Grupo de suporte para mulheres de veteranos de guerra: Um estudo qualitativo
INTRODUÇÃO
Vários estudos têm vindo a verificar que as consequências dos episódios
traumáticos vividos em teatro de guerra afectam não só a vítima directa, o
veterano de guerra, mas também a sua esposa/companheira, podendo esta vir a
desenvolver uma Desordem Secundária de Stress Traumático (STSD) (Figley, 1983;
McCann & Pearlman, 1990). Por este motivo, as mulheres dos veteranos de
guerra podem apresentar sintomas semelhantes à Perturbação de Stress Traumático
como flashbacks e sonhos relacionados com a experiência de guerra do veterano
(Maloney, 1988; Maltas & Shay, 1995; Mason, 1995; Matsakis, 1996; Nelson
& Wrigth, 1996; Pereira, 2003; Solomon, Waysman, Levy, Fried, Mikulincer,
Benbenishty, Florian, & Bleich, 1992; Williams, 1980). Figley (1998) refere
que a traumatização secundária pode estar relacionada com o esforço emocional
que estas mulheres fazem para apoiar o veterano tomando como delas o sofrimento
dele, os seus sentimentos, experiências e memórias.
Numerosos estudos foram desenvolvidos com mulheres de veteranos de guerra do
Vietname (Beckham, Lytle, & Feldman, 1996; Calhoun, Beckham & Bosworth,
2002; Lyons, 2001; Nelson & Wright, 1996) e veteranos Australianos
(Westerink & Giarratano, 1999). Mas também existem estudos que se
debruçaram sobre as mulheres de prisioneiros de guerra de Israel (Dekel &
Solomon, 2006) e sobre as mulheres de veteranos de guerra do Ultramar (Pereira
& Monteiro-Ferreira, 2006). Derogatis (1993), usando o SCL-90, verificou
que as mulheres de veteranos de guerra apresentavam sintomas de somatização,
depressão, ansiedade, ideação paranóide, hostilidade, sintomas obsessivo-
compulsivos, dificuldades no funcionamento social (Solomon et al., 1992),
estratégias de coping limitadas (Kulka, Schlenger, Fairbank, Hourgh, Jordan,
Marmar, & Weiss, 1992; Verbosky & Ryan, 1988), elevados níveis de
stress, isolamento social, intimidade reduzida, qualidade de relacionamento
pobre (Coughlan & Parkin, 1987; Jordan, Marmar, Fairbank, Schlenger, Kulka,
Hough, & Weiss, 1992; Solomon et al., 1992) e burnout (Beckham et al.,
1996; Calhoun et al., 2002). Num estudo com mulheres de Veteranos Australianos
do Vietname verificou-se que estas mulheres experienciavam frequentemente
pesadelos, insónia, ataques de pânico, resposta de alarme exagerada, pouco
desejo sexual, falta de concentração e sudorese extrema (Westerink &
Giarratano, 1999). No que diz respeito a problemas de saúde física mais
específicos, alguns estudos mostram que as mulheres dos veteranos apresentam
dor crónica, dores de cabeça, lombalgia, indigestão, fadiga crónica,
susceptibilidade a infecções e um aumento do consumo de drogas, álcool, tabaco
e narcóticos (Foy, 1994, cit. Koic, Franciskovic, Muzinic-Masle, Dordevic,
Vondracek, & Prpic, 2002). Segundo Matsakis (1996), as mulheres são
frequentemente sujeitas a violência muitas vezes associada à componente de
flashbacks e aproximadamente 25% a 50% das mulheres que participaram em terapia
de grupo, para esposas de veteranos com PTSD, foram alvo de violência física
sendo este o motivo de 20% das visitas que faziam às urgências hospitalares
(Matsakis, 1996; Solomon et al., 1992; Williams, 1980).
No que diz respeito ao impacto do trauma na relação conjugal, segundo o
“Department of Veterans Affairs”, nos Estados Unidos, as mulheres dos veteranos
de guerra com PTSD experienciam um nível elevado de conflito conjugal (Riggs,
Byrne, Weathers, & Litz, 1998) e menos satisfação com o casamento do que
aquelas que vivem com veteranos sem PTSD (Jordan, Marmar, Fairbank, Schlenger,
Kulka, Hough, & Weiss, 1992). Jordan e colaboradores (1992) referem que os
veteranos com PTSD têm o dobro da hipótese de serem divorciados e um risco
quase três vezes mais elevado de experienciar múltiplos divórcios. Alem disso,
as mulheres dos veteranos de guerra com perturbação secundária de stress
traumático (STSD) estavam menos felizes, menos satisfeitas com a relação
marital e experienciavam elevados níveis de distress (Kulka et al., 1990).
