Sentimento de comunidade, qualidade e satisfação de vida
INTRODUÇÃO
Com este artigo aprofundamos aspectos gerais, relacionados com as questões do
sentimento de comunidade e os seus principais contributos, nomeadamente a
qualidade e satisfação de vida, associados a contextos comunitários de
vizinhança, como um bairro residencial. Frequentemente é possível observar
comunidades cada vez mais coesas e organizadas para a resolução dos seus
próprios problemas. Esta mobilização dos cidadãos, nos processos de decisão a
favor da comunidade, contribui significativamente para o aumento do sentimento
de comunidade. Assim, quanto maior a integração e satisfação perante uma
comunidade, maiores serão os benefícios individuais e comunitários. A nível
individual, um maior sentimento de comunidade traduz-se em níveis mais elevados
de bem-estar, qualidade e satisfação de vida; sentido de justiça e capital
social; menor solidão e isolamento. A nível comunitário, identifica-se uma
maior colaboração e força comunitária, mobilização e participação em torno da
mudança social.
No nosso estudo procurámos perceber a relação existente entre o sentimento de
pertença e a satisfação e qualidade de vida, num grupo de jovens, de dois
bairros residenciais da cidade de Lisboa. Em termos práticos, foi realizada uma
investigação de carácter exploratório, com 15 participantes do Bairro do
Armador e 15 do Bairro de Alfama, dos 7 aos 15 anos de idade, todos eles,
destinatários de projectos locais de intervenção comunitária. Os resultados do
estudo corroboram a importância de um forte sentimento de pertença e de
identidade em relação ao bairro de residência para a satisfação e qualidade de
vida dos jovens. Deste modo, consideramos que o sentimento de comunidade
contribui positivamente para a promoção de programas comunitários essenciais ao
desenvolvimento de comunidades sustentáveis e saudáveis.
Do envolvimento comunitário ao sentimento de comunidade e à satisfação de vida
Segundo Ornelas “recentemente é possível observar em Portugal que as
comunidades estão cada vez mais a organizar-se para resolver os seus próprios
problemas, são disso exemplo, as mobilizações a que temos assistido em áreas
como: o ambiente, a segurança ou a vontade expressa de influenciar o
planeamento dos seus próprios bairros” (Ornelas, 1998, p. 5).
Esta mobilização e envolvimento em torno dos problemas comunitários numa
localidade específica contribuem, significativamente para o aumento do
sentimento de comunidade e identidade lugar. Falar em sentimento de comunidade
está “relacionado com o facto de se pertencer a um grupo ou comunidade, no qual
as pessoas se consideram elas próprias como similares, agindo de forma
interdependente para a satisfação das suas necessidades” (Prezza &
Constantini, 1998, p. 181).
A esta mobilização e envolvimento dos cidadãos nos processos de decisão a favor
da comunidade denominamos por participação comunitária. A participação
comunitária não se resume apenas a um suporte ou ajuda entre membros de um
determinado grupo, envolve também o seu contributo efectivo nas decisões com
impacto na mudança social. Este tipo de participação pode acontecer através de
formas muito diversificadas e incidir em áreas como a qualidade de vida nos
bairros, as questões ambientais, as questões de segurança e a prevenção da
violência interpessoal (Dalton, Elias, & Wandersman, 2001).
Comunidade e sentimento de comunidade
A maior parte das pessoas compreende intuitivamente o significado de sentimento
de comunidade. No entanto, esta é uma ideia complexa, composta por vários
elementos e, longe de ser um conceito ultrapassado, o sentimento psicológico de
comunidade ou simplesmente sentimento de comunidade, é um conceito sócio-
psicológico que dá ênfase à experiência da comunidade, ou seja, percepciona e
compreende atitudes e sentimentos de uma comunidade, bem como, o relacionamento
e interacções entre pessoas desse mesmo contexto.
Sarason (o pai do sentimento de comunidade), em 1974, descreveu o sentimento
psicológico de comunidade como, “o sentimento de que fazemos parte de uma rede
de relacionamento de suporte mútuo, sempre disponível e da qual podemos
depender” (Sarason, 1974, p. 1). O sentimento de comunidade transcende o
individualismo e mantém-se na interdependência do relacionamento com os outros
e nas expectativas que temos deles” (Pretty, Andrewes, & Collet, 1994, p.
347).
Para McMillan e Chavis, o sentimento de comunidade baseia-se em quatro
elementos essenciais que definem as qualidades específicas do conceito. Estes
elementos são: fazer parte de; influência; integração e satisfação das
necessidadese partilha de ligações emocionais,que são definidos como sendo “o
sentimento que os membros têm de pertença, o sentimento que os membros importam
para um outro membro e para o grupo, e a convicção de que as necessidades dos
membros serão alcançadas através de um compromisso de união” (McMillan &
Chavis, 1986, p. 9).
Segundo Gusfield (1975), as comunidades das sociedades modernas desenvolvem-se
positivamente pelos interesses e pelos territórios partilhados. Se existir um
elevado sentimento de comunidade é mais provável que as pessoas se mobilizem,
no sentido de participarem nas soluções dos seus próprios problemas. O
sentimento de comunidade promove para um maior sentimento de identificação e
uma maior autoconfiança, facilita as relações sociais, combate a solidão e o
anonimato (Prezza & Constantini, 1998), contribuindo para o aumento da
qualidade de vida e bem-estar individual.
