O papel dos pais na execução de planos de carreira no Ensino Secundário:
Perspectivas de pais e de estudantes
A influência da família no desenvolvimento de carreira e, especificamente, nos
processos de tomada de decisão tem sido um tópico amplamente considerado na
investigação em Psicologia Vocacional (Schulenberg, Vondracek, & Crouter,
1984; Whiston & Keller, 2004). Os diversos estudos têm destacado a
importância de variáveis estruturais (e.g., estatuto sócio-económico, meio
étnico de origem e configuração familiar) e processuais (e.g., encorajamento
parental, interacção pais/filhos, comportamento intencional) da família no
processo de tomada de decisão (Schulenberg, Vondracek, & Crouter, 1984;
Whiston & Keller, 2004). Além disso, a literatura tem incidido sobre os
processos através dos quais a influência parental ocorre e sobre os resultados
desta mesma influência na carreira (Pinto & Soares, 2001; Young, Friesen,
& Pearson, 1988). Tem, ainda, considerado o modo como a família se pode
constituir como fonte de apoio/suporte ou como barreira à tomada de decisão
(Lent, Brown, Talleyrand, McPartland, Davis, Chopra, et al., 2002; Schultheiss,
Kress, Manzi, & Glasscock, 2001). O apoio parental, por exemplo, tem sido
identificado como uma variável processual determinante da tomada de decisão,
desde a fase de planeamento à fase de execução (Schultheiss, Kress, Manzi,
& Glasscock, 2001; Whiston & Keller, 2004; Young, Marshall, Domene,
Arato-Bolivar, Hayoun, Marshall, et al., 2005).
Além da família, outros significativos têm sido considerados na literatura como
exercendo influência na tomada de decisão. Os professores, por exemplo,
desempenham um papel determinante nas escolhas de carreira, quer directamente
na relação que estabelecem com os alunos, quer indirectamente na articulação
com outros agentes educativos tais como a família (Carvalho & Taveira,
2009; Pinto, Taveira, & Fernandes, 2003).
Deste modo, a literatura põe em evidência a complexidade contextual e
relacional inerente aos processos de tomada de decisão (Blustein, 2004; Fouad
& Katamneni, 2008; Phillips, Christopher-Sisk, & Gravino, 2001;
Schultheiss, 2003). O enfoque é colocado numa perspectiva multidimensional da
tomada de decisão, que contempla, entre outros, os determinantes contextuais
das escolhas (Carvalho, 2007; Guindon & Richmond, 2005; Harrington &
Harrigan, 2006; Phillips, 1997; Whiston & Keller, 2004).
No que diz respeito à tomada de decisão, a investigação tende a centrar-se em
momentos específicos do desenvolvimento, tais como as fases de planeamento das
decisões vocacionais – ou de antecipação da acção – dedicando menos atenção às
fases de execução das escolhas – ou de acção, no âmbito da carreira (Fouad
& Katamneni, 2008; Jome & Phillips, 2005; Mortimer, Zimmer-Gembeck,
Holmes & Shanahan, 2002). Contudo, de acordo com diversos autores, a fase
executiva do processo de decisão é fundamental na medida em pode, quando bem
sucedida, contribuir para o ajustamento e adaptabilidade vocacionais (Jome
& Phillips, 2005; Mortimer, Zimmer-Gembeck, Holmes, & Shanahan, 2002;
Phillips, 1997). No caso do Sistema Educativo Português, por exemplo, o 10º ano
de escolaridade corresponde ao início do Ensino Secundário e, por conseguinte,
à execução de uma escolha em termos de área escolar e profissional. Por
conseguinte, é fundamental o desenho de intervenções vocacionais focadas, não
só no planeamento da decisão, mas também na execução da mesma (Jome &
Phillips, 2005).
Assim, urgem novas leituras do processo de tomada de decisão, que contemplem a
sua complexidade e diversidade. Mantém-se a necessidade de construir modelos
teórico-práticos que evidenciem, de modo mais adequado, a natureza dinâmica,
complexa e interactiva dos factores contextuais no processo de decisão,
considerando-o nas suas múltiplas dimensões e fases (Blustein, 2004; Carvalho,
2007; Fouad & Katamneni, 2008; Jome & Phillips, 2005; Phillips et al.,
2001; Schultheiss, 2003).