Recentemente um estudo com mulheres de veteranos de guerra da Croácia verificou
que as mulheres que sofrem de STSD estão casadas há mais tempo e encontram-se
desempregadas, podendo a duração do casamento e a situação laboral, funcionar
como preditores do desenvolvimento de STSD (Franciskovic, Stevanovic, Jelusic,
Roganovic, Klaric, & Grkovic, 2007). Também Lyons (2001) verificou que
grande parte das mulheres dos veteranos estão centradas na vida conjugal. De
facto a nível familiar, as mulheres dos veteranos são habitualmente as
responsáveis pela gestão do lar, vida financeira, tarefas domésticas e educação
dos filhos (Kulka et al., 1990; Maloney, 1988; Verbosky & Ryan, 1988;
Williams, 1980). Maloney (1988), refere que estas mulheres são descritas como
“super-mulheres” ou mulheres super-responsáveis que colocam as suas
necessidades em segundo lugar e frequentemente as esquecem. Este
desinvestimento nelas próprias associa-se a uma baixa auto-estima e a um
sentimento de desesperança (Williams, 1980) por não conseguirem lidar com a
pressão na relação (Herndon & Law, 1986 e Kulka et al., 1988, cit. Solomon
et al., 1992; Kulka et al., 1990). Solomon e colaboradores (1992) referem que a
intensa solidão por elas vividas é o problema mais devastador. Um estudo levado
a cabo com nove mulheres de veteranos de guerra de Israel, onde foi utilizada
uma metodologia qualitativa, estudou a forma como as mulheres casadas com
veteranos com PTSD experienciavam a sua situação conjugal (Dekel, Goldblatt,
Keidar, Solomon, & Polliack, 2005). Os resultados mostraram que a vida do
casal girava à volta da doença do marido e foram encontradas as seguintes
categorias elucidativas a esse propósito: “a vida navega à volta da doença”, “a
luta da mulher pelo controlo do seu espaço pessoal”, “a presença física e a
ausência psicológica do marido”, “o caminho impossível da separação ou do
divórcio” e o “marido como crescimento”. Um outro estudo semelhante verificou,
através de uma metodologia fenomenológica, que as mulheres de veteranos com
PTSD relatam a sua experiência como um processo gradual e se tornaram enredadas
na doença do veterano, passando pela fase do ajustamento e depois pela luta
constante em minimizar os efeitos negativos da doença não só em si mesmas como
na família, terminando num período de múltiplas tentativas para tratar/curar o
marido (Lyons, 2001). Dekel e colaboradores (2005) verificaram que quanto maior
a incapacidade do veterano, mais elevado o nível do stress experienciado pelas
suas companheiras (Franciskovic et al., 2007).
Por sua vez, os filhos dos veteranos do Vietname apresentam elevados níveis de
ansiedade, agressividade, depressão, um intenso envolvimento emocional na vida
do pai e uma preocupação constante com este, associada a um forte sentimento de
culpa por não o conseguirem ajudar e se sentirem responsáveis pela sua
infelicidade (Ahmadzadeh & Malekian, 2004; Matsakis, 1996; Rosenheck &
Nathan, 1985), problemas de comportamento (Beckham, Braxton, Kudler, Feldman,
Lytle, & Palmer, 1997; Catherall, 1997), baixo rendimento escolar e baixa
criatividade, mais atitudes negativas para com o pai (Dansby & Marinelli,
1999), fraca noção da realidade (Mason, 1995), distúrbios de sono e défice de
atenção (Rosenheck & Nathan, 1985). Segundo Harkness (1991), os filhos dos
veteranos apresentam ainda dificuldades em fazer amizades, problemas ao nível
do relacionamento interpessoal, isolamento social, pouca espontaneidade e uma
maturidade forçada devido às responsabilidades assumidas cedo demais. Os filhos
apresentam também uma baixa auto-estima, em grande parte motivada por uma
interpretação errada da alienação e anestesia emocional do pai, percepcionando-
se como pouco amados, pouco queridos e mesmo rejeitados (Matsakis, 1996). De
igual modo, verificou-se a existência de um efeito directo entre uma má relação
parental e a existência de distress psicológico nos filhos, que por sua vez
apresenta também um efeito directo na morbilidade física destes (Pereira,
2003).
Por estes motivos e, pelo facto da esposa e os filhos correrem o risco de
retraumatizar o veterano (Pereira, 2003), elaboramos um programa de grupo de
suporte para mulheres de veteranos de guerra. Um dos aspectos que suporta a
importância da intervenção psicológica com estas mulheres reside no facto por
um lado, destas vítimas secundárias serem instrumentais no facilitar da
recuperação das vítimas primárias (e.g., Bass & Davis, 1988, cit. Remer
& Fergurson, 1998), através da melhoria da sua relação marital e, por outro
lado, porque uma boa relação marital contribui de forma significativa para a
redução da sintomatologia depressiva, ansiosa e de hostilidade (Dekel &
Solomon, 2007). Westerink e Giarratano (1999) referem que as companheiras dos
veteranos podem beneficiar dos grupos de suporte pois o fornecer conhecimento e
informação acerca do PTSD ajuda-as a perceber e a lidar melhor com os problemas
dos veteranos e oferece-lhes uma oportunidade de trocar experiências com outras
mulheres, aumentar o seu suporte social, melhorar a auto-estima além de
fornecer estratégias de coping e de resolução de problemas.