Sentimento de comunidade, qualidade e satisfação de vida
As investigações realizadas mostram que um forte sentimento de comunidade
reflecte um maior sentimento de protecção e segurança nos bairros ou grupos,
através de uma maior adesão a actos eleitorais, uma maior preocupação nas
questões ambientais, mais colaboração e inter-ajuda e mais voluntariado
(Cantillon, Davidson, & Schweitzer, 2003; Chavis & Wandersman, 1990;
Davidson & Cotter, 1989; Zani, Cicognani, & Albanesi, 2001, citados por
Pretty, Conroy, Dugay, Fowler, & Williams, 1996, p. 368). A academia também
deu a conhecer, que um forte sentimento de comunidade está associado a um baixo
índice de doenças mentais, suicídios, abusos sexuais de crianças, diminuição da
criminalidade, melhor qualidade ambiental nos bairros e fortalecimento das
pessoas (Chipuer & Pretty, 1999; Glynn, 1981; Pretty, Andrews, &
Collett, 1994; Prezza & Constantini, 1998; Roach & O’Brien, 1982,
citados por Pretty, Conroy, Dugay, Fowler, & Williams, 1996, p. 368).
Segundo Amaro (2007), o sentimento de comunidade ajuda as organizações e
instituições a identificar as necessidades e a estabelecer prioridades nas
comunidades; avaliar a saúde global das comunidades; valorizar os bairros
individualmente e a cidade como um todo; desenhar e avaliar intervenções
sociais, económicas e de promoção da saúde; planear novas comunidades e
fortalecer as existentes. O sentimento de comunidade está no centro de todos os
esforços para fortalecer e construir uma comunidade, nascendo de um propósito
colectivo que valoriza a diversidade cultural, bem como a singularidade
(Sarason, 1974).
O relatório Europeu da Fundação para Melhorar a Vida e as Condições de Trabalho
de 2006 contribui para a compreensão, entre outros aspectos, de como a
satisfação de vida e o sentimento de pertença e identificação são conceitos e
realidades que se interligam e que são imprescindíveis para um entendimento de
um bem-estar subjectivo inerente à satisfação e qualidade de vida. O bem-estar
subjectivo engloba três dimensões importantes: a satisfação global de vida; a
felicidade e o sentimento de pertença.
O modelo geralmente aceite do subjectivo bem-estar refere que a sua
conceptualização diz respeito a uma componente afectiva (isto é, emoções
positivas e negativas) e a uma componente cognitiva com a satisfação de vida
(Diener, Emmons, Larsen, & Griffin, 1985). A satisfação de vida é
directamente influenciada pelas suas componentes e largamente definida por
referências específicas e dominantes da vida, como a família, os amigos, o
próprio, os vizinhos, o trabalho, a escola e o ambiente envolvente (Diener et
al., 1985).
O modelo multidimensional de satisfação de vida não se foca apenas numa
avaliação global ou geral da satisfação de vida, mas na derivação de perfis de
satisfação de vida, julgados em domínios chave da vida. Por exemplo, Huebner
(2004) propôs uma hierarquia no modelo de satisfação vida com cinco domínios
específicos, tais como: escola, família, amigos, próprio e ambiente envolvente,
que incluem um factor geral da satisfação de vida.
São poucos os estudos que averiguam a relação existente entre o sentimento de
comunidade e a qualidade e satisfação de vida percebida de forma subjectiva.
Contudo, Pretty, Andrews, e Collet (1994) realizaram uma investigação com um
grupo de adolescentes, demonstrando que a ausência do sentimento de comunidade
num bairro leva à solidão e ao isolamento, quando retirada a influência da
comunidade gerada pela escola e pela vizinhança (Prezza & Constantini,
1998).
Os estudos de Prezza e Constantini (1998) indicaram que o sentimento de
comunidade era maior numa pequena localidade comparativamente com uma grande
cidade, onde o sentimento de pertença era sentido de forma menos intensa,
verificando-se assim que o sentimento de comunidade está relacionado com a
qualidade das relações sociais e com a percepção do suporte social recebido
(Prezza & Constantini, 1998). Deste modo, quanto maior o suporte social
recebido, maior é a qualidade das relações sociais, a auto-estima, a satisfação
de vida e, consequentemente, maior é o sentimento de comunidade.
Mais tarde, Prezza, Amici, Roberti, e Tedeschi (2001) desenvolveram estudos
onde é possível verificar a relação entre o sentimento de comunidade quer com
as relações de vizinhança, quer com a satisfação de vida, bem como a relação
existente entre a ausência do sentimento de comunidade e a solidão e o
isolamento. Contudo, as ligações encontradas entre o sentimento de comunidade e
a satisfação de vida são mais evidentes em pequenos contextos territoriais e
comunitários. Em contextos de maiores dimensões, esta relação não se confirma.
Ao contrário das expectativas dos autores, em contextos territoriais e
comunitários de maiores dimensões, o sentimento de comunidade está mais
relacionado com as relações de vizinhança do que com a satisfação de vida e
inversamente com o isolamento e a solidão. No entanto, os autores defendem que
na medida em que as relações sociais de vizinhança contribuem para um maior
sentimento de comunidade e para prevenir a solidão e o isolamento, podem
promover, desta forma, a satisfação de vida (Prezza, Amici, Roberti, &
Tesdeschi, 2001). Deste modo, em contextos de maiores dimensões, o sentimento
de comunidade pode ser controlado por outras e varáveis, como o suporte social
e as redes de suporte social (Prezza, Amici, Roberti, & Tesdeschi, 2001).
