária estão organizadas em função
dos seguintes nove grupos etários: 0-3 meses, 3-6 meses, 6-9 meses, 9-12 meses,
12-15 meses, 1518 meses, 18-21 meses, 21-24 meses e 2-3 anos.
As sessões, com uma duração prevista de 45 minutos, deverão ser realizadas no
domicílio, num local da casa escolhido pelos pais, no qual haja condições (ex.:
sem distracções, como televisão ou animais domésticos) para efectuar
actividades com a criança. Um vez que um dos objectivos da intervenção é
trabalhar no meio ambiente natural da criança, nas sessões em que há irmãos
mais velhos em casa, estes deverão ser envolvidos nas actividades efectuadas
com a criança.
No final de cada sessão é fornecido aos pais o material escrito da sessão
(protocolo da sessão), as actividades referentes à faixa etária da criança a
que diz respeito a intervenção da semana, bem como todo o material lúdico
necessário para executar as actividades propostas. Na parte final do protocolo
de cada sessão existe um espaço em branco para que os pais registem opiniões e
sentimentos relativamente aos conteúdos das sessões, bem como todos os registos
relativos à execução dos trabalhos de casa (actividades sugeridas para
aplicação durante a semana) e ainda registos relativos às observações/
avaliações.
Foi ainda construído um certificado de participação, para ser entregue no final
da aplicação do Programa, como uma estratégia para valorizar os pais e a sua
relação com os filhos, pretendendo-se assim contribuir para o aumento dos
sentimentos de competência parental dos participantes e aumentar a
probabilidade dos mesmos darem continuidade às actividades lúdicas iniciadas
durante o programa.
AVALIAÇÃO DO PROGRAMA
MÉTODO
Participantes
Para a avaliação do Programa foram utilizadas 19 díades (mãe/pai-filho) que
participaram no programa e cujas características se encontram abaixo descritas.
Os participantes foram recrutados e seleccionados através das equipas de
intervenção comunitária das instituições locais que acompanham famílias
sinalizadas como de risco e nas Comissões de Protecção de Crianças e Jovens na
zona da Grande Lisboa, tendo sido respeitados os seguintes critérios de
inclusão: (a) a criança ter até 3 anos de idade; (b) a criança/família estar
sinalizada e em processo de acompanhamento numa equipa de intervenção
comunitária de “risco” ou numa Comissão de Protecção de Crianças e Jovens; (c)
a criança ser vitima de mau trato e/ou de negligência parental. A avaliação do
mau trato e da negligência foi efectuada através do Questionário de Avaliação
do Mau Trato, Negligência e Abuso Sexual (Calheiros, 2006), o qual foi
preenchido pelos técnicos que acompanham a situação da família na qual a
criança se encontra inserida. Foram ainda recolhidos pelos técnicos os dados
sócio-demográficos da criança e do seu agregado familiar.
Características das crianças e famílias
Participaram no Programa 19 díades pais-filhos, 36,9% em acompanhamento nas
equipas de intervenção comunitária com famílias de risco e 63,1% acompanhadas
nos Serviços da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens. Da totalidade das
famílias sinalizadas 42,1% já estavam referenciadas como uma situação de risco
e/ou perigo há mais de um ano1, sendo que apenas 63% dos bebés incluídos no
programa estavam integrados em equipamentos de infância.
As idades das crianças situavam-se entre os 3 meses e os 3 anos de idade (M=21
meses; DP=0,99), sendo 58% do sexo masculino e 42% do sexo feminino; mais de
metade das crianças ocupavam o 1º ou o 2º lugar na fratria.
As famílias nucleares (42,1%) e monoparentais femininas alargadas (35,8%) eram
as mais representadas, sendo 79% das díades de descendência lusa e as restantes
(21%) de descendência africana. As idades dos pais variavam entre os 14 e os 48
anos de idade (M=28,5; DP=9,48), sendo 89,5% da amostra mães. A escolaridade
dos pais é baixa e mais de metade encontravam-se desempregados, subsistindo com
rendimentos irregulares e ajudas públicas ou privadas, e cerca de metade
residem em casas mal conservadas com condições impróprias em bairros sociais
degrados ou de lata (47,4%).