OBJECTIVOS
Os objectivos da intervenção em grupo consistiram em aumentar o conhecimento e
compreensão acerca da Perturbação de Stress Pós Traumático, bem como os seus
efeitos e impacto na família e na relação conjugal; aumentar a auto estima e
auto-eficácia promovendo uma melhor comunicação; favorecer a gestão de
conflitos e resolução de problemas e, finalmente, promover boas práticas de
saúde no sentido de aumentar a qualidade de vida física e psicológica nas
mulheres dos veteranos de guerra.
DESCRIÇÃO DO PROGRAMA
O programa do Grupo de Suporte para Mulheres de Veteranos de Guerra é
constituído por oito sessões, estruturadas e definidas no tempo, com uma
periodicidade quinzenal com uma duração de duas horas. Este programa é
constituído por seis módulos, uma sessão introdutória e uma sessão de
finalização.
A intervenção inicia-se com uma sessão introdutóriade avaliação onde são
abordadas as motivações para participar no grupo, as expectativas, as
necessidades individuais, a apresentação dos elementos do grupo e os objectivos
do programa.
O módulo I tem um carácter fundamentalmente educativo acerca do PTSD.Nesta
sessão são abordadas as situações que podem provocar este quadro clínico, os
seus sintomas e as variáveis individuais que podem influenciar o agravamento da
situação. Este módulo pretende ajudar as mulheres a identificar, nos seus
companheiros sintomas de PTSD, factores de exacerbação da sintomatologia e suas
consequências de forma a melhor perceber como lidar com o veterano nestas
situações.
O módulo II aborda o impacto do PTSD na relação conjugal, focando sobretudo o
impacto dos sintomas ao nível da relação conjugal, nomeadamente ao nível de
competências de expressão emocional, intimidade e de resolução de problemas
conjugais.
O módulo III, diz respeito ao impacto do PTSD na família e nas relações
interpessoais. Neste sentido, são abordados os comportamentos de evitamento,
isolamento, agressividade, raiva e hostilidade, uso de substâncias, bem com a
sintomatologia depressiva e/ou ansiosa.
O módulo IV aborda o impacto do PTSD nos filho. O trauma do pai pode afectar
negativamente a segunda geração, o que consequentemente pode aumentar a
susceptibilidade dos próprios filhos para desenvolverem STSD (Bremmer et al.,
1993; Yehuda et al., 1998, cit. Westerink & Giarratano, 1999). Neste
sentido, neste módulo, são abordados os aspectos familiares protectores dum bom
funcionamento familiar.
No módulo V de promoção da saúde e apoio socialé abordada a noção de
comportamentos saudáveis, bem como a implementação de práticas preventivas ao
nível do estilo de vida. No que diz respeito ao apoio social são abordadas
várias estratégias e actividades que proporcionem contactos sociais, bem-estar
e qualidade de vida.
Finalmente, o módulo VI aborda as crises familiaresi.e., a gestão do stress,
estratégias de resolução de problemas e de coping bem como a alteração de
hábitos e atitudes não adequadas à gestão duma crise.
METODOLOGIA
Caracterização da amostra
A amostra foi constituída por 10 esposas de Veteranos de Guerra, inscritos na
Associação Portuguesa de Veteranos de Guerra e diagnosticados com PTSD. As
idades eram compreendidas entre os 42-58 e quase todas as mulheres estavam
casadas com os veteranos há cerca de trinta anos. Ao nível da escolaridade
possuíam o ensino primário e actualmente eram domésticas ou reformadas e
possuíam profissões indiferenciadas. Todas as participantes viviam no distrito
de Braga.
A participação das mulheres foi voluntária e o Grupo de Suporte foi divulgado
na página da Internet da Associação Portuguesa de Veteranos e no jornal “O
Veterano”.
Os dados foram recolhidos duas a três semanas após o termino do programa na
Associação de Veteranos da Guerra. Foi utilizada uma metodologia qualitativa
para analisar os dados das entrevistas semi-estruturadas. As entrevistas foram
gravadas e posteriormente transcritas para se poder proceder à sua análise. Os
dados foram tratados usando a análise de conteúdo e as entrevistas seguiram um
guião de forma a poder comparar resultados individuais entre si (Bardin, 2004).
A categorização dos dados teve como objectivo fornecer, duma forma condensada,
uma representação simplificada dos dados brutos (Bardin, 2004).
As questões colocadas foram as seguintes: O que a levou a participar no grupo?
O que foi mais importante para si neste grupo? O que aprendeu sobre si e os
outros? Do ponto de vista emocional, o que foi mais difícil para si? Existiu
alguma mudança na sua relação com o seu marido e filhos, depois da sua
participação no grupo?
RESULTADOS
A análise dos dados configurou-se num esquema de categorias inter-relacionadas
que nos permitem conhecer e compreender a vivência das mulheres dos veteranos
de guerra:
– “Factores que influenciaram a decisão de participar no grupo”, que nos
indicam quais os motivos e motivações das mulheres para participarem no grupo.