Outros estudos, desenvolvidas por vários autores, demonstram que o sentimento
de comunidade pode revelar-se de várias formas, seja através da participação
comunitária activa (Davidson & Cotter, 1991), seja através do bem-estar e
da qualidade de vida subjectivos (Davidson & Cotter, 1991; Pretty,
Andrewes, & Collett, 1994; Pretty, Conroy, Dugay, Fowler, & Williams,
1996; Prezza & Constantini, 1998). Contudo, qualquer um destes estudos
suporta a possibilidade, de considerar que o sentimento de comunidade funciona
como um indicador subjectivo de qualidade de vida.
No nosso estudo foi pertinente averiguar a relação existente entre a percepção
do sentimento de comunidade numa determinada comunidade de residência e o nível
percebido de satisfação global de vida em crianças e jovens, nos mais diversos
domínios, tais como: amigos; família; vizinhos; próprio e escola.
METODOLOGIA
Foi seleccionada para o estudo uma amostragem por conveniência com 30
participantes dos 7 aos 15 anos de idade, sendo 16 pertencentes ao sexo
feminino e 14 ao sexo masculino. Do total da amostra, 15 dos participantes
residem no Bairro do Armador e participam no Projecto de Inclusão Social de
Crianças e Jovens do Armador(PISCJA), do Bairro do Armador. Os outros 15
participantes residem no Bairro de Alfama e integram o Projecto Recrear, Olhar,
Descobrir e Acolher(RODA), da Associação de Tempos Livres de Alfama (ATLA).
Os Bairros do Armador e de Alfama, situados nas freguesias de Marvila e de
Santo Estêvão respectivamente, estão ambos localizados na cidade de Lisboa, o
primeiro na zona central de Lisboa, em Chelas e o segundo, no sudeste da
capital.
O instrumento adoptado para a recolha de dados resultou de uma compilação de
duas escalas. Uma, tendo por base a Escala Multidimensional de Satisfação de
Vida das Crianças (MSLSS) (Huebner, 2004), que permite avaliar o nível de
percepção de satisfação de vida nas crianças e jovens através de cinco domínios
importantes da vida das crianças e jovens: família; amigos; próprio; escolae
ambiente envolvente(subescalas de análise). A conceptualização desta escala
providencia uma análise multidimensional das crianças e jovens no que diz
respeito à satisfação de vida, contribuindo para intervenções específicas que
promovam o bem-estar positivo dos participantes. Este instrumento é constituído
por 40 itens ou afirmações referentes à percepção global de satisfação de vida.
As quarenta afirmações encontram-se aleatoriamente distribuídas pelos cinco
domínios já referidos da percepção de satisfação de vida.
A outra escala que compõem o nosso instrumento de investigação é o Índice de
Sentimento de Comunidade (SCI), desenvolvido por McMillan e Chavis (1986). Esta
escala tem como objectivo a medição e avaliação do sentimento de comunidade
através dos seguintes elementos: fazer parte de; influência; integraçãoe
satisfação das necessidades; e partilha de ligações emocionais. A escala é
composta por 12 itens ou afirmações, referentes ao sentimento de comunidade de
um bairro de residência ou de um grupo comunitário. As doze afirmações
encontram-se subdivididas em quatro subescalas que integram os quatros
elementos integrantes do sentimento de comunidade.
O resultado final foi um instrumento de avaliação com 52 itens, as primeiras 40
questões sobre a satisfação e qualidade de vida e as últimas 12 sobre o
sentimento de comunidade percepcionado pelos nossos participantes, que
responderam de acordo com uma escala de likertcom cinco opções de resposta
fechada. Referimos, ainda, que o instrumento de investigação sofreu algumas
alterações após a realização de um pré-teste num grupo de crianças de N=5 dos 7
aos 12 anos de idade. Com este pré-teste foi possível verificar que nas
questões com a mesma cor, de acordo com as categorias em análise, os
participantes tendiam a responder de forma igual, copiando o resultado da
questão anterior da mesma cor. Deste modo, o instrumento adoptado para a
investigação foi administrado nos tons neutros de preto e branco e também
sofreu algumas correcções ao nível do vocabulário, tornando-se num texto de
fácil compreensão para o escalão etário dos participantes, crianças e
adolescentes, dos 7 aos 15 anos de idade. Optámos também pela substituição da
escala de likerttradicional, com opções entre o 1 (não concordo totalmente) e o
5 (concordo totalmente), por smilestotalmente fechados, fechados, sem
expressão, abertos e totalmente abertos, com a possibilidade para pintar a
opção desejada.
O modo de administração do questionário foi variável, consoante a idade do
participante e, consequentemente, a sua capacidade para ler e compreender cada
questão, e responder o mais perto da realidade vivenciada, através do
preenchimento individualizado do mesmo, com ou sem ajuda da facilitadora.