É fundamental aprofundar o papel de pessoas significativas, não só no processo
de planeamento, como também, no processo de execução das decisões vocacionais,
e desenvolver um modelo conceptual integrado e multidimensional, que suporte as
intervenções vocacionais nas diferentes fases do processo de decisão.
Neste sentido, o presente estudo procura explorar as perspectivas de pais e
alunos sobre o papel dos primeiros na execução dos planos de carreira dos seus
filhos, no 10º ano de escolaridade – uma fase de implementação ou execução de
decisões de carreira. Pretende-se, deste modo, contribuir para a construção de
um modelo conceptual integrado de intervenção vocacional no Ensino Secundário
(Pinto, Taveira, & Fernandes, 2003). Além disso, oferecem-se contributos à
linha de estudo da influência parental na carreira (Borges, 2001; Gonçalves,
1997, 2006; Pinto & Soares, 2001, 2002; Soares, 1998; Whiston & Keller,
2004; Young, 1994; Young, Friesen, & Pearson, 1988; Young, Valach, &
Collin, 2002; Young, Marshall, Domene, Arato-Bolivar, Hayoun, Marshall, et al.,
2005), a partir de múltiplas perspectivas.
MÉTODO
Neste estudo, privilegia-se uma metodologia de investigação qualitativa baseada
nos procedimentos da grounded theory(cf. Strauss & Corbin, 1994, 1998).
Esta opção metodológica resulta do interesse, já referido, em contribuir para a
construção de um modelo conceptual que sustente a intervenção vocacional no
início do Ensino Secundário (Pinto, Taveira, & Fernandes, 2003), através do
estudo de múltiplas concepções acerca do papel dos pais naquela fase do
desenvolvimento vocacional. Trata-se de uma opção congruente com o crescente
reconhecimento da complexidade inerente às influências contextuais, em
particular da família, no desenvolvimento vocacional (Schultheiss, 2003;
Whiston & Keller, 2004).
Participantes
Os participantes totalizam 62 sujeitos – 46 alunos e 16 pais. O grupo de alunos
é constituído por sujeitos de ambos os sexos (40% de mulheres; 60% de homens),
com idades compreendidas entre os 15 e os 20 anos (M=16,60; DP=1,54), a
frequentar diferentes cursos do ensino secundário (62,9% no Agrupamento 1; 2,9%
no Agrupamento 2; 5,7% no Agrupamento 3; 2,9% no Agrupamento 4; 25,6% em Curso
Profissional) e com projectos vocacionais diversificados. O grupo de pais é
constituído por um total de 16 sujeitos de ambos os sexos (62,5% de mulheres;
37,5% de homens), com idades compreendidas entre os 35 e os 54 anos (M=43,62;
DP=4,95) e com profissões diversificadas.
Procedimentos
O objectivo deste estudo é explorar as perspectivas dos pais e dos alunos sobre
o papel dos pais na execução de planos de carreira no 10º ano de escolaridade.
Este estudo enquadra-se numa investigação de maior amplitude, dando seguimento
aos procedimentos iniciados previamente (Carvalho, 2007; Pinto, Taveira, &
Fernandes, 2003). Foi usado um questionário de resposta aberta (Pinto, 2000),
constituído por três blocos de questões, a saber: (i) objectivos da Orientação
para o 10º ano de escolaridade; (ii) contributos dos intervenientes no processo
(estudantes, professores e directores de turma, encarregados de educação e
técnicos dos Serviços de Psicologia e Orientação); (iii) propostas específicas
de intervenção (Pinto, Taveira, & Fernandes, 2003).
Tendo em conta o objectivo deste trabalho, consideraram-se apenas as respostas
sobre os contributos dos pais e encarregados de educação ao desenvolvimento e
execução de planos de carreira dos seus filhos ou educandos.
Análise dos dados
A opção pela metodologia de grounded analysis, levou à adopção dos
procedimentos propostos na literatura sobre o método (Fernandes & Maia,
2002; Pires, 2002; Strauss & Corbin, 1994, 1998). Partindo das respostas
transcritas dos participantes, a análise dos dados seguiu várias fases conforme
descrito em seguida.