– “O impacto do PTSD na esposa e no casal”. Esta categoria apresenta as
consequências do convívio prolongado com um veterano com PTSD nas próprias
mulheres e na sua vida conjugal.
– “A experiência do grupo”. Esta categoria descreve os aspectos emocionais
vivenciados como os mais difíceis nesta experiência em grupo.
– “O impacto da intervenção na companheira e no casal”. Esta categoria
engloba as mudanças operadas em casa após a participação no grupo e a aquisição
de novas aprendizagens e conhecimentos.
Para cada uma destas categorias, apresentamos alguns exemplos elucidativos:
“Factores que influenciaram a decisão de participar no grupo”(Figura 1)
FIGURA 1
Categorias do discurso das mulheres
Os factores que levaram as mulheres a participar no grupo foram os seguintes:
curiosidade, “Esperava ver e ouvir as outras pessoas, as experiências que elas
viviam e que eu tinha também curiosidade... como todas... cada caso era
diferente”, a necessidade de conviver, “... conviver com as pessoas, com outras
mulheres...”, anecessidade de partilhar problemas, “Estava a precisar de falar
sobre os problemas, desabafar...”;verificar que existem mais pessoas com o
mesmo problema: “... havia mais gente a sofrer aquilo que eu sofria e isso foi
muito bom saber, a gente saber que não está só!”e aprender a lidar melhor com o
marido: “... encontrei ajuda para mim e para ele... eu também já estava sem
paciência para o aturar”.
“Impacto do PTSD na Companheira e Casal”(Figura 1)
O impacto do PTSD do marido verificou-se a dois níveis, ao nível das próprias
mulheres e ao nível da relação conjugal dando origem a duas subcategorias: (a)
Como as Esposas se Percepcionam e (b) Como Percepcionam a Relação Conjugal. Em
relação ao impacto do PTSD nelas próprias, as mulheres referem que com o tempo
acabaram por se tornarem invisiveis, “o problema é que eu já ponderava
demais... fiquei com uma depressão, porque cheguei a uma altura que já não era
eu mas sim aquilo que ele queria que eu fosse para evitar chatices...”; sentem-
seresponsáveis pela educação dos filhos, “o relacionamento entre pai e os
filhos nunca foi muito bom... porque viveu ausente deles, não os viu crescer...
nunca foi uma pessoa que tratava bem os filhos... gostava de ver o pai
carinhoso com os filhos” etentam aprender a lidar com o veterano: “gostei de
perceber que a gente tem de actuar melhor para que o meu marido fosse melhor
para mim... andasse melhor comigo e com ele também”, ... a chamá-lo à atenção
com mais cuidado”. Finalmente, estasmulheres consideram-se cuidadoras do
marido: “... eu sou uma verdadeira mãe para ele, ele pode pensar o contrário
mas eu gosto demais dele”.identificando qualidades nelas próprias, neste
processo “no meio disto tudo eu sou muito corajosa”.
No que diz respeito à forma como percepcionam a relação conjugal (segunda
subcategoria deste tema) é referida a existência de agressividade física na
relação, “se o meu marido um dia me der uma bofetada... se eu não merecer nunca
lhe perdoaria na vida... se eu merecer estou logo a falar com ele!”, mas a
agressividade psicológica é considerada mais grave que a física: “há certas
horas em que eu preferia duas bofetadas na cara, que ao menos ficava com elas,
esquecia e acabava... enquanto que aquilo não é uma vez dita, são dezenas de
vezes, durante o dia são dezenas... ele passa a vida ali a dizer a mesma
coisa”. As mulheres referem ainda quedesinvestem da própria saúde: “... sei lá,
as mulheres acomodam-se, passam muito tempo a cuidar dos maridos... fiquei
abismada com certas coisas... nunca mais me esqueci daquela senhora que nunca
tinha ido a um ginecologista” e não equacionam a possibilidade do divórcio: “Se
uma pessoa lhes disser vou-me embora, ou vou-me divorciar, para ele seria uma
agressão tão grande, que o levaria a fazer disparates.Por outro lado, é também
referido que o veterano não assume o papel de pai e companheiro activo: “Pelo
menos em minha casa... qualquer problema eu é que tenho que ser sempre o guia!
Se fizer falta ir a um banco, se fizer falta ir às finanças, ir ao médico... eu
é que tenho que ir, quer dizer eu tenho que ser o guia para as coisas todas, eu
tenho que ter cabeça para tudo!” e que o relacionamento sexual é “obrigatório”:
“vi que às vezes agia mal mas que outras agiam bem pior... e eu sou uma pessoa
que nunca lhe neguei a relação sexual e ouvi algumas mulheres que às vezes lhe
negavam... claro que homens são homens! (...)”