Assim, quando o participante sabia ler e escrever, a forma utilizada foi o
auto-preenchimento do questionário fechado, sem a intervenção da investigadora,
embora pudesse recorrer à sua ajuda caso necessitasse de algum tipo de
esclarecimentos. Este tipo de procedimento implicava que a aplicação do
questionário fosse operacionalizada num grupo pequeno, com os participantes
ligeiramente afastados entre si. Por outro lado, caso a criança ou jovem não
soubesse ler, escrever e/ou entender as questões, a forma de inquirir era a
entrevista semi-directiva, onde a facilitadora lia as questões ao participante
e este pintava a opção para a resposta desejada. Para este tipo de procedimento
a aplicação do questionário foi realizada individualmente.
Nesta fase de recolha e levantamento de dados, os técnicos responsáveis pelos
projectos PISCJAe RODAfacilitaram o processo, aplicando eles próprios os
questionários às crianças e jovens com quem estão diariamente. Nestes casos, a
recolha e levantamento de informação correspondem a uma metodologia não-
directiva. A administração do instrumento, no caso das crianças e jovens do
Bairro do Armador, foi realizada numa sala da Biblioteca Sophia de Mello
Breyner Andersen e, no caso das crianças e jovens do Bairro de Alfama, foi
realizada nas instalações da Associação de Tempos Livres de Alfama.
Relativamente ao modo de administração do nosso instrumento de estudo, foi
evidente ao longo de toda a investigação, a existência de uma boa relação
pessoal entre a investigadora e os participantes, acreditando firmemente nos
benefícios de uma investigação participativa e colaborativa, sem barreiras
institucionais entre a facilitadora e os colaboradores do estudo. A
investigação e a metodologia utilizada, para além de permitir o conhecimento
teórico nesta área com esta população, transmitiu às crianças e jovens
envolvidos a adequação possível entre a pedagogia e o lúdico e a importância de
abordar aspectos relevantes para os próprios. A grande maioria dos nossos
participantes nunca tinha participado num estudo ou investigação, onde fossem
eles os agentes primordiais e centrais de uma investigação colaborativa e onde
lhes fosse permitido expressar livremente as opiniões e vontades, sem pressões
e julgamentos. Para os resultados encontrados também foi importante, a empatia
da investigadora com os participantes, na medida em que o instrumento era
demasiado longo, o que dificultava a concentração até ao fim.
RESULTADOS
Expõe-se, em seguida, uma síntese dos resultados. Começamos por apresentar a
análise descritiva dos dados demográficos dos participantes por bairro, para
ter em consideração as características da amostra em estudo. Seguidamente,
apresentamos a análise inferencial da principal questão de investigação.
Como já foi referido, 15 dos participantes da nossa amostra pertencem ao Bairro
do Armador e outros 15 ao Bairro de Alfama, perfazendo um total de 30 crianças
e jovens, dos 7 aos 15 anos de idade. No que diz respeito ao género dos 30
participantes, as frequências estão mais ou menos equilibradas, sendo que 53.3%
(16) pertencem ao sexo feminino e os restantes 46.7% (14) pertencem ao sexo
masculino. No Bairro do Armador (N=15) a maioria dos participantes, cerca de
73.3% (11) pertencem ao sexo feminino e os outros 26.7% (4) são do sexo
masculino. No Bairro de Alfama cerca de 66.7% (10) são do sexo masculino e os
restantes 33.3% (5) pertencem ao sexo feminino.
Relativamente ao escalão etário dos 30 participantes, a grande maioria, cerca
de 40% (12), situa-se entre os 10 e aos 12 anos de idade, cerca de 36.7% (11)
representam os participantes entre os 7 e os 9 anos, sendo que os restantes
23.3% (7) representam o escalão etário dos mais velhos, dos 13 aos 15 anos de
idade. No Bairro do Armador a maioria das idades dos participantes, cerca de
46.7% (7), situa-se entre os 10 e os 12 anos de idade. No Bairro de Alfama, a
maioria das idades dos participantes, 60% (9), situa-se no escalão etário dos
mais novos, entre os 7 e os 9 anos de idade (ver Gráfico 1).
GRÁFICO 1
Dados demográficos relativos ao escalão etário da amostra
Em relação ao nível de escolaridade dos participantes dos dois bairros, cerca
de 56.7% (17) das crianças frequentam o 1º ciclo, 36.7% (11) dos jovens estão
matriculados no 2º ciclo e só apenas 6.7% (2) frequentam o 3º ciclo. No Bairro
do Armador, por ser uma amostra composta por participantes mais velhos, 47% dos
participantes frequentam o 2º ciclo, 40% o 1º ciclo e os restante 13% o 3º
ciclo. No Bairro de Alfama, por ser uma amostra mais jovem, a maioria dos
participantes, cerca de 73% andam no 1º ciclo e os outros restantes 27% no 2º
ciclo.
A constituição do agregado familiar dos 30 participantes é variável. A grande
maioria das crianças e jovens, 33.3% (10), residem com os pais e irmãos, 23.3%
(7) estão inseridos em famílias monoparentais, residindo apenas com a mãe e
irmãos, e cerca de 16.7% (5) residem apenas com os pais, sendo filhos únicos.
Em relação ao Bairro do Armador, cerca de 26.7% (4) residem só com os pais,
outros 26.7% (4) residem em famílias monoparentais, só com a mãe e irmãos. No
que diz respeito ao Bairro de Alfama, a maioria dos participantes, 53.3% (8),
residem com os pais e os irmãos, cerca de 20% (3) residem apenas com a mãe e os
irmãos. Os restantes participantes, em ambos os bairros, residem com os pais,
irmãos e avós ou só com os pais ou só com os avós (ver Gráfico 2).