No que concerne ao nível de mau trato e/ou negligência da criança, as médias e
os desvios padrão verificados nas dimensões2do instrumento foram as seguintes:
Negligência ao Nível dos Cuidados Básicos(M=1.16; DP=0.77); Negligência
Educacional ou de Estimulação(M=0.67; DP=0.90); Mau trato(M=0.22; DP=0.40). As
médias mais elevadas foram verificadas em itens da primeira dimensão,
destacando-se que a mais elevada foi observada no item relações com as figuras
de vinculação(2.39 com DP=1.13).
PROCEDIMENTO DA APLICAÇÃO DO PROGRAMA
Após selecção dos participantes, foi explicado aos pais o objectivo do Programa
e o facto de este estar integrado num estudo de avaliação para validação do
Programa, tendo-lhes sido solicitado que assinassem um documento de
consentimento de participação. As seis sessões, realizadas semanalmente após a
sessão introdutória e com duração média de 45 minutos, foram efectuadas no
espaço do domicílio, em datas e horários combinados previamente com os pais,
respeitando cada sessão os 3 momentos já descritos.
Com os pais sem escolaridade ou com maior dificuldade de compreensão e escrita,
o terceiro momento, para além de ser utilizado para desenvolver as actividades
propostas, foi também utilizado para o técnico anotar os comentários dos pais
sobre a sessão e as actividades apresentadas, sempre com o seu consentimento,
dado não lhes ser possível realizar o trabalho de casa escrito de forma
autónoma.
AVALIAÇÃO DO PROGRAMA
MÉTODO
Participantes
Para a avaliação do Programa foram utilizadas as 19 díades (mãe/pai-filho) que
participaram no programa e cujas características se encontram acima descritas.
Desenho da avaliação e instrumentos
O Programa “Desenvolver a Sorrir” foi avaliado com um desenho pré, pós-teste de
avaliação da qualidade das interacções no grupo de díades (N=19) que foi
sujeito à intervenção.
Foram utilizados dois instrumentos de avaliação.
O Home Observation for Measurement of the Environment (HOME)(Sumner &
Spietz, 1994) foi utilizado para avaliar o meio da criança, através das
seguintes sub-escalas: responsividade emocional e verbal do cuidador;
evitamento de restrição e castigo; organização do ambiente físico e temporal da
criança; provisão de materiais lúdicos apropriados; envolvimento materno com a
criança; oportunidades para estimular diariamente a criança de forma variada.
O NCATS – Teaching Scale(Sumner & Spietz, 1994) foi utilizado para avaliar
a qualidade da interacção da díade cuidador-criança. As quatro sub-escalas do
instrumento que avaliam o comportamento parental incluem: sensibilidade aos
sinais; estimulação do desenvolvimento cognitivo; estimulação do
desenvolvimento sócio-emocional; e resposta ao descontentamento. As duas sub-
escalas que avaliam o comportamento da criança são: clareza dos sinais; e
responsividade ao cuidador.
Foi ainda elaborado um guião de entrevista para os pais responderem no final do
Programa, com o objectivo de recolher a sua opinião relativamente às sessões e
ao programa em geral (aspectos positivos e negativos, conforto/desconforto nas
sessões; benefícios para os próprios e para os filhos na participação no
programa, bem como os aspectos que os levariam a aconselhar/desaconselhar a
participação de outros pais no programa).
