O estado de arte do conceito de psicopatia
De um modo geral, os estudos indicam que a psicopatia se manifesta numa série
de condutas que são resultado de factores biológicos e da personalidade,
relacionados com uma série de antecedentes familiares e outros factores
ambientais. No entanto, a definição do conceito de psicopatia, e o impacto que
esta perturbação apresenta nos contextos forense e clínico, implicam o
desenvolvimento de mais investigações.
No sentido de enquadrar a importância deste conceito e definir o seu
"estado de arte", serão apresentados neste artigo os aspectos que
definem o conceito de psicopatia e a sua evolução. Procura-se assim, contribuir
para uma sistematização deste conceito tão importante para a compreensão do
fenómeno da criminaidade, e para a prevenção e intervenção nos contextos da
criminalidade com contornos de maiores índices de reincidência e violência.
O CONCEITO DE PSICOPATIA
Definir psicopatia, reveste-se de grande complexidade. Na verdade, a definição
deste conceito foi alvo de várias influências, quer em termos da sua evolução
na vertente científica, quer em termos da sua utilização ao nível da linguagem
de senso comum, onde este conceito surgiu como sinónimo de "louco"
ou "criminoso" (Gonçalves, 1999b).
A evolução científica do conceito apresentou vários percursos determinados por
aspectos sociais, morais e estereótipos associados à comunidade científica
(Gonçalves, 1999a). A falta de consenso relativamente à designação atribuída à
perturbação em análise e aos indicadores que a caracterizam são os aspectos que
marcaram esta fase de definição do conceito. Na verdade, como alternativa ao
termo de psicopatia, surgiram designações como perturbação de carácter (Millon,
1981), perturbação da personalidade anti-social (American Psychiatric
Association - APA, 1980), perturbação da personalidade dissocial (World
Health Organization - WHO, 1965, citado por Gonçalves, 1999b) e
sociopatia (Partridge, 1930) diversidade que introduziu limitações no
enquadramento conceptual e avaliativo desta perturbação grave da personalidade.
Estas definições integravam indicadores diversos da perturbação, sendo, por
exemplo, o conceito de perturbação de carácter muito abrangente, enquanto os
conceitos de perturbação da personalidade anti-social e de personalidade
dissocial e sociopatia se referiam principalmente aos indicadores
comportamentais associados a esta perturbação.
A definição clara de psicopatia é algo fundamental, devido às suas implicações
na investigação, diagnóstico, avaliação, intervenção e replicabilidade de
resultados na área de estudo referente às perturbações da personalidade
(Gonçalves, 1999b). Atendendo à importância de uma clara definição deste
conceito, serão analisados, no presente artigo, os aspectos mais relevantes que
surgem associados a esta problemática.
A evolução da definição do conceito de psicopatia pode ser dividida em dois
grandes momentos que são marcados pelo trabalho efectuado por Cleckley (1941/
1976) e pelo desenvolvimento, a partir de 1952, da classificação das
perturbações mentais realizada pela Associação Americana de Psiquiatria
(American Psychiatric Association) (cf. DSM-I; American Psychiatric
Association, 1952, citado por Soeiro, 2006), trabalhos que marcaram as
definições mais recentes.
AS PRIMEIRAS ABORDAGENS DO CONCEITO DE PSICOPATIA
É pacífico que o conceito de psicopatia surgiu do trabalho desenvolvido por
Pinel em 1809, que de forma mais específica introduziu o conceito de
"mania sem delírio" para designar aqueles indivíduos que mostravam
acções atípicas e agressivas. Em 1812 o americano Rush nos seus trabalhos
atribuiu a insensibilidade dos psicopatas a um defeito congénito que, no
entanto, não identificou (Cantero, 1993).
Pritchard, um psiquiatra inglês, introduziu em 1835, o termo de insanidade
moral para se referir aos sujeitos cuja moral ou princípios de conduta eram
fortemente pervertidos e indicadores de comportamento anti-social. Prichard,
seguidor da escola ambientalista, foi o primeiro a atribuir a esta perturbação
a influência do meio, propondo como meio de intervenção, na psicopatia, o
recurso a medidas ambientais que possibilitassem a estes indivíduos integrar-se
num meio adequado e ultrapassar assim o problema (Cantero, 1993).
Esta concepção contribuiu para o desenvolvimento de escolas educativas para
jovens com comportamento desviante. A designação de insanidade moral,
apresentada por Pritchard, foi posteriormente colocada em causa, já que este
termo surgia associado, igualmente, a outras anomalias psíquicas que não
integravam a psicopatia e porque o termo moral foi questionado por vários
actores sociais, desde a área jurídica até à religiosa.
Koch, psiquiatra alemão, como resposta à problemática introduzida por
Pritchard, apresentou em 1888 uma outra proposta de conceito para esta
perturbação da personalidade. Assim, este autor apresentou o conceito de
"inferioridade psicopática", que definiu como uma anomalia de
carácter, em grande parte devido a aspectos congénitos ou ainda a aspectos
resultantes de enfermidade psíquica (Gonçalves, 1999a).
Mas é Kraepelin entre 1896 e 1915, que introduziu o termo de
"personalidade psico-pática", conceito utilizado até aos dias de
hoje. Esta designação surgiu integrada numa tipologia mais vasta de treze
categorias base, elaborada por este autor, e que procurava descrever um tipo de
indivíduos com indicadores de comportamento criminal anormal ou imoral (Lykken,
1995).
O início do século XX é marcado por um conjunto importante de desenvolvimentos
relativamente ao estudo da psicopatia, identificando-se uma maior orientação
para o estudo dos indicadores comportamentais desta perturbação (Cantero,
1993).