GRÁFICO 2
Dados demográficos relativamente ao agregado familiar da amostra
Feita a caracterização da nossa amostra, iremos proceder à análise descritiva
das categorias que compõem a escala de satisfação de vida (família; amigos;
próprio; escola e ambiente envolvente) e das categorias da escala de sentimento
de comunidade (fazer parte de; influência; integração e satisfação das
necessidades e partilha de ligações emocionais), em separado por categorias e
por bairro, identificando desta forma características importantes para o nosso
estudo.
Importa referir que designaremos por B1 o Bairro do Armador e por B2 o Bairro
de Alfama. Relativamente às questões que compõem o questionário, algumas
assumem uma conotação positiva e outras uma compreensão negativa para a vida do
sujeito, as quais designaremos por questões positivas e negativas.
A categoria Amigosé composta pelas questões “os meus amigos são simpáticos
comigo”, “os meus amigos são bons”, “os meus amigos ajudam-me quando preciso”,
“os meus amigos tratam-me bem” e os “meus amigos significam muito para mim”. Em
relação a esta categoria, o Bairro do Armador apresenta homogeneidade nas
respostas para a maioria das questões. A grande maioria dos participantes
responderam entre as opções mais cotadas que, neste caso, são representadas
pelas opções “concordo” e “concordo muito”. Ainda nesta categoria, existem
perguntas com alguns outliers, ou seja, que respondem à pergunta não de acordo
com o padrão de resposta verificado (ver Gráfico 3). No Bairro de Alfama esta
categoria apresenta uma grande satisfação ao nível dos amigos, pois os
participantes respondem sempre positivamente às afirmações. Relativamente à
qualidade do tempo que passam com os seus amigos, as opiniões divergem entre o
“concordo” e o “discordo”, o que demonstra uma grande percepção da realidade do
contexto que vivem com os seus amigos. Mas no que se refere à diversão com os
amigos e à quantidade dos amigos, quase todos os participantes concordam
totalmente que se divertem muito com os seus amigos e que têm bastantes amigos
(ver Gráfico 4).
GRÁFICO_3
Categoria Amigos do Bairro do Armador
GRÁFICO_4
Categoria Amigos, do Bairro de Alfama
A categoria Família, no Bairro do Armador, é a que apresenta mais homogeneidade
de respostas para todas as questões, ou seja, para todas as perguntas relativas
à família a grande maioria dos participantes respondeu entre as opções
“concordo” e “concordo muito”. Para os jovens dos 10 aos 15 anos de idade, que
representam a grande maioria dos participantes neste bairro, esta homogeneidade
de resposta parece-nos uma realidade positiva, numa fase em que os jovens
querem conquistar a sua independência em relação às suas próprias famílias. Em
relação ao Bairro de Alfama, a categoria Famíliatambém apresenta um grande
nível de satisfação por parte deste grupo, o que seria de esperar num grupo
maioritariamente constituído por crianças até aos 9 anos de idade, onde se
verifica ainda uma grande ligação emocional à família. Assim, nas questões “eu
gosto de passar tempo com os meus pais”, “eu gosto de estar em casa com a minha
família”, “os meus pais tratam-me bem” e “os meus pais eu fazemos coisas
divertidas em conjunto” todos os inquiridos concordam totalmente com as
afirmações apresentadas. Importa ainda referir que para a questão “a minha
família é a melhor de todas” os sujeitos na sua maioria concordam
favoravelmente com a afirmação, excepto o sujeito número 12 que discorda
totalmente.
A categoria Escola,no Bairro do Armador, não apresenta grandes irregularidades
nas respostas apresentadas. Os participantes concordam e concordam muito que a
escola é interessante, que aprendem muito na escola e que, inclusivamente,
gostam das actividades escolares, algo bastante positivo de verificar em
crianças/jovens dos 10 aos 15 anos de idade. No Bairro de Alfama, na categoria
Escola, verificamos que as questões elaboradas numa perspectiva positiva, como
“eu aprendo muito na escola”, “eu olho à volta quando vou para a escola”, “eu
gosto de estar na escola”, “a escola é interessante” e “eu gosto das
actividades escolares”, apresentam como tendência de resposta uma grande
satisfação ao nível da escola. No que diz respeito às questões formuladas numa
perspectiva negativa, analisaremos em separado. Assim, para as questões “eu
sinto-me mal na escola” e “existem muitas coisas na escola que eu não gosto” as
respostas divergem entre o “concordo” e o “discordo”, ou seja, nem todos os
participantes entrevistados se sentem bem na escola e nem todos gostam das
coisas que existem na escola. Finalmente, para a última questão formulada na
negativa (“eu desejo não ir à escola”), a grande maioria dos participantes
discordam, o que quer dizer que quase todos os participantes desejam frequentar
a escola, o que seria de esperar, uma vez que é na escola que as crianças e
jovens têm os seus amigos para conviverem, mesmo que não gostem da componente
pedagógica da escola, gostam do lado mais lúdico e relacional da escola.
No Bairro do Armador, a categoria Ambiente Envolvente, surge com uma grande
percentagem de participantes que concordam e concordam muito, quando
questionados se gostam de viver no bairro, tanto pelas coisas interessantes que
podem fazer como também pelas pessoas importantes que lá residem.