Inicialmente foram definidas as unidades de análise, tendo-se tomado como
critério, o facto de definirem uma ideia única (Strauss & Corbin, 1998). O
exame das unidades de análise conduziu à identificação e enumeração de
conceitos. A progressiva especificação dos conceitos contribuiu para a
reformulação e renomeação das categorias. Simultaneamente, os procedimentos de
comparação fizeram emergir relações entre os conceitos convergindo em
categorias conceptuais de maior abstracção. Para assegurar a credibilidade do
processo de codificação e de verificação, recorreu-se constantemente ao
discurso dos participantes.
Depois de analisadas as respostas, reviu-se todo o trabalho de categorização
por referência às unidades de análise e à resposta global dos participantes.
Isto conduziu a uma primeira reorganização dos dados, consubstanciados em
categorias, propriedades e dimensões. Em seguida, a partir de um processo de
questionamento indutivo, identificaram-se propriedades no discurso dos
participantes, o que permitiu especificar as diferentes categorias.
Posteriormente, através de um processo de questionamento dedutivo,
confrontaram-se as categorias e as respectivas propriedades com os dados do
fenómeno em estudo. Os procedimentos de questionamento e comparação constante
permitiram identificar um conjunto de categorias centrais hierárquicas comuns
aos vários protocolos. Definimos depois a categoria central e construímos a
narrativa descritiva do fenómeno em estudo, sempre com recurso ao
questionamento e comparação constantes e por referência ao discurso dos
participantes. Fizemos, também, uso de memorandos e diagramas.
Ao longo da análise, foi efectuado um registo de procedimentos, que se
consubstanciou numa ficha de análise das respostas e que inclui: (i) a resposta
global dos participantes, organizada em unidades de análise, (ii) os códigos
atribuídos às unidades de análise, (iii) as categorias descritivas, (iv) as
categorias conceptuais e (v) comentários/memorandos. Foram desenvolvidos,
ainda, diagramas expressivos da relação hierárquica entre as categorias.
RESULTADOS
A análise das respostas dos pais e dos estudantes evidenciaram tipicidade
inter-grupo nas categorias. Pais e filhos parecem estar de acordo quanto à
importância dos pais na execução de planos de carreira e quanto ao modo como
podem contribuir para facilitar este processo. Assim, a apresentação dos
resultados que se segue resulta da análise das respostas dos pais e dos
estudantes, sendo cada resposta identificada pelo respectivo código (P ou EST,
conforme o participante é pai/encarregado de educação ou estudante, o número do
sujeito e o número de ordem na sequência de texto). A Figura 1 representa o
modelo resultante das respostas dos participantes relativamente ao papel dos
pais na execução de planos de carreira no 10º ano de escolaridade.
FIGURA 1
Esquema representativo do papel dos pais na execução de planos de carreira
Na perspectiva dos participantes, o papel dos pais na execução de planos de
carreira concretiza-se directamente, através da relação que os pais estabelecem
com os filhos, e, indirectamente, através das actividades que promovem e em que
participam na sua relação com o meio.
Os participantes referem que relação dos pais com os filhosdeve ser positiva,
pautada por atitudes de apoio e confiança, devendo aqueles assumir as suas
funções enquanto pais e educadores. Os pais devem “estabelecer uma relação de
apoio e confiança com os seus educandos” (EST19-1).A relação com os filhos
concretiza-se na interacção e comunicação que estabelecem. A comunicação
assume, sobretudo, um objectivo de esclarecimento do aluno relativamente às
questões profissionais, em função da informação que prestam ou do relato da sua
experiência pessoal. Os pais podem “explicar-lhes o que é a profissão deles,
como é a vida no mundo do trabalho” (EST22-2), “falar da sua experiência de
vida” (EST24-2) e “conversar com os seus educandos sobre os cursos que pretende
frequentar no futuro” (P6-1). Os pais podem aconselharos filhos,
especificamente, quanto à carreira, sempre que se justifique, mas respeitando e
não influenciando as suas escolhas. Os pais podem prestar “alguma orientação,
conselhos para o desenvolvimento da nossa carreira” (EST11-3) e “esclarecê-los
sobre as saídas profissionais e escolares” (P8-2). Os pais devem, também,
acompanharos filhos no dia-a-dia, nas decisões de carreira, na vida escolar e
face a situações-problema.
A necessidade do acompanhamento tende a ser mais vincada relativamente à vida
escolar dos filhos, conforme evidenciam as seguintes respostas: “É também muito
importante a preocupação por parte dos encarregados de educação na vida escolar
(notas, responsabilidade, assiduidade)” (EST36-4), “Os pais devem interessar-se
pelos estudos dos seus filhos” (EST11-1), “estarem atentos ao resultado dos
testes, às faltas e às notas” (P12-3).