“A Experiência do Grupo”(Figura 2)
FIGURA 2
Categorias do discurso das mulheres (continuação)
Relativamente à experiência de participar no grupo as mulheres identificaram
(a) Aspectos Emocionais Mais Difíceis, nomeadamente o presenciar e assistir ao
sofrimento das outras mulheres: “As outras mulheres... estavam a sofrer...
levar a cruz ao calvário como elas estão a levar, é sofrimento...”; o facto de
ouvirem relatos indicadores da ausência do veterano como pai na educação dos
filhos originando revolta: “o relacionamento entre pai e os filhos nunca foi
muito bom... porque viveu ausente deles, não os viu crescer...”; oimpacto da
doença do pai nos filhos: “... porque os filhos não têm culpa, nós também
não... mas nós somos as companheiras temos obrigação... agora os
filhos?!”.Relativamente às (b) Sugestões, as mulheresabordaram em maior
pormenor as consequências da doença que os maridos trouxeram da guerra e o seu
impacto nelas: “Eles vieram todos traumatizados, doentes, sei lá... com
problemas pró resto da vida. As esposas é que tiveram de os aturar, algumas
sabe Deus!”e sugerindo a organização de um outro grupo mais aprofundado, para
aprenderem a lidar melhor com os maridos e a “protegerem-se” da doença deles:
“há certas coisas que a gente não sabe e que seria bom continuar noutro
grupo... para aprendermos mais um pouco”.
“Impacto da Intervenção na Esposa/Casal”(Figura 2)
Ao nível do impacto desta intervenção em grupo, um dos componentes
identificados foi o (a) Carácter Educativo e de Aprendizagem, nomeadamente as
consequências da guerra poderem aparecer anos mais tarde: “Nunca pensei que
fossem coisas da tropa... pensei que fosse hereditário... sei lá... que fosse
da família dele...”.Esta intervenção parece também ter surtido efeito ao nível
de uma maior valorização do marido apesar dos seus problemas, “... porque
embora o meu marido tenha problemas graves não é tau mau como os maridos das
outras!”e ajudou na identificação de melhores atitudes para lidar e resolver
problemas com o marido: “vi que às vezes agia mal”, “Eu aprendi a actuar melhor
com ele... a chamá-lo à atenção com mais cuidado”.
O segundo componente deste tema diz respeito aos (b) Efeitos Positivos da
Participação no Grupo como a necessidade de falar sobre os problemas: “No grupo
senti-me à vontade para falar, porque dos problemas com ele, não falo! Falo
sozinha, comigo própria!”.A experiência de participar no grupo proporcionou uma
descatastrofização e minimização das situações críticas em casa: “Desde que
viemos para aqui estamos muito diferentes, mais compreensivas com tudo e
compreendemos o que de facto esta guerra fez. Já percebo melhor... porque é que
ele não pode ver fardas... não pode ver... ele às vezes diz me coisas que ainda
o marcaram... que lhe deixou marcas... e agora percebo porquê!”;facilitou a
compreensão do impacto da guerra na alteração da personalidade dos maridos:
“... quando o conheci e namorava, ele era uma excelente pessoa... mas nunca
mais encontrei o meu marido como ele era antes de ir para Angola... sei como
ele era e como ficou”;da mesma forma que proporcionou a criação de uma visão
alternativa dos problemas conjugais e familiares: “O mais importante foi
precisamente saber o que os outros passam para eu ter uma visão da vida
diferente...” e “não sabíamos de onde vinha aquilo... porque é que o pai era
tão mau para os filhos, é importante saberem que a culpa não é deles... mas que
também não é do pai, e saberem aceitar o pai tal como ele é”.
Por fim, e ainda relativamente à ultima área identificada, o impacto da
intervenção na esposa e no casal, refere-se às (c) Mudanças Operadas em Casa,
nomeadamente: a um aumento do diálogo com o marido e um maior interesse e
compreensão com as suas alterações de humor: “Eu conversava muito com ele sobre
problemas que eu via em casa e ele também ouvia coisas que o fizeram pensar
duas vezes. Abalaram com ele!”; maior auto-controlo e assertividade na relação,
melhor relacionamento entre o casal (negociação, expressão de afectos), “Eu há
muita coisa que me domino... há certas coisas que aprendi”, “Comecei a dizer:
‘agora não!’ Porque sei manter a paz! ‘Se vão começar... saio da mesa até vocês
acabarem de jantar, não quero barulho’”e, por fim, proporcionou um maior
diálogo com os filhos sobre os comportamentos mais difíceis do pai para com
eles, “Conversei com eles (filhos) e disse-lhes: ‘têm que falar de outra forma
com ele... é a doença da guerra, ninguém tem culpa, nem o pai... o que ele quer
é mimo. Quando fores falar com ele e ele for agressivo, vira costas e mais
tarde tentas outra vez e falas de outra forma e ele já vai aceitar’”.
DISCUSSÃO
A literatura indica que a intervenção com mulheres de veteranos de guerra deve
ter como objectivos a educação sobre o PTSD, a aquisição de competências e um
aumento da consciência dos seus recursos pessoais (Remer & Ferguson, 1998).