Entre 1923 e 1955 Schneider realizou importantes contribuições no campo da
psicopatia. Este autor utilizou o termo "personalidade psicopática"
como uma entidade integradora de certas patologias, apresentando uma clara
distinção entre os conceitos de doença mental e de psicopatia. O autor
considerou ser errado definir como doença mental uma perturbação que tem por
base traços psíquicos (Cantero, 1993). A sua classificação baseava-se, então,
nos traços disposicionais associados ao estudo da personalidade e das vivências
que determinavam o desenvolvimento da mesma. Nesta perspectiva, a psicopatia
está relacionada com desvios quantitativos das características normais da
personalidade, salientando-se, desta forma, a importância dos aspectos
predisposicionais (Gonçalves, 1999a). Este conjunto de indicadores está na base
da sua tipologia das personalidades psicopáticas.
Schneider (1923/1955), classificou as personalidades psicopáticas em 10
categorias distintas: (1) Hipertímicos; (2) Depressivos; (3) Inseguros; (4)
Fanáticos; (5) Carentes de valor; (6) Lábeis de humor; (7) Explosivos; (8)
Apáticos; (9) Abúlicos; (10) Asténicos. Apesar desta tipologia, o autor chamou
ainda a atenção para a identificação de diversas combinações com gradações
diferentes. Segundo Gonçalves (1999a), este trabalho corresponde a uma
tentativa de precisão do diagnóstico da psicopatia, que teve já o contributo de
outros autores como Koch e Kraepelin.
As definições até aqui apresentadas podem ser consideradas como as primeiras
tentativas de definir este conceito. Segue-se uma análise das definições mais
actuais do conceito.
AS ABORDAGENS CONTEMPORÂNEAS DO CONCEITO DE PSICOPATIA
A perspectiva clínica do conceito
Uma das contribuições mais importantes na definição actual de psicopatia deve-
se ao trabalho de Cleckley, que proporcionou uma descrição clínica mais
detalhada da psicopatia e suas diversas manifestações. São os critérios
clínicos a base da investigação desenvolvida por este autor. No seu livro
"The Mask of Sanity" (1941/1976) apresentou um perfil da
psicopatia, indicando os traços mais significativos da perturbação: (1) Encanto
superficial e boa inteligência; (2) Inexistência de alucinações ou de outras
manifestações de pensamento irracional; (3) Ausência de nervosismo ou de
manifestações neuróticas; (4) Ser indigno de confiança; (5) Ser mentiroso e
insincero; (6) Egocentrismo patológico e incapacidade para amar; (7) Pobreza
geral nas principais relações afectivas; (8) Vida sexual impessoal, trivial e
pouco integrada; (9) Ausência de sentimentos de culpa ou de vergonha; (10)
Perda específica da intuição; (11) Incapacidade para seguir qualquer plano de
vida; (12) Ameaças de suicídio raramente cumpridas; (13) Raciocínio pobre e
incapacidade para aprender com a experiência; (14) Comportamento fantasioso e
pouco recomendável com ou sem ingestão de bebidas alcoólicas; (15) Incapacidade
para responder na generalidade das relações interpessoais; (16) Exibição de
comportamentos anti-sociais sem escrúpulos aparentes. Para este autor a
principal característica do psicopata é a deficiente resposta afectiva face aos
outros, o que explicaria a forte relação com condutas anti-sociais.
É no trabalho de Cleckley (1941/1976) que se baseiam as definições mais
recentes de psicopatia, principalmente as que se inserem numa vertente clínica
do conceito. São os critérios clínicos definidos por este autor que estão na
base das investigações desenvolvidas, e que assentam sobretudo no recurso a
questionários de personalidade, entre os quais se destacam o Minnesota
Multiphasic Personality Inventory - MMPI (Hare, 1996; Hare & Cox,
1978).
Buss (1966) descreveu a psicopatia de acordo com dois componentes distintos:
sintomas e traços da personalidade. Os sintomas consistiam em comportamentos
centrados na busca de estimulação, desrespeito pelas convenções, incapacidade
para controlar impulsos ou adiar gratificações, rejeição da autoridade e
disciplina, raciocínio pobre na avaliação de comportamentos mas bom em
situações e comportamentos associais e anti-sociais. Os traços de personalidade
referem-se a relações interpessoais defeituosas ou uma incapacidade fundamental
para amar ou para estabelecer amizades verdadeiras, inexistência de intuição
própria, ausência de culpa ou vergonha e, por último, uma fachada de
competência e maturidade que mascaram uma inconsistência geral e a incapacidade
para ser digno de confiança.
Buss (1966) propôs ainda um padrão tridimensional de características manifestas
da psicopatia. Assim o psicopata é: (a) uma pessoa vazia e isolada; (b) não tem
uma identidade basilar e (c) não tem perspectiva de controlo do tempo.
McCord e McCord (1964) efectuaram uma extensa revisão de literatura relativa ao
conceito de psicopatia, de onde resultou a identificação de um conjunto de
características que melhor define esta perturbação. Segundo estes autores a
psicopatia estaria relacionada com a "incapacidade para amar" e a
"ausência de sentimentos de culpa". Estas características estariam
na base dos comportamentos anti-sociais apresentados pelos indivíduos com este
tipo de perturbação.
McCord e McCord (1964) caracterizaram os psicopatas como pessoas associais,
agressivas, altamente impulsivas, egocêntricas, com baixo limiar de tolerância
à frustração e incapazes de manter laços afectivos com outros humanos. O
psicopata é assim descrito como possuindo uma personalidade desajustada e
regulada por desejos primitivos e por uma busca exagerada de sensações.