Procedimento de avaliação
A avaliação inicial do ambiente familiar da criança e da interacção da díade,
foi efectuada numa visita domiciliária antes da aplicação do programa. Esta
sessão foi combinada com os pais com antecedência, por via telefónica, tendo-
lhes sido solicitado que a criança estivesse presente visto que iria ser pedido
que fizessem uma pequena tarefa com o filho(a). Após ter sido explicado aos
pais que a sua participação no estudo seria completamente anónima e todos os
dados fornecidos seriam confidenciais, a avaliação iniciou-se com a aplicação
do HOME, que remete para a recolha directa de informação junto dos pais e para
a observação da dinâmica espontânea entre a díade. De seguida foi observada a
interacção da díade num contexto lúdico de aprendizagem, através do NCAST.
Desta forma foi solicitado ao adulto que ensinasse a criança a efectuar uma
tarefa nova, adequada à sua faixa etária, tendo-lhe sido fornecido o material
necessário à sua execução (e.g., ensinar a criança a procurar um objecto que o
adulto esconde debaixo de um pano enquanto ela está a observar, a rabiscar de
forma horizontal, ou a empilhar cubos de madeira, etc.).
Após a realização da sexta sessão do programa, foi realizada uma sessão para
efectuar a avaliação pós intervenção, cujo procedimento foi igual ao da
avaliação inicial. Nesta sessão foi ainda realizada a entrevista, com o
objectivo de obter a opinião dos pais relativamente aos conteúdos e às
actividades do programa.
RESULTADOS
O meio da criança
Para comparar os dados recolhidos na amostra em estudo, antes e após a
implementação do programa, e com a intenção de avaliar o seu impacto na
qualidade das interacções pais-filhos recorreu-se ao teste não paramétrico
Wilcoxon.
Os resultados obtidos no HOME apontam para diferenças significativas nas médias
em todas as dimensões da qualidade do meio ambiente da criança avaliadas
(Quadro 2). Em termos globais, verificou-se um aumento significativo (z=-3.71;
p=.000) entre os resultados médios do pré-teste (M=21.11; DP=5.84) e os
resultados médios do pós-teste (M=33.32; DP=4.84) num total possível de 45
pontos.
QUADRO_2
Médias e desvio padrão da qualidade do meio ambiente obtidas pré e pós a
aplicação do programa
Mais especificamente, na sub-escala referente aos materiais lúdicos
disponíveis, verificou-se o aumento mais acentuado entre o pré-teste (M=2.74;
DP=2.21) e o pós-teste (M=6.47; DP=1.26) (z=-3.84; p=.000). Salienta-se no
entanto que, para além desta sub-escala, as sub-escalas de responsividade
emocional e verbal do adulto (pré-teste M=7.00; DP=2.26; pós-teste=9.16;
DP=1.38) (z=-3.42; p=.001), envolvimento materno (pré-teste M=1.58; DP=1.26;
pós-teste M=3.89; DP=1.05) (z=-3.61; p=.000), estratégias de restrição e
castigo (pré-teste M=4.26; DP=1.85; pós-teste M=5.95; DP=1.31) (z=-3.45;
p=.001) e organização do ambiente físico e temporal (pré-teste M=3.47; DP=1.12;
pós-teste=4.89; DP=1.20) (z=-3.02; p=.003) apresentaram também alterações
significativas. Refira-se ainda os resultados na dimensão “variedade na
estimulação diária”, onde ainda que ligeiramente inferiores aos das restantes
sub-escalas (pré-teste M=2.05; DP=1.18; pós-teste M=2.95; DP=1.13) continuam a
evidenciar-se como significativos (z=-2.50; p=.013).
A interacção da díade
À semelhança do que ocorreu na avaliação do meio ambiente da criança, também
foi utilizado o teste não paramétrico Wilcoxon com o objectivo de comparar os
dados recolhidos antes e após a aplicação do programa.