Relativamente, as questões de reforço, ou seja, que questionam o mesmo, mas de
forma diferente, estas deveriam apresentar semelhante tipologia gráfica. No
entanto, nas questões “eu gosto da minha vizinhança” e “eu gosto dos meus
vizinhos” as respostas não apresentam grande concordância como podemos
verificar, o que nos leva a concluir que os participantes tiveram alguma
dificuldade em compreender, por exemplo, o significado de vizinhança, o que foi
demonstrado verbalmente por alguns dos sujeitos. Outro aspecto interessante de
registar é o facto da maioria dos participantes afirmarem que gostam da sua
vizinhança, mas também gostariam de morar noutro lugar, o que nos leva a
concluir que, apesar das relações entre vizinhos serem boas, gostariam de
habitar noutro espaço físico. No entanto, a grande maioria dos sujeitos na
questão “a casa da minha família é agradável” respondem que concordam com a
afirmação, registando-se apenas alguns outliersque discordam totalmente.
Analisando esta mesma categoria, Ambiente Envolvente, no Bairro de Alfama,
verificamos que existe muita concordância em questões similares, como “eu gosto
da minha vizinhança” e “eu gosto dos meus vizinhos”, onde os participantes
concordam totalmente com a afirmação. Para as questões “existem muitas coisas
interessantes para fazer onde eu moro”, “neste bairro existem pessoas
importantes” e “a casa da minha família é agradável” os resultados são
idênticos, estando os sujeitos tendencialmente satisfeitos nestes itens. Para
terminar, na questão que avalia no geral o gostar de viver no bairro, quase
todas as crianças e jovens que compõem a amostra concordam totalmente que
gostam de viver no bairro em questão.
A categoria Próprio, para o Bairro do Armador, é a única categoria formada
apenas por questões na positiva e com uma conotação favorável, sendo a que
apresenta mais homogeneidade nas respostas. No Bairrode Alfama, nesta categoria
verificamos que praticamente todos os sujeitos concordam com as afirmações a
este nível, o que nos leva a concluir uma elevada satisfação na componente que
diz respeito ao foro íntimo e próprio de cada participante.
Em relação à categoria fazer parte de, da escala de Sentimento de Comunidade, o
Bairro do Armador não evidencia grandes oscilações de resposta para a primeira
e segunda pergunta que compõem a categoria. Relativamente à questão “são poucos
os meus vizinhos que me conhecem” os participantes dividem-se entre a opção
“concordo” e “discordo”. Nesta categoria, no Bairro de Alfama, os participantes
consideram que conhecem a maioria das pessoas que vivem no bairro mas, por
outro lado, afirmam que são poucos os vizinhos que os conhecem a eles. Na
questão “eu sinto-me em casa neste bairro” quase todos os sujeitos afirmam que
concordam totalmente.
No Bairro do Armador, na categoria de influência, os participantes não
consideram-se grandes agentes com influência no bairro, nunca demonstrando uma
concordância total nas questões elaboradas para avaliar o grau de influência.
Desta forma, analisa-se que a grande maioria dos sujeitos “discordam” e
“discordam totalmente” em relação ao poder e influência que os participantes
sentem sobre a realidade do bairro. Já em relação ao Bairro de Alfama, nesta
componente de influência sobre o bairro as opiniões dividem-se, com metade dos
participantes a concordar totalmente com as afirmações e a outra metade a
discordar. A última afirmação que refere “eu preocupo-me com o que os meus
vizinhos pensam acerca das minhas atitudes”, constatamos que as opiniões
divergem entre o “concordo totalmente” ao “discordo totalmente”, o que seria de
esperar neste grupo etário tão novo, onde as crianças e os jovens que ainda não
se preocupam com o que os outros pensam acerca do que fazem.
Para a categoria integração e satisfação das necessidades, no Bairro do
Armador, verificamos uma divergência significativa nas questões apresentadas. A
grande maioria dos participantes para a questão “eu penso que o meu bairro é um
bom sítio para viver” afirmam que “concordam” e “concordam muito”, no entanto
para a pergunta “as pessoas neste bairro não têm as mesmas atitudes” grande
parte dos sujeitos referem que “concordam” e “concordam totalmente” com a
afirmação. Relativamente, “aos meus vizinhos e eu queremos as mesmas coisas do
bairro” os inquiridos dividem-se entre o “concordo” e o “discordo”. Para esta
mesma categoria no Bairro de Alfama, temos grande parte dos sujeitos que
concordam que “o bairro é um bom sítio para viver” o que demonstra uma grande
satisfação e integração no bairro de residência. Para a questão “os meus
vizinhos e eu queremos as mesmas coisas do bairro”, também temos que a grande
maioria dos participantes a concordarem com a afirmação. Para finalizar e em
relação ao item “as pessoas neste bairro não têm as mesmas atitudes”
verificamos também que as respostas divergem entre a opção “concordo” e a opção
“discordo”, o que demonstra que nem todos os sujeitos consideram que as pessoas
no bairro tenham as mesmas atitudes.
A última categoria em análise da escala Sentimento de Comunidade diz respeito à
partilha de ligações emocionais. No Bairro do Armador verificamos concordância
em duas das questões que caracterizam a categoria e que se cruzam no seu
significado. Assim, em relação aos items “é muito importante viver neste
bairro” e “espero viver neste bairro por muito tempo” os sujeitos, na sua
maioria, afirmam que “concordam” e “concordam totalmente” com as afirmações.