Perante este conjunto vasto de alterações da personalidade que surgem
associadas ao conceito de psicopatia, na sua vertente mais clínica, muitas
áreas de investigação deste tipo de perturbação abandonam a utilização do
mesmo, considerando-o como inoperante e moralista (Doren, 1987). Este contexto
levou ao desenvolvimento de outras perspectivas de investigação com impacto na
definição do conceito de psicopatia.
As classificações nosológicas e a perspectiva categorial de psicopatia
Pichot (1978, citado por Soeiro, 2006) ao procurar fazer um ponto de situação
relativamente à definição de psicopatia, identificou a influência de duas
posições distintas na sua caracterização: uma das posições baseava-se no
trabalho de Pritchard (1985, citado por Gonçalves 1999a) e do seu conceito de
insanidade moral, e a outra no trabalho de Schneider (1923/1955), relativo ao
termo de "personalidade psicopática" (Gonçalves, 1999b). Para
Pichot a confusão surgiu quando a perspectiva inglesa recorreu ao termo
germânico e lhe atribui um significado que nem sempre lhe era aplicado, já que
para Schneider a psicopatia não resultava forçosamente de uma inadequação
social. Segundo Pichot, esta confusão no uso dos termos acabou por influenciar
a elaboração das classificações nosológicas das doenças mentais.
As classificações nosológicas das doenças mentais permitiram o desenvolvimento
de uma abordagem categorial no que se refere à definição de psicopatia. Assim,
nesta vertente de estudo da perturbação salientou-se, em primeiro lugar, a
influência do conceito de personalidade sociopática de Partridge (1930, citado
por Gonçalves, 1999a), que foi adoptado pela American Pychiatric Association,na
1ª edição do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (DSM-
I; APA, 1952, citado por Cantero, 1993).
Partridge (1930) referiu-se ao conceito de personalidade sociopática para
designar a incapacidade ou falta de vontade de alguns sujeitos para se
sujeitarem às leis da sociedade. O uso deste conceito perdurou até à edição de
1980, ano em que a DSM-III passou a utilizar o termo de "perturbação da
personalidade antisocial", recorrendo ao conceito originalmente empregue
por Prichard e aos trabalhos desenvolvidos por Robins (1966, 1978).
Robins (1966) desenvolveu uma descrição comportamental da psicopatia focalizada
nos comportamentos observáveis, e, por consequência, mensuráveis, não sendo
necessário para definir a perturbação, inferir sobre os processos psicológicos
subjacentes. Através desta abordagem a autora procurou clarificar o diagnóstico
de psicopatia, excluindo os indicadores que poderiam remeter para o diagnóstico
de esquizofrenia, atraso mental, lesão orgânica ou comportamentos anti-sociais
relacionados com os consumos de substâncias.
Segundo Robins (1966) esta opção visava responder à necessidade de se
estabelecerem critérios psicológicos para um diagnóstico mais objectivo desta
perturbação. Deste trabalho resultou um diagnóstico de psicopatia baseado em
aspectos comportamentais, que podem ser observados e medidos, não considerando
os factores de natureza clínica que definem esta perturbação da personalidade.
Deste modo, na versão da DSM-III-R (American Psychiatric Association, 1987)
foram apresentados os indicadores fundamentais para a definição desta
perturbação. Assim, o conceito apresentado definiu a perturbação a partir de um
conjunto de comportamentos anti-sociais, já identificados antes dos 15 anos de
idade, mas que persistiam ou se alteravam para outro tipo de comportamentos
anti-sociais. Os comportamentos que definiam a perturbação englobavam: a
mentira frequente, roubo, absentismo escolar, vandalismo, fugas de casa e
crueldade para com os animais e as pessoas. Estes comportamentos evoluíam para
outro tipo de problemas mais complexos como a ausência de responsabilidade
financeira e familiar, incapacidade para efectuar projectos futuros e manter um
posto de trabalho de forma contínua, envolvimento em actos anti-sociais e
criminais que poderiam culminar na prisão.
Do ponto de vista comportamental eram ainda referidos como indicadores
importantes a agressividade e impulsividade e o envolvimento em experiências de
risco, como condução veloz sob a influência do consumo de substâncias como
álcool ou drogas. No que se refere aos aspectos emocionais, foram definidos
como centrais a ausência de sentimentos de culpa e a dificuldade em estabelecer
relações afectivas estáveis.
As edições posteriores desta classificação das perturbações psicopatológicas, a
DSM-III-R (APA, 1987) e a DSM-IV (American Psychiatric Association, 2002)
mantiveram a noção de "perturbação da personalidade anti-social",
se bem que a última edição incluía já características da psicopatia definidas
por Cleckley (1976) e apresentadas no trabalho de Hare (1991).
As versões mais recentes, DSM-IV (APA, 1994, citado por Soeiro, 2006)
apresentam, assim, algumas alterações que correspondem a uma agregação,
simplificação e alteração dos critérios que definem a perturbação. Os
indicadores que são considerados nestas versões centram-se claramente em
aspectos relativos ao estilo de vida anti-social, e não em indicadores clínicos
(sintomas interpessoais e afectivos) (Hart, Cox, & Hare, 1995). Na verdade,
estes aspectos têm sido alvo de polémica já que, segundo esta noção, se por um
lado se reduz o grupo de indivíduos que podem ser classificados com esta
perturbação, a verdade é que os indicadores integram mais facilmente indivíduos
que apresentam comportamentos criminais (Hart, Cox, & Hare, 1995; Hare,
Hart, & Harpur, 1991). Tal como o refere Gonçalves (1999a,b), cerca de ¾
dos indivíduos presos em Portugal apresentam comportamentos que permitem que
sejam classificados como possuindo uma perturbação da personalidade de cariz
anti-social. Assim, na prática o que acontece, é incluir os delinquentes comuns
reincidentes, com um alargado historial delituoso, nessa classificação, mas
excluir muitos sujeitos realmente psicopatas que não mostraram essa actividade
tão marcadamente anti-social.