Os pais devem, ainda, apoiaros filhos, entendendo-se este apoio na dupla
vertente afectiva e instrumental. Assim, os alunos consideram que os pais devem
apoiar os filhos, independentemente das suas escolhas, respeitando e não
influenciando. O apoio pode caracterizar-se pela aprovação, incentivo e
compreensão das escolhas dos filhos conforme se percebe nas seguintes
respostas: “Incentivá-los” (P13-2), “Podiam apoiar-nos nas nossas decisões e
compreender aquilo que queremos” (EST13-2), “Darem apoio ao aluno seja qual for
a escolha do aluno” (EST23-1). O apoio pode também definir-se pela ajuda
instrumental à resolução de problemas e concretização de opções, tal como
enunciam as seguintes respostas: “ajudá-lo sempre que ele necessita” (EST2-2),
“ajudar os filhos a se esclarecerem” (EST24-1), “apoiá-los em tudo o que se
possa fazer com os alunos” (P2-1). Os alunos referem, ainda, as expectativas
dos pais como potenciais barreiras às decisões dos filhos, pelo que devem ser
ajustadas (“não criar grandes expectativas” EST28-2). Assim, as atitudes e
comportamentos anteriormente descritos contribuem para a experiência de
autonomia/responsabilidade, sentimentos de aprovação e incentivo, prazer pelo
estudodos filhos e constituem condições para o desenvolvimento da carreira. Os
alunos falam da necessidade dos pais promoverem a “criação de uma autonomia e
independência mais definidas, e da consciencialização do consequente aumento de
responsabilidade que essa maior liberdade e independência implicam” (EST20-1),
de fazerem o “aluno se sentir aprovado” (EST16-2), de incutirem “o prazer de
estudar” (EST45-3) e de “permitir que tenham as melhores condições para
desenvolver a sua carreira” (EST46-1). Os pais destacam a necessidade de
“responsabilizar os educandos” (P3-2), especificamente “pelo ensino/
aprendizagem” (P3-2) e pelo “futuro deles” (P2-3).
Para além das relações dos pais com os filhos, os participantes identificaram
aspectos da relação dos pais com o meiocomo determinantes do desenvolvimento e
execução de planos de carreira. Assim, os pais podem contribuir, através da
promoção de actividades que constituam oportunidadespara os estudantes
explorarem e conhecerem o meio, nomeadamente quando afirmam que “se houver
alguém na família com a profissão que queremos seguir dar-nos oportunidades de
conhecer o que eles fazem e como é que lá chegaram” (EST13-3) e “promover
contactos com profissionais dessas áreas para mais esclarecimentos quanto a
cursos e vida profissional” (P1-2). Podem, ainda, colaborar com a escola ou
outros, no sentido de conhecerem melhor o aluno, recolherem informação,
ajudarem o filho e contribuírem para a resolução de problemas. Assim, os pais
deveriam “ser informados pelo serviço de psicologia ou pelos directores de
turma para poder ajudar os filhos a escolher o que é melhor para eles” (EST17-
1), “vir à escola falar com os professores de maneira a que os filhos tenham
sucesso na área que escolheram” (EST30-2) e “manterem-se informados acerca do
percurso escolar do educando, em caso de insucesso, detectar as razões e
procurar soluções com a cooperação dos professores” (EST39-3). Deveriam, ainda,
ser “mais participativos na escola” (P4-1) e “periodicamente falarem com os
professores e SPO de modo a ajuizarem das dificuldades que o aluno pode
atravessar” (P5-2). As oportunidades/experiências oferecidas assim como a
colaboração dos pais com outros contribuirá para que o aluno se sinta aprovado/
/apoiado, e para que os pais possam ajudar o filho a realizar escolhase
empreender os esforços necessários no sentido do sucesso do aluno na escolha
realizada. Os alunos consideram que, através da relação com o meio, os pais
podem “ajudar os filhos a se esclarecerem” (EST24-1) e contribuir para que
“tenham sucesso na área que escolheram” (EST30-2).
CONCLUSÕES
As respostas apresentadas indicam que pais e alunos reconhecem o papel daqueles
no desenvolvimento e execução de planos de carreira no 10º ano de escolaridade.