A educação sobre o PTSD é indispensável no tratamento da perturbação secundária
de stress traumático, dado que evita a culpabilização das mulheres bem como as
ajuda a compreender melhor o marido e a fornecer uma ajuda e suporte mais
eficazes. A intervenção deve também ter em conta as necessidades individuais
das mulheres em particular fomentar as suas capacidades para lidar melhor com o
veterano (Cowger, 1994, cit. Dekel & Solomon, 2007; Remer & Ferguson,
1998). De acordo com os nossos resultados, foi possível verificar que as
mulheres adquiriram mais conhecimentos acerca do PTSD e, um dos aspectos que se
revelou de extrema importância, foi a compreensão da sintomatologia associada,
o seu despoletar face a pequenos estímulos exteriores e o facto de poder surgir
e se manifestar muitos anos após o término do serviço militar. De igual modo,
as mulheres desenvolveram competências para melhor lidar com o marido,
principalmente competências de expressão emocional, negociação e de resolução
de problemas indo de encontro ao que a literatura sugere no sentido de ser útil
para estas mulheres desenvolver competências de comunicação, assertividade,
pensamento crítico e discurso interior positivo (Remer & Ferguson, 1998).
Aliás, as actividades que visam o apoio emocional e fomentam a interacção
social, como foi o caso, são fundamentais na intervenção no PTSD (Dekel &
Solomon, 2007; Lyons & Root, 2001).
No que diz respeito à tomada de consciência das suas próprias capacidades e
recursos para lidar com o veterano, os resultados mostraram que as mulheres
conseguiram identificar estratégias eficazes já adoptadas e sentiram-se
motivadas para operar novas mudanças. Estes dados vão de encontro com as
sugestões descritas por Dekel e Solomon (2007) que referem que as mulheres
devem procurar reconhecer em si próprias capacidades e competências para lidar
melhor com os problemas resultantes do PTSD do veterano e suas consequências
(Cowger, 1994, cit. Dekel & Solomon, 2007). De igual modo, o ambiente do
grupo facilitou os recursos e o apoio emocional necessários ao treino das novas
competências, através da aprendizagem vicariante e do “role-reversal” (Remer
& Ferguson, 1998).
As razões que levaram estas mulheres a participar no grupo realçam exactamente
a motivação para a aprendizagem e para operar mudanças de forma a viver melhor
com o marido, mas também a necessidade de convívio e partilha de problemas. De
facto, os estudos têm vindo ao longo dos anos a referir que as mulheres dos
veteranos de guerra vivem em isolamento (Coughlan & Parkin, 1987; Kulka et
al., 1990), sofrem de uma grande solidão e possuem uma vida social pobre
(Coughlan & Parkin, 1987; Jordan et al., 1992; Solomon et al., 1992). A
literatura indica também que as mulheres de veteranos possuem estratégias de
coping limitadas (Kulka et al., 1990; Verbosky & Ryan, 1988), tendo sido,
por esse motivo, de grande importância abordar estratégias de resolução de
problemas mais adaptativas e eficazes como estratégias de relaxamento e
promoção do bem-estar para lidar com os seus próprios sintomas de stress.
Contudo, a experiência de participar no grupo teve também aspectos difíceis de
lidar ao nível emocional, nomeadamente, o presenciar e assistir ao sofrimento
das outras mulheres, a tomada de consciência do impacto do PTSD nos filhos e as
dificuldades de relacionamento entre pai e filhos.
Relativamente ao impacto do PTSD do veterano, as mulheres referem que viveram
um processo gradual de anulação das próprias necessidades e desejos, assumindo
ao longo do tempo inúmeras responsabilidades que se associaram a uma sensação
de sobrecarga. De igual modo, assumiram a responsabilidade de educação e
acompanhamento dos filhos. Estes resultados são consensuais com os dados
verificados em diversos estudos que referem que estas mulheres são consideradas
“super-mulheres” (Maloney, 1988) pela sobrecarga de tarefas, papéis e
responsabilidades (Kulka et al., 1990; Verbosky & Ryan, 1988; Wiliams,
1980) e que estas exigências levam-nas a descrever um “estado de esgotamento
nervoso” (Herndon & Law, 1986 e Kulka et al., 1988, cit. Solomon et al.,
1992). Tal como Lyons (2001) verificou, as mulheres do nosso estudo vivem
centradas nas necessidades do veterano e da relação conjugal (Lyons, 2001) e
desinvestem das suas próprias necessidades, gerando um sentimento forte de
desesperança e uma baixa auto-estima (Williams, 1980). Para além destes
aspectos, estas mulheres consideram-se também cuidadoras do veterano e algumas
consideram mesmo ter um papel semelhante ao da figura maternal, dado que
frequentemente o veterano não está capaz de ter um papel activo. Dekel,
Goldblatt, Keidar, Solomon, e Polliack (2005) no seu estudo qualitativo onde
estudam a percepção da relação conjugal das mulheres casadas com veteranos de
guerra, fazem referência aos dados obtidos em relação a uma das esposas que
considera o seu marido como um filho tratando-o como tal. O papel destas
mulheres como cuidadoras dos maridos tem vindo a ser estudado e os resultados
indicam que as mulheres dos veteranos possuem um elevado nível de burnout e
exaustão emocional (Arzi, Solomon, & Dekel, 2000) e, por consequência, um
pobre ajustamento psicológico. O burnout ou sobrecarga dos cuidadores é um
predictor forte do ajustamento psicológico quando avaliado através do SCL-90
tendo em conta os valores do Índice Geral de Sintomas (Beckham et al., 1996).