Apesar de a DSM-IV (APA, 1994, citado por Soeiro, 2006) considerar importante
os sintomas interpessoais e afectivos, na prática não apresenta uma orientação
no modo como podem ser avaliadas (Hart, Cox, & Hare, 1995)1. Esta limitação
mantém-se na versão mais recente desta classificação a DSM-IV-TR (APA, 2002).
A DSM não constituiu a única classificação das perturbações psicopatológicas
com impacto na definição da psicopatia. Na verdade, a International
Classification of Diseases(ICD-8, World Health Organization, 1965; ICD-10,
World Health Organization, 1987, citado por Gonçalves, 1999b), baseando-se na
terminologia de Schneider, coloca o conceito de psicopatia como termo genérico
para este grupo de perturbações. O conceito de perturbação de personalidade
dissocial, surge como uma designação específica, que em última análise passou a
ser considerado como sinónimo do conceito de personalidade anti-social
apresentada pela classificação da American Psychiatric Association.Atendendo ao
maior impacto do trabalho desenvolvido pela American Psychiatric Association,e
considerando que no contexto dos EUA o termo dissocial possuía um enquadramento
diferente de anti-social2, o último termo passou a ser mais utilizado nos
trabalhos de natureza científica sobre as temáticas da antisocialidade
(Gonçalves, 1999b).
O impacto da perspectiva tipológica
Para além das concepções que se inserem numa vertente clínica e categorial,
pode ainda ser identificado um conjunto de definições que se inserem numa
abordagem tipológica.
Nos anos sessenta surgiram as definições e classificações de psicopatia que
procuravam articular os indicadores da realidade com a definição do conceito.
Inserido principalmente numa abordagem clínica de psicopatia, cada autor tendia
a descrever esta perturbação em função da importância que dada a uma ou várias
características a ela associadas (Cantero, 1993). A maior parte das definições
eram centradas nos traços clínicos relativos ao egocentrismo, ausência de
empatia e sentimentos de culpa e de estabelecimento de relações afectivas com
os outros (Hare, 1970).
Nesta linha de investigação, Karpman (1961, citado por Gonçalves, 2000) definiu
o psicopata como uma pessoa instável e emocionalmente imatura. As suas reacções
surgem simples e provocadas por situações de frustração ou de algo que incomoda
o psicopata. Não experimentam ansiedade nem medo, as suas relações sociais e
sexuais são superficiais, as recompensas/castigos não têm qualquer efeito sobre
o seu comportamento imediato. Este autor refere, no entanto, que estes
indivíduos, apesar de serem simples nas suas reacções emocionais, são capazes
de simular estados emocionais e afectos para com os outros sempre que isso lhes
permita atingir os objectivos que pretendem.
Karpman (1941, citado por Gonçalves, 2000) distinguiu dois tipos de psicopatas:
o sintomático e o ideopático. Posteriormente, este autor apresentou uma outra
tipologia que definiu por tipo agressivo-predador e tipo passivo-parasita
(Karpman, 1955, citado por Gonçalves, 1999b). Procurando definir, de um modo
geral, cada um dos tipos apresentados por este autor, verifica-se que o
primeiro corresponde a indivíduos com um comportamento frio, agressivo e
insensível e com o objectivo de se apropriarem de tudo o que desejam, enquanto
no segundo possuem uma aparente necessidade de ajuda e simpatia, alcançando os
seus propósitos de forma parasita.
Nesta linha de investigação podem ser igualmente consideradas as concepções de
psicopatia que possuem por base os estudos efectuados a partir de tratamentos
estatísticos, principalmente com recurso à análise factorial. Estes estudos
procuraram identificar grupos (clusters) de traços de personalidade que
permitissem definir os vários tipos de personalidades psicopáticas. Os
trabalhos desenvolvidos nesta linha de investigação tiveram por base análise da
história de vida dos indivíduos, rating scales, questionários de auto-relato e
inventários de personalidade (Gonçalves, 1999a). Importa considerar aqui os
trabalhos desenvolvidos por Jenkins (1960, citado por Gonçalves, 2000), Quay e
colaboradores (Quay, 1965; Quay & Parsons, 1971) e Blackburn (1971, 1978,
1986).
Considerando o trabalho desenvolvido por Jenkins (1960, citado por Gonçalves,
2000), este tinha por base a análise de grupos de crianças com história de
comportamento delinquente. Da análise dos resultados do estudo, o autor obteve
três tipos distintos de psicopatas: o primeiro grupo, que definiu como
"não socializado-agressivo" era definido por tendências agressivas,
crueldade, desafio à autoridade e sentimentos inadequados de culpa;
o segundo grupo, definido por "sobre-ansioso", caracterizava-se por
timidez, apatia, sensibilidade e submissão; o terceiro grupo, designado por
"socializado", surge associado a grupos anti-sociais, com
envolvimento em grupos com história de roubo e ausências da escola e de casa
(Gonçalves, 1999a).