Verificaram-se diferenças significativas (p≤.05) entre as médias das avaliações
pré e pós-teste, em todas as áreas de interacção observadas. Verificou-se um
aumento global significativo (z=-3.62, p=.001) nos comportamentos de interacção
positiva do adulto (pré-teste M=23.58; DP=7.90; pós-teste M=38.95; DP=5.03),
tendo todas as sub-escalas revelado alterações significativas, nomeadamente a
sensibilidade (pré-teste M=4.84; DP=1.98; pós-teste M=8.79; DP=1.62) (z=-3.47;
p=.001), respostas ao descontentamento da criança (pré-teste M=5.79; DP=2.68;
pós-teste M=9.63; DP=1.89) (z=-3.27; p=.001) e estratégias de promoção do
desenvolvimento cognitivo (pré-teste M=7.21; DP=2.92; pós-teste M=12.00;
DP=1.67) (z=-3.63; p=.000) e sócio-emocional (pré-teste M=5.74; DP=2.13; pós-
teste M=8.53; DP=1.58) (z=-3.30; p=.001). Relativamente às acções da criança,
também se verificou um aumento global significativo (z=-3.39; p=.001) entre a
média das sub-escalas no pré-teste (M=12.11; DP=3.28) e no pós-teste (M=16.79;
DP=2.76), mais especificamente na clareza dos seus sinais (z=-3.14; p=.002) e
na sua responsividade ao adulto (z=-3.41; p=.001). Globalmente verificou-se um
aumento significativo (z=-3.62; p=.000) entre a média da qualidade da
interacção no pré-teste (M=35.68; DP=9.75) e no pós-teste (M=55.74; DP=7.18).
QUADRO_3
Médias e desvio padrão de qualidade de interacção obtidas pré e pós a aplicação
do programa
A avaliação do programa pelos pais
Da análise efectuada às entrevistas aos pais após a conclusão do programa,
salienta-se que foram unânimes a responder que gostaram de ter participado no
programa e que aconselhariam a participação no programa a amigos ou familiares
com crianças nesta faixa etária.
Analisando os aspectos positivos referidos, ressalta-se que quando os pais
foram questionados relativamente ao que mais gostaram no programa, o aspecto
que foi mais referido foi o facto de verem o filho a divertir-se enquanto fazia
actividades que promovem o seu desenvolvimento (26%), seguido pela avaliação
positiva que fazem das interacções que tiveram com os filhos, pois “faziam
coisas que estes mostravam gostar” (26%) e o facto dos filhos terem partilhado
“segredos” com eles (21%). No que concerne aos aspectos do programa que mais os
motivaram, ressaltaram a reacção dos filhos face às actividades que para eles
eram novidade (42%), os momentos de partilha com os filhos (26%) e terem tido a
oportunidade de perceber capacidades nos filhos que ainda lhes eram
desconhecidas (21%).
No que diz respeito aos benefícios que percepcionaram devido à sua participação
no programa, os pais referiram ter aprendido a brincar com os filhos,
utilizando actividades que os ajudavam a desenvolver, redução na agitação que
caracteriza os comportamentos de algumas das crianças na amostra (42%), o terem
ficado a perceber melhor os comportamentos dos filhos e a influência que têm
sobre os mesmos (37%), bem como o aumento no tempo de qualidade que passaram
com os filhos (32%).
Relativamente aos benefícios do programa para os filhos, os pais consideraram
que estes tiveram novas experiências/sensações (47%), se divertiram (37%) e
tiveram uma maior atenção da mãe/do pai como resultado do programa (32%). Os
motivos pelos quais referiram que aconselhariam outras pessoas a participar no
programa englobaram aspectos associados, na sua maioria, ao conhecimento que
ganhariam relativamente às necessidades e aos pensamentos dos filhos (68%),
sendo ainda destacada a “diversão” e consequente aumento na disponibilidade
para brincarem com os filhos (42%) e o apoio no que se refere à interpretação
dos comportamentos dos filhos e às estratégias para lidar com /gerir os mesmos
(42%).
Passando aos aspectos mais negativos referidos pelos pais na avaliação do
Programa, uma percentagem importante não referiu nenhum aspecto que tivesse
gostado menos no programa (47%). Houve, no entanto, alguns pais que referiram
não terem gostado “das actividades nas quais as crianças se sujavam”, como foi
o caso das actividades que envolveram a utilização de tintas ou de plasticina
(21%), tendo também havido a mesma percentagem de pais que referiram não ter
gostado “da parte do registo escrito” que lhe foi solicitada no programa (21%).