Ainda assim, estas mulheres demonstram a capacidade de identificar qualidades
em si próprias nomeadamente a força e a motivação para continuarem a tentar
lidar cada vez melhor com o marido.
No nosso estudo, as mulheres fazem referência à existência de agressividade
física na relação. Também Matsakis (1996) verificou que 25 a 50% das mulheres
que participavam em terapia de grupo para mulheres de veteranos de guerra com
PTSD foram alvo de violência física, bem como de violência psicológica e
agressividade verbal (Williams, 1980). Byrne e Riggs (1996) verificaram que
100% dos veteranos da sua amostra relatavam ter exercido violência psicológica
durante o ano anterior facto confirmado pelo relato das suas esposas. Contudo,
as mulheres da nossa amostra atribuem maior gravidade à agressividade
psicológica que sobre elas é exercida. É importante ressalvar que o nível de
agressividade conjugal está associado ao aumento da sensação de burnout nestas
mulheres, juntamente com a severidade do quadro de PTSD (Calhoun et al., 2002).
Um outro dado importante que sobressai dos nossos resultados é o facto das
mulheres não equacionarem a possibilidade do divórcio. Este resultado contraria
alguns estudos que verificaram exactamente o contrário, onde foi verificado que
os veteranos com PTSD têm o dobro da probabilidade de serem divorciados ou de
experienciar múltiplos divórcios (Jordan et al., 1992), apresentando uma taxa
de divórcio elevada tendo em conta a restante população (Center for Policy
Research, 1979, cit. Dekel & Solomon, 2007). Estes resultados em relação ao
divórcio seriam de esperar se as mulheres casadas com veteranos de guerra, com
PTSD, apresentassem mais conflito conjugal (Riggs et al., 1998), maior
insatisfação com o casamento (Jordan et al., 1992), referindo maior
infelicidade (Kulka et al., 1990). Contudo, isso não se verificou no nosso
estudo nem num estudo levado a cabo com casais de Veteranos com PTSD Israelitas
onde não foi encontrada uma taxa de divórcio diferente do restante da população
e as razões apontadas referem o forte sentimento de compromisso; o receio pela
vida e estado psicológico do marido, em particular possíveis tentativas de
suicídio; as recordações do passado de uma boa relação conjugal antes da guerra
ou antes do início das manifestações da sintomatologia de PTSD; a obrigação
moral de não abandonar um marido doente; os aspectos sociais e religiosos e,
finalmente, o facto de existir um processo de crescimento pós traumático nestas
mulheres (Dekel et al., 2005). No nosso estudo, as mulheres referem ter receio
que o veterano tenha alguma atitude ou comportamento que coloque a vida dele em
risco, contudo tendo em conta a cultura religiosa e os valores tradicionais que
defendem a união da família particularmente numa zona com um cariz religioso,
como o distrito de Braga, podemos também equacionar a hipótese de estes serem
os motivos das reduzidas taxas de divórcio nos veteranos. Em relação à
possibilidade de existir um crescimento pós traumático após a exposição a
situações traumáticas (Tedeschi & Calhoun, 1996), ainda que Dekel e
colaboradores (2005) tenham verificado a sua presença no seu estudo qualitativo
com mulheres de veteranos de guerra de Israel e, mais recentemente, numa
amostra de mulheres de veteranos que foram prisioneiros na guerra (Dekel,
2007). Na presente amostra, este aspecto não foi referido por nenhuma das
mulheres.
Os resultados apontam para o facto das mulheres considerarem o relacionamento
sexual como algo obrigatório e, este dado, vai de encontro à literatura que
indica que as mulheres frequentemente apresentam problemas ao nível da
intimidade (Coughlan & Parkin, 1987; Jordan et al., 1992; Solomon et al.,
1992), pouco desejo sexual (Westerink & Giarratano, 1999) e problemas no
funcionamento familiar (Pereira, 2003).
Finalmente, os resultados sugerem um desinvestimento por parte das mulheres na
sua saúde física. A literatura indica que a intervenção nas mulheres de
veteranos de guerra deve ajudá-las a encontrar um equilíbrio saudável entre as
suas próprias necessidades e as necessidades do marido (Remer & Ferguson,
1998). Neste sentido, no decorrer do grupo foram partilhadas informações e
sugeridas alterações na rotina com o objectivo de obter um estilo de vida mais
saudável ao nível dos comportamentos de prevenção e práticas de saúde. Se
tivermos em conta que frequentemente as mulheres de veteranos da guerra
apresentam dor crónica, dores de cabeça, lombalgia, fadiga crónica, indigestão
e uma maior susceptibilidade a infecções (Foy, 1994, cit. Koic et al., 2002), a
ênfase sobre a saúde física parece ser uma área essencial a desenvolver e a
trabalhar ao nível da intervenção tendo em conta o desinvestimento verificado
nesta área no nosso estudo.