Quanto ao trabalho de Quay e colaboradores (Quay, 1965; Quay & Parsons,
1971), este permitiu a identificação de dois factores que permitiram definir a
psicopatia: a delinquência psicopática, que integrava aspectos como fraca
moralidade, rebeldia, impulsividade, e ausência de laços familiares; e a
delinquência neurótica, que correspondia a tendências agressivas e impulsivas,
sentimentos de culpa, remorsos, tensão e depressão. Posteriormente foi
identifi-cado por Quay (1977, citado por Gonçalves, 1999a) mais dois grupos de
indivíduos, levando ao desenvolvimento de uma tipologia definida por quatro
factores: "sub-socialização" e "socialização",
"défice de atenção" e "ansiedade-retraimento-disforia".
Estes trabalhos deram suporte aos estudos da perspectiva clínica, desenvolvidos
por Karpman (1955, citado por Gonçalves, 1999b) e de Lykken (1957), já que
replicaram uma divisão factorial para definir psicopatia semelhante à
apresentada pelos autores da vertente clínica. Assim, o psicopata agressivo
corresponde à designação de psicopata primário, enquanto o psicopata neurótico
corresponde à caracterização do psicopata secundário.
Os trabalhos desenvolvidos por Blackburn (1971, 1975, 1986), com base em
amostras de agressores violentos e com recurso ao MMPI, confirmaram igualmente
os dados anteriores. Nos seus estudos Blackburn conseguiu obter duas dimensões
distintas em que os agressores podeiam ser diferenciados: os sub-controlados e
os sobre-controlados. Destes trabalhos resultou uma tipologia que subdividia os
psicopatas em quatro subgrupos: (1) psicopatas primários; (2) psicopatas
secundários; (3) psicopatas inibidos; (4) psicopatas conformados (Blackburn,
1984).
Howells e Hollin (1988, citado por Gonçalves, 2000) afirmaram que estes quatro
subgrupos podiam ser encontrados na população prisional e que existiam
diferenças na personalidade e no comportamento entre os subgrupos. Assim, os
psicopatas primários apresentavam baixa ansiedade e elevada extroversão, ao
contrário dos psicopatas secundários que eram definidos como introvertidos e
com elevada ansiedade. Blackburn (1984) verificou que 52% de psicopatas
primários e 8% de psicopatas inibidos tinham história de reincidência de actos
violentos.
Estes dados foram igualmente confirmados por trabalhos desenvolvidos
posteriormente por Lykken (1995), Levenson, Kiehl, e Fitzpatrick (1995) e Ross,
Lutz, e Bailley (2004). Destes estudos resultou uma tipologia que define os
psicopatas primários como indivíduos insensíveis, pouco ansiosos, calculistas,
manipulativos e mentirosos, e os psicopatas secundários, que genericamente se
considera que sofrem de uma desordem neurótica, que estimula o comportamento
impulsivo por eles apresentado.
Estes trabalhos envolveram uma abordagem do conceito de psicopatia, que
desencadeou o desenvolvimento de uma tipologia que dicotomiza o comportamento
destes indivíduos em psicopatas primários e secundários, e que ainda hoje é
alvo de discussão e controvérsia (Blackburn, 1993; Blackburn & Coid, 1998;
Ross, Lutz, & Bailley, 2004), já que autores como Hare (1991, 2003)
defendem uma definição do conceito unidimensional (Soeiro, 2006).
A abordagem dimensional do conceito de psicopatia
Enquadrando uma abordagem unidimensional do estudo do conceito de psicopatia,
surgem os trabalhos desenvolvidos por Robert Hare. Este autor é um dos
investigadores que mais contribuiu para o estudo do conceito de psicopatia e
para a sua avaliação.
A noção de psicopatia que Hare (1991, 2003) apresenta opõe-se a uma abordagem
tipológica do conceito, tal como é apresentado pelos trabalhos de Levenson,
Kiehl, e Fitzpatrick (1995) e Ross, Lutz, e Bailley (2004). Na verdade, estes
autores referem que a sua tipologia, associada à definição da psicopatia,
corresponde ao mesmo tipo de dados obtidos por Hare (1991), apesar de não
considerarem o conceito de psicopatia como unidimensional. Contudo, Hare (1980,
1991) não aceita esta divisão dos psicopatas em dois tipos de indivíduos, já
que os seus estudos são reveladores dos vários critérios/dimensões que definem
a desordem e não de tipos diferentes de perfis a ela associados.
Hare (1970) caracterizou o psicopata como alguém incapaz de mostrar empatia ou
preocupação genuína por outrem, que manipula e usa os outros para satisfazer os
seus próprios desejos. Estes indivíduos, segundo este autor, apresentam ainda
uma sinceridade superficial, que os torna capazes de convencer aqueles que usou
e a quem prejudicou, da sua inocência ou da sua motivação para mudar.
O trabalho desenvolvido por Hare (1991) apresenta claramente a influência dos
estudos de Cleckley (1941/1976) e de McCord e McCord (1964). Assim, para este
autor, a psicopatia é definida como um constructo unidimensional composto por
dois factores correlacionados (Hare, 1980, 1991; Harpur, Hasktian, & Hare,
1988; Hart, Hare, & Harpur, 1992): um dos factores está associado aos
aspectos clínicos (interpessoais e afectivos) que definem esta perturbação da
personalidade e o outro mais associado aos aspectos comportamentais que definem
o termo de estilo de vida anti-social. Hare apresenta uma definição de
psicopatia que engloba um conjunto de traços de personalidade e comportamentos
socialmente desviantes, devendo os indivíduos apresentar características dos
dois tipos de indicadores para serem classificados como psicopatas. Este modelo
de dois factores torna-se, na última década, o dominante no que se refere à
definição de psicopatia (Skeem, Mulvey, & Grisso, 2003).