Mais de metade dos pais referiram nunca se terem sentido desconfortáveis
durante a aplicação do programa (53%). No entanto, nos que referiram
desconforto, o mesmo prendeu-se essencialmente com a primeira sessão, altura em
que se sentiram tímidos e inseguros por não saberem o que poderiam esperar do
Programa no qual iriam participar (37%). Nenhum dos pais referiu motivos pelos
quais pudesse desaconselhar a participação no programa a um amigo ou familiar
com filhos pequenos. Quando questionados relativamente aos aspectos que
alterariam no programa de forma a melhorá-lo, alguns referiram que fariam com
que as sessões tivessem continuidade durante mais tempo (32%), outros
alterariam a parte que envolveu o registo escrito (16%), ainda que uma grande
parte tivesse respondido que não alterava nada (47%).
CONCLUSÕES E DISCUSSÃO
Ainda que as intervenções pontuais iniciem um processo positivo entre o adulto
e a criança, o facto de não resultarem em efeitos a longo prazo (Britt &
Myers, 1994), supõe uma utilização continuada e uma intervenção mais intensiva
e não isolada.
Após análise inicial da situação das crianças da amostra, mais especificamente
no que se refere ao nível de negligência e de mau trato, conclui-se que as
mesmas se encontravam sobretudo sujeitas a um contexto de negligência ao nível
dos cuidados básicos, tanto ao nível físico como relacional, situação tanto
mais grave tendo em conta a idade precoce das crianças e a elevada dependência
que a mesma pressupõe. Esta negligência, mais acentuada no que se refere à
relação com as figuras de vinculação, já era esperada, tendo em conta tratar-se
de uma amostra recolhida no Sistema de Protecção de Crianças e Jovens,
precisamente a população para a qual o Programa “Desenvolver a Sorrir” foi
elaborado.
Este trabalho pretende descrever e contribuir para a validação do Programa
“Desenvolver a Sorrir” enquanto uma intervenção que seja eficaz nas interacções
precoces pais/filhos. Os resultados indicam melhorias em todos os aspectos que
influenciam o meio no qual as crianças se encontravam inseridas, mais
especificamente, na variedade da estimulação diária e nos materiais lúdicos
adequados e disponíveis para a criança, nos aspectos associados à organização
do ambiente físico e temporal da criança, bem como nos indicadores de maior
envolvimento e responsividade emocional e verbal dos pais para com os seus
filhos. A este respeito importa referir que todo o material básico à execução
das actividades propostas foi providenciado aos pais que participaram no
estudo, aspecto que possibilitou a evolução verificada em alguns dos níveis
referidos. No que concerne à interacção da díade, também se registaram
alterações significativas em todas as áreas observadas, tanto no comportamento
dos pais (sensibilidade aos sinais, resposta ao descontentamento e estratégias
para promover o desenvolvimento cognitivo e sócio-emocional), como na clareza
dos sinais da criança e na responsividade da mesma ao adulto.
Para além dos resultados já mencionados, importa ainda destacar as opiniões
verbalizadas pelos pais relativamente ao Programa. Este foi avaliado de forma
muito positiva por todos os pais que participaram. Os aspectos negativos
referidos parecem estar associados a algumas limitações do estudo e que importa
descrever, com vista a serem ultrapassadas em futuros estudos de validação do
Programa.
Todos os resultados obtidos na avaliação do programa “Desenvolver a Sorrir”
parecem encorajadores, apoiando a pertinência da implementação desta
intervenção junto da população para a qual foi concebida. Contudo, importa
reflectir sobre algumas questões, quer de carácter metodológico que possam ter
interferido com os resultados encontrados no estudo, quer relativas a aspectos
que sobressaíram no processo de avaliação de monitorização do programa.