Contudo, apesar de sentirem uma ligação emocional muito forte em relação ao
bairro, todos os sujeitos do grupo afirmam que, por vezes, as pessoas no bairro
não se dão umas com as outras, ou seja, ocasionalmente têm algumas divergências
entre si, mas que isso não impede a forte ligação emocional por parte das
crianças e jovens entrevistados no que diz respeito ao bairro onde vivem. No
Bairro de Alfama, nesta categoria, registamos que a grande maioria dos
participantes concorda com as afirmações, o que demonstra uma forte ligação
emocional ao bairro. Em relação à afirmação “as pessoas neste bairro, às vezes
não se dão umas com as outras” as opções dividem-se, ou seja, metade dos
participantes considera que as pessoas do bairro por vezes não se relacionam
bem umas com as outras e outros sujeitos pensam que não, todos os residentes no
bairro se relacionam bem.
Para terminar a nossa apresentação dos resultados e respondendo à nossa questão
principal de investigação, onde pretendíamos verificar a relação positiva e
direccional entre o sentimento de comunidade e a satisfação de vida,
comprovámos, através do coeficiente de correlação de Pearson, que o nível de
correlação entre as duas variáveis em estudo é relativamente forte (ver Quadro
1).
QUADRO_1
Coeficiente correlação Pearson para as variáveis Satisfação de Vida e
Sentimento de Comunidade
Este coeficiente de correlação permite avaliar a magnitude ou direcção da
associação existente entre duas variáveis em estudo, quando estas assumem um
nível de mensuração pelo menos ordinal. Isto significa que um aumento de
magnitude, de uma das variáveis está directamente associado a um aumento linear
da outra variável, ou seja, o aumento significativo da variável independente
sentimento de comunidade pressupõe também um aumento do nível da variável
dependente satisfação de vida.
Visto o quadro em cima, verificamos que o nível de correlação entre as duas
variáveis em estudo, é relativamente forte, uma vez que, é superior ao valor
zero e ligeiramente superior a 0.5. Isto significa que um aumento de magnitude
de uma das variáveis tem associado um aumento linear da outra variável, ou
seja, o aumento significativo da variável sentimento de comunidade pressupõe
também um aumento do nível da variável satisfação de vida, o vice-versa também
é válido.
Também verificamos que existem diferenças relevantes entre estas variáveis nos
dois grupos. Ou seja, no bairro considerado mais histórico, antigo e típico de
Lisboa, como o Bairro de Alfama, onde estão presentes ligações mais fortes de
vizinhança e ligações de identificação com a comunidade de residência, existe
um maior grau de sentimento de pertença e de identidade com o bairro e,
consequentemente, visto ser proporcional, um maior nível de satisfação e
qualidade de vida. No Bairro do Armador, um bairro de realojamento social
relativamente recente, ainda se encontram em fase de construção e
intensificação as relações socais de vizinhança e a identificação ao lugar de
residência.
REFLEXÕES E CONCLUSÕES
Para a presente investigação, optámos por escolher como objecto de análise o
sentimento de comunidade, um dos valores da Psicologia Comunitária, porque este
conceito tem assumido um papel central no campo da Psicologia Comunitária, nos
últimos anos. Este refere-se à qualidade do intercâmbio pessoal (relacionamento
interpessoal) em prol de contextos saudáveis e sustentáveis a níveis pessoais e
comunitários (Davidson & Cotter, 1991). Contudo, a relação existente entre
o sentimento de comunidade e a satisfação e qualidade de vida é pouco explorada
teoricamente e poucos estudos publicados existem nesta área. Com este estudo
pretendemos dar resposta à questão principal de investigação, relacionada com a
existência de uma ligação forte e direccional entre o sentimento de comunidade
e a satisfação e qualidade de vida.
No grupo de jovens participantes, residentes de dois bairros da cidade de
Lisboa (Armador e Alfama), foi possível encontrar uma correlação significativa
entre o sentimento de comunidade e a satisfação e qualidade de vida,
garantindo, desta forma, a consistência interna da experiência do terreno e da
teoria da academia.
Quanto maior for a intensidade dos elementos que identificam e definem as
qualidades específicas do sentimento de comunidade, como: fazer parte de,
influência, integração e satisfação das necessidadese partilha de ligações
emocionaisem relação a uma comunidade de residência, maior serão os benefícios
quer a nível individual, quer a nível comunitário. Para os indivíduos, o
benefício resultante do sentimento de comunidade providencia índices
subjectivos de qualidade e satisfação de vida, como podemos verificar com
o nosso grupo de participantes. O facto de as pessoas apresentarem maior
sentimento comunidade para com um grupo e/ou um bairro, reflecte-se num maior
sentimento de pertença, num maior sentimento de controlo e influência sobre o
grupo, possibilitando, deste modo, uma satisfação real das necessidades tendo
em conta as capacidades do grupo e a história em comum, possibilitando também
uma ligação emocional e um investimento face ao grupo (Davidson & Cotter,
1991).