Na sequência do trabalho desenvolvido por Hare (1980, 1991) e Hart, Cox, e Hare
(1995), e numa tentativa de estudar a replicação deste constructo de dois
factores em termos transculturais, foram desenvolvidas investigações que
defendem que o conceito de psicopatia deve ser definido não por dois mas por
três factores (cf. Cooke, 1997, 1998; Cooke & Michie, 2001): o primeiro
factor foi definido por estilo interpessoal arrogante e dissimulado; o segundo
factor corresponde a uma deficiente experienciação dos afectos; e o terceiro
factor foi definido por estilo de comportamento impulsivo e irresponsável.
Nesta perspectiva, a definição de psicopatia integra três facetas distintas,
uma relativa a aspectos de natureza interpessoal, outra relativa a aspectos
afectivos e outra que considera indicadores de natureza comportamental
(Cleckley, 1941/1976; Cooke & Michie, 2001; Hare, 1991). Tal como é
referido por Cooke e Michie (2001), para definir psicopatia é importante
considerar o contributo dos três indicadores, que possuem igual peso na
caracterização do constructo.
A proposta de definição do conceito de psicopatia a partir de um modelo de três
factores, em substituição do modelo de dois factores de Hare (1991), introduz
um debate em torno do papel do comportamento anti-social na caracterização do
constructo psicopatia. Na verdade, o papel do comportamento anti-social,
definido como um sintoma no modelo bi-factorial de Hare (1991), é apresentado
como uma consequência da psicopatia nos resultados obtidos pelos trabalhos de
Cooke e Michie (2001) e Cooke, Michie, Hart, e Clark (2004). A forte relação
estabelecida entre psicopatia e a variável comportamento anti-social surgiu da
associação que existe entre esta perturbação da personalidade e a criminalidade
e a violência típica das amostras estudadas (Hare, Cooke, & Hart, 1999,
citados por Cooke, Michie, Hart, & Clark, 2004; Hart & Hare, 1997,
citados por Cooke, Michie, Hart, & Clark, 2004). Esta relação, tal como já
foi referido, surge relacionada com a psicopatia, não apenas no modelo de Hare
(1991), mas também nos critérios de diagnóstico apresentados pelos diferentes
sistemas nosológicos. Contudo, a natureza da associação entre psicopatia e
comportamento anti-social não é clara (Cooke, Michie, Hart, & Clark, 2004;
Cooke, Michie, & Hart, 2006).
Assim, a diferença apresentada pelo modelo dos três factores de Cooke e Michie
(2001), não está relacionada apenas com a subdivisão em duas partes do Factor 1
do modelo de Hare (1991), que integra os aspectos clínicos da perturbação e que
separa os indicadores inter-pessoais dos afectivos. A principal discussão
centra-se na eliminação dos indicadores relativos aos comportamentos anti-
sociais, mantendo apenas os aspectos comportamentais relativos à impulsividade
e irresponsabilidade. Esta posição é igualmente defendida por autores como
Lilienfeld, Purcell, e Jones-Alexander (1997, citado por Soeiro, 2006), que
partindo dos aspectos definidos por Cleckley (1941/1976), consideram que o
comportamento antisocial não é necessário nem suficiente para o diagnóstico da
psicopatia. Deste modo, estes autores consideram que esta definição, centrada
nos dois factores de Hare (1991), se encontra contaminada por factores não
específicos relativos ao comportamento desviante e anti-social.
Como resposta a esta posição apresentada por Cooke e Michie (2001) e ao modelo
de três factores para definir o conceito de psicopatia, Hare (2003) apresenta
um novo modelo de quatro factores com a mesma finalidade de caracterização da
psicopatia. Assim, Hare (2003) apresenta uma nova proposta relativamente aos
sintomas de psicopatia e que engloba os três factores apresentados por Cooke e
Michie (2001) e um quarto factor que considera os indicadores relativos ao
comportamento anti-social. A análise dos indicadores que definem o conceito de
psicopatia segundo esta estrutura de quatro factores é aprofundada e confirmada
em Hare e Neuman (2006), ao serem comparados os indicadores que caracterizam os
instrumentos criados para a avaliação da psicopatia a partir da Psychopathy
Checklist-Revised (PCL-R - Hare, 1991).
Cooke, Michie, Hart, e Clark (2004) estudam a adequação de cada um dos modelos
referidos anteriormente e defendem que os indicadores relativos ao
comportamento anti-social não podem ser considerados como uma manifestação
directa da perturbação psicopatia, para amostras com características culturais
distintas. Na verdade, não confirmam a adequação do modelo de Hare (2003)
relativamente à introdução de um quarto factor que integra os indicadores
relativos ao comportamento anti-social e desviante.
Considerar o comportamento anti-social como um sintoma, implica integrá-lo como
um indicador importante para a avaliação e diagnóstico da psicopatia. Os dados
empíricos obtidos por Cooke e Michie (2001) e Cooke, Michie, Hart, e Clark
(2004) na análise das qualidades psico-métricas de um dos instrumentos mais
utilizados para a avaliação da psicopatia, a PCL-R (Hare, 1991, 2003) e a sua
versão reduzida PCL:SV (Hart, Cox, & Hare, 1995) permitem, contudo, aceitar
a possibilidade do comportamento anti-social ser considerado como uma
consequência da psicopatia.