Podemos afirmar que as perspectivas dos participantes se revêem nas formulações
teóricas que realçam o papel dos contextos no desenvolvimento da carreira
(Blustein, 2004; Fouad & Katamneni, 2008; Phillips, Christopher-Sisk, &
Gravino, 2001; Schultheiss, 2003; Vondracek, Lerner, & Schulenberg, 1986;
Whiston & Keller, 2004). Assim, de um modo geral, os participantes
evidenciam o reconhecimento do papel dos pais no desenvolvimento vocacional dos
filhos, através da relação que estabelecem, variável em função de padrões
comunicacionais e atitudes parentais mais ou menos directivas, específicas e
intencionais, e da relação com meio na promoção de oportunidades e experiências
e na colaboração com outros tais como a escola.
A relação pais-filhos emerge nas respostas dos participantes como um elemento
central no desenvolvimento da carreira, o que é também coerente com as
investigações no domínio (Borges, 2001; Gonçalves, 1997, 2006; Pinto &
Soares, 2001, 2002). Aliás, a interacção pais-filhos tem sido descrita na
literatura como uma variável processual de importância no desenvolvimento da
carreira (cf. Schulenberg et al., 1984). Destaca-se a importância dos padrões
de funcionamento familiar, nomeadamente, em termos de vinculação, nas escolhas
vocacionais (Berríos-Allison, 2005; Penick & Jepsen, 1992), evidente nas
respostas dos participantes quando afirmam a necessidade do estabelecimento de
relações positivas entre pais e filhos e do desenvolvimento de uma comunicação
efectiva. As respostas evidenciam, além disso, a importância dos pais assumirem
o papel e funções parentais, nomeadamente em termos de educação e socialização,
de facilitarem o crescimento dos filhos, autonomizando-os e responsabilizando-
os, de regularem expectativas e de comunicarem com os filhos, sem contudo se
situarem, especificamente, no domínio vocacional. A relação pais-filhos
concretiza-se nas atitudes que os pais apresentam em relação aos filhos, não só
no que diz respeito à formulação e execução do projecto vocacional, mas também
em outras áreas de vida.
Neste estudo, os participantes referem-se à necessidade de apoio no sentido da
aceitação das acções e escolhas dos filhos, no que diz respeito ao projecto
vocacional, à vida escolar e pessoal, e da disponibilidade afectiva e
instrumental para suportar essas mesmas opções. Isto é coerente com os estudos
empíricos que apontam o apoio e o encorajamento como uma variável de processo
com impacto significativo na tomada de decisão vocacional (Berríos-Alison,
2005; Gonçalves, 2006; Pinto & Soares, 2002; Schultheiss & Blustein,
1994; Young et al., 2005). O apoio parece assumir particular importância no que
diz respeito à vida em geral e ao projecto vocacional quando comparados com as
áreas escolar, pessoal e de resolução de problemas. Isto poderá significar que
o apoio à carreira se traduz na percepção de transversalidade do apoio às
restantes áreas de vida, remetendo-nos para a noção de carreira como o
itinerário que cada indivíduo faz pelos múltiplos papéis de vida (Super, 1990;
Taveira, 2005). Nesta mesma linha, podemos lembrar uma das tarefas
desenvolvimentais que caracterizam a adolescência e que é o desenvolvimento da
autonomia necessária à construção da identidade. Na adolescência, embora se
verifique a manutenção do papel dos pais enquanto figuras de autoridade, há um
crescente reconhecimento da igualdade entre indivíduos. Isto é, por um lado, os
adolescentes reconhecem e respeitam o conhecimento e opiniões dos pais, mas
também as suas próprias ideias; por outro lado, os pais reconhecem a maior
capacidade do adolescente para ser responsável por si próprio e revelam um
crescente respeito pelas suas opiniões e ideias (Schultheiss & Blustein,
1994; Sprinthall & Collins, 1994). O redireccionamento da relação pais-
filhos, no sentido de uma maior reciprocidade, parece emergir nas respostas de
pais e filhos quando se referem ao papel dos pais na área e fase de vida em
análise, assim como quando reflectem sobre as consequências desta interacção,
nomeadamente, em termos de autonomia. Isto leva-nos a supor que a atitude de
apoio poderá contribuir para um sentimento de autonomia protegida, susceptível
de viabilizar a concretização das escolhas com algum nível de segurança e num
equilíbrio entre separação/independência dos filhos em relação aos pais.