A investigação realizada nesta área tem evidenciado que quanto maior for a
intensidade do sentimento de comunidade, maior serão os benefícios a nível
individual e a nível comunitário. A nível individual, um maior sentimento de
comunidade reflecte-se no aumento do bem-estar individual (Dalton & Elias,
2001), da qualidade e satisfação de vida individual (Dalton & Elias, 2001),
do sentido de justiça social (Dalton & Elias, 2001), da saúde mental
(Davidson & Cotter, 1991), do capital social (Tennent, Farrell, &
Tayler, 2005), num maior sentimento de identificação e de autoconfiança (Prezza
& Constantini, 1998), maiores níveis de participação comunitária (Dalton
& Elias, 2001) e menor sentimento de solidão (Prezza, Amici, Roberti, &
Tesdeschi, 2001). A nível colectivo, os resultados da investigação apontam para
que a relação entre o sentimento de comunidade e uma: maior colaboração e força
comunitária (Dalton & Elias, 2001); maior mobilização da comunidade para as
soluções dos seus problemas comuns (Prezza & Constantini, 1998) e maior
construção do sentido de comunidade.
A melhoria da qualidade e satisfação de vida percepcionada através do
sentimento de pertença a uma comunidade é directamente influenciada, por
componentes específicas e dominantes da vida, como a família, os amigos, a
escola, o próprio, os vizinhose o bairro. No Bairro de Alfama, onde verificamos
um maior sentimento de pertença ao bairro, também constatamos um maior nível de
qualidade e satisfação de vida, comparativamente com o Bairro do Armador, o que
demonstra a importância do ambiente envolvente na vida das pessoas.
Para os indivíduos, numa primeira instância, e para a comunidade, os níveis de
qualidade e satisfação de vida funcionam como experiências e recursos positivos
para proteger a saúde biopsicossocial. A participação activa na comunidade, o
envolvimento efectivo em organizações políticas e a mobilização comunitária em
torno dos problemas sociais, afastam por completo níveis baixos de satisfação
de vida, os quais estão mais relacionados com situações de depressão, rejeição
pessoal, solidão, comportamentos agressivos, consumo de álcool e abuso de
substâncias químicas.
Os fenómenos resultantes do envolvimento cívico e da participação comunitária
na comunidade de residência, para além de permitirem um real entendimento da
noção de comunidade, resultam num excelente mecanismo para a resolução dos
problemas comunitários, para a emergência do sentimento de pertença e para o
desenvolvimento de um maior nível de coesão e bem-estar dos seus membros no
decurso dos processos de mudança (Ornelas, 1998).
“O Sentimento de comunidade e de pertença em relação a uma vizinhança, a
preocupação demonstrada pelos outros e o acreditar que alguém se preocupa com o
(a) próprio(a) são atitudes cruciais que podem apoiar ou desencorajar a
participação” (Ornelas, 2002, p. 11). Se o nosso objectivo for a compreensão do
envolvimento cívico e da participação comunitária, as associações de vizinhança
devem ser vistas como foco ideal para a intervenção, pois oferecem aos cidadãos
a oportunidade de discutir os problemas da comunidade com os vizinhos.
Cada vez mais verificamos uma maior organização e mobilização das comunidades
em tornos dos seus próprios problemas e necessidades, com base nas suas
potencialidades e recursos: Este envolvimento e participação dos cidadãos, numa
localidade específica e nos processos de decisão a favor da comunidade,
contribui significativamente para o aumento do sentimento de pertença e
identidade de comunidade e promove um maior índice de satisfação e qualidade de
vida dos indivíduos.
Como o objectivo da presente investigação foi a análise do sentimento de
comunidade em crianças e jovens de dois bairros residenciais diferentes e a
relação encontrada entre a satisfação e qualidade de vida, optámos por
entrevistar os nossos participantes sobre aspectos como o bairro (ambiente
envolvente) e os vizinhos para aferir o nível percepcionado de sentimento de
comunidade e os aspectos relacionados com o próprio, a família, a escola e os
amigos, para investigar o índice de satisfação e qualidade de vida
percepcionada. No nosso estudo concluímos que as crianças e jovens com maiores
índices de qualidade e satisfação de vida são as mesmas que apresentam maior
envolvimento cívico no bairro de residência e, consequentemente, maior
sentimento de comunidade.
Desta forma e de um modo geral, os resultados obtidos demonstram uma relação
significativa existente entre as duas variáveis em estudo, ou seja, o
sentimento de comunidade e a satisfação de vida. Assim, o aumento da magnitude
do sentimento de pertença e de identificação a uma comunidade está associado a
um aumento linear do nível de satisfação e qualidade de vida individual, como
podemos verificar mais significativamente com o grupo de crianças e jovens
residentes do Bairro de Alfama.
Para finalizar, gostaríamos ainda de incluir algumas pistas e indicações para
futuras e novas investigações. Seria interessante utilizar o mesmo instrumento
de investigação em outros estudos teóricos, uma vez que o instrumento que
avalia a satisfação de vida é bastante rico, no que diz respeito à análise e
comparação entre as diversas categorias. Futuramente, poder-se-ia também
realizar um estudo de triangulação com outros actores chaves para estes
participantes, como pais, vizinhos, amigos e/ou professores e fazer um estudo
etnográfico para análise e cruzamento de dados destes mesmos participantes nos
seus contextos reais de integração e intervenção. Por outro lado, o alargamento
desta investigação aos adultos permitiria verificar se existem diferenças
significativas comparativamente com os jovens. À semelhança da investigação
realizada por Prezza, Amici, Roberti, e Tesdeschi, em 2001, em três diferentes
regiões, seria também interessante aplicar este estudo em comunidades de
diferentes dimensões e características, para analisar as possíveis diferenças
entre o ambiente urbano e o rural.