CONCLUSÃO
A literatura indica que as taxas de participação das mulheres de veteranos em
grupos de apoio são baixas (Lyons & Root, 2001). Se por um lado, as
mulheres procuram mais facilmente ajuda para os maridos e até os acompanham,
encontram várias dificuldades e constrangimentos quando o apoio se dirige a si
e.g., horários, custos, distância até ao local, o facto de serem cuidadoras de
crianças (netos) e frequentemente objecção do marido (Dekel & Solomon,
2007). Assim é um desafio para os técnicos diminuir estes constrangimentos e
tornar esta participação acessível a um maior número de mulheres.
Os resultados deste estudo revelaram que a Perturbação de Stress Pós Traumático
tem impacto na esposa e na relação conjugal. Neste sentido, a intervenção em
grupo parece ter contribuído para as mulheres lidarem melhor com PTSD do
veterano, compreendendo as suas reacções e identificando os sintomas. Este
facto teve como consequência uma maior valorização do marido, maior motivação
para operar mudanças e maior compreensão nas situações conjugais e familiares
mais críticas. A descatastrofização e a minimização dos problemas foi também um
dos resultados que levou a uma maior motivação para operar mudanças. Enquanto
algumas mulheres aumentaram o seu sentimento de auto-eficácia por perceberem
que tinham atitudes e estratégias adaptativas e funcionais, outras aprenderam
diferentes formas de lidar com os maridos e com os problemas, aumentando o
sentido de auto-controlo, a assertividade, as estratégias de resolução de
problemas e as técnicas de comunicação verbal e não verbal.
Relativamente à influência do grupo na relação conjugal e familiar, para além
de uma maior compreensão, as mulheres desenvolveram a capacidade de ouvir,
permitindo uma maior abertura de comunicação entre o casal. O grupo estimulou a
necessidade de conviverem e se relacionarem, reduzindo o isolamento social em
que normalmente viviam. Esta experiência em grupo permitiu também criar um
espaço para as mulheres puderem pensar em conjunto sobre os seus problemas e
como os resolver. Ao nível da saúde física, o grupo permitiu o treino de
comportamentos saudáveis, como a actividade física, alimentação saudável,
incentivo à realização de exames de rotina, com carácter preventivo e, por fim,
actividades de lazer que proporcionassem bem-estar.
Em suma, o grupo de suporte parece ter contribuído para dar às mulheres um
sentido de controlo quer ao nível pessoal quer conjugal.
IMPLICAÇÕES
Passados trinta anos o apoio prestado aos Veteranos continua a ser deficitário
tendo em conta as possíveis perturbações psicológicas resultantes da exposição
a teatro de guerra, entre elas a perturbação de stress pós traumático mas
também todos os quadros clínicos associados. Neste sentido, as implicações
deste trabalho reflectem-se a dois níveis, i.e., ao nível do Veterano e ao
nível da sua família, sendo necessário não só apoiar os veteranos mas também
ajudar as famílias a minimizar os efeitos negativos do convívio prolongado com
a sintomatologia do veterano de guerra. Por outro lado, não podemos ignorar o
facto dum mau funcionamento familiar poder interferir com a eficácia da
intervenção dirigida ao PTSD do veterano (Tarrier, Sommerfield, & Pilgrim,
1999).
Tendo em conta os resultados do nosso estudo, aumentar o conhecimento e
informação das companheiras acerca da perturbação de stress pós traumático,
possibilita uma maior compreensão e controlo da sintomatologia, por parte
destas, tendo também um impacto directo nos comportamentos do veterano. Em
relação aos filhos, parece-nos indispensável proporcionar também ajuda ao nível
da compreensão do PTSD e, se necessário, desenvolver intervenções dirigidas à
sintomatologia de traumatização secundária.
Uma outra área importante de intervenção com as mulheres é a promoção de
actividades sociais e de bem-estar. Westerink e Giarratano (1999) referem que
estas mulheres beneficiam de grupos de suporte pela oportunidade de trocar
experiências com outras mulheres e, desta forma, aumentar o suporte social.
Neste sentido, a experiencia de participar no grupo estimulou a manutenção de
contactos futuros com os restantes elementos, bem como a motivação para iniciar
e participar em actividades de bem-estar e saúde.
Por fim, os resultados desta investigação evidenciam a importância de
desenvolver estudos quantitativos sobre a desordem secundária de stress
traumático nas companheiras dos veteranos de forma a podermos aumentar o
conhecimento generalizado sobre o impacto do PTSD nesta população.
Antes de terminar, gostaríamos de referir que o presente estudo se focou apenas
em esposas de Veteranos de Guerra do distrito de Braga pelo que os resultados
devem ser lidos com cuidado.