Mas, para além dos indicadores empíricos, Cooke, Michie, Hart, e Clark (2004)
referem ainda quatro argumentos de natureza teórica na defesa da
"hipótese de consequência", quando se considera o papel dos
indicadores relativos ao comportamento anti-social, na definição do conceito de
psicopatia.
Em primeiro lugar, estes autores defendem que as definições clínicas mais
clássicas de psicopatia (Cleckley, 1941/1976; Karpman, 1961, citado por
Gonçalves, 2000; McCord & McCord, 1964) não definem o comportamento anti-
social como um sintoma central na caracterização da perturbação. Este aspecto é
reforçado por Schneider (1950/1958, citado por Gonçalves, 1999b) e por Cleckely
(1941/1976) que consideraram a possibilidade de que muitos indivíduos com
psicopatia não apresentam história de comportamento anti-social, tendo
Scnheider afirmado que o comportamento anti-social deve ser considerado como
secundário para a definição desta perturbação da personalidade. Esta mesma
posição foi apresentada por Lykken (1995) ao considerar que, apesar dos
psicopatas apresentarem risco elevado para se envolver em actos criminosos, nem
todos sucumbem a este risco.
Em segundo lugar, Cooke, Michie, Hart, e Clark (2004) defendem que existem
indicadores de que determinados sintomas da psicopatia são a causa da exibição
de condutas anti-sociais: os sintomas interpessoais como grandiosidade,
implicam os psicopatas em actos criminosos sádicos, motivados por desejos de
controlo; limitações afectivas como a ausência de empatiae a ansiedaderesultam
numa dificuldade em inibir os pensamentos violentos; a impulsividade,por sua
vez, surge associada ao cometimento de actos criminosos sem que o sujeito tenha
presente a consequências associadas a este tipo de actos (e.g., Blackburn,
1993; Blackburn & Coid, 1998)
Cooke, Michie, Hart, e Clark (2004) referem como terceiro ponto fundamental a
análise dos aspectos qualitativos que definem o comportamento anti-social, e
que se distinguem dos sintomas da psicopatia. Na verdade, enquanto o
comportamento anti-social está relacionado com actos, os restantes sintomas da
psicopatia relacionamse com traços de personalidade. Blackburn (1987) defendeu
que um diagnóstico baseado em actos e traços da personalidade é feito
recorrendo a critérios que integram domínios conceptuais distintos. A mesma
posição é apresentada por Widiger e Lynam (1998) e Lilienfeld (1994).
O quarto aspecto de natureza conceptual sugere que o comportamento anti-social
resulta da influência de um conjunto variado de factores de natureza biológica,
psicológica e social. Na verdade, no estudo do comportamento criminal, indica
que a psicopatia é apenas uma das causas, podendo encontrar-se igualmente como
fonte de causalidade as desordens psicóticas, o atraso mental, uso e
dependência de substâncias ou outras perturbações da personalidade (Cooke,
Michie, Hart, & Clark, 2004).
Perante este conjunto de dados conceptuais e empíricos, a definição do conceito
de psicopatia necessita, segundo a perspectiva de Cooke et al. (2004) e Cooke,
Michie, e Hart (2006) de uma redefinição que deve considerar os factores do
comportamento desviante e anti-social como consequência da psicopatia e não
como um sintoma desta desordem da personalidade. A definição de psicopatia
deve, segundo esta perspectiva, eliminar os critérios que se encontram
relacionados com o comportamento desviante e anti-social.
Nesta perspectiva Cook, Hart, Logan, e Michie (2004) apresentam uma nova
proposta no que se refere à identificação de domínios que definem e permitem
avaliar a psicopatia. A avaliação compreensiva da personalidade psicopática
(Comprehensive Assessment of Psychopathic Personality - CAPP) corresponde
a um modelo que define a psicopatia em cinco domínios: (1) Domínio da
vinculação, que avalia as dificuldades do psicopata em estabelecer relações
interpessoais; (2) Domínio comportamental, que analisa os problemas relativos
ao planeamento e cumprimento das tarefas e responsabilidades; (3) Domínio
cognitivo, que reflecte os problemas com a adaptabilidade e flexibilidade
mentais; (4) Domínio da dominância, relacionado com questões de gestão do poder
e controlo; (5) Domínio do Self, que define problemas relacionados com a
identidade e individualidade do psicopata.
O CAPP pretende diferenciar os domínios ou áreas da psicopatia dos seus
sintomas, procurando elaborar um instrumento de avaliação que seja
discriminatório em termos de diagnóstico da psicopatia.
Esta separação entre os aspectos da personalidade e os critérios relativos ao
comportamento anti-social podem facilitar, em termos teóricos, o estudo da
relação entre a psicopatia e o comportamento desviante e, em termos práticos, a
clarificação dos critérios de avaliação facilitam a decisão a ser tomada
relativamente à classificação, avaliação de risco de violência e tratamento dos
indivíduos em contexto clínico/ /forense (Soeiro, 2006).
O "ESTADO DE ARTE" DO CONCEITO DE PSICOPATIA
Após a análise dos aspectos relacionados com a definição de psicopatia,
verifica-se que são diversas as influências que se encontram associadas à sua
caracterização e que, por isso, originaram várias definições do constructo.
Apesar desta diversidade, observa-se, no entanto, uma evolução relativamente ao
consenso sobre os indicadores deste constructo (Gonçalves, 2000; Soeiro, 2006).