A nível metodológico não foi possível constituir um grupo de controlo para
analisar os efeitos específicos do programa de intervenção em estudo,
eliminando a possibilidade dos resultados obtidos poderem estar a ser
influenciados por outros factores. Uma outra questão prende-se com o facto de a
observação da interacção das díades, efectuada com o NCAST Teaching Scale, não
ter sido realizada por dois observadores para garantir a validade das mesmas.
Para além disso, seria importante efectuar uma avaliação de follow-up após
alguns meses, para avaliar os efeitos do programa a longo prazo. Esta
necessidade prende-se não só com o facto de se prever, pela experiência
adquirida no trabalho em meio natural de vida, que os resultados obtidos possam
não ser mantidos no tempo, mas também porque a revisão de literatura que
analisa o impacto de programas de intervenção deste tipo, indica que as
intervenções pontuais iniciam um processo positivo entre o adulto e a criança
mas que poderão não resultar em efeitos a longo prazo (Britt & Myers,
1994).
Tendo isto em conta, e com base na avaliação de processo (monitorização do
programa), considera-se que a intervenção poderá ser mais eficaz, sobretudo
para facilitar a manutenção dos resultados obtidos a longo prazo, se a
aplicação do programa for prolongada no tempo, com as sessões organizadas de
forma a permitirem uma maior integração das experiências de interacção
possibilitadas pela intervenção. Assim, consideramos que cada sessão deveria
abordar apenas um dos doze segredos, resultando a organização do programa em 12
sessões de intervenção, em vez das seis que foram aplicadas no presente estudo.
Além disso, sugere-se a aplicação quinzenal de cada uma destas 12 sessões de
trabalho, sendo que as semanas alternadas seriam utilizadas para a
experimentação das actividades com a criança, garantindo a supervisão do
técnico para a adequação de expectativas e a identificação de resistências. O
programa teria a duração de cerca de 6 meses (24 semanas), período que
possibilitaria trabalhar e adequar aspectos nos quais surgiram resistências por
parte dos pais (actividades que provocam sujidade como as tintas, a plasticina,
o creme de barbear), assim como outros aspectos da dinâmica familiar,
igualmente importantes neste tipo de situações (e.g., circunstâncias sociais
desfavoráveis, relações conflituosas entre os pais, parentalidade precoce e
rejeição da gravidez (Sydsjo et al., 2001).
Relativamente à componente de registo escrito, que encontrou resistência por
parte da maioria dos pais, a organização acima proposta facilitaria este
aspecto visto que o aumento do tempo de proximidade permitiria trabalhar as
situações enquanto elas ocorriam em vez de tal ser feito através dos registos
elaborados.
Em conclusão, considera-se que as mudanças encontradas através da aplicação do
programa apresentado no estudo são bastante significativas. As limitações
encontradas no programa parecem estar sobretudo associadas ao período de tempo
planeado para o desenvolver. Neste sentido é desejável que estudos futuros
possam colmatar as fragilidades metodológicas do Programa e contribuir para
avaliar de forma consolidada as mudanças encontradas na qualidade das díades.
Desta forma poder-se-á generalizar a sua aplicação a populações de risco, pelos
técnicos que trabalham na comunidade, com o objectivo não só de contribuir para
a diminuição da lacuna que se verifica no acompanhamento efectuado em meio
natural de vida ao nível das interacções pais-filhos, mas sobretudo para
diminuir o potencial de negligência e/ou de mau trato dos pais para com a
criança. Não obstante o estudo desenvolvido apresentar um carácter
exploratório, o Programa “Desenvolver a Sorrir” parece revelar-se um importante
recurso na intervenção com famílias de risco sinalizadas no Sistema de
Protecção de Crianças, constituindo-se como um instrumento pertinente de
intervenção comunitária, podendo ser um instrumento de intervenção ao nível da
prevenção primária e secundária no que diz respeito ao desenvolvimento de
díades pais-filhos de qualidade.