O acompanhamento e aconselhamento dos filhos são, também, atitudes valorizadas
pelos participantes. Estas traduzem um maior nível de envolvimento dos pais nas
tarefas vocacionais dos filhos, na medida em que implicam comportamentos de
monitorização e de orientação. O referido coincide com investigações que
apontam que o papel dos pais no desenvolvimento vocacional pode envolver acções
como aconselhar, apoiar e motivar (Gonçalves, 2006; Pinto & Soares, 2002;
Young et al., 1988) assim como reforça modelos sistémicos da carreira (Penick
& Jepsen, 1992).
Para além da relação dos pais com os filhos, a relação daqueles com o meio,
nomeadamente, através da participação ou de promoção de actividades parece
constituir uma acção significativa dos pais no sentido do desenvolvimento da
carreira dos filhos. As oportunidades e experiências, ao contrário das
restantes categorias, assumem o protagonismo do domínio vocacional. Esta
categoria traduz as respostas dos participantes que enunciam um conjunto de
acções, com objectivos de desenvolvimento da carreira, realizadas ou a
realizar, quer pelos pais, quer pelos alunos, mas sempre promovidas pelos pais.
De algum modo, corresponde à importância atribuída na literatura, ao
comportamento exploratório no desenvolvimento vocacional (Taveira, 2000) e aos
pais enquanto promotores potenciais de oportunidades, recursos e experiências
(Soares, 1998).
Destaca-se, ainda, a colaboração família-escola. Os dados apresentados por
Pinto, Taveira, e Fernandes (2003) revelam a importância que os professores
atribuem à cooperação com outros agentes educativos, nomeadamente com os
encarregados de educação. No mesmo sentido, as respostas de pais e alunos
revelam a importância daqueles colaborarem com a escola. A importância
atribuída à colaboração família-escola suporta o argumento de que as variáveis
familiares não podem ser vistas isoladamente quando estudamos a influência dos
contextos no desenvolvimento vocacional (Phillips et al., 2001; Whiston &
Keller, 2004).
Os participantes evidenciam, ainda, os efeitos desejáveis esperados da
influência parental. Discriminam aspectos como a autonomia, o prazer pelo
estudo e o sucesso na área escolhida, o que é concordante com a literatura
(Pinto & Soares, 2001). O presente trabalho põe, assim, em destaque a
distinção na literatura entre o reconhecimento dos resultados e dos processos
da influência parental na carreira (Pinto & Soares, 2001).
No seguimento do referido, podemos afirmar que as perspectivas dos pais e dos
alunos acerca do papel dos pais no desenvolvimento vocacional parecem
aproximar-se das formulações teóricas que realçam o papel dos contextos no
desenvolvimento e, especificamente, no desenvolvimento da carreira. Constata-
se, também, a aproximação aos resultados de investigação que enunciam a relação
entre variáveis familiares e variáveis vocacionais, nomeadamente, aqueles que
contemplam factores de ordem diversa na explicação da complexidade do fenómeno
das influências e relações humanas (Gonçalves, 2006; Pinto & Soares, 2002;
Schulenberg et al., 1984; Soares, 1998; Whiston & Keller, 2004).
Os dados apontam a necessidade da intervenção vocacional contemplar os
contextos de vida e o seu papel no desenvolvimento da carreira, constituindo-se
como objectivo da prática vocacional a sensibilização dos agentes educativos e,
em particular dos pais, para as questões associadas ao desenvolvimento e
execução de planos de carreira e para o seu papel na qualidade do processo de
decisão. Importa, por isso, desenvolver modelos conceptuais que suportem a
intervenção vocacional nas diferentes fases do processo de tomada de decisão
vocacional.
Parece, também, necessário continuar a aprofundar o estudo sobre o papel dos
pais no desenvolvimento e execução de planos de carreira, nomeadamente quanto
ao comportamento intencional dos pais, prosseguindo os estudos de Young e
colaboradores (Young, 1994; Young et al., 2005), assim como do papel dos
próprios alunos e de outros significativos (Lent et al., 2002). Neste
enquadramento, reforça-se a necessidade de se desenvolverem modelos conceptuais
integrados de intervenção em Orientação no Ensino Secundário.