Como forma de sistematização, Blackburn (1992) identifica três formas distintas
de utilização do conceito de psicopatia, na literatura. Uma que se relaciona
com a ideia de desvio/deterioração, pessoal ou psicológica, em relação à
normalidade, baseada na tradição de Schneider e reconhecida na ICD-10 (World
Health Organization, 1987, citado por Gonçalves, 1999b). A segunda define o
conceito como um desvio/deterioração social, apresentando o comportamento
desviante e anti-social um lugar de destaque na explicação da perturbação. Esta
influência está presente na DSM-IV-TR (American Psychiatric Association, 2002).
A terceira perspectiva de psicopatia é definida por Blackburn como híbrida, já
que conjuga os aspectos da deterioração da personalidade, enquanto desvio
social, com os critérios clínicos associados à perturbação. Os autores que
melhor exemplificam esta concepção são Cleckley (1951/1976) e mais recentemente
Hare (1991, 2003).
Segundo Gonçalves (1999a) as definições de psicopatia podem ser agrupadas em
quatro abordagens distintas: as concepções tipológicas, dimensionais,
categoriais e clínicas. Para este autor, os trabalhos desenvolvidos por Hare
inserem-se na abordagem dimensional, apesar de salientar a forte influência de
autores oriundos da vertente clínica.
De uma forma geral, e como resultado do que até aqui foi exposto, pode
considerar-se que o conceito de psicopatia pode ser definido por um conjunto de
características ou traços de personalidade (Cleckley, 1951/1976; Hare, 1991,
2003) que podem estar presentes em indivíduos com ou sem história de anti-
socialidade e que surgem desde a infância, piorando na adolescência e
persistindo na fase da adultez (Gonçalves, 2000). Deste modo, define-se aqui o
contorno de uma perturbação da personalidade, salvaguardando-se os aspectos
relacionados com o papel do comportamento anti-social como sintoma ou como
consequência desta perturbação (Soeiro, 2006).
Quanto à articulação, quando se considera o conceito de psicopatia, entre uma
abordagem dimensional (e.g., Hare, 1991, 2003) e uma abordagem tipológica
(e.g., Blackburn, 1971, 1984, 1986) os dados relativos aos estudos sobre a
psicopatia primária e secundária parecem indicar que esta abordagem apresenta
um contributo importante para a compreensão do fenómeno. Para alguns autores
(cf. Gonçalves, 1999a,b), estas duas abordagens podem mesmo ser vistas como
conciliáveis, principalmente quando se considera o estudo de populações com
história criminal.
DISCUSSÃO
De um modo geral, pode considerar-se que existem várias definições de
psicopatia. A sua utilização é influenciada por vários aspectos como sejam, o
país, a legislação e a tradição científica.
Um dos aspectos interessantes que ressaltam da análise da área de estudo da
psicopatia, quer em termos teóricos, quer práticos, é o grande impacto, nas
últimas décadas, que o trabalho desenvolvido por Hare (1991) possibilitou na
realização concertada de investigações em diferentes contextos (forense,
clínico-forense e clínico) e em diferentes realidades culturais.
Esta diversidade de estudos permitiu analisar quais os indicadores que melhor
definem esta perturbação da personalidade, possibilitando o desenvolvimento de
uma forte relação entre os aspectos empíricos relacionados com a avaliação dos
indicadores de psicopatia e os aspectos conceptuais, relacionados com a
definição do constructo. A revisão do modelo e do respectivo instrumento que o
originou, pode então levar a alterações na vertente teórica do constructo,
demonstrando a importância da articulação que pode ser estabelecida entre a
prática e a teoria.
Do ponto de vista teórico, considerando os aspectos referidos ao longo deste
artigo, ficam por analisar dois problemas fundamentais no estudo da psicopatia:
um, é se o conceito de psicopatia deve ser definido de uma forma categorial ou
dimensional; e outro é se existem dois tipos de psicopatas - primários e
secundários.
Quanto ao estudo da relação entre uma abordagem categorial, centrada num
conjunto de critérios que definem a desordem (e.g., DSM-IV-TR; APA, 2002) e a
dimensional, que considera os atributos clínicos específicos da psicopatia, os
resultados das investigações, parecem mostrar que não faz sentido reduzir esta
perturbação a aspectos relativos ao estilo comportamental, tal como é
apresentado pela abordagem categorial.
No contexto da discussão relativa à existência de uma divisão entre psicopatas
primários e secundários, autores como Hare não consideram os segundos como
psicopatas verdadeiros. No entanto, alguns dos estudos mencionados (e.g.,
Lykken 1995; Blackburn & Coid, 1998) mostram que esta distinção faz sentido
(cf. Soeiro, 2006).
Cook, Hart, Logan, e Michie (2004) defendem que um modelo de 5 factores se
encontra mais próximo do trabalho desenvolvido por Cleckley (1941/1976) e por
McCord e McCord (1964), já que ao centrar a definição de psicopatia em
indicadores específicos relativos à personalidade, permite afastar o impacto de
índices não específicos relativos ao comportamento anti-social e colocar de
forma mais firme o conceito de psicopatia, no domínio das perturbações da
personalidade. A contra proposta de Hare (2003) e Hare e Neumann (2006), com a
apresentação de uma estrutura de quatro factores, insere-se claramente na
problemática da definição de qual o papel do comportamento anti-social na
explicação do conceito de psicopatia, definindo esta variável como um sintoma
de psicopatia. Assim, a questão persiste: o seu papel será de sintoma ou de
consequência da perturbação? Esta é uma questão importante, para esta área de
estudo e para a compreensão do comportamento criminal, que merece uma análise
mais detalhada em investigações